Da Espanha para mundo: as duas jovens dando novos ares para as paradas locais

Captura de Tela 2019-12-18 às 01.18.38

Nos últimos anos, a cena musical espanhola está borbulhante. A ascensão de Rosalia, hoje uma das estrelas mais celebradas a nível global, é um reflexo disso. Mas enquanto o mundo está hipnotizado com a estrela do pop flamenco, um novo nome emerge e empolga a Peninsula Ibérica: Bad Gyal. Será ela a próxima a conquistar o planeta? E como essas duas jovens catalãs viraram dois dos nomes mais empolgantes do mundo da música?

Captura de Tela 2019-12-18 às 01.19.20

Pontos de conversão

Bad Gyal e Rosalia tem algumas semelhanças. Para começar, foi a reinterpretação delas de gêneros não tão presentes no panorama pop atual da Espanha — o dancehall e o flamenco respectivamente — que fez com que se destacassem em um universo pop mainstream totalmente dominado pelo reggaeton latino-americano.

Além disso, ambas adotaram um visual kitschy, misturando referências de streetwear com acessórios e unhas postiças coloridas e chamativas. A origem delas também é a mesma: Barcelona, na Catalunha. As duas ainda fazem parte da panelinha Canada, a produtora audiovisual mais cool da Espanha. O grupo não só foi responsável por criar todos os influentes vídeos do álbum que catapultou Rosalia ao estrelato, El Mal Querer, como o seu setor de edição musical é responsável pela carreira de Bad Gyal. El Guincho, o fiel produtor de Rosalia, também é um artista Canada e também colabora ocasionalmente com a estrela do dancehall. Mas apesar de todos esses pontos de coincidência, elas tem ainda mais diferenças.

A sensação neo-flamenco

Captura de Tela 2019-12-17 às 20.58.52
Rosalia: a sensação flamenco-pop.

Rosalia é um prodígio musical preparado para o estrelato desde o primeiro momento. Sua ambição sempre foi ser a maior. Ela estudou na prestigiosa Escola Superior de Música da Catalunha, onde se especializou em flamenco. Teve aula com Chiqui de la Linea, que aceita apenas um aluno por ano. Antes de se formar, já era um nome estabelecido na indústria a nível local: ela colaborou com a companhia de teatro mais prestigiosa de sua região, La Furia del Bauls; se apresentou no tradicional Festival Griec de Barcelona; colaborou com vários músicos famosos e viajou o mundo mostrando seu trabalho, indo de Singapura ao Panamá. No meio de tantos compromissos profissionais, ainda teve tempo de conhecer um jovem artista tão ambicioso quanto ela, C. Tangana, e emplacar um namoro.

Esse relacionamento foi o que levou ambos a outro patamar. C. Tangana era um rapper jovem de Madrid que se promovia fortemente nas redes sociais e já tinha um certo following. No começo do verão de 2016, ele se juntou com sua namorada para o single “Antes de Morirme”, lançado independentemente. Foi um sucesso estrondoso e C. Tangana rapidamente se confirmou como um dos nomes mais badalados da indústria. Rosalia, que se destacou com seu vocal marcante, também assinou com uma grande gravadora.

Na Universal Music, a jovem se juntou com o músico Raul Refree para seu primeiro álbum, Los Angeles, com um flamenco mais tradicional e muito violão. Foi muito bem recebido pela crítica e obteve bons resultados. Mas a garota queria mais: ela queria o pop stardom. E, em busca disso, foi para a Sony Music. Foi ali que as peças começaram a se encaixar. C. Tangana, que àquela altura já era um artista estabelecido e com grande repercussão, participou da composição (eles encerrariam a parceria, tanto afetiva quanto profissional, logo após a finalização do álbum). El Guincho virou o seu produtor fiel. E a empresa audiovisual CANADA foi recrutada para criar os visuais que a transformariam na artista mais comentada da Espanha.

No dia 25 de maio de 2018, a Rosalia flamenco pop fazia seu debut oficial com “Brillo”, um feat no álbum da maior estrela latina do momento, o colombiano J Balvin. A canção já causou um burburinho grande na Espanha mas nada comparado com a sensação causada por “Malamente”, lançado 5 dias mais tarde como o primeiro single do seu novo projeto.

rosalia
Rosalia atrai uma multidão para o show de lançamento de El Mal Querer na Plaza de Colón em Madrid

Com um clipe que fazia uma releitura urbana de vários dos símbolos mais tradicionais da cultura espanhola e um som que mesclava pop com flamenco, “Malamente” transformou Rosalia em um dos maiores nomes da indústria local quase que de imediato. Ao longo do verão, ela foi uma das artistas mais badaladas nos festivais de música do país. Em novembro, o álbum El Mal Querer foi lançado com uma campanha de marketing pesadíssima, que incluiu um show gratuito para 11 mil pessoas na tradicional Plaza de Colón de Madrid.

A cantora estava literalmente em todas as partes e não tinha instituição espanhola ou internacional que não queria um pouco da sua mágica. Ela tinha uma coleção em colaboração com a gigante Inditex (grupo dono da Zara), vendida na Pull & Bear. Foi escolhida por Pedro Almodovar para participar, ao lado de Penelope Cruz, de seu novo filme, “Dor e Gloria”. Quando Tim Cook, o CEO da Apple, visitou a Espanha para apresentar o home pod da empresa, Rosalia foi a artista que o acompanhou (ele era um fã). Na grandiosa premiação internacional da MTV, o Europe Music Awards, que aconteceu em Bilbao naquele ano, Rosalia foi a artista estrela. De Dua Lipa as Kardashian a Alejandro Sanz, todo mundo se dizia fã número 1 da cantora.

Da padaria ao estrelato

badgyal
Bad Gyal: trazendo o dancehall para o mainstream na Espanha

Enquanto Rosalia dominava o mundo através de um caminho mais tradicional, Bad Gyal, cujo nome de batismo é Alba Farelo, traçava sua trajetória de maneira mais roots. Nascida e criada num pequenino município litorâneo chamado Vilasar de Mar, ela, como todas as adolescentes locais, tinha como trilha sonora da vida o reggaeton. “Na minha cidade nem tinha boate. A gente ia para a cidade vizinha para dançar. E claro, tudo que tocava era reggaeton”, disse ela para a Pitchfork.

Aos 15 anos, descobriu o Spotify, começou a explorar a plataforma e acabou totalmente apaixonada por nomes do dancehall como Vybz Kartel, T.O.K. e Popcaan. “Eu pensei ‘o que diabos é isso?’. Parecia um pouco reggaeton mas não era!”.

Logo, Alba — criada numa família de artistas (seu pai é um dublador famoso) — queria ela mesmo fazer esse tipo de música. Fez contatos, começou a colaborar com produtores e, no começo de 2016, aos 19 anos, lançou uma versão em catalão de “Work” da Rihanna. O resultado, “Pai”, sobre ganhar dinheiro e ficar chapada, viralizou. Impulsionada pelo sucesso, largou sua faculdade de moda, seu emprego na padaria do bairro e se mudou para o centro de Barcelona.

Enquanto o dancehall era um estilo pouco representado na Espanha, o trap local era um nicho em emergência. E foi por esse circulo que Bad Gyal foi abraçada, ajudando a introduzir nele elementos de dancehall. Enquanto Rosalia teve formação técnica e até se especializou em flamenco na Escola Superior de Música, Bad Gyal não é tão caxias em relação ao gênero que a inspira. “Eu não sou trap! E apesar de eu ouvir e amar dancehall e de ser influenciada pelo estilo, eu também sou influenciada por coisas aqui da Espanha que não tem na Jamaica então meu estilo é uma coisa única”, disse ela em uma entrevista.

Em seus primeiros lançamentos, optou por seguir cantando em catalão. Mas apesar da boa repercussão, logo mudou para o espanhol. No fim de 2016 lançou seu primeiro EP, Slow Wine. Dele, vieram 2 singles: “Mercadona” e “Fiebre”. O segundo, em particular, foi um hit grande.

Um ano mais tarde, Bad Gyal já era uma queridinha da cena alternativa. O sucesso de “Fiebre” a colocou muito em evidência na Espanha e veículos anglo-saxões extremamente influentes, como o Pitchfork, The Guardian e o VICE, fizeram artigos a destacando. Ela fez uma turnê internacional que passou por vários países europeus e também pelos EUA. Também fez sua estréia no importante festival SONAR em Barcelona (um anos antes de Rosalia). Ofertas de grandes gravadoras vieram aos montes.

Mas Bad Gyal não estava a fim de se vender para o sistema. Ela queria fazer as coisas à sua maneira. Seus clipes tinham cara de vídeos caseiros. Seu figurino — chamativo, sexy e divertido — ela mesmo comprava. Ela dava entrevistas enquanto fumava maconha e era a chefe da sua própria equipe e a própria empresária (a mãe ajudava na parte financeira), se autodenominando de “el coño que manda” (a buceta que comanda). Ela, porém, assinou com a produtora e editora musical CANADA, que a colocou em contato com produtores renomados e aumentou o orçamento dos seus vídeos.

badgyal
Bad Gyal causa furor no festival Sonar de 2019.

Se em 2017 Bad Gyal tinha um cachê de 400 euros, no começo de 2018, apenas para uma sessão como DJ, ela estava cobrando 1000 de acordo com um promotor entrevistado pelo portal espanhol El Confidencial. Para um show completo, o valor variava de 8 mil para 10 mil euros.

Naquele ano, lançou Worldwide Angel, o seu segundo mixtape (“Achava que era um álbum mas me disseram que era uma mixtape. Não tenho a menor idéia da diferença entre os 2″, contou Alba para o El País). Ela cantou no SXSW no Texas, fez uma turnê asiática (parando por Tokyo, Shanghai e Hong Kong) e, em sua Espanha natal, continuou se fortalecendo. A explosão de Rosalia, que chegava a um novo nível com El Mal Querer, criou ainda mais apetite por cantoras inovadoras e, de certa maneira, Bad Gyal também se beneficiou desse boom.

Ying e yang

À essa altura, já estava claro que cada uma tinha sua identidade. Rosalia era uma artista mega profissional. Seu estilo era impecável e seus looks tinham conceitos elaborados. Não era difícil imaginar que, por detrás daquele ar de super estrela, tinha um stylist profissional. Bad Gyal não ficava atrás e também se consolidava como ícone fashion. Mas ela parecia se vestir sozinha, garimpando peças de brechós, dando toques de grifes e misturando tudo com fast fashion. O resultado era extremamente ousado mas ela podia ser aquela sua amiga fashion sem muito pudor e com desejo de se destacar.

Captura de Tela 2019-12-17 às 23.51.15
Rosalia e Bad Gyal: unidas na ambição

Os vocais de Rosalia eram dramáticos e imponentes. Suas letras, cheias de referência, compartilhavam dessas mesmas características e tinham um ar literário. Já Bad Gyal, seguindo a tradição do dancehall, tinha vocais totalmente modificados com autotune e uma habilidade de escrever letras pegajosas e totalmente despretensiosas, cheias de gírias e neologismos e que poderiam ser páginas do diário de uma garota cool festeira cheia de confiança.

Mas as 2 dividiam um importante traço: a ambição.

Com altura: o céu é o limite

No ano passado, Rosalia se confirmou como uma das artistas mais promissoras a nível mundial. Com El Mal Querer, virou um super nome na Espanha, uma queridinha das cool kids no mundo todo e uma figura amada pela crítica. Para 2019, porém, queria ir mais longe: o estrelato mundial. E qual melhor maneira para isso do que dar o braço a torcer para o reggaeton?

Junto com seu fiel produtor, El Guincho, ela recrutou J Balvin para “Con Altura”, o primeiro single do seu segundo álbum (ainda sem data de lançamento). O resultado foi um estrondoso sucesso global. Foi o maior hit que obteve na Espanha e a primeira música dela a alcançar o mainstream na América Latina. O vídeo ultrapassou 1 bilhão de views no YouTube, mais do qualquer outro lançamento de uma artista do sexo feminino em 2019. O “~La Rosalia~” entoado por ela virou a auto-referência mais icônica da música latina desde o “Shakira, Shakira” de “Hips Don’t Lie” faz mais de uma década.

Até o momento, a estratégia da cantora parece ser intercalar reggaetons gravados ao lado de grandes estrelas do gênero — “Yo x Ti, Tu x Mi” com Ozuna seguiu o smash com Balvin — com lançamentos mais conceituais, como “Aute Cuture”, “A Pale” e “Millionario” (essa última cantada toda em catalão).

Tem dado certo e ela tem feito vôos cada vez mais mais altos. Em 2019, se apresentou em todos os principais festivais do mundo, como o Coachella na California; o Glastonbury, no Reino Unido e os Lollapalooza de Chicago, Buenos Aires e Santiago. Foi escolhida a dedo por Jay-Z para fazer parte do line-up do seu festival, Made In America. No Grammy Latino, levou todas as principais estatuetas. Para o fim do ano, anunciou shows nas duas principais arenas da Espanha, a WiZink Center em Madrid e o tradicional Palau Sant Jordi em Barcelona. Os mais de 30 mil ingressos disponíveis acabaram em menos de 10 minutos. As datas extras esgotaram quase tão rápido quanto.

rosalia
Madre mia Rosalia, bajale! A cantora ganha todas as principais estatuetas no Grammy Latino

Enquanto Rosalia seguia a dominação global, Bad Gyal abriu um novo capitulo de sua história. Depois de fincar seu espaço no mercado, Alba finalmente assinou contrato com uma grande gravadora após 3 anos analisando propostas. A escolhida foi a Interscope. A artista fez questão de assinar com o selo da Universal Musical dos EUA e não com nenhuma filial espanhola (“aqui na Espanha não entendem nada de dancehall”). Em entrevista com a Vogue local, ressaltou que a negociação foi longuíssima: ela queria continuar tendo total liberdade e queria gerenciar seu trabalho da forma mais próxima possível a de como ela fazia quando independente.

“Mas não é tudo perfeito. A partir do momento que assinei o contrato, a música deixa de ser minha. Os masters agora pertencem a gravadora”, dividiu ela com sua habitual honestidade para El Mundo. “Eles não estão me dando um cheque em branco que soluciona minha vida. É um empréstimo que eu vou ter que devolver e, se não devolver, eles vão lá e pegam minha casa”.

Bad Gyal goes mainstream

De qualquer maneira, ter o backing de uma grande gravadora foi o empurrãozinho que Bad Gyal precisava para conquistar seu espaço entre os maiores. Em julho, lançou seu primeiro single da nova fase, “Santa Maria”. A música tinha a participação do artista jamaicano Busy Signal e um refrão ousado bem ao estilo da artista: “Él me llama santa Maria/Porque mi coño está apretao’ como el primer día” (“ele me chama de santa Maria/Porque minha boceta está tão apertada como no primeiro dia”). O público aprovou: a música estreou diretamente no top 15 do Spotify espanhol, um resultado espetacular para quem nunca tinha sequer figurado no top 100. Ela parecia estar cada dia mais perto do sucesso mainstream.

No começo de outubro, Bad Gyal anunciou uma turnê pela Espanha para o começo de 2020. Ainda se firmando, a artista optou por locais pequenos, entre 1000 e 2000 lugares. Os mais de 9 mil ingressos disponíveis para as 8 datas esgotaram-se em uma semana, com um segundo show sendo adicionado em quase todas as cidades. No mesmo dia, a turnê, que começaria apenas em março do ano seguinte, já estava sem ingressos.

Poucos dias depois, a artista lançou um novo single, “Alocao”, uma colaboração com Omar Montes. Montes era um cantor urbano que misturava flamenco com reggaeton, e que virou um nome mainstream depois de emplacar um namoro midiático. Daí, virou uma popular figura televisiva, participando do Big Brother de famosos e do Supervivientes (versão de Survivor local, também só com celebridades), na qual foi coroado o ganhador e levou 200 mil euros para casa. Nas paradas, ele estava tendo bons resultados com o um remix de “La Rubia”, do dominicano La Nueva Escuela que, durante o verão, tinha alcançado o top 5 e tinha provado que ele era um artista viável na indústria fonográfica.

A expectativa é que a música fizesse sucesso. Mais ela foi muito além: estreou direto no topo e, em seu oitavo dia, quebrou o recorde histórico de streams diários do Spotify Espanha. Para isso, o single obteve mais de 883 mil plays, superando os números obtidos por hits como “Con Altura” e “Despacito”. Bad Gyal era oficialmente mainstream.

Polêmicas e verdades

Apesar dos números espetaculares, nada mudou para Bad Gyal. Ela continuou dando entrevistas enquanto fuma baseados e falando, sem filtros, do que lhe der na telha. Os números agora eram de A-list mas o jeito de encarar a fama seguia sendo de artista independente.

Rosalia, por sua vez, fez o press training completo. De certa maneira, ela virou a representante de seu país. De Almodovar a Inditex ao Alejandro Sanz, todas as instituições espanholas parecem depositar suas esperanças nela. Em seu show em Madrid na primeira semana de dezembro, o Ministro da Cultura foi prestigiá-la e foi até ao camarim agradecer tudo que ela tem feito pela nação.

rosalia
Friends in high place: Rosalia tira selfie com Tim Cook, CEO da Apple.

Sendo assim, a cantora é alérgica a polêmicas. Mas é óbvio que elas são inevitáveis. A começar pelas críticas de apropriação cultural. Rosalia é branca e da rica região da Catalunha. Nas suas músicas, porém, adota um sotaque e expressões mais típicas da Andaluzia, ao sul do país, onde o flamenco reina, além de pegar muito emprestado da cultura romani (cigana). Ativistas romani do sul (uma etnia bastante marginalizada no país) protestaram e a cantora não reagiu bem, o que fez com que ela perdesse pontos com a parcela mais consciente do público. No grande esquema das coisas, porém, isso não a afetou em nada. Em contrapartida, usar pele animal fez com que ela fosse alvo de muitos ataques nas redes sociais, incluindo tweets com dezenas de milhares de favoritos.

Mas, tirando essas controvérsias, Rosalia sabe se portar de modo que ela possa ser consumida e admirada por todos. Sua vida e trajetória mostram muitos dos contrastes da Espanha moderna: ela é catalã e fala catalão com sua família, vem de uma região onde o movimento separatista está cada dia mais forte e, apesar disso, sua carreira é uma grande celebração das tradições espanholas. Mas, óbvio, esses contrastes são só implícitos: apoiar o separatismo seria incoerente com a sua arte e iria causar revolta na Espanha. Ser contra, entretanto, iria sujar a imagem dela na sua região natal. Por tanto, ela não tem nada para opinar desse assunto e todo mundo — espanhóis, catalães, separatistas, nacionalistas — pode reivindicá-la como uma das suas (contudo, ela irritou alguns nacionalistas quando lançou um single integralmente em catalão. A música, Millionario, atingiu o topo das paradas espanholas apesar disso). 

Durante as eleições desse ano, o partido de extrema-direita VOX — o que mais cresce na Espanha — adotou as músicas de Rosalia para seus comícios. A afiliação ultra-nacionalista, que demoniza imigrantes e que luta por uma Espanha unida, achou a simbologia patriótica da cantora apropriada para a mensagem que eles queriam passar. Só quando o partido foi o terceiro mais votado, elegendo 52 deputados e aumentando em 36% seus votos, que ela se pronunciou. “Fuck vox”, escreveu ela no Twitter no dia seguinte ao voto, obtendo 279 mil likes.

badgyal
A autenticidade de Bad Gyal é uma das características que fazem com que ela se destaque

Bad Gyal é o oposto disso. Sem o peso de representar o país em suas costas nem grande interesse em ser unanimemente aceita, ela fala sobre o que ela quiser. Em relação a independência da Catalunha, por exemplo, ela é contra. “Eu acho que é egoísta”, disse ela ao The Guardian. “Eu entendo que temos questões com nossa lingua e com nossa identidade e as pessoas estão irritadas mas [se separar] não ajuda ninguém. Muitos catalães acham que a gente move mais dinheiro que outras regiões [e por isso querem a separação] mas eu não acho isso justo”. Ela completa: “não dá para dizer que eu sou totalmente espanhola nem totalmente catalã. Eu sou uma mistura dos dois”.

Apesar de não apoiar a secessão, ela é a favor de que aqueles que querem a independência possam protestar em paz. Na semana em que militares reprimiam violentamente protestos tanto na Catalunha quanto no Chile, ela declarou, através do Instagram, apoio a ambos os povos e disse: “a violência do povo por querer manifestar suas idéias nunca pode ser comparada com a violência policial”.

Apropriação cultural é outro tema que assombra Bad Gyal. Uma garota branca europeia virando o rosto do “dancehall”, um estilo negro caribenho, pode fazer com que muitos torçam o nariz. Até o momento, porém, sua fama mais limitada a Espanha, que não tem uma população negra considerável, a poupou de maiores críticas. Mas ela já endereçou o tópico algumas vezes, falando da importância em destacar cantores e produtores jamaicanos que são suas inspirações. “Se eu fizer dreads as pessoas me matam”, comentou ela para um jornalista, se mostrando plenamente ciente do campo minado pelo qual transita.

O contraste entre o approach das duas também fica claro quando a imprensa pergunta sobre cantoras populares reveladas em programas de TV de talento, como Aitana e Lola Indigo, ambas frutos do popular Operación Triunfo e com vários hits nos últimos anos. Rosalia — que inclusive já fez uma (desastrosa) audição em um reality do tipo anos antes da fama — diz que são todas amigas e que as apoia. Bad Gyal optou, como de costume, pela sinceridade.

“Eu adoraria escrever para essas garotas se nos pagassem o que nós merecemos”, disse ela ao El Mundo. “Mas o sucesso delas em nada nos ajuda. São pessoas sem referências, sem critérios, a inspiração delas não é genuína e por isso tudo delas soa tão ruinzinho, como coisas que eram feitas faz cinco anos atrás. O público acaba só sendo exposto a elas e nós [se referindo a ela e outras artistas do trap, como Ms. Nina] que estávamos desde o começo ficamos sem crédito. Lola Indigo está a porra do dia todo na rádio e nós não, quando nós somos diamantes brutos que deveríamos estar compondo para essa gente”.

Essa declaração, claro, foi em maio. Porque, hoje em dia, Bad Gyal já se deu conta que não precisa de meios tradicionais como rádio para bombar e, depois da explosão de “Alocao”, ela provou que veio para ficar: os jovens espanhóis estão totalmente hipnotizados. Seu novo single solo, “Zorra”, estreou diretamente em terceiro lugar, antes de subir para o segundo na parada diária do Spotify. Os números que ela está obtendo são de artistas de primeiro escalão: os 360 mil plays no primeiro dia são equivalentes as estréias das músicas solo de Rosalia.

Um passo de cada vez

Enquanto Alba conquista a Espanha, Rosalia segue conquistando o planeta. Ao longo da última semana, encontrou com, Kylie Jenner, para tomar mimosas em Los Angeles. A irmã mais nova das Kardashians — inquestionavelmente uma das celebridades mais influentes do mundo e um monstro das redes sociais — postou uma foto das 2, que recebeu quase 6 milhões de likes. Graças a isso, a cantora ganhou 200 mil seguidores em 2 dias e a foto que ela postou com Jenner também ultrapassou as 2 milhões de curtidas.

rosaliakylie
Rosalia toma drinks com sua fã, Kylie Jenner.

Poucos dias antes, o maior sex symbol da atual geração, o ex-One Direction Harry Styles, lançou seu aguardado novo vídeo para a música “Adore You”. Quem narrava a introdução do clipe? Claro, la Rosalia. Como se isso tudo não fosse o suficiente, a artista ainda gravou uma colaboração com Billie Eilish, inquestionavelmente a maior cantora pop da atualidade nos EUA. Para qualquer um, colaborar com um desses três nomes já mudaria o rumo de sua carreira. Em poucas semanas, a jovem cantora de Barcelona tinha formado laço com todos eles.

Bad Gyal, que tem boa relação com Rosalia, segue fazendo as coisas do seu jeito. Apesar de, em 3 meses, ter se consolidado como uma das maiores do país, ela ainda está sendo descoberta pela indústria. Com uma carreira construída de maneira underground, isso não parece a incomodar em nada. Alba sabe que, fazendo as coisas no seu ritmo, sem se render a pressões externas e ao mercado, tudo se encaminhará. Afinal de contas, independentemente de qualquer coisa, o público é soberano e esse mesmo público já está totalmente rendido a ela.

Na semana que “Alocao” quebrava recordes nas plataformas digitais, o MTV Europe Music Awards voltava a ser sediado na Espanha, mais especificamente em Sevilha. Rosalia, claro, era uma das grandes estrelas da noite. Apesar do #1 nas paradas, Bad Gyal não estava lá. Contudo, isso em nada parecia incomodá-la.

Nos seus stories, ela postou uma foto da TV, por onde assistia a premiação. “Ano que vem com certeza serei convidada”, escreveu ela. 

Causando no Brasil: a trajetória da dominação sertaneja

Na parte anterior, tivemos uma visão geral de como o sertanejo se estabeleceu como o maior gênero do Brasil. Nesse post, vamos fazer uma uma linha do tempo do sertanejo moderno onde entenderemos melhor os passos da dominação.

2007: a volta dos que não foram

Depois do protagonismo no começo dos 90, o boom sertanejo deu uma aquietada e, apesar da enorme popularidade, tinha se tornado um estilo secundário.

Mas, ao longo da primeira década dos 2000, ele estava ganhando nova roupagem — sendo rebatizado de “sertanejo universitário” — e conquistando terreno na capital de São Paulo e outras regiões importantes do país. O maior fenômeno do estilo no século 21 era, ate então, Bruno & Marrone mas outras duplas, como Edson & Hudson e Cesar Menotti & Fabiano, também estavam obtendo ótimos resultados.

Os olhos da indústria, porém, estavam em outros filões. Pagode (Exaltasamba e Sorriso Maroto), música nordestina (como Asa de Águia, Ivete Sangalo, Aviões do Forró e Babado Novo) e brega (Calypso) eram os estilos brasileiros mais em voga, além de fenômenos pré-adolescentes multimídia como RBD e High School Musical. O rock (de bandas que iam de Los Hermanos a Jota Quest, passando por Charlie Brown Jr.) seguia forte e passava por um revival graças ao sucesso de bandas teen como NX Zero, Strike e Fresno. A rádio e os canais de clipe, por sua vez, só tinham olhos para Beyoncé, Akon, Black Eyed Peas e pop internacional.

“Amigo Apaixonado”: um dos hits que ajudou a transformar Victor & Leo nos maiores nomes da indústria fonográfica brasileira

Mas isso estava prestes a mudar: a dupla Victor & Leo se firmava como um fenômeno impossível de ignorar graças ao sucesso de músicas como “Fada” e “Amigo Apaixonado”. Em junho, eles lançam o seu segundo CD com a Sony BMG, Ao Vivo em Uberlândia, que iria consolidá-los como os maiores nomes do Brasil.

O ano de 2007 também foi a grande estréia nacional da dupla que iria ser um divisor de águas na história do sertanejo, Jorge & Mateus. Pela Universal, eles lançaram seu grande debut, Ao Vivo em Goiânia.

Jorge & Mateus já chega fazendo barulho com “Ao Vivo em Goiânia”

Os desenvolvimentos de 2007, porém, nem de longe indicavam a proporção que o fenômeno sertanejo iria tomar.

Continue reading “Causando no Brasil: a trajetória da dominação sertaneja”

Causando no Brasil: como o sertanejo voltou a dominar o país

Ao longo dos últimos anos, o Tá Causando cobriu principalmente a cultura pop internacional. Nas próximas semanas, vamos virar a lente para o Brasil e fazer uma análise do que realmente bomba no país, musicalmente falando. Hoje começamos com o gênero que é, indiscutivelmente, o rei da indústria fonográfica atual: o sertanejo.

Mapa musical da parada brasileira: o sertanejo

O estilo sertanejo foi criado no começo do século 20, quando os bandeirantes paulistas colonizaram o interior do país e a “cultura caipira” começou a se estabelecer.

Amigos: Leandro & Leonardo; Chitãozinho & Xororó e Zezé DiCamargo & Luciano desataram o fenômeno sertanejo

Mas, apesar da música rural ter se espalhado por todo o Brasil nos anos seguintes, o gênero só ganhou força colossal — e começou a ser levado a sério pela indústria — no fim da década de 1980 e no começo da década de 1990. Naquele então, nomes como Chitãozinho & Xororó, Zezé Di Camargo & Luciano e Leandro & Leonardo alcançaram um nível de sucesso quase nunca antes visto na história da música brasileira.

O gênero romântico, com voz gemida e refrões chicletes, explodiu envolto em preconceito mas os números de venda e repercussão popular eram tão gigantescos que foi impossível de ignorar. Em meados dos ’90, as principais duplas se juntaram e criaram um projeto conjunto, o “Amigos”, que virou um especial de fim de ano na Rede Globo, a maior emissora do país, e, em 1999, um programa semanal, conhecido como “Amigos & Amigos”.

Apesar da exposição na Globo, o sertanejo deu uma estagnada a partir do fim dos 90. Tanto que, na virada dos anos 2000, o sertanejo perdeu o espaço fixo nas telas da emissora. Parte disso foi porque a elite cultural — principalmente a do Rio de Janeiro, berço da MPB — nunca abraçou de fato o gênero.

Além disso, a força dos “Amigos” era tanta que monopolizou o mercado e limitou investimentos em novos nomes, algo agravado pelo fato de que ritmos como axé e pagode eram, naquele então, as novidades que prendiam a atenção do público jovem.

Mas, longe do olhar dos formadores de opinião, o sertanejo seguiu se consolidando como o estilo favorito do brasileiro. Na Zona Sul e no Centro do Rio ele permanecia banido mas aquela região era a exceção. Apesar da importância simbólica, essa área era só um fragmento muito microscópico de um país gigantesco.

Dormi na Praça: o maior sucesso sertanejo da primeira década dos 2000

E, no resto do Brasil, a música caipira, que aos poucos ia se modernizando, se firmava cada vez mais como a trilha sonora tanto do trabalhador rural do interior quanto do jovem de elite em São Paulo, frequentador da popular e influente boate Villa Country. Ela foi se infiltrando tanto nas tradicionais festas juninas do Nordeste quanto na vida universitária do Sul.

Mesmo assim, as grandes gravadoras não davam muita bola para o sertanejo. Artistas da primeira leva — Zezé Di Camargo & Luciano, Leonardo, Daniel — seguiam sendo os principais nomes e Bruno & Marrone, que tinham explodido no país inteiro com “Dormi na Praça” na virada dos 2000, eram um dos poucos que conseguiram se firmar em todas as regiões do país desde então.

O novo sertanejo e a dominação iminente

Porém, em 2007, quando Cesar Menotti & Fabiano, uma dupla novata, teve o terceiro CD mais vendido do Brasil , estava claro que havia uma vontade grande por novos nomes. E, no ano seguinte, esse vontade deu origem a um fenômeno que escancarou as portas para o momento imperial do sertanejo.

A dupla em questão, Victor & Leo, teve o álbum Ao Vivo em Uberlândia como o maior do Brasil em 2008. Eles foram os primeiros grandes nomes do novo sertanejo, que tinha clara influência do sertanejo do começo da década anterior mas adotava uma sonoridade mais pop e mais voltada aos ouvidos do século 21. As músicas deles — como “Fada”, “Amigo Apaixonado”, “Tem Que Ser Você” e “Borboletas” — eram as mais pedidas nas rádios de todas as regiões do país e eles foram as atrações estrela em ambientes onde sertanejo era raramente visto, como o festival de rock Planeta Atlântida no Rio Grande do Sul e o Festival de Verão de Salvador.

Fada, um dos sucessos que consolidou Victor & Leo como os maiores nomes do país

O Rio de Janeiro, como de costume, ficou relativamente indiferente em relação aos novos monstros do mercado fonográfico mas, apesar de ter sede na cidade, a Rede Globo já começou a abrir os olhos. Em um momento de crise de audiência, a emissora recorreu ao sertanejo para tentar fortalecer os laços com o Brasil profundo e colocou diversas músicas do estilo na trilha sonora de sua novela das 9, “A Favorita”, ambientada em São Paulo.

Diferente das décadas passadas, onde as principais duplas reinavam por anos e anos a fio, o momento de ápice de Victor & Leo foi relativamente curto e não demorou muito para eles começarem a perder espaço para outros nomes. Mas foi a repercussão alcançada por eles que sacudiu o mercado e alertou para a invasão sertaneja que estava prestes a acontecer.

O nome seguinte a abalar todas as estruturas foi Luan Santana. Com um lançamento independente, o adolescente tinha obtido sucesso no Mato Grosso do Sul, seu estado natal, e no Paraná e tinha chamado atenção de Sorocaba, um artista e produtor influente do gênero. Sob a tutela dele, Luan gravou um CD que deu origem ao enorme hit “Meteoro” que, rapidamente, se alastrou pelo Brasil.

Luan Santana Ao Vivo: o álbum que desatou o fenômeno

Prontamente, a Som Livre, o braço musical da Globo, assinou contrato com o menino. Em novembro de 2009, um CD ao vivo, gravado na frente de 80 mil pessoas em Campo Grande, foi o primeiro lançamento dele com a gravadora. Impulsionado pela promoção intensa nas telas da emissora carioca, que o colocou até mesmo na novela teen “Malhação”, Luan se transformou no maior vendedor de 2010.

O fenômeno Luan Santana foi interessante porque foi o primeiro voltado especificamente para o público juvenil. Apesar do enorme sucesso do gênero no ambiente universitário e na noite jovem de cidades como São Paulo e Belo Horizonte, ainda havia uma percepção (falsa) entre as gravadoras de que o público mais novo tinha resistência ao estilo. O sucesso de Luan provou, de uma vez por todas, o quão intra-geracional o sertanejo era.

Mas enquanto Victor & Leo escancaravam a porta e Luan Santana virava uma sensação midiática, uma dupla até então bem mais low profile iria mudar para sempre o rumo do sertanejo: Jorge & Mateus.

A dupla de Goiás teve seu primeiro CD lançado em 2007 e, mostrando a versatilidade do sertanejo moderno, um dos seus primeiros sucessos foi “Pode Chorar”, um cover de uma música do Aviões do Forró, banda sensação do Nordeste. Mas, apesar de começar bebendo da fonte da música nordestina, Jorge & Mateus iriam rapidamente se firmar como os maiores nomes do sertanejo, revitalizando o gênero no país inteiro e se sustentando no topo da lista dos maiores artistas do país por 10 anos ininterruptos.

A invasão Jorge & Mateus aconteceu sem que a grande mídia percebesse. De fato, eles de vez em nunca apareciam na TV e eu, morador da Zona Sul do Rio de Janeiro, nunca sequer tinha ouvido uma música deles na rádio. Mesmo assim, eles prontamente se tornaram os maiores nomes da música brasileira, comandando o cachê mais alto para shows e sendo capazes de atrair públicos massivos em toda as regiões do país.

“Flor”: um dos sucessos do DVD de Jorge & Mateus gravado em Jurerê, exclusivo litoral de Florianópolis.

O sucesso foi tanto que eles viraram atração essencial em absolutamente todos os grandes eventos ao vivo do Brasil: nas viradas de ano; no Planeta Atlântida no Sul do país; com um bloco próprio e enorme no carnaval de Salvador e também como atração estrela nos camarotes exclusivos de elite que envelopam o percurso Barra-Ondina; em todas as grandiosas festas juninas populares do Nordeste; nos rodeios do interior de São Paulo (eles foram os primeiros artistas a sustentar duas noites consecutivas lotadas no mais tradicional de todos, o Festival de Barretos) e, claro, nos principais espaços de show do Centro-Oeste, Minas e São Paulo capital. Seja em Jurerê, o litoral de Florianópolis considerado o mais elitizado do país, ou no Royal Albert Hall de Londres, show de Jorge & Mateus era sinônimo de muitos ingressos vendidos.

O sucesso da dupla — que começou na Universal Music em 2007, antes de fazer o pulo obrigatório para a poderosa Som Livre em 2012 — e a infinidade de hits que eles produziam ano após ano foi basicamente o que deu o fôlego para o sertanejo se firmar como o gênero número 1 do país e também o que realinhou todo o mercado.

Jorge & Mateus foram um fenômeno tão grande que redefiniram toda a indústria sertaneja

O estilo virou a prioridade de todas as gravadoras. As rádios do país foram totalmente tomadas pelo ritmo (exceto o Rio, que até hoje ainda não tem uma estação sertanejo). E Goiás — o estado de origem de Zezé DiCamargo & Luciano, Leandro & Leonardo e Bruno & Marrone — voltou a ser o epicentro do mundo da música. Afinal de contas, era em Goiânia que ficava a sede da AudioMix, o escritório de Jorge & Mateus que, impulsionado pelo sucesso deles, virou a maior agência de empresariamento artístico do país.

O triunfo da AudioMix fez com que os investidores do Centro-Oeste ficassem ouriçados. E, em 2014, mais uma dupla, Henrique & Juliano, despontou de maneira espetacular, transformando o escritório deles, WorkShow, em um rival de igual porte. Assim, Goiânia — uma cidade fora do eixo Rio-SP — tinha dois dos maiores escritórios artísticos do Brasil.

A chegada de Henrique & Juliano foi meteórica. Os irmãos do Tocantins gravaram um CD independente em 2011 e rapidamente foram contratados pela WorkShow, numa clara intenção de reproduzir o sucesso de Jorge & Mateus. Eles se mudaram para Goiás; foram colocados no estúdio com Pinochio, responsável por grande parte dos sucessos dos ‘oponentes’ e, em 2012, já assinaram com a Som Livre. O primeiro DVD deles, Ao Vivo em Palmas, fez sucesso mas o segundo, uma produção milionária gravada em Brasília, foi o que os consolidou como artistas do momento.

Henrique & Juliano: fenômenos que elevaram o mercado sertanejo a um novo patamar

O plano do escritório funcionou perfeitamente. Em menos de três anos, Henrique & Juliano se tornaram os únicos nomes do sertanejo capazes de competir de igual para igual com Jorge & Mateus, lançando uma sequência absurda de hits monstros e atraindo multidões pelo país, apesar de, assim como seus antecessores, também seguirem uma cartilha pouco midiática e com pouca exposição televisiva. Absolutamente todas as músicas de trabalho deles — “Cuida Bem Dela”, “Recaídas”, “Até Você Voltar”, “Como É Que A Gente Fica”, “Na Hora da Raiva”, “Mudando de Assunto”, “Vidinha de Balada” — viraram clássicos instantâneos e eles elevaram a WorkShow ao mesmo patamar que a AudioMix.

Uma mulher no topo

Quando parecia que o sertanejo não tinha mais como crescer, uma evolução do gênero o levou a patamares ainda mais elevados: o feminejo.

A explosão do feminejo aconteceu em 2016 mas, na realidade, as sementes começaram a ser plantadas em 2011, quando Paula Fernandes virou o maior nome da indústria musical brasileira. Era a primeira vez, desde Roberta Miranda nos anos 80, que uma mulher alcançava o topo do mercado sertanejo, um gênero quase que totalmente masculino.

Paula Fernandes obteve números de venda que não eram visto desde os tempos pré-pirataria na década de 1990

O sucesso inicial da cantora tem muitos traços em comum com o percurso de Victor & Leo. A explosão dela veio pouco depois do momento de ápice da dupla; o seu maior hit (“Não Precisa”) tinha a participação deles; Victor era um amigo próximo e frequente colaborador e todos eles eram do interior de Minas Gerais. Mas, mais do que isso, tanto Victor & Leo quanto Paula Fernandes foram fenômenos que, naquele então, abalaram todas as estruturas mas que, em retrospecto, duraram pouco e serviram apenas como uma prévia de coisas muito maiores que estavam por vir.

Em 2011, porém, parecia que nada seria capaz de superar a cantora. Ela era, de longe, a artista que mais vendida no país e seus dois CDs — Paula Fernandes Ao Vivo e Pássaros de Fogo — estavam alcançados milhões de unidades comercializadas, números que não eram vistos desde o fim da década de 1990 quando a indústria fonográfica ainda não tinha sido devastada pela pirataria.

Com seu rosto de boneca e seu jeito encantador de garota do interior, Paula foi apresentada ao grande público no especial de Natal de Roberto Carlos de 2010 e, depois de ser apadrinhada pelo Rei, estava em todas as partes: nos principais programas de TV; na trilha sonora da novela das 9; nas rádios; tocando on repeat nas Lojas Americanas. Sua voz dócil, longe das afetações do sertanejo, atraía até mesmo aqueles que não eram fãs do gênero. Em 6 meses, seu CD ao vivo tinha superado 1 milhão de cópias comercializadas.

Mas, assim como o amor por Paula Fernandes foi súbito, a perda de interesse também parece ter acontecido do dia para noite. Quando ela lançou seu segundo DVD ao vivo, gravado na HSBC Arena do Rio, tinham se passado menos de três anos desde que ela tinha sido coroada como a artista mais vendida do país. Mas o Brasil já parecia ter a superado e, prontamente, ela parou de dominar as rádios. Assim, a única mulher do sertanejo perdeu seu lugar no topo.

Em seu álbum, Paula Fernandes colaborou com nomes consagrados da música sertaneja, indo de Leonardo a Almir Sater.

Um dos grandes pecados de Paula foi que ela não teve a destreza necessária para transitar pelo mercado sertanejo. Um meio concorrido e competitivo, é necessário suar muito para ficar no topo. Para começar, tem que ter uma relação boa com todo mundo: com os contratantes; com os patrocinadores; com os empresários poderosos; com os outros artistas do gênero, com os quais espera-se que você colabore com certa frequência e, claro, com os compositores e produtores que vão te fornecer seus hits.

É uma lista longa de pessoas e a cantora, conhecida por seu gênio forte e que enfrentava uma depressão pesada, conseguiu — supostamente — desagradar ela toda. Além disso, em meados de 2012, Paula rompeu com o escritório que, até então, cuidava de sua carreira, Talismã, do cantor Leonardo.

Mas, mais do que isso, ela não soube se reinventar. O seu estilo permaneceu estático e ela não acompanhou as tendências sertanejas, fazendo com que suas músicas ficassem repetitivas.

“Amo Noite & Dia”, um dos incontáveis sucessos de Jorge & Mateus.

É um contraste, por exemplo, com Jorge & Mateus. Para permanecer mais de 10 anos no topo, a dupla soube perfeitamente se adaptar aos tempos: depois de começar com um sertanejo mais forrozeiro e de interior (“Querendo Te Amar”, “De Tanto Te Querer”, “Vou Fazer Pirraça”), eles migraram para um estilo ainda mais romântico e pop, com letras um pouco mais rebuscadas (“Amo Noite e Dia”, “Duas Metades”, “Ai Já Era”) e, nos últimos tempos, deram uma “desofisticada”, apostando em refrões chicletes com conceitos mais lúdicos (“Sosseguei”, “Contrato”, “Propaganda”, “Medida Certa”).

O boom feminejo

Essa tendência recente de conceitos lúdicos, alias, foi o motor para a explosão do feminejo.

O momento de Paula no topo foi breve mas serviu para mostrar que, sim, o público não teria nenhum problema em consumir sertanejo feito por mulheres. Nada mais lógico, afinal de contas, a grande maioria desse público é formado por mulheres. Mas, uma vez comprovado o óbvio, os empresários sertanejos começaram a procurar nomes para explorar esse filão. E quando vozes femininas foram combinadas com letras irreverentes, o Brasil se rendeu.

A explosão de hits feminejos aconteceu em uma sucessão impressionante ao longo de 2016 e, com as mulheres no comando, o sertanejo chegou a espaços onde o gênero — considerado até então heteronormativo e conservador — nunca tinha chegado antes, como rádios pop e festas LGBTs.

10%: o primeiro sucesso viral do feminejo

Maiara & Maraísa foram as que escancaram a porta do sub-gênero com “10%”. Na canção, elas estão na fossa e imploram para que um garçom pare de colocar músicas de amor no bar para se aproveitar do sofrimento delas. “Garçom troca o DVD/Que essa moda me faz sofrer/E o coração não guenta/Desse jeito você me desmonta/Cada dose cai na conta e os 10% aumenta!”, elas cantam de maneira dramática no refrão pegajoso que fez com que a música virasse um clássico instantâneo.

As irmãs gêmeas emendaram um hit monstro em outro (“Medo Bobo”, sobre finalmente se render aos encantos de um amigo próximo: “E na hora que eu te beijei/Foi melhor do que eu imaginei/Se eu soubesse tinha feito antes/No fundo sempre fomos bons amantes”) e ainda apareceram como convidadas em mais uma canção essencial para a coroação das mulheres no sertanejo: “50 Reais”.

“Medo Bobo”: mais um fenômeno de Maiara & Maraísa

Com uma letra tão dramática quanto divertida, “50 Reais” de Naiara Azevedo conta a história de uma mulher que pega seu marido no flagra a traindo e, antes de ir embora, deixa um dinheiro para a amante, insinuando que ela é uma garota de programa. “Não sei se dou na cara dela ou bato em você/Mas eu não vim atrapalhar sua noite de prazer/E pra ajudar pagar a dama que lhe satisfaz/Toma aqui uns 50 reais”.

Além de Maiara & Maraísa, outro casal de irmãs foi revelado nesse momento lúdico e girl power: Simone & Simaria. Depois de começar como backing vocals do forrozeiro Frank Aguiar, com quem trabalharam por quase uma década, as baianas partiram para carreira solo em 2012. Depois de anos na estrada, elas começaram a colher frutos do sucesso, adaptaram seu som, chamaram a atenção de empresários de Goiânia, assinaram com a AudioMix e, em 2016, foram alçadas a fama nacional com a explosão do feminejo.

“50 Reais”: a divertida música de Naiara Azevedo que virou febre no país

Apesar de que, num primeiro momento, os sucessos solos delas (“Meu Violão e o Nosso Cachorro”, “Quando Mel é Bom”) não alcançaram um nível tão alto quanto as de M&M (algo que seria feito mais tarde com “Regime Fechado”), elas viraram estrelas de primeiro escalão graças as suas personalidades cativantes.

Simone & Simaria trazem a irreverência nordestina para o feminejo

Morenas de corpos voluptuosos (uma espécie de versão agro das Kardashians), elas tinham uma história de vida que incluiu uma infância triste na pobreza extrema, vozes potentes e personalidades abrasivas, com senso de humor apurado e grande predileção por uma cerveja. Esse combo fez com que as nordestinas virassem queridinhas da mídia.

Mas enquanto Simone & Simaria e Maiara & Maraísa dominavam a atenção, um fenômeno feminejo de proporções nunca antes vistas estava discretamente tomando conta do pedaço: Marília Mendonça.

A rainha da sofrência

Marília Mendonça: fenômeno de massa que trouxe a vida real para o topo das paradas

Um prodígio do sertanejo, Marília Mendonça começou a carreira ainda adolescente, trabalhando como compositora de vários sucessos. Os maiores deles, “Cuida Bem Dela” e “Até Você Voltar”, foram feitos para Henrique & Juliano.

Com o apoio da dupla, ela assinou um contrato com a poderosa WorkShow para se lançar como cantora solo. Em um primeiro momento, Henrique & Juliano serviram como seus padrinhos artísticos, incluindo uma canção com ela em seu terceiro DVD, Novas Histórias, gravado no Recife. A música em questão, “Flor e o Beija-Flor”, foi um sucesso considerável e ajudou a impulsionar seu primeiro single solo, “Infiel”.

“Flor & o Beija-Flor” apresentou Marília Mendonça ao público

Por ser um pouco mais séria, a impressão foi que a música “Infiel” não viralizou como “50 Reais” e “10%”. Mas não passou de impressão: na realidade, o vídeo da canção se tornou, na época, um dos mais vistos da história do YouTube brasileiro (assim como “Flor e o Beija-Flor”).

Desde então, o sucesso de Marília Mendonça tomou uma dimensão que excedeu qualquer expectativa: ela se tornou indiscutivelmente o maior nome da indústria fonográfica brasileira, capaz de transformar qualquer música em um hit. Ela também é o nome mais requisitado para shows no país todo, superando até mesmo seus colegas de agência, Henrique & Juliano, e também Jorge & Mateus, os Midas do sertanejo.

“Infiel”, primeiro hit de Marília Mendonça

O que a WorkShow fez com Marília foi o que o escritório, assim como a AudioMix, se especializou em fazer. Eles investem em artistas que, num primeiro momento, surfam na onda de sucessos meteóricos mas que, a longo prazo, tem carreiras infinitamente mais duradouras que estes.

Apesar de terem sido eles que abriram as portas para o novo sertanejo, o tempo de Victor & Leo como os maiores do Brasil, por exemplo, durou menos de 5 anos. Quem ficou conhecido como os reis do novo sertanejo no final das contas não foram eles mas sim Jorge & Mateus, que permanecem no topo faz 10 anos.

Marília, por sua vez, também bebeu um pouco da fonte da sua predecessora, Paula Fernandes. Além de cantoras e compositoras que dão uma perspectiva feminina ao sertanejo, ambas tem timbres que se assemelham mais ao de uma cantora de MPB tradicional e que, portanto, tem um alcance ainda maior do que o sertanejo tradicional.

Mas, apesar das semelhanças serem cruciais, as diferenças são o que fizeram de Marília Mendonça um sucesso duradouro. Enquanto Paula tinha uma imagem de garota do campo, uma beleza delicada e músicas sobre amores etéreos e natureza, as músicas de Marília falam sobre sofrimento, fossa, beber demais, fazer besteira. Ela não parecia uma estrela feita sob medida para o consumo: seu biotipo e styling eram totalmente fora dos padrões e muito mais próximos a típica mulher brasileira.

As músicas dela falam sobre o amor sem grandes idealizações. Muito pelo contrário: sua visão sem filtro sobre a paixão é uma das chaves do seu sucesso. Seu primeiro hit solo, “Infiel”, é sobre um homem que a trai mas em várias das suas maiores canções — “Amante Não Tem Lar”, “Traição Não Tem Perdão”, “Ciumeira”, “Bem Pior Que Eu” — é ela que é a outra.

“Eu Sei de Cor”: a música que consolidou Marília no primeiro escalão do sertanejo

Em seus sucessos, Marília cobre absolutamente todos os estágios possíveis da fossa: sofrer por se apaixonar pela pessoa errada; ser traída; trair; ser a outra; beber demais e fazer o que não deveria; amar e não ser correspondido; sofrer pelo término; beber para esquecer a dor; ser abandonada e, claro, conseguir juntar as forças para superar.

O apetite do público parece ser insaciável: ela tem músicas novas todos os meses e tudo o que lança é um hit. No YouTube, que ainda é a plataforma de consumo musical mais utilizada no país, absolutamente nenhum brasileiro consegue chegar perto dos números obtidos por Marília e ela é, de longe, a mais ouvida em todas as regiões do país, incluindo o Rio de Janeiro.

O estilo da sertaneja transcendeu o selo de “feminejo” e é hoje conhecido como sofrência. Estar no fundo do poço por causa de um coração partido sempre foi um tema popular na música brasileira, e no sertanejo em particular, mas ninguém tinha conseguido explorar esse filão com tanta maestria — e com resultados tão extraodinários — quanto Marília, a Rainha da Sofrência.

O topo

A ascensão de Marília Mendonça ao topo é a prova de que sertanejo segue sendo, de longe, o estilo mais popular do Brasil. De Victor & Leo e Paula Fernandes a Jorge & Mateus e Henrique & Juliano a Marília Mendonça, já faz mais de 10 anos que o gênero fornece o mercado brasileiro com suas estrelas mais rentáveis. E, a julgar pelo apetite do público, o reinado do estilo está bem longe de acabar.

Mas uma coisa é certa: a concorrência está cada vez mais acirrada. Depois de anos relegados a um papel secundário, o pagode, o funk e o pop estão todos lutando por um espaço no pódio. Para se manter no topo, o rimo terá que continuar se reinventando, mesmo tendo alcançado um patamar onde ele parece não ter mais para onde crescer. A lição que foi aprendida na última década, porém, é nunca subestimar o gênero.

Na parte 2Uma análise detalhada dos principais acontecimentos do mercado na última década, rastreando o trajeto que fez com que Goiânia deixasse de ser apenas a capital do sertanejo para se solidificar como a capital do entretenimento brasileiro.

Causando no cinema: o ano da música na telona

Nem atores famosos, nem histórias engajantes, nem críticas boas. Em tempos atuais, uma das únicas maneiras de se obter um gigantesco sucesso de bilheteria no cinema é ser parte de uma franquia mundialmente conhecida. Mas 2018 foi o ano que alguns poucos filmes conseguiram furar esse bloqueio. O segredo? Música.

+++

O primeiro grande fenômeno foi “The Greatest Showman” (no Brasil, “O Rei do Show”). Tecnicamente um lançamento de 2017 (ele teve sua estréia oficial no dia 20 de dezembro), o longa metragem tinha como grande estrela Hugh Jackman e contava também com Zac Efron, Zendaya, Michelle Williams e Rebecca Fergunson em seu elenco. O público alvo era abrangente: qualquer um interessado em entretenimento family friendly.

O musical era livremente inspirado na história de P.T. Barnum, o criador do primeiro grande circo dos EUA, o Barnum & Bailey Circus. Apesar de uma promoção forte e um elenco com nomes conhecidos, não havia nenhum motivo para suspeitar que o musical iria ser um sucesso excepcional. Ele foi uma produção relativamente cara (U$85 milhões de dólares, sem contar com marketing) e muitos achavam que o valor investido não era justificado e que o filme ia penar para recuperar os gastos (para isso, estima-se que é preciso lucrar três vezes o custo original).

Mas “The Greatest Showman” surpreendeu a todos, captando a imaginação do público de uma maneira que ninguém esperava e se consagrando como um fenômeno.

Arrisco dizer que, desde “High School Musical”, nenhum musical — nem o record breaking “Mamma Mia”, de 2008, nem o super premiado “La La Land”, de 2016 — chegou perto de se tornar um fenômeno de massa da proporção do filme de estréia do diretor australiano Michael Gracey.

“The Greatest Showman” não foi nenhum queridinho dos críticos. De acordo com o agregador de reviews Rotten Tomatoes, o musical teve aprovação profissional de 53%, um resultado bom mas longe de ser excepcional. Ele tampouco foi um fenômeno espetacular logo de cara: estreou em quarto lugar nas bilheterias estado-unidenses e em terceiro no Reino Unido, obtendo números iniciais mornos. Porém, algo muito raro aconteceu: na segunda semana, os números cresceram. O público amou e, aos poucos, o boca-a-boca o elevou a um nível de sucesso impar.

Depois de lucrar 8 milhões de dólares no seu fim de semana de estréia nos EUA, um resultado mediocre, o filme se consolidou como uma das opções mais populares por meses à fio. No fim de sua trajetória, “The Greatest Showman” tinha alcançado 175 milhões de dólares arrecadados só no seu país de origem e tinha se tornado um dos filmes com bilheteria mais estável na história.

A trilha sonora encerrou 2018 como o único álbum a conseguir ultrapassar 1 milhão de cópias em vendas puras nos EUA (1.49 milhões para ser exato). Com números de streaming acrescentados, “The Greatest Showman” alcançou o equivalente a 2.5 milhões de cópias, sendo o terceiro maior CD do ano no país (atrás apenas de Drake e Post Malone). Cinco músicas do filme obtiveram certificação de Platina, enquanto outras duas alcançaram Ouro.

Mas o sucesso ficou longe de ficar limitado apenas aos EUA. Muito pelo contrário, internacionalmente a recepção foi ainda mais calorosa. Dos 435 milhões de dólares arrecadados, 261 milhões foram em mercados estrangeiros. Os três países onde “The Greatest Showman” conseguiu superar os EUA em sucesso proporcional foram o Reino Unido, a Austrália e o Japão. Em todos esses mercados, o musical figurou dentre as 5 maiores bilheterias do ano.

O Reino Unido foi o lugar que abraçou o filme mais entusiasticamente. No país, a trilha sonora ficou nada menos do que 11 semanas no topo das paradas dos mais vendidos (e ainda está no topo, de modo que poderá estender sua lideranças por várias semanas mais) e encerrou 2018 como o maior CD do ano, com 1.6 milhão de unidades vendidas (uma distância de quase 1 milhão de cópias em relação ao álbum #2, Staying at Tamara’s de George Ezra). A música “This Is Me”, cantada por Keala Settle, foi o quarto maior single do ano no país.

A trilha de “The Greatest Showman” também foi o álbum mais vendido de 2018 na Austrália e o álbum internacional mais vendido no Japão. Além disso, durante a temporada natalina, um novo CD, com artistas como P!nk, Kesha, Panic! at the Disco e Kelly Clarkson reinterpretando as músicas do filme, também foi bem recebido.

O sucesso do filme serviu de trampolim para consolidar a estrela do longa, o ator Hugh Jackman, como uma sensação capaz de lotar estádios. Ao longo de 2019, Jackman irá explorar sua faceta como showman e irá front o espetáculo Hugh Jackman: The Show que já tem 64 shows agendados nas maiores arenas da Europa, Reino Unido, EUA, Austrália e Oceânia. A agenda inclui 6 noites na gigantesca The O2 em Londres, 6 noites na Manchester Arena e três noites no Madison Square Garden em Nova Iorque.

“The Greatest Showman”: U$ 435 milhões
– Álbum mais vendido de 2018, com 5.4 milhões de cópias equivalentes.
– Único álbum a ultrapassar 1 milhão de unidades puras (sem streaming) nos EUA em 2018.
– Único álbum a ultrapassar 1 milhão de unidades no Reino Unido em 2018.
– #18 maior filme do ano nos EUA
– #4 maior filme do ano no Reino Unido
– #5 maior filme do ano na Austrália
– #6 maior filme do ano no Japão
– O CD spin-off “The Greatest Showman: Reimagined”, lançado em novembro de 2018, estreou no top 5 do Reino Unido (onde foi certificado Platina), Austrália e EUA.
– Impulsionado pelo sucesso do show, “Hugh Jackman: The Show” rodará América do Norte, Europa e Oceânia com 64 shows. No total, estima-se que 1 milhão de pessoas irão prestigiar a turnê.

+++

“The Greatest Showman” deu o ponta-pé inicial mas, depois dele, muitos outros sucessos musicais vieram. Em julho, “Mamma Mia: Here We Go Again” foi outro grande hit.

Diferente de Showman, o sucesso de “Mamma Mia 2” era mais do que assegurado. O filme narrava as aventuras de uma divertida mãe solteira, interpretada por Meryl Streep, e de sua filha adulta (Amanda Seyfried) nas paradisíacas praias da Grécia e tinha como ponto alto o fato de ser integralmente embalado por músicas do icônico grupo sueco Abba

Depois de arrasar nos palcos da Broadway e do West-End londrino, a adaptação cinematográfica, lançada em 2008, se tornou um dos musicais mais bem-sucedidos de todos os tempos. Por tanto, as expectativas para a continuação eram altíssimas.

“Here We Go Again” não conseguiu alcançar o sucesso histórico do antecessor. Enquanto o primeiro lucrou 605 milhões de dólares, o segundo ficou na casa dos 400 milhões. Mas, com uma produção que custou $75 milhões de dólares, foi, mesmo assim, um sucesso espetacular. A trilha sonora alcançou o topo das paradas no Reino Unido (onde alcançou Disco de Platina por 300 mil cópias vendidas) e na Austrália e chegou ao #3 nos EUA.

Um dos grandes chamarizes de “Mamma Mia 2” era Cher, que se juntava ao elenco estrelado encabeçado por Strip, Seyfried, Colin Firth e Pierce Brosnan. Surfando na onda do filme, a cantora lendária aproveitou para lançar um CD de covers da banda sueca, entitulado “Dancing Queen”.

Foi mais um exemplo de uma bem sucedida sinergia entre Hollywood e o mercado fonográfico. O álbum de Cher estreou em #3 nos EUA, com 153k cópias na primeira semana, a melhor estréia dela no país. No Reino Unido e na Austrália, o disco debutou em #2, dando a veterana artista seu maior pico nas paradas de CDs locais desde 1992 e 1989 respectivamente. Ela ainda embarcou na turnê solo Here We Go Again, com 67 apresentações em arenas da Austrália, Nova Zelândia, EUA, Reino Unido e Europa.

“Mamma Mia: Here We Go Again”: U$ 395 milhões
– 1.5 milhão de unidades vendidas da trilha sonora globalmente
– #4 CD mais vendido do ano no Reino Unido.
– #1 maior filme do ano na Suécia, Noruega e Finlândia.
– #2 maior filme do ano no Reino Unido.
– #11 maior filme do ano na Alemanha, #12 na Austrália.
– #26 maior filme do ano nos EUA
– Serviu de mote para o lançamento do álbum de covers da Cher, “Dancing Queen”, seu maior lançamento em décadas. A turnê do álbum, Here We Go Again, terá 63 datas na Oceânia, Reino Unido, Europa e América do Norte, com um total de 550 mil ingressos disponíveis.

+++

No dia 5 de outubro, “A Star Is Born” (Nasce Uma Estrela), que se tornaria um dos filmes mais comentados de 2018, teve sua estréia nos EUA. Apesar de não ser tecnicamente um musical, é óbvio que música é um componente essencial na narrativa do filme.

O terceiro remake de um longa de 1937, a produção foi anunciada pela primeira vez em 2011. Naquele então, Beyoncé iria estrelar junto a Leonardo DiCaprio sob a direção de Clint Eastwood.

Depois de anos sem andar para frente, perdendo as suas estrelas e diretor no processo, a produção finalmente engrenou em março de 2016, quando Bradley Cooper anunciou que iria protagonizar e dirigir o longa. Lady Gaga se juntou como co-protagonista em agosto daquele mesmo ano.

Diferente de “Showman”, muito do burburinho inicial de “A Star Is Born” foi relacionado a ótima recepção que o filme teve por parte dos críticos. O longa chegou a 90% de aprovação no Rotten Tomatoes. A direção de Cooper e a atuação dele e de Gaga foram exaltadas por praticamente todo mundo que viu o longa em festivais que precederem sua estréia oficial. Com todo o buzz positivo, “A Star is Born” teve uma estréia fantástica nos EUA, lucrando mais de 40 milhões de dólares no seu final de semana inicial.

De todos os filmes mencionados, “A Star Is Born” foi, de longe, o mais barato de se produzir (custando $30 milhões de dólares). Além disso, foi o único que foi promovido como um filme para um público mais maduro. Nos EUA, ele teve classificação etária R, proibido para menores de 17 desacompanhados (todos os demais tiveram classificação PG ou PG-13).

Nada disso serviu como obstaculo para seu estrondoso sucesso. Impulsionado pela ótima recepção crítica e pelo boca-a-boca, o filme lucrou $425.5 milhões de dólares globalmente. Como coroação final, ele foi indicado a 8 Oscares, incluindo Melhor Ator (Cooper), Melhor Atriz (Gaga), Melhor Filme e Melhor Música (“Shallow”). Ele levou o último.

“A Star Is Born”, que trata da história de amor entre um cantor country alcoólatra e uma popstar em ascensão, foi um verdadeiro divisor de água tanto na carreira de Cooper, em sua estréia como diretor, como na de Gaga, em sua estréia como atriz de cinema.

Apesar de ser um household name que ainda atrai bastante interesse, Lady Gaga estava em um momento difícil d. Depois de uma estréia meteórica em 2008, que rapidamente a consolidou como o maior fenômeno do mundo, ela começou a desinflar a partir do lançamento do seu segundo CD e estava encontrado dificuldades de encontrar seu nicho.

Depois do (relativo) fracasso do seu terceiro álbum, ela se reinventou como uma cantora de jazz e voltou ao pop em 2016, com Joanne. O CD ajudou ela a se estabilizar — ela fez uma turnê bem sucedida e headlined o Super Bowl e também o Coachella (substituindo Beyoncé, que adiou a participação por causa da gravidez). Mesmo assim, ela estava longe de obter resultados espetaculares e de se adaptar as mudanças da indústria com a chegada do streaming.

Mas “A Star Is Born” a elevou para outro patamar e colocou seu nome de volta no topo do A-list. Apesar de várias estrelas pop terem se aventurado no mundo cinematográfico nas últimas duas décadas, absolutamente nenhuma delas chegou perto do aclame alcançado por Gaga, que já emplacou uma indicação ao Oscar com seu primeiro grande papel.

A trilha sonora do filme também foi um gigantesco sucesso, sendo o terceiro álbum mais vendido de 2018 na Austrália e sétimo no Reino Unido. A música “Shallow” alcançou o #1 no Reino Unido, na Suécia e na Austrália (o primeiro chart-topper dela em ambos os países em quase 7 anos), além de ter alcançado #4 na França e #10 na Alemanha.

Levando em conta apenas unidades puras, a trilha sonora de “A Star Is Born” foi o segundo álbum mais vendido do ano nos EUA, com 700 mil cópias. Porém, mostrando a vulnerabilidade de Gaga na era streaming, o CD não figurou no top 10 uma vez que os números das plataformas digitais foram contabilizados.

Mas o sucesso do filme é tanto que até essa barreira da cantora ele está conseguindo furar. Logo depois da exibição do Oscar, e impulsionado por memes e pela repercussão da performance dos protagonistas durante a premiação, “Shallow” alcançou a #6 posição no Spotify dos EUA. Anteriormente, o melhor resultado de Gaga na plataforma tinha sido quando “A Million Reasons” atingiu a posição #25 logo depois de sua apresentação no Super Bowl de 2016. No ranking global, a canção chegou a posição #2.

A performance de “Shallow” no Academy Awards deu o que falar e gerou muitos memes.

Com o empurrãozinho do streaming — combinado com espetaculares vendas digitais e bom desempenho na rádio — “Shallow” alcançou o topo do Billboard Hot 100 dessa semana. É a primeira vez que Gaga atinge a posição desde que “Born this Way” estreou em primeiro nos EUA em fevereiro de 2011.

Também graças a repercussão dos Oscars, a trilha sonora voltou para o topo das paradas de vendas de álbuns nos EUA, onde o filme será relançado com 12 minutos extras. Ou seja, “A Star Is Born” ainda tem fôlego e, mais do que um filme bem-sucedido, ele marca o renascimento de Gaga como uma das maiores estrelas da atualidade.

“A Star Is Born”: U$ 425.3 milhões
– 2.5 milhões de unidades vendidas da trilha sonora globalmente.
– #13 maior filme do ano nos EUA.
– #11 maior filme do ano no Reino Unido.
– #8 maior filme do ano na Austrália.
– #2 CD mais vendido de 2018 nos EUA em pure sales
– #3 álbum mais vendido de 2018 na Austrália. #7 mais vendido no UK.
– “Shallow” foi o primeiro #1 de Lady Gaga nos EUA em 8 anos (e o primeiro de Bradley Cooper).
– “Shallow” também foi o maior hit global dela desde fevereiro de 2011.
– A música atingiu #1 no Reino Unido e Austrália, #3 no Canadá, #4 na França e #10 na Alemanha. Na parada global do Spotify, atingiu a posição #2, a melhor já obtida por uma música de trilha sonora e o melhor resultado obtido por Gaga na era de streaming.
– 8 indicações ao Oscar, incluindo vitória de Melhor Canção Original.

+++

“Bohemian Rhapsody” chegou algumas semanas depois do bem sucedido filme de Gaga e Bradley Cooper.

Assim como “Mamma Mia”, “Bohemian Rhapsody” se beneficiava do fato de ter como trilha sonora as músicas de uma das bandas mais amadas de todos os tempos, Queen. Diferente do filme estrelado por Meryl Streep, que tinha uma história original, “Bohemian” era um filme biográfico centrado no amado frontman da banda, Freddie Mercury. Além disso, assim como “A Star Is Born”, ele não era tecnicamente um musical (para isso, os personagens tem que começar a cantar espontaneamente e do nada) mas sim um filme com música (onde as canções estão inseridas em situações realistas).

O longa teve um caminho tortuoso até seu lançamento. Ele foi originalmente anunciado em 2010, com Sascha Baron Cohen no papel principal. Depois de três anos de desenvolvimento, Baron deixou o projeto por causa de diferenças criativas. Foram mais três anos tentando levantar o filme do chão até que, no fim de 2016, Rami Malek foi escolhido para o papel de Mercury e a produção voltou a andar.

Além da dificuldade para achar um protagonista, “Bohemian Rhapsody” ainda enfrentou outra gigantesca dor de cabeça: seu diretor. Bryan Singer, responsável por dezenas de filmes bem-sucedidos, foi afastado da produção quando o filme já estava quase concluído, em dezembro de 2017, pelo seu comportamento altamente tempestuoso. Além disso, a Fox, a distribuidora do filme, ainda estava preocupada com as dezenas de alegações de abuso sexual e assédio que o rondavam. No final das contas, apesar dele ter sido o de facto diretor, o nome dele foi apagado de quase todo o material promocional.

Apesar do tumulto, tudo foi perdoado quando “Bohemian Rhapsody” estreou e se provou, logo de cara, um gigantesco fenômeno de bilheteria. De maneira geral, as críticas foram bem mornas mas a atuação de Rami Malek foi universalmente elogiada. E, apesar de não empolgar tanto os profissionais, o aclame popular foi tanto que o filme foi um dos mais premiados durante a award season e recebeu 4 indicações ao Oscar, incluindo Melhor Filme. Malek acabou levando a estatueta de Melhor Ator para casa. Seguindo a cartilha promocional, o diretor Bryan Singer não foi mencionado por ninguém durante as cerimônias.

De todos os filmes de música de 2018, “Bohemian Rhapsody” foi o fenômeno mais universal. “The Greatest Showman” foi gigantesco porém seu sucesso fora de série ficou limitado a alguns mercados chaves importantes. Já “A Star Is Born” teve repercussão universal graças a música “Shallow” e os protagonistas mas os números de bilheterias foram espetaculares somente nos EUA e em outros mercados anglo-saxões. “Mamma Mia: Here We Go Again” foi particularmente grande na Europa Continental. O filme do Queen, por sua vez, foi enorme em todos os continentes, da América do Sul a Ásia.

O climax do filme é a recriação da legendária performance da banda no Live Aid de 1985 no Estádio de Wembley

Apesar do Greatest Hits do Queen ser um dos discos mais vendidos de todos os tempos (e o mais vendido da história no Reino Unido), a trilha sonora do filme, composta basicamente por canções já lançadas, também foi um sucesso.

“Bohemian Rhapsody” prova que, mesmo tendo se passado 27 anos desde sua morte, o poder de Freddie Mercury em comover multidões segue inigualável.

“Bohemian Rhapsody”: U$ 870 milhões de dólares
– #6 maior filme de 2018 no mundo.
– #10 maior filme de 2018 nos EUA.
– #1 filme do ano no Japão, na Espanha e na Itália. #2 filme do ano na Austrália. #3 filme do ano na Alemanha e na Coréia do Sul. #4 filme do ano no Reino Unido. #5 filme do ano na França.
– Com o sucesso do filme, várias músicas do Queen entraram no top 50 de streaming global. A trilha sonora vendeu mais de 1 milhão de unidades globalmente, apesar de dezenas de greatest hits do Queen já estarem disponíveis (e o primeiro deles ser um dos álbuns mais vendidos da história).
– Os integrantes vivos do Queen, junto com Adam Lambert como vocalista, anunciaram a Rhapsody Tour para 2019. Até o momento, só as datas dos EUA e no Canadá foram confirmadas: serão 25 shows, para mais de 300 mil pessoas. Datas adicionais na Europa, na Austrália, na Ásia e na América Latina devem ser anunciadas em breve.

+++

A questão é: 2018 foi um ano impar para filmes de música ou a consolidação de um gênero que seguirá rendendo bons frutos em 2019?

É uma pergunta bem difícil de se responder mas será muito difícil reproduzir os fenômenos do ano passado. Mesmo assim, os grandes estúdios terão várias apostas musicais.

Os maiores lançamento de todos serão, sem duvida nenhuma, “Frozen 2” (previsto para 27 de novembro) e “O Rei Leão” (19 de julho), ambos propriedades bilionárias da Disney e franquias bem sucedidas. “Let It Go”, a música do primeiro Frozen, foi um fenômeno sem igual e o desafio da segunda parte é conseguir emplacar um hit que se aproxime disso. Já a adaptação de computação gráfica de “O Rei Leão” terá as músicas já amadas do original animado, compostas por Elton John, e trás as estrelas musicais Donald Glover (a.k.a. Childish Gambino) e Beyoncé nos papéis principais.

E falando em Elton John, a grande aposta de filme biográfico de 2019 é “Rocket Man”, que conta a história do lendário artista britânico. Taron Egerton interpretará o músico sob a direção Dexter Fletcher, que substituiu Singer na direção de “Bohemian Rhapsody”. Será que um filme embalado pelos clássicos de Elton John conseguirá comover tanto o público quanto os filmes do Queen e do Abba? A estréia está prevista para 31 de maio e o longa faz parte da despedida de Elton, que estará se aposentando depois da conclusão da sua turnê Farewell Yellow Brick Road, prevista para durar de 2019 até 2021.

Outra aposta é o projeto dos premiados diretores Danny Boyle (Trainspotting, Slumdong Millionaire) e Richard Curtis (Love, Actually; Notting Hill), “Yesterday”. Estrelando o novato Himesh Patel, o filme conta a história de um músico que se dá conta que ele é a única pessoa do mundo que lembra dos Beatles. A produção ainda contará com uma participação especial de Ed Sheeran. O filme será lançado dia 13 de setembro.

Finalmente, o musical de Andrew Lloyd Weber, “Cats”, também será adaptado para as telonas em um filme com um elenco robusto que inclui, entre muitos outros, Taylor Swift, Idris Elba, Rebel Wilson, Dame Judi Dench, James Corden e Ian McKellen.

A sinergia entre Hollywood e a indústria fonográfica trouxe muito dinheiro no ano passado. Se depender da vontade dos executivos e das gravadoras, foi apenas o começo. Porém não depende: nesse caso, a vontade soberana é do público. Os próximos meses vão nos mostrar se a mescla de cinema com música voltara a cativa-los.