Cinema 2014: fádiga de Hollywood ajuda fenômenos locais

O verão estado-unidense é a época de ouro para os grandes estúdios. As férias escolares trazem faturamento recordes e explicam o porque de tantos grandes lançamentos serem concentrados entre os meses de junho e agosto. Esse ano, porém, o verão foi motivo de bastante lamentação: Hollywood teve seu pior resultado desde 1997 (ajustado pela inflação) e uma queda de 15% em relação a 2013, deixando claro que os americanos estão cada vez menos empolgados com a ideia de gastar seus suados trocados em filmes que, francamente, são quase sempre mais do mesmo.

Apesar disso, a hegemonia dos filmes de Hollywood segue inabalada. Com mais de 1 bilhão de dólares lucrados globalmente, o quarto filme da franquia Transformers, Age of Extinction — o primeiro com Mark Whalberg e Nicole Peltz nos papeis principais — ocupa com folga o posto de longa de maior sucesso do ano. O resultado espetacular, contudo, não ofusca o fato de que Transformers é um exemplo clássico do tipo de filme que explica a fadiga do públicp: formulaico, baseado numa franquia já existente e com uma forte dependência de efeitos especiais espetaculares para distrair do fato de que o roteiro basicamente não existe.

Transformers 4 foi o único filme da franquia a não ultrapassar dos 300 milhões de dólares no seu mercado natal e, com 245.5 milhões de dólares arrecadados, ele mostrou uma queda considerável em relação ao segundo filme da série, lançado em 2009, e que lucrou mais de  400 milhões. O resultado do longa em mercados europeus e no Japão também foi bastante aquém aos antecessores.

Contudo, como os resultados globais do longa de Michael Bay deixam claros, Hollywood está sabendo mascarar essa queda de interesse graças a conquista de novos territórios que, até pouco tempo atrás, eram insignificantes. Hoje, esses países — como a Rússia (onde Age of Extinctinon lucrou mais de 45 milhões de dólares) — são alguns dos mais lucrativos mercados internacionais e, depois de conquistar o ex país soviético, as garras de Hollywood estão fincadas na China.

Com mais de 1 bilhão de pessoas, a China é um mercado gigantesco. Lançar um filme no país, porém, é complicado e exige muitíssima negociação com os órgãos públicos. O esforço é justificado pelo tamanho do lucro em potencial. O país, sozinho, foi responsável por fazer de Transformers: Age of Extinction o sucesso monstro que ele acabou sendo. Coproduzido por uma companhia chinesa, o longa é o maior sucesso da história do país, com 301 milhões de dólares arrecadados, conseguindo o ato quase inédito de superar o faturamento norte-americano.  O amor dos chineses por blockbusters de ação também significou lucros gigantescos para X-Man: Days of the Future Past; Captain American: The Winter Soldier; Dawn of the Planet Apes; Guardians of the Galaxy e The Amazing Spider Man 2, todos com rendas superiores a 90 milhões de dólares no país.

A crescente demanda por assistir filmes via métodos legais na China é fonte de enorme otimismo para os executivos de Hollywood. Porém, no resto do mundo, a falta de ofertas empolgantes dos titãs do entretenimento está fazendo com que o público local opte por prestigiar produções locais, com roteiros mais criativos e que falam de maneira mais profunda e direta com a população. E, apesar da enorme dificuldade de qualquer país de enfrentar os gigantescos americanos, 2014 foi um ano onde, novamente, diversos países conseguiram produzir seus próprios fenômenos de bilheteria.

Espanha: diante de uma nação fragmentado e em caos econômico e político, uma comédia une o país

A Espanha, com sua milenar história de grandes descobertas, conflitos e riquezas, foi um dos maiores responsáveis por moldar o mundo ocidental. Mas, apesar do seu passado glorioso e rico, o país passou grande parte da segunda metade do século 20 ofuscado, sofrendo uma opressora ditadura que os manteve bastante atrasados em comparação com seus vizinhos europeus. As Olimpíadas de Barcelona em 1991 os colocaram no centro do holofote global, transformando-os num dos maiores polos de turismo mundial e a Espanha entrou no novo milênio cheio de otimismo, investimento e a sensação de que, novamente, eles estavam lado a lado das grandes potências. Tudo isso came crashing down com a crise global de 2008 e, desde então, o país tem enfrentado uma crise histórica, com enorme desemprego e poucas perspectivas de recuperação.

O tumulto econômico espanhol é só um dos muitos aspectos que refletem o caótico panorama na Espanha. Dividido em diversas regiões autônomas, o país tem enorme dificuldade para inspirar em sua população a sensação de um “país unido” e cada região tem sua própria cultura, forma de encarar a vida e muitas delas têm inclusive língua própria. As duas principais cidades do país, Madrid, a capital, e Barcelona, a principal cidade da rica região da Catalunha, tem uma rivalidade histórica que trace back para séculos e séculos atrás e, com a crise, o movimento separatista catalão ganha cada vez mais força.

No meio desse caos, uma comédia que ri das diferenças culturais do país, Ocho Apellidos Vascos (Oito Sobrenomes Bascos), lançado em março, conseguiu a difícil missão de unir a Espanha, levando mais de 9 milhões de pessoas aos cinemas (quase 1/4 da população do país) e se transformando na maior bilheteria da história.

Enquanto a cobertura das rivalidades e conflitos separatistas em geral focam em Madrid e Barcelona, ambas as cidades, grandes e cosmopolitas, não são tão diferentes entre si. Ocho Apellidos foca em duas regiões que, essas sim, são total opostos uma da outra: a quentíssima, cálida, romântica, espanholíssima Andalucia e o frio, nublado, desenvolvido País Basco.

Os protagonistas do filme são Rafa, um andaluz, super latin lover e representante de todos os estereótipos da região e Amaia, uma basca fria e moderna. Por coincidências do destino, os dois acabam se cruzando e, apesar de serem completamente diferentes, Rafa acaba se apaixonando perdidamente por Amaia, que pertence a uma família ultranacionalista que nunca aceitaria que ela estivesse num relacionamento com alguém fora da região. Abandonada por seu noivo poucos dias antes do seu casamento, Amaia vai receber a visita do seu pai ausente pela primeira vez em anos e não quer contar para ele que seu noivado foi por água baixo. Por isso, ela recruta o andaluz apaixonado, que faria qualquer coisa para vê-la novamente, até sua cidade natal com uma missão quase impossível: manter a farsa de que ele é o noivo basco dela.

Enquanto as tentativas do andaluz de raiz em fingir que é basco são hilariantes para o público espanhol, familiarizado com os estereótipos e tradições das respectivas regiões, as piadas se perdem para os não locais. Isso significou que o filme teve um alcance internacional curtíssimo, fracassando inclusive no país vizinho, Portugal, onde, por também fazer parte da Peninsula Ibérica e ter uma cultura bastante similar, recebeu um significante marketing push. Mas os resultados históricos na Espanha fizeram com que a recepção morna internacional passasse completamente despercebida: o filme superou The Impossible, o filme de 2012 de Juan Antonio Bayona, para se transformar na maior bilheteria da história da Espanha, com um rendimento de quase 60 milhões de euros (em dólares, o rendimento foi de U$77.5 milhões).

Na cena que dá origem ao título do filme, o pai de Amaia menciona que a garota teve um namorado “do sul”. “Do sul?”, pergunta em choque Rafa. “Sim, de Vitória”, responde o pai, citando uma cidade do País Baixo que, por sua posição geográfica, é menos de raiz que suas vizinhas ao norte. “Mais ele era bem vasco, hein! Ele tinha os oito sobrenomes vascos!!”. “Ah, ele também tem!”, diz Amaia apontando para Rafa, dando a deixa para que ele invente, de cabeça, oito sobrenomes longuíssimos e cheios de consoante, como os tradicionais sobrenomes locais.

Em outro momento do longa, Rafa joga um cigarro aceso numa lixeira, iniciando um pequeno incêndio que é confundido com um ato de protesto. Em pouco tempo, ele aglomera uma multidão e vira o líder de uma manifestação separatista. Pressionado pelas pessoas reunidas (e até pela TV local), Rafa puxa um grito de guerra: “Somos mejores! Que los españoles!”. “Discurse em basco!!“,  alguém grita. “Não! Para quem estamos pedindo a independência? Para os bascos? Ou para Madrid? Temos que falar em espanhol para que eles nos entendam!”, responde Rafa, que não sabe uma palavra do complicadíssimo idioma local. Já com a multidão ao seu lado ele entona uma versão super desafinada do famosíssimo hit “Sevilla tiene un color especial” do Los del Rio (conhecidos globalmente graças a obra de arte Macarena), substituindo a capital andaluz por “Euskadi” (“País Basco” no idioma local). “Euskadi tiene un color especial! Euskadi tiene un color diferente!” repetem os protestantes.

O filme que ri das diferenças espanholas acabou por unir o país. De norte a sul, não teve uma cidade onde 8 Apellidos não foi um fenômeno: Madrid, Catalunha, Andalucia, País Baixos e todas as demais regiões, a sensação foi que não teve ninguém que não foi no cinema prestigiar o longa metragem. Clara Lagos e Dani Rovira, ambos já bastante sucedidos, tiveram a popularidade potencializada, sendo escolhidos como protagonistas da mega campanha de liquidação de verão do El Corte Inglés, a maior loja de departamento da Espanha. O sucesso foi tamanho que, quando o DVD e o blu-ray foram lançados,  seis meses após a estreia, ainda haviam 54 salas de cinema exibindo o filme.

Em abril de 2015, a sequência começa a ser filmada. A continuação focará novamente nas diferenças entre Andaluzia e País Baixo e adicionará mais uma região autônoma a equação: Catalunha.

Em momentos de crise econômica e protestos separatistas, nada melhor do que o humor para lembrar que, por mais que o país tenha muitas diferenças, são todos, no final das contas, parte da mesma cultura.

Argentina: gargalhadas selvagens em um país transtornado

Damian Szifrón é um nome fortíssimo na Argentina. Entre 2002 e 2003, criou e roteirizou Los Simuladores, fenômeno de audiência na Telefe e considerado por muitos como a melhor série argentina de todos os tempos. Em 2003 e 2005, dirigiu dois elogiados e bem-sucedidos filmes, El Fondo del Mar e Tiempos Valientes antes de voltar a televisão, em 2006, com mais um sucesso: Hermanos y Detectives. Desde então, Szifrón se retraiu. Por tanto, quando, depois de quase oito anos, foi anunciado que ele iria voltar com um novo filme, Relatos Salvajes — que tinha o maior ator argentino, Ricardo Darin, no elenco e produção do celebradíssimo diretor espanhol Pedro Almodovar —  as expectativas eram altíssimas. Mesmo assim, o filme conseguiu a missão dificílima de superá-las: com 3.5 milhões de ingressos vendidos, o filme se se transformou no filme local de maior sucesso da história.

Todo mundo esperava uma estreia fantástica de um filme que envolvia Szifrón, Darin, Almodovar e tinha promoção da Telefe e recepção fantástica em festivais mundo afora, incluindo Cannes. Porém, logo no primeiro final de semana, já ficou claro que até as apostas altas iriam ser modestas quando comparados aos resultados: 500 mil pessoas correram para o cinema, coroando o filme como a melhor abertura de um filme local na história. Demorou oito semanas para Relatos Selvagens desocupar o topo dos filmes mais vistos do país e ele não mostra sinais de que vai sair dos top 5 por bastante tempo. O filme já é a terceira maior bilheteria da história da Argentina, só superado por A Era do Gelo 4 e Titanic. Relatos Selvagens e Titanic são, alias, os únicos dois filmes não-animados a ultrapassarem a casa de 3 milhões de ingressos vendidos no país.

Relatos Selvagens engloba seis histórias curtas de humor negro, todas elas fazendo jus ao título. O filme, claro, será a nominação argentina ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro.

Ainda teremos que esperar uns meses para constatar se Relatos vai conseguir agradar a Academia tanto quanto O Segredo de seus Olhos mas, em contrapartida, o público já foi totalmente conquistado. O ganhador do Oscar era, até a estreia do filme de Szifrón, a maior bilheteria de um filme local na Argentina. Relatos Salvajes, contudo, mais que dobrou o lucro do filme anterior, chegando a 19 milhões de dólares arrecadados na Argentina e no Uruguai.

O tom cínico e autodepreciativo do filme tem bastante do humor e do jeito argentino de ver o mundo. E, em tempos de caos político, impunidade e economia extremamente turbulenta, o sucesso de Relatos pode indicar um pouquinho sobre o estado emocional do povo local.

Mas, deixando a análise psicológica de lado, não tem como discordar que o filme é realmente impressionante e mais um ótimo exemplo da alta capacidade dos nossos vizinhos de fazer longas-metragens com produção, roteiro e direção do mais alto calibre. Além dos 18 milhões de dólares arrecadados na Argentina e no Uruguai, Relatos tem tido bom desempenho na Espanha, país que co-financiou o filme. Depois de uma estreia para lá de discreta — lucrando 653 mil dólares e estreando em sexto nas bilheterias — o filme se beneficiou do boca a boca e se mantém estável entre as quatro maiores bilheterias do país desde então, já tendo ultrapassado 3.5 milhões de dólares de rendimento em um mês desde que foi lançado.

Com 25 milhões de dólares arrecadados até o momento, o filme tem um longo caminho até alcançar os 33 milhões alcançados globalmente por El Secreto de sus Ojos (incluindo 8mi na Espanha; 6.4mi nos EUA; 1.6mi no Brasil; 1.55mi na Itália e 1.1mi no Reino Unido) mas, mesmo sem um Oscar, o filme tem superado o filme de Campanella nos poucos mercados onde já estreou (Peru, Chile, Venezuela, Colombia, Holanda) além de estar andando a longos passos na Espanha e no Brasil.

França: rindo do racismo ou apenas reforçando-o?
Fenômeno de bilheteria ressalta problemas que o país tem com o multiculturalismo

Em 2008, Bienvenue chez les Ch’tis, que ri dos estereótipos da infame região nordeste da França, quebrou o recorde de maior bilheteria da história do país, arrecadando 194 milhões de dólares e levando mais de 20 milhões de pessoas aos cinemas (e também originando uma super bem-sucedida adaptação italiana). Em 2009, Avatar, o primeiro filme de James Cameron desde Titanic (que, com 21.8 milhões de ingressos vendidos em 1997, é o único filme na história da França que vendeu mais ingressos que Ch’tis) também levou uma multidão para os cinemas que, curiosas pela nova  e groundbreaking tecnologia 3D, não se incomodou em pagar um preço mais alto pelo ingresso, deixando incríveis 175.6 milhões de dólares nas bilheterias do país. E, em 2011, depois de um 2010 tranquilo, a tocante comédia Intouchables, sobre a amizade entre um aristocrata deficiente físico branco com seu auxíliar negro do gueto, levou 19.5 milhões de pessoas aos cinemas, se transformando na terceira maior atração da história do cinema na França (atrás só de Titanic e Ch’tis) com mais de 166 milhões de dólares na França. O filme transcendeu a França e, graças a resultados altíssimos no mundo inteiro, o longa fechou seu run com 426.6 milhões de dólares, o lançamento francês mais bem sucedido da história.

Desde então, nenhum grande arrasa quarteirão abalou as estruturas das salas de cinema francês mas, esse ano, um filme chegou perto. Qu’est-ce qu’on a fait au Bon Dieu? (O que fizemos ao Bom Deus?) não alcançou os resultados dignos dos livros dos recordes de Intouchables e Ch’tis mas foi um dos quatro filmes a ultrapassar a barreira dos 100 milhões de dólares arrecadados nas últimas duas décadas e apenas o sétimo filme a vender mais de 12 milhões de ingressos nos últimos 40 anos. Nada mal, né?

Qu’est-ce qu’on a fait… é uma comédia que, assim como Intouchables, trata de uma França cada vez mais diversa e a dificuldade de muitos em se adaptar a isso. Em tempos de muita controvérsia em relação a racismo e direitos de minoria e do assustador crescimento do partido de extrema direita, Front National, o filme causou identificação no público local contando a história de um casal provinciano, burguês, branco e ultra conservador, Claude e Marie e a dificuldade deles em aceitar o casamento multi-racial de suas filhas. Isabelle se casou com o muçulmano Rachid; Odile com o judeu David e Ségolene com o chinês Chao. Quando a filha mais nova, Lauren, avisa que está noiva, o casal sente tanto alivio em descobrir que ele é católico e se chama Charles que estão dispostos até em perdoar o fato de que ele é ator. Qual a surpresa deles em descobrir que Charles é negro, veio da Costa de Marfim e tem um pai cheio de ressentimento com brancos e a colonização da África.

O filme, que celebra uma França cada vez mais multicultural e faz piada com a ideia de que todo mundo, independentemente da etnia, guarda preconceitos, também teve ótimos resultados em outros mercados europeus onde já foi lançado como Grécia e Bélgica. Na Alemanha e na Áustria, o filme ultrapassou os 39 milhões de dólares arrecadados e é um dos maiores sucessos do ano e, a julgar pelo ótimo recebimento em Portugal, o filme tem grande potencial na Espanha, onde estreia em dezembro, e na Itália.

Mas enquanto Qu’est-ce…, cujo título internacional é Serial (Bad) Weddings, tem obtido bons resultados em diversos mercados (seu lucro global até o momento, 149 milhões de dólares, é mais do que 10 vezes o custo de produção, que foi de apenas 13mi), ele tem encontrado enorme dificuldade para arranjar distribuidores no Reino Unido e nos EUA, mercados onde filmes franceses com respaldo tão gigantesco não costumam ter dificuldades em serem lançados. Em entrevista ao Le Point, a diretora de vendas internacionais da TF1, Sabine Chemaly, explica o porque da dificuldade: “eles têm um approach cultural bastante diferente do nosso. Eles consideram o filme muito politicamente incorreto e eles nunca se permitiram rir  de negros, judeus e asiáticos. É claro que o sucesso do filme os empolga mas eles sabem que ele seria instantaneamente fonte de enorme polêmica”.

“A fonte de comédia é diferente nesses países. Eles vivem com as diferenças, mas não sabem rir delas. Mesmo com a distância cômica, caricaturas não são consideradas aceitáveis”. E olha, posso dizer? Os EUA e o Reino Unido estão cobertos de razão. Ainda não vi o filme e posso morder minha língua mas existe uma linha tênue entre rir de estereótipos e reforça-los e, a julgar pelo trailer e pelo que ouvi, o filme se adequa mais a segunda categoria. A mídia britânica e americana estão longe de ser perfeitas mas a percepção do que é aceitável e não é por lá é bastante mais acentuada do que na França e outros países europeus.

A intenção do filme com certeza não é cruel e acho ótimo e importante a celebração do multiculturalismo francês mas acho que a ideia de que “todo mundo é um pouquinho racista” (sim, eu sei que isso é uma música do Avenue Q) e a celebração disso através do humor é algo bastante repugnante, com mais danos do que benefícios. Não, não vejo absolutamente nada de endearing numa senhora que chora, mesmo que comicamente, com a ideia de que seu neto será miscigenado.

Tudo bem que eu não vi o filme (apesar de que, admito, não fiquei com muita vontade depois de ver o trailer. Não me pareceu engraçado) e, depois que tiver a oportunidade de assisti-lo, posso mudar de ideia. Mas acho bem difícil. De qualquer maneira, uma sequência já está sendo planejada, com lançamento previsto para 2016. Estou na torcida que, até lá, as visões do que é aceitável na França mudem um pouco e o filme acabe sendo de mais bom gosto.

Coreia do Sul: um antídoto nacionalista para um país em luto

Assim como na França, a Coreia do Sul tem diversas leis para proteger o cinema nacional e garantir espaço para filmes locais nas salas de exibição. Graças a isso, o mercado é bastante saudável e o top 10 anual sempre está cheio de filmes locais. Contudo, um fenômeno do tamanho do filme épico Myengryang: Roaring Currents, lançado no final de julho, é algo inédito na história do país. O filme vendeu 18 milhões de ingressos (num país com uma população de 50 milhões) e foi o primeiro longa doméstico a ultrapassar a barreira de 100 milhões de dólares arrecadados (131.5 milhões).

Lançado pela gigantesca CJ Entertainment com uma enorme campanha de marketing, o filme estreou em mais da metade de todas as salas de cinema do país. O longa, uma super produção com impressionantes sequências de ação, conta a história de uma batalha naval no século 16 onde, contra todos os prognósticos, uma frota pequena da Coreia, sob o comando do almirante Yu Sun-sin, conseguiu derrotar a muito mais numerosa e poderosa frota dos históricos rivais do país, os japoneses.

A vitória é, até hoje, considerado um dos maiores triunfos da Coreia do Sul, uma nação que se orgulha de ter ascendido da pobreza pós-guerra para se transformar numa grande potência mundial e que, em abril de 2014, sofreu um enorme trauma nacional quando o ferry Sewol naufragou num acidente causado por enormes negligências, matando 304 pessoas, a maior parte deles alunos e professores de uma escola em Seoul. O diretor da escola, resgatado durante o acidente, cometeu suicido algumas semanas depois e grande parte dos coreanos, inclusive os pais das vítimas, acreditam que a justiça ainda não foi feita, com muitos dos responsáveis pelo acidente ainda livres e muitos corpos ainda não encontrados.

O filme, nacionalista e uplifting, que reproduz de maneira impressionante um dos maiores contos de vitória da história do país, serviu para reviver um pouco os ânimos de um país em luto.

Advertisements

2 thoughts on “Cinema 2014: fádiga de Hollywood ajuda fenômenos locais

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s