Por que o Tidal é uma perda de tempo

Tidal Launch Event NYC #TIDALforALL

Se você por acaso esbarrou nas redes sociais dos famosos hoje você pode ter ficado com a impressão de que Nicki Minaj, Jay-Z, Rihanna, Madonna et all tinham descoberto a cura do câncer dado o entusiasmo de todos eles em “mudar a história para sempre”. Eles mudaram seus ícones no Twitter para azul piscina e anunciaram uma grandiosa conferência de imprensa em Manhattan para o fim da tarde. A conferência foi uma das maiores congregações de A-listers na história recente da música: Jay; Beyoncé; Kanye West; Madonna; Rihanna; Daft Punk; Nicki Minaj; Alicia Keys; J Cole; Usher; Jason Aldean; Arcade Fire; Deadmau5; Jack White e, via webcam, Chris Martin do Coldplay e Calvin Harris (direto do Brasil). Todos juntos por um motivo mais do que nobre: ganhar mais dinheiro através de um novo serviço de streaming, o Tidal.

Streaming é, hoje em dia, um big business. Não existe a menor duvida de que ouvir músicas através de serviços como Spotify é o futuro e todas as outras opções, seja iTunes ou Torrents, estão ficando obsoletas. Nos EUA e no Reino Unido, os dois principais mercados musicais do Ocidente, streaming já é contabilizado nas paradas oficiais de vendas tanto de CDs quanto de single e, na Suécia, onde o Spotify foi inventado em 2008, mais de 80% do consumo legal de música vem do serviço. A Apple está correndo contra o tempo para lançar sua própria plataforma e a busca por esse segmento foi apontado como um dos principais motivos pelo qual a gigante de Cupertino desembolsou 3 bilhões de dólares pela marca Beats que, além de seus celebres headphones, também tem um serviço de reprodução.

Apesar da concorrência do estado-unidense RDIO e do francês Deezer, o Spotify — disponível em 58 países — é o líder do segmento, mesmo estando presente em menos territórios que os rivais. O serviço, porém, esteve no centro de uma polêmica no final do ano passado quando Taylor Swift, indiscutivelmente a maior vendedora de álbuns e singles nos EUA atualmente, tirou todo o seu catalogo da plataforma; criticou o sistema de royalties da companhia e publicou um op-ed no Wall Street Journal defendendo a importância de se pagar por CDs.

O Spotify, por outro lado, defende que quase todo o dinheiro arrecadado por eles é repassado para as gravadoras. Eles dizem que o valor recebido em royalties é algo que não é decidido por eles e sim pelos selos dos respectivos artistas. E realmente, eles parecem estar falando a verdade, o que explica o porque de, apesar de rendimento superior a 1 bilhão de dólares em 2014 e mais de 10 milhões de usuários pagantes, eles nunca terem dado lucro.

Enfim, o fato é que muitos artistas demonstram descontentamento com o Spotify e afins. Eles afirmam ter pouco controle sobre o material deles na plataforma e reclamam do sistema de pagamento. E realmente, são reclamações justas. Por mais rica que a Taylor Swift seja, não é absurdo que ela espere ter controle e lucro sobre o material que à pertence. E é ai que o “revolucionário” Tidal entra na história: criado, assim como Spotify, na Escandinávia (na Noruega, especificamente), o serviço dá um controle muito maior para os artistas e também mais royalties (até porque todos os presentes hoje na coletiva de imprensa são, aparentemente, co-proprietarios). Mas claro, isso tem um preço bastante salgado para o consumidor: 20 dólares, o dobro do preço cobrado pela versão premium do Spotify.

E o que o público consumidor ganhar com isso? Muito pouco. O maior selling point do Tidal é o fato dele oferecer audio lossless, ou seja, de qualidade perfeita, muito superior ao oferecido pelo Spotify e afins. O detalhe é que quase ninguém tem o equipamento caríssimo necessário para ouvir a diferença no som e, além disso, qualidade perfeita significa arquivos pesadíssimos, uma baita de uma desvantagem para quem escuta esses serviços no celular, já que a maior parte das pessoas não tem internet ilimitado no aparelho e sim algum tipo de plano de dados. O Tidal até oferece um pacote mais barato, de 10 dólares, mas daí a qualidade de som é inferior. Inferior, inclusive, ao oferecido gratuitamente pelo Spotify. Coerência KD?

Obviamente, a maior parte das pessoas parecem ter achado a coisa toda uma palhaçada. A coletiva de imprensa foi uma ego trip absurda, com citações de Nietzche por parte de Alicia Keys e Jay-Z e demais artistas proclamando estarem “fazendo história” e “criando algo revolucionário”. Parece que eles esqueceram que esse treco revolucionário que eles acham que acabam de inventar já existe faz anos e oferece muito mais benefícios para o consumidor. A impressão não poderia ter sido mais negativa: aquele monte de artistas multi-milionários se provando completamente out of touch com a realidade e com o público consumidor de música. A hashtag #TidalForAll, que virou trending topic no Twitter, parecia uma piada com as pessoas, já que 20 dólares por mês definitivamente não é um preço democrático. Além disso, eles parecem não ter se dado conta que a maior parte das pessoas não tem headphones e caixas de som tão hi-tech (que, para eles, deve ser um bem básico e essencial) e, além disso, videoclipes em HD — outro serviço oferecido pelo Tidal — é algo facilmente encontrável no YouTube já faz bastante tempo. Nada da campanha ou do discurso deles foi coerente ou convincente e o serviço, pelo menos até agora, só é potencialmente revolucionário para o bolso deles.

Como se a coisa toda já não fosse ridícula, todo mundo está preocupado com a possibilidade de todos esses artistas que, em tese, têm muito a ganhar com o Tidal tirem seus catálogos do Spotify para tentar forçar o público a optar pela nova plataforma. Obviamente, isso será de uma burrice gigantesca: a maior parte das pessoas que abriu mão de ouvir musica ilegalmente graças ao Spotify iria simplesmente voltar ao Mediafire, ao Zipfile e aos Torrents. O Spotify pode dar menos do que eles acham que merecem mas dá muito mais do que downloads ilegais. Além disso, com a crescente importância de serviços de streaming nos charts britânicos e da Billboard, muitos artistas seriam prejudicados ao limitar seus lançamentos ao Tidal já que, mesmo que ele seja um sucesso, demorará MUITO para ele ter o alcance que o Spotify tem

Enfim, especula-se que os artistas irão oferecer material exclusivo ao Tidal ao invés de tirar as músicas do Spotify. O que é uma opção mais lógica mas mesmo assim meio tosca. Mas enfim, resta esperar para ver o que vai dar…. E nesse meio tempo, torcer para Jay-Z e sua trupe caírem na real. #TeamSpotify

Alias, conterrâneos brasileiros que querem testar a parada, más noticias: o serviço está disponível em 35 países, mas o Brasil não é um deles. Meu conselho é que vocês nem gastem seu tempo com uma campanha de PLEASE COME TO BRAZIL nas redes sociais e baixem logo o Spotify, esse sim revolucionário e que vale a pena o investimento (e não, isso não é um post patrocinado infelizmente. Mas tamos aí qualquer coisa, hein Spotify?).

Read more: as melhores reações no Twitter

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