Kausando na krise: para as Kardashians, o céu é o limite.

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Lembram da época que os reality shows reinavam na TV e na cultura pop americana? Eu cobri bastante esse tempo na primeira encarnação desse blog. Pois bem, esse período acabou: ainda existem dezenas deles no ar mas a saturação fez com que uma parcela considerável do público perdesse o interesse e faz anos que nenhum canal produz uma nova franquia excepcionalmente bem sucedida. Além disso, a quantidade de estrelas de reality fazendo besteira, dando dor de cabeça aos produtores e chefes do canal e colocando as franchises lucrativas que elas protagonizam em perigo não para de aumentar (e, né? That’s what you get quando você dá programa de TV para um monte de gente doida). E todo o esforço que implica em manter os reality stars na linha pode até trazer números bons mas dá zero aclame e prestígio, principalmente se comparado com ficção, e todo mundo sabe que anunciante$$ amam prestígio e odeiam polêmica. Então, as emissoras estão investindo cada vez menos no segmento de “””realidade””” (usando a palavra de forma bem liberal) em função de um maior investimento em ficção (mesmo esses sendo beeeem mais caros de produzir). Afinal, é isso mesmo o que o público está querendo. Isso se reflete na lista dos mais vistos da TV a cabo, antes dominadas por realities, e hoje povoada pelos fenômenos de audiência The Walking Dead (AMC) e Game of Thrones (HBO) e também por Sons of Anarchy (FX); American Horror Story (FX) e diversos outros. Até canais que investiam quase que puramente em reality — MTV, Bravo, E! — estão se rendendo e produzindo séries.

Como baratas depois de um ataque nuclear, as Kardashians — as grandes estrelas dessa era reality que assolou os EUA e o resto do mundo — continuam firmes e fortes. Alias, apesar dos pesares, elas estão mais fortes, mais famosas e mais relevantes do que nunca. Não, elas não passaram incólumes pela crise: Keeping Up with the Kardashians, a nave mãe do fenômeno K, também sofreu com a queda de audiência do gênero e não tem mais os números monstros que obtinha em 2010 e 2011. Por outro lado, elas continuam as grandes estrelas do E! e, dentro da emissora, o poder delas só aumenta: apesar dos números mais discretos, elas são, de longe, a maior audiência da rede que, faz anos, não consegue emplacar nenhum outro reality (a não ser os infinitos spin-offs do klã como Kourtney & Khloe Take Miami; Kim & Kourtney Take New York; Kourtney & Khloe Take the Hamptons etc) e que, ainda por cima, perdeu grande parte das suas outras estrelas rentáveis (com a morte de Joan Rivers, o Fashion Police entrou em caos e, com a saída de Chelsea Handler, o E! não tem mais uma faixa late night altamente lucrativa) fazendo com que a família se tornasse quase que as donas do canal. Já dá para mudar o nome do E! para K!, não acham?

Mas qual o segredo do klã para se manter no topo, mesmo com todas as mudanças no panorama pop? Basicamente, um pacto com demônio uma baita habilidade para dominar a mídia e bombar nas redes sociais. No post a seguir, vamos analisar os três trunfos que tem mantido a família no topo da cadeia alimentar das celebs, mesmo depois de 7 anos (!!) de superexposição. Quer saber o segredo? Então continue reading.

Kausando na krise: para as Kardashians, o céu é o limite

Trunfo 1: Kim Kardashian-West

Em termos de audiência, Keeping Up atingiu o ápice ao mesmo tempo que a cafonice de Kim, a estrela da família, também estava em seu apogeu. Naquele então, depois de diversas desilusões amorosas (em contraste com suas irmãs que estavam em relações estáveis), ela estava prestes a se casar com Kris Humphries — um jogador de basquete mais conhecido pela sua associação com ela do que pelo seu talento nas quadras — e nada era off limit para as câmeras. O casamento, que foi exibido como um especial de duas partes, foi pavoroso em todos os sentidos: desde sua decoração uninspired noveau riche  e lista cheia de celebridades duvidáveis (Lindsay Lohan, Lance Bass, Avril Lavigne) até o fato dele ter sido completamente planejado e estruturado não como uma cerimônia, mas como um especial de TV, com câmeras e microfones em todos os cantos e o local parecendo mais um estúdio do que um recinto apropriado para a boda em questão. Até o nome do especial record-breaking era brega: Kim’s Fairytale Wedding: A Kardashian Event (O Casamento de Conto de Fadas da Kim: Um Evento Kardashian). Tudo culminou, claro, no maior trainwreck de todos: um divórcio depois de 72 dias.

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Um amor de capa de revista (de fofoca)

Mas, breguice a parte, em termos de rentabilidade, as Kardashians estavam no ápice e estava todo mundo se beneficiando. O especial do casamento bateu recordes históricos de audiência para o E!. A revista People, que comprou os direitos de cobertura da boda por 1.5 milhão de dólares, obteve uma de suas melhores vendas do ano com a edição dedicada ao noivado e também bateu recorde de acessos em seu site, provando que fez um bom investimento. Mas, né? Kafonice vende. Mas a curto prazo.

O furacão de bad publicity que veio com o divórcio relâmpago foi uma oportunidade de renascimento para Kim. Pouco tempo depois, ela apareceu com Kanye West aos seus braços, uma estrela A-list legitimamente respeitada no meio artístico e com talento incontestável. É beeeeem debatível o quanto essa associação beneficiou Kanye (na minha opinião, nem um pouquinho. Muito pelo contrário) mas para Kim, por quem ele era reportedly apaixonado fazia anos, foi pura benção. E, para quem duvidava da seriedade da coisa, poucos meses mais tarde ela estava grávida do seu primeiro filho, para histeria dos veículos de celebridade e dos fãs.

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Um amor de capa de revista (de moda)

Por mais que ela se enfeitasse de grifes dos pés a cabeça e tivesse milhões de fãs, Kim nunca teve acesso ao mundo da elite fashion, que sempre a considerou muito low-class (compreensivo). Tudo mudou pós-Kanye. Agora, ela pode ser vista na primeira fila de todos os desfiles mais cobiçados e exclusivos de Paris, Milão e Nova Iorque (sempre ao lado do amor) e também em campanhas de maisons de luxo (a da Balmain, junto com seu beau). Ela é amicíssima de Ricardo Tisci, head designer da Givenchy e amigo de longa-data de West e presença confirmada anualmente no MET Ball, o evento de gala mais prestigioso e midiático do mundo da moda, organizado por Anna Wintour e que consegue atrair absolutamente toda a nata fashion global. Alias, era inimaginável Wintour ser vista com Kim no passado mas agora, com Kanye ao seu lado, elas até saem para jantar juntas e, o maior tapa na cara de todos, os pombinhos foram capas da Vogue, a revista mais it e exclusiva de todas (diferente da People, que vendeu bem acima da média com a cobertura do primeiro casamento fairytale cafona, a edição da Vogue com Kim e Kanye ficou abaixo do esperado. Oops. Mesmo assim, Kim já emplacou, sozinha, mais duas capas internacionais da revista: na Austrália e aqui no Brasil).

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Mesmo pré-Kanye, Kim já estava começando a infiltrar as capas das revistas femininas mais respeitadas — Cosmopolitan; Glamour; Allure — afinal ela era uma celebridade por demais rentável para ser ignorada. Mas ninguém imaginaria que ela chegaria na Vogue. E, sem Kanye, ela provavelmente nunca chegaria mesmo. Isso sem falar que agora ela é queridinha das revistas da moda indie e de vanguarda: quem não lembra da capa da revista Paper que broke the internet? A Love também lucrou com uma capa e sessão cheia de fotos de Kim nuazinha em pelos e algumas poucas imagens onde ela estava vestida (estilizada por ninguém menos que Miuccia Prada).

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Kim Kardashian-West na front row no NY Fashion Week, ao lado de Bey e Anna Wintour: o mundo dá voltas

Para quem duvida do overhaul pelo qual a imagem de Kim passou basta contrastar o seu casamento com Kanye, em 2014, com o primeiro “fairytale wedding” dela, três anos antes. A boda com Humphries foi cafonérrima, numa tenda improvisada que mais parecia um estúdio. A com West teve um rehearsal dinner no Palácio de Versalhes e a cerimônia foi em Florença. A com Humphries só existiu para ser um especial brega de TV. A com West até foi tema de um episódio especial do programa mas num tom completamente diferente: nenhuma cena do casamento em si foi ao ar, só dos momentos que o antecederam. Os preparativas foram filmadas não por câmeras profissionais mas sim de maneira amadora, pelas próprias integrantes da família A exceção foi um jantar na vila de Valentino, um dos estilistas mais top e respeitados no universo, que foi filmado por câmeras de cinema. A estrela mais relevante do casamento com Humphries (além da própria família, óbvio) foi provavelmente Demi Lovato. Já na união com Kanye teve Beyoncé e Jay e…. oops, nem teve. O power couple não foi na cerimônia, o que fez a imprensa ir a loucura (principalmente porque eles estavam de férias e não tinham nenhum compromisso) mas, bem, mesmo assim pode ter certeza que a guest list foi bem mais star-studded que o anterior. Isso sem falar em North West, ou Nori, a filha lindissima que eles tiveram juntos e adoram exibir com as roupas mais elegantes e avant-garde possíveis. E Kim ainda está na espera de um segundo baby, que, claro, garantirá bastante cobertura e histeria pelos próximos meses.

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Baby fofo e estiloso: check (sempre desfilando com marcas de alto luxo. O tutu é Balmain).

A mudança de Kim é bem representativa de toda a fama dela: é puramente superficial. Assistindo o programa ou lendo entrevistas, você vê que, enquanto ela está mais bem vestida do que nunca, por dentro, ela não mudou absolutamente nada. Mas ser superficial, claro, é a parada dela. E num mundo de redes sociais e de narcisismo no Instagram, Kim sempre esteve muito a frente do seu tempo. Selfie, é definitivamente a buzzword dos últimos anos, uma das palavras que melhor descrevem o mundo contemporâneo. E poucas pessoas representam esse mundo tão bem quanto Kim. Não á toa, ela considera as selfies dela uma art form e até lançou um livro, Selfish, com todas as melhores fotos. Bravo. Ela tá certíssima mesmo, selfies são, para bem ou para mal, a representação artística dos tempos contemporâneos e ela, claro, é a estrela maior, ou pelo menos mais comentada, dessa era, sendo a segunda pessoa mais seguida do Instagram (perdendo apenas por alguns poucos milhares para Beyoncé), com quase 36 milhões de followers.

A popularidade dela no Insta não é por acaso: ela sabe usar o aplicativo com maestria, sempre causando burburinho com suas postagens. Hoje em dia, o Instagram de Kim é um glimpse tão fiel e detalhada da sua vida quanto o reality show (ou seja, bem pouco fiel mas fiel o suficiente para satisfazer milhões de pessoas). E o portrait oficial do casamento dela com West é a foto mais curtida da história do app (foram 2.4 milhões de likes até o momento).

O crescimento de Kim nas redes sociais é um reflexo da ascenção de sua popularidade global. Aqui no Brasil, ela é um sucesso entre as blogueiras, tem linha de roupas a venda na C&A e está até na capa da Vogue Brasil de junho. No Reino Unido, Keeping Up with the Kardashians é um verdadeiro fenômeno e a fama está se espalhando também pelo resto da Europa. Na França, por exemplo, Kim já é uma fixture na capa de todas as revistas de celebridade.

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Kim e Kanye estrelando a campanha de primavera da maison de luxo francesa Balmain

A influência de Kim nos padrões de beleza e estilo globais é mais que notável: o look mega maquiado, e contornados (que, alias, é o novo fenômeno do mundo de make); os cílios postiços; o corpo mais curvilíneo, com medidas mais amplas (muito mais identificável para uma grande parcela do público feminino que o padrão magérrimo tão predominante na mídia). O visual Kim, tão gigantescamente popular, é um fenômeno porque ele pode ser comprado (na forma de maquiagem) e pode ser adaptado por mulheres de todas as etnias — negras, brancas, asiáticas, latinas — e dos mais variados tamanhos. É um look unapologetically  artificial, sexy e chamativo: o objetivo não é exaltar sua beleza natural e sim criar um novo você, mais exótica, mais provocante, mais confiante. E, bem ou mal, isso ressoa com milhões de mulheres em todo o mundo o que faz com que, cada vez mais, Kim Kardashian seja um ícone global mais forte. Então preparem-se, pois ela irá reinar por mais bastante tempo.

(Um parentese final para eu explicar o porque, apesar de respeitar o hustle deles, eu não gostar muito de Kim ou do power couple Kimye. Quem não gosta de mimimi ou é muito fanatiko sugiro pular.

Começando pelo Kanye. Sempre fui enorme fã dele mas, ultimamente, ele está insuportável. É triste e muitas vezes eu olho pra ele e penso “amiga, por favor, me ajuda a te ajudar”. Em termos de career move esse power couple é péssimo (não, não é brilhante ala Bey-Z). Realmente, ele nunca esteve tão presente na mídia (bom, pelo menos não desde que ele roubou o microfone da Taylor Swift) mas te garanto que ninguém será estimulado a comprar os CDs dele por isso e, pelo contrário, muita gente que compra ficará com um pé atrás (e não é como se Kanye já não fosse mega ultra hiper famoso entre o music buying public e a juventude americana). Mas não é nem isso que me deixa mal (as long as he keep releasing good tunes) e sim o fato de que ele realmente perdeu totalmente a noção. Ele já comparou “a perseguição que as celebridades vivem hoje em dia ao que os negros sofriam nos anos 60” (uma das coisas mais tasteless que eu já ouvi saindo da boca de uma celebridade) e disse que a Amber Rose (essa sim digna de respeito), a ex dele, era uma “puta” e que ele teve que “tomar vários banhos” para se ‘limpar’ dela pois Kim é muito mais alto nível (nojento, machista e, né? Zero self-aware). Alias, a maneira que ele fala sobre Kim, em geral, é nojenta. Desafio qualquer pessoa a achar ele dando qualquer declaração positiva sobre ela que não esteja diretamente relacionada ao superficial e a beleza física dela. Nunca. É óbvio que ele trata ela como um bibelô e um projeto.

E Kim, claro, está mais do que feliz de ser tratada assim. Já vi muita gente legal e até sites feministas bons projetando na Kim algo que não existe. Kim não é um ícone feminista e nunca fez nada pela causa. Alias, ela nunca fez nada por nenhuma causa que não seja ela mesmo. Sim, ela tem inegáveis habilidades de causar no Instagram e se manter linda e, sim, ela é bastante trabalhadora e disciplinada. Porém me desculpem mas, como alguém que de fato assistiu ao programa e lê muitas entrevistas e reportagens com ela (eu sou um pop culture junkie, gente) posso afirmar com convicção que dizer que ela é vapid, superficial e bem, mas bem limitada, não é nenhuma injustiça.

E outra coisa, eu conheço Kim desde os tempos que ela era amiga de Paris Hilton, antes mesmo da sex tape e anos antes do reality que a transformou em estrela existir. E olha, deixa eu falar: aquela sex tape foi vazada pela própria. Eu lembro perfeitamente da cobertura pré-anuncio do “vazamento” e até o PageSix, lá naqueles tempos jurássicos, deu blind item dizendo que ela estava por detrás. Além do obvio, né? A fita não estaria no mercado sem a autorização dela. Isso é legalmente impossível. E tipo, eu não quero slut-shame ela ou sugerir que ela deveria estar envergonhada por ter ela própria lançado a fita (muito pelo contrário. Deveria tá orgulhosa pq, pqp, esse tipo de fama era tudo que ela queria e ela obteve com maestria) mas, por favor, nada de mimimi ícone feminista criou um império mesmo tendo sido vitima e tido sua privacidade violada porque não, isso não aconteceu (lembrando que o vídeo nunca vazou na internet. A primeira vez que ele foi lançado na integra foi em DVD, pela Vivid Entertainment, e isso nunca poderia acontecer sem a expressa permissão da linda).

“Nossa quanta frescura, ela é divertida, o programa é bom, pq levar tudo tão a sério?” Newsflash: levar cultura pop a sério é tipo o conceito do blog. E bom, essa é minha opinião sobre Kim e sorry but not sorry. Se vocês quiserem ler um post legal com uma opinião distinta, sobre porque a Kim é uma boa influência, recomendo esse aqui, da blogueira Thereza Chammas, que foca no outro lado da moeda do furakão K. E daí eu tenho que concordar com ela: bem ou mal, esse padrão Kim tem sim seu lado positivo e, a sua maneira, empodera e inspira muitas mulheres no mundo todo. E isso é bastante positivo).

Trunfo 2: o poder adolescente da nova geração

Kendall e Kylie Jenner

Além de Kim, as estrelas de Keeping Up sempre foram as duas outras irmãs mais velhas, Kourtney e Khloé. Todos os principais produtos do império Kardashian — linha de roupa feminina; linha de roupa para bebê; produtos de beleza, etc — levavam a assinatura das três e, realmente, elas foram essenciais para transformar o programa no fenômeno que ele virou. Kim pode ter porte, ar e comportamento de superstar mas tem zero personalidade, algo que as irmãs têm de sobra. Sem elas, o reality nunca iria para frente.

Apesar disso, Kourtney e Khloé parecem estar cada vez mais afastadas do holofote.  Kourtney possivelmente por escolha própria. Ela tem três filhos e parece estar meio over desse cirko todo. Já Khloé ficou sem nenhum ângulo midiático vendável com o fim do seu casamento com o jogador de basquete Lamar Odon. Khloé e Lamar tinham seu próprio bem-sucedido spin-off e todo um mini-império (até perfume eles tinham, chamado, irônicamente, de Unbreakable Love. Ele segue a venda, alias) mas um dia, sem aviso prévio, o casamento acabou. De maneira feia, com acusações de que ele abusava de heroína (!) e crack (!!) e a traia (o que mostra que esses reality shows não chegam nem a scratch the surface da realidade porque não dava nem para suspeitar o que estava acontecendo ao longo dos 20 episódios do programa). Desde então, Khloé perdeu o sentido marketeiramente falando (a única coisa que ela tem para vender é perda de peso o que, a essa altura, já é meio repetitivo). Mas, por sorte, duas novas estrelas emergiram na família: Kendall e Kylie Jenner, as irmãs caçulas, de 19 e 17 anos respectivamente, filhas do segundo marido da matriarca Kris, o ex-medalhista olimpico Bruce Jenner (e sim, eu vou falar dela ainda).

Garotas adolescentes sempre foram uma parcela gigantesca do público das Kardashians. E essas garotas sempre viram Kendall e Kylie como uma representante delas ou, pelo menos, do que sonhavam ser: garotas adolescentes normais e unidas, no meio daquele kaos glamuroso e aspiracional que era a vida familiar delas. Mesmo tendo um papel muito limitado durante uma grande parcela dos episódios, ambas as meninas, que sempre foram super próximas, chamavam a atenção de um segmento grande das fãs do programa (principalmente Kendall, que sempre foi muito bonita).

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Claro que, esperta do jeito que é, Kris Jenner, a momager (mãe/empresária) de todo o klã, não demorou para começar a capitalizar com o sucesso das caçulas. Ambas eram sempre vendidas juntas, aparecendo unidas nas capas das principais revistas adolescentes e lançando produtos em conjunto, alguns que davam certo (linha de roupas) e outros que não tanto (livros de ficção sobrenatural “escritos”  por elas. Risos entretodos. Quem achou que alguém ia cair nessa?).

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They made it!: elas invadiram a capa dos tablóides duvidáveis, pré-requisito para uma Kardashian bem-sucedida

A medida que elas iam se aproximando ao fim da adolescência, Kendall, a mais velha das duas, começava a se destacar cada vez mais. Até que, um dia, sua carreira como modelo deslanchou. Diferente de Kim, que teve que suar para ser aceita pela elite fashion, as portas se abriram para Kendall uma atrás da outra. Ela desfilou em todas as passarelas mais cobiçadas de Paris, Milão, Nova Iorque e Londres — Chanel; Fendi; Marc Jacobs; Givenchy; Balmain; Oscar de la Renta; Diane von Furstenberg; Alexander Wang — e emplacou campanhas da Givenchy; Karl Lagerfeld; Fendi e Marc Jacobs. Ela apareceu na capa da Vogue China (ao lado do superstar local Kris Wu) e também da Love (nomeada como a it girl da temporada); da Dazed & Confused; Garage; Interview; Harper Bazaar; Teen Vogue; GQ e Allure.

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GQ (maio/2015); Allure (março/2015); Teen Vogue (setembro/2014)

Capas de revistas e desfiles e campanhas das grifes mais luxuosas do mundo dão prestígio. Mas o que dá dinheiro — dinheiro mesmo — são campanhas de marcas grandes e, principalmente, de grandes conglomerados de beleza. E Kendall conquistou isso também, ganhando uma fortuna ao ser contratada para ser o rosto da gigante dos cosméticos Esteé Lauder. Ela ainda faturou uma segunda lucrativíssima campanha ao assinar com a Calvin Klein, numa campanha que fazia referência ao icônico anuncio estrelado por Kate Moss no começo dos anos 90.

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Interview (novembro/2014); Love (primavera/2015); Dazed & Confused (inverno/2014)

Mas o que fez com que Kendall despontasse tão gigantescamente — e com tanta facilidade — no mundo fashion? É inegável que ela é linda e tem proporções de modelo mas ela está muito, muito longe de ser excepcional (ela só tem uma expressão facial e expressividade é tipo o minimo que se espera de uma modelo). A chave para entender a fama de Jenner, além das suas proporções perfeitas, é simples: uma fanbase gigantesca, construída graças ao sucesso de Keeping Up with the Kardashians, e uma presença fortíssima nas redes sociais.

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Vogue China (julho/2015); Harpers Bazaar (maio/2015); Miss Vogue Australia (dezembro/2012)

As redes sociais são uma prioridades enorme para qualquer grande marca, incluindo as grifes de luxo. Uma modelo ter um following considerável no Instagram é, de fato, um parâmetro de julgamento importantíssimo para muitos bookers e, hoje em dia, as principais agências escoltam diretamente do aplicativo. Ter uma conta popular, com milhões de seguidores, é quase tão importante para uma top quanto aparecer em desfiles e campanhas badaladas. O Instagram tem um papel tão importante no mundo fashion que as InstaGirls, as modelos que bombam muito no app, foram capas da edição de setembro da Vogue do ano passado (a edição de setembro da Vogue americana, claro, é a bíblia sagrada da moda mundial). Cara DeLavigne, a principal it girl fashion hoje em dia,  apontada como a sucessora de facto de Kate Moss (e amiga de Kendall), construiu sua fama com a ajuda das redes sociais.

Já deu para entender a importância do Instagram, né? Pois bem, nenhuma modelo no planeta tem um following tão gigantesco quanto Kendall Jenner, que, com mais de 28 milhões de seguidores, é a sétima personalidade mais seguida no aplicativo. Tudo que ela posta por lá — incluindo os desfiles que ela faz e as marcas que ela anuncia — tem repercussão imediata entre as milhões de fanáticas jovens que ela tem espalhadas pelo mundo. E isso sem contar os 11 milhões que a seguem no Twitter e os mais de 8 milhões que a curtiram no Facebook.

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Kendall Jenner debuta como o rosto da gigante Estée Lauder

Se você duvida do poder de Kendall, basta ver o que ela fez pelas companhias da qual ela é garota-propaganda. Antes de anuncia-la como o rosto da marca, a Estee Lauders tinha 250 mil followers no Instagram. Alguns dias depois do anuncio, em novembro do ano passado, a gigante de beleza já tinham ultrapassado 300 mil e, atualmente, são 535 mil seguidores. Mas isso não é nada comparado com a exposição que eles recebem quando promovidos na conta oficial de Jenner: uma foto do primeiro anuncio dela para a companhia, revelado semana passada, alcançou 1.1 milhão de likes em menos de 2 dias. Já uma foto dela exibindo sua cueca Calvin Klein acumulou 1.2 milhão de likes e cada uma das duas fotos dos outdoors gigantes dela postos pela marca em Nova Iorque também alcançaram o mesmo número.

Essa influência todo se estende até as amigas. Aparecer frequentemente no Instagram de Kendall ajudou a fazer de Gigi Hadid, de 20 anos, uma das modelos mais bem pagas do mundo graças aos seus contratos com a Garnier e com a Guess?. Mas Gigi, é verdade, já era uma modelo on the up quando começou a aparecer proeminentemente ao lado de Jenner. Esse, porém, não era o caso de Hailiee Baldwin, filha de Stephen (irmão de Alec) e melhor amiga de Jenner, que, apesar de ser uma aspirante a modelo, nunca emplacou nenhuma grande campanha ou desfile. O fato dela aparecer o tempo todo no Instagram de Jenner — e nada mais além disso — ajudou ela a se transformar na 15ª modelo mais googlada em 2014, acima de Joan Smalls e Karlie Kloss, duas das top models mais bem pagas do planeta. Jenner, por sua vez, ficou em segundo lugar, perdendo apenas para Kate Upton (catapultada ao topo, sem duvida, com a ajuda das fotos intimas que vazaram dela).

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Como o rosto da Calvin Klein Jeans em um outdoor gigantesco no Soho, em NYC

Enquanto Kendall virava uma sensação in its own right, Kylie ficou ofuscada e quietinha por um tempo. Até que, um belo dia, ela apareceu completamente diferente, com um rosto mais maduro, um estilo mais edgy e, o mais chocante, lábios carnudos e sexies que, até então, ela nunca tinha tido. Esse foi o momento divisor de águas para Kylie: daí em diante, ela explodiu em popularidade.  As especulações em relação ao que diabos ela tinha feito impulsionaram a menina ao megaestrelato e seus lábios misteriosamente mais cheios viraram um fenômeno a parte: a página dos mais populares do Pinterest sempre tem algum tutorial ensinando garotas a conseguirem um efeito similar; dezenas de produtos que foram apontados como a explicação por detrás do milagre viraram hits e ela influenciou desde tags no Instagram até novas tendências no mercado de cirurgias plásticas, isso tudo antes mesmo de atingir a maioridade.

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Kylie Jenner: o antes e depois

Diferente de Kendall, Kylie é mais polêmica: além dos lábios (que ela finalmente confirmou que foram modificados por fillers — duh — num episódio recente de Keeping Up), ela também causou burburinhos com o seu namoro com o rapper Tyga, de 25 anos (ela tem apenas 17), que tem um filho com Black Chyna. Chyna, que costumava ser amiga de Kim, hoje em dia vive dando alfinetadas no seu ex e na sua namorada adolescente nas redes sociais

Mas não é só de polêmica que Kylie vive. Ela é legitimamente mais identificável para garotas jovens que sua irmã, afinal, ela não é uma top model magérrima de 1.80 metros. Ela sofre com inseguranças e costuma ser franca em relação a isso em suas redes sociais. Ela é estilosa e, claro, vive uma vida cheia de glamour com, aparentemente, bem menos obrigações que sua atarefada irmã modelo (o que, aos 17 anos, não chega a ser um crime). E, graças a isso tudo, ela conseguiu se destacar e sair da sombra do resto da família. Hoje em dia, ela é a oitava personalidade mais seguida do Instagram — e a terceira dentro do klã, atrás apenas de Kim e Kendall — com 26.1 milhões de seguidores. Ela também tem 9.71mi followers no Twitter e 6.6 milhões de likes no Facebook. Provando que tudo isso dá bastante dinheiro, a menina acaba de comprar sua própria casa: ela pagou 2.7 milhões de dólares pela propriedade, quatro meses antes de completar 18 anos.

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OK!, sendo shady e reaproveitando chamadas de capa

Provando que ela é agora uma legitima estrela, Kylie transcendeu as revistas de fofoca e fez seu debut como cover girl de uma grande publicação na edição de fevereiro de 2015 da Cosmopolitan, a revista feminina com maior circulação dos EUA. Ela também emplacou, sozinha, a capa da edição de maio da Teen Vogue e já assinou seu primeiro grande contrato publicitário (bizarramente, para uma marca anti-rugas). Está mais que claro: aos 17 anos, Kylie é oficialmente mais uma superstar Kardashian.

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“Hot tips for Hot lips” (dicas quentes para lábios quentes), anuncia a Cosmo em sua capa

Apesar de serem worth milhões de dólares individualmente, Kendall e Kylie ainda tem projetos em conjunto, como a linha de roupa que leva o nome delas e é vendido na  Pacsun e uma segunda linha em conjunto com a maior fast-fashion jovem do Reino Unido, a TopShop. É a primeira colaboração da gigante do varejo com celebridade desde a icônica linha produzida por Kate Moss em 2007. E se você acha isso pouco e quer mais, não se preocupe: o E! está desenvolvendo um reality solo para as irmãs.

Trunfo 3: Bruce/Caitylin Jenner

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Caitlyn Jenner faz sua grande estréia na Vanity Fair de julho de 2015

Finalmente, chegamos ao trunfo final, e provavelmente um dos top assuntos com mais repercussão da atualidade: a tão comentada transição de Bruce Jenner, agora oficialmente Caitlyn. E bom, acho importante já deixar claro que estou usando a palavra trunfo porém tenho total consciência que ela é redutiva: de maneira alguma tenho a intenção de sugerir que a transição de Caitlyn foi um stunt ou que a decisão — extremamente corajosa e historicamente importante para o movimento LGBT — tenha sido impulsionado por desejo de aumentar o profile das Kardashians (que, pelo menos nesse tópicos, são meras coadjuvantes). Incluo Caitlyn aqui porque ela é um exemplo importantissimo do impacto duradouro da família Kardashian na mídia e na sociedade em geral.

Caitlyn, claro, nasceu Bruce e foi casada com Kris, com quem teve Kendall e Kylie. Ela apareceu proeminentemente em todas as temporadas de Keeping Up with the Kardashians e fazia o papel do pai, meio a margem de toda aquela loucura que era a vida da família e um pouco overwhelmed por todas aquelas mulheres. Já faz bastante tempo que os procedimentos estéticos dela eram motivo de chacota e confusão e, de uns anos para cá, a indústria de fofoca começou a propagar que Bruce tinha intenção de mudar de sexo. Depois do divórcio com Kris no fim do ano passado, a boataria atingiu o ápice e a notícia de que ela teria ido num cirurgião, com o objetivo de tirar o pomo de adão, fez com que as principais revistas de fofoca dessem a transição como certo. Naquele então, o assunto era tratado sem nenhuma delicadeza e era motivo de piada entre comediantes, apresentadores de talk shows e do público em geral. Até que todo mundo se silenciou com o anúncio de que Jenner revelaria algo “muito importante” numa entrevista com Diane Sawyer, uma das jornalistas mais respeitadas dos EUA.

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Antes do anuncio oficial, Jenner era motivo de chacota na imprensa de fofocas

“Não pode ser”, muitos pensaram, acreditando que a entrevista seria só mais um stunt. Mas, no dia 24 de abril, a entrevista finalmente foi ao ar e era oficial: Bruce Jenner era transsexual e iria oficialmente começar a viver a vida como uma mulher, depois de décadas de negação e sofrimento. A entrevista de 1 hora, extremamente educativa e bem feita, bateu recordes históricos de audiência: 17 milhões de espectadores, a maior audiência para um programa jornalístico em 15 anos. Foram mais de 20 milhões uma vez que a audiência delayed — aqueles que gravaram em DVR e assistiram ao longo dos três dias seguintes — foi contada.

A entrevista foi longa, detalhada e bem-feita mas Jenner guardou duas exclusivas: qual seria seu novo nome e como ela ficaria pós-transição. Isso só foi revelado, em grande estilo, no dia primeiro de junho, quando a capa da Vanity Fair de julho foi divulgada, mostrando a ex-atleta olímpica fotografada pela primeira vez em roupas femininas. A manchete, “Call Me Caitlyn“, anunciava oficialmente seu novo nome. No mesmo dia, Caitlyn fez seu debut no Twitter e quebrou recorde ao atingir 1 milhão de seguidores em apenas 4 horas. Ela também estreou no Instagram e o E!  se aproveitou de todo o buzz para divulgar as primeiras imagens do novo reality do canal, I Am Cait.

A coragem de Caitlyn foi aplaudida pela maior parte do público e ela receberá uma homenagem especial no ESPY Awards, a principal premiação esportiva dos EUA, organizado pela emissora ESPN. A transição de Jenner foi um momento histórico para visibilidade trans a nível global e foi, até o momento, o ápice de um movimento de aceitação que ganhou muito momentum nos últimos tempos graças a, entre outros, a atriz Laverne Cox, de Orange is the New Black, e o premiado seriado Transparent (mostrando a importância da cultura pop para o debate de assuntos de extrema importância). Além da homenagem no ESPY, especula-se que Cait assinará um lucrativo contrato com a marca de cosméticos MAC para ser uma das novas garotas-propagandas da companhia (transgêneros como garotas-propagandas de marcas de beleza, alias, são cada vez mais comuns).

As Kardashians, claro, protegeram a exclusividade delas. Kendall e Kylie foram as únicas filhas biológicas de Caitlyn que não apareceram no especial da ABC News (um statement por escrito, assinado por elas, foi lido por Diane) e Kris também foi a única ex-esposa que não gravou depoimento. Jenner descreveu a reação das suas stepdaughters Kardashian mas elas também não apareceram no vídeo.

O motivo? O contrato de exclusividade delas com o E!. A reação das K à transição de Caitlyn foi tema de dois episódios especiais entitulados About Bruce e exibidos em maio, entre a entrevista com Diane Sawyer e a capa da Vanity Fair. Foi uma introdução ao que estava por vir, como o programa de Jenner, que tem estréia prevista na emissora para o dia 26 de julho. Se a inicial com C for indicação de algo é que Cait quer se distanciar, pelo menos um pouco, do furacão K. Mas, no final das contas, é difícil separá-la da família mais midiática dos EUA, afinal, apesar do seu passado olímpico, o motivo pelo qual ela é tão high profile atualmente e sua transição foi uma notícia tão gigantesca está diretamente relacionado a Kim  & cia.

E acho que isso exemplifica bem o efeito Kardashian no mundo atual: para bem e para o mal; para o superficial e para o social; para o futil e para o historicamente importante, tem Kardashian em tudo. E assim, o klã vai deixando sua marca na história e provando, uma vez por todas, que elas têm sim talento. O talento de, ao longos dos anos, manter o interesse do público. E, hoje em dia, pelo menos no mundo dos famosos, esse é provavelmente o talento mais importante de se ter, acima de qualquer outro.

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