De olho nas paradas da Europa: Reino Unido

O impacto do streaming

O Reino Unido, assim como os EUA, está sempre a frente do resto do mundo quando o assunto são tendências do consumo de musica. Enquanto, até hoje, o resto da Europa ainda está fazendo a transição para o digital, o país adotou quase de imediato o iTunes, inaugurando uma nova era nas paradas já a partir de 2004. Da mesma forma, a população rapidamente migrou para o streaming e, esse ano, o Spotify e Apple Music se consolidaram como os principais métodos de consumo de música do país.

Um dos efeitos colaterais da adoção em massa do streaming foi que a parada de singles ficou muito menos dinâmica. Antes, ela refletia o que as pessoas estavam comprando e, apesar de que algumas músicas ocupavam o topo por meses, existe um certo limite de tempo que uma música pode ser a mais vendida. Hoje em dia, porém, com o crescimento das plataformas pagas de reprodução, ela reflete principalmente o que as pessoas estão ouvindo. E, nesse caso, o tempo que o público leva para superar uma música é muito, muito maior.

Em 2015, a essa altura do ano, 20 músicas tinham encabeçado a parada de singles britânica. Em 2014, 32. Em 2016, com o streaming totalmente consolidado, chegamos a outubro com apenas oito músicas chart toppers.

Quase todos os número 1 são músicas que foram hits globais. A maior de todas foi, unsurprisingly, One Dance de Drake que ocupou o topo por históricas 15 semanas.  Ao longo de todo o mês de setembro, a parada foi encabeçada por Closer dos Chainsmokers com Halsey, assim como todo o resto do universo. Outros sucessos desse ano incluíram I Took A Pill In Ibiza de Mike Posner; Love Yourself de Justin Bieber; Cold Water do Major Lazer (com Bieber e MØ); o primeiro single do ex-1D ZAYN, Pillow Talk e 7 Years, da banda dinamarquesa Lukas Graham.

Um comeback inesperado

Mas, no meio de um monte de sucesso que refletiu com exatidão as paradas de grande parte do resto do mundo, um number 1 hit atípico emergiu na última semana: Say You Won’t Let Me Go de James Arthur.

Em termos de melodia e letra, a música se adequa a um gênero que eu chamo de Ed Sheeran/Sam Smith pop, também conhecida como white guy with a guitar: acústica, com produção minimalista e letra pseudo sentimental. Dado o sucesso de Sheeran, Smith e afins, ninguém duvida da rentabilidade do gênero. Mesmo assim, o sucesso imediato da canção é enormemente impressionante, afinal o intérprete está longe de ser um nome gigantesco ou com grande buzz em torno dele. De fato, ele tem uma história bem complicada.

James Arthur foi o vencedor da nona temporada do The X Factor, em 2012. Naquele então, o programa já não era mais o fenômeno imparável de alguns anos antes mas seguia sendo um sucesso bem maior do que é hoje em dia. Com seu jeitinho nice edgy guy next door, Arthur se destacou, ganhou a edição e seu winning single, Impossible, um cover da música de Shont’elle, foi um enorme hit não só no Reino Unido mas também no resto da Europa. Isso foi um fato inédito e bastante surpreendente, dado que a finalidade da canção do vencedor é ser um novelty hit esquecível com alcance limitado aos países onde o programa é exibido (Reino Unido e Irlanda).

Mas a música de James Arthur foi bem mais longe. Para começar, foram vendidas 1.3 milhão de unidades no Reino Unido, um recorde histórico para um ganhador do programa. Dado que The X Factor estava longe do seu ápice, era extremamente notável que ele superou  lançamentos de nomes como Leona Lewis (a ganhadora do programa com mais buzz da história) e Alexandra Burke (vencedora da temporada com maior audiência, cujo lançamento do single físico coincidiu com as super promoções de falência da Woolworths, o que impulsionou ainda mais as vendas do seu terrível cover de Hallelujah).

Mais do que isso: a canção foi um enorme sucesso na Austrália assim como na França, Alemanha, Suécia, Suíça, Espanha, Itália e demais países do continente europeu onde o programa que revelou Arthur não é nem sequer exibido. Impulsionado pela canção, o cantor embarcou numa turnê pela Europa cuja venda de ingressos superou todas as expectativas.

Tudo parecia estar encaminhado para o rapaz se tornar um dos mais bem sucedidos ganhadores do X Factor. Mas não foi exatamente o que aconteceu: naturalmente, o burburinho em torno dele diminuiu com o sumiço dele da mídia para preparar seu primeiro álbum mas, quando voltou, foi por péssimos motivos: ele falou mal do programa que o lançou e, pior, do One Direction, a cria mais bem sucedida da atração (e com um fanbase bm intensa). Depois, lançou um rap amador que usava queer (homossexual) como ofensa e atacou os que se ofenderam com o ato. Alvo de muitas críticas, teve uma gigantesca meltdown no Twitter.

A situação pegou tão mal que o iTunes aceitou devolver o dinheiro daqueles que tinham comprado o álbum antes da controvérsia e, desapontados com o comportamento do rapaz, estavam arrependidos.

No fim, as vendas do CD de lançamento dele (menos de 300 mil unidades) não justificaram tamanha bad publicity e e ele acabou sendo liberado do seu contrato com a SYCO, o selo de Simon Cowell dentro da Sony.

Parecia o end of the road para James Arthur. Tudo indicava que ele se juntaria aos outros vencedores do The X Factor cujas carreiras, que pareciam ser cheias de potencial, empacaram. Se nem Leona Lewis, ganhadora da terceira temporada, conseguiu uma carreira longeva — mesmo depois do álbum de lançamento mais vendidos da história do Reino Unido e um single, Bleeding Love, que atingiu o topo até nos EUA — as chances dele se reerguer eram poucas.

Mas,  no dia 9 de setembro, sem nenhuma expectativa, ele lançou Say You Won’t Let Me Go. Todos os olhares estavam em Perfect Illusion, o lead single do novo álbum de Lady Gaga (que fracassou alias) mas, sem performance na TV ou apoio da rádio, foi James Arthur que se estabeleceu na segunda posição do iTunes enquanto Gaga desmoronava no top 10.

Com promoção mínima e poucos streamings no Spotify, que não incluiu a canção em quase nenhuma das suas principais playlists, a canção debutou oficialmente na 25ª posição. Dado que uma estreia no top 40 já seria uma vitória, foi um resultado espetacular.

A semana seguinte seria marcada pelo grande retorno, depois de três anos, de Emeli Sandé — cujo álbum anterior vendeu 2.5 milhões de unidades no Reino Unido — e um novo lançamento do DJ superstar Calvin Harris. Mas quem se consolidou no primeiro lugar no iTunes e deslanchou em streaming? James Arthur, que subiu 23 posições na parada e finalizou sua segunda semana no top 2. Finalmente, essa semana, a canção atingiu o topo no Spotify, desbancando, depois de 1 mês, o smash hit Closer.

A tendência é que as vendas e os streams só aumentem agora que a canção finalmente está sendo incluída na alto rotação das principais estações do país e também nas playlists do Spotify.

A SYCO, vendo esse sucesso todo, prontamente recontratou o rapaz, dois anos depois de tê-lo liberado. No dia 28 de outubro, o novo álbum dele, Back from the Edge, chega as lojas e a companhia fará de tudo para que ele vire a estrela global que ele ensaiou ser em 2012. Apesar do comportamento imaturo em 2012 (e de achar a música dele bastante uninspiring), simpatizo com Arthur e espero que ele alcance seu verdadeiro potencial. Estou na torcida para ele não arruinar tudo.

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