The Great British Fuck Up

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2016 não está sendo um ano fácil no Reino Unido. Para começar, o país decidiu, num voto histórico e apertado, deixar a União Europeia, o que causou a maior crise política da história recente do país, além de muita incerteza e angustia. Como se isso não fosse o suficiente, outra decisão chocante está causando revolta. Em setembro foi anunciado que, a partir de 2017, The Great British Bake Off, o programa de TV mais popular do país, deixará a programação da BBC. A competição de confeiteiros migrará para uma emissora comercial, arriscando assim perder a essência que fez dele um fenômeno.

As duas situações, claro, são bastante diferentes entre si e a comparação tem fins humorísticos. Mas nem tanto assim: o fim da jornada do Bake Off na BBC1 realmente foi uma notícia que, num ano difícil, caiu como água fria na população. Comparações entre a mudança de canal e o Brexit foram lugar comum na mídia e nas redes sociais.

O reality culinário começou sua jornada na BBC2 antes de migrar para o canal principal da emissora pública em 2014, depois de 4 anos de popularidade crescente. Desde então, se estabeleceu como a emissão mais vista do país, obtendo números de audiência que pareciam inimagináveis no cenário fragmentado e concorrido do mundo contemporâneo. A final da temporada passada teve 15.6 milhões de espectadores, de longe a maior audiência de 2015.

Em termos de repercussão, Bake Off ultrapassou o burburinho causado pelo The X Factor em seu ápice, entre 2008 e 2012. Em termos de audiência, também. Como já falei antes, o apelo do programa de competição culinária é oposto ao grandioso show de talento da ITV1: a ausência de drama e exageros.

The Great British Bake Off é um programa relaxante e minimalista, onde os confeiteiros se ajudam entre si, os jurados sempre fazem críticas positivamente construtivas, o cenário é bucólico e em tons pastéis e todo mundo parece estar se divertindo e tirando máximo proveito da experiência. Momentos de tensão ou de conflito são raros e a competição preza por um clima enormemente otimista.

Com sua doçura e celebração da diversidade da população britânica, Bake Off é um antídoto perfeito em tempos de incerteza, xenofobia, recessão e crise política. De fato, a atual temporada, que está sendo exibida pela BBC1 desde o fim de agosto, tem obtido recordes históricos de audiência (algo notável dado os já gigantescos números das temporadas passadas).

A mudança para outro canal coloca em risco toda essa dinâmica, cuidadosamente cultivada pela BBC. Por isso, a notícia foi bastante mal recebida pelo público britânico.

Acabou-se o que era doce?

No dia 12 de setembro, a BBC anunciou, através de um comunicado em tom amargo, que, por decisão da produtora, The Great British Bake Off mudaria de emissora: “Junto com a Love Productions, nós investimos [no programa] e o transformamos no enorme sucesso que ele é hoje. Fizemos uma oferta considerável para mantê-lo na nossa programação mas não chegamos a um acordo monetário. Os recursos da BBC não são infinitos”.

A nota acabava com um apelo: “GBBO é um programa feito pela BBC e temos a esperança de que a produtora mude de ideia para que Bake Off possa continuar sendo exibido sem anúncios na BBC One”.

Mas alas, não era para ser. Algumas horas mais tarde, foi confirmado que o programa mais popular do Reino Unido migraria para o Channel 4. Apesar de também ser um canal público, a emissora é mantida através de publicidade, diferente da BBC cujos recursos são frutos das taxas e do license fee pago pelos cidadãos do país. Sem a necessidade de prestar contas para a população, a emissora ofereceu mais de 25 milhões de libras por ano pelo formato, 10 milhões acima do valor que a Beeb estava disposta a desembolsar. O contrato é válido por 3 anos.

O risco da mudança, porém, era bem claro para todos: modificar a formula ganhadora que transformou o programa em um fenômeno social.

O anúncio da transição mal tinha sido feito e Sue Perkins e Mel Giedoryc, as amadas apresentadoras, confirmaram que não concordavam com a mudança e, por tanto, não continuariam na atração. A dupla, que nunca perde a oportunidade de fazer bem-humorados trocadilhos, divulgou um comunicado em que diziam que não iriam “follow the dough. Dough significa, literalmente, massa de confeitaria mas também é uma gíria para dinheiro.

A decisão firme delas — que não aceitaram nem ouvir a proposta milionária dos donos do formato — foi lamentada mas também bastante elogiada. “Muito respeito as duas”, escreveu o badalado ator e apresentador James Corden no Twitter.

O impacto da notícia ficou ainda mais claro na manhã seguinte: o fim de Bake Off na BBC foi manchete em literalmente todos os periódicos, desde os tabloides como The Sun, Mirror e Daily Mail até os títulos mais sérios e respeitáveis, como o The Guardian e o The Times.

Na semana seguinte, a cartada final: Mary Berry, a celebrada cozinheira e a mais querida dentre os jurados, também confirmou que não iria continuar no programa por lealdade a BBC. Novamente, a decisão causou frustração mas o consenso foi que ela fez a coisa certa. “Eu quero que Mary Berry apareça nas notas de 20 libras”, sugeriu um usuário no Twitter (no começo do ano, foi decidido que o pintor William Turner estamparia as notas). Outro usuário reimaginou a oração do Ave Maria e a dedicou a cozinheira televisiva enquanto mais um concluiu que a saída dela do programa era a prova cabal que o apocalipse tinha chegado.

Com a saída de Mary, foi confirmado que o único integrante original que seguiria na atração era o chef Paul Hollywood, indiscutivelmente o menos popular do time.

Sem suas principais estrelas, a questão na mente de todos é: qual o sentido dessa mudança a longo prazo? Vale a pena desembolsar mais de 75 milhões de libras por um formato e, no processo, perder o elenco responsável por fazer com que o programa seja tão valioso?

São perguntas que a maior parte do público preferiria que não estivessem sequer sendo feitas. Mas, mesmo a contragosto, a partir de 2017 elas serão respondidas.

Read more: Por ser, de longe, o maior programa da TV britânica, a mudança de canal do GBO causou uma controvérsia brutal. Mas o mercado televisivo britânico é enormemente competitivo e feroz e casos como esse não são tão raros. Leia mais  para saber de algumas disputas recentes.

Zona de guerra

Apesar do Bake Off ter sido um caso particularmente devastador, a BBC perdeu duas franquias importantes ao longo do último ano. Uma dessas foi o popular programa de talento The Voice.

O Reino Unido é a terra dos shows de canto. É deles o Pop Idol (que, nos EUA, virou American Idol); The X Factor e Britain’s Got Talent, todos da ITV e que foram, ao longo dos últimos 16 anos, algumas das propriedades mais disputadas do mundo.

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Recentemente, porém, um formato holandês, The Voice, começou a ofuscar fortemente as criações britânicas. O programa — que, a essa altura, todo mundo já conhece — envolvia audiências cegas, cadeiras giratórias e um painel de jurados formado integralmente por mega superstars do mundo da música. A BBC, que nunca conseguiu criar um formato próprio de canto para fazer frente com as propriedades bilionárias do rival, não hesitou em gastar uma fortuna pelos direitos da atração no Reino Unido.

A obtenção dos direitos por parte da emissora pública causou polêmica. Muitos defendem que a BBC não deve ser se pautar por números de ratings nem ir atrás de formatos estrangeiros custosos e hiper comerciais.

A rede pública se defendeu argumentando que precisa de programas de sucesso para manter a relevância e a competitividade e que, além disso, comprou o formato por um custo relativamente baixo. Interessados em ter um prime spot na BBC — e enfrentar a ITV e a sua programação saturada de grandiosas competições de talento — a Talpa, dona do programa, aceitou uma oferta relativamente modesta pelos direitos de adaptação.

A versão britânica do The Voice estreou em 2012 e foi um sucesso de audiência. Apesar de uma estreia com números altíssimos, o programa nunca chegou perto de alcançar a repercussão dos realities de talento da ITV1, mesmo esses estando em plena decadência. Mesmo assim, o programa manteve audiência boa ao longo de suas cinco temporadas, sendo líder no seu horário e atraindo alguns nomes estrelados para o painel de jurados como Will.I.Am e Kylie Minogue.

Mas, em março de 2015, um twist: a ITV tinha desembolsado mais de 1 bilhão de dólares pela Talpa, a produtora holandesa dona do formato. No fim do ano, foi confirmado que The Voice migraria para emissora a partir de 2017, quando o contrato com a BBC expirasse.

O concurso de canto estreará na sua nova casa no primeiro semestre do ano que vem. Por enquanto não existem planos de cancelar a competição estrela da emissora, The X Factor, que, apesar de continuar em queda vertiginosa de audiência, segue sendo um dos carros chefes da programação no segundo semestre.

A ida do The Voice para a ITV — que poderá investir mais dinheiro e ter mais liberdade com o formato — faz sentido e, sinceramente, a BBC não parece estar lamentando muito a perda. Foi uma separação bastante tranquila. Mas, óbvio, nem sempre as coisas são assim. Vide o término entre a Beeb e Jeremy Clarkson.

Clarkson é o apresentador estrela de Top Gear e responsável por transformar o programa de automóveis numa franquia bilionária, conhecida pela sua mistura de humor com ação e com uma produção de deixar qualquer um de boca aberta. Durante anos, Gear foi a maior audiência da BBC2 além de atrair um following gigantesco em todo o mundo e dar origem a lucrativos negócios complementares como turnês mundiais, revistas e outras dezenas de produtos.

O único problema? O próprio Clarkson. Unapologetically politicamente incorreto, o apresentador já se envolveu em centenas de controvérsias, constrangendo enormemente a BBC (que, como já disse, tem que prestar contas ao público). Porém, o sucesso de Top Gear era tanto que, apesar de tudo, a emissora pública estava disposta a relevar.

Mas os escândalos foram piling up e a BBC não teve outro remédio se não dar um ultimato a Jeremy. Claro que isso não o conteve e, no começo do ano passado, ela agrediu um produtor. Foi a gota d’água e a emissora foi forçada a rescindir o contrato dele.

O fim da relação entre Jeremy e a principal estação britânica monopolizou as manchetes do Reino Unido por meses. As outras duas estrelas do programas — Richard Hammond e James May — também optaram por deixar a emissora em lealdade a Clarkson enquanto milhões de fãs assinaram um abaixo-assinado pedindo para que a emissora reconsiderasse sua decisão. Mas não teve jeito: apesar de Top Gear ser a propriedade mais valiosa da BBC, a emissora não tinha como justificar a permanência da figura chefe do programa depois de tantas violações ao código de conduta da instituição.

No fim, a BBC teve que dar um reboot no programa, recrutando um novo time de apresentadores que incluía Matt LeBlanc (o Joey de Friends) e era encabeçado por Chris Evans, uma personalidade enormemente conhecida do público britânico e grande colecionador de carros. Não deu certo. A nova encarnação do Top Gear foi muito criticada, forçando os executivos do canal a voltarem para o drawing board. É claro que a Beeb não vai desistir tão fácil assim da sua propriedade bilionária e mais uma temporada — sem Evans — já foi confirmada.

Enquanto isso, o trio responsável por transformar o programa num fenômeno assinou um contrato de 250 milhões de dólares para recriar a mágica no Amazon Prime, a plataforma de streaming da gigante de e-commerce que não está poupando nenhum centavo para fazer frente ao Netflix. The Grand Tour, o nome da nova versão do programa, estreia em novembro, acompanhado de uma campanha de marketing milionária focada principalmente no Reino Unido.

E, falando em serviços de streaming, o Netflix tem se mostrado um grande aliado das emissoras britânicas — co-produzindo vários programas junto a elas, como Marcella e Paranoid na ITV; Watership Down e Last Kingdom na BBC e Kiss Me First e Crazy Face no Channel 4 — mas também tem causado nervosismo.

O medo de perder os direitos de transmissão prioritária para os abonados rivais está mudando a maneira que os canais de TV locais lidam com suas apostas de ficção. A BBC, por exemplo, tinha uma regra de não renovar seriados até a conclusão da temporada que está atualmente no ar.

Recentemente, essa regra foi mudada: o crime drama de época Peaky Blinders, que tem gozado de grande popularidade no Netflix, foi renovado por dois anos antes mesmo da estreia de sua mais recente temporada, a terceira. O mesmo aconteceu com o procedural drama Line of Duty. O seriado histórico Poldark, que, nos EUA, é streamed pelo Amazon Prime, também teve uma temporada adicional confirmada antes da estreia dos episódios do segundo ano.

E não é só a BBC que está sendo preventiva. O Channel 4 renovou sua elogiada comédia Catastrophe por mais dois anos, também graças ao sucesso da mesma no Amazon Prime.

O motivo para tanta cautela tem nome: Black Mirror. A série antológica e dark, ambientada num futuro distópico, teve duas temporadas no Channel 4, em 2011 e 2013, e um bem recebido especial de natal em 2014. O programa, criado pelo brilhante Charlie Brooker, ganhou repercussão global ao ser adicionada na biblioteca do Netflix. O sucesso foi tanto que o serviço de streaming acabou passando a emissora original para trás ao bancar duas temporadas adicionais.

O C4, que acreditava ter prioridade na renovação da série, ficou enormemente irritado com o snub.

Black Mirror não poderia ser um programa mais Channel 4. Nós apostamos nesse projeto, perigoso e arriscado, e o transformamos numa marca que ressoou globalmente. É claro que ficamos frustrados em sermos ignorados, vendo os direitos de exibição do programa no Reino Unido sendo oferecido para quem pagasse mais”, afirmou Jay Hunt, o diretor criativo da emissora, em março desse ano.

Claro que, agora, esse comunicado soa enormemente irônico considerando o que a emissora fez com a BBC e o The Great British Bake-Off.

O mundo dá voltas…

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