A encruzilhada de Katy Perry

O comecinho do ano de 2017 foi marcado pelo retorno de duas das maiores estrelas recentes da indústria fonográfica: Katy Perry e Ed Sheeran. Enquanto o comeback de Sheeran foi de vento em popa, o consolidando como o maior artista do mundo no momento, a trajetória de Perry foi mais complicada. Mas isso significa que ela está fracassando? Bom, vamos começar pelo começo..

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To the top

Katy Hudson, como era originalmente conhecida, começou como cantora gospel antes de adotar Perry, o sobrenome de solteira da mãe, e fazer a transição para o pop secular. Com seu jeito kitshy with an edge, ela surgiu na cena em 2008 — começando no Wraped Tour, um festival que era reduto dos teen cool e roqueirinhos da época — e rapidamente obteve dois gigantescos hits, o provocativo I Kissed a Girl e a divertida Hot ‘n’ Cold. As duas músicas serviram como blueprint para toda a carreira futura de Katy: letras irreverentes e produções chiclete e pure pop feito pelo duo extraordinário Max Martin/Dr. Luke que se consolidaram como os maiores produtores daquele período.

O segundo álbum — um desafio para qualquer artista — serviu para confirmar KP como uma das maiores artistas do mundo. Com “Teenage Dream”, ela emplacou nada menos do que 5 hits gigantescos — todos alcançando o primeiro lugar nos EUA consecutivamente, um ato até então inédito.  Ambiciosa, Perry não poupou esforços para conseguir seu lugar no A-list da música, promovendo seu CD exaustivamente em todos os principais mercados e levando sua turnê para 5 continentes, com 127 apresentações no total. O período de promoção do álbum, que começou em maio de 2010, englobou um casamento, um divórcio, um relançamento (que deu origem a mais um número 1 nos EUA, a música Part of Me) e um filme documentário em 3D, e só terminou no outono americano de 2012.

O CD seguinte, “Prism”, tinha a missão de confirmar que Katy estava aqui para o long run. Era um projeto tão importante que Dr. Luke — que tinha assinado um contrato de exclusividade com a Sony — conseguiu ser liberado para poder produzir o álbum junto à Max Martin apesar de ser um lançamento da concorrente, Universal.

Repetir o resultado de “Teenage Dream” era quase impossível mas, apesar de não ter alcançado o nível do antecessor, o terceiro CD cumpriu sua função, produzindo mais dois hits gigantescos e inescapáveis para Perry (Roar e Dark Horse), servindo de mote para a turnê mais bem sucedida e lucrativa da cantora e concluindo com algo reservado para pouquíssimos artistas: uma apresentação no evento mais importante dos EUA, o Super Bowl, assistido por mais de metade da população. Assim como no CD anterior, o período de atividade foi bem longo, começando no último quadrimestre de 2013 e finalizando apenas em outubro de 2015. Mas, diferente do antecessor, todos os dois número 1 de “Prism” aconteceram logo no começo do período de promoção. A era, por tanto, não foi sustentada por canções gigantescas — os subsequentes singles tiveram resultados pífios — mas sim pela tour de sucesso.

O presente

O primeiro sinal de que talvez as coisas não estivessem indo tão bem na terra de Katy foi o lançamento do buzz single Rise em julho de 2016. A música, que foi usada como tema para a transmissão das Olimpíadas nos EUA, o evento televisivo mais assistido do verão, ficou bem aquém as expectativas e passou despercebida.

O fato da música ter sido disponibilizada com exclusividade no Apple Music por uma semana foi apontado como o principal motivo para o desempenho fraco. A promoção intensa recebida no iTunes e no serviço de streaming da gigante da tecnologia não foi o suficiente para compensar o fato da canção ter sido completamente esnobada pelo Spotify que, em vingança por receber o lançamento atrasado, não a incluiu em nenhuma playlist importante e também não deu destaque a ela entre os lançamentos.

Posteriormente, a Universal Music proibiria seus contratados de fazerem lançamentos exclusivos, argumentando que esses beneficiavam mais os serviços de streaming do que os próprios artistas. A canção de Perry não foi a gota d’água para essa decisão, e sim a manobra utilizada por Frank Ocean para finalizar seu contrato com a gravadora e lançar um álbum pelo Apple Music, mas com certeza contribiu para a decisão.

Em todo o caso, era só um buzz single. Quando finalmente chegou o momento de estrear o de facto primeiro single do seu álbum, em fevereiro de 2017, a lição tinha sido aprendida a perfeição.

Chained to the Rhythm, a primeira música do KP4, lançada no dia 10 de fevereiro, foi produzido pelo Midas do pop — e frequente colaborador de Katy — Max Martin junto com a própria cantora e a australiana Sia, outro nome badaladíssimo.

Para não cometer o mesmo erro, a Capitol acertou tudo com o Spotify, que promoveu o lançamento com um banner em sua página inicial e colocou a canção em todas as suas principais playlist. O entrosamento entre o serviço de streaming e Katy foi tanto que o Spotify colocou outdoors promovendo a música em grandes metrópoles dos EUA e do Canadá, mandou  um e-mail comunicando a estreia para seus usuários e o CEO/fundador, Daniel Ek, até parabenizou Katy pela nova era no Twitter.

Além do Spotify, rádio — outro elemento importante — também estava pronta para dar o máximo apoio ao retorno de uma das principais cantoras pop do mundo. A canção ganhou estreia prioritária em todas as estações do conglomerado iHeart Radio, o maior dos EUA, que reproduziu a música pelo menos uma vez por hora em absolutamente todas as estações top 40 nas primeiras 24 horas.

E, para coroar a estreia, Katy ainda fez a primeira apresentação televisionada da música no maior evento musical de todos, o Grammy que, em 2017, obteve altíssima audiência.

Ou seja, um rollout mais estrategicamente perfeito que esse impossível. E, apesar de tudo isso, a primeira semana da canção teve um desempenho abaixo das expectativas.

No iTunes, a canção não alcançou o primeiro lugar, empacando em terceiro — algo extremamente preocupante já que até fracassos como Perfect Illusion de Lady Gaga e o próprio Rise de Perry atingiram o topo por algumas horinhas. No Spotify, apesar da promoção intensa, a música estreou em sétimo na parada global e oitavo nos EUA no primeiro dia antes de começar a despencar bem rapidamente.

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Spotify se empenha na promoção do single com um outdoor em Los Angeles

Foi uma diferença bem gritante do sucesso imediato de todos os anteriores lead singles dela que nunca tiveram nenhum problema em atingir o primeiro lugar.

No resto do mundo, o resultado também não foi muito melhor. A canção não liderou a parada em nenhum dos mercados principais de Katy, como o Reino Unido ou, mais preocupante, a Austrália.

O país Oceânico tinha virado um dos principais mercados dela, fruto do esforço de Katy que, com o CD anterior, deu especial atenção ao país. Em sua última turnê, Prismatic World Tour, Katy fez nada menos do que 23 apresentações na Austrália. Como resultado disso, o terceiro CD dela, “Prism”, alcançou 5x Platina no país, superando até mesmo as vendas de “Teenage Dream”. Até a música Rise — fracasso em todo o mundo — atingiu o topo da parada de singles australianas em 2016. Chained to the Rhythm, em contrapartida, teve que se contentar com a quarta posição, uma posição decepcionante.

Mas o que deu errado?

Dizer que Chained to the Rhythm foi um fracasso é uma afirmação injusta. Fracasso é, por exemplo, Perfect Illusion, o lead single do último álbum de Lady Gaga. Mas dado o que se esperava da música — atingir o topo em todo o mundo, como é costume para Katy — não tem como negar que o desempenho foi frustrante.

Nos EUA, assim como na Austrália, a situação foi particularmente desanimadora. A canção estreou em quarto no Billboard Hot 100 — fruto da boa recepção na rádio e de ter aguentado dentro do top 10 do Spotify pela maior parte da semana — mas rapidamente começou a despencar, não chegando nem perto de atingir o topo. Na Europa, apesar de picos mais baixos, a música teve mais fôlego — no Reino Unido, por exemplo, ela foi ajudada por uma apresentação no BRIT Awards — mas mesmo assim ficou aquém das expectativas. Mas, afinal, o que deu errado?

Chained to the Rhythm tinha como objetivo ser uma canção woke, uma música de protesto, que abordava a situação política dos EUA. As duas primeiras apresentações da música — no Grammy e no BRIT Awards — foram cheias de simbolismos políticos, assim como o vídeo clipe da canção. Perry, que foi um dos principais cabos eleitorais de Hillary Clinton, queria, com essa nova era, homenagear a candidata e se posicionar como uma figura que não é só uma popstar de bubblegum pop mas é também uma cidadã consciente. E para atingir esse objetivo ela foi zero sutil. A biografia dela no Twitter, por exemplo, é Artista. Ativista, Consciente.

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Perry é promovida pelo Spotify em Toronto

E ai está um dos problemas: essa escolha por ser política tinha tudo para sair pela culatra. Primeiro que, diferente de Barack Obama, Hillary Clinton não é uma figura querida ou popular e ser tão fortemente associada a ela pode alienar fãs de todos os espectros políticos, já que a candidata escolhida de Perry não é popular nem sequer entre os jovens esquerdistas, que escolheram em massa o oponente socialista dela, Bernie Sanders, nas primárias.

Apesar disso, Katy e sua equipe não estão poupando esforços para a legitimar como uma ativista consciente. Por exemplo, algumas semanas antes da estreia do single, Katy recebeu um prêmio humanitário numa cerimônia da Unicef na qual ela foi homenageada por ninguém menos que Clinton, em sua primeira aparição pública pós-derrota. Em março, Perry ganhou o National Equality Award no Human Rights Campaign. A questão do milhão é: porque Katy merece um prêmio humanitário ou um prêmio LGBT? Fazer campanha para Hillary Clinton e cantar uma música chamada I Kissed A Girl (que, aliás, é bem homofóbica. E não vamos nem falar de Ur So Gay) não te transforma magicamente em uma pessoa consciente e, muito menos, em uma ativista social.

Ou seja, o ativismo de Perry não convenceu e o conceito da música, com toda essa estratégia de lançamento performativo ~querendo dizer alguma coisa~, soou bastante pedante para um público que, francamente, está bem saturado de política.

Mas enquanto o ativismo falho de Perry é um aspecto que contribuiu para esse início pífio, ele não é o fator principal. O principal elemento é, na verdade, algo ainda mais preocupante em termos do sucesso a longo prazo da cantora.

Ao contrário de Rihanna, por exemplo, que é bastante camaleônica e sabe transitar perfeitamente pelas tendências do momento, a imagem e o som de Katy são bastante engessados: música puramente pop chiclete, produzida por Max Martin (e por Dr. Luke, até o processo legal de Kesha acabar com sua carreira), com uma estética muito colorida e irreverente.

O problema é que, depois de muito tempo, esse estilo sônico Max Martin está perdendo espaço. Tendências, inclusive as musicais, são cíclicas e os EUA principalmente está retornando a um período mais urbano. Desde que streaming virou o método mais popular de consumo de música, o rap e o hip-hop — que sempre foram estilos enormemente popular no país — viraram reis totais e o pop pegajoso ficou, com algumas exceções, em segundo plano.

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Perry foi parte importante da campanha de Hillary Clinton

É verdade que Max Martin — que já teve um período de vacas magras na última invasão urbana entre 2001 e 2006 — segue forte e seu trademark sound ainda é capaz de ressoar no mundo todo, como provado pelo sucesso global de Can’t Stop This Feeling de Justin Timberlake mas, no geral, o som de Perry não está em seu melhor momento nos EUA.

E quanto ao resto do mundo? Afinal de contas, Chained to the Rhythm também teve uma recepção decepcionante no Reino Unido e na Austrália, dentre outros países. Será que, depois de três álbuns, a formula de Perry simplesmente cansou?

Existe salvação?

Como já disse, Chained to the Rhythm não foi um fracasso gigantesco. A música simplesmente teve um desempenho abaixo das expectativas. Então sim, Perry pode ser capaz de sair dessa.

De certa maneira, o desempenho da música lembra um pouco o lead single do último álbum de Bruno Mars, 24k Magic.

Bruno, assim como Katy, é um artista que tem facilidade histórica de atingir o topo das paradas e o fez várias vezes, inclusive com o lead single de seus dois primeiros álbuns. Ele também teve o maior sucesso de 2015, a inescapável Uptown Funk. Sendo assim, todo mundo esperava que a primeira música de seu terceiro álbum fosse, logo de cara, um gigantesco sucesso global.

Mas não foi o que aconteceu. Assim como a música de Perry, 24k Magic empacou em oitava no Spotify dos EUA e nunca alcançou o topo em nenhum dos mercados principais, sendo apenas um sucesso razoável enquanto todo mundo esperava um smash hit dado o track record impressionante de Mars ao longo dos últimos 5 anos.

Apesar disso, Bruno se recuperou bem e o segundo single do álbum, That’s What I Like, já é um sucesso muito maior do que a música anterior e deve alcançar o topo da parada do EUA em breve. Além disso, a turnê dele esgotou em minutos e o álbum segue um vendedor constante mundo afora. Ou seja, existe vida após um single de estreia decepcionante.

Seria Chained to the Rhythm um deslize ou um prenuncio de uma decadência brava na carreira de Katy Perry? Stay tuned.

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