Taylor Swift: da ascenção ao ano que ela perdeu sua relevância cultural.

Em termos de lucro e vendas, nenhum artista americano na última década conseguiu chegar perto de Taylor Swift. Ao longo dos anos, sua ascenção foi um caso único e ela conseguiu manter o buzz em torno dela no nível máximo por um período extremamente longo. Hoje em dia, apesar da cantora seguir sendo um fenômeno de vendas, está claro que ela está perdendo quase que totalmente sua relevância cultural. Como isso aconteceu?

O caminho até o topo

Taylor Swift apareceu em cena — com seu híbrido de country teen pop — em 2006 e rapidamente virou um enorme sucesso com suas composições sobre o seu dia-a-dia; seus high school crushes e decepções amorosas. Ela tinha uma imagem que era fácil de vender; que jovens adoravam; que pais a procura de uma role model modesta e segura para suas filhas também apoiavam e que ressoava com uma parcela enorme do público americano — priorizando o super fiel público country. Ao escrever e compor suas próprias músicas, Taylor ainda tinha legitimidade como artista “de verdade”.

Desde o começo, Swift se mostrou enormemente capaz de surfar nas ondas do momento. Naquele então, o Disney Channel era a maior força da cultura pop nos EUA e, apesar de não ser afiliada com o canal, a cantora apareceu no Grammy em dueto com sua então melhor amiga Miley Cyrus; na adaptação cinematográfica do seriado de Cyrus, Hannah Montana: The Movie e num hypado filme em 3D dos Jonas Brothers.

E, se o foco inicial eram seus namoradinhos da escola, Swift não demorou para emplacar um namoro com Joe Jonas, coincidindo com o breve momento em que os Jonas Brothers eram a maior banda do mundo.

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Taylor Swift como uma nerd fofa no clipe sensação de You Belong with Me

Foi o namoro com Joe, aliás, que fez com que Swift aperfeiçoasse a arte de transformar sua vida pessoal em material de fascínio: quando o astro terminou com ela, por telefone, ela postou um vídeo no MySpace o esculachando que rapidamente viralizou.

Mas não existe melhor vingança que o sucesso e o drama com o então astro serviu de gás para fazer com que Swift deixasse os irmãos comendo poeira. No fim de agosto de 2008, “A Little Bit Longer”, o segundo álbum dos Jonas, estreou nos EUA com espetaculares vendas de 525 mil cópias na primeira semana. Três meses depois, “Fearless”, o segundo CD de Taylor, lançado em simultâneo com o drama do término com Joe, superou os irmãos, com 592 mil unidades.

O lançamento do álbum foi acompanhado de um especial no talk-show de Ellen DeGeneres onde Swift revelou que, no último segundo, tinha adicionado uma canção dedicado ao ex no CD, Forever & Always. Em sua turnê, alguns meses mais tarde, ela cantava a música furiosamente em direção a um sósia de Joe.

Em todo o caso, os Jonas estavam em declínio e não demorou muito para Joe virar apenas um roda-pé na carreira de Taylor cuja fama crescia numa velocidade avassaladora.

Além de saber muito bem vender sua vida pessoal, Swift tem um inegável talento para compor hits. Depois de um primeiro CD muito bem sucedido, o lead single de “Fearless”, Love Story, foi um sucesso gigantesco que a levou para outro patamar e ela followed up com outra música gigantesca, You Belong with Me, cujo clipe, que retratava Swift como uma nerd fofa e desajeitada, ajudou a firmar sua imagem como uma garota que — apesar de milionária e gigantescamente bem-sucedida — pode ser a melhor amiga de qualquer uma de suas fãs.

No meio da promoção do seu segundo álbum, o memorável incidente com Kanye West nos VMAs elevou Swift a um nível ainda mais alto e, no começo de 2010, ela se tornou a artista mais jovem a ganhar um Grammy de Album of the Year, consolidando a imagem dela como uma artista imaculada.

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Taylor Swift varre os Grammys de 2010

Quando o terceiro álbum de Swift, “Speak Now”, saiu, ela tinha formado uma coalização impressionante de fãs: a América profunda — os EUA rural, sulista — a amava por ela não renegar suas raízes country e pelo seu jeito All-American. Nas grandes cidades, sua música chiclete e sua imagem girl next door também ressoava enormemente. Ela era consumida tanto pelo público pop, que naquele então ditava as tendências, quanto pelo público country, o mais fiel e mais disposto a gastar dinheiro em seus artistas favoritos. Garotas jovens a amavam; amavam acompanhar sua vida e se identificavam com suas canções. Os pais também a amavam já que ela era um refugio seguro, principalmente em comparação com as Miley Cyrus rebeldes do mundo. E a imprensa e crítica especializada a respeitavam pelos seus dotes de compositora e sua bem construída imagem de “artista de verdade”.

Depois dos EUA, o mundo

“Speak Now”, o terceiro álbum de Taylor Swift, foi o primeiro dela a ultrapassar 1 milhão de cópias na primeira semana, algo que se repetiria com todos os seus CDs seguintes, uma demonstração de força inédita na indústria fonográfica americana. Porém, enquanto “Speak Now” foi mais um enorme sucesso para Swift nos EUA, o álbum representou um passo para trás no restante do mundo.

Apesar de Swift ter conseguido se consolidar como a maior artista do seu país nativo, esses resultados colossais tinham se traduzido para alguns poucos mercados. No Canadá, um país com uma cultura similar aos EUA e com tradição country, Swift se mostrava capaz de reproduzir seu sucesso na terra do Tio Sam sem problemas. Na Austrália, outro país também muito influenciado pelos Estados Unidos, a imagem da cantora também ressoou e seu segundo álbum, “Fearless”, teve vendas altíssimas, alcançando 7x Platina (vendas equivalentes proporcionalmente as obtidas nos EUA). Na Ásia, casa do segundo maior mercado fonográfico do mundo (Japão), onde sua equipe não dispensou esforços de promoção, ela também tinha conseguido se consolidar como uma estrela.

Mas, apesar dos bons resultados obtidos, o seu desempenho ainda era extremamente tímido no mais influente mercado ocidental, a Europa. No Reino Unido, o segundo mais importante mercado para artistas ocidentais, ela tinha conseguido um hit considerável com “Love Story” e seu segundo CD tinha obtido certificação de Platina por 300 mil unidades mas era um número tímido comparado com artistas como Rihanna, Beyoncé, Lady Gaga e P!nk que, naquela época, ultrapassavam facilmente a barreira de 1 milhão de cópias na terra da rainha.

Com “Speak Now”, os resultados foram ainda mais discrepantes. Na Europa, o CD foi virtualmente ignorado, com exceção do Reino Unido, onde ele penou para chegar a Disco de Ouro (100k), colocando um abismo ainda maior entre ela e artistas internacionais de primeiro escalão. Mesmo na Austrália, onde ela ainda era gigantesca, o álbum só alcançou 2x Platina, uma queda considerável em relação ao anterior.

O motivo? A falta de um radio hit. Enquanto o sucesso sem precedentes nos EUA deixava claro que a perda de fôlego na carreira internacional de Swift não era uma situação particularmente alarmante, a ausência de um crossover hit como Love Story You Belong with Me foram um empecilho nas ambições globais da cantora.

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Se afastando do country, Taylor assumiu um look mais hipster cute para a era “Red”.

Com isso em mente, Swift recrutou ninguém menos que o sueco Max Martin, então o Midas do Pop, capaz de emplacar dezenas de #1 global hits, para ajudar na produção o seu quarto CD, “Red”. Dentre outros acenos ao mercado internacional — principalmente o britânico — ela incluiu colaborações com Gary Lightbody, da banda de rock Snow Patrol, e com Ed Sheeran, uma das maiores sensações de vendas no Reino Unido (e Swift foi peça vital para que ele conquistasse o mercado dos EUA já que ela o promoveu intensamente em suas redes sociais e o escolheu como ato de abertura da sua turnê anterior. Nada mais justo do que Sheeran retribuir o favor).

Deu certo: “Red” — que foi o segundo álbum consecutivo de Swift a bater 1 milhão de cópias na primeira semana nos EUA — foi o primeiro lançamento da cantora a alcançar o #1 no Reino Unido, onde superou 600k unidades vendidas no total. Na Austrália, o álbum registrou um aumento de 100% em relação ao antecessor, obtendo 4x Platina. Foi o primeiro CD de Swift a atingir ouro na Alemanha e suas músicas começaram a tocar com mais frequência nas rádios européias.

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Taylor Swift e Harry Styles: a junção de dois fenômenos teen

O sucesso do CD, claro, foi impulsionado pelas músicas produzidas por Martin: We Are Never Ever Getting Back Together I Knew You Were Trouble em específico foram hits com repercussão grande no mundo todo.

E Swift soube novamente aliar o novo som a um romance com alcance igualmente global: ela emplacou um namoro com Harry Styles, o integrante mais popular da boyband One Direction, que mobilizava multidões em absolutamente todos os continentes.

Styles e Max Martin aparte, o mérito principal do sucesso de Swift até então foi dela mesma que soube dar aos fãs exatamente o que eles queriam ao longo de quatro álbuns. Sua fanbase principal — os fãs dedicados; capazes de encher estádios e comprar mais de 1 milhão de cópias na primeira semana nos EUA — se manteve fiel enquanto ela dava passos para expandir seu público em outras direções. E ela soube alimentar o culto em torno dela, interagindo com os mais fanáticos no Tumblr e chamando fãs para listening sessions dos seus CDs e outros eventos surpresas, criando a impressão de que todo mundo tinha a chance de conhece-la e de ter acesso a material exclusivo se eles simplesmente a amassem muito e demonstrassem isso sem nenhuma vergonha na internet.

1989: o segundo ápice

O ano de 2014 chegou e todos os fãs de Swift já sabiam o que esperar: um novo CD da sensação country pop. Naquela altura, a cantora já tinha estabelecido um padrão fixo de lançamento, com um novo álbum a cada dois anos, sempre em outubro.

Era difícil imaginar que Taylor ainda tinha para onde crescer — principalmente na América do Norte — mas, como provado com “Red”, ela ainda tinha ambições globais e novos marcos para atingir.

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Com “1989”, Taylor conquistou a cidade grande e todo o restante do mundo.

“1989” foi o álbum que fez o que parecia ser impossível: deixar Taylor ainda maior. Para o CD, ela resolveu abandonar totalmente a sonoridade country para se dedicar ao pop. O que parecia uma decisão tola — os fãs country são os mais fiéis e foram essenciais para transforma-la na maior artista dos EUA — se mostrou extremamente acertado: não só seu quinto CD foi, de longe, o mais bem sucedido dela em todo o mundo como, nos EUA, foi o seu segundo maior álbum, ultrapassando os números obtidos por todos os seus lançamentos com excessão de “Fearless”, de 2009.

O rebranding de Taylor Swift, que a transformou numa artista de primeiro escalão a nível global, incluiu:

  • um CD inteiramente produzido por Max Martin que soube produzir hits perfeitos para a rádio global, com uma sonoridade bem mais internacional e sem influências country, gênero que tem alcance internacional bem limitado
  • uma mudança para Nova York. A base de Swift sempre foi Nashville, a capital country no sul dos EUA mas, para sua nova era, a artista resolveu conquistar a cidade grande e comprou um imóvel milionário no bairro do Chelsea. Isso, claro, tinha como objetivo internacionalizar sua imagem e deixá-la mais in line com uma diva pop tradicional. Ela era fotografada quase que diariamente com looks chamativos e estilosos andando pelas ruas de Manhattan e uma faixa em homenagem a cidade, chamada “Welcome to New York”, onde ela dizia que lá tudo era possível, até garotos com garotos e garotas com garotas (uma demonstração rara de liberalismo da cuidadosamente apolítica Swift), abria o CD.
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Taylor Swift, sempre escoltada por integrantes do seu squa
  • falando em liberalismo, ela adotou uma imagem mais vagamente socialmente ~liberal~, em que ela abraçou uma versão pouco ameaçadora do feminismo e deixou os rapazes de lado para se associar a um squad formado quase que exclusivamente por it girls famosas que iam desde a estrela liberal Lena Dunham até Blake Lively passando por todas as modelos mais badaladas (Kendall Jenner; Cara DeLavigne; Karlie Kloss e todas as demais Angels da Victoria’s Secrets); artistas com um ar mais indie (Lorde; HAIM) e jovens estrelas em ascenção (Zendaya; Hailee Steinfeld). Esse squad ganhou center stage nas redes sociais de Taylor e virou uma obsessão global. Mas, mostrando que Taylor ainda era “a mesma garota”, ela nunca esquecia de incluir as suas “melhores amigas” de sempre: Abigail, sua bff da high school, mencionada em músicas desde a primeira aparição de Swift na cena, e Selena Gomez, a primeira e mais fiel amiga famosa da artista.
  • apesar da nova fase girl power, ela não deixou as picuinhas e dramas amorosos de lado. Seu álbum foi quase que integralmente dedicado ao seu ex, o maior heartthrob do planeta naquele então, Harry Styles, incluindo uma faixa chamada Style que prontamente se transformou num fan fave. A excessão? Bad Blood, dedicado a uma recém revelada inimiga igualmente high profile: Katy Perry (que, até então, tinha obtido muito mais sucesso internacional que Swift).
  • a capacidade de transformar todos os singles em eventos. O primeiro, Shake It Off, lançado junto com um vídeo que, assim como You Belong with Me vários anos antes, reforçava Swift como uma nerd fofa desajeitada, foi um sucesso global. O segundo, Blank Space, foi uma sensação ainda maior com sua letra que zombava da reputação de Taylor Swift como uma “crazy ex” (self-awareness não era algo muito on brand para Taylor até então) e um clipe igualmente chamativo. E, claro, Bad Blood, o single que escancarava a guerra com Perry e cujo vídeo de altíssimo orçamento incluía todo o celebrado squad da cantora.

Além de alcançar 9x Platina nos EUA, “1989” ultrapassou a barreira do milhão de cópias no Reino Unido, finalmente colocando ela na primeira linha de estrelas do país. Também foi o álbum de Swift que mais vendeu no Canadá e na Austrália, além de ter obtido registros de venda consideravelmente mais altos em toda a Europa e América Latina. Finalmente, Swift parecia ter conquistado o título de mega-estrela global.

A força e influência de Taylor foram comprovadas diversas vezes durante o ciclo promocional do álbum: em 2014, ela tirou todo seu catalogo do Spotify, apesar de que a plataforma de streaming estava em pleno crescimento e dominando o consumo de música no mundo. Alguns meses mais tarde, quando a Apple anunciou que lançaria seu próprio serviço de reprodução digital, a cantora publicou um op-ed no Wall Street Journal criticando o modelo de royalty do serviço, fazendo com que a gigante do Vale do Silício mudasse suas diretrizes e aumentasse o pagamento a artistas. Satisfeita com o desfecho, Swift colocou seu catalogo exclusivamente no Apple Music e virou garota propaganda da plataforma, estrelando anúncios que foram sucessos virais.

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Em 2016, mais uma vez, Taylor Swift dominou os prêmios Grammy.

No começo de 2016, ela repetiu o feito de “Fearless” e, com “1989”, ganhou o Album of the Year no Grammy pela segunda vez, se transformando na primeira mulher a obter esse feito. Não parecia ter objetivo traçado que Swift e sua equipe não conseguissem conquistar.

Saturação e backlash

Ao longo da carreira de Taylor houve vários momentos onde se ensaiou um backlash. Muitos consideraram injusto ela ter ganho o Grammy de Álbum do Ano em 2009, por exemplo, e sua performance desastrosa com Stevie Nicks na premiação foi motivo de chacota. Nos anos seguintes, sua constante exposição da vida pessoal e sua postura permanente de vítima e garota mimada também geraram muitas críticas, assim como sua obsessão com dinheiro (ela processou fãs que vendiam artesanatos com quotes dela no Etsy e muitos interpretaram a briga dela com o Spotify por mais royalties como outro exemplo de ganância).

Swift nunca soube lidar bem com críticas — sua única tentativa bem-sucedida de domá-las foi com o lançamento de Blank Space, onde ela vestia a carapuça de vingativa — mas seu sucesso estrondoso sempre ofuscava as opiniões menos favoráveis e sua equipe tinha uma habilidade impressionante em conseguir controlar a narrativa.

Porém, ao longo de 2015, a onipresença de Swift começou a causar saturação real. Todos os esforços de marketing foram tão forçados que o coro de haters começou a ficar mais alto. Um exemplo disso foi o squad de amigas badaladas de Taylor que foi tão empurrado goela-abaixo que chegou a um ponto onde muitos consideravam o grupo de amizade falso e artigos criticando a artificialidade daquilo tudo começaram a viralizar.

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Taylor Swift e Calvin Harris: o primeiro namorado que ela não conseguiu domar.

Taylor e sua equipe também começaram a perder a mão no controle que detinham sob as pessoas do circulo da cantora. Ao longo da promoção de 1989, Swift assumiu um namoro com o DJ escocês Calvin Harris. Apesar de quase todos os seus namoros high-profiles terem sido debaixo de holofotes, foi a primeira vez que a cantora colocou seu namorado em suas redes sociais de maneira tão pública.

Quando o namoro chegou ao fim, Swift sacou sua carta habitual de se colocar como vítima: alguns veículos noticiaram que o namoro terminou pois Harris tinha inveja do sucesso da cantora e que ele teria inclusive escondido o fato dela ter escrito um dos seus maiores hitsThis Is What You Came For.

Harris foi rápido no gatilho: nas redes sociais, ele deixou claro que não ia deixar a equipe dela passar por cima dele como fizeram com Katy Perry e tantos outros e que a decisão de assinar a música sob um pseudônimo tinha sido da própria Taylor. Rapidamente, colocaram-se panos quentes e, no fim das contas, o DJ apagou os tweets. Taylor, por sua vez, nunca fez uma música falando mal do ex, algo raro.

Em 2016, veio o maior golpe contra a reputação de Taylor quando uma mentira dela foi exposta de maneira espetacular por ninguém menos que Kim Kardashian-West.

Tudo começou, claro, no VMA de 2009 quando o futuro marido de Kim interrompeu o discurso de aceitação de Swift. Desde então, a relação entre as duas estrelas sempre foi complicada mas, em 2015, as mágoas pareciam ter ficado oficialmente no passado: Taylor até apresentou o VMA Vanguard Award a West, se declarando uma enorme fã.

Mas as coisas entre os dois voltaram a ficar estremecidas com o lançamento da música Famous, na qual Kanye cantava: “For all my Southside niggas that know me best/ I feel like me and Taylor might still have sex/ Why? I made that bitch famous“.

Swift se mostrou extremamente irritada com a letra vulgar e fez dela o pilar do seu discurso de aceitação do Grammy de 2016, na qual ela afirmou: “para todas as garotas jovens no mundo, sempre terão pessoas que iram tentar diminuir o seu sucesso e tentar levar crédito por ele”. Mas West, revoltado, afirmou que todas as demonstrações de fúria dela eram falsas já que a própria Taylor tinha autorizado o verso. Daí começou um “disse-não disse” que durou algumas semanas até que Kim Kardashian finalmente botou um ponto final na controvérsia: no Snapchat, ela publicou um vídeo que provava que Taylor deu, através de uma ligação, sua benção para a letra.

As redes sociais explodiram com memes atacando a cantora; as redes sociais dela foram inundadas com emojis de cobra e, pela primeira vez, Taylor e sua equipe tinham perdido totalmente o controle da situação.

Para piorar, enquanto tudo isso estava acontecendo, Taylor ainda estava envolvida em um romance com o ator britânico Tom Hiddlestone que virou motivo de piada dado o quão armado a coisa toda parecia. Por anos, a cantora era criticada por expor demais sua vida pessoal e se envolver em showmances — namoros supostamente armados para gerar burburinho. Com Hiddlestone, a coisa foi tão descarada – culminando no ator usando uma camisa com a frase “I ❤ TS” enquanto tomava banho de mar com ela e seu squad – que afetou enormemente a popularidade de ambos e deixou Swift numa posição que nem seus fãs mais dedicados conseguiam defender.

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Taylor Swift é ‘flagrada’ sendo apresentada a mãe de seu namorado, Tom Hiddleston.

Esse furacão de bad publicity concentrado em poucas semanas era algo inédito na carreira de Taylor.

Ainda por cima, uma eleição servia como pano de fundo para tudo isso. Taylor Swift foi a única grande popstar que se recusou a se pronunciar sobre o assunto. De um ponto de vista estratégico, fazia completo sentido: Swift é a artista mais popular dos EUA exatamente porque ela conseguiu não alienar quase ninguém, incluindo os fãs conservadores concentrados no sul do país. Além disso, todos os artistas country morrem de medo de se pronunciar politicamente desde que críticas feitas pelas Dixie Chicks, então as maiores estrelas country do país, direcionadas ao então presidente George W. Bush quase destruíram a carreira delas. Ser apolítica sempre foi um pilar na carreira de Taylor.

Por outro lado, pegou enormemente mal para uma artista que usou feminismo como marketing manter completo silêncio numa eleição onde um neo-fascista enormemente misógino era um dos candidatos. Ademais, priorizar a carreira e o dinheiro reforçavam a imagem dela como gananciosa, que prioriza dinheiro acima de qualquer coisa.

A volta

Depois de dois anos de superexposição que culminaram em um tsunami de más notícias, Taylor resolveu se ausentar dos holofotes por um ano. Óbvio que, depois de uma década de exposição constante, foi difícil notar o “sumiço” dela, até porque, durante esse período, ela lançou uma música inédita (I Don’t Want To Live Forever, um dueto com Zayn para a trilha sonora de 50 Shades Darker) mas, pela primeira vez desde que apareceu na cena, ela não lançou um álbum novo no período pré-determinado (outubro de 2016, 2 anos depois do lançamento do último CD).

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Taylor Swift e sua “reputation”, supostamente arruinada pela imprensa.

Um ano mais tarde, porém, ela estava de volta a cena. Em agosto, a limpa generalizada das suas redes sociais anunciou que algo estava por vir e, em poucos dias, imagens de cobras tomaram conta do seu Instagram, deixando claro que a cantora mais uma vez estava disposta a reclaim a narrativa e assumir controle da imagem dela que foi tão difundida durante o fiasco Kim/Kanye.

No final da semana, Look What You Made Me Do, o aguardadíssimo retorno de Taylor, foi lançado. A canção foi disponibilizada em todos os serviços de streaming, incluindo o Spotify, assinalando uma trégua entre a cantora e o app sueco, e mostrou que o apetite para o retorno dela era altíssimo: foram 8 milhões de streams só na plataforma, até então um recorde histórico. Ela também quebrou o recorde de streams nos EUA e liderou as paradas no Reino Unido e na Austrália.

Alguns dias mais tarde, o vídeo – onde Swift novamente mostrava self-awareness e zombava dos seus escândalos no ano anterior – também quebrou recordes de visualizações e foi universalmente aclamado. As coisas pareciam estar se alinhando perfeitamente para o retorno da cantora.

Cadê o interesse que estava aqui?

A nova era da cantora, “reputation” (estilizado todo em letras minúsculas), é um comentário sobre como a mídia destruiu a reputação dela. Como é costume com Taylor, ela não assume nenhuma culpa, se fazendo de vítima e colocando a responsabilidade nos outros. É uma formula que já estava se mostrando saturada.

No primeiro momento, com o vídeo do primeiro single cheio de auto-referências, parecia que Taylor de novo iria assumir o controle da narrativa. Mas algo diferente estava no ar: muitas das reações que mais viralizaram nas redes sociais demonstravam cansaço com a cantora e sua imagem.

E, apesar do começo espetacular, não demorou muito para Look What You Made Me Do perder fôlego. Apesar da música ter alcançado o topo do Hot 100 e da parada de singles britânicas, o momentum da canção não durou quase nada e, em pouco tempo, ela já tinha sumido do top 50 das plataformas de streaming. Músicas sem 1/100 do hype e de artistas bem menos estabelecidos – como Sorry Not Sorry de Demi Lovato – estavam facilmente superando o desempenho de Taylor.

Em todo o caso, a narrativa do novo álbum estava claro: Taylor tinha visto sua reputação sendo (injustamente) arruinada; ela sumiu por um período; encontrou o verdadeiro amor (o ator britânico Joe Alwyn) e a verdadeira felicidade e parou de se importar com o que as pessoas diziam sobre ela. Ela não daria entrevistas pois não queria ser injustamente retratada (na realidade, ela não queria responder perguntas desconfortáveis sobre política e seus escândalos) e seu novo relacionamento seria muito mais privado,  com apenas alguns poucos vazamentos estratégicos para imprensa.

De certa maneira, deu certo. “reputation” novamente vendeu mais de 1 milhão de cópias na primeira semana, fazendo dela a única artista a atingir isso com quatro álbuns consecutivos. Sua turnê atual por estádios está esgotada e a caminho de se tornar uma das mais lucrativas da história (apesar de usar um modelo bastante polêmico de venda de ingressos, que inflaciona o preço de acordo com a demanda). E, apesar disso, a relevância cultural de Swift… evaporou.

Sim, ela ainda lucra muitíssimo. E a sua fanbase dedicada – que compra o CD na primeira semana e ingressos para shows – ainda é maior do que de quase qualquer outro nos EUA. Mas suas músicas não repercutem. Ela tem enorme dificuldade de penetrar o top 50 nas plataformas de streaming. Ninguém fora da fanbase comenta mais sobre ela e mesmo alguns fãs mais dedicados perderam a paciência. Apesar de suas vendas serem muito superior a quase qualquer outro, está claro que “reputation” será, de longe, o álbum menos vendido de sua carreira. E, depois de avançar consideravelmente no mercado global, toda a evolução foi desfeita com o novo CD que, novamente, tem obtido vendas baixas – quase nulas – em mercados não anglo-saxões, além de quedas consideráveis até mesmo no Canadá, Reino Unido e Austrália.

O que ela fez de errado?

Não foram apenas os escândalos e a superexposição que fizeram com que Swift perdesse relevância cultural. Vários passos em falso contribuíram para que o público perdesse o interesse. São eles:

  • Não saber manage as expectativas. Antes do lançamento de “reputation”, alguns na equipe de Swift acreditavam que, baseado na repercussão imediata de Look What You Made Me Do, o álbum dela poderia se aproximar a 2 milhões de unidades vendidas na primeira semana. E, para impulsionar os números, técnicas que incentivavam os fãs a comprar várias cópias (como disponibilizar duas edições deluxe diferentes e priorizar acesso a ingressos da turnê para fãs que compraram o CD diversas vezes) foram adotadas. Mesmo assim, o álbum vendeu “apenas” 1.2 milhões de unidades, registrando – pela primeira vez – uma queda em relação a primeira semana do CD anterior (“1989” vendeu 1.29m). Ainda um número espetacular mas a equipe de Taylor mesmo assim bateu o pé, se recusando a aceitar os números oficiais e dizendo que eles preferiam acreditar no BuzzAngle, uma empresa de rastreamento de vendas menos confiável que estimou que o CD teria alcançado 1.3m antes da divulgação dos dados oficiais da Billboard. Isso, claro, foi um dos aspectos menos importantes dos missteps, dado que 1 milhão de vendas foi alcançado e as technicalities disso foram quase imperceptíveis para quem não estava acompanhando de perto.
  • Muito mais grave que o primeiro erro apontado, a obsessão de Swift e de sua equipe com ter margens de lucro gigantescas com shows afetou – e muito – a carreira internacional dela já que era difícil ela obter garantias similares de arrecadação as que ela tinha em alguns poucos mercados chaves (EUA/Canadá/Austrália/Ásia). É quase inimaginável um artista grande dos EUA não fazer turnês extensas pela Europa, algo essencial para consolidá-los no mercado global. Swift, apesar de ter feito várias viagens promocionais, nunca fez uma turnê grande pelo continente. Na turnê de “Red”, seu primeiro CD com grande repercussão global, a perna européia de sua turnê incluiu apenas paradas em Londres e em Berlin. Na excursão seguinte, do gigantesco “1989”, ela novamente esnobou quase todos os lucrativos mercados europeus, pisando apenas no Reino Unido, Alemanha e Holanda. Isso sem falar na América Latina, quase que totalmente ignorada (salvo uma breve visita promocional ao Rio durante a era Red), apesar de ter sido um dos principais mercados para ela em “1989”. A atenção dela só foi direcionada a mercados onde ela já era de enorme escalão — Ásia e Austrália — e a obsessão com garantia de lucros e números espetaculares como os obtidos nos EUA impediu o crescimento dela globalmente, mesmo com o enorme apetite gerado pelos seus quarto e quinto álbum (que teve bom desempenho na França, na Escandinávia, na Espanha, no México, no Brasil, etc).
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Taylor e Spotify: uma relação quase tão conturbada quanto Taylor e Kanye.
  • O pior erro de todos: a guerra que ela travou com o Spotify, a maior plataforma de streaming do mundo. Sim, durante “1989”, o sucesso foi tanto que ofuscou as repercussões negativas disso mas limitar o catálogo dela foi um tiro no próprio pé, principalmente porque o consumo de música legal hoje em dia se dá quase que exclusivamente via streaming. Ed Sheeran e Drake, os dois maiores artistas da atualidade, viraram os maiores do mundo pois souberam usar o streaming a seu favor. Swift em busca de margens de lucro maior, acabou se limitando novamente. Para “reputation”, ela parece ter se dado conta do erro que cometeu e o Spotify foi um grande aliado no lançamento do primeiro single, colocando a música em todas as playlists principais, dando destaque ao lançamento em sua página inicial e até espalhando outdoors promovendo a música. Taylor retribuiu criando playlists para o app. Mas, na última hora, ela resolveu lançar seu CD apenas em formato físico e via iTunes nas primeiras duas semanas e a situação amargurou novamente. Além disso, o público simplesmente não se habituou a stream ela.
  • Resultado? Total falta de interesse no novo álbum no mercado internacional — onde o consumo de pop estrangeiro é dependente de streaming — e má vontade do Spotify em promover as músicas dela. Ela até tentou correr atrás do prejuízo gravando um cover (muito mal recebido) de September do Earth, Wind & Fire exclusivamente para o aplicativo, além de um vídeo vertical para Delicate mas em nada deu certo: é raríssimo ver Swift penetrando o top 50 do Spotify (isso sem falar do Apple Music que, apesar dela ter sido garota propaganda, é quase totalmente dominado por música urbana).
  • E, falando em música urbana, outro fator é, para variar, realmente alheio a Swift: como já disse várias vezes aqui, o público estado-unidense simplesmente não está interessado em música pop e o som produzido por Max Martin, antes totalmente irresistível e que dominava tudo no período que “1989” foi lançado, ficou obsoleto. É raro uma música não-urbana viralizar e ter repercussão grande nos EUA. E o restante do mundo também está se afastado do gênero.
  • Aliado a isso, a falta de narrativas interessantes na vida de Taylor ajudaram a fazer o público perder o interesse. Se, com o álbum anterior, cada música veio com um clipe que era diretamente correlacionado com aspectos da personalidade de Taylor que o público se interessava por (sua dorkyness em Shake It Off; sua reputação de ex doida em Blank Space; sua briga com Katy Perry e seu squad em Bad Blood), os novos vídeos – com exceção de Look What You Made Me Do – se baseavam exclusivamente em visuais impressionantes de altíssimo orçamento, algo que não ressoa tanto nem com os fãs dela, muito menos com o público em geral.
  • Finalmente, o principal problema é mesmo a reputação de Taylor. Durante anos, uma parcela do público criticou seus showmances; seu complexo de vítima e sua incapacidade de evoluir e amadurecer. E ela própria legitimou todas essas críticas com decisões tomadas entre 2015 e 2016, que alienaram até mesmo fãs mais dedicados. O culto imaculado em torno dela mostrou graves rachaduras e vai ser difícil se recuperar integralmente. Ela conseguiu cultivar uma fanbase dedicada gigantesca que, por enquanto, ainda está com ela. O restante do público, porém, perdeu o interesse.

What’s next?

A carreira de Taylor Swift foi, ao longo de quase 10 anos, uma constante evolução. Mas, depois de uma trajetória de sucesso impressionante e quase nunca antes vista, ela finalmente estagnou. A cada CD, a cantora tinha uma carta na manga mas, a essa altura, todos os artifícios parecem já ter se esgotados. Aonde ela pode ir?

Em primeiro lugar, Swift e sua equipe terão que deixar a vaidade de lado e entender que o ápice da cantora já aconteceu. Os números de Taylor provavelmente continuaram altos, de modo que é melhor saber apreciar isso ao invés de ficar fixado em quebrar recordes de venda de primeira semana a cada dois anos, algo que não deverá voltar a acontecer.

No mais, minha humilde opinião é que Taylor deve voltar para o country. Ser uma estrela pop é algo que está fora de moda e o universo country é sempre um refugio seguro, muito menos volúvel as tendências do momento e com um público cativo e numeroso. Sem falar que é um universo muito mais low-key onde é fácil evitar a exposição exaustiva.

Em relação a narrativa da vida pessoal, está claro que o que está sendo vendido é que Taylor está feliz como nunca com seu atual namorado, Joe Alwyn. Se for para recuperar o interesse do público e fazer as redes sociais vibrarem, nada melhor do que o combo noivado/casamento/gravidez. Porém, talvez seja o momento de auto-reflexão e de fazer aquilo que Taylor nunca conseguiu: se desligar da percepção pública dela e viver para ela mesma.

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