Causando no Brasil: a trajetória da dominação sertaneja

Na parte anterior, tivemos uma visão geral de como o sertanejo se estabeleceu como o maior gênero do Brasil. Nesse post, vamos fazer uma uma linha do tempo do sertanejo moderno onde entenderemos melhor os passos da dominação.

2007: a volta dos que não foram

Depois do protagonismo no começo dos 90, o boom sertanejo deu uma aquietada e, apesar da enorme popularidade, tinha se tornado um estilo secundário.

Mas, ao longo da primeira década dos 2000, ele estava ganhando nova roupagem — sendo rebatizado de “sertanejo universitário” — e conquistando terreno na capital de São Paulo e outras regiões importantes do país. O maior fenômeno do estilo no século 21 era, ate então, Bruno & Marrone mas outras duplas, como Edson & Hudson e Cesar Menotti & Fabiano, também estavam obtendo ótimos resultados.

Os olhos da indústria, porém, estavam em outros filões. Pagode (Exaltasamba e Sorriso Maroto), música nordestina (como Asa de Águia, Ivete Sangalo, Aviões do Forró e Babado Novo) e brega (Calypso) eram os estilos brasileiros mais em voga, além de fenômenos pré-adolescentes multimídia como RBD e High School Musical. O rock (de bandas que iam de Los Hermanos a Jota Quest, passando por Charlie Brown Jr.) seguia forte e passava por um revival graças ao sucesso de bandas teen como NX Zero, Strike e Fresno. A rádio e os canais de clipe, por sua vez, só tinham olhos para Beyoncé, Akon, Black Eyed Peas e pop internacional.

“Amigo Apaixonado”: um dos hits que ajudou a transformar Victor & Leo nos maiores nomes da indústria fonográfica brasileira

Mas isso estava prestes a mudar: a dupla Victor & Leo se firmava como um fenômeno impossível de ignorar graças ao sucesso de músicas como “Fada” e “Amigo Apaixonado”. Em junho, eles lançam o seu segundo CD com a Sony BMG, Ao Vivo em Uberlândia, que iria consolidá-los como os maiores nomes do Brasil.

O ano de 2007 também foi a grande estréia nacional da dupla que iria ser um divisor de águas na história do sertanejo, Jorge & Mateus. Pela Universal, eles lançaram seu grande debut, Ao Vivo em Goiânia.

Jorge & Mateus já chega fazendo barulho com “Ao Vivo em Goiânia”

2008: o sertanejo volta ao topo

“Tem Que Ser Você”, a maior música de 2008.

Victor & Leo se consolidam como os maiores nomes da indústria, tendo o CD mais vendido do ano (Ao Vivo em Uberlândia) e a música mais tocada (“Tem que ser você”), confirmando a força do novo sertanejo. Em junho, eles lançam o primeiro CD de estúdio deles, Borboletas, que incluiu o sucesso homônimo.

“Borboletas”, o primeiro single do muito bem sucedido álbum homônimo de Victor & Leo

“A Favorita”, a novela das 9 da Globo, ambientada em São Paulo, inclui diversas músicas sertanejas em sua trilha sonora, marcando o retorno do gênero ao horário nobre da principal emissora do país. Apesar da presença de veteranos (Rionegro & Solimões, Daniel, Roberta Miranda, Chitãozinho & Xororó, Daniel), a maior parte dos nomes — como Victor & Leo (que abriam o disco), Jorge & Mateus, Cesar Menoti & Fabiano, Hugo Pena & Gabriel — são da leva mais recente.

2009: a dominação continua

Em 2009, o pop internacional atingiu o ápice no Brasil. O sucesso espetacular foi Beyoncé e a balada “Halo” se consagrou como a mais tocada do ano nas rádios do país. Mas nem a diva pop conseguiu freiar o crescimento do sertanejo, que continuou em ascensão.

“Chora, Me Liga”: sucesso sertanejo que transcendeu o nicho sertanejo

“Chora, Me Liga” de João Bosco & Vinicius foi a maior música nacional. Com seu arranjo puxando para o forró, a canção transcendeu barreiras e alcançou até ambientes onde o estilo não era bem visto.

Depois de abalar as estruturas do mercado local, Victor & Leo tentam carreira internacional, com o CD em espanhol Nada es Normal, e também lançam um novo álbum ao vivo para o mercado local, Ao Vivo e em Cores em São Paulo.

Mas, apesar de se manter como a maior dupla, eles começam a perder terreno para Jorge & Mateus que estão crescendo a passos gigantes. A dupla de Goiás lança seu segundo álbum, O Mundo é Tão Pequeno, que dá origem a vários hits grandes.

Com o álbum O Mundo é Tão Pequeno, Jorge & Mateus seguem em pleno crescimento.

Depois de mais de 10 anos como artista independente, Paula Fernandes faz a sua estréia sob uma grande gravadora. Seu primeiro CD com a Universal, Pássaro de Fogo, é bem recebido, com a música homônima sendo inclusa na trilha sonora de Paraíso, novela das 6 da Globo com ambientação rural. “Jeito de Mato”, colaboração com Almir Sater, também se prova um sucesso.

Já o jovem Luan Santana, de 18 anos, conquista grande repercussão com seu CD independente, Tô de Cara. A música “Meteoro” viraliza. Ele assina com a Som Livre e grava seu primeiro CD e DVD ao vivo no seu estado natal, Mato Grosso do Sul.

Com o mercado sertanejo extremamente aquecido, muitos nomes conseguem repercussão nacional, mesmo que brevemente. O casal sul-mato grossense Maria Cecília & Rodolfo chama atenção por ter uma mulher como voz principal e emplaca canções como “Coisas Esotéricas” e “Você de Volta”. A dupla paranaense Hugo Pena & Gabriel também tem bons resultados com faixas como “Vou Te Amar (Cigana)”, “Fora do Eixo” e “Malas Prontas”.

Os hits definidores de 2009.

2010: meteoro da paixão

Com forte promoção da Globo, uma agenda repleta de shows pelo país e dezenas de músicas na rádio, Luan Santana vira o maior fenômeno da indústria fonográfica brasileira. Seu Ao Vivo é o álbum mais vendido do ano.

O sucesso de “Meteoro” fez de Luan Santana o maior artista do ano

Os únicos nomes capazes de fazer frente ao ídolo teen são Jorge e Mateus que desbancam oficialmente Victor & Leo para se transformar na maior dupla do país.

Um dos trunfos iniciais de Jorge & Mateus foi que, apesar de sertanejos até o último fio do cabelo, eles não pouparam esforços para conquistar novos territórios. Com o sertanejo absorvendo influências fortes do forró e do arrocha, o gênero avançou muito no Nordeste e a dupla fez um investimento forte para tirar proveito disso. As primeiras colaborações que eles fizeram — incluídas no CD lançado em 2009 — foram com artistas de axé, Asa de Águia e Alexandre Peixe.

Naquela época, a música baiana ainda era um dos gêneros mais fortes do Brasil e as micaretas eram um dos programas mais populares entre jovens de todo o país. De olho nessa fatia do mercado, Jorge & Mateus foram pioneiros e lançaram o primeiro trio elétrico sertanejo. No ano anterior, o projeto virou um álbum, o Elétrico e, em 2010, fez sua estréia, com grande sucesso, no carnaval de Salvador.

A inovadora micareta Jorge & Mateus é um fenômeno de público em Salvador e no restante do país.

Eles também lançam o Ao Vivo Sem Cortes, gravado em um mega show em Goiânia, e seu primeiro CD de estúdio, Ai Já Era. O álbum marca uma transição para uma sonoridade com mais influência pop, dando origem a 5 singles. A música “Amo Noite e Dia” se transforma no maior sucesso deles até o momento e a canção que dá nome ao álbum também ajuda a levá-los para outro patamar.

Impulsionado por Luan Santana e Jorge & Mateus, o sertanejo se confirma como o gênero de maior sucesso no país e começa a tomar conta da rádio que, até então, ainda era dominada por música estrangeira.

Dentre os maiores beneficiados pelo boom está o artista e produtor Fernando Fakri, conhecido como Sorocaba. Além de ser o nome por de trás dos sucessos de Luan Santana, a sua carreira de cantor — como parte da dupla Fernando & Sorocaba — também vai de vento em popa graças a títulos como “Paga Pau”, “Bala de Prata” e “Madri”.

Os excelentes resultados alcançados por Luan também encorajam a indústria a investir em mais cantores solos. Michel Teló foi a aposta da Som Livre. Super conhecido no Mato Grosso do Sul, onde liderava a banda Tradição, ele partiu para carreira individual apostando no sertanejo de balada, com um som mais forrozeiro como o que fez de “Chora, Me Liga” de João Bosco & Vinicius um fenômeno.

Não à toa, ele recrutou a dupla para seu primeiro single, “Ei, Psiu! Beijo Me Liga”. Mas foi com uma regravação do Exaltasamba, “Fugidinha” que ele teve seu primeiro enorme sucesso nacional.

O álbum Ai Já Era marcou uma transição de Jorge & Mateus para uma sonoridade mais pop.

Já a AudioMix, o escritório de Jorge & Mateus, começou a investir pesado no jovem Gusttavo Lima com seu repertório cheio de músicas românticas. O seu primeiro CD, “Inventor dos Amores”, foi lançado naquele ano, obtendo sucesso com a canção homônima, que tinha a participação da dupla estrela da empresa.

Ao longo de 2010, Paula Fernandes começa a ganhar mais espaço na indústria com o sucesso de sua música, “Pássaro de Fogo”. Hugo Pena & Gabriel tem mais um estouro com “Estrela”. Guilherme & Santiago, uma dupla que está na ativa desde os anos 90, tem um revival depois de assinar com a Som Livre, da poderosa Globo, e emplaca diversos hits festeiros, como “E Daí?”, “Que Da Vontade Dá” e “Tá Se Achando’.

O apetite pelo sertanejo é tanto que músicas de nomes desconhecidos e sem grandes investimentos, como “Fã” de Christian & Cristiano e “Que Se Dane o Mundo” de Adair Cardoso, viram sucessos nacionais.

Os principais sucessos do sertanejo em 2010.

2011: o tempestuoso mercado sertanejo se entrega a Paula Fernandes

Depois de ser a convidada principal de Roberto Carlos no seu tradicional especial de Natal no fim de 2010, Paula Fernandes se consolida oficialmente como a maior estrela da música brasileira e lança seu primeiro Ao Vivo, gravado em São Paulo. É a primeira vez que uma mulher é a maior artista do sertanejo. Ela domina a mídia, emplaca várias faixas simultaneamente nas paradas e atinge números de venda inimagináveis para o mercado daquele então.

A demanda pelo gênero sertanejo segue em firme crescimento mas, apesar disso, também fica claro que sustentar uma carreira nesse meio também não é moleza.

Apesar de obter vários hits ao longo dos últimos 2 anos e um contrato com a Som Livre, a dupla Hugo Pena & Gabriel anuncia a separação depois de um desentendimento com o empresário. Já nomes que surgiram fortes, como Maria Cecília & Rodolfo e Guilherme & Santiago, não conseguem transcender o nicho e ter alcance de nomes do primeiro escalão.

“Não Precisa”, uma colaboração com Victor & Leo, é a maior música de Paula Fernandes.

Até alguns dos artistas maiores, como a dupla Victor & Leo, tem dificuldade em manter o burburinho apesar de que, graças ao sucesso de Paula, eles ganham uma impressionante sobrevida. Não só Victor Chaves compôs várias músicas para ela como a dupla aparece no maior hit da cantora, “Não Precisa”.

Mas, no meio desse tumultuoso mercado, dois nomes seguem extremamente firmes no topo: Jorge & Mateus e Luan Santana. A dupla de Goiânia segue em pleno crescimento e se confirma cada vez mais como os artistas mais requisitados para shows em todo o Brasil.

Paula Fernandes se transforma na maior artista do país.

Já Luan se mostra extremamente ambicioso e escolhe o Rio de Janeiro, o mercado mais hostil para a música sertaneja, como palco do seu segundo DVD, que tem participação de Ivete Sangalo, então uma das maiores estrelas do país, e dos ícones do sertanejo, Zezé DiCamargo & Luciano.

O show, com uma produção milionária, foi gravado na frente de 10 mil fãs na HSBC Arena. O Ao Vivo no Rio deu origem a 5 singles, com o maior deles sendo “Amar Não é Pecado”.

Ainda indo na tendência de cantores solos, Cristiano Araújo é a grande aposta do mercado de Goiânia. “Efeitos”, a sua colaboração com os Midas do sertanejo, Jorge & Mateus, tem repercussão nacional e impulsiona o seu primeiro CD ao vivo.

Já Gusttavo Lima e Michel Teló continuam crescendo. O primeiro tem um catalogo formado principalmente por canções românticas mas, apesar de o sucesso delas, foi com a música de farra “Balada Boa” que ele virou uma febre em todo o país. Já o sertanejo baladeiro sempre foi a marca registrada de Teló e, depois do sucesso de “Fugidinha”, ele se supera com “Ai, Se Eu Te Pego” que rapidamente vira a maior música do Brasil.

Os hits que definiram 2011.

2012: a conquista mundial

O ano de 2012 foi quando o sertanejo transcendeu as fronteiras nacionais e virou uma febre global.

“Ai, Se Eu Te Pego!” vira um hit a nível global

No segundo semestre de 2011, “Ai, Se Eu Te Pego!” conquistou o Brasil inteiro, incluindo Neymar e demais futebolistas. Através deles, a faixa chegou aos ouvidos dos atletas europeus, que também se renderam ao ritmo. Pronto: os maiores nomes do esporte no mundo, como Cristiano Ronaldo e Rafael Nadal, estavam comemorando suas vitórias com o hit de Teló, o que deixou muitos curiosos em relação a canção. Assim, o single viralizou e se transformou na maior música de 2012 a nível mundial, alcançando o topo das paradas de toda Europa e América Latina.

A predileção pelo sertanejo festeiro mundo afora era tanta que, surfando na onda da música de Teló, “Balada Boa” de Gusttavo Lima também virou um sucesso internacional.

Gusttavo Lima e Você: o álbum agradou com seu romantismo mas “Balada Boa” conquistou o Brasil e o mundo.

No Brasil, o estilo seguia em altíssima demanda. “Eu Quero Tchu, Eu Quero Tcha” de João Lucas & Marcelo; “Camaro Amarelo” de Munhoz & Mariano; “Lê Lê Lê” de João Neto & Frederico e “Vem Ni Mim Dodge Ram” de Israel Novaes foram alguns títulos que obtiveram bastante êxito ao seguir a formula. Michel Teló também colheu bons resultados com seu novo single, “Humilde Residência”, que foi a música mais reproduzida na rádio brasileira naquele ano.

Já Gusttavo Lima continuou se consolidando com suas músicas românticas. Ele até tentou continuar tirando uma casquinha da moda farofeira, com quase todas as músicas do seu novo CD, Ao Vivo em São Paulo, seguindo a receita mas o público queria mesmo era consumir sua faceta mais tradicional, vista em canções como “Refém”, “60 Segundos” e “Fora do Comum”. Isso, na verdade, era um ótimo omen para o artista: o sertanejo de festa até podia te dar alguns grandes sucessos mas não sustentava nenhuma carreira.

Os maiores nomes da indústria, como Jorge & Mateus e Luan Santana, pareciam saber direitinho disso e nem perderam tempo com a tendência do momento. Muito pelo contrário.

A dupla apostou ainda mais fortemente no romântico para seu novo álbum, A Hora É Agora – Ao Vivo em Jurerê, o primeiro deles com a Som Livre. O lançamento foi muito bem recebidos, dando origem a 6 singles e mantendo eles incólumes como a maior dupla do Brasil. Já Luan também não modificou a sua formula de sucesso com seu terceiro CD, Quando Chega a Noite (cujos destaques incluíram “Te Vivo”, “Você de Mim Não Saí” e “Nêga”).

“Duas Metades” foi uma das faixas destaques do novo CD/DVD de Jorge & Mateus

Paula Fernandes, por sua vez, já começou a dar sinais de desgaste. Apesar do sucesso da música “Eu Sem Você”, o segundo álbum de estúdio da cantora, Meu Encanto, não conseguiu repetir a repercussão dos antecessores, mesmo com uma promoção intensa na TV. Apesar disso, ela se manteve firme como uma das maiores vendedoras do país.

A essa altura, a impressão é que o sertanejo já tinha conquistado quase todos os espaços imagináveis. A exceção? O Rock in Rio, o principal festival de música do Brasil que, assim como a elite da sua cidade natal, nunca abriu as portas para o gênero.

50 mil pessoas prestigiam a segunda edição do Festival Villa Mix em Goiânia

Em resposta a isso, a AudioMix — que graças ao sucesso monstruoso de Jorge & Mateus e ao bom desempenho de Gusttavo Lima tinha se firmado como a maior agência de entretenimento do Brasil — criou o Festival Villa Mix. A primeira edição, organizada em 2011 em Goiânia, foi um enorme sucesso, vendendo 50 mil ingressos. A edição de 2012 foi ainda mais grandiosa, servindo como um protótipo para a empresa expandir o evento para outros estados e torná-lo o maior do Brasil.

Os hits definidores de 2012.

2013: back to basics

Depois de um ano atípico onde Michel Teló e Gusttavo Lima conquistaram brevemente o mundo, as coisas voltaram ao normal no universo sertanejo em 2013.

Como de costume, a dupla Jorge & Mateus seguiu reinando, sendo os artistas mais requisitados para shows no país todo. A altíssima demanda por eles foi o que motivou Marcos Araújo, o dono da AudioMix, a expandir o Festival Villa Mix para o resto do Brasil, usando-os como headliners. Além da edição de Goiânia, que bateu recorde de público, com 60 mil ingressos vendidos, o festival passou por mais de 20 cidades, incluindo São Paulo, Brasília, Recife, São Luís, Londrina, Fortaleza, Niterói, Salvador, Belo Horizonte, João Pessoa, Vitória, Teresina, Maceió e Florianópolis. A edição de Goiânia ainda virou especial de Fim de Ano da Globo.

Além da agenda intensa de shows — tanto solo como parte do Festival — eles ainda estrearam novo DVD, gravado no Royal Albert Hall em Londres.

Jorge & Mateus gravam DVD no prestigioso Royal Albert Hall em Londres

Junto com eles no topo, Luan Santana também lançou o seu quarto álbum ao vivo, O Nosso Tempo é Hoje, gravado em Itu, no interior de São Paulo e que deu origem a hits como “Tudo Que Você Quiser” e “Te Esperando”.

Luan Santana emplaca mais um sucesso com “Tudo Que Você Quiser”, parte de seu novo projeto ao vivo.

Detentor de 20% da carreira de Luan, Sorocaba se firmava cada vez mais como um nome forte na indústria. Pra começar, sua dupla, Fernando & Sorocaba, seguia estável e obtendo bons sucessos. Ele também abriu seu próprio escritório de gerenciamento artístico, FS Produções que, apesar de não ter oficialmente Luan em seu casting, tinha nomes com alcance no segmento sertanejo, como Marcos & Bellutti e Thaeme & Thiago.

Mas, em 2013, Sorocaba acreditava ter encontrado um artista que seria capaz de ir mais longe e, assim como Luan, virar um fenômeno nacional: Lucas Lucco. O cantor galã surgiu forte, com sucessos como “Pra Te Fazer Lembrar” e “11 Vidas”.

Já o sertanejo festeiro estava oficialmente desgastado. Gusttavo Lima continuou obtendo um ótimo desempenho voltando para a música romântica, com faixas como “Fui Fiel” e “Diz Pra Mim”, enquanto Michel Teló, que ficou muito tachado como representante do estilo, teve bem mais dificuldade para sustentar a carreira musical, apesar de ter obtido resultados decentes com “Amiga da Minha Irmã”.

Porém, a repercussão nacional de “Ai, Se Eu Te Pego!” fez dele um rosto conhecido, o que o tornou uma figura midiática e um popular garoto-propaganda, um caminho lucrativo e pouco transitado por sertanejos.

Além disso, seu escritório de gerenciamento artístico, Brothers, ganhou um baita de um impulso com o sucesso Jads & Jadson. Com mais de 10 anos de estrada, a dupla — que tem um estilo mais de raiz, com bastante viola — excedeu todas as expectativas com o sucesso da música “Jeito Carinhoso” e se tornou um dos nomes mais badalados do mercado.

Por sua vez, Paula Fernandes demonstrava ainda ter força na indústria. Sua nova música, “Um Ser Amor”, foi escolhida como tema do casal principal da nova novela das 9, “Amor a Vida”, o que garantiu um hit grande para ela. Ela aproveitou o momento para lançar seu segundo DVD ao vivo, gravado na HSBC Arena do Rio. Victor & Leo também ressurgiram fortíssimos, com a música “Na Linha do Tempo”. Mas, apesar dos bons resultados, ambos os artistas estavam no fim da linha em termos de repercussão e, daí em diante, foram oficialmente engolidos por nomes com mais frescor.

Os hits definidores de 2013.

2014: novos fenômenos

Já fazia 8 anos que o sertanejo estava fortalecendo sua influência sobre o mercado fonográfico mas, desde Gusttavo Lima e (momentaneamente) Paula Fernandes, nenhum nome conseguiu de fato se firmar no primeiro escalão do gênero. Alguém do tamanho de Jorge & Mateus então, não surgia desde Luan Santana, em 2010, e mesmo assim, é discutível se Luan realmente poderia se equiparar dado que o público dele, juvenil, era mais restrito. Mas o ano de 2014 chegou para mudar esse cenário.

Na realidade, tudo começou dois anos antes quando muitos artistas conseguiram repercussão nacional ao tomar carona na tendência do sertanejo festeiro desatada primeiro por “Chora, Me Liga” e, depois, com ainda mais força, por “Ai, Se Eu Te Pego!” e “Balada Boa”. Como o ano seguinte provou, entretanto, quase nenhum deles conseguiu se estabelecer como parte do primeiro escalão e até Michel Teló empacou.

Mesmo assim, muita gente conseguiu colher bons frutos com o boom. Um deles foi o empresário Wander Oliveira que tinha observado o sucesso meteórico da AudioMix, em grande parte graças a Jorge & Mateus, e queria reproduzir aquilo no seu próprio escritório, o WorkShow.

“Até Você Voltar”: com seu arranjo bachata, a música foi um divisor de águas na indústria do sertanejo.

E na onda baladeira, ele conseguiu que uma dupla de seu casting, João Neto & Frederico, tivesse um sucesso bem grande, “Lê Lê Lê”. A dupla, diferente de outras que viralizaram na época, não foi um sucesso efêmero. Eles tinham uma carreira longa e diversos hits, tendo se firmado como os principais nomes da WorkShow. Mas a música os colocou ainda mais em evidência em todo o país e impulsionou o DVD deles gravado no Tocantins, o que ajudou a encher ainda mais os cofres da agência.

Esse dinheiro foi utilizado para investir em outra dupla, Henrique & Juliano, que tinha um perfil mais universitário e que Wander acreditava poder reproduzir o sucesso que a AudioMix tinha obtido com Jorge & Mateus.

Num primeiro momento, o repertório dos meninos era cheio de músicas que seguiam a formula do momento, com letras sobre festa e pegação. As canções — como “Vem Novinha!” e “Mistura Louca” — tiveram ótima aceitação no Norte e no Centro-Oeste e, em 2013, eles lançaram o primeiro DVD, Ao Vivo em Palmas, gravado no estado natal deles. João Neto & Frederico também participaram do show, os apadrinhando e gravando com eles o que seria, num primeiro momento, a música mais conhecida do repertório da dupla, “Não Tô Valendo Nada“.

Mas, como a gente já sabe, o que realmente consolida um artista são as músicas românticas. E foi quando uma faixa com essa pegada, “Recaídas” virou um hit enormee que a carreira deles deu uma guinada. Vendo o potencial, a WorkShow investiu pesado na gravação do segundo DVD em Brasília, cheio de canções de amor. Quando o material foi lançado, em abril de 2014, ele desatou um fenômeno que não era visto em anos. Prontamente, Henrique & Juliano fizeram o que parecia impossível: atingiram o mesmo patamar que Jorge & Mateus.

O sucesso inicial de João Neto & Frederico foi o que permitiu que a WorkShow pudesse investir na criação do fenômeno. Por tanto, não deixa de ser irônico que, ao mesmo tempo que Henrique & Juliano explodia e transformava o escritório em um dos maiores do Brasil, a dupla original rompia com a empresa.

Henrique & Juliano, assim como Jorge & Matheus, representaram uma revolução no meio sertanejo. Além de aquecerem o mercado como um todo, foram eles, através da música “Até Você Voltar”, que ajudaram a introduzir arranjos bachata — um gênero romântico que foi sensação na América Latina e que eu já falei sobre aqui no blog — na música sertaneja. Daí em diante, grande parte dos hits tiveram a batida influenciada pelo ritmo dominicano.

Enquanto a WorkShow se fortalecia como a segunda maior de Goiânia, a FS Produções, de Sorocaba, também tinha um ano fantástico. Para começar, a dupla Marcos & Belutti, parte do casting deles, conseguiu algo espetacular com a música “Domingo de Manhã” que se consagrou como a maior de 2014. O próprio Sorocaba também seguia com uma carreira estável, com a boa aceitação de “Gaveta” gravado com seu parceiro, Fernando.

“Domingo de Manhã” de Marcos & Belutti foi a música mais reproduzida do ano.

Já Lucas Lucco estava seguindo a risca o caminho traçado para ele pelo escritório, provando ter o que era preciso para se tornar um fenômeno

O mineiro, com sua beleza e composições originais, virou um sucesso nas redes sociais e no nicho sertanejo em Minas e no Centro-Oeste, o que chamou atenção de Sorocaba, que não poupou investimentos no jovem.

Lucas Lucco: sertanejo galã

Ao longo de 2013, ela obteve bastante repercussão com suas músicas e lançou um álbum independente, Nem Te Conto, se firmando em todo o país. Em poucas semanas, ele já tinha assinado com a Sony e, em janeiro de 2014, o seu segundo álbum, Tá Diferente, foi disponibilizado. Graças a faixa “Mozão”, ele virou um dos artistas que mais causaram impacto ao longo do ano. O vídeo da canção foi o mais visto do YouTube brasileiro em 2014.

Um dos diferenciais de Lucco era sua imagem menos sertaneja: alto e com porte e corpo de modelo, ele tinha tatuagens, era fã de hip-hop e rock e trazia influências de diferentes gêneros para sua música (uma delas, “Princesinha”, era um funknejo gravado com MC Catra).

De qualquer maneira, não foi coincidência que Lucas Lucco e Henrique & Juliano emergiram justamente no ano em que nem Luan Santana nem Jorge & Mateus colocaram novo álbum nas prateleiras. O que não significa que eles tiraram um ano sabático: além de centenas de show, ambos lançaram vários hits. Luan seguiu a promoção do seu Ao Vivo enquanto Jorge & Mateus obtiveram sucesso com canções novas como “Logo Eu”, “Calma” e “Nocaute”.

Quem também teve um 2014 agitado foi Cristiano Araújo. Depois da boa recepção de Continua, seu CD de estúdio no ano anterior — que deu origem a músicas enormes como “Maus Bocados” e “Casos Indefinidos” — ele lançou o grandiosíssimo projeto, In the Cities – Ao Vivo em Cuiabá, que o confirmou como um dos nomes mais badalados da música.

O artista, que estourou em 2011 com a colaboração com Jorge & Mateus, “Efeitos”, encerrou o ano assinando contrato com a AudioMix. A adição de Araújo ao casting foi possivelmente para suprir uma baixa importante: Gusttavo Lima.

“Caso Indefinido” foi um dos destaques do grandioso DVD de Cristiano Araújo.

Desde sua estréia, Gusttavo se manteve como o segundo principal artista do escritório, obtendo bons resultados com todos seus álbuns e uma agenda de shows lotadas. Mas, no fim de 2014, ele anunciou que estava rompendo com a AudioMix. Foi um término caro — ele teve que desembolsar R$12 milhões para se libertar do contrato — mas a vontade de ter total autonomia sobre sua própria carreira falou mais alto.

Enquanto isso, a dominação do sertanejo na rádio segue a passos largos. Em 2014, 59 das 100 músicas mais tocadas (de acordo com dados da Crowley) pertenciam ao gênero, incluindo 9 do top 10. A maior de todas foi “Domingo da Manhã” de Marcos & Belutti.

Os hits d

2015: Safadão e tragédia

“Camarote”, um dos sucessos de 2015.

O principal acontecimento do ano foi a ascensão de Wesley Safadão que, da noite para o dia, virou a maior estrela do Brasil, com o cachê mais alto e inúmeros hits. Wesley já era um nome consolidado no Nordeste, onde era vocalista da banda Garota Safada, e sua popularidade pelo restante do país andava a passos largos. Mas, em 2015, ele se lançou em carreira solo e, de imediato, virou um fenômeno sem igual.

Tecnicamente, Wesley Safadão não é sertanejo. Suas raízes estão no Nordeste e no forró. E isso, inclusive, foi essencial para a sua dominação pois, com esse background, ele facilmente conquistou o Rio, a segunda maior praça do país, notoriamente sertanejofóbica. Mas porque ele está sendo citado aqui então?

Porque a estratégia para lançar sua carreira solo foi se utilizar do aparato sertanejo, indiscutivelmente o de maior alcance no país. Ele fez uma parceria com a AudioMix, que começou a co-administrar sua agenda; escolheu o Centro-Oeste, especificamente Brasília, para gravação de seu primeiro CD/DVD ao vivo e ainda lançou uma colaboração com Marcos & Belutti, artistas de “Domingo de Manhã”, o hit mais impactante de 2014. A música em questão, “Aquele 1%”, foi o maior fenômeno do ano.

Safadão, com seu som forrozeira, trouxe de volta o sertanejo de balada que tanto bombou em 2012. Além disso, o sertanejo começou a abrir cada vez mais as portas para uma mescla de estilos. Essas duas tendências se uniram em um dos grandes hits do ano, “Suite 14”, cantado pela dupla sertaneja Henrique & Diego (não confundir com Henrique & Juliano) com arranjos de EDM e a participação do MC Guimé, então um dos maiores nomes do funk ostentação paulista.

“Suite 14”: a mescla de EDM, funk e sertanejo se provou um sucesso.

Enquanto Wesley abalava as estruturas, os nomes mais consolidados do sertanejo voltavam com força. Jorge & Mateus lançaram, com enorme sucesso, um novo álbum de estúdio, “Os Anjos Cantam” que deu origem a música homônima. No fim do ano, lançaram uma inédita, “Sosseguei”, que se firmou como a maior música deles até então.

Em comemoração aos 10 anos de carreira, a dupla faz um show para 50 mil pessoas no Estádio Mané Garrincha de Brasília, se tornando os únicos artistas nacionais a esgotaram o estádio desde que o Legião Urbana fez uma fatídica apresentação no local em 1988.

O sucesso de dupla no carnaval de Salvador ainda ofereceu uma oportunidade extremamente lucrativa para a AudioMix: a abertura de um camarote no Circuito Barra-Ondina durante as festividades. Os camarotes — que vendem abadás por mil reais por dia — lucram milhões todos os anos e, graças a força de Jorge & Mateus, o Camarote VillaMix se tornou, logo de primeira, um dos mais fortes da cidade, fazendo frente até ao super tradicional Camarote Salvador.

Luan Santana, o outro fenômeno do sertanejo, também teve novo projeto, Acústico. No CD/DVD, Luan regravou algumas das suas músicas mais marcantes, junto com outras novas, como “Chuva de Arroz” e “Escreve Aí” que, como sempre, tiveram ótima aceitação.

Ainda embalados pelo sucesso histórico do seu Ao Vivo em Brasília, Henrique & Juliano se consolidaram como parte do primeiro escalão. O plano do empresário Wander Oliveira funcionou perfeitamente e a dupla elevou a WorkShow e transformou o escritório em um dos maiores.

Festeja!, sob controle da WorkShow, começou a fazer frente ao VillaMix Festival.

Ainda focado em fazer frente a AudioMix, a WorkShow assumiu o controle do Festeja!, um evento sertanejo da Globo/Som Livre. A intenção era usar das suas estrelas — principalmente Henrique & Juliano, um dos maiores chamarizes de público no país — para fazer frente ao VillaMix, o festival itinerante da concorrência que tinha conseguido se consolidar como o maior do Brasil. O clima de competição estava instaurado.

Como pode-se ver, o universo sertanejo é feroz e, para se manter no topo, tem que ter muita garra e muita sede de sucesso. O mercado é extremamente saturado e exige que os artistas não só lancem músicas novas constantemente como também trabalhem 7 dias por semana, fazendo shows em absolutamente todos os cantos do Brasil. É preciso abrir mão de muita coisa e ter um pique absurdo para alcançar e se manter no primeiro time.

Jorge & Mateus, Henrique & Juliano e Luan Santana todos tinham esse pique. O mesmo não pode ser dito para Lucas Lucco. O mineiro chegou arrebentando a boca do balão no ano anterior mas a vida na estrada e a competição insana do mercado sertanejo não eram para ele.

“Escreve aí” foi a música mais reproduzida de 2015.

Em 2015, Lucco lançou seu terceiro CD, Advinha. O álbum deu origem a diversos sucessos, como “Vai Vendo”, que ia na linha sertanejo farra mas, apesar da ótima repercussão, o jovem optou por dar uma pausa. Ele fixou residência no Rio de Janeiro; entrou como co-protagonista da novela adolescente “Malhação”, da Rede Globo e reduziu drasticamente a sua agenda de shows. Seu sucesso nas redes sociais — onde virou uma espécie de muso fitness — e sua exposição na maior emissora do país o mantiveram em evidência mas ele optou por deixar a música em segundo plano, ao invés de lutar com unhas e dentes por um lugar no muito restrito primeiro escalão do sertanejo.

Michel Teló foi outro que foi pelo mesmo caminho. Um músico com uma longa estrada, Teló se identificava mais com o meio sertanejo do que Lucco, que sempre deixou claro o seu desejo de explorar outros universos. Mesmo assim, depois do sucesso histórico de “Ai, Se Eu Te Pego!”, ele teve enorme dificuldade de continuar emplacando hits. Mas ele fez limonada dos limões e tirou proveito da notoriedade que a música lhe deu em todo o país. Teló assinou contratos lucrativos para estrelar diversas publicidades; virou jurado no “The Voice” da Globo em 2015 e começou uma família com a atriz Thaís Fersoza, que virou uma popular influencer de assuntos familiares e maternais nas redes.

Em contrapartida, um que indiscutivelmente tinha garra para segurar o mercado sertanejo pelos dentes era Gusttavo Lima. Depois de romper com a AudioMix, ele pagou 12 milhões de reais para se liberar do contrato e conseguir lançar seu álbum inédito, “Boteco do Gusttavo Lima”. Em 2015, fundou seu próprio escritório, Balada Eventos e seguiu com sua agenda de show pelo país, ganhando notoriedade pelas suas apresentações longas e cheias de energia.

Apesar do sucesso do seu álbum “Advinha”, Lucas Lucco optou por dar uma desacelerada na carreira.

Outro que demonstrava ter a sede necessária era Cristiano Araújo. Mas, na noite do dia 24 de junho, um acidente de carro interrompeu tragicamente a vida do artista, que estava no ápice de sua carreira.

A cobertura midiática do falecimento serviu como exemplo do contraste entre dois universos: o mundo do sertanejo e dos seus fãs e o mundo que, com raras exceções, não tem a menor idéia do que acontece nesse nicho.

No dia 25, a Globo — localizada no Rio de Janeiro, a cidade mais hostil com o gênero — dedicou toda sua programação matinal e diurna para cobrir a tragédia. Nas redes sociais, milhares de pessoas demonstravam confusão em relação ao cantor e, mesmo no ar, jornalistas e personalidades admitiam nunca ter ouvido falar de Cristiano Araújo. “Não o conhecia e estou impressionado com a comoção”, disse Otaviano Costa, ao vivo, na cobertura diurna da Globo. Mais cedo, Fátima Bernardes se referiu a ele como “Cristiano Ronaldo”, um erro repetido por uma repórter do Video Show algumas horas depois.

Apesar da confusão dos apresentadores residentes do Rio e de telespectadores que não acompanham o gênero, a cobertura intensa mostrou a força impressionante do sertanejo. Tanto a Globo quanto a Record bateram recordes de audiência no dia, com Mais Você, Encontro, Video Show, Jornal Hoje e Cidade Alerta todos registrando os números mais altos de 2015 em São Paulo.

A comoção pela morte de Cristiano Araújo chocou apresentadores da Globo e fez com que as emissoras batessem recorde de audiência.

Em todo o caso, o evento que melhor encapsulou o pouco caso que a elite cultural carioca trata o sertanejo foi uma crônica que o jornalista e apresentador Zeca Camargo fez no “Jornal das 10” da GloboNews. Nele, ele classificou Cristiano como “tão famoso mas tão desconhecido”, comparou a música sertaneja com tendências “vazias” como “livros de colorir para adulto” e fez um contraste entre a morte dele e “ídolos de verdade”, como Lady Di e Senna. Para piorar, os gráficos atrás dele mostravam imagens de astros do rock e da MPB, como Cazua, Pitty e Titãs.

O descaso com que ele tratou o gênero e a tragédia gerou um processo por parte da família de Araujo; um boicote de artistas sertanejos aos seus programas na Globo e uma enorme revolta nas redes sociais, incitado por estrelas como Zezé DiCamargo & Luciano e Henrique & Juliano.

Mas, apesar dos seus lamentos, Zeca Camargo era indiscutivelmente o ignorante. Independentemente de gostos pessoais, o sertanejo é inquestionavelmente de onde muito dos ídolos “de verdade” do Brasil atual emergem, os únicos capazes de lotar shows em quase qualquer cidade do Brasil, seja uma capital ou o interior.

A prova maior do impacto do gênero? Se, no ano anterior, 59 das 100 músicas mais tocadas na rádio eram sertanejas, em 2015 esse número pulou para 82. No top 50, apenas 5 eram de outros ritmos.

A mais reproduzida de 2015 na rádio foi “Escreve Aí” de Luan Santana, que também foi o vídeo mais visto do ano no YouTube. “Aquele 1%” de Marcos & Belutti com Wesley Safadão foi o segundo clipe mais bombado na plataforma.

Os hits definidores de 2015.

2016: agora é que são elas

2016 foi o ano do feminejo. Maiara & Maraisa explodiram com “10%” e “Medo Bobo”; Simone e Simaria, as Coleguinhas, emplacaram “Meu Violão e Nosso Cachorro”; Naiara Azevedo chegou com seus “50 Reais” e Marília Mendonça estourou “Infiel” e “Eu Sei de Cor”. De supetão, as mulheres tomaram conta das paradas, viraram enormemente requisitadas para shows em todo o país e levaram o sertanejo para ambientes onde ele nunca tinha estado, como noites LGBT e festas pop.

A dominação se concretizou por vários motivos. Em primeiro lugar, teve o sucesso anterior de Paula Fernandes, que abriu o caminho e fez com que os escritórios grandes começassem a investir mais em talentos femininos. Além disso, os hits que estouraram tinham, em sua maioria, letras lúdicas e que davam bons memes, um filão que tinha sido redescoberto com a explosão de Safadão no ano anterior. O motivo final foi que nunca esteve tão fácil consumir música no Brasil.

Além do mais do que consolidado Youtube, ainda tinha o Spotify, que chegou ao país em 2014 e estava cada vez mais forte, facilitando a viralização dos hits e a descoberta e promoção de novos artistas.

Falando no Spotify, o sucesso da plataforma (e de outras, como o Deezer) deu um gás à indústria fonográfica brasileira que, depois de anos, voltou a crescer. Pela primeira vez em mais de uma década, as pessoas estavam ouvindo música de maneira legal. E, como o maior gênero do país, o sertanejo foi bastante beneficiado.

Em 2016, os cinco artistas mais ouvidos na plataforma incluíram Jorge & Mateus, Henrique & Juliano, Matheus & Kauan e Wesley Safadão (Justin Bieber, o quarto mais ouvido, uma posição acima de Safadão, completava o top 5).

Matheus & Kauan foram um dos maiores nomes de 2016.

Matheus & Kauan, como pode-se perceber, foi a revelação do ano e mais uma bola dentro da AudioMix. Os irmãos assinaram com o escritório em 2010 e, num primeiro momento, obtiveram sucesso como compositores, escrevendo músicas para Jorge & Mateus, Gusttavo Lima, Luan Santana, José Neto & Frederico, Michel Teló, Bruno & Marrone, Cristiano Araújo, dentre outros.

Mas a intenção deles nunca foi ficar nos bastidores. A dupla lançou um primeiro álbum em 2010 mas não emplacou nenhuma faixa. Em 2013, “Mundo Paralelo: Ao Vivo”, um projeto mais ambicioso, com distribuição da Som Livre, contou com as participações de Jorge & Mateus, Teló e Luan Santana. Mesmo assim, não vingou.

“Decide Aí”, mais uma faixa de Matheus & Kauan que brilhou bastante em 2015.

Apesar dos percalços, a AudioMix seguiu investindo neles e, em 2015, os irmãos assinaram com a Universal Music. Em Brasília, gravaram o ao vivo Face a Face e, no fim do ano, a música “Que Sorte A Nossa” se provou um sucesso considerável. Aproveitando o embalo, eles gravaram um segundo projeto, Na Praia, no Lago Paranoá do Distrito Federal e emplacaram mais três enormes hits: o reggaenejo “O Nosso Santo Bateu”; “A Rosa e o Beija-Flor” e “Decide Aí”. Antes do fim do ano, lançaram a inédita “Te Assumi Para o Brasil” que rapidamente também se provou inescapável. Além disso tudo, eles ainda participaram da maior música de Wesley Safadão de 2016, “Meu Coração Deu P.T.“.

Com nada menos do que seis gigantescos hits em um ano, um resultado digno de sertanejo Série A, a dupla Matheus & Kauan virou um dos projetos mais bem-sucedidos da AudioMix.

“Te Assumi Pro Brasil”: seis mega hits em um ano.

Mas, como de costume, Jorge & Mateus seguiram insubstituíveis no topo e foram os mais ouvidos do ano no Spotify. Com o álbum Como. Sempre Feito. Nunca, gravado ao vivo em São Paulo, a dupla também emplacou 6 sucessos: “Sosseguei”, “Louca de Saudades”, “Para Sempre Com Você”, “Paredes”, “Vou Voando” e “Ou Some ou Soma“.

Além do sucesso espetacular de dois dos seus principais artistas, a AudioMix seguiu a bem sucedida parceria com Wesley Safadão e ainda tirou casquinha do fenômeno feminejo, através de Simone & Simaria, parte do casting deles.

Para completar, o escritório ainda se juntou com a FM O Dia, a rádio mais influente e escutada do Rio de Janeiro e transformou o tradicional evento de fim de ano da estação, Maratona da Alegria, em Villa Mix.

Sendo assim, o festival itinerante chegou na Cidade Maravilhosa em grande estilo, no Parque Olímpico que, durante o Rock in Rio, também serve como a Cidade do Rock. Algo bem irônico dado que o Villa Mix nasceu parcialmente como resposta ao festival e seu esnobismo com o sertanejo. A colaboração ainda foi um passo muito importante para ganhar terreno no segundo mercado mais importante do país (e, indiscutivelmente, o mais complicado de se penetrar para o sertanejo).

Festival Villa Mix foi ficando cada vez mais grandioso.

Mas, se a AudioMix teve um ótimo ano, a WorkShow ficou logo na cola, continuando seu crescimento assombroso e se firmando oficialmente como a segunda maior agência do Brasil.

Para começar, ninguém se beneficiou tanto do boom feminejo quanto eles. Afinal, tanto Marília Mendonça quanto Maiara & Maraísa, as maiores expoentes do gênero, eram parte de seu casting.

A dupla Henrique & Juliano, cuja força impulsionou o escritório, seguiu bem forte com o lançamento de Novas Histórias, gravado ao vivo no Recife. Do álbum, também saíram 6 músicas que dominaram as rádios e as plataformas digitais: “Na Hora da Raiva”, “Como É Que A Gente Fica”, “Flor e o Beija-Flor”, “Nada Nada”, “Ele Quer Ser Eu” e “Parece Piada”.

“Na Hora da Raiva”: mais um fenômeno de Henrique & Juliano.

A WorkShow ainda estava nutrindo uma segunda dupla, Zé Neto & Cristiano. O álbum deles, Ao Vivo em São José do Rio Preto, obteve ótima repercussão, impulsionado pelas faixas “Te Amo”, “Eu Ligo Pra Você” e, principalmente, “Seu Polícia”, a mais tocada nas rádios do Brasil no ano.

Enquanto as duas gigantes de Goiânia disputavam para se tornar a maior do Brasil, Luan Santana estava em um momento de transição. Seu contrato com o cantor e empresário Sorocaba que, até então, detinha 20% de sua carreira, chegou ao fim e ele usou da oportunidade para dar novos rumos a sua carreira.

Para isso, ele adotou uma sonoridade ainda mais pop, como vista na bem-sucedida “Eu, você, o mar e ela”. No fim do ano, ele lançou o CD “1977”, um álbum mais conceitual, que homenageava as mulheres e continha músicas acústicas, em colaboração com as principais cantoras do país como Ivete Sangalo, Anitta, Marília Mendonça, Sandy e Ana Carolina.

Gusttavo Lima, por sua vez, seguiu com força, provando ser um dos artistas mais sedentos no ultra competitivo mercado sertanejo.

Seu rompimento com a AudioMix e fundação do próprio escritório, Balada Eventos, veio com alguns percalços. Seu cachê caiu e, sem a ponte que a gigante do ramo fazia com os contratantes, sua agenda ficou um pouco menos cheia. Mas, como um dos nomes mais estabelecidos do sertanejo, o artista continuou em altíssima demanda e, em 2016, estava mostrando sinais impressionantes de força.

O seu quinto CD ao vivo, 50/50, gravado no interior de Goiás, teve uma ótima recepção, dando origem, dentre outras, as músicas “Homem de Família” e “Que Pena Que Acabou”. Além disso, o show dele no Festival de Peão de Barretos, o mais influente para o meio sertanejo, foi considerado o ponto alto do evento.

Com o projeto “50/50”, Gusttavo Lima continuou firme no primeiro escalão do sertanejo.

Na ocasião, ele cantou até o sol raiar, por 4 horas ininterruptas; bebeu uma garrafa de rum; conversou efusivamente com o público; aceitou pedidos de músicas da platéia (que chegaram até ele através da papelzinhos escrito a mão) e, no fim do show, atravessou a multidão para comprar pastel em um dos quiosques do estádio. Ao amanhecer, um dos diretores do Clube dos Independentes, a associação que organiza o evento, subiu ao palco e o nomeou como o Embaixador do evento no próximo ano, uma posição de enorme prestígio.

Nas rádios do Brasil, nada menos do que 90 das 100 músicas mais reproduzidas ao longo de 2016 pertenciam ao gênero sertanejo. Mostrando o investimento da WorkShow no rádio, as mais tocadas foram “Seu Polícia” de Zé Neto & Cristiano e “Infiel” de Marília Mendonça. No YouTube, o funk encabeçou a lista de vídeos mais vistos (“Bum Bum Granada”) mas foi logo seguido de “O Nosso Santo Bateu” de Matheus & Kauan e “50 Reais” de Naiara Azevedo.

Os hits que definiram 2016.

2017: a conquista da sofrência

O boom feminejo deu uma grande sacudida no cenário e, em 2017, Marília Mendonça se consolidou como a maior artista do país. De Norte a Sul, de Leste a Oeste, ninguém chegou perto dos números assombrosos alcançados pela artista de apenas 22 anos.

Marilia Mendonça se confirma como a maior artista do país.

Como já disse no post anterior, o fenômeno Marília Mendonça tem alguns paralelos com Paula Fernandes. Além de oferecer uma perspectiva feminina ao gênero, ambas tem timbres que tendem ao MPB, com menos afetação que o típico sertanejo, o que ajuda as músicas delas a terem um alcance ainda maior.

Mas as semelhanças acabam ai. Wander Oliveira, o dono da WorkShow, até tentou convencer Marília a gravar músicas sobre amores perfeitos e natureza, como as de Paula, mas a artista preferiu tratar da vida real. E assim, com suas canções sobre uma vida de muito álcool, decepções amorosas, traições e ciúmes, ela conquistou o coração do brasileiro.

Apesar de ter sido criada no interior de Goiás, o berço do sertanejo moderno, Marília optou por uma estratégia diferente: focar, de primeira, no Norte e no Nordeste. Fazia sentido, uma vez que os sucessos históricos tanto de Henrique & Juliano quanto de Jorge & Mateus estavam diretamente relacionados com a conquista de mercados nessas regiões do país.

O plano deu certo: em pouco tempo, ela era extremamente popular em ambas as zonais e daí, conquistar o Centro-Oeste, o Sul e os rincões tradicionais do sertanejo no Sudeste foram fichinha. Mais do que isso, Marília conseguiu o que a maior parte dos sertanejos nunca foram capazes de fazer: obter resultados expressivos no Rio de Janeiro.

“Como Faz Com Ela” foi destaque no primeiro álbum de Marília

Em menos de 1 ano, Marília lançou seu primeiro álbum, Ao Vivo, com uma pegada mais acústica e dezenas de hits (“Infiel”; “Sentimento Louco”; “Como Faz Com Ela”; “Alô Porteiro”; “Meu Cupido é Gari”; “Folgado”); um EP digital, Agora É Que São Elas, com a gigantesca “Eu Sei de Cor” e o seu segundo CD/DVD, o grandioso Realidade, gravado na frente de 40 mil pessoas no Sambódromo de Manaus (o álbum deu origem a “Amante Não Tem Lar”). A artista metralhou hit atrás de hit e consolidou a “sofrência” nas paradas de todo o Brasil.

As músicas sobre decepções amorosas sempre tiveram boa aceitação no mundo sertanejo mas, na última década, o sertanejo romântico priorizou faixas mais otimistas. A maior parte dos hits de Victor & Leo, Jorge & Mateus, Paula Fernandes e Luan Santana falam de grandes amores, de se apaixonar e, mesmo nas canções sobre fim de relacionamento, o tom segue sendo de otimismo, com letras que falam sobre a esperança de reconquistar a amada; da felicidade da superação ou de ter se livrado de um peso.

Quem começou a mudar um pouco o panorama foram os artistas da WorkShow, começando por Henrique & Juliano. As situações narradas em canções como “Recaídas”, “Até Você Voltar” e “Cuida Bem Dela” tinham grande dose de drama e arrependimento. Não à toa, as últimas duas foram compostas por Marília.

O escritório também investiu no filão em suas apostas mais recentes, tanto com Zé Neto & Cristiano, que viraram nomes reconhecidos com “Seu Polícia”, quanto com Maiara & Maraísa, que deram o ponta-pé no boom feminejo com “10%”.

Mas, enquanto todos esses artistas obtiveram grandes resultados se arriscando na sofrência, foi Marília que fez do sub-gênero toda a base de sua carreira, se transformando, no processo, na maior artista do país. Assim como “Chora, Me Liga” incentivou a proliferação do sertanejo de pegação, Marília Mendonça fez com que a quantidade de hits sobre estar no fundo do poço virassem cada vez mais comum.

Surfando na onda da sofrência desde o seu álbum anterior, Zé Neto & Cristiano continuaram explorando a temática em seu segundo DVD, Um Novo Sonho, gravado em Cuiabá. As faixas “Cadeira de Aço” e “Amigo Taxista” iriam solidificar ainda mais a dupla.

Pode-se perceber que foi um ótimo ano para a WorkShow. Marília Mendonça chegou ao topo, dando ao escritório mais um artista de primeiríssimo escalão; Zé Neto & Cristiano continuaram andando a passos largos e Maiara & Maraísa obtiveram sucessos expressivos (com a música “Sorte Que Cê Beija Bem”, parte do novo DVD, Ao Vivo em Campo Grande e com “Esqueci Como Namora”, colaboração com Nego do Borel).

Como cereja do bolo, os artistas supremos do escritório, Henrique & Juliano, voltaram com novo álbum. O projeto O Céu Explica Tudo , gravado ao vivo no Citibank Hall de São Paulo, incluiria o maior hit da dupla até o momento: “Vidinha de Balada”.

“Vidinha de Balada” cumpriu a difícil missão de se tornar o maior sucesso da carreira de Henrique & Juliano.

O clima de competição em Goiânia estava pesado e a AudioMix obviamente não estava disposta a ceder seu trono. Felizmente para eles, 2017 também foi um ano em que registraram crescimento.

Apesar da WorkShow ter sido a maior beneficiada com o boom feminejo, isso não significa que a concorrente também não lucrou pesado com o filão. Em 2017, Simone & Simaria, as grandes apostas femininas do escritório, atingiram o ápice.

“Loka”, de Simone & Simaria com Anitta, foi o maior sucesso do ano no YouTube.

“Loka”, uma colaboração com Anitta, a cantora pop mais badalada da atualidade, ultrapassou 600 milhões de visualizações e se transformou no vídeo musical mais visto do YouTube brasileiro. “Regime Fechado”, lançado alguns meses mais tarde, foi o maior hit solo delas. E, antes do fim do ano, elas emplacaram “Raspão“, um feat com a dupla Henrique & Diego.

As irmãs ainda viraram coaches do The Voice Kids, sendo presenças constantes no horário nobre da Globo, e também se transformaram em queridinhas do mercado publicitário, aparecendo em comerciais das lojas Marisa, da operadora TIM, da Coca Cola e da tintura Cor & Tom da Niely.

A presença midiática delas — que equipara-se, por exemplo, a de Luan Santana — mostra a tentativa de consolida-las como estrelas que transcendem o mercado sertanejo, algo mais do que compreensível dado que elas são nordestinas com raízes no forró.

Os demais artistas da AudioMix também tiveram um ano agitado. Matheus & Kauan não repetiram em 2017 a quantidade de hits do ano anterior mas se mantiveram estáveis. O sucesso de “Na Praia 2”, gravado no Sheraton do Rio de Janeiro, fez deles os artistas mais ouvidos do ano no Spotify.

Wesley Safadão lançou a inescapável “Ar Condicionado no 15”, parte do seu novo DVD, WS in Miami Beach, gravado nos EUA.

Já Jorge & Mateus, os titãs da AudioMix, não tiveram CD/DVD inédito mas preencheram o ano com o lançamento de três bem sucedidos singles: “Contrato”, “Se o Amor Tiver Lugar” e “Medida Certa”, além de manter a agenda de shows lotada como de costume.

Porém, o grande trunfo da AudioMix foi se expandir para além do mercado sertanejo e se associar a Alok que, com o sucesso histórico de “Hear Me Now”, tinha se transformado no maior DJ do Brasil (e o maior DJ brasileiro a nível mundial). O artista, que também é de Goiânia, uniu sua agência, Artist Factory, ao escritório em um momento onde a EDM (electronic dance music) se popularizava cada vez mais em terras tupiniquins. De imediato, Alok virou figura fixa no Villa Mix, que seguia firme como o maior festival, batendo recorde de público em todos os estados do país.

Outro momento de glória para o escritório foi a a adição de Luan Santana ao seu casting. Depois de 10 anos, o contrato dele com Sorocaba finalmente chegou ao fim. Como um dos maiores fenômenos musicas do país, absolutamente todas as agências lutaram para ter ele em seu casting e, no fim, ele optou pela AudioMix.

A associação com Luan seguia os moldes da bem sucedida parceria com Safadão: o artista tinha controle total da parte artística da sua carreira, através da sua agência própria (no caso, a LS Music), mas a AudioMix prestaria consultoria e faria a ponte com os contratantes, organizando a agenda de shows dele. Além disso, ele seria parte semi-fixa do Festival Villa Mix.

A WorkShow, sempre sedenta pelo topo, respondeu a altura: assinou com Gusttavo Lima, que tinha rompido de maneira dramática com a concorrente dois anos antes e, mesmo assim, tinha se mantido um dos principais artistas do país.

A carreira de Gusttavo e Luan, inclusive, estavam em momentos contrastantes. Ambos os artistas surgiram ao mesmo tempo e a ascensão de Gusttavo foi uma resposta ao fenômeno que foi a chegada do intérprete de “Meteoro”, que criou apetite por cantores jovens solo no mercado sertanejo.

Os dois se mantiveram no topo desde então mas Luan sempre foi mais experimental, testando conceitos diferenciados e tentando transcender a barreira do sertanejo, enquanto Gusttavo sempre foi mais de raiz, bastante satisfeito de fazer parte do gênero. Prova disso é a sede que o cantor de “Balada” encara suas apresentações em uma das mecas do sertanejo, o Festival do Peão de Barretos.

Gusttavo Lima canta até o sol raiar mais uma vez em Barretos.

Depois do seu show histórico de 4 horas no ano anterior, que fez com que ele fosse nomeado o Embaixador da edição seguinte, Gusttavo Lima quebrou seu próprio recorde, cantando por 5 horas. Diferente de 2016, onde a arena já tinha se esvaziado nas horas finais, mais de 10 mil pessoas ainda o prestigiavam quando sua apresentação chegou ao fim, as 7 da manhã. Numa decisão histórica, Gusttavo foi nomeado Embaixador da festa por um segundo ano consecutivo.

Em contrapartida, Luan, que, em 2010, no seu ápice, foi o primeiro artista a ser nomeado Embaixador de Barretos, estava deixando a sonoridade que o consagrou para trás. Ele queria ser um artista pop mais tradicional e já estava experimentando arranjos diferentes desde seus lançamentos do ano anterior, que obtiveram sucesso considerável. No começo de 2017, quando sua nova faixa, “Acordando o Prédio”, arrebentou a boca do balão, tudo parecia estar bem encaminhado. Mas a pouca repercussão das músicas seguintes começaram a acender o alerta de que abandonar o ritmo mais popular do país talvez não fosse a melhor idéia…

A concorrência entre a AudioMix e a WorkShow também se manifestou no âmbito dos festivais. O Villa Mix seguiu sendo o mais forte e consolidado e sua edição chave, de Goiânia, foi expandida para dois dias. Já o Festeja!, da WorkShow, saiu na frente do concorrente na conquista do mercado internacional, fazendo edições em Lisboa, Bruxelas e Londres.

2017 também foi o ano que o sertanejo resolveu sair da caixa, com muitas parcerias pop. Simone & Simaria arrasaram com “Loka”, colaboração com Anitta. Maiara & Maraisa tiveram sucesso com “Eu Esqueci Como Namora” com Nego do Borel. E Naiara Azevedo também teve boa repercussão com “Avisa Que Eu Cheguei”, dueto com Ivete Sangalo.

Mas ninguém foi tão requisitado para feats quanto Kevinho. Funk é o único ritmo que consegue fazer frente ao sertanejo e, dentro do gênero, não existia estrela maior que o paulista. Em 2017, todo mundo queria um hit funknejo com ele.

Quem começou a moda foi João Neto & Frederico. Com uma longa discografia cheia de sertanejo pegação, a temática deles combinava bastante com o universo funk e eles foram os primeiros a se arriscar na mescla do estilo e recorrer a Kevinho. O resultado, “Cê Acredita”, foi muito bem-sucedido.

“Deixa Ela Beijar”: a junção da nata do funk com a nata do sertanejo.

Depois deles, veio Naiara Azevedo, que também bombou com “Mentalmente” e, finalmente, os maiores nomes de todos, Matheus & Kauan, que tiveram seu maior hit de 2017 com “Deixa Ela Beijar”. A junção pouco provável do funk com sertanejo — que, por muito tempo, foram considerados os estilos mais opostos possíveis — se provou um sucesso. Nada mais lógico, afinal os dois dominam, em geral juntos, grande parte das noitadas país afora.

2017 marcou o começo de um novo ciclo, ainda mais fluído, para o gênero. Mas também foi o ano em que os artistas que escancararam a porta do sertanejo moderno, Victor & Leo, atingiram o final da linha.

Apesar de que o momento de ápice deles durou pouco — rapidamente eles foram engolidos por outros nomes — a dupla tinha mantido uma carreira estável e, desde o ano anterior, eram jurados do “The Voice Kids”. Mas uma acusação de agressão contra Victor, feito por sua esposa grávida, não só fez com que a dupla fosse suspensa do programa (substituídos por Simone & Simaria) como também manchou permanentemente a reputação deles. No ano seguinte, eles se separariam oficialmente.

Enquanto alguns ídolos se apagam, novos nomes surgem. E a revelação de 2017 foi Felipe Araújo, irmão mais novo de Cristiano.

Enquanto Cristiano Araújo era a grande aposta da família, Felipe também sempre esteve envolvido no meio sertanejo, tendo formado duas duplas com amigos próximos. Mas, depois do falecimento trágico do irmão, ele atendeu um pedido do seu pai e, em 2015, se lançou como artista solo, assinando contrato com a a Universal.

Felipe Araújo: irmão de Cristiano desponta.

A indústria sertanejo o apoiou em peso: logo de cara, ele fez parceria com os três maiores artistas do meio. A colaboração com Marília Mendonça foi a faixa do seu primeiro álbum que teve melhor repercussão mas foram as músicas com Jorge & Mateus (“Chave Cópia”) e, principalmente, com Henrique & Juliano (“A Mala é Falsa”) que o colocaram em evidência. Em 2017, “Amor da sua Cama” foi seu primeiro grande hit solo.

A indústria também começou a prestar cada vez mais atenção no Nordeste. Já faz anos que gêneros nordestinos como forró e arrocha influenciam diretamente a música sertaneja e a AudioMix em particular sempre buscou talentos na região, tendo assinado não só com Simone & Simaria mas também com os dois maiores fenômenos do Nordeste, Wesley Safadão e Aviões do Forró. E, em 2017, apesar de não ser afiliado a nenhum grande escritório, mais um nome despontou: Mano Walter.

O vaqueiro do Alagoas tinha explodido, na verdade, no ano anterior, com um CD ao vivo gravado em Maceió cujo grande hit foi “O que Houve?”, um dueto com Marília Mendonça. Mas, em 2017, ele ficou ainda mais forte com seu primeiro hit solo, “Não Deixo Não”, que celebra suas raízes rurais.

Enquanto isso, nas rádios, o sertanejo bate seu próprio recorde: 91 das 100 músicas mais tocadas do ano pertenciam ao gênero de acordo com levantamento da Crowley. A mais popular foi “Acordando o Prédio” de Luan Santana. No YouTube, o vídeo mais visto foi “Loka” de Simone e Simaria com Anitta. Na plataforma, Marília Mendonça foi a artista mais reproduzida.

Já no Spotify, o sertanejo “só” aparece em terceiro lugar dentre as faixas mais ouvidas, com “Vidinha de Balada” do Henrique & Juliano (atrás de “Shape of You” de Ed Sheeran e “Hear me Now” do Alok).

Mas o gênero domina tanto a lista de artistas mais populares (o top 5 foi formado por Matheus & Kauan; Jorge & Mateus; Henrique & Juliano; Marília Mendonça e Wesley Safadão) quanto de álbuns mais reproduzidos (Na Praia 2 de Matheus & Kauan; Como. Sempre Feito. Nunca, lançamento de 2016 de Jorge & Mateus; Realidade de Marília Mendonça; Ao Vivo de Marília Mendonça e O Céu Explica Tudo – Ao Vivo de Henrique & Juliano).

Os hits definidores de 2017.

2018: estratégias

Em apenas 4 anos, a WorkShow conseguiu crescer em um nível assombroso, se consolidando como o segundo maior escritório de empresariamento artístico do Brasil. Do estouro de Henrique & Juliano ao boom feminejo e a consolidação de Marília Mendonça como a maior artista do Brasil, é inquestionável a competência da agência em nutrir novos talentos. E, em 2018, eles deram mais um gol dentro: Zé Neto & Cristiano, parte do casting deles, entrou para o extremamente seleto primeiro escalão do sertanejo.

“Largado às Traças” transformou Zé Neto & Cristiano nos maiores artistas do Brasil.

A WorkShow vinha nutrindo a dupla de São José do Rio Preto, interior de São Paulo, desde 2015 e, com seus dois primeiros álbuns, eles já tinham emplacado diversos hits. O investimento do escritório neles, inclusive, fez com que tivessem a música mais tocada nas rádios de 2016, “Seu Polícia”.

Mas o sucesso de “Amigo Taxista”, no fim de 2017, os expôs a um público ainda maior e, em março do ano seguinte, um EP digital lotado de hits os catapultou para outro patamar de fama.

A idéia do Acústico era apenas familiarizar o público com algumas faixas que fariam parte do repertório do álbum ao vivo, cuja previsão de lançamento era poucos meses mais tarde. Mas, de imediato, o resultado obtido excedeu todas as expectativas. O destaque foi “Largado às Traças”, que se transformou, de longe, na maior música do ano.

Zé Neto & Cristiano

Quando o projeto ao vivo chegou, em maio, eles já eram um fenômeno. Esquece o Mundo Lá Fora, gravado no Espaço das Américas em São Paulo, incluía não só o hit monstro “Largado às Traças” como também trazia “Notificação Preferida”, “Status Que Eu Não Queria”, “Bebida na Ferida”, “Mulher Maravilha”, “Derreter a Aliança” e “Ontem Era Eu”.

O sucesso de Zé Neto & Cristiano foi um exemplo bem claro da sofrência como a vertente mais popular do sertanejo. Quase todos os hits deles seguem a formula popularizada pela companheira de escritório, Marília Mendonça: histórias tristes sobre corações partidos, arrependimentos amorosos, superações doloridas e muito álcool. E, com esse combo, eles viraram os maiores nomes do Brasil em 2018.

Zé Neto & Cristiano era a resposta da WorkShow para Matheus & Kauan, da AudioMix. Ambas as duplas foram nutridas para, de certa maneira, suceder os artistas que colocaram as respectivas companhias no mapa: Henrique & Juliano e Jorge & Mateus. Mas, pelo menos a principio, a WorkShow parece ter mandado bem melhor em sua estratégia.

A AudioMix começou a administrar a carreira de Matheus & Kauan com enorme maestria. Apesar de ter demorado para conseguir emplacá-los, quando eles finalmente aconteceram eles se tornaram, quase de imediato, os maiores do Brasil, metralhando uma sucesso atrás da outro. Porém, depois da enorme repercussão do “Na Praia”, a mágica não se repetiu com a mesma intensidade no “Na Praia 2”.

Esquece O Mundo La Fora foi o álbum mais bem-sucedido do ano.

Não que o álbum tenha sido um fracasso, muito pelo contrário. Não só ele foi o mais ouvido de 2017 no Spotify, o primeiro single , “Te Assumi Pro Brasil”, foi inescapável. Outras músicas do CD, como “Nessas Horas”, também gozaram de repercussão decente. Mas não repetiu o fenômeno do álbum anterior, algo que os sertanejos de primeiro escalão não costumam ter dificuldade em fazer.

A AudioMix também insistiu na estratégia de fazê-los colaborar com artistas de outro segmento. É verdade que isso trouxe sucessos e os expôs a um público que não necessariamente consome sertanejo. Em 2017, eles obtiveram bons resultados tanto com “Fica”, gravado com a dupla indie pop ANAVITORIA, quanto com o funknejo “Deixa Ela Beijar”, junto a Kevinho. Em 2018, eles passaram semanas no topo das mais ouvidas do Spotify com “Ao Vivo e a Cores”, com Anitta.

Mas, na minha opinião, essa excessiva popzação e a dependência grande de parcerias não fideliza o público e trás problemas a longo prazo. Primeiro porque o repertório e todo o branding da dupla fica menos coerente. Segundo que, para a base de fãs maciça do gênero, que é a que lota os shows, quanto mais sertanejo, melhor. E terceiro que a marca de um sertanejo de primeiro escalão é a facilidade de obter sucessos solos.

Apesar de uma década como os maiores artistas do Brasil, Jorge & Mateus, por exemplo, nunca deram os braços a torcer. Todas as participações em músicas de outros artistas foram com nomes cuja sonoridade combinava perfeitamente com a deles, em sua maioria do âmbito sertanejo. Tem que ter uma convergência ali, uma linearidade. Além disso, eles emplacam sucessos solos ano após ano. É isso, mais do que qualquer outra coisa, que fez com que eles continuassem em destaque como dupla, mesmo em um mercado saturado E foi essa estratégia que a WorkShow empregou para Henrique & Juliano e, depois, para Zé Neto & Cristiano.

Já a AudioMix, com Matheus & Kauan, resolveu mudar a receita e ser mais ousada. E, sinceramente, não sei se isso os beneficiou.

“Ao Vivo e a Cores”: a bem recebida colaboração entre Anitta e Matheus e Kauan.

É importante ressaltar novamente que a estratégia da AudioMix tampouco deu errado. Matheus & Kauan seguiram sendo uma das principais duplas sertanejas do país. Além do mega hit com Anitta, eles também obtiveram um sucesso solo em 2018, com “Tô Com a Moral no Céu”; mantiveram agenda cheia; tiveram ótimos números de streaming, além de serem uma das atrações estrela do Festival Villa Mix e presença constante na rádio.

Mas, mesmo assim, o volume de hits solo estava abaixo do esperado para artistas do porte deles e o projeto Intensamente Hoje (que foi lançado, inicialmente, como 4 EPs) não deu origem a vários clássicos instantâneos, algo que seus predecessores (e eles próprios no seu primeiro ano de sucesso) conseguiam com facilidade. Ademais, tanto em 2017 (“Deixa Ela Beijar”) quanto em 2018 (“Ao Vivo e a Cores”), os maiores hits deles foram parcerias que, como já disse, não tem o efeito duradouro e potencializador de um sucesso solo.

Outro artista que optou por uma estratégia ousada foi Luan Santana. Mas. no caso dele, os resultados foram indiscutivelmente catastróficos.

Desde 2016, o artista está fazendo um esforço para adotar uma imagem mais pop. Começando com “Eu, Você, o Mar e Ela”, as coisas pareciam estar bem encaminhadas e, no começo de 2017, “Acordando o Prédio”, com sua influência do reggaeton, foi um sucesso enorme.

O cantor, é verdade, nunca seguiu a risca as regras do sertanejo e sempre transitou por caminhos mais típicos de artista pop. Por exemplo, ele é uma figura constante na mídia, aparecendo nas telas da TV Globo com enorme frequência. Outros sertanejos de primeiro escalão são muito mais low profile, dosando bastante suas aparições midiáticas.

Ele também era um garoto-propaganda popular, tendo seu próprio perfume da Jequiti e fazendo campanhas da Coca-Cola, das tintas Suvinil, do posto Shell, das Casas Bahia e até mesmo de produtos para acne da Asepxia. Aparecer em comerciais é comum para artistas como Anitta, Ivete Sangalo, Ludmilla ou até Wesley Safadão. Mas é raríssimo um sertanejo moderno de primeiro escalão associar seu nome a uma grande marca. Marília e Jorge & Mateus, por exemplo, não costumam fazer campanhas publicitárias, apesar de serem os maiores artistas do país.

Marília Mendonça segue em alta.

Para Luan e sua equipe, essas quebras de paradigma sempre trouxeram bons resultados. E é natural que, depois de quase 10 anos, eles quisessem ir mais além. Mas se o rebranding pop dele começou bem, não demorou muito para as coisas desandarem de vez.

Ao longo de 2018, Luan lançou quatro singles: “Acertou a Mão”; “Check-In”, “2050” e “MC Lençol e DJ Travesseiro”. Ele apostou em arranjos com influências de eletrônico e reggaeton e abriu mão dos tradicionais clipes ao vivo para fazer vídeos com estética internacional e orçamentos altos.

As primeiras duas músicas tiveram clipes gravados na Colômbia dirigido por um cineasta estado-unidense enquanto a última teve vídeo estrelando a badaladíssima atriz e comediante Tata Werneck. Todos, sem nenhuma exceção, foram fracassos retumbantes.

Na sua nova fase, Luan não só alienou o público sertanejo, o mais numeroso do país, como não conseguiu conquistar o público pop. E, na minha opinião, essa estratégia estava fadada ao fracasso desde o começo. No passado, era comum artistas perderem o jeito “de interior” para alcançar um público maior. Mas já faz tempo que o caminho é o inverso: se sertanejar é um atalho para o sucesso, inclusive nos grandes centros, como São Paulo.

Diferente de outros grandes nomes do sertanejo, que são intra-geracionais, Luan Santana sempre atraiu um público mais juvenil. E artistas juvenis costumam ter data de validade: uma hora, a popularidade cai. Com sua capacidade impressionante de gerar hits, o artista conseguiu se manter no topo por muito mais tempo que o esperado. Mas sua transformação pop parece ter finalmente causado o inevitável declínio.

“Apelido Carinhoso” se confirmaria como a maior música de Gusttavo Lima.

Por outro lado, Gusttavo Lima, que abraçava totalmente o mercado sertanejo, seguia no topo. Mesmo com anos de sucesso nas costas, ele provou, em 2018, que ainda não tinha alcançando o ápice. Lançado no fim de 2017, Buteco do Gusttavo Lima Vol. 2 trouxe “Apelido Carinhoso”, que se transformaria na maior música dele até então, e “Mundo de Ilusões”.

Em agosto, mostrando que o mercado sertanejo é cheio de reviravoltas, o artista anunciou que iria deixar a WorkShow para voltar para a AudioMix, o escritório que o lançou e com qual ele tinha rompido dramaticamente vários anos antes.

Na nova parceria, Gusttavo seguiria o mesmo esquema de Luan Santana e Wesley Safadão: a sua Balada Eventos permaneceria responsável pelo gerenciamento artístico mas a AudioMix administraria a agenda e ele viraria artista fixo no Festival Villa Mix. O anuncio foi feito poucos dias antes dele fazer a sua apresentação em Barretos, que já tinha se tornado uma tradição e era considerado o ponto alto das festividades.

Para 2018, ele se superou. Depois de ter sido o primeiro artista a ser nomeado Embaixador do evento por dois anos consecutivos, ele decidiu que seu show no Festival do Peão seria o cenário do seu novo álbum/DVD que seria intitulado, claro, “O Embaixador”. Foi a primeira vez que Barretos foi escolhido como palco da gravação de um projeto ao vivo. A filmagem durou 2 horas mas depois ele cantou por mais 3 horas e 40 minutos para quebrar o recorde que ele mesmo estabeleceu no ano passado.

Já o boom feminejo deixou de ser a grande novidade do pedaço. O que não quer dizer que acabou. Pelo contrário, ele se estabilizou como parte fixa do gênero e todas as principais estrelas encontraram seus respectivos nichos.

Depois de um começo espetacular, com “10%”, “Medo Bobo” e “Sorte Que Cê Beija Bem”, Maiara & Maraísa tiveram certa dificuldade de continuar emplacando grandes sucessos solos. Como já disse, na métrica do sertanejo, sucessos solos são o principal indício de que você é parte fixa do primeiro escalão então isso poderia ser problema.

Mas as gêmeas não deixaram isso ser um empecilho. Talvez elas não tenham alcançado o topo da pirâmide mas, com o apoio da WorkShow, mantiveram a agenda cheia; são parte fixa do festival Festeja! e foram abraçadas pela indústria. O DVD delas, Reflexo, gravado em São Paulo, teve participações de Zé Neto & Cristiano, Jorge & Mateus e Henrique & Juliano. De certa maneira, elas servem como embaixatrizes do feminejo, colaborando frequentemente com Marília Mendonça e também aparecendo em “Cobaia”, hit que revelou a mais nova representante do estilo, Lauana Prado.

O funknejo de Kevinho com Simone & Simaria foi outro dos sucessos do ano.

Já Simone & Simaria optaram por transcender o sertanejo e viraram figuras pop com presença constante na mídia, posto fixo no “The Voice” e muitos lucrativos contratos publicitários. O funk delas com Kevinho, “Ta Tum Tum”, foi um dos maiores hits do ano. Como comentei antes, a popzação tem o seu preço mas, no caso delas, cumpriu o papel de mantê-las em evidência.

Apesar de não ser afiliada aos maiores escritórios, Naiara Azevedo também continuou forte no nicho sertanejo, com músicas com refrões pegajosos como “Pegada Que Desgrama” e “Chora no Meu Colo”, além de colaborações irreverentes com nomes como Ivete Sangalo (“Avisa Que Eu Cheguei”) e as funkeiras Dani Russo e MC Pocahontas (“Oh Quem Voltou”). Em 2018, ela se associou brevemente a WorkShow mas saiu para fundar sua própria agência, NA Produções. A NA prontamente atraiu nomes consolidados no segmento, como Israel Novaes e Humberto & Ronaldo.

Já a rainha suprema Marília Mendonça seguiu como uma das maiores artistas do Brasil em 2018. Ao longo do ano, lançou Agora É Que São Elas 2, um EP digital em colaboração com Maiara & Maraísa, que deu origem a hits como “A Culpa é Dele”, que tinha a participação das gêmeas; “Estranho” e “Ausência”.

Mais tarde, ela deu início ao ambicioso projeto Todos os Cantos. Nele, ela visitaria todas as capitais do país e gravaria uma música inédita ao vivo em cada uma delas, em um show gratuito. O primeiro single, “Ciumeira”, gravado em Belém do Pará foi um estrondoso sucesso e, em 2018, ela ainda lançou “Bem Pior Que Eu” (gravado em Goiânia); “Casa da Mãe Joana” (gravada em Palmas, TO, com participação de Henrique & Juliano); “Bye Bye” (Sam Luis, MA); “Passa Mal” (Recife, PE); “Sem Sal” (Fortaleza, CE) e “Bebi Liguei” (Natal, RN).

Além de Marília, outros artistas de primeiro escalão tiveram um 2018 animado. Jorge & Mateus voltaram com o projeto ao vivo Terra Sem CEP que, como de costume, foi muitíssimo bem recebido. “Propaganda”, o primeiro single, foi um fenômeno nas plataformas digitais e “Trincadinho” e “Coração Calejado” também obtiveram ótimos desempenhos.

Já Henrique & Juliano optaram por um caminho diferente. Em termos de sucesso, eles continuaram intocáveis, com o álbum do ano anterior, O Céu Explica Tudo, gerando vários sucessos ao longo de 2018. Mas, por outro lado, eles pareciam estar num momento de redefinição da carreira. E, apesar de que eles nunca romperiam com a WorkShow, onde são praticamente sócios, eles optaram por não renovar com a Som Livre, a poderosa gravadora da Globo que os revelou.

“Ciumeira” deu o ponta-pé no muito bem sucedido projeto “Todos os Cantos”.

No fim do ano, lançaram Menos É Mais, o primeiro projeto independente da dupla, gravado ao vivo em um show intimista na fazenda deles no Tocantins. Mesmo sem contar com a poderosa promoção na Globo que a gravadora anterior proporcionava, o primeiro single, “Quem Pegou, Pegou”, foi mais um hit para os irmãos. A WorkShow também não ficou tão queimada com o selo, uma vez que o fenômeno Zé Neto & Cristiano, que também são artistas Som Livre, supriu a baixa.

Com todo o primeiro escalão na ativa, 2018 foi mais um ano dominado pelo sertanejo. Em contrapartida, foi um ano sem grandes revoluções no gênero.

A chegada de Zé Neto & Cristiano no topo foi sim um momento importante porém eles foram embalados por tendências que os precedem: a bachata e a sofrência. Além disso, com 2 álbuns bem sucedidos, eles não eram exatamente novatos. Isso de maneira alguma tira o mérito deles, afinal o sucesso que eles alcançaram foi realmente histórico. Mas significa que o mercado como um todo não produziu nenhuma grande renovação.

“Propaganda”, mais um sucesso definidor para Jorge & Mateus.

A maior revelação do ano foi provavelmente Gustavo Mioto. O jovem do interior de São Paulo, filho de um dos maiores contratantes de show do país, lançou o seu Ao Vivo Em São Paulo cheio de colaborações grandiosas. Obteve enorme sucesso com “Coladinha em Mim”, junto com a cantora pop Anitta e ainda mais repercussão com “Anti-Amor”, que contou com a participação de Jorge & Mateus.

Felipe Araújo também continuou bem. E partiu dele uma das novidades do ano: o sertanejo com cara carioca. Apesar disso soar como um oxímoro, foi essa a proposta do seu novo DVD, Por Inteiro Ao Vivo, gravado no Rio de Janeiro. E pior que deu certo.

Ao lado de Ferrugem, Felipe Araújo estreou o sertanejo com estética carioca.

“Atrasadinha”, a faixa mais bombada do projeto, foi um dos maiores sucessos do ano, em grande parte graças ao alcance dela no Rio. O segredo para conquistar o tão difícil público da Cidade Maravilhosa? A participação do pagodeiro Ferrugem e um arranjo que tende ao samba, fazendo da faixa um pagonejo.

Já Humberto & Ronaldo obtiveram seu primeiro hit nacional depois de 10 anos de estrada. Ao longo desse tempo, eles se estabeleceram como nomes grandes dentro do nicho sertanejo sob a tutela da AudioMix mas, ironicamente, foi só depois de sair da toda poderosa que eles conseguiram um sucesso que repercutiu em todo o país. “Não Fala Não Pra Mim” foi uma parceria com o funkeiro galã Jerry Smith, o que ajudou bastante na difusão da canção.

Mas, mesmo tendo trazido novidades para o mercado, nenhum desses artistas representou algum tipo de impacto grande ao gênero. Apesar de colecionar sucessos, tanto Mioto quanto Araújo ainda vão ter que suar para alcançar o primeiro escalão e, no caso de Humberto & Ronaldo, um hit nacional não significou popularidade duradoura fora do nicho que eles já conquistaram.

“Quem Pegou, Pegou” foi o primeiro single da nova era independente de Henrique & Juliano.

O ano de 2018 também foi marcado por eleições que deixaram claro a polarização do país. E o sertanejo tomou partido: o candidato de extrema-direita. Ele foi apoiado tanto por nomes tradicionais do gênero — Bruno & Marrone; Leonardo; Zezé Di Camargo — quanto por representantes da nova geração, como Zé Neto & Cristiano, Gusttavo Lima e Henrique & Juliano. Ainda vamos ter que esperar para confirmar qual marca esse apoio deixará na história do ritmo mas a associação do sertanejo com Collor, no começo dos anos 90, foi um propulsor para que ele fosse rotulado, por muitos, como algo tacanho e atrasado, um preconceito que ainda perdura.

Em todo caso, a curto prazo, o apoio não causou nenhum dano a popularidade dos artistas. E nem todo mundo tornou público qualquer apoio. Quase todos os artistas da AudioMix, incluindo Jorge & Mateus e Luan Santana, se mantiveram quietos, assim como a maior parte das artistas de feminejo. A única que se pronunciou vocalmente contra — indo na onda oposta da maior parte dos nomes da WorkShow — foi Marília Mendonça, que aderiu a campanha #EleNão. Contudo, ela apagou o post e pediu desculpas depois de sofrer ameaças.

Independentemente do tumulto do país, os escritórios artísticos de Goiânia seguiram em pleno crescimento. A AudioMix continuou expandido para outros gêneros e começou a gerenciar a agenda do maior funkeiro do Brasil, Kevinho. O Villa Mix também finalmente chegou em território europeu, esgotando 15 mil ingressos em Lisboa.

Já a WorkShow teve um ano fantástico. Mas, apesar de ter os dois maiores artistas de 2019, Zé Neto & Cristiano e Marília Mendonça, eles continuaram usando a AudioMix como referência. Inspirado no enorme sucesso da contratação de Alok por parte da AudioMix, o escritório se associou a agência carioca de música eletrônica HUB Records. Vendo o sucesso da concorrente com artistas nordestinos (a AudioMix tinha os dois maiores nomes da região, Wesley Safadão e Xand Avião), eles assinaram com Léo Santana, uma das maiores sensações da Bahia.

Além disso, eles criaram mais um festival para competir com a WorkShow, o Skuta. Desde 2015, o escritório assumiu o Festeja!, fazendo com que ele se tornasse um dos mais importantes do país. Contudo, o evento era feito em associação com a Globo/SomLivre, o que afetava a margem de lucro deles.

A primeira edição do Skuta em Sào Paulo se provou um enorme sucesso.

Sendo assim, eles resolveram investir num festival integralmente deles, que seria baseado em São Paulo e cuja primeira edição, que contou com todos os principais artistas do escritório, atraiu 45 mil pessoas ao Allianz Parque. O evento ainda serviu de solução para Henrique & Juliano que, com a saída da Som Livre, perderiam a plataforma proporcionada pelo Festeja! (Zé Neto & Cristiano se juntariam a Marília como atrações estrelas do festival da Globo).

O sucesso duradouro da AudioMix e da WorkShow — tanto do ponto de vista de negócios quanto artisticamente — é algo particularmente chamativo pois é um contraste grande com o resto do mercado.

A FS Produções, por exemplo, bombou muito com Lucas Lucco e Marcos & Bellutti mas, depois deles alcançarem o ápice, o escritório não conseguiu seguir potencializando-os e ambos decidiram por não renovar contrato com Sorocaba, optando por partir para a Noix, recém-fundada por Rodrigo Byça (o empresário que descobriu Lucco).

A Brothers, de Michel Teló, perdeu seu outro único artista relevante, Jads & Jadson, para a WorkShow em 2018. Apesar de grande e respeitada, a Talismã, do cantor Leonardo, só conseguiu revelar uma sensação nova na última década, Paula Fernandes, e, hoje em dia, ainda depende inteiramente de nomes veteranos, como seu fundador, Eduardo Costa e Trio Parada Dura. A Mega Produção, de José Neto & Frederico, não conseguiu manter seu outro nome forte, Naiara Azevedo, que também optou por ir para a WorkShow antes de abrir sua própria agência, NA.

“Anti-Amor”, o maior sucesso de Gustavo Mioto, a revelação do ano.

A Duts, sediada no Mato Grosso do Sul, começou graças ao sucesso da banda Tradição, na época liderada por Michel Teló, e se manteve forte por mais de uma década. Mas, apesar de obterem hits expressivos, seus artistas, como Attaque 67 e Bruninho & Davi, também não conseguiram se firmar a nível nacional e os nomes que chegaram mais perto disso, Henrique & Diego, de “Suite 14” e “Raspão, deixaram a agência em meados do ano por causa de desentendimentos acerca do cachê.

Isso não quer dizer que esses escritórios estão indo mal, pois não é o caso. Todos eles seguem se beneficiando do boom sertanejo que domina o Brasil. Mas deixa claro que a WorkShow e a AudioMix estão competindo em um nível completamente diferente. Além de gerir a carreira e/ou agenda dos maiores artistas do país, elas expandiram para outros gêneros e investiram em grandiosos festivais, se consolidando como verdadeiros titãs do entretenimento.

Prova disso é que, dentre os 10 artistas mais ouvidos em 2018 no Spotify (Zé Neto & Cristiano; Jorge & Mateus; Anitta; Matheus & Kauan; Marília Mendonça; Henrique & Juliano; Wesley Safadão; MC Kevinho; Alok e Gusttavo Lima), apenas um (Anitta) não era afiliado a nenhum dos dois escritórios.

Um investimento maior das grandes gravadoras em outros gêneros, como pop e pagode, fez com que o sertanejo tivesse apenas 83 músicas dentre as 100 mais tocadas na rádio em 2018. A campeã de reprodução foi “Apelido Carinhoso” de Gusttavo Lima.

Mas, apesar do avanço de outros ritmos, o sertanejo seguiu dominando. Tanto no Spotify quanto no YouTube, Zé Neto & Cristiano foram os artistas mais ouvidos de 2019, com a música “Largado as Traças” como a mais popular do ano.

O top 5 das músicas mais populares no Spotify ainda incluiu “Propaganda” de Jorge & Mateus (#2), “Ao Vivo e a Cores” de Matheus e Kauan com Anitta (#4) e “Ta Ta Tum Tum” de Kevinho com Simone e Simaria (#5).

Já os 5 álbuns mais populares na plataforma foram “Esquece o Mundo Lá Fora – Ao Vivo” (Zé Neto & Cristiano); “Terra Sem CEP” (Jorge & Mateus); “Intensamente Hoje!” (Matheus & Kauan); “O Céu Explica Tudo – Ao Vivo” (Henrique & Juliano) e “Ao Vivo em São Paulo” (Gustavo Mioto).

Os hits definidores de 2018.

2019: o presente e o futuro

Ainda é cedo para fazer um balance do sertanejo ao longo do ano mas, de maneira geral, o gênero segue forte.

Com um volume de lançamentos impressionante, que continuam sendo compilados no projeto Todos os Cantos, Marília Mendonça se mantém firme como maior artista do país.

Já a dupla Zé Neto & Cristiano, que conseguiu desbancar a rainha da sofrência no ano passado, iniciou 2019 com um segundo EP, Acústico de Novo. Apesar de bem recebido, a repercussão não atingiu o nível dos projetos de 2018. Mas o single, “Estado Decadente”, lançado em janeiro, está em pleno crescimento e as músicas do álbum anterior, Esquece O Mundo Lá Fora, permanecem firmes dentre as mais populares do país, o que ajudou a consolidá-los como um dos artistas mais disputados para shows Brasil afora.

O Embaixador de Gusttavo Lima é, até o momento, o álbum mais popular do ano.

Gusttavo Lima, por sua vez, continua em alta e é um dos artistas mais badalados de 2019 graças a recepção calorosa do seu projeto gravado em Barretos. O Embaixador deu origem a faixas como “Cem Mil”, “Zé da Recaída”, “Eu Não Iria” e “Sujeito”.

Gustavo Mioto, a revelação do ano passado, também se mantém firme com o sucesso solo “Solteiro Não Traí” e um namoro com a influencer Thaynara OG, que ajuda a fazer dele uma sensação nas redes sociais.

“Cem Mil” é o maior hit do projeto “O Embaixador”.

Depois de sair da caixa ao longo dos últimos anos, fazendo colaborações pop e funk, o sertanejo está voltando as suas raízes como visto nos últimos desdobramentos das carreiras de Matheus & Kauan, Luan Santana e Simone & Simaria.

Matheus & Kauan seguem fortes com o recém lançado Tem Moda Pra Tudo. Depois de transitar por diferentes estilos entre 2017 e 2018, eles voltaram a apostar no seguro, com todas as faixas seguindo as tendências do sertanejo atual. O projeto foi gravado ao vivo em Goiânia e todos os convidados eram estrelas do gênero.

O bem-recebido álbum de Matheus & Kauan

O álbum, mais uma vez, foi super bem recebido. Mas eles seguem caindo na questão da hiper dependência das colaborações. A maior música do projeto é “Vou Ter Que Superar”, com Marília Mendonça. Os outros destaques? “Quarta Cadeira” com Jorge & Mateus e “Mágica” com Gusttavo Lima.

Não tenho a menor duvida que o álbum será um dos mais ouvidos do ano no Spotify e que a dupla continuara em alta demanda. Mas, desde “Te Assumi Pro Brasil”, lançado no fim de 2017, eles não tem uma música solo gigantesca, o que não deixa de ser um pouco preocupante. Canções como “Tô Com a Moral no Céu” e “Cerveja, Sal e Limão” tiveram bom alcance mas nada comparado com os lançamentos de 2015 e 2016.

Depois de quase cair no ostracismo no ano passado, Luan Santana também voltou as origens sertanejas no seu novo projeto, Live-Móvel, gravado ao vivo em diferentes pontos do Brasil. O primeiro single, “Sofazinho“, com Jorge & Mateus foi bem recebido e o segundo, “Vingança”, com MC Kekel, tem se provado o maior hit dele em anos.

“Vingança” ajudou Luan Santana a dar a volta por cima.

Mas, apesar de tudo, Luan continua com vontade de ousar. Esse mês, ele grava novo DVD em Salvador, com a temática cyber punk e participação do DJ Alok. Se vai dar certo? Vamos ter que esperar para ver…

Outras que estão voltando a se sertanejar são as irmãs Simone & Simaria. É verdade que, até o momento, a música delas com maior repercussão em 2019 é o popnejo Qualidade de Vida“, com participação de Ludmilla. Mas existem grandes expectativas para o show da dupla no Festival de Peão de Barretos. Elas foram nomeadas as Embaixadoras da edição de 2019, sucedendo Gusttavo Lima. É a primeira vez que mulheres ocupam essa posição.

Outras divas do feminejo seguem consistentes. “Rapariga Digital” de Naiara Azevedo teve um desempenho bem forte no YouTube enquanto o novo projeto de Maiara & Maraisa, Reflexo, está bombando no Spotify.

Novos nomes também estão emergindo. Lauana Prada, com tatuagens e dreads, foge um pouco da estética sertaneja mas tem a maior música sertaneja de 2019 até o momento, “Cobaia”.

Lauana Prado é uma aposta forte para 2019.

Yasmin Santos, de São Paulo, está sendo fortemente investida pela Sony. Depois dos bons resultados da faixa “Saudade Nível Hard” no ano passado, ela acaba de gravar DVD com participações de Marília Mendonça, Maiara & Maraisa e Safadão.

Mas, até o momento, a aposta mais forte é a dupla mineira Diego & Victor Hugo da WorkShow.

Em 2018, eles chegaram com o DVD Sem Contraindicações, cuja canção com Henrique & Juliano, “O Alvo”, teve ótima repercussão. No fim do ano, lançaram o projeto Querosene & Violão. Desse álbum saiu o hit definidor deles, “Infarto”, um dos grandes sucessos da atualidade. Algumas semanas depois, gravaram Ao Vivo em Brasília, que estão lançando em partes. Os singles de destaque até o momento são “A Culpa é do meu Grau”, com Zé Neto & Cristiano, e “Do Copo Eu Vim” com Marília Mendonça.

Diego & Victor Hugo são uma das principais apostas da indústria.

Apesar de que a estratégia parece estar dando certo e agradando os fãs do gênero, é difícil classificar a dupla como artistas que conseguiram continuar renovando o sertanejo. Não pela qualidade da música em si mas pelo fato de que as táticas utilizada e os materiais lançados (parcerias, arranjos bachata, letras de sofrência e álcool) faz com que seja difícil de diferencia-los de outros nomes badalados.

O sertanejo segue indiscutivelmente como o estilo dominante do Brasil. Mas, para que a dominação continue, é preciso continuar gerando novidades. Novas temáticas, novos artistas, novos arranjos. Afinal, outros gêneros — como o sempre forte funk; o pagode; o EDM e o pop — estão em pleno crescimento, algo que fica comprovado com o investimento cada vez maior da AudioMix e da WorkShow em outros filões.

Sendo assim, o grande desafio do ritmo para o futuro próximo é seguir gerando renovação, algo essencial para manter a atenção do público. O sertanejo precisa constantemente de novos nomes no primeiro escalão e não deve ficar dependendo apenas de suas estrelas já estabelecidas, pois foi isso que estagnou o ritmo ao longo da primeira década dos 2000. Será que Mioto, Lauana, Diego & Victor Hugo tem o que é preciso para suprir essa demanda por sangue novo?

Em 2019, o sertanejo completa uma década como o estilo mais rentável do Brasil. Mas, apesar de tudo que a indústria conquistou, uma coisa é certa: não dá para se acomodar.

Os hits de 2019 até o momento…

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