Da Espanha para mundo: as duas jovens dando novos ares para as paradas locais

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Nos últimos anos, a cena musical espanhola está borbulhante. A ascensão de Rosalia, hoje uma das estrelas mais celebradas a nível global, é um reflexo disso. Mas enquanto o mundo está hipnotizado com a estrela do pop flamenco, um novo nome emerge e empolga a Peninsula Ibérica: Bad Gyal. Será ela a próxima a conquistar o planeta? E como essas duas jovens catalãs viraram dois dos nomes mais empolgantes do mundo da música?

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Pontos de conversão

Bad Gyal e Rosalia tem algumas semelhanças. Para começar, foi a reinterpretação delas de gêneros não tão presentes no panorama pop atual da Espanha — o dancehall e o flamenco respectivamente — que fez com que se destacassem em um universo pop mainstream totalmente dominado pelo reggaeton latino-americano.

Além disso, ambas adotaram um visual kitschy, misturando referências de streetwear com acessórios e unhas postiças coloridas e chamativas. A origem delas também é a mesma: Barcelona, na Catalunha. As duas ainda fazem parte da panelinha Canada, a produtora audiovisual mais cool da Espanha. O grupo não só foi responsável por criar todos os influentes vídeos do álbum que catapultou Rosalia ao estrelato, El Mal Querer, como o seu setor de edição musical é responsável pela carreira de Bad Gyal. El Guincho, o fiel produtor de Rosalia, também é um artista Canada e também colabora ocasionalmente com a estrela do dancehall. Mas apesar de todos esses pontos de coincidência, elas tem ainda mais diferenças.

A sensação neo-flamenco

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Rosalia: a sensação flamenco-pop.

Rosalia é um prodígio musical preparado para o estrelato desde o primeiro momento. Sua ambição sempre foi ser a maior. Ela estudou na prestigiosa Escola Superior de Música da Catalunha, onde se especializou em flamenco. Teve aula com Chiqui de la Linea, que aceita apenas um aluno por ano. Antes de se formar, já era um nome estabelecido na indústria a nível local: ela colaborou com a companhia de teatro mais prestigiosa de sua região, La Furia del Bauls; se apresentou no tradicional Festival Griec de Barcelona; colaborou com vários músicos famosos e viajou o mundo mostrando seu trabalho, indo de Singapura ao Panamá. No meio de tantos compromissos profissionais, ainda teve tempo de conhecer um jovem artista tão ambicioso quanto ela, C. Tangana, e emplacar um namoro.

Esse relacionamento foi o que levou ambos a outro patamar. C. Tangana era um rapper jovem de Madrid que se promovia fortemente nas redes sociais e já tinha um certo following. No começo do verão de 2016, ele se juntou com sua namorada para o single “Antes de Morirme”, lançado independentemente. Foi um sucesso estrondoso e C. Tangana rapidamente se confirmou como um dos nomes mais badalados da indústria. Rosalia, que se destacou com seu vocal marcante, também assinou com uma grande gravadora.

Na Universal Music, a jovem se juntou com o músico Raul Refree para seu primeiro álbum, Los Angeles, com um flamenco mais tradicional e muito violão. Foi muito bem recebido pela crítica e obteve bons resultados. Mas a garota queria mais: ela queria o pop stardom. E, em busca disso, foi para a Sony Music. Foi ali que as peças começaram a se encaixar. C. Tangana, que àquela altura já era um artista estabelecido e com grande repercussão, participou da composição (eles encerrariam a parceria, tanto afetiva quanto profissional, logo após a finalização do álbum). El Guincho virou o seu produtor fiel. E a empresa audiovisual CANADA foi recrutada para criar os visuais que a transformariam na artista mais comentada da Espanha.

No dia 25 de maio de 2018, a Rosalia flamenco pop fazia seu debut oficial com “Brillo”, um feat no álbum da maior estrela latina do momento, o colombiano J Balvin. A canção já causou um burburinho grande na Espanha mas nada comparado com a sensação causada por “Malamente”, lançado 5 dias mais tarde como o primeiro single do seu novo projeto.

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Rosalia atrai uma multidão para o show de lançamento de El Mal Querer na Plaza de Colón em Madrid

Com um clipe que fazia uma releitura urbana de vários dos símbolos mais tradicionais da cultura espanhola e um som que mesclava pop com flamenco, “Malamente” transformou Rosalia em um dos maiores nomes da indústria local quase que de imediato. Ao longo do verão, ela foi uma das artistas mais badaladas nos festivais de música do país. Em novembro, o álbum El Mal Querer foi lançado com uma campanha de marketing pesadíssima, que incluiu um show gratuito para 11 mil pessoas na tradicional Plaza de Colón de Madrid.

A cantora estava literalmente em todas as partes e não tinha instituição espanhola ou internacional que não queria um pouco da sua mágica. Ela tinha uma coleção em colaboração com a gigante Inditex (grupo dono da Zara), vendida na Pull & Bear. Foi escolhida por Pedro Almodovar para participar, ao lado de Penelope Cruz, de seu novo filme, “Dor e Gloria”. Quando Tim Cook, o CEO da Apple, visitou a Espanha para apresentar o home pod da empresa, Rosalia foi a artista que o acompanhou (ele era um fã). Na grandiosa premiação internacional da MTV, o Europe Music Awards, que aconteceu em Bilbao naquele ano, Rosalia foi a artista estrela. De Dua Lipa as Kardashian a Alejandro Sanz, todo mundo se dizia fã número 1 da cantora.

Da padaria ao estrelato

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Bad Gyal: trazendo o dancehall para o mainstream na Espanha

Enquanto Rosalia dominava o mundo através de um caminho mais tradicional, Bad Gyal, cujo nome de batismo é Alba Farelo, traçava sua trajetória de maneira mais roots. Nascida e criada num pequenino município litorâneo chamado Vilasar de Mar, ela, como todas as adolescentes locais, tinha como trilha sonora da vida o reggaeton. “Na minha cidade nem tinha boate. A gente ia para a cidade vizinha para dançar. E claro, tudo que tocava era reggaeton”, disse ela para a Pitchfork.

Aos 15 anos, descobriu o Spotify, começou a explorar a plataforma e acabou totalmente apaixonada por nomes do dancehall como Vybz Kartel, T.O.K. e Popcaan. “Eu pensei ‘o que diabos é isso?’. Parecia um pouco reggaeton mas não era!”.

Logo, Alba — criada numa família de artistas (seu pai é um dublador famoso) — queria ela mesmo fazer esse tipo de música. Fez contatos, começou a colaborar com produtores e, no começo de 2016, aos 19 anos, lançou uma versão em catalão de “Work” da Rihanna. O resultado, “Pai”, sobre ganhar dinheiro e ficar chapada, viralizou. Impulsionada pelo sucesso, largou sua faculdade de moda, seu emprego na padaria do bairro e se mudou para o centro de Barcelona.

Enquanto o dancehall era um estilo pouco representado na Espanha, o trap local era um nicho em emergência. E foi por esse circulo que Bad Gyal foi abraçada, ajudando a introduzir nele elementos de dancehall. Enquanto Rosalia teve formação técnica e até se especializou em flamenco na Escola Superior de Música, Bad Gyal não é tão caxias em relação ao gênero que a inspira. “Eu não sou trap! E apesar de eu ouvir e amar dancehall e de ser influenciada pelo estilo, eu também sou influenciada por coisas aqui da Espanha que não tem na Jamaica então meu estilo é uma coisa única”, disse ela em uma entrevista.

Em seus primeiros lançamentos, optou por seguir cantando em catalão. Mas apesar da boa repercussão, logo mudou para o espanhol. No fim de 2016 lançou seu primeiro EP, Slow Wine. Dele, vieram 2 singles: “Mercadona” e “Fiebre”. O segundo, em particular, foi um hit grande.

Um ano mais tarde, Bad Gyal já era uma queridinha da cena alternativa. O sucesso de “Fiebre” a colocou muito em evidência na Espanha e veículos anglo-saxões extremamente influentes, como o Pitchfork, The Guardian e o VICE, fizeram artigos a destacando. Ela fez uma turnê internacional que passou por vários países europeus e também pelos EUA. Também fez sua estréia no importante festival SONAR em Barcelona (um anos antes de Rosalia). Ofertas de grandes gravadoras vieram aos montes.

Mas Bad Gyal não estava a fim de se vender para o sistema. Ela queria fazer as coisas à sua maneira. Seus clipes tinham cara de vídeos caseiros. Seu figurino — chamativo, sexy e divertido — ela mesmo comprava. Ela dava entrevistas enquanto fumava maconha e era a chefe da sua própria equipe e a própria empresária (a mãe ajudava na parte financeira), se autodenominando de “el coño que manda” (a buceta que comanda). Ela, porém, assinou com a produtora e editora musical CANADA, que a colocou em contato com produtores renomados e aumentou o orçamento dos seus vídeos.

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Bad Gyal causa furor no festival Sonar de 2019.

Se em 2017 Bad Gyal tinha um cachê de 400 euros, no começo de 2018, apenas para uma sessão como DJ, ela estava cobrando 1000 de acordo com um promotor entrevistado pelo portal espanhol El Confidencial. Para um show completo, o valor variava de 8 mil para 10 mil euros.

Naquele ano, lançou Worldwide Angel, o seu segundo mixtape (“Achava que era um álbum mas me disseram que era uma mixtape. Não tenho a menor idéia da diferença entre os 2″, contou Alba para o El País). Ela cantou no SXSW no Texas, fez uma turnê asiática (parando por Tokyo, Shanghai e Hong Kong) e, em sua Espanha natal, continuou se fortalecendo. A explosão de Rosalia, que chegava a um novo nível com El Mal Querer, criou ainda mais apetite por cantoras inovadoras e, de certa maneira, Bad Gyal também se beneficiou desse boom.

Ying e yang

À essa altura, já estava claro que cada uma tinha sua identidade. Rosalia era uma artista mega profissional. Seu estilo era impecável e seus looks tinham conceitos elaborados. Não era difícil imaginar que, por detrás daquele ar de super estrela, tinha um stylist profissional. Bad Gyal não ficava atrás e também se consolidava como ícone fashion. Mas ela parecia se vestir sozinha, garimpando peças de brechós, dando toques de grifes e misturando tudo com fast fashion. O resultado era extremamente ousado mas ela podia ser aquela sua amiga fashion sem muito pudor e com desejo de se destacar.

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Rosalia e Bad Gyal: unidas na ambição

Os vocais de Rosalia eram dramáticos e imponentes. Suas letras, cheias de referência, compartilhavam dessas mesmas características e tinham um ar literário. Já Bad Gyal, seguindo a tradição do dancehall, tinha vocais totalmente modificados com autotune e uma habilidade de escrever letras pegajosas e totalmente despretensiosas, cheias de gírias e neologismos e que poderiam ser páginas do diário de uma garota cool festeira cheia de confiança.

Mas as 2 dividiam um importante traço: a ambição.

Com altura: o céu é o limite

No ano passado, Rosalia se confirmou como uma das artistas mais promissoras a nível mundial. Com El Mal Querer, virou um super nome na Espanha, uma queridinha das cool kids no mundo todo e uma figura amada pela crítica. Para 2019, porém, queria ir mais longe: o estrelato mundial. E qual melhor maneira para isso do que dar o braço a torcer para o reggaeton?

Junto com seu fiel produtor, El Guincho, ela recrutou J Balvin para “Con Altura”, o primeiro single do seu segundo álbum (ainda sem data de lançamento). O resultado foi um estrondoso sucesso global. Foi o maior hit que obteve na Espanha e a primeira música dela a alcançar o mainstream na América Latina. O vídeo ultrapassou 1 bilhão de views no YouTube, mais do qualquer outro lançamento de uma artista do sexo feminino em 2019. O “~La Rosalia~” entoado por ela virou a auto-referência mais icônica da música latina desde o “Shakira, Shakira” de “Hips Don’t Lie” faz mais de uma década.

Até o momento, a estratégia da cantora parece ser intercalar reggaetons gravados ao lado de grandes estrelas do gênero — “Yo x Ti, Tu x Mi” com Ozuna seguiu o smash com Balvin — com lançamentos mais conceituais, como “Aute Cuture”, “A Pale” e “Millionario” (essa última cantada toda em catalão).

Tem dado certo e ela tem feito vôos cada vez mais mais altos. Em 2019, se apresentou em todos os principais festivais do mundo, como o Coachella na California; o Glastonbury, no Reino Unido e os Lollapalooza de Chicago, Buenos Aires e Santiago. Foi escolhida a dedo por Jay-Z para fazer parte do line-up do seu festival, Made In America. No Grammy Latino, levou todas as principais estatuetas. Para o fim do ano, anunciou shows nas duas principais arenas da Espanha, a WiZink Center em Madrid e o tradicional Palau Sant Jordi em Barcelona. Os mais de 30 mil ingressos disponíveis acabaram em menos de 10 minutos. As datas extras esgotaram quase tão rápido quanto.

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Madre mia Rosalia, bajale! A cantora ganha todas as principais estatuetas no Grammy Latino

Enquanto Rosalia seguia a dominação global, Bad Gyal abriu um novo capitulo de sua história. Depois de fincar seu espaço no mercado, Alba finalmente assinou contrato com uma grande gravadora após 3 anos analisando propostas. A escolhida foi a Interscope. A artista fez questão de assinar com o selo da Universal Musical dos EUA e não com nenhuma filial espanhola (“aqui na Espanha não entendem nada de dancehall”). Em entrevista com a Vogue local, ressaltou que a negociação foi longuíssima: ela queria continuar tendo total liberdade e queria gerenciar seu trabalho da forma mais próxima possível a de como ela fazia quando independente.

“Mas não é tudo perfeito. A partir do momento que assinei o contrato, a música deixa de ser minha. Os masters agora pertencem a gravadora”, dividiu ela com sua habitual honestidade para El Mundo. “Eles não estão me dando um cheque em branco que soluciona minha vida. É um empréstimo que eu vou ter que devolver e, se não devolver, eles vão lá e pegam minha casa”.

Bad Gyal goes mainstream

De qualquer maneira, ter o backing de uma grande gravadora foi o empurrãozinho que Bad Gyal precisava para conquistar seu espaço entre os maiores. Em julho, lançou seu primeiro single da nova fase, “Santa Maria”. A música tinha a participação do artista jamaicano Busy Signal e um refrão ousado bem ao estilo da artista: “Él me llama santa Maria/Porque mi coño está apretao’ como el primer día” (“ele me chama de santa Maria/Porque minha boceta está tão apertada como no primeiro dia”). O público aprovou: a música estreou diretamente no top 15 do Spotify espanhol, um resultado espetacular para quem nunca tinha sequer figurado no top 100. Ela parecia estar cada dia mais perto do sucesso mainstream.

No começo de outubro, Bad Gyal anunciou uma turnê pela Espanha para o começo de 2020. Ainda se firmando, a artista optou por locais pequenos, entre 1000 e 2000 lugares. Os mais de 9 mil ingressos disponíveis para as 8 datas esgotaram-se em uma semana, com um segundo show sendo adicionado em quase todas as cidades. No mesmo dia, a turnê, que começaria apenas em março do ano seguinte, já estava sem ingressos.

Poucos dias depois, a artista lançou um novo single, “Alocao”, uma colaboração com Omar Montes. Montes era um cantor urbano que misturava flamenco com reggaeton, e que virou um nome mainstream depois de emplacar um namoro midiático. Daí, virou uma popular figura televisiva, participando do Big Brother de famosos e do Supervivientes (versão de Survivor local, também só com celebridades), na qual foi coroado o ganhador e levou 200 mil euros para casa. Nas paradas, ele estava tendo bons resultados com o um remix de “La Rubia”, do dominicano La Nueva Escuela que, durante o verão, tinha alcançado o top 5 e tinha provado que ele era um artista viável na indústria fonográfica.

A expectativa é que a música fizesse sucesso. Mais ela foi muito além: estreou direto no topo e, em seu oitavo dia, quebrou o recorde histórico de streams diários do Spotify Espanha. Para isso, o single obteve mais de 883 mil plays, superando os números obtidos por hits como “Con Altura” e “Despacito”. Bad Gyal era oficialmente mainstream.

Polêmicas e verdades

Apesar dos números espetaculares, nada mudou para Bad Gyal. Ela continuou dando entrevistas enquanto fuma baseados e falando, sem filtros, do que lhe der na telha. Os números agora eram de A-list mas o jeito de encarar a fama seguia sendo de artista independente.

Rosalia, por sua vez, fez o press training completo. De certa maneira, ela virou a representante de seu país. De Almodovar a Inditex ao Alejandro Sanz, todas as instituições espanholas parecem depositar suas esperanças nela. Em seu show em Madrid na primeira semana de dezembro, o Ministro da Cultura foi prestigiá-la e foi até ao camarim agradecer tudo que ela tem feito pela nação.

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Friends in high place: Rosalia tira selfie com Tim Cook, CEO da Apple.

Sendo assim, a cantora é alérgica a polêmicas. Mas é óbvio que elas são inevitáveis. A começar pelas críticas de apropriação cultural. Rosalia é branca e da rica região da Catalunha. Nas suas músicas, porém, adota um sotaque e expressões mais típicas da Andaluzia, ao sul do país, onde o flamenco reina, além de pegar muito emprestado da cultura romani (cigana). Ativistas romani do sul (uma etnia bastante marginalizada no país) protestaram e a cantora não reagiu bem, o que fez com que ela perdesse pontos com a parcela mais consciente do público. No grande esquema das coisas, porém, isso não a afetou em nada. Em contrapartida, usar pele animal fez com que ela fosse alvo de muitos ataques nas redes sociais, incluindo tweets com dezenas de milhares de favoritos.

Mas, tirando essas controvérsias, Rosalia sabe se portar de modo que ela possa ser consumida e admirada por todos. Sua vida e trajetória mostram muitos dos contrastes da Espanha moderna: ela é catalã e fala catalão com sua família, vem de uma região onde o movimento separatista está cada dia mais forte e, apesar disso, sua carreira é uma grande celebração das tradições espanholas. Mas, óbvio, esses contrastes são só implícitos: apoiar o separatismo seria incoerente com a sua arte e iria causar revolta na Espanha. Ser contra, entretanto, iria sujar a imagem dela na sua região natal. Por tanto, ela não tem nada para opinar desse assunto e todo mundo — espanhóis, catalães, separatistas, nacionalistas — pode reivindicá-la como uma das suas (contudo, ela irritou alguns nacionalistas quando lançou um single integralmente em catalão. A música, Millionario, atingiu o topo das paradas espanholas apesar disso). 

Durante as eleições desse ano, o partido de extrema-direita VOX — o que mais cresce na Espanha — adotou as músicas de Rosalia para seus comícios. A afiliação ultra-nacionalista, que demoniza imigrantes e que luta por uma Espanha unida, achou a simbologia patriótica da cantora apropriada para a mensagem que eles queriam passar. Só quando o partido foi o terceiro mais votado, elegendo 52 deputados e aumentando em 36% seus votos, que ela se pronunciou. “Fuck vox”, escreveu ela no Twitter no dia seguinte ao voto, obtendo 279 mil likes.

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A autenticidade de Bad Gyal é uma das características que fazem com que ela se destaque

Bad Gyal é o oposto disso. Sem o peso de representar o país em suas costas nem grande interesse em ser unanimemente aceita, ela fala sobre o que ela quiser. Em relação a independência da Catalunha, por exemplo, ela é contra. “Eu acho que é egoísta”, disse ela ao The Guardian. “Eu entendo que temos questões com nossa lingua e com nossa identidade e as pessoas estão irritadas mas [se separar] não ajuda ninguém. Muitos catalães acham que a gente move mais dinheiro que outras regiões [e por isso querem a separação] mas eu não acho isso justo”. Ela completa: “não dá para dizer que eu sou totalmente espanhola nem totalmente catalã. Eu sou uma mistura dos dois”.

Apesar de não apoiar a secessão, ela é a favor de que aqueles que querem a independência possam protestar em paz. Na semana em que militares reprimiam violentamente protestos tanto na Catalunha quanto no Chile, ela declarou, através do Instagram, apoio a ambos os povos e disse: “a violência do povo por querer manifestar suas idéias nunca pode ser comparada com a violência policial”.

Apropriação cultural é outro tema que assombra Bad Gyal. Uma garota branca europeia virando o rosto do “dancehall”, um estilo negro caribenho, pode fazer com que muitos torçam o nariz. Até o momento, porém, sua fama mais limitada a Espanha, que não tem uma população negra considerável, a poupou de maiores críticas. Mas ela já endereçou o tópico algumas vezes, falando da importância em destacar cantores e produtores jamaicanos que são suas inspirações. “Se eu fizer dreads as pessoas me matam”, comentou ela para um jornalista, se mostrando plenamente ciente do campo minado pelo qual transita.

O contraste entre o approach das duas também fica claro quando a imprensa pergunta sobre cantoras populares reveladas em programas de TV de talento, como Aitana e Lola Indigo, ambas frutos do popular Operación Triunfo e com vários hits nos últimos anos. Rosalia — que inclusive já fez uma (desastrosa) audição em um reality do tipo anos antes da fama — diz que são todas amigas e que as apoia. Bad Gyal optou, como de costume, pela sinceridade.

“Eu adoraria escrever para essas garotas se nos pagassem o que nós merecemos”, disse ela ao El Mundo. “Mas o sucesso delas em nada nos ajuda. São pessoas sem referências, sem critérios, a inspiração delas não é genuína e por isso tudo delas soa tão ruinzinho, como coisas que eram feitas faz cinco anos atrás. O público acaba só sendo exposto a elas e nós [se referindo a ela e outras artistas do trap, como Ms. Nina] que estávamos desde o começo ficamos sem crédito. Lola Indigo está a porra do dia todo na rádio e nós não, quando nós somos diamantes brutos que deveríamos estar compondo para essa gente”.

Essa declaração, claro, foi em maio. Porque, hoje em dia, Bad Gyal já se deu conta que não precisa de meios tradicionais como rádio para bombar e, depois da explosão de “Alocao”, ela provou que veio para ficar: os jovens espanhóis estão totalmente hipnotizados. Seu novo single solo, “Zorra”, estreou diretamente em terceiro lugar, antes de subir para o segundo na parada diária do Spotify. Os números que ela está obtendo são de artistas de primeiro escalão: os 360 mil plays no primeiro dia são equivalentes as estréias das músicas solo de Rosalia.

Um passo de cada vez

Enquanto Alba conquista a Espanha, Rosalia segue conquistando o planeta. Ao longo da última semana, encontrou com, Kylie Jenner, para tomar mimosas em Los Angeles. A irmã mais nova das Kardashians — inquestionavelmente uma das celebridades mais influentes do mundo e um monstro das redes sociais — postou uma foto das 2, que recebeu quase 6 milhões de likes. Graças a isso, a cantora ganhou 200 mil seguidores em 2 dias e a foto que ela postou com Jenner também ultrapassou as 2 milhões de curtidas.

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Rosalia toma drinks com sua fã, Kylie Jenner.

Poucos dias antes, o maior sex symbol da atual geração, o ex-One Direction Harry Styles, lançou seu aguardado novo vídeo para a música “Adore You”. Quem narrava a introdução do clipe? Claro, la Rosalia. Como se isso tudo não fosse o suficiente, a artista ainda gravou uma colaboração com Billie Eilish, inquestionavelmente a maior cantora pop da atualidade nos EUA. Para qualquer um, colaborar com um desses três nomes já mudaria o rumo de sua carreira. Em poucas semanas, a jovem cantora de Barcelona tinha formado laço com todos eles.

Bad Gyal, que tem boa relação com Rosalia, segue fazendo as coisas do seu jeito. Apesar de, em 3 meses, ter se consolidado como uma das maiores do país, ela ainda está sendo descoberta pela indústria. Com uma carreira construída de maneira underground, isso não parece a incomodar em nada. Alba sabe que, fazendo as coisas no seu ritmo, sem se render a pressões externas e ao mercado, tudo se encaminhará. Afinal de contas, independentemente de qualquer coisa, o público é soberano e esse mesmo público já está totalmente rendido a ela.

Na semana que “Alocao” quebrava recordes nas plataformas digitais, o MTV Europe Music Awards voltava a ser sediado na Espanha, mais especificamente em Sevilha. Rosalia, claro, era uma das grandes estrelas da noite. Apesar do #1 nas paradas, Bad Gyal não estava lá. Contudo, isso em nada parecia incomodá-la.

Nos seus stories, ela postou uma foto da TV, por onde assistia a premiação. “Ano que vem com certeza serei convidada”, escreveu ela. 

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