Ted Lasso é bem legal, pena que representa tudo de errado com Apple TV+

O Tá Causando está de volta…. COMO PODCAST!

Abaixo, o texto do primeiro episódio transcrito com algumas modificações para a versão escrita:

Não sei ao certo como vou encaixar as peças do quebra-cabeça que será esse podcast. A ideia é alternar entre episódios mais estruturados analisando fenômenos específicos da cultura pop e outro mais freestyle onde comento os últimos acontecimentos e o que está bombando. Para os episódios estruturados, minha ideia é começar com uma série sobre a cada vez mais sanguinária guerra das plataformas de streaming.

Um assunto aleatório talvez? Na verdade não. Nada aleatório. Dizer que essas plataformas são o futuro… seria errado, né? Porque elas são um presente. Ou vocês vão me dizer que a maior fonte de cultura pop de vocês no momento não são as séries e filmes da Netflix? Principalmente no período em que estamos vivendo, com 2 anos de pandemia, sem cinema, sem show…

E não é só Netflix, né? A sensação é que a cada dia surge uma nova plataforma. Tem o Globoplay, fortíssimo em tempos de BBB. O Prime Video da Amazon. O Disney Plus da Disney. A HBO Go que em breve, como já aconteceu nos Estados Unidos, se torna a plataforma oficial de todo o grupo Time Warner e será rebatizada de HBO Max. E isso é só o começo, né? Vem aí a Star, a plataforma da Disney com séries e filmes mais adultos e esportes e, lá fora, todos os demais grandes conglomerados de mídia parecem ter seu próprio serviço. A Universal tem a Peacock, a Viacom tem o recém-lançado Paramount Plus e assim por diante.

Isso deixa as coisas bem confusas. Se eu quiser assistir Friends, por exemplo. Bom, eu não vou querer mas eu sei que vocês vão porque está aí uma série que ninguém nunca supera. E Friends, tal qual Sex and the City, Um Maluco no Pedaço, Game of Thrones, Batman e demais heróis da DC e tudo que vem da HBO ou do Cartoon Network deve estar em breve na HBO Max já que tudo isso é propriedade da Time Warner. Já RuPaul ‘s Drag Race, De Férias com o Ex, Bob Esponja, iCarly e tudo que pertence a MTV ou a Nickelodeon acabará na Paramount Plus. The Office, no momento, tem todas as suas temporadas no Prime Vídeo brasileiro mas é possível que em breve esteja na plataforma de sua dona, a Universal, tal como acontece nos Estados Unidos. Os Simpsons, filmes da Marvel? Disney Plus! Grey’s Anatomy? Star!

Às vezes, acho que a sociedade está andando para trás. Antes, tínhamos tudo graças a pirataria, não gastávamos 1 tostão e ainda fazíamos nosso protesto contra o capitalismo. Hoje em dia, a gente paga um monte de serviços diferentes e entra em desespero quando não conseguimos achar Harry Potter em nenhum deles.

Com essa proliferação de plataformas, vamos voltar aos velhos tempos do download ilegal? As mentes mais maliciosas vão dizer que sim, mas a verdade é que já nos acostumamos com a comodidade que é ter tudo de maneira legal, fácil, com qualidade de imagem alta e legendas garantidas. Por outro lado, também estávamos acostumados com ter tudo ali reunido na Netflix. E essa realidade está cada vez mais distante. O consumidor vai se revoltar? Qual é exatamente a estratégia de todas essas companhias para fazer a gente abrir nossas carteiras?

Essas são algumas perguntas que quero responder, mas hoje, vamos focar em uma plataforma em específico. Hoje  o assunto é Apple TV+. E sobre como uma série que todo mundo tá amando, tá sendo premiada e tá alcançando todos os objetivos sonhados pela plataforma … também explica bem o motivo pelo qual a Apple TV+ nunca dará certo.

Não faz tanto tempo assim que a Apple anunciou que teria sua própria plataforma de streaming de séries e filmes. Mas o mundo parecia outro. Não existia pandemia e no mercado global só existia como rivais o imparável Netflix e o Prime Vídeo da Amazon, além do Hulu nos Estados Unidos.

Quando a Apple oficializou sua entrada nesse universo, o que muita gente pensou foi: “fodeu pro Netflix”. Porque a trajetória da Apple é, apesar de todos os pesares, de sucessos consecutivos. A Apple is the moment.

Eu, em particular, sou um socialista de iPhone e Macbook. Mas independentemente da sua opinião, se você prefere Samsung, Xiaomi ou Windows é inegável que a posição da Apple como a marca mais valiosa do mundo é totalmente compreensível. Quase tudo que eles se propõem a fazer é um sucesso e uma revolução, desde que eles introduziram o iPod no mercado faz 19 anos.

Naquela época, não existia a opção de consumir legalmente música na internet, que era uma verdadeira terra sem lei onde reinavam o Napster, Kazaa, Limewire, Ares e afins. Naquele cenário, a Apple introduziu a iTunes Store vendendo música por 1 dólar. Eu ri, “quem diabos vai gastar dinheiro em algo que se consegue tão facilmente de graça”. E de fato, no Brasil, onde nós não somos otário, ninguém gastou. Inclusive, durante a maior parte da sua história, a loja do iTunes nem existia por aqui. Mas nos Estados Unidos e em outros mercados fonográficos valiosos, como o Reino Unido, Japão e Austrália, o hábito de comprar música digitalmente pegou e, até o Spotify destruir tudo, a Apple lucrou bilhões com a era digital da música, sendo um dos únicos pontos para se obter MP3 de maneira legal.

Daí veio o iPhone e muitos pensaram “não obrigado, já tô muito bem com meu Blackberry. Esse teclado touch dá muito trabalho e eu adoro o BBM”. Mas quem ri por último ri melhor e no fim, o Blackberry, a Nokia, o Motorola e todo o resto foi destruído pelo telefone celular da Apple.

De tablet a fone de ouvido wireless, se a Apple lança costuma dar certo. Até hoje eu não entendo direito a funcionalidade do Apple Watch, mas eu sei que ele vende bem. E na real, não importa se é bom, se já existia antes ou não, se a Android fez antes uma vez que a Apple faz, todo mundo quer e o mercado de consumo é obrigado a se adaptar.

Com esse histórico, um serviço de streaming da Apple tinha potencial para ser uma grande dor de cabeça para a Netflix…

Tá, já estou aqui pensando em onde diabos me meti. A proposta era falar de uma série que estreou faz poucos meses. Mas você tá a 19 anos atrás, falando da criação do iPod. Eu só observo…

A Apple é craque em eletrônicos. Mas o mercado de streaming é diferente, com regras diferentes. E apesar de ter muito a seu favor, a Apple não tinha uma coisa essencial: acervo.

Em novembro de 2019, quando o serviço foi lançado, a Netflix já tinha muito tempo de estrada e uma enorme biblioteca. A Amazon também foi comendo pelas beiradas e tinha um catálogo considerável. A Disney, que iria lançar seu próprio serviço quase junto e tinha comprado a Marvel, a divisão de entretenimento da Fox e a franquia de Guerra nas Estrelas, tinha muito conteúdo a oferecer. A Time Warner, que chegaria alguns meses mais tarde, idem. 

A carta na manga da Apple? Chegar chegando com uma série bombástica que ninguém seria capaz de ignorar, que custou centenas de milhões de dólares e que eles ganharam depois de um leilão insano com todas as outras plataformas do mercado.

A série em questão falava sobre o turbulento e competitivo mercado de programas matinais da TV estadunidense. De fato, é um mercado cheio de escândalo e valiosíssimo, onde todas as emissoras de TV aberta disputam com programas que misturam informação e entretenimento e com âncoras famosos com salários multimilionários. Mas assim, por mais turbulento que seja esse mundo, não foi exatamente essa sinopse que fez com que a série em questão virasse o projeto mais disputado do mercado. O que transformou “The Morning Show” numa aposta que valia a pena investir centenas de milhões eram suas estrelas.

Para começar, ela mesmo, a Legalmente Loira Reese Witherspoon. Uma das atrizes mais valiosas de Hollywood, ela tinha de tudo: sucessos comerciais, sucessos de crítica e até um Oscar, o reconhecimento máximo da indústria. Ela por si só já vale muito. E não só como atriz mas também como produtora. 

Na indústria, ela tinha uma reputação de produtora foda, com uma habilidade impressionante de transformar livros em grandes sucessos audiovisuais. Quando “The Morning Show” entrou em produção, ela vinha do enorme sucesso “Big Little Lies”, sua estreia na TV. Exibido na HBO, a produção foi um divisor de águas, fazendo com que atores de cinema A-list que nunca mostraram interesse na televisão considerassem, pela primeira vez, o meio.

Foi Reese que comprou os direitos do livro australiano. E foi ela que produziu a série que ela co-estrelou ao lado de Nicole Kidman, Shailene Woodley e Zoe Kravitz.

Também foi Reese que comprou os direitos do mega best-seller “Garota Exemplar” de Gillian Flynn. Ela acabou não participando do filme mas autorizou e produziu o elogiado longa estrelado por Rosamund Pike e dirigido por ninguém menos do que David Fincher.

Tudo isso para dizer que Reese nem era o prato principal. O que fez todos os executivos perderem a cabeça por “The Morning Show” foi o fato de que Reese teria como co-estrela ninguém menos que Jennifer Aniston.

Aniston pode não ter Oscar, mas ela tem algo tão valioso quanto, se não mais: um incomparável apelo popular. O público é fascinado com Jennifer Aniston em um nível pessoal. As comédias românticas que ela estrela podem nem ser queridinhas da crítica mas lucram horrores. Ela na capa de uma revista é garantia de vendas incomparáveis. A obsessão do universo com Jennifer — que vem desde os tempos de “Friends” e de seu casamento com Brad Pitt — é um fenômeno poucas vezes reproduzido. Talvez a única capaz de despertar tamanho interesse seja, ironicamente, Angelina Jolie.

A grande cereja no topo é que “The Morning Show” seria o retorno de Aniston para a TV desde que ela estrelou o que é provavelmente a série mais bem sucedida de todos os tempos, “Friends”. Ou seja, né?

Como se isso tudo fosse pouco, Steve Carell também teria um papel na série. Carell é o principal nome de “The Office”, a única série que, nos EUA, consegue competir com “Friends” em fervor público e que é a produção mais valiosa no mercado de streaming no país. E The Office aparte, Carrel também é um nome de altíssimo prestígio.

Ou seja, parece uma receita perfeita para o sucesso. Tudo está ali perfeitamente alinhado. Fácil entender porque a Apple praticamente deu um cheque em branco para conseguir os direitos de exibição da série. Mas, claro, nada é tão simples assim….

O tema deste podcast era Ted Lasso. A Jennifer Aniston está em Ted Lasso? Não, a Jennifer Aniston não está em Ted Lasso. Então aonde você quer chegar André?

Não importa o quão gigantesca as estrelas envolvidas sejam, é muito difícil uma série carregar sozinha todo um serviço de streaming. Mais do que as maiores estrelas do universo, a série em questão precisa de apelo popular. E bom, o turbulento mundo dos programas matinais dos Estados Unidos pode ter sua dose de drama não é exatamente o assunto que vai reunir o universo na frente da tela, né? Pelo menos não a princípio.

Então, achar o tom certo já foi um processo quase tão turbulento quanto o universo retratado pela série. Para conseguir alinhar as expectativas de tantos pesos pesados — a Reese, a Jennifer, a Apple — foi necessário re-escrever a série várias vezes e mudar o showrunner até achar o tom que satisfizesse todos esses poderosíssimos egos.

Com a missão de atrair o público para Apple TV Plus, “The Morning Show” estreou junto com a plataforma em novembro de 2019. Diferente do que a Netflix faz, a Apple optou por lançar episódios de maneira semanal, algo que fazia completo sentido dado que bom… o serviço praticamente não tinha acervo e era preciso de algum incentivo para que os público mantivesse a assinatura por mais de 1 mês, né?

Então, além de lançar a série de maneira semanal, a Apple também apostou em preços baixos; incluiu a assinatura em pacotes de serviços e também a deu como “brinde” para milhões de pessoas que compraram qualquer produto da empresa,

Mas o primeiro empecilho foi a crítica. Os primeiros dois episódios de “The Morning Show”, nos quais a série ainda tentava encontrar seu tom, foram mal recebidos pela crítica especializada, de modo que a valiosíssima série que carregava todo o serviço em suas costas chegou com um burburinho entre negativo e desinteressado. Não foi o começo mais auspicioso. A showrunner, Kerry Ehrin, chegou a reclamar, dizendo que havia uma clara má vontade contra a série e que muitos críticos pareciam querer que a produção fosse ruim por estar torcendo contra a Apple.

Ela estava errada? Não, não estava. De fato existiu uma má vontade. Depois do turbilhão de críticas negativas na primeira semana, a série se assentou e foi bem recebida. Luis, meu namorado, adorou e vários amigos meus falaram bem da produção, então claramente ela ficou longe de ser aquele desastre que muitos pareciam querer que ela fosse.

Por outro, “The Morning Show” não tinha o apelo necessário para ser o sucesso bombástico que o investimento nela sugeriria que ela seria. Simplesmente não tinha. Eu vi os 2 primeiros episódios na semana de lançamento e não achei ruim, mas também não tinha nada ali que a transformasse em must watch TV. Talvez se todos os demais episódios tivessem disponíveis já naquele momento, eu teria continuado a assistí-la e acabaria com uma posição positiva. Mas acompanhar semanalmente? Pagar Apple TV Plus? Aí já é demais, né?

Por mais que a série tenha se redimido de certa maneira, ela claramente não atingiu a expectativa depositada nela. Não foi uma série que causou debate ou que realmente animou o público como muitas da Netflix, “The Handmaid ‘s Tale” da Hulu, “O Mandaloriano” da Disney ou mesmo “The Boys” da Amazon. A coisa não era tão fácil quanto o esperado.

Tá André, mas a grande questão é: se você quer falar de The Morning Show… porque que você colocou Ted Lasso no título?

Apesar de tudo, a Apple tinha muito a seu favor. Afinal, ela era nada menos do que a empresa mais valiosa do mundo. Qualquer um diria ‘sim’ para um convite de reunião com a companhia. E bom, eles tem dinheiro quase infinito para pagar altíssimos salários para quem eles quisessem.

Sendo assim, a estratégia da Apple foi não poupar mas apostar no seguro, em nomes que já tinham um histórico de atrair o público.

A Apple TV Plus assinou um contrato de conteúdo com Oprah, a personalidade mais valiosa da história da TV americana. Os especiais de Charlie Brown — uma tradição das famílias no Dia de Ação de Graças e no Natal — viraram exclusivos da plataforma. Sesame Street, o programa pré-escolar mais importante nos Estados Unidos, também rumou para o serviço.

As séries também seguiram a estratégia, com a Apple optando por produtores e showrunners veteranos com longas trajetórias de sucesso e artistas de primeiro escalão.

Que tal uma série de sci-fi estrelada por Jason Momoa, uma estrela quentíssima que vem direto de “Game of Thrones” e de encabeçar sua própria franquia da DC como o super-herói “Aquamen”? Ou uma série de terror de um dos nomes mais importantes do gênero M. Night Shyamalan que, desde “O Sexto Sentido”, dirigiu erros e acertos mas quase sempre obteve sucesso. Tem também “Truth Be Told”, um emocionante drama com a premiadíssima Octavia Spencer. Ou “Amazing Stories”, dirigido por ninguém menos que Steven Spielberg. Ah, tem ainda a minissérie “Defending Jacobs” com Chris Evans, sex symbol e estrela de cinema, o próprio Capitão América da Marvel.

Bom, de certa maneira, deve ser frustrante para a Apple, uma empresa acostumada a acertar, investir tanto dinheiro em séries com nomes premiados e caríssimos só para ser totalmente ofuscada por “Emily in Paris”.

Isso não quer dizer que as séries sejam ruins. Como já disse, muitas pessoas próximas de mim gostaram do “The Morning Show”. Meu namorado, Luis, adorou “Servant”. Uma amiga minha me recomendou “Dickinson”, uma comédia leve estrelando Hailee Steinfeld. Elas também não são necessariamente fracassos. Várias delas foram renovadas para uma segunda temporada. A própria “The Morning Show” está com seu segundo ano em produção no momento. Mas obviamente nenhuma delas cumpriu o objetivo de colocar a Apple TV Plus na competição com o Prime Videos ou com o Disney Plus. Muito menos com a Netflix.

Vender entretenimento, afinal, não é a mesma coisa que vender tecnologia. E sendo totalmente sincero, quando a gente mergulha mais a fundo nas decisões da Apple TV Plus a gente se dá conta que bem….. Talvez pela primeira vez, a Apple não tenha A MAIS MÍNIMA IDEIA do que está fazendo.

Bom, já vou sentando aqui que já vi que você vai dar a volta ao mundo antes de chegar em Ted Lasso…

A Netflix tem uma missão: vender entretenimento. A Disney Plus vende todo um universo de produtos, mas o que une tudo é, também, o entretenimento. A Apple TV Plus, porém, tem como objetivo algo que não necessariamente combina com o serviço que ela oferece: vender celulares, tablets e computadores. Esse objetivo, sem um planejamento muito inteligente, não combina com o ambiente criativo necessário para fazer propriedades de entretenimento fluírem. E bom, o planejamento muito inteligente está em falta.

Para começar, a Apple incentiva enormemente que todos os programas em sua plataforma mostrem os produtos Apple. Até aí, fácil. Com exceção de uma ou outra produção de época, celulares e tablets e notebooks podem se encaixar em quase qualquer cenário.

Mas daí as coisas começam a ficar mais turvas e o business começa a afetar diretamente na liberdade que sempre foi um diferencial no universo de streaming em comparação com a TV aberta. Por exemplo, cenas onde produtos eletrônicos sejam danificados devem ser evitadas.

Deixando as coisas mais complicadas, as séries e filmes da Apple tem que combinar com os “valores” e a “imagem” corporativa da Apple. Mas qual diabo é essa imagem? Com a Disney, por exemplo, nós sabemos que é entretenimento familiar. Mas quem é o público da Apple? Quais são as linhas que não podem ser cruzadas? Não é uma empresa para criança exatamente.

Pois bem, aparentemente não pode haver xingamento excessivo. Não pode violência demais. Não pode nudez. Ou seja, com exceção de um “fuck” ali ou acolá, não pode absolutamente nada que você não encontraria numa série tradicional de um canal aberto dos EUA. O que quer dizer que não pode nenhuma das coisas que faz com que as séries de streaming tenham sucesso.

Veja bem, o espectador moderno não quer que reinventem a roda. Programas tradicionais funcionam muito bem na Netflix. Mas eles têm que ter uma pitada extra, um toque do proíbido. É esse o diferencial de muitos dos maiores sucessos da plataforma.

Veja por exemplo “Bridgerton”. É uma série tradicional em quase todos os aspectos, baseada em um romance similar ao que você encontraria em bancas de jornal. Não é uma história particularmente fora da casinha. Mas o que transformou a série em febre foi a liberdade sexual que, apesar de estar longe de ser explícita, nunca seria permitida na TV aberta americana. É isso que a levou para outro patamar.

Mas na Apple TV Plus isso não seria possível. O limite da Apple TV Plus é exatamente os limites que os espectadores estavam acostumados até a explosão do streaming. E para ver esse tipo de conteúdo, melhor ligar a TV do que assinar um serviço de streaming que só tem uma meia dúzia de séries originais.

Essa visão limitada vindo de executivos do mundo corporativo é o fim de qualquer ambiente criativo. Além de não fazer sentido. Ninguém vai deixar de comprar um novo iPhone ou um novo Macbook porque viu uma bunda ou um mamilo em uma série, né? Mas calma que a coisa ainda fica mais complicada…

Então você tá me dizendo que, para os executivos da Apple, mamilos são muito polêmicos? Olha, não vou mentir, tô curioso em onde isso vai chegar…

Uma das chaves do sucesso da Netflix é que ela se submerge na cultura local. No Brasil, por exemplo, as redes sociais da platorma usam os memes do momento. A empresa contrata figuras como Inês Brasil, Xuxa, Gretchen, Sandy ou a Soraya da Maria do Bairro para fazer vídeos virais. Eles tem contrato com a Bruna Marquezine, com a Manu Gavassi. Tem todo um know how sobre quem são as estrelas populares, o que está na moda, etc. 

Já a Apple é uma empresa dos EUA. E servir o consumidor dos EUA é um modelo que sempre deu certo para eles e que fez eles conquistarem o mundo. O que a Apple aprendeu é que se dá certo lá, dá certo em qualquer lugar.

Veja a trajetória do iPhone em um dos mercados mais importantes do mundo, o Japão. O início do aparelho por lá foi complicado. Desde a década de 90, o país sempre teve uma indústria de celular muito mais avançada que no resto do mundo. Enquanto aqui no Ocidente a coisa mais moderna que nós tínhamos em nossos telefones era o jogo da cobrinha, no Japão eles já tinham internet, emojis e câmeras nos aparelhos. Os celulares locais eram tão bem estabelecidos que muitos duvidavam que a Apple pudesse dar certo com seus telefones touch e com um sistema operacional totalmente diferente do que os japoneses estavam acostumados.

E de fato, não deu certo. A chegada do iPhone no Japão foi um fracasso, com a população não dando muita bola apesar do sucesso do iPod no país. Muitos concluíram que o telefone da Apple não ia conseguir penetrar o valiosíssimo mercado. Mas a companhia apostou que era só questão de tempo. E de fato foi. Pouco tempo depois, a empresa estadunidense tinha destruído a indústria doméstica de aparelhos celulares sem fazer nenhum grande esforço. No final de 2018, a Apple detinha sozinha 56% do mercado de telefones celulares do país.

Mas bem…. Como já tô cansado de repetir, vender entretenimento não é vender tecnologia. Por outro lado, a máxima tem um fundo de verdade: se dá certo nos EUA, há grandes chances de dar certo no resto do mundo. Então se a Apple TV Plus entender o mercado estadunidense e lançar algo que gera grande impacto por lá… é só questão de tempo até isso causar interesse em todo o resto do mundo.

O problema, claro, é que a Apple TV Plus — apesar de ter apostado em instituições fortes no país, como Sesame Street e Oprah — ainda não conseguiu isso. Mas talvez tivesse conseguido se suas bizarras regras corporativas não tivessem interferido.

Além de “The Morning Show”, outro dos projetos chaves da Apple TV Plus era uma série bem bafo sobre a vida de Dr. Dre. 

Se tem algo que gera engajamento altíssimo nos EUA é o mundo do rap. Não só é o gênero que, de longe, é o mais ouvido do país como o universo gera interesse orgânico de maneira que poucos outros assuntos conseguem. “Straight Outta Compton”, um filme de 2015 que contava a história do grupo de gansta rap N.W.A, que revelou Dre, foi um sucesso estrondoso que abalou a cultura pop local na época.

O rap vale ouro. Por mais que ele seja esnobado e que muitos executivos não saibam muito bem o que fazer com ele, ele é de longe o gênero que tem maior alcance nos Estados Unidos. Artistas de rap desconhecidos pelo grande público conseguem, de maneira orgânica, mais streams do que quase todos os artistas pop com orçamentos de promoção infinitamente maiores. Plataformas inteiras, como o SoundCloud, dependem do gênero. Um dos maiores boards do Reddit, o maior fórum de discussão da internet, é dedicado ao hip-hop. E a própria Apple sabe da força incomparável do estilo, já que o hip-hop foi essencial para eles conquistarem outro mercado de streaming, o mercado do streaming de áudio. 

Quando a Apple Music foi lançada, em 2015, o Spotify já estava mais do que estabelecido e era uma força dominante, tal qual a Netflix. Para chamar atenção, a nova plataforma focou na música urban, investindo desproporcionalmente em rap e atraindo lançamentos exclusivos dos maiores nomes do gênero como Drake e Chance the Rapper. Eventualmente as gravadoras acabaram com a farra e proibiram os artistas de assinarem acordos de exclusividade, mas a essa altura a Apple Music já estava lutando de igual para igual com o Spotify. Apesar de que a empresa sueca segue a incontestável líder no mundo, estima-se que a Apple Music tem mais assinantes pagos nos Estados Unidos que o rival. Um case impressionante de sucesso.

Ou seja, a série de Dr. Dre, uma lenda do rap, tinha todos os elementos certos para bombar. Certamente tinha mais apelo do que o mundo dos programas matinais.

Além disso, a série trazia uma oportunidade que o mundo corporativo AMA: integração vertical. Dre fazia parte da família Apple desde que sua empresa de fones, Beats, foi comprada pela companhia, fazendo do rapper um bilionário. A relação do rapper com a Apple incluiu o lançamento do álbum Compton, o primeiro dele em mais de 15 anos, que foi lançado junto com o filme exclusivamente para a plataforma de música da companhia.

Vital Sign, como a série foi nomeada, tinha o que os jovens amam: nudez, rap, violência, drogas. Mas, claro, aquilo não combinava com os “valores” da Apple e, por algum motivo, não seria bom para a venda de tablets. Apesar dos 6 episódios terem sido gravadas com um altíssimo orçamento, eles foram todos para o lixo. A ordem veio do Tim Cook, o CEO da companhia. 

A inabilidade de entender que a aversão a riscos do mundo corporativo não necessariamente funciona no mundo de entretenimento fez com que uma oportunidade de ouro fosse jogada fora.

Mas, claro, não é só de desastres que a Apple TV Plus é feita…

André querido, quando eu falei que você ia dar a volta ao mundo eu não tava esperando que você literalmente fosse acabar no Japão. De qualquer maneira, muito interessante isso aí que você tá falando sobre o Dr. Dre e tal mas o que isso tem a ver com Ted Lasso??

Poucas pessoas, sejam elas físicas ou jurídicas, tem coisas boas para dizer sobre 2020. Mas, assim como fabricantes de máscaras descartáveis e de álcool em gel, as plataformas de streaming tiveram um bom ano beneficiadas pela quarentena global causada pela pandemia do Coronavírus. 

Mas a Apple TV+ seguia insignificante no grande esquema das coisas. Os meses iam passando, a plataforma se aproximava do seu primeiro aniversário e nada do tão almejado sucesso que faria com que ela decolasse… 

Até que, em agosto de 2020, “Ted Lasso” estreou. De muitas maneiras, a série seguia a estratégia padrão da Apple TV Plus: apostar no seguro, familiar, com nomes veteranos e estrelas reconhecíveis e de alto calibre. Mas ela conseguiu algo que, até então, nenhuma produção tinha conseguido: burburinho positivo e sucesso orgânico. Claro que não foi nenhum “Gambito da Rainha” em termos de repercussão, mas foi a primeira produção que realmente excedeu as expectativas.

De acordo com o Hollywood Reporter, “Ted Lasso” quebrou recordes de audiência para a Apple, com um crescimento de mais de 600% em engajamento ao longo das suas semanas de exibição. Foi tão bem recebida que aumentou o número de novos espectadores da plataforma em 25%.

A comédia foi criada e desenvolvida por Jason Sudeikis. No Brasil, não é um nome familiar. Nos Estados Unidos, ele é bastante conhecido desde que foi revelado no Saturday Night Live, onde foi destaque durante anos. Depois, ele fez o salto para o cinema, estrelando várias comédias pipocas, muitas delas ao lado de Jennifer Aniston. Sua vida pessoal também causava interesse já que ele tinha um romance com outro nome em ascensão, a atriz Olivia Wilde, a “Thirteen” da bem sucedida série médica “House”.

Momento para a fofoca: os 2 se casaram, tiveram dois filhos, se divorciaram e agora Olivia Wilde tem um namorado muito mais novo. Ninguém menos que Harry Styles, com quem ela está gravando um filme no momento.

O romance tem alegrado páginas de fofoca e, supostamente, causado muita angústia e amargura no ex, mas enfim, nada disso tem muita relevância para o tópico sendo debatido. Eu só não queria perder a oportunidade pra fofocar.

Mas voltando ao que interessa, o personagem “Ted Lasso” foi criado em 2011. Na época Sudeikis ainda trabalhava para a NBC, como uma das estrelas do “Saturday Night Live” e foi recrutado para criar uma série de sketches para serem exibidos durante a Premier League, o campeonato britânico de futebol que iria ao ar pelo canal esportivo do grupo. Ele criou um técnico 100% estadunidense, do Kansas, que não entendia nada de futebol, ou soccer, mas que depois de treinar um time de futebol americano foi chamado para ser técnico de uma equipe britânica.

Os sketches foram sucessos virais e ele reviveu o personagem em 2017, para uma exibição da Champions. E daí veio o projeto de transformá-lo em uma comédia para a Apple, ao lado de Bill Lawrence, um produtor veterano de sitcoms televisivos. E assim nasceu “Ted Lasso”, a série.

Ufa! Finalmente!

A primeira vez que ouvi falar de “Ted Lasso” foi em uma matéria do New York Times do fim do ano passado que falava sobre os empecilhos criativos do Apple TV Plus. O jornal destacava Lasso como uma das poucas séries que tinham dado certo e notava que, apesar disso, ela não trazia muitos riscos e poderia ser facilmente exibida em qualquer canal de TV aberto.

Mas, claro, se tem um gênero onde as limitações da Apple TV não necessariamente significam o fim do mundo é comédia. “The Office”, que é a comédia mais valiosa nos EUA graças ao seu sucesso histórico na Netflix local, foi criada para TV aberta. “Friends”, que também segue um fenômeno imparável na internet, também.

Fiquei com a pulga atrás da orelha em relação a Lasso mas não o suficiente para ir atrás de qualquer informação. Até que, poucos dias depois, um amigo gringo falou que estava vendo e gostando. E aí fui ler a descrição, me pareceu divertida e pensei “OK, tá aí uma série pra dar uma olhada em breve”. Meu namorado também ficou curioso e, no começo de fevereiro, quando tínhamos concluído tudo que estávamos assistindo juntos, demos play em “Ted Lasso”.

Durante os primeiros 10 minutos, a série estava me divertindo mas algo me incomodava: o argumento era totalmente inverossímil. Qual o sentido de um time de primeira divisão britânico chamar um técnico do cu dos EUA cuja única experiência é com um time de futebol americano amador e que mal sabe as regras do futebol tradicional? Para meu alívio, o motivo em questão é explicado. E não, não se preocupem, não darei spoiler.

Uma vez que a minha questão principal foi respondida, me diverti com a série. O personagem, Ted Lasso, é aquele personagem bem americano, bem do Kansas mas que, apesar de causar um pouco de vergonha alheia, acaba nos conquistando com sua bondade e ingenuidade. Jason, que é do Kansas e tem o sotaque carregado da região na vida real, está muito bem e charmoso no papel.

“Ted Lasso” mistura um humor satírico de “The Office” com algo mais brando e otimista. O otimismo infinito de Ted dá o tom de tudo na série que tem momentos tão Disney que uma das protagonistas até canta “Let It Go”.

A graça da série, claro, é o choque entre dois mundos: um técnico de futebol americano amador do Kansas treinando um time de futebol de primeira divisão na cosmopolita Londres. Mas apesar de todos seus benefícios, a comédia também exemplifica muito bem o porquê do Apple TV Plus estar fadado ao ostracismo. Soa contraditório? Calma que eu vou explicar. Mas primeiro, vamos fazer uma viagem ao tempo, direto para 2003…

Mas André, quem disse que eu quero voltar para 2003??

O ano é 2003 e eu sou uma criança viada de 12, 13 anos. Naquela época, a cultura pop dava dois caminhos para pré-adolescentes, ambos muito atraentes para crianças viadas. Você podia mergulhar no mundo “emo”, uma mutação do gótico, onde você deixaria sua franja crescer, usaria muito preto com All Star, pintaria seu cabelo e ouviria músicas deprimentes. Ou o total oposto disso: você se renderia para o mundo super girly e super açucarado das it girls norte-americanas, todas com carinha de líder de torcida. Ah, tinha a intercessão entre essas duas coisas, que era a Avril Lavigne.

Apesar da minha escolha musical para representar 2003 homenagear os góticos, eu não hesitei em optar pelo outro caminho: o das girly girls. E se hoje eu sou insuportável, naquela época eu era muito mais. Eu era um pré-adolescente antenado e um pouco metido que não queria saber do que era daqui e só queria seguir as tendências international, bem diferente do André de hoje em dia que só quero ver o BBB e ouvir um bom funk. E bom, naquela época eu tinha quatro divas que eram as grandes it girls do momento.

Para começar, as gêmeas Olsen que, apesar de serem tecnicamente duas, contavam como apenas uma. Foi aquele período maravilhoso delas na universidade de Nova Iorque, logo antes de lançarem “New York Minute” e desistirem para sempre de serem estrelas teen para se transformarem em excêntricas multi-milionárias fashionistas que se vestem como viciadas em crack na terceira idade. E não, isso não é uma crítica pois sigo as amando.

Daí tinha Hilary Duff que, apesar de hoje eu reconhecer ser bem sem sal, na época eu amava porque Lizzie McGuire era minha série favorita.

Também tínhamos Lindsay Lohan. Pode parecer piada mas, na época, Lindsay esbanjava saúde, jovialidade, vitalidade. Sumida desde “Operação Cupido”, ela ressurgia e só fazia filme bom. Você olhava para ela e pensava: “que garota fofa e profissional, essa tem um futuro brilhante pela frente”.

Finalmente, a quarta it girl era Amanda Bynes. Ela era mais indie no Brasil porque o programa dela, The Amanda Show, ainda não era exibido na Nickelodeon daqui. Eu obviamente não deixava isso ser uma barreira.

Porra André, o que diabos seus gostos de criança viada imperialista tem a ver com o tópico?

Calma que a gente vai chegar lá. 

O fato é que, naquela época, eu fui no cinema com meu pai ver o novo lançamento cinematográfico de Amanda, “Tudo que uma garota quer”, um filme que tinha tudo que eu, pré-adolescente, queria: a Amanda sendo engraçadinha numa comédia romântica tosca ao som das músicas pop da época.

Aliás, a gente achava que hoje em dia o mundo é muito louco mas olha… 2003 não deixava nada a desejar. Para vocês terem ideia, o pôster do filme mostrava a Amanda fazendo um gesto de paz e amor. Só que era época que a Guerra do Iraque estava prestes a começar e a Warner, a distribuidora do filme, temia que o gesto fosse lido como uma mensagem polêmica anti-americana. Por isso, eles editaram o gesto do pôster.

Pois é, toda vez que vocês acharem que a atualidade é singularmente bizarra lembrem-se que, em 2003, o gesto de paz e amor poderia ser considerado polêmica e comercialmente arriscado.

Enfim, o filme falava sobre uma garota de 17 anos de Nova Iorque que ia escondida para Londres atrás do pai que não sabia da existência dela. O pai, como não podia deixar de ser, era um aristocrata britânico muito sério mas com um lado fofo interpretado obviamente por Colin Firth que sempre, sempre, interpreta esse mesmíssimo papel. O próprio Senhor Darcy parte mil.

Assim como Ted Lasso, o filme se baseava numa dinâmica de choque entre culturas. A Amanda era uma garota dos EUA que, por tanto, era livre, divertida, atrapalhada, gostava de ouvir música alta e usar jeans de cós baixo. Seu jeito espírito livre era um contraste com os britânicos que eram conservadores, sérios, nariz em pé e estavam sempre de roupa formal.

Por coincidência, uma semana antes de ver Ted Lasso eu revi “Tudo que uma garota quer” pela primeira vez desde então e bom, aos 30 anos eu posso dizer que o filme não é a obra prima que eu achava que ele era aos 13. Muito pelo contrário. Ele é meio tosco.

O que faz com que o filme não envelheça tão bem, na minha opinião, não é o fato de que ele é uma comédia juvenil. Até porque, “Meninas Malvadas” e “As Patricinhas” seguem sendo obras primas. 

O que faz com que ele não envelheça bem é que o argumento que em tese o sustenta — o encontro entre culturas — é mal feito. É óbvio que não tinha uma pessoa britânica na equipe porque o que é retratado ali é um baita de um clichê de alguém que conhece muito pouco da cultura britânica.

E veja bem, meu objetivo aqui não é militar. Porque né? Não tem nada de ofensivo na escolha de representar o Reino Unido dessa maneira é óbvio, como todo estereótipo, aquilo tem um fundo de verdade, já que o objetivo é representar especificamente a parte mais aristocrática da sociedade. Mas se você conhece um pouquinho mais a fundo a cultura britânica, você sabe que aquela imagem segue sendo um clichê superficial e fácil.

Tá mas o que isso tem a ver com Ted Lasso?

“O que isso tem a ver com Ted Lasso?”, você deve estar se perguntando.

Sim, tô mesmo.

Diferente de “Tudo que uma garota quer”, “Ted Lasso” é uma produção que eu sou capaz de desfrutar aos 30 anos de idade. O que bom, é o mínimo porque “Ted Lasso” não é uma série para pré-adolescentes.

Mas apesar de ser uma série divertida com personagens carismáticos, a dinâmica é similar a “Tudo que uma garota quer”: claramente é uma série feita apenas por estadunidenses que tem um conhecimento cultural muito, muito raso em relação ao Reino Unido. Veja bem, raso a ponto de fazer com que “Emily em Paris” pareça uma observação sociológica muito profunda dos parisienses em comparação.

Para ilustrar o que estou tentando dizer, vou dar um exemplo. E não se preocupem, não darei spoilers. Mas uma das personagens chaves é uma modelo glamurosa que é namorada de uma das estrelas do time de futebol.

A gente entende o que a garota deve representar: ser meio povão, irreverente, fofa. Mas Inglaterra é um país onde os traços culturais são muito claros. O sotaque da “classe trabalhadora”, por exemplo, é diferente do sotaque da “classe alta”.

Mas eles escolheram uma atriz que não representa em nada o tipo que eles mesmos queriam representar. A Juno Temple, a atriz em questão, é bem boa no que fez. E ela faz o personagem de maneira carismática. Mas a Juno Temple, como grande parte dos atores britânicos, é posh, de um background posh. Ou seja, de família rica. E ela não esconde muito bem esse fato. Então, é super estranho ver um personagem que é para parecer meio do “povo” falando com uma inglesa que bom… francamente, não é nada do povo e parece ter saído direto de uma boarding school de gente rica.

Um detalhe que passa despercebido pela maioria. Mas cuja única explicação para passar despercebidos pelos criadores e produtores é uma certa indiferença em relação a uma das culturas que eles estão retratando.

A cultura britânica da série é aquele monte de clichês de alguém que conhece a Inglaterra mas não conhece a Inglaterra: o Reino Unido tem muito tablóide e paparazzo! Os jornalistas de lá são direto e fazem tudo por um furo! Eles amam chás e biscuits e Spice Girls! Tem muitos pubs! Eles xingam todo mundo de “wanker” o tempo todo!

Talvez isso explique a recepção morna que “Ted Lasso” recebeu inicialmente no Reino Unido. Uma das únicas críticas especializadas da série por lá, feita pelo The Guardian, deu a ela 2.5 em 5 e a definiu como uma comédia “que não diz muita coisa”. Um baita de um contraste com a resposta dos profissionais nos EUA. De acordo com o Rotten Tomatoes, a aprovação crítica de “Ted Lasso” por lá foi de 86%.

Não estou aqui pontuando algo particularmente sério. Nada retratado em “Ted Lasso” em relação à cultura britânica é ofensivo, errado ou qualquer coisa do gênero. É só raso. E raso por raso, “Ted Lasso” continua uma série bem feita. Eu diria que é uma das melhores séries que vi esse ano? Bom, estamos em março ainda mas, apesar disso, com certeza não. É uma série que eu recomendaria? Claro.

De muitas maneiras, “Ted Lasso” é exatamente o antídoto que muita gente precisa em tempos de incerteza e pandemia. Uma série leve e feita com o claro objetivo de tocar o coração dos espectadores. É uma série que, tal como o próprio Ted Lasso, é otimista. E é bem feita, tem boas atuações, muitas sacadas bastante espertas.

Em contrapartida, eu sou um cínico então, além das observações culturais rasas, tive minhas questões com a série. Em relação à verossimilhança, não achei o psicológico dos personagens muito bem construídos, com exceção do protagonista. Está claro que certas amizades e certos character developments são feitos com o objetivo de tocar o espectador mas não fazem muito sentido para além disso. Priorizar fazer o espectador se sentir de determinada maneira sobre construir relações realistas entre os personagens é uma escolha válida mas não é algo que me agrada. Sem falar que o mundo multi-milionário do futebol é retratado de uma maneira totalmente louca, onde ninguém tem agentes, nem managers, nem nada. Também não gosto muito do protótipo de personagem “girl boss” sendo vendido como feminismo, o que “Ted Lasso” tem aos montes. Enfim, de maneira geral, tenho um problema quando a fórmula de uma série é muito clara e a fórmula dessa comédia —  priorizar ser feel good e te fazer gostar de todos os personagens acima de qualquer coisa, inclusive o realismo — é bem clara.

Mas isso são questões minhas e dos meus gostos pessoais. Não questões da série em si. E eu sei separar as duas coisas. “Ted Lasso” faz muito bem o que ela se propõe a fazer. Ao mesmo tempo que com certeza não vou ver a segunda temporada, eu não teria nenhum problema em recomendar a série para qualquer um que queira algo leve para assistir.  E, sem a menor dúvida, ela é um passo na direção certa para o Apple TV Plus.

Como disse antes, a série foi a primeira que excedeu as expectativas. A empolgação dos executivos com ela foi tanto que, em dezembro, eles anunciaram que não tinham renovado a série por apenas uma temporada mais por pelo menos mais duas, a primeira vez que a plataforma confirmou uma terceira temporada de uma série antes sequer do começo de rodagem da segunda. 

Tá André, mas você ainda não concluiu o raciocínio com o qual você começou esse podcast. Legal tudo isso aí que você falou de Ted Lasso e da Amanda Bynes e de sei lá mais o que. Mas você mesmo tá dizendo que a série é o maior sucesso deles é um passo na direção certa. Então como isso explica aquele seu raciocínio lá do começo que a suposta melhor série deles exemplifica o por que do Apple TV Plus nunca dará certo?

Porque “Ted Lasso”, apesar de todas as suas qualidades, sofre do mesmo defeito que faz com que a Apple TV Plus seja tão pouco competitiva: ele olha demais para o próprio umbigo. 

Uma série sobre o choque entre culturas é claramente uma série feita com um conhecimento bem superficial de uma das duas culturas ali retratadas. E bem, como disse antes, isso não é necessariamente um problema para uma série individual, mas reflete o problema maior da plataforma.

A Apple não dá ponta sem nó. Ela não entrou no mundo do streaming para ser só mais uma na multidão. Mas se a Apple TV Plus quer ser levada a sério, é necessário uma enorme dose de humildade. A Apple pode ser dos EUA mas a plataforma, para dar certo, tem que ser global e é preciso se informar sobre as peculiaridades do mundo para realmente conseguir conquistá-lo. Então, ao mesmo tempo que “Ted Lasso” está no caminho certo para o serviço, ela também é um retrato de muita coisa que a Apple TV Plus está fazendo errado.

Claro que dá tempo da companhia se dar conta disso e mudar de direção. O universo do streaming é muito saturado e, mesmo com séries boas, a Apple vai estar em desvantagem em relação à Netflix ou a serviços de companhias como Disney, Warner ou Universal. Mas dizer que “nunca dará certo”, como disse no título do podcast, é apenas uma provocação. Sim, indo na direção atual, não tem como dar certo mesmo mas nada a impede de mudar o rumo.

Mas o que a Apple precisa entender é que vender entretenimento não é vender celular. E exigir que tudo ali exibido seja inofensivo o suficiente para também servir como um anúncio family friendly de um iPhone é uma receita para o fracasso. 

E é isso gente, assim chegamos ao fim do primeiro episodio de Tá Causando! Muito obrigado para quem chegou até aqui! Me contem o que acharam e tenho algumas considerações.

Primeiro, como vocês notaram, esse episódio foi mais estruturado. Nem sempre vai ser assim mas, nesse caso, todo o texto, assim como links e referências dos dados que dei estão em tácausando.com.br. Então deem uma olhada lá caso estejam curiosos ou queiram mais informação.

No próximo episódio, o assunto será tudo que está bombando no momento. Você quer conseguir conversar com os jovens? Saber os acontecimentos pop do momento? Entender o que diabos é um TikTok? Então, por favor, sigam me prestigiando.

Em segundo lugar, quero introduzir duas sessões fixas. Ou semi-fixas porque odeio regras.

A primeira é “Opinião de merda”, onde exercerei meu lado mais polemista e darei uma opinião que vai irritar grande parte dos meus ouvintes. Hoje, minha opinião não vai funcionar tão bem porque já dei um spoiler lá no começo: eu acho que vocês deveriam superar Friends.

Antes que me taquem pedras, é só uma brincadeira. A vida é de vocês, façam o que vocês quiserem com ela. Mas sério, não acho que essa série envelheceu tão bem assim? Eu também cresci a amando mas meio que chega? Por outro lado, o que é minha opinião contra fatos, né? E o fato é que, se a série não tivesse envelhecida bem, ela não teria chegado em 2021 sendo tão amada. Então resta eu aceitar. Mas assim, superem!

A segunda sessão se chama “Positivity”, batizado assim em homenagem a uma tatuagem que tenho. Meio brega, admito. Mas eu tatuei essa palavra para me lembrar de sempre ver o lado positivo da vida. E seguindo essa filosofia, sempre quero encerrar o podcast em um tom positivo, dando alguma dica legal relacionado ao tema da semana. No caso, o Apple TV Plus.

Mas primeiro, uma confissão: é muito difícil uma série me interessar e, com exceção de Ted Lasso, nada na plataforma me despertou nenhuma curiosidade. Isso não quer dizer que as séries sejam ruins, muito pelo contrário. Meu namorado e vários amigos meus curtem várias séries da Apple então, se você é do tipo que curte muito série americana, com certeza você vai encontrar várias coisas legais por lá. Eu só não posso recomendar nenhuma haha.

Então, só me resta recomendar algo totalmente aleatório e muito, muito fora do timing. Porque eu vou recomendar… uma música de natal da Mariah Carey! E não, não vai ser “All I Want for Xmas is You” porque não faz o menor sentido eu recomendar algo que todos vocês já conhecem ahaha.

Mas é uma música do mesmo álbum, um álbum natalino que a Mariah lançou lá no começo da década de 90. Eu não conhecia as musicas, além de “All I Want”, mas no ano passado, ela teve um especial de natal da Apple. Porque, né? Mariah Carey é a Roberto Carlos gringa, sempre brilhando em período de estividade de fim de ano.

Meu namorado, que adora Mariah, viu o especial inteiro mas eu só vi fragmentos. Dentre eles, ela cantando “Oh Santa!”. A música é super divertida e agradável e a versão do especial tem um extra: a participação de Ariana Grande e Jennifer Hudson. Aliás, recomendo ver a performance no Youtube porque as três estão lindas, tem os filhos da Mariah estão correndo atrás… enfim, é tudo bem fofo. 

E isso é tudo! Queria agradecer ao Luis, meu namorado, por todo o apoio e por ter aceitado que o nosso quarto virou um estúdio de gravação e ter ido dormir no sofá. Também um agradecimento especial a todos amigos que me ajudaram, em especial a Barbara Machado, Zarzara, pela identidade visual maravilhosa que ela criou para mim! Muito muito obrigado amiga!

Me digam o que acharam, o que querem ouvir, o que gostaram e não gostaram e até a próxima! Beijos!

Leave a Comment

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out /  Change )

Google photo

You are commenting using your Google account. Log Out /  Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out /  Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out /  Change )

Connecting to %s