Causando no Brasil: a trajetória da dominação sertaneja

Na parte anterior, tivemos uma visão geral de como o sertanejo se estabeleceu como o maior gênero do Brasil. Nesse post, vamos fazer uma uma linha do tempo do sertanejo moderno onde entenderemos melhor os passos da dominação.

2007: a volta dos que não foram

Depois do protagonismo no começo dos 90, o boom sertanejo deu uma aquietada e, apesar da enorme popularidade, tinha se tornado um estilo secundário.

Mas, ao longo da primeira década dos 2000, ele estava ganhando nova roupagem — sendo rebatizado de “sertanejo universitário” — e conquistando terreno na capital de São Paulo e outras regiões importantes do país. O maior fenômeno do estilo no século 21 era, ate então, Bruno & Marrone mas outras duplas, como Edson & Hudson e Cesar Menotti & Fabiano, também estavam obtendo ótimos resultados.

Os olhos da indústria, porém, estavam em outros filões. Pagode (Exaltasamba e Sorriso Maroto), música nordestina (como Asa de Águia, Ivete Sangalo, Aviões do Forró e Babado Novo) e brega (Calypso) eram os estilos brasileiros mais em voga, além de fenômenos pré-adolescentes multimídia como RBD e High School Musical. O rock (de bandas que iam de Los Hermanos a Jota Quest, passando por Charlie Brown Jr.) seguia forte e passava por um revival graças ao sucesso de bandas teen como NX Zero, Strike e Fresno. A rádio e os canais de clipe, por sua vez, só tinham olhos para Beyoncé, Akon, Black Eyed Peas e pop internacional.

“Amigo Apaixonado”: um dos hits que ajudou a transformar Victor & Leo nos maiores nomes da indústria fonográfica brasileira

Mas isso estava prestes a mudar: a dupla Victor & Leo se firmava como um fenômeno impossível de ignorar graças ao sucesso de músicas como “Fada” e “Amigo Apaixonado”. Em junho, eles lançam o seu segundo CD com a Sony BMG, Ao Vivo em Uberlândia, que iria consolidá-los como os maiores nomes do Brasil.

O ano de 2007 também foi a grande estréia nacional da dupla que iria ser um divisor de águas na história do sertanejo, Jorge & Mateus. Pela Universal, eles lançaram seu grande debut, Ao Vivo em Goiânia.

Jorge & Mateus já chega fazendo barulho com “Ao Vivo em Goiânia”

Os desenvolvimentos de 2007, porém, nem de longe indicavam a proporção que o fenômeno sertanejo iria tomar.

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Causando no Brasil: como o sertanejo voltou a dominar o país

Ao longo dos últimos anos, o Tá Causando cobriu principalmente a cultura pop internacional. Nas próximas semanas, vamos virar a lente para o Brasil e fazer uma análise do que realmente bomba no país, musicalmente falando. Hoje começamos com o gênero que é, indiscutivelmente, o rei da indústria fonográfica atual: o sertanejo.

Mapa musical da parada brasileira: o sertanejo

O estilo sertanejo foi criado no começo do século 20, quando os bandeirantes paulistas colonizaram o interior do país e a “cultura caipira” começou a se estabelecer.

Amigos: Leandro & Leonardo; Chitãozinho & Xororó e Zezé DiCamargo & Luciano desataram o fenômeno sertanejo

Mas, apesar da música rural ter se espalhado por todo o Brasil nos anos seguintes, o gênero só ganhou força colossal — e começou a ser levado a sério pela indústria — no fim da década de 1980 e no começo da década de 1990. Naquele então, nomes como Chitãozinho & Xororó, Zezé Di Camargo & Luciano e Leandro & Leonardo alcançaram um nível de sucesso quase nunca antes visto na história da música brasileira.

O gênero romântico, com voz gemida e refrões chicletes, explodiu envolto em preconceito mas os números de venda e repercussão popular eram tão gigantescos que foi impossível de ignorar. Em meados dos ’90, as principais duplas se juntaram e criaram um projeto conjunto, o “Amigos”, que virou um especial de fim de ano na Rede Globo, a maior emissora do país, e, em 1999, um programa semanal, conhecido como “Amigos & Amigos”.

Apesar da exposição na Globo, o sertanejo deu uma estagnada a partir do fim dos 90. Tanto que, na virada dos anos 2000, o sertanejo perdeu o espaço fixo nas telas da emissora. Parte disso foi porque a elite cultural — principalmente a do Rio de Janeiro, berço da MPB — nunca abraçou de fato o gênero.

Além disso, a força dos “Amigos” era tanta que monopolizou o mercado e limitou investimentos em novos nomes, algo agravado pelo fato de que ritmos como axé e pagode eram, naquele então, as novidades que prendiam a atenção do público jovem.

Mas, longe do olhar dos formadores de opinião, o sertanejo seguiu se consolidando como o estilo favorito do brasileiro. Na Zona Sul e no Centro do Rio ele permanecia banido mas aquela região era a exceção. Apesar da importância simbólica, essa área era só um fragmento muito microscópico de um país gigantesco.

Dormi na Praça: o maior sucesso sertanejo da primeira década dos 2000

E, no resto do Brasil, a música caipira, que aos poucos ia se modernizando, se firmava cada vez mais como a trilha sonora tanto do trabalhador rural do interior quanto do jovem de elite em São Paulo, frequentador da popular e influente boate Villa Country. Ela foi se infiltrando tanto nas tradicionais festas juninas do Nordeste quanto na vida universitária do Sul.

Mesmo assim, as grandes gravadoras não davam muita bola para o sertanejo. Artistas da primeira leva — Zezé Di Camargo & Luciano, Leonardo, Daniel — seguiam sendo os principais nomes e Bruno & Marrone, que tinham explodido no país inteiro com “Dormi na Praça” na virada dos 2000, eram um dos poucos que conseguiram se firmar em todas as regiões do país desde então.

O novo sertanejo e a dominação iminente

Porém, em 2007, quando Cesar Menotti & Fabiano, uma dupla novata, teve o terceiro CD mais vendido do Brasil , estava claro que havia uma vontade grande por novos nomes. E, no ano seguinte, esse vontade deu origem a um fenômeno que escancarou as portas para o momento imperial do sertanejo.

A dupla em questão, Victor & Leo, teve o álbum Ao Vivo em Uberlândia como o maior do Brasil em 2008. Eles foram os primeiros grandes nomes do novo sertanejo, que tinha clara influência do sertanejo do começo da década anterior mas adotava uma sonoridade mais pop e mais voltada aos ouvidos do século 21. As músicas deles — como “Fada”, “Amigo Apaixonado”, “Tem Que Ser Você” e “Borboletas” — eram as mais pedidas nas rádios de todas as regiões do país e eles foram as atrações estrela em ambientes onde sertanejo era raramente visto, como o festival de rock Planeta Atlântida no Rio Grande do Sul e o Festival de Verão de Salvador.

Fada, um dos sucessos que consolidou Victor & Leo como os maiores nomes do país

O Rio de Janeiro, como de costume, ficou relativamente indiferente em relação aos novos monstros do mercado fonográfico mas, apesar de ter sede na cidade, a Rede Globo já começou a abrir os olhos. Em um momento de crise de audiência, a emissora recorreu ao sertanejo para tentar fortalecer os laços com o Brasil profundo e colocou diversas músicas do estilo na trilha sonora de sua novela das 9, “A Favorita”, ambientada em São Paulo.

Diferente das décadas passadas, onde as principais duplas reinavam por anos e anos a fio, o momento de ápice de Victor & Leo foi relativamente curto e não demorou muito para eles começarem a perder espaço para outros nomes. Mas foi a repercussão alcançada por eles que sacudiu o mercado e alertou para a invasão sertaneja que estava prestes a acontecer.

O nome seguinte a abalar todas as estruturas foi Luan Santana. Com um lançamento independente, o adolescente tinha obtido sucesso no Mato Grosso do Sul, seu estado natal, e no Paraná e tinha chamado atenção de Sorocaba, um artista e produtor influente do gênero. Sob a tutela dele, Luan gravou um CD que deu origem ao enorme hit “Meteoro” que, rapidamente, se alastrou pelo Brasil.

Luan Santana Ao Vivo: o álbum que desatou o fenômeno

Prontamente, a Som Livre, o braço musical da Globo, assinou contrato com o menino. Em novembro de 2009, um CD ao vivo, gravado na frente de 80 mil pessoas em Campo Grande, foi o primeiro lançamento dele com a gravadora. Impulsionado pela promoção intensa nas telas da emissora carioca, que o colocou até mesmo na novela teen “Malhação”, Luan se transformou no maior vendedor de 2010.

O fenômeno Luan Santana foi interessante porque foi o primeiro voltado especificamente para o público juvenil. Apesar do enorme sucesso do gênero no ambiente universitário e na noite jovem de cidades como São Paulo e Belo Horizonte, ainda havia uma percepção (falsa) entre as gravadoras de que o público mais novo tinha resistência ao estilo. O sucesso de Luan provou, de uma vez por todas, o quão intra-geracional o sertanejo era.

Mas enquanto Victor & Leo escancaravam a porta e Luan Santana virava uma sensação midiática, uma dupla até então bem mais low profile iria mudar para sempre o rumo do sertanejo: Jorge & Mateus.

A dupla de Goiás teve seu primeiro CD lançado em 2007 e, mostrando a versatilidade do sertanejo moderno, um dos seus primeiros sucessos foi “Pode Chorar”, um cover de uma música do Aviões do Forró, banda sensação do Nordeste. Mas, apesar de começar bebendo da fonte da música nordestina, Jorge & Mateus iriam rapidamente se firmar como os maiores nomes do sertanejo, revitalizando o gênero no país inteiro e se sustentando no topo da lista dos maiores artistas do país por 10 anos ininterruptos.

A invasão Jorge & Mateus aconteceu sem que a grande mídia percebesse. De fato, eles de vez em nunca apareciam na TV e eu, morador da Zona Sul do Rio de Janeiro, nunca sequer tinha ouvido uma música deles na rádio. Mesmo assim, eles prontamente se tornaram os maiores nomes da música brasileira, comandando o cachê mais alto para shows e sendo capazes de atrair públicos massivos em toda as regiões do país.

“Flor”: um dos sucessos do DVD de Jorge & Mateus gravado em Jurerê, exclusivo litoral de Florianópolis.

O sucesso foi tanto que eles viraram atração essencial em absolutamente todos os grandes eventos ao vivo do Brasil: nas viradas de ano; no Planeta Atlântida no Sul do país; com um bloco próprio e enorme no carnaval de Salvador e também como atração estrela nos camarotes exclusivos de elite que envelopam o percurso Barra-Ondina; em todas as grandiosas festas juninas populares do Nordeste; nos rodeios do interior de São Paulo (eles foram os primeiros artistas a sustentar duas noites consecutivas lotadas no mais tradicional de todos, o Festival de Barretos) e, claro, nos principais espaços de show do Centro-Oeste, Minas e São Paulo capital. Seja em Jurerê, o litoral de Florianópolis considerado o mais elitizado do país, ou no Royal Albert Hall de Londres, show de Jorge & Mateus era sinônimo de muitos ingressos vendidos.

O sucesso da dupla — que começou na Universal Music em 2007, antes de fazer o pulo obrigatório para a poderosa Som Livre em 2012 — e a infinidade de hits que eles produziam ano após ano foi basicamente o que deu o fôlego para o sertanejo se firmar como o gênero número 1 do país e também o que realinhou todo o mercado.

Jorge & Mateus foram um fenômeno tão grande que redefiniram toda a indústria sertaneja

O estilo virou a prioridade de todas as gravadoras. As rádios do país foram totalmente tomadas pelo ritmo (exceto o Rio, que até hoje ainda não tem uma estação sertanejo). E Goiás — o estado de origem de Zezé DiCamargo & Luciano, Leandro & Leonardo e Bruno & Marrone — voltou a ser o epicentro do mundo da música. Afinal de contas, era em Goiânia que ficava a sede da AudioMix, o escritório de Jorge & Mateus que, impulsionado pelo sucesso deles, virou a maior agência de empresariamento artístico do país.

O triunfo da AudioMix fez com que os investidores do Centro-Oeste ficassem ouriçados. E, em 2014, mais uma dupla, Henrique & Juliano, despontou de maneira espetacular, transformando o escritório deles, WorkShow, em um rival de igual porte. Assim, Goiânia — uma cidade fora do eixo Rio-SP — tinha dois dos maiores escritórios artísticos do Brasil.

A chegada de Henrique & Juliano foi meteórica. Os irmãos do Tocantins gravaram um CD independente em 2011 e rapidamente foram contratados pela WorkShow, numa clara intenção de reproduzir o sucesso de Jorge & Mateus. Eles se mudaram para Goiás; foram colocados no estúdio com Pinochio, responsável por grande parte dos sucessos dos ‘oponentes’ e, em 2012, já assinaram com a Som Livre. O primeiro DVD deles, Ao Vivo em Palmas, fez sucesso mas o segundo, uma produção milionária gravada em Brasília, foi o que os consolidou como artistas do momento.

Henrique & Juliano: fenômenos que elevaram o mercado sertanejo a um novo patamar

O plano do escritório funcionou perfeitamente. Em menos de três anos, Henrique & Juliano se tornaram os únicos nomes do sertanejo capazes de competir de igual para igual com Jorge & Mateus, lançando uma sequência absurda de hits monstros e atraindo multidões pelo país, apesar de, assim como seus antecessores, também seguirem uma cartilha pouco midiática e com pouca exposição televisiva. Absolutamente todas as músicas de trabalho deles — “Cuida Bem Dela”, “Recaídas”, “Até Você Voltar”, “Como É Que A Gente Fica”, “Na Hora da Raiva”, “Mudando de Assunto”, “Vidinha de Balada” — viraram clássicos instantâneos e eles elevaram a WorkShow ao mesmo patamar que a AudioMix.

Uma mulher no topo

Quando parecia que o sertanejo não tinha mais como crescer, uma evolução do gênero o levou a patamares ainda mais elevados: o feminejo.

A explosão do feminejo aconteceu em 2016 mas, na realidade, as sementes começaram a ser plantadas em 2011, quando Paula Fernandes virou o maior nome da indústria musical brasileira. Era a primeira vez, desde Roberta Miranda nos anos 80, que uma mulher alcançava o topo do mercado sertanejo, um gênero quase que totalmente masculino.

Paula Fernandes obteve números de venda que não eram visto desde os tempos pré-pirataria na década de 1990

O sucesso inicial da cantora tem muitos traços em comum com o percurso de Victor & Leo. A explosão dela veio pouco depois do momento de ápice da dupla; o seu maior hit (“Não Precisa”) tinha a participação deles; Victor era um amigo próximo e frequente colaborador e todos eles eram do interior de Minas Gerais. Mas, mais do que isso, tanto Victor & Leo quanto Paula Fernandes foram fenômenos que, naquele então, abalaram todas as estruturas mas que, em retrospecto, duraram pouco e serviram apenas como uma prévia de coisas muito maiores que estavam por vir.

Em 2011, porém, parecia que nada seria capaz de superar a cantora. Ela era, de longe, a artista que mais vendida no país e seus dois CDs — Paula Fernandes Ao Vivo e Pássaros de Fogo — estavam alcançados milhões de unidades comercializadas, números que não eram vistos desde o fim da década de 1990 quando a indústria fonográfica ainda não tinha sido devastada pela pirataria.

Com seu rosto de boneca e seu jeito encantador de garota do interior, Paula foi apresentada ao grande público no especial de Natal de Roberto Carlos de 2010 e, depois de ser apadrinhada pelo Rei, estava em todas as partes: nos principais programas de TV; na trilha sonora da novela das 9; nas rádios; tocando on repeat nas Lojas Americanas. Sua voz dócil, longe das afetações do sertanejo, atraía até mesmo aqueles que não eram fãs do gênero. Em 6 meses, seu CD ao vivo tinha superado 1 milhão de cópias comercializadas.

Mas, assim como o amor por Paula Fernandes foi súbito, a perda de interesse também parece ter acontecido do dia para noite. Quando ela lançou seu segundo DVD ao vivo, gravado na HSBC Arena do Rio, tinham se passado menos de três anos desde que ela tinha sido coroada como a artista mais vendida do país. Mas o Brasil já parecia ter a superado e, prontamente, ela parou de dominar as rádios. Assim, a única mulher do sertanejo perdeu seu lugar no topo.

Em seu álbum, Paula Fernandes colaborou com nomes consagrados da música sertaneja, indo de Leonardo a Almir Sater.

Um dos grandes pecados de Paula foi que ela não teve a destreza necessária para transitar pelo mercado sertanejo. Um meio concorrido e competitivo, é necessário suar muito para ficar no topo. Para começar, tem que ter uma relação boa com todo mundo: com os contratantes; com os patrocinadores; com os empresários poderosos; com os outros artistas do gênero, com os quais espera-se que você colabore com certa frequência e, claro, com os compositores e produtores que vão te fornecer seus hits.

É uma lista longa de pessoas e a cantora, conhecida por seu gênio forte e que enfrentava uma depressão pesada, conseguiu — supostamente — desagradar ela toda. Além disso, em meados de 2012, Paula rompeu com o escritório que, até então, cuidava de sua carreira, Talismã, do cantor Leonardo.

Mas, mais do que isso, ela não soube se reinventar. O seu estilo permaneceu estático e ela não acompanhou as tendências sertanejas, fazendo com que suas músicas ficassem repetitivas.

“Amo Noite & Dia”, um dos incontáveis sucessos de Jorge & Mateus.

É um contraste, por exemplo, com Jorge & Mateus. Para permanecer mais de 10 anos no topo, a dupla soube perfeitamente se adaptar aos tempos: depois de começar com um sertanejo mais forrozeiro e de interior (“Querendo Te Amar”, “De Tanto Te Querer”, “Vou Fazer Pirraça”), eles migraram para um estilo ainda mais romântico e pop, com letras um pouco mais rebuscadas (“Amo Noite e Dia”, “Duas Metades”, “Ai Já Era”) e, nos últimos tempos, deram uma “desofisticada”, apostando em refrões chicletes com conceitos mais lúdicos (“Sosseguei”, “Contrato”, “Propaganda”, “Medida Certa”).

O boom feminejo

Essa tendência recente de conceitos lúdicos, alias, foi o motor para a explosão do feminejo.

O momento de Paula no topo foi breve mas serviu para mostrar que, sim, o público não teria nenhum problema em consumir sertanejo feito por mulheres. Nada mais lógico, afinal de contas, a grande maioria desse público é formado por mulheres. Mas, uma vez comprovado o óbvio, os empresários sertanejos começaram a procurar nomes para explorar esse filão. E quando vozes femininas foram combinadas com letras irreverentes, o Brasil se rendeu.

A explosão de hits feminejos aconteceu em uma sucessão impressionante ao longo de 2016 e, com as mulheres no comando, o sertanejo chegou a espaços onde o gênero — considerado até então heteronormativo e conservador — nunca tinha chegado antes, como rádios pop e festas LGBTs.

10%: o primeiro sucesso viral do feminejo

Maiara & Maraísa foram as que escancaram a porta do sub-gênero com “10%”. Na canção, elas estão na fossa e imploram para que um garçom pare de colocar músicas de amor no bar para se aproveitar do sofrimento delas. “Garçom troca o DVD/Que essa moda me faz sofrer/E o coração não guenta/Desse jeito você me desmonta/Cada dose cai na conta e os 10% aumenta!”, elas cantam de maneira dramática no refrão pegajoso que fez com que a música virasse um clássico instantâneo.

As irmãs gêmeas emendaram um hit monstro em outro (“Medo Bobo”, sobre finalmente se render aos encantos de um amigo próximo: “E na hora que eu te beijei/Foi melhor do que eu imaginei/Se eu soubesse tinha feito antes/No fundo sempre fomos bons amantes”) e ainda apareceram como convidadas em mais uma canção essencial para a coroação das mulheres no sertanejo: “50 Reais”.

“Medo Bobo”: mais um fenômeno de Maiara & Maraísa

Com uma letra tão dramática quanto divertida, “50 Reais” de Naiara Azevedo conta a história de uma mulher que pega seu marido no flagra a traindo e, antes de ir embora, deixa um dinheiro para a amante, insinuando que ela é uma garota de programa. “Não sei se dou na cara dela ou bato em você/Mas eu não vim atrapalhar sua noite de prazer/E pra ajudar pagar a dama que lhe satisfaz/Toma aqui uns 50 reais”.

Além de Maiara & Maraísa, outro casal de irmãs foi revelado nesse momento lúdico e girl power: Simone & Simaria. Depois de começar como backing vocals do forrozeiro Frank Aguiar, com quem trabalharam por quase uma década, as baianas partiram para carreira solo em 2012. Depois de anos na estrada, elas começaram a colher frutos do sucesso, adaptaram seu som, chamaram a atenção de empresários de Goiânia, assinaram com a AudioMix e, em 2016, foram alçadas a fama nacional com a explosão do feminejo.

“50 Reais”: a divertida música de Naiara Azevedo que virou febre no país

Apesar de que, num primeiro momento, os sucessos solos delas (“Meu Violão e o Nosso Cachorro”, “Quando Mel é Bom”) não alcançaram um nível tão alto quanto as de M&M (algo que seria feito mais tarde com “Regime Fechado”), elas viraram estrelas de primeiro escalão graças as suas personalidades cativantes.

Simone & Simaria trazem a irreverência nordestina para o feminejo

Morenas de corpos voluptuosos (uma espécie de versão agro das Kardashians), elas tinham uma história de vida que incluiu uma infância triste na pobreza extrema, vozes potentes e personalidades abrasivas, com senso de humor apurado e grande predileção por uma cerveja. Esse combo fez com que as nordestinas virassem queridinhas da mídia.

Mas enquanto Simone & Simaria e Maiara & Maraísa dominavam a atenção, um fenômeno feminejo de proporções nunca antes vistas estava discretamente tomando conta do pedaço: Marília Mendonça.

A rainha da sofrência

Marília Mendonça: fenômeno de massa que trouxe a vida real para o topo das paradas

Um prodígio do sertanejo, Marília Mendonça começou a carreira ainda adolescente, trabalhando como compositora de vários sucessos. Os maiores deles, “Cuida Bem Dela” e “Até Você Voltar”, foram feitos para Henrique & Juliano.

Com o apoio da dupla, ela assinou um contrato com a poderosa WorkShow para se lançar como cantora solo. Em um primeiro momento, Henrique & Juliano serviram como seus padrinhos artísticos, incluindo uma canção com ela em seu terceiro DVD, Novas Histórias, gravado no Recife. A música em questão, “Flor e o Beija-Flor”, foi um sucesso considerável e ajudou a impulsionar seu primeiro single solo, “Infiel”.

“Flor & o Beija-Flor” apresentou Marília Mendonça ao público

Por ser um pouco mais séria, a impressão foi que a música “Infiel” não viralizou como “50 Reais” e “10%”. Mas não passou de impressão: na realidade, o vídeo da canção se tornou, na época, um dos mais vistos da história do YouTube brasileiro (assim como “Flor e o Beija-Flor”).

Desde então, o sucesso de Marília Mendonça tomou uma dimensão que excedeu qualquer expectativa: ela se tornou indiscutivelmente o maior nome da indústria fonográfica brasileira, capaz de transformar qualquer música em um hit. Ela também é o nome mais requisitado para shows no país todo, superando até mesmo seus colegas de agência, Henrique & Juliano, e também Jorge & Mateus, os Midas do sertanejo.

“Infiel”, primeiro hit de Marília Mendonça

O que a WorkShow fez com Marília foi o que o escritório, assim como a AudioMix, se especializou em fazer. Eles investem em artistas que, num primeiro momento, surfam na onda de sucessos meteóricos mas que, a longo prazo, tem carreiras infinitamente mais duradouras que estes.

Apesar de terem sido eles que abriram as portas para o novo sertanejo, o tempo de Victor & Leo como os maiores do Brasil, por exemplo, durou menos de 5 anos. Quem ficou conhecido como os reis do novo sertanejo no final das contas não foram eles mas sim Jorge & Mateus, que permanecem no topo faz 10 anos.

Marília, por sua vez, também bebeu um pouco da fonte da sua predecessora, Paula Fernandes. Além de cantoras e compositoras que dão uma perspectiva feminina ao sertanejo, ambas tem timbres que se assemelham mais ao de uma cantora de MPB tradicional e que, portanto, tem um alcance ainda maior do que o sertanejo tradicional.

Mas, apesar das semelhanças serem cruciais, as diferenças são o que fizeram de Marília Mendonça um sucesso duradouro. Enquanto Paula tinha uma imagem de garota do campo, uma beleza delicada e músicas sobre amores etéreos e natureza, as músicas de Marília falam sobre sofrimento, fossa, beber demais, fazer besteira. Ela não parecia uma estrela feita sob medida para o consumo: seu biotipo e styling eram totalmente fora dos padrões e muito mais próximos a típica mulher brasileira.

As músicas dela falam sobre o amor sem grandes idealizações. Muito pelo contrário: sua visão sem filtro sobre a paixão é uma das chaves do seu sucesso. Seu primeiro hit solo, “Infiel”, é sobre um homem que a trai mas em várias das suas maiores canções — “Amante Não Tem Lar”, “Traição Não Tem Perdão”, “Ciumeira”, “Bem Pior Que Eu” — é ela que é a outra.

“Eu Sei de Cor”: a música que consolidou Marília no primeiro escalão do sertanejo

Em seus sucessos, Marília cobre absolutamente todos os estágios possíveis da fossa: sofrer por se apaixonar pela pessoa errada; ser traída; trair; ser a outra; beber demais e fazer o que não deveria; amar e não ser correspondido; sofrer pelo término; beber para esquecer a dor; ser abandonada e, claro, conseguir juntar as forças para superar.

O apetite do público parece ser insaciável: ela tem músicas novas todos os meses e tudo o que lança é um hit. No YouTube, que ainda é a plataforma de consumo musical mais utilizada no país, absolutamente nenhum brasileiro consegue chegar perto dos números obtidos por Marília e ela é, de longe, a mais ouvida em todas as regiões do país, incluindo o Rio de Janeiro.

O estilo da sertaneja transcendeu o selo de “feminejo” e é hoje conhecido como sofrência. Estar no fundo do poço por causa de um coração partido sempre foi um tema popular na música brasileira, e no sertanejo em particular, mas ninguém tinha conseguido explorar esse filão com tanta maestria — e com resultados tão extraodinários — quanto Marília, a Rainha da Sofrência.

O topo

A ascensão de Marília Mendonça ao topo é a prova de que sertanejo segue sendo, de longe, o estilo mais popular do Brasil. De Victor & Leo e Paula Fernandes a Jorge & Mateus e Henrique & Juliano a Marília Mendonça, já faz mais de 10 anos que o gênero fornece o mercado brasileiro com suas estrelas mais rentáveis. E, a julgar pelo apetite do público, o reinado do estilo está bem longe de acabar.

Mas uma coisa é certa: a concorrência está cada vez mais acirrada. Depois de anos relegados a um papel secundário, o pagode, o funk e o pop estão todos lutando por um espaço no pódio. Para se manter no topo, o rimo terá que continuar se reinventando, mesmo tendo alcançado um patamar onde ele parece não ter mais para onde crescer. A lição que foi aprendida na última década, porém, é nunca subestimar o gênero.

Na parte 2Uma análise detalhada dos principais acontecimentos do mercado na última década, rastreando o trajeto que fez com que Goiânia deixasse de ser apenas a capital do sertanejo para se solidificar como a capital do entretenimento brasileiro.

Causando no cinema: o ano da música na telona

Nem atores famosos, nem histórias engajantes, nem críticas boas. Em tempos atuais, uma das únicas maneiras de se obter um gigantesco sucesso de bilheteria no cinema é ser parte de uma franquia mundialmente conhecida. Mas 2018 foi o ano que alguns poucos filmes conseguiram furar esse bloqueio. O segredo? Música.

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O primeiro grande fenômeno foi “The Greatest Showman” (no Brasil, “O Rei do Show”). Tecnicamente um lançamento de 2017 (ele teve sua estréia oficial no dia 20 de dezembro), o longa metragem tinha como grande estrela Hugh Jackman e contava também com Zac Efron, Zendaya, Michelle Williams e Rebecca Fergunson em seu elenco. O público alvo era abrangente: qualquer um interessado em entretenimento family friendly.

O musical era livremente inspirado na história de P.T. Barnum, o criador do primeiro grande circo dos EUA, o Barnum & Bailey Circus. Apesar de uma promoção forte e um elenco com nomes conhecidos, não havia nenhum motivo para suspeitar que o musical iria ser um sucesso excepcional. Ele foi uma produção relativamente cara (U$85 milhões de dólares, sem contar com marketing) e muitos achavam que o valor investido não era justificado e que o filme ia penar para recuperar os gastos (para isso, estima-se que é preciso lucrar três vezes o custo original).

Mas “The Greatest Showman” surpreendeu a todos, captando a imaginação do público de uma maneira que ninguém esperava e se consagrando como um fenômeno.

Arrisco dizer que, desde “High School Musical”, nenhum musical — nem o record breaking “Mamma Mia”, de 2008, nem o super premiado “La La Land”, de 2016 — chegou perto de se tornar um fenômeno de massa da proporção do filme de estréia do diretor australiano Michael Gracey.

“The Greatest Showman” não foi nenhum queridinho dos críticos. De acordo com o agregador de reviews Rotten Tomatoes, o musical teve aprovação profissional de 53%, um resultado bom mas longe de ser excepcional. Ele tampouco foi um fenômeno espetacular logo de cara: estreou em quarto lugar nas bilheterias estado-unidenses e em terceiro no Reino Unido, obtendo números iniciais mornos. Porém, algo muito raro aconteceu: na segunda semana, os números cresceram. O público amou e, aos poucos, o boca-a-boca o elevou a um nível de sucesso impar.

Depois de lucrar 8 milhões de dólares no seu fim de semana de estréia nos EUA, um resultado mediocre, o filme se consolidou como uma das opções mais populares por meses à fio. No fim de sua trajetória, “The Greatest Showman” tinha alcançado 175 milhões de dólares arrecadados só no seu país de origem e tinha se tornado um dos filmes com bilheteria mais estável na história.

A trilha sonora encerrou 2018 como o único álbum a conseguir ultrapassar 1 milhão de cópias em vendas puras nos EUA (1.49 milhões para ser exato). Com números de streaming acrescentados, “The Greatest Showman” alcançou o equivalente a 2.5 milhões de cópias, sendo o terceiro maior CD do ano no país (atrás apenas de Drake e Post Malone). Cinco músicas do filme obtiveram certificação de Platina, enquanto outras duas alcançaram Ouro.

Mas o sucesso ficou longe de ficar limitado apenas aos EUA. Muito pelo contrário, internacionalmente a recepção foi ainda mais calorosa. Dos 435 milhões de dólares arrecadados, 261 milhões foram em mercados estrangeiros. Os três países onde “The Greatest Showman” conseguiu superar os EUA em sucesso proporcional foram o Reino Unido, a Austrália e o Japão. Em todos esses mercados, o musical figurou dentre as 5 maiores bilheterias do ano.

O Reino Unido foi o lugar que abraçou o filme mais entusiasticamente. No país, a trilha sonora ficou nada menos do que 11 semanas no topo das paradas dos mais vendidos (e ainda está no topo, de modo que poderá estender sua lideranças por várias semanas mais) e encerrou 2018 como o maior CD do ano, com 1.6 milhão de unidades vendidas (uma distância de quase 1 milhão de cópias em relação ao álbum #2, Staying at Tamara’s de George Ezra). A música “This Is Me”, cantada por Keala Settle, foi o quarto maior single do ano no país.

A trilha de “The Greatest Showman” também foi o álbum mais vendido de 2018 na Austrália e o álbum internacional mais vendido no Japão. Além disso, durante a temporada natalina, um novo CD, com artistas como P!nk, Kesha, Panic! at the Disco e Kelly Clarkson reinterpretando as músicas do filme, também foi bem recebido.

O sucesso do filme serviu de trampolim para consolidar a estrela do longa, o ator Hugh Jackman, como uma sensação capaz de lotar estádios. Ao longo de 2019, Jackman irá explorar sua faceta como showman e irá front o espetáculo Hugh Jackman: The Show que já tem 64 shows agendados nas maiores arenas da Europa, Reino Unido, EUA, Austrália e Oceânia. A agenda inclui 6 noites na gigantesca The O2 em Londres, 6 noites na Manchester Arena e três noites no Madison Square Garden em Nova Iorque.

“The Greatest Showman”: U$ 435 milhões
– Álbum mais vendido de 2018, com 5.4 milhões de cópias equivalentes.
– Único álbum a ultrapassar 1 milhão de unidades puras (sem streaming) nos EUA em 2018.
– Único álbum a ultrapassar 1 milhão de unidades no Reino Unido em 2018.
– #18 maior filme do ano nos EUA
– #4 maior filme do ano no Reino Unido
– #5 maior filme do ano na Austrália
– #6 maior filme do ano no Japão
– O CD spin-off “The Greatest Showman: Reimagined”, lançado em novembro de 2018, estreou no top 5 do Reino Unido (onde foi certificado Platina), Austrália e EUA.
– Impulsionado pelo sucesso do show, “Hugh Jackman: The Show” rodará América do Norte, Europa e Oceânia com 64 shows. No total, estima-se que 1 milhão de pessoas irão prestigiar a turnê.

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“The Greatest Showman” deu o ponta-pé inicial mas, depois dele, muitos outros sucessos musicais vieram. Em julho, “Mamma Mia: Here We Go Again” foi outro grande hit.

Diferente de Showman, o sucesso de “Mamma Mia 2” era mais do que assegurado. O filme narrava as aventuras de uma divertida mãe solteira, interpretada por Meryl Streep, e de sua filha adulta (Amanda Seyfried) nas paradisíacas praias da Grécia e tinha como ponto alto o fato de ser integralmente embalado por músicas do icônico grupo sueco Abba

Depois de arrasar nos palcos da Broadway e do West-End londrino, a adaptação cinematográfica, lançada em 2008, se tornou um dos musicais mais bem-sucedidos de todos os tempos. Por tanto, as expectativas para a continuação eram altíssimas.

“Here We Go Again” não conseguiu alcançar o sucesso histórico do antecessor. Enquanto o primeiro lucrou 605 milhões de dólares, o segundo ficou na casa dos 400 milhões. Mas, com uma produção que custou $75 milhões de dólares, foi, mesmo assim, um sucesso espetacular. A trilha sonora alcançou o topo das paradas no Reino Unido (onde alcançou Disco de Platina por 300 mil cópias vendidas) e na Austrália e chegou ao #3 nos EUA.

Um dos grandes chamarizes de “Mamma Mia 2” era Cher, que se juntava ao elenco estrelado encabeçado por Strip, Seyfried, Colin Firth e Pierce Brosnan. Surfando na onda do filme, a cantora lendária aproveitou para lançar um CD de covers da banda sueca, entitulado “Dancing Queen”.

Foi mais um exemplo de uma bem sucedida sinergia entre Hollywood e o mercado fonográfico. O álbum de Cher estreou em #3 nos EUA, com 153k cópias na primeira semana, a melhor estréia dela no país. No Reino Unido e na Austrália, o disco debutou em #2, dando a veterana artista seu maior pico nas paradas de CDs locais desde 1992 e 1989 respectivamente. Ela ainda embarcou na turnê solo Here We Go Again, com 67 apresentações em arenas da Austrália, Nova Zelândia, EUA, Reino Unido e Europa.

“Mamma Mia: Here We Go Again”: U$ 395 milhões
– 1.5 milhão de unidades vendidas da trilha sonora globalmente
– #4 CD mais vendido do ano no Reino Unido.
– #1 maior filme do ano na Suécia, Noruega e Finlândia.
– #2 maior filme do ano no Reino Unido.
– #11 maior filme do ano na Alemanha, #12 na Austrália.
– #26 maior filme do ano nos EUA
– Serviu de mote para o lançamento do álbum de covers da Cher, “Dancing Queen”, seu maior lançamento em décadas. A turnê do álbum, Here We Go Again, terá 63 datas na Oceânia, Reino Unido, Europa e América do Norte, com um total de 550 mil ingressos disponíveis.

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No dia 5 de outubro, “A Star Is Born” (Nasce Uma Estrela), que se tornaria um dos filmes mais comentados de 2018, teve sua estréia nos EUA. Apesar de não ser tecnicamente um musical, é óbvio que música é um componente essencial na narrativa do filme.

O terceiro remake de um longa de 1937, a produção foi anunciada pela primeira vez em 2011. Naquele então, Beyoncé iria estrelar junto a Leonardo DiCaprio sob a direção de Clint Eastwood.

Depois de anos sem andar para frente, perdendo as suas estrelas e diretor no processo, a produção finalmente engrenou em março de 2016, quando Bradley Cooper anunciou que iria protagonizar e dirigir o longa. Lady Gaga se juntou como co-protagonista em agosto daquele mesmo ano.

Diferente de “Showman”, muito do burburinho inicial de “A Star Is Born” foi relacionado a ótima recepção que o filme teve por parte dos críticos. O longa chegou a 90% de aprovação no Rotten Tomatoes. A direção de Cooper e a atuação dele e de Gaga foram exaltadas por praticamente todo mundo que viu o longa em festivais que precederem sua estréia oficial. Com todo o buzz positivo, “A Star is Born” teve uma estréia fantástica nos EUA, lucrando mais de 40 milhões de dólares no seu final de semana inicial.

De todos os filmes mencionados, “A Star Is Born” foi, de longe, o mais barato de se produzir (custando $30 milhões de dólares). Além disso, foi o único que foi promovido como um filme para um público mais maduro. Nos EUA, ele teve classificação etária R, proibido para menores de 17 desacompanhados (todos os demais tiveram classificação PG ou PG-13).

Nada disso serviu como obstaculo para seu estrondoso sucesso. Impulsionado pela ótima recepção crítica e pelo boca-a-boca, o filme lucrou $425.5 milhões de dólares globalmente. Como coroação final, ele foi indicado a 8 Oscares, incluindo Melhor Ator (Cooper), Melhor Atriz (Gaga), Melhor Filme e Melhor Música (“Shallow”). Ele levou o último.

“A Star Is Born”, que trata da história de amor entre um cantor country alcoólatra e uma popstar em ascensão, foi um verdadeiro divisor de água tanto na carreira de Cooper, em sua estréia como diretor, como na de Gaga, em sua estréia como atriz de cinema.

Apesar de ser um household name que ainda atrai bastante interesse, Lady Gaga estava em um momento difícil d. Depois de uma estréia meteórica em 2008, que rapidamente a consolidou como o maior fenômeno do mundo, ela começou a desinflar a partir do lançamento do seu segundo CD e estava encontrado dificuldades de encontrar seu nicho.

Depois do (relativo) fracasso do seu terceiro álbum, ela se reinventou como uma cantora de jazz e voltou ao pop em 2016, com Joanne. O CD ajudou ela a se estabilizar — ela fez uma turnê bem sucedida e headlined o Super Bowl e também o Coachella (substituindo Beyoncé, que adiou a participação por causa da gravidez). Mesmo assim, ela estava longe de obter resultados espetaculares e de se adaptar as mudanças da indústria com a chegada do streaming.

Mas “A Star Is Born” a elevou para outro patamar e colocou seu nome de volta no topo do A-list. Apesar de várias estrelas pop terem se aventurado no mundo cinematográfico nas últimas duas décadas, absolutamente nenhuma delas chegou perto do aclame alcançado por Gaga, que já emplacou uma indicação ao Oscar com seu primeiro grande papel.

A trilha sonora do filme também foi um gigantesco sucesso, sendo o terceiro álbum mais vendido de 2018 na Austrália e sétimo no Reino Unido. A música “Shallow” alcançou o #1 no Reino Unido, na Suécia e na Austrália (o primeiro chart-topper dela em ambos os países em quase 7 anos), além de ter alcançado #4 na França e #10 na Alemanha.

Levando em conta apenas unidades puras, a trilha sonora de “A Star Is Born” foi o segundo álbum mais vendido do ano nos EUA, com 700 mil cópias. Porém, mostrando a vulnerabilidade de Gaga na era streaming, o CD não figurou no top 10 uma vez que os números das plataformas digitais foram contabilizados.

Mas o sucesso do filme é tanto que até essa barreira da cantora ele está conseguindo furar. Logo depois da exibição do Oscar, e impulsionado por memes e pela repercussão da performance dos protagonistas durante a premiação, “Shallow” alcançou a #6 posição no Spotify dos EUA. Anteriormente, o melhor resultado de Gaga na plataforma tinha sido quando “A Million Reasons” atingiu a posição #25 logo depois de sua apresentação no Super Bowl de 2016. No ranking global, a canção chegou a posição #2.

A performance de “Shallow” no Academy Awards deu o que falar e gerou muitos memes.

Com o empurrãozinho do streaming — combinado com espetaculares vendas digitais e bom desempenho na rádio — “Shallow” alcançou o topo do Billboard Hot 100 dessa semana. É a primeira vez que Gaga atinge a posição desde que “Born this Way” estreou em primeiro nos EUA em fevereiro de 2011.

Também graças a repercussão dos Oscars, a trilha sonora voltou para o topo das paradas de vendas de álbuns, onde o filme será relançado com 12 minutos extras. Ou seja, “A Star Is Born” ainda tem fôlego e, mais do que um filme bem-sucedido, ele marca o renascimento de Gaga como uma das maiores estrelas da atualidade.

“A Star Is Born”: U$ 425.3 milhões
– 2.5 milhões de unidades vendidas da trilha sonora globalmente.
– #13 maior filme do ano nos EUA.
– #11 maior filme do ano no Reino Unido.
– #8 maior filme do ano na Austrália.
– #2 CD mais vendido de 2018 nos EUA em pure sales
– #3 álbum mais vendido de 2018 na Austrália. #7 mais vendido no UK.
– “Shallow” foi o primeiro #1 de Lady Gaga nos EUA em 8 anos (e o primeiro de Bradley Cooper).
– “Shallow” também foi o maior hit global dela desde fevereiro de 2011.
– A música atingiu #1 no Reino Unido e Austrália, #3 no Canadá, #4 na França e #10 na Alemanha. Na parada global do Spotify, atingiu a posição #2, a melhor já obtida por uma música de trilha sonora e o melhor resultado obtido por Gaga na era de streaming.
– 8 indicações ao Oscar, incluindo vitória de Melhor Canção Original.

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“Bohemian Rhapsody” chegou algumas semanas depois do bem sucedido filme de Gaga e Bradley Cooper.

Assim como “Mamma Mia”, “Bohemian Rhapsody” se beneficiava do fato de ter como trilha sonora as músicas de uma das bandas mais amadas de todos os tempos, Queen. Diferente do filme estrelado por Meryl Streep, que tinha uma história original, “Bohemian” era um filme biográfico centrado no amado frontman da banda, Freddie Mercury. Além disso, assim como “A Star Is Born”, ele não era tecnicamente um musical (para isso, os personagens tem que começar a cantar espontaneamente e do nada) mas sim um filme com música (onde as canções estão inseridas em situações realistas).

O longa teve um caminho tortuoso até seu lançamento. Ele foi originalmente anunciado em 2010, com Sascha Baron Cohen no papel principal. Depois de três anos de desenvolvimento, Baron deixou o projeto por causa de diferenças criativas. Foram mais três anos tentando levantar o filme do chão até que, no fim de 2016, Rami Malek foi escolhido para o papel de Mercury e a produção voltou a andar.

Além da dificuldade para achar um protagonista, “Bohemian Rhapsody” ainda enfrentou outra gigantesca dor de cabeça: seu diretor. Bryan Singer, responsável por dezenas de filmes bem-sucedidos, foi afastado da produção quando o filme já estava quase concluído, em dezembro de 2017, pelo seu comportamento altamente tempestuoso. Além disso, a Fox, a distribuidora do filme, ainda estava preocupada com as dezenas de alegações de abuso sexual e assédio que o rondavam. No final das contas, apesar dele ter sido o de facto diretor, o nome dele foi apagado de quase todo o material promocional.

Apesar do tumulto, tudo foi perdoado quando “Bohemian Rhapsody” estreou e se provou, logo de cara, um gigantesco fenômeno de bilheteria. De maneira geral, as críticas foram bem mornas mas a atuação de Rami Malek foi universalmente elogiada. E, apesar de não empolgar tanto os profissionais, o aclame popular foi tanto que o filme foi um dos mais premiados durante a award season e recebeu 4 indicações ao Oscar, incluindo Melhor Filme. Malek acabou levando a estatueta de Melhor Ator para casa. Seguindo a cartilha promocional, o diretor Bryan Singer não foi mencionado por ninguém durante as cerimônias.

De todos os filmes de música de 2018, “Bohemian Rhapsody” foi o fenômeno mais universal. “The Greatest Showman” foi gigantesco porém seu sucesso fora de série ficou limitado a alguns mercados chaves importantes. Já “A Star Is Born” teve repercussão universal graças a música “Shallow” e os protagonistas mas os números de bilheterias foram espetaculares somente nos EUA e em outros mercados anglo-saxões. “Mamma Mia: Here We Go Again” foi particularmente grande na Europa Continental. O filme do Queen, por sua vez, foi enorme em todos os continentes, da América do Sul a Ásia.

O climax do filme é a recriação da legendária performance da banda no Live Aid de 1985 no Estádio de Wembley

Apesar do Greatest Hits do Queen ser um dos discos mais vendidos de todos os tempos (e o mais vendido da história no Reino Unido), a trilha sonora do filme, composta basicamente por canções já lançadas, também foi um sucesso.

“Bohemian Rhapsody” prova que, mesmo tendo se passado 27 anos desde sua morte, o poder de Freddie Mercury em comover multidões segue inigualável.

“Bohemian Rhapsody”: U$ 870 milhões de dólares
– #6 maior filme de 2018 no mundo.
– #10 maior filme de 2018 nos EUA.
– #1 filme do ano no Japão, na Espanha e na Itália. #2 filme do ano na Austrália. #3 filme do ano na Alemanha e na Coréia do Sul. #4 filme do ano no Reino Unido. #5 filme do ano na França.
– Com o sucesso do filme, várias músicas do Queen entraram no top 50 de streaming global. A trilha sonora vendeu mais de 1 milhão de unidades globalmente, apesar de dezenas de greatest hits do Queen já estarem disponíveis (e o primeiro deles ser um dos álbuns mais vendidos da história).
– Os integrantes vivos do Queen, junto com Adam Lambert como vocalista, anunciaram a Rhapsody Tour para 2019. Até o momento, só as datas dos EUA e no Canadá foram confirmadas: serão 25 shows, para mais de 300 mil pessoas. Datas adicionais na Europa, na Austrália, na Ásia e na América Latina devem ser anunciadas em breve.

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A questão é: 2018 foi um ano impar para filmes de música ou a consolidação de um gênero que seguirá rendendo bons frutos em 2019?

É uma pergunta bem difícil de se responder mas será muito difícil reproduzir os fenômenos do ano passado. Mesmo assim, os grandes estúdios terão várias apostas musicais.

Os maiores lançamento de todos serão, sem duvida nenhuma, “Frozen 2” (previsto para 27 de novembro) e “O Rei Leão” (19 de julho), ambos propriedades bilionárias da Disney e franquias bem sucedidas. “Let It Go”, a música do primeiro Frozen, foi um fenômeno sem igual e o desafio da segunda parte é conseguir emplacar um hit que se aproxime disso. Já a adaptação de computação gráfica de “O Rei Leão” terá as músicas já amadas do original animado, compostas por Elton John, e trás as estrelas musicais Donald Glover (a.k.a. Childish Gambino) e Beyoncé nos papéis principais.

E falando em Elton John, a grande aposta de filme biográfico de 2019 é “Rocket Man”, que conta a história do lendário artista britânico. Taron Egerton interpretará o músico sob a direção Dexter Fletcher, que substituiu Singer na direção de “Bohemian Rhapsody”. Será que um filme embalado pelos clássicos de Elton John conseguirá comover tanto o público quanto os filmes do Queen e do Abba? A estréia está prevista para 31 de maio e o longa faz parte da despedida de Elton, que estará se aposentando depois da conclusão da sua turnê Farewell Yellow Brick Road, prevista para durar de 2019 até 2021.

Outra aposta é o projeto dos premiados diretores Danny Boyle (Trainspotting, Slumdong Millionaire) e Richard Curtis (Love, Actually; Notting Hill), “Yesterday”. Estrelando o novato Himesh Patel, o filme conta a história de um músico que se dá conta que ele é a única pessoa do mundo que lembra dos Beatles. A produção ainda contará com uma participação especial de Ed Sheeran. O filme será lançado dia 13 de setembro.

Finalmente, o musical de Andrew Lloyd Weber, “Cats”, também será adaptado para as telonas em um filme com um elenco robusto que inclui, entre muitos outros, Taylor Swift, Idris Elba, Rebel Wilson, Dame Judi Dench, James Corden e Ian McKellen.

A sinergia entre Hollywood e a indústria fonográfica trouxe muito dinheiro no ano passado. Se depender da vontade dos executivos e das gravadoras, foi apenas o começo. Porém não depende: nesse caso, a vontade soberana é do público. Os próximos meses vão nos mostrar se a mescla de cinema com música voltara a cativa-los.

Causando en español: os maiores fenômenos do Netflix em 2018

Nem “Stranger Things”, nem “13 Reasons Why”. Até agora, os dois maiores sucessos de repercussão do Netflix de 2018 foram em castelhano, provando que o público mundo afora está sedento por conteúdo envolvente, seja ele na língua que for.

Case 1: La casa de papel

Quando “La casa de papel” estreou no canal Antena 3 na Espanha, em maio de 2017, ela seguia a formula de muitas séries locais: produção cuidadosa e roteiros envolventes com referências ao universo jovem e um enredo grandioso com alguns ganchos dignos de novela juvenil (que, na realidade, tem sempre apelo universal).

O criador da série, Álex Pina, conhecia muito bem essa receita dado que ele construiu sua carreira na Globomedia, que foi por anos a principal produtora independente do país e que ajudou — através de enormes sucessos como “Un Paso Adelante”; “Los Serrano”; “Los Hombres de Paco”; “El Internado” e “El Barco” —  a construir esse molde.

A nova série de Pina — agora presidente de própria produtora, Vancouver Media —  tratava de um grupo de desajustados com problemas com a lei que são recrutados por uma misteriosa figura, El Profesor, para fazer um roubo gigantesco na Casa da Moeda espanhola. A série era contada através dos olhos da jovem Tokio, interpretada por Ursula Cobréro, uma popular estrela jovem no país.

Na Espanha, “Casa de papel” não foi inicialmente um fracasso mas tampouco foi um grande sucesso. Os 15 episódios –transformados em 22 para distribuição internacional  — foram todos gravados de uma só vez porém foram exibidos ao longo de duas temporada, uma entre maio e junho e outra entre outubro e dezembro. A série recebeu boas críticas e até alguns prêmios e, ajudada por uma promoção grandiosa, começou com ótima audiência antes de desinflar e perder o fôlego. A segunda temporada ficou, inclusive, abaixo da média da emissora.

Mas, apesar do público ibérico não ter dado muita bola, pelo menos de início, o Netflix viu bastante valor na produção e comprou os direitos de distribuição internacional. E, na plataforma de streaming, a série mostrou o seu verdadeiro potencial. Para surpresa geral, se transformou em um fenômeno global que ninguém esperava ser possível, principalmente para uma série que não era nem sequer de lingua inglesa. Ao longo do primeiro semestre de 2018 nenhuma série foi tão comentadas na América Latina e na Europa quanto “La casa de papel”.

O tamanho que a ficção tomou pode ser comprovada pelo fato dela ter virado um verdadeiro sucesso multimídia. A série chegou no Netflix em dezembro de 2017 e, pouco tempo depois, no carnaval brasileiro de 2018, fantasias inspiradas na produção tomavam conta da rua. Apesar das altas temperaturas, o abafado disfarce usado pelos personagens para invadir a Casa da Moeda — um jumpsuit vermelho com uma máscara do pintor Salvador Dali — foi visto em milhares de brasileiros, inclusive a sensação sertaneja Marília Mendonça que optou pela roupa para aproveitar os blocos em Salvador anonimamente.

A série também caiu no gosto dos funkeiros da periferia de São Paulo. Um dos maiores sucessos do ano foi a música “Só Quer Vrau”, uma recriação de “Bella Ciao”, a canção italiana dos anos ’40 usada proeminentemente na produção. No clipe, MC MM e DJ RD trajam a fantasia usado pelos ladrões da série e dançam animadamente a música enquanto assaltam uma instituição financeira, em clara alusão a ficção espanhola. Até o momento, “Só Quer Vrau” já teve 173 milhões de visualizações desde que foi lançado, em maio.

O vídeo foi lançado no canal do Kondzilla, o diretor de vídeos de funk que ajudou a colocar a periferia paulista no topo de todas as paradas e acumula 37 milhões de assinantes no YouTube. E não foi a primeira vez que o canal usou a série como referência: o clipe de “Fuleragem” — outro dos maiores hits de 2018 até o momento, com 220 milhões de views — também tem dançarinos caracterizados como a trupe de “Casa de papel”.

Além de conquistar os sertanejos e os funkeiros, o impacto da série também foi sentido na electronic dance music brasileira. Alok, o principal DJ do país e uma megaestrela do gênero, se juntou ao seu irmão Bhaskar e o duo Jet Lag para remixar a já mencionada “Bella Ciao”.

O Brasil foi um dos primeiros países onde a dimensão do fenômeno ficou clara mas o sucesso de “Casa de papel” foi muito além: a América Latina inteira se rendeu a série e, rapidamente, ela também estourou na Europa onde, assim como aqui, ela invadiu a cultura pop em geral.

A França foi outros dos países onde a série ressoou pesadamente. Se o Brasil tem o funk e o sertanejo como os gêneros mais populares, a nação européia é completamente rendida ao rap e diversos nomes do gênero recorreram a “Casa de papel” para obter hits ao longo do primeiro semestre do ano.

O duo SKG foi um dos primeiros a surfar na onda, lançando uma música intitulada como a série, “Casa de papel”, e um clipe inspirado na mesma no fim de fevereiro. Não demorou para viralizar, acumulando mais de 43 milhões de visualizações no Youtube até o momento. No mesmo dia, Gradur, um gigante nome do universo urbano, também lançou um single que tira casquinha do fenômeno espanhol, “Sheguey 12“. Um mês mais tarde, outro astro, Remy, fez um freestyle em cima de “Bella Ciao” e, logo depois, Maitre Gims, o rapper que mais vende discos no país, se juntou a outros nomes famosos, como seu irmão Dadju; Vitaa; Slimane e Maestro, para também gravar sua versão da canção italiana, que alcançou a posição #2 nas paradas da single local.

Como se isso tudo não fosse o suficiente, o DJ francês Hugel ainda fez um remix dance da canção italiana, que foi um sucesso na França e um sucesso ainda maior na Alemanha, onde o single chegou a segunda posição.

Isso sem contar o impacto da série nas redes sociais. Ursula Cobrero, a jovem protagonista, tinha 1 milhão de seguidores no Instagram nas semanas que antecederam a estréia da série no Netflix. Nos 10 meses seguintes, graças ao sucesso global, o número sextuplicou: a atriz agora acumula 6 milhões de followers. Alvaro Morte, que interpreta o Professor, foi de 35 mil a 3 milhões no mesmo período. Jaime Lorente, que fez o papel de Denver, também alcançou 3 milhões (ele tinha 100 mil no mês de dezembro de 2017).

Miguel Herán, que interpretou o par romântico da protagonista, Rio, já demonstrou que a série tinha grande potencial de engajamento nas redes sociais mesmo na Espanha. Quando a segunda temporada da série estreou na Antena 3, em 16 de outubro, ele tinha 71 mil seguidores. Uma semana depois do fim da exibição da mesma na TV espanhola, em primeiro de dezembro, ele tinha superado a barreira do milhão. Com o sucesso internacional da série, ele também alcançou a casa dos 3m.

Foram poucas as ficções — americanas ou não — que tomaram conta de tantas vertentes da cultura pop. Na Suécia ou na Argentina, todo mundo parecia estar viciado na “Casa de papel”. Não foi surpresa quando o Netflix confirmou que a série tinha se tornado a produção de lingua estrangeira mais vista da plataforma na história.

A série, porém, não conseguiu transcender a barreira do idioma em territórios de lingua inglesa, onde seu sucesso foi mais limitado. Isso, inclusive, foi um assunto explorado numa matéria de capa sobre a plataforma de streaming na revista New York de 14 de junho.

“Ted Sarandos (CEO e criador do Netflix) e eu estávamos comentando sobre a peculiaridade de Casa. Como ela é gigantesca em todos os mercados estrangeiros porém relativamente pequena nos EUA, no Canadá e no Reino Unido”, comentou Eric Barmack, o responsável por séries internacionais, para a publicação. Barmack até considerou produzir uma versão americana mas a idéia foi rejeitada por grande parte das equipes estrangeiras do Netflix e, junto com Pina, o criador da série, ele estava analisando possibilidades como um spin-off ambientado nos EUA.

Em todo o caso, o pouco sucesso (relativo) no universo English-speaking não chega a ser uma preocupação dado a repercussão avassaladora em todo o restante do universo. Uma terceira temporada — algo que tinha sido descartada inicialmente pela emissora detentora da série, Antena 3 — já foi confirmada.

E, inclusive, esse anuncio me fez refletir: é óbvio que existe enorme apetite para uma nova temporada da série. Porém, na minha opinião, isso é um enorme erro. Essa mania das companhias americanas de quererem espremer as séries até a última gota faz até sentido monetariamente mas é um desserviço a todo mundo. Isso ficou super claro com a adolescente “13 Reasons Why” que foi um fenômeno sem igual para a plataforma. Apesar da primeira temporada ser uma história completa, a sede por $$$ fez eles insistirem em renová-la e a segunda temporada não só matou muito do buzz da série como foi quase que universalmente mal recebida e iniciou uma onda de backlash em relação a ficção. É claro que isso não os impediu de renovar para uma ainda mais desnecessária terceira temporada.

Eu, em particular, não acho “Casa de papel” grandes coisas (e não tenho interesse em “13 reasons”). Mas o público obviamente se apaixonou e se envolveu com a série de uma maneira muito rara. Essa recepção calorosa já foi o ápice da série — porque alargar o que todo mundo já considera perfeito e arriscar saturar a audiência e diminuir a qualidade geral dos roteiros e da série no coletivo popular? (pensem, por exemplo, como “Sex and the City 2” manchou uma das franquias mais amadas de todos os tempos).

Acho a mesma coisa de “Big Little Lies”, a sensação da HBO que assisti e gostei bastante e que, apesar de ter sido planejada para apenas uma temporada (e ter sido muito bem recebida com esse conceito), irá ganhar uma continuação. Em contrapartida, aplaudo os produtores de “Game of Thrones” que souberam que está na hora de colocar um ponto final naquilo, mesmo existindo apetite infinito para mais dezenas de temporada.

Tanto a Netflix quanto a HBO foram capazes de ir contra diversos mal hábitos das grandes emissoras — dando mais liberdade aos roteiristas e tendo um modelo que não os deixa a mercê de anunciantes, etc. — mas esse — espremer o que rende muito dinheiro até a última gota — foi um vicio que eles não conseguiram largar.

De qualquer maneira, a proposta principal do Netflix não é colocar roteiro e qualidade acima da ganância e sim dar ao público o que ele quer. E é óbvio que o público, pelo menos por enquanto, quer mais “Casa de papel”.

Case 2: Luís Miguel, La Serie.

Conseguir dar ainda mais força para a carreira de um dos cantores mais bem sucedidos de todos os tempos é uma tarefa bastante difícil. Mas foi exatamente isso que “Luis Miguel, La Serie” — a ficção baseada na vida do fenômeno da música latina — fez.

Dizer que Luís Miguel é um ícone seria um understatement. O mexicano é uma lenda viva e um fenômeno sem igual desde o início da sua adolescência nos anos 80; tem incontáveis hits reconhecidos por quase todo mundo em países de língua hispânica e sua vida — separações, casamentos, a sua turbulenta família — é bem novelesca e causa fascínio desde sempre. Por isso, uma série biográfica — feita com a aprovação do mesmo — foi um prato cheio para o público. Mas, mesmo que as expectativas já fossem altas, a repercussão de “Luis Miguel” ainda assim surpreendeu.

A série, produzido pelo titã da TV global Marc Burnett, e com Diego Boneta no papel título, não teve um alcance global como “Casa de papel”. Isso, porém, foi proposital: a distribuição do produto foi concentrado apenas para os EUA, Espanha e América Latina. Diferente da maior parte das séries originais do Netflix, a ficção também não foi lançada de uma só vez mas, ao invés disso, episódios inéditos eram liberados semanalmente.

O motivo disso? A série teve distribuição internacional simultânea pelo Netflix mas ela foi produzida para ser exibida na TV dos EUA, na emissora hispânica Telemundo que, obviamente, optou por seguir o modelo tradicional de um episódio a cada 7 dias.

Mas o formato semanal funcionou e significou que, entre domingo a noite e segunda-feira, um assunto dominava as redes sociais latina: a turbulenta vida de Luismi. Ao longo dos 6 dias seguintes, o burburinho e as expectativas só aumentavam.

Enquanto a série foi um grande sucesso em quase todos os territórios — gerando enorme repercussão desde os EUA até a Argentina — não é surpresa que foi no México onde o fenômeno foi mais perceptível. Um dia depois da exibição do primeiro episódio, nada menos que 27 músicas de Luismi invadiram o top 200 do Spotify no país, um recorde. As redes sociais explodiram com discussões sobre a vida do artista, com canais do YouTube dedicado a análise de cada capitulo acumulando milhões de visualizações. Nas boates, bares e restaurantes do México, o reggaeton perdeu espaço para os hits nostálgicos do cantor, que está embalando o verão local. “Culpable o No”, um hit de 1988, se tornou inescapável depois que o quarto episódio da série revelou a história por detrás da canção.

O motivo de tanto sucesso é a fascinação que o público hispânico tem com Luis Miguel. E a série — apesar de ser autorizada  pelo mesmo — prometeu não se esquivar das polêmicas da vida do cantor. A promoção foi muito focada em um dos assuntos que mais intrigam o público (e que não costuma ser tratado pelo astro): a misteriosa desaparição de Marcela, a mãe do artista, que sumiu em meados dos anos 80 em meio de muita especulação.

Todo esse interesse veio em ótimo momento para o cantor, que estava passando por um período meio turbulento com diversos cancelamentos de show e vários processos, vindo de ex-empresários, agentes e da mãe de dois dos filhos deles, além de um perceptível aumento de peso.

Mas não existe crise que uma boa série biográfica não resolva.

Taylor Swift: da ascenção ao ano que ela perdeu sua relevância cultural.

Em termos de lucro e vendas, nenhum artista americano na última década conseguiu chegar perto de Taylor Swift. Ao longo dos anos, sua ascenção foi um caso único e ela conseguiu manter o buzz em torno dela em um nível estratosférico por um período bem longo. Mas, hoje em dia, apesar da cantora seguir sendo um fenômeno de vendas, está claro que ela está perdendo muito da sua relevância cultural. Como isso aconteceu?

O caminho até o topo

Taylor Swift apareceu em cena — com seu híbrido de country teen pop — em 2006 e rapidamente virou um enorme sucesso com suas composições sobre o seu dia-a-dia; seus high school crushes e decepções amorosas. Ela tinha uma imagem que era fácil de vender; que jovens adoravam; que pais a procura de uma role model modesta e segura para suas filhas também apoiavam e que ressoava com uma parcela enorme do público americano — priorizando o super fiel público country. Ao escrever e compor suas próprias músicas, Taylor ainda tinha aquela legitimidade de artista “de verdade”.

Desde o começo, Swift se mostrou enormemente capaz de surfar nas ondas do momento. Naquele então, o Disney Channel era a maior força da cultura pop nos EUA e, apesar de não ser afiliada com o canal, a cantora apareceu no Grammy em dueto com sua então melhor amiga Miley Cyrus; na adaptação cinematográfica do seriado de Cyrus, Hannah Montana: The Movie e num hypado filme em 3D dos Jonas Brothers.

E, se o foco inicial eram seus namoradinhos da escola, Swift não demorou para emplacar um namoro com Joe Jonas, coincidindo com o breve momento em que os Jonas Brothers eram a maior banda do mundo.

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Taylor Swift como uma nerd fofa no clipe sensação de You Belong with Me

Foi o namoro com Joe, aliás, que fez com que Swift aperfeiçoasse a arte de transformar sua vida pessoal em material de fascínio: quando o astro terminou com ela, por telefone, ela postou um vídeo no MySpace o esculachando que rapidamente viralizou.

Mas não existe melhor vingança que o sucesso e o drama com o então astro serviu de gás para fazer com que Swift deixasse os irmãos comendo poeira. No fim de agosto de 2008, “A Little Bit Longer”, o segundo álbum dos Jonas, estreou nos EUA com espetaculares vendas de 525 mil cópias na primeira semana. Três meses depois, “Fearless”, o segundo CD de Taylor, lançado em simultâneo com o drama do término com Joe, superou os irmãos, com 592 mil unidades.

O lançamento do álbum foi acompanhado de um especial no talk-show de Ellen DeGeneres onde Swift revelou que, no último segundo, tinha adicionado uma canção dedicado ao ex no CD, Forever & Always. Em sua turnê, alguns meses mais tarde, ela cantava a música furiosamente em direção a um sósia de Joe.

Em todo o caso, os Jonas estavam em declínio e não demorou muito para Joe virar apenas um roda-pé na carreira de Taylor cuja fama crescia numa velocidade avassaladora.

Além de saber muito bem vender sua vida pessoal, Swift tem um inegável talento para compor hits. Depois de um primeiro CD muito bem sucedido, o lead single de “Fearless”, Love Story, foi um sucesso gigantesco que a levou para outro patamar e ela followed up com outra música gigantesca, You Belong with Me, cujo clipe, que retratava Swift como uma nerd fofa e desajeitada, ajudou a firmar sua imagem como uma garota que — apesar de milionária e gigantescamente bem-sucedida — pode ser a melhor amiga de qualquer uma de suas fãs.

No meio da promoção do seu segundo álbum, o memorável incidente com Kanye West nos VMAs elevou Swift a um nível ainda mais alto e, no começo de 2010, ela se tornou a artista mais jovem a ganhar um Grammy de Album of the Year, consolidando o ar de artista imaculada.

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Taylor Swift varre os Grammys de 2010

Quando o terceiro álbum de Swift, “Speak Now”, saiu, ela tinha formado uma coalização impressionante de fãs: a América profunda — os EUA rural, sulista — a amava por ela não renegar suas raízes country e pelo seu jeito All-American. Nas grandes cidades, sua música chiclete e sua imagem girl next door também ressoavam muito. Ela era consumida tanto pelo público pop, que naquele então ditava as tendências, quanto pelo público country, o mais fiel e mais disposto a gastar dinheiro em seus artistas favoritos. Garotas jovens a amavam; amavam acompanhar sua vida e se identificavam com suas canções. Os pais também a amavam já que ela era um refugio seguro, principalmente em comparação com as Miley Cyrus rebeldes do mundo. E a imprensa e crítica especializada a respeitavam pelos seus dotes de compositora e sua bem construída imagem de “artista de verdade”.

Depois dos EUA, o mundo

“Speak Now”, o terceiro álbum de Taylor Swift, foi o primeiro dela a ultrapassar 1 milhão de cópias na primeira semana, algo que se repetiria com todos os seus CDs seguintes, uma demonstração de força inédita na indústria fonográfica americana. Porém, enquanto “Speak Now” foi mais um enorme sucesso para Swift nos EUA, o álbum representou um passo para trás no restante do mundo.

Apesar de Swift ter conseguido se consolidar como a maior artista do seu país nativo, esses resultados colossais tinham se repetido em alguns poucos mercados. No Canadá, um país com uma cultura similar aos EUA e com tradição country, Swift se mostrava capaz de reproduzir o sucesso sem problemas. Na Austrália, outro país também muito influenciado pelos Estados Unidos, a imagem da cantora também ressoou e seu segundo álbum, “Fearless”, teve vendas altíssimas, alcançando 7x Platina (vendas equivalentes proporcionalmente as obtidas nos EUA). Na Ásia, casa do segundo maior mercado fonográfico do mundo (Japão), onde sua equipe não dispensou esforços de promoção, ela também tinha conseguido se consolidar como uma estrela.

Mas, apesar dos bons resultados obtidos, o seu desempenho ainda era extremamente tímido no mais influente mercado internacional, a Europa. No Reino Unido, o segundo mais importante mercado para artistas ocidentais, ela tinha conseguido um hit considerável com “Love Story” e seu segundo CD tinha obtido certificação de Platina por 300 mil unidades mas era um número tímido comparado com artistas como Rihanna, Beyoncé, Lady Gaga e P!nk que, naquela época, ultrapassavam facilmente a barreira de 1 milhão de cópias na terra da rainha.

Com “Speak Now”, os resultados foram ainda mais discrepantes. Na Europa, o CD foi virtualmente ignorado, com exceção do Reino Unido, onde ele penou para chegar a Disco de Ouro (100k), colocando um abismo ainda maior entre ela e artistas internacionais de primeiro escalão. Mesmo na Austrália, onde ela ainda era gigantesca, o álbum só alcançou 2x Platina, uma queda considerável em relação ao anterior.

O motivo? A falta de um radio hit. Enquanto o sucesso sem precedentes nos EUA deixava claro que a perda de fôlego na carreira internacional de Swift não era uma situação particularmente alarmante, a ausência de um crossover hit como Love Story You Belong with Me foram um empecilho nas ambições globais da cantora.

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Se afastando do country, Taylor assumiu um look mais hipster cute para a era “Red”.

Com isso em mente, Swift recrutou ninguém menos que o sueco Max Martin, então o Midas do Pop, capaz de emplacar dezenas de #1 global hits, para ajudar na produção o seu quarto CD, “Red”. Dentre outros acenos ao mercado internacional — principalmente o britânico — ela incluiu colaborações com Gary Lightbody, da banda de rock Snow Patrol, e com Ed Sheeran, uma das maiores sensações de vendas no Reino Unido (e Swift foi peça vital para que ele conquistasse o mercado dos EUA já que ela o promoveu intensamente em suas redes sociais e o escolheu como ato de abertura da sua turnê anterior. Nada mais justo do que Sheeran retribuir o favor).

Deu certo: “Red” — que foi o segundo álbum consecutivo de Swift a bater 1 milhão de cópias na primeira semana nos EUA — foi o primeiro lançamento da cantora a alcançar o #1 no Reino Unido, onde superou 600k unidades vendidas no total. Na Austrália, o álbum registrou um aumento de 100% em relação ao antecessor, obtendo 4x Platina. Foi o primeiro CD de Swift a atingir ouro na Alemanha e suas músicas começaram a tocar com mais frequência nas rádios européias.

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Taylor Swift e Harry Styles: a junção de dois fenômenos teen

O sucesso do CD, claro, foi impulsionado pelas músicas produzidas por Martin: We Are Never Ever Getting Back Together I Knew You Were Trouble em específico foram hits com repercussão grande no mundo todo.

E Swift soube novamente aliar o novo som a um romance com alcance igualmente global: ela emplacou um namoro com Harry Styles, o integrante mais popular da boyband One Direction, que mobilizava multidões em absolutamente todos os continentes.

Styles e Max Martin aparte, o mérito principal do sucesso de Swift até então foi dela mesma que soube dar aos fãs exatamente o que eles queriam ao longo de quatro álbuns. Sua fanbase principal — os fãs dedicados; capazes de encher estádios e comprar mais de 1 milhão de cópias na primeira semana nos EUA — se manteve fiel enquanto ela dava passos para expandir seu público em outras direções. E ela soube cada vez mais alimentar o culto em torno dela: ela começou a interagir com fanáticos no Tumblr e a chamar fãs para listening sessions dos seus CDs e outros eventos surpresas, criando a impressão de que todo mundo tinha a chance de conhece-la e de ter acesso a material exclusivo se eles simplesmente a amassem muito e demonstrassem isso sem nenhuma vergonha na internet.

1989: o segundo ápice

O ano de 2014 chegou e todos os fãs de Swift já sabiam o que esperar: um novo CD da sensação country pop. Naquela altura, a cantora já tinha estabelecido um padrão claro de lançamento, com um novo álbum a cada dois anos, sempre em outubro.

Era difícil imaginar que Taylor ainda tinha para onde crescer — principalmente na América do Norte — mas, como provado com “Red”, ela ainda tinha ambições globais e novos marcos para atingir.

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Com “1989”, Taylor conquistou a cidade grande e todo o restante do mundo.

“1989” foi o álbum que fez o que parecia ser impossível: deixar Taylor ainda maior. Para o CD, ela resolveu abandonar totalmente a sonoridade country para se dedicar ao pop. O que parecia uma decisão tola — os fãs country são os mais fiéis e foram essenciais para transforma-la na maior artista dos EUA — se mostrou extremamente acertado: não só seu quinto CD foi, de longe, o mais bem sucedido dela em todo o mundo como, nos EUA, foi o seu segundo maior álbum, ultrapassando os números obtidos por todos os seus lançamentos com excessão de “Fearless”, de 2009.

O rebranding de Taylor Swift, que a transformou numa artista de primeiro escalão a nível global, incluiu:

  • um CD inteiramente produzido por Max Martin que soube produzir hits perfeitos para a rádio global, com uma sonoridade bem mais internacional e sem influências country, gênero que tem alcance internacional bem limitado
  • uma mudança para Nova York. A base de Swift sempre foi Nashville, a capital country no sul dos EUA mas, para sua nova era, a artista resolveu conquistar a cidade grande e comprou um imóvel milionário no bairro do Chelsea. Isso, claro, tinha como objetivo internacionalizar sua imagem e deixá-la mais in line com uma diva pop tradicional. Ela era fotografada quase que diariamente com looks chamativos e estilosos andando pelas ruas de Manhattan e uma faixa em homenagem a cidade, chamada “Welcome to New York”, onde ela dizia que lá tudo era possível, até garotos com garotos e garotas com garotas (uma demonstração rara de liberalismo da cuidadosamente apolítica Swift), abria o CD.
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Taylor Swift, sempre escoltada por integrantes do seu squa
  • falando em liberalismo, ela adotou uma imagem mais vagamente socialmente ~liberal~, em que ela abraçou uma versão pouco ameaçadora do feminismo e deixou os rapazes de lado para se associar a um squad formado quase que exclusivamente por it girls famosas que iam desde a estrela liberal Lena Dunham até Blake Lively passando por todas as modelos mais badaladas (Kendall Jenner; Cara DeLavigne; Karlie Kloss e todas as demais Angels da Victoria’s Secrets); artistas com um ar mais indie (Lorde; HAIM) e jovens estrelas em ascenção (Zendaya; Hailee Steinfeld). Esse squad ganhou center stage nas redes sociais de Taylor e virou uma obsessão global. Mas, mostrando que Taylor ainda era “a mesma garota”, ela nunca esquecia de incluir as suas “melhores amigas” de sempre: Abigail, sua bff da high school, mencionada em músicas desde a primeira aparição de Swift na cena, e Selena Gomez, a primeira e mais fiel amiga famosa da artista.
  • apesar da nova fase girl power, ela não deixou as picuinhas e dramas amorosos de lado. Seu álbum foi quase que integralmente dedicado ao seu ex, o maior heartthrob do planeta naquele então, Harry Styles, incluindo uma faixa chamada Style que prontamente se transformou num fan fave. A excessão? Bad Blood, dedicado a uma recém revelada inimiga igualmente high profile: Katy Perry (que, até então, tinha obtido muito mais sucesso internacional que Swift).
  • a capacidade de transformar todos os singles em eventos. O primeiro, Shake It Off, lançado junto com um vídeo que, assim como You Belong with Me vários anos antes, reforçava Swift como uma nerd fofa desajeitada, foi um sucesso global. O segundo, Blank Space, foi uma sensação ainda maior com sua letra que zombava da reputação de Taylor Swift como uma “crazy ex” (self-awareness não era algo muito on brand para Taylor até então) e um clipe igualmente chamativo. E, claro, Bad Blood, o single que escancarava a guerra com Perry e cujo vídeo de altíssimo orçamento incluía todo o celebrado squad da cantora.

Além de alcançar 9x Platina nos EUA, “1989” ultrapassou a barreira do milhão de cópias no Reino Unido, finalmente colocando ela na primeira linha de estrelas do país. Também foi o álbum de Swift que mais vendeu no Canadá e na Austrália, além de ter obtido registros de venda consideravelmente mais altos em toda a Europa e América Latina. Finalmente, Swift parecia ter conquistado o título de mega-estrela global.

A força e influência de Taylor foram comprovadas diversas vezes durante o ciclo promocional do álbum: em 2014, ela tirou todo seu catalogo do Spotify, apesar de que a plataforma de streaming estava em pleno crescimento e dominando o consumo de música no mundo. Alguns meses mais tarde, quando a Apple anunciou que lançaria seu próprio serviço de reprodução digital, a cantora publicou um op-ed no Wall Street Journal criticando o modelo de royalty do serviço, fazendo com que a gigante do Vale do Silício mudasse suas diretrizes e aumentasse o pagamento a artistas. Satisfeita com o desfecho, Swift colocou seu catalogo exclusivamente no Apple Music e virou garota propaganda da plataforma, estrelando anúncios que foram sucessos virais.

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Em 2016, mais uma vez, Taylor Swift dominou os prêmios Grammy.

No começo de 2016, ela repetiu o feito de “Fearless” e, com “1989”, ganhou o Album of the Year no Grammy pela segunda vez, se transformando na primeira mulher que ganhou o prêmio principal da indústria fonográfica duas vezes. Não parecia ter objetivo traçado que Swift e sua equipe não conseguissem conquistar.

Saturação e backlash

Ao longo da carreira de Taylor houve vários momentos onde se ensaiou um backlash. Muitos consideraram injusto ela ter ganho o Grammy de Álbum do Ano em 2009, por exemplo, e sua performance desastrosa com Stevie Nicks na premiação foi motivo de chacota. Nos anos seguintes, sua constante exposição da vida pessoal e sua postura permanente de vítima e garota mimada também geraram muitas críticas, assim como sua obsessão com dinheiro (ela processou fãs que vendiam artesanatos com quotes dela no Etsy e muitos interpretaram a briga dela com o Spotify por mais royalties como outro exemplo de ganância).

Swift nunca soube lidar bem com críticas — sua única tentativa bem-sucedida de domá-las foi com o lançamento de Blank Space, onde ela vestia a carapuça de vingativa — mas seu sucesso estrondoso sempre ofuscava as opiniões menos favoráveis e sua equipe tinha uma habilidade impressionante em conseguir controlar a narrativa.

Porém, ao longo de 2015, a onipresença de Swift começou a causar saturação real. Todos os esforços de marketing foram tão forçados que o coro de haters começou a ficar mais alto. Um exemplo disso foi o squad de amigas badaladas de Taylor que foi tão empurrado goela-abaixo que chegou a um ponto onde muitos consideravam o grupo de amizade falso e artigos criticando a artificialidade daquilo tudo começaram a viralizar.

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Taylor Swift e Calvin Harris: o primeiro namorado que ela não conseguiu domar.

Taylor e sua equipe também começaram a perder o controle que detinham sobre as pessoas do circulo da cantora. Ao longo da promoção de 1989, Swift assumiu um namoro com o DJ escocês Calvin Harris. Apesar de quase todos os seus namoros high-profiles terem sido debaixo de holofotes, foi a primeira vez que a cantora colocou seu namorado em suas redes sociais de maneira tão pública.

Quando o namoro chegou ao fim, Swift sacou sua carta habitual de se colocar como vítima: alguns veículos noticiaram que o namoro terminou pois Harris tinha inveja do sucesso da cantora e que ele teria inclusive escondido o fato dela ter escrito um dos seus maiores hitsThis Is What You Came For.

Harris foi rápido no gatilho: nas redes sociais, ele deixou claro que não ia deixar a equipe dela passar por cima dele como fizeram com Katy Perry e tantos outros e que a decisão de assinar a música sob um pseudônimo tinha sido da própria Taylor. Rapidamente, colocaram-se panos quentes e, no fim das contas, o DJ apagou os tweets. Taylor, por sua vez, nunca fez uma música falando mal do ex, algo raro.

Em 2016, veio o maior golpe contra a reputação de Taylor quando uma mentira dela foi exposta de maneira espetacular por ninguém menos que Kim Kardashian-West.

Tudo começou, claro, no VMA de 2009 quando o futuro marido de Kim interrompeu o discurso de aceitação de Swift. Desde então, a relação entre as duas estrelas sempre foi complicada mas, em 2015, as mágoas pareciam ter ficado oficialmente no passado: Taylor até apresentou o VMA Vanguard Award a West, se declarando uma enorme fã.

Mas as coisas entre os dois voltaram a ficar estremecidas com o lançamento da música Famous, na qual Kanye cantava: “For all my Southside niggas that know me best/ I feel like me and Taylor might still have sex/ Why? I made that bitch famous“.

Swift se mostrou extremamente irritada com a letra vulgar e fez dela o pilar do seu discurso de aceitação do Grammy de 2016, na qual ela afirmou: “para todas as garotas jovens no mundo, sempre terão pessoas que iram tentar diminuir o seu sucesso e tentar levar crédito por ele”. Mas West, revoltado, afirmou que todas as demonstrações de fúria dela eram falsas já que a própria Taylor tinha autorizado o verso. Daí começou um “disse/não disse” que durou algumas semanas até que Kim Kardashian finalmente botou um ponto final na controvérsia: no Snapchat, ela publicou um vídeo que provava que Taylor deu, através de uma ligação, sua benção para a letra.

As redes sociais explodiram com memes atacando a cantora; as redes sociais dela foram inundadas com emojis de cobra e, pela primeira vez, Taylor e sua equipe tinham perdido totalmente o controle da situação.

Para piorar, enquanto tudo isso estava acontecendo, Taylor ainda estava envolvida em um romance com o ator britânico Tom Hiddlestone que virou motivo de piada dado o quão armado a coisa toda parecia. Por anos, a cantora era criticada por expor demais sua vida pessoal e se envolver em showmances — namoros supostamente armados para gerar burburinho. Com Hiddlestone, a coisa foi tão descarada – culminando no ator usando uma camisa com a frase “I ❤ TS” enquanto tomava banho de mar com ela e seu squad – que afetou bastante a popularidade de ambos e deixou Swift numa posição que nem seus fãs mais dedicados conseguiam defender.

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Taylor Swift é ‘flagrada’ sendo apresentada a mãe de seu namorado, Tom Hiddleston.

Esse furacão de bad publicity concentrado em poucas semanas era algo inédito na carreira de Taylor.

Ainda por cima, uma eleição servia como pano de fundo para tudo isso. Taylor Swift foi a única grande popstar que se recusou a se pronunciar sobre o assunto. De um ponto de vista estratégico, fazia completo sentido: Swift é a artista mais popular dos EUA exatamente porque ela conseguiu não alienar quase ninguém, incluindo os fãs conservadores concentrados no sul do país. Além disso, todos os artistas country morrem de medo de se pronunciar politicamente desde que críticas feitas pelas Dixie Chicks, então as maiores estrelas country do país, direcionadas ao então presidente George W. Bush quase destruíram a carreira delas. Ser apolítica sempre foi um pilar na carreira de Taylor.

Por outro lado, pegou enormemente mal para uma artista que usou feminismo como marketing manter completo silêncio numa eleição onde um neo-fascista misógino era um dos candidatos. Ademais, priorizar a carreira e o dinheiro reforçavam a imagem dela como gananciosa, que prioriza dinheiro acima de qualquer coisa.

A volta

Depois de dois anos de superexposição que culminaram em um tsunami de más notícias, Taylor resolveu se ausentar dos holofotes por um ano. Óbvio que, depois de uma década de exposição constante, foi difícil notar o “sumiço” dela, até porque, durante esse período, ela lançou uma música inédita (I Don’t Want To Live Forever, um dueto com Zayn para a trilha sonora de 50 Shades Darker) mas, pela primeira vez desde que apareceu na cena, ela não lançou um álbum novo no período pré-determinado (outubro de 2016, 2 anos depois do lançamento do último CD).

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Taylor Swift e sua “reputation”, supostamente arruinada pela imprensa.

Um ano mais tarde, porém, ela estava de volta a cena. Em agosto, a limpa generalizada das suas redes sociais anunciou que algo estava por vir e, em poucos dias, imagens de cobras tomaram conta do seu Instagram, deixando claro que a cantora mais uma vez estava disposta a reclaim a narrativa e assumir controle da imagem dela que foi tão difundida durante o fiasco Kim/Kanye.

No final da semana, Look What You Made Me Do, o aguardadíssimo retorno de Taylor, foi lançado. A canção foi disponibilizada em todos os serviços de streaming, incluindo o Spotify, assinalando uma trégua entre a cantora e o app sueco, e mostrou que o apetite para o retorno dela era altíssimo: foram 8 milhões de streams só na plataforma, até então um recorde histórico. Ela também quebrou o recorde de streams nos EUA e liderou as paradas no Reino Unido e na Austrália.

Alguns dias mais tarde, o vídeo – onde Swift novamente mostrava self-awareness e zombava dos seus escândalos no ano anterior – também quebrou recordes de visualizações e foi universalmente aclamado. As coisas pareciam estar se alinhando perfeitamente para o retorno da cantora.

Cadê o interesse que estava aqui?

A nova era da cantora, “reputation” (estilizado todo em letras minúsculas), é um comentário sobre como a mídia destruiu a reputação dela. Como é costume com Taylor, ela não assume nenhuma culpa, se fazendo de vítima e colocando a responsabilidade nos outros. É uma formula que já estava se mostrando saturada.

No primeiro momento, com o vídeo do primeiro single cheio de auto-referências, parecia que Taylor de novo iria assumir o controle da narrativa. Mas algo diferente estava no ar: muitas das reações que mais viralizaram nas redes sociais demonstravam cansaço com a cantora e sua imagem.

E, apesar do começo espetacular, não demorou muito para Look What You Made Me Do perder fôlego. Apesar da música ter alcançado o topo do Hot 100 e da parada de singles britânicas, o momentum da canção não durou quase nada e, em pouco tempo, ela já tinha sumido do top 50 das plataformas de streaming. Músicas sem 1/100 do hype e de artistas bem menos estabelecidos – como Sorry Not Sorry de Demi Lovato – estavam facilmente superando o desempenho de Taylor.

Em todo o caso, a narrativa do novo álbum estava claro: Taylor tinha visto sua reputação sendo (injustamente) arruinada; ela sumiu por um período; encontrou o verdadeiro amor (o ator britânico Joe Alwyn) e a verdadeira felicidade e parou de se importar com o que as pessoas diziam sobre ela. Ela não daria entrevistas pois não queria ser injustamente retratada (na realidade, ela não queria responder perguntas desconfortáveis sobre política e seus escândalos) e seu novo relacionamento seria muito mais privado,  com apenas alguns poucos vazamentos estratégicos para imprensa.

De certa maneira, deu certo. “reputation” novamente vendeu mais de 1 milhão de cópias na primeira semana, fazendo dela a única artista a atingir isso com quatro álbuns consecutivos. Sua turnê atual por estádios está esgotada e a caminho de se tornar uma das mais lucrativas da história (apesar de usar um modelo bastante polêmico de venda de ingressos, que inflaciona o preço de acordo com a demanda). E, apesar disso, a relevância cultural de Swift… evaporou.

Sim, ela ainda lucra muitíssimo. E a sua fanbase dedicada – que compra o CD na primeira semana e ingressos para shows – ainda é maior do que de quase qualquer outro nos EUA. Mas suas músicas não repercutem. Ela tem enorme dificuldade de penetrar o top 50 nas plataformas de streaming. Ninguém fora da fanbase comenta mais sobre ela e mesmo alguns fãs mais dedicados perderam a paciência. Apesar de suas vendas serem muito superior a quase qualquer outro, está claro que “reputation” será, de longe, o álbum menos vendido de sua carreira. E, depois de avançar consideravelmente no mercado global, toda a evolução foi desfeita com o novo CD que, novamente, tem obtido vendas baixas – quase nulas – em mercados não anglo-saxões, além de quedas consideráveis até mesmo no Canadá, Reino Unido e Austrália.

O que ela fez de errado?

Não foram apenas os escândalos e a superexposição que fizeram com que Swift perdesse relevância cultural. Vários passos em falso contribuíram para que o público perdesse o interesse. São eles:

  • Não saber manage as expectativas. Antes do lançamento de “reputation”, alguns na equipe de Swift acreditavam que, baseado na repercussão imediata de Look What You Made Me Do, o álbum dela poderia se aproximar a 2 milhões de unidades vendidas na primeira semana. E, para impulsionar os números, técnicas que incentivavam os fãs a comprar várias cópias (como disponibilizar duas edições deluxe diferentes e priorizar acesso a ingressos da turnê para fãs que compraram o CD diversas vezes) foram adotadas. Mesmo assim, o álbum vendeu “apenas” 1.2 milhões de unidades, registrando – pela primeira vez – uma queda em relação a primeira semana do CD anterior (“1989” vendeu 1.29m). Ainda um número espetacular mas a equipe de Taylor mesmo assim bateu o pé, se recusando a aceitar os números oficiais e dizendo que eles preferiam acreditar no BuzzAngle, uma empresa de rastreamento de vendas menos confiável que estimou que o CD teria alcançado 1.3m antes da divulgação dos dados oficiais da Billboard. Isso, claro, foi um dos aspectos menos importantes dos missteps, dado que 1 milhão de vendas foi alcançado e as technicalities disso foram quase imperceptíveis para quem não estava acompanhando de perto.
  • Muito mais grave que o primeiro erro apontado, a obsessão de Swift e de sua equipe com ter margens de lucro gigantescas com shows afetou – e muito – a carreira internacional dela já que era difícil ela obter garantias similares de arrecadação as que ela tinha em alguns poucos mercados chaves (EUA/Canadá/Austrália/Ásia). É quase inimaginável um artista grande dos EUA não fazer turnês extensas pela Europa, algo essencial para consolidá-los no mercado global. Swift, apesar de ter feito várias viagens promocionais, nunca fez uma turnê grande pelo continente. Na turnê de “Red”, seu primeiro CD com grande repercussão global, a perna européia de sua turnê incluiu apenas paradas em Londres e em Berlin. Na excursão seguinte, do gigantesco “1989”, ela novamente esnobou quase todos os lucrativos mercados europeus, pisando apenas no Reino Unido, Alemanha e Holanda. Isso sem falar na América Latina, quase que totalmente ignorada (salvo uma breve visita promocional ao Rio durante a era Red), apesar de ter sido um dos principais mercados para ela em “1989”. A atenção dela só foi direcionada a mercados onde ela já era de enorme escalão — Ásia e Austrália — e a obsessão com garantia de lucros e números espetaculares como os obtidos nos EUA impediu o crescimento dela globalmente, mesmo com o enorme apetite gerado pelos seus quarto e quinto álbum (que teve bom desempenho na França, na Escandinávia, na Espanha, no México, no Brasil, etc).
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Taylor e Spotify: uma relação quase tão conturbada quanto Taylor e Kanye.
  • O pior erro de todos: a guerra que ela travou com o Spotify, a maior plataforma de streaming do mundo. Sim, durante “1989”, o sucesso foi tanto que ofuscou as repercussões negativas disso mas limitar o catálogo dela foi um tiro no próprio pé, principalmente porque o consumo de música legal hoje em dia se dá quase que exclusivamente via streaming. Ed Sheeran e Drake, os dois maiores artistas da atualidade, viraram os maiores do mundo pois souberam usar o streaming a seu favor. Swift em busca de margens de lucro maior, acabou se limitando novamente. Para “reputation”, ela parece ter se dado conta do erro que cometeu e o Spotify foi um grande aliado no lançamento do primeiro single, colocando a música em todas as playlists principais, dando destaque ao lançamento em sua página inicial e até espalhando outdoors promovendo a música. Taylor retribuiu criando playlists para o app. Mas, na última hora, ela resolveu lançar seu CD apenas em formato físico e via iTunes nas primeiras duas semanas e a situação amargurou novamente. Além disso, o público simplesmente não se habituou a stream ela.
  • Resultado? Total falta de interesse no novo álbum no mercado internacional — onde o consumo de pop estrangeiro é dependente de streaming — e má vontade do Spotify em promover as músicas dela. Ela até tentou correr atrás do prejuízo gravando um cover (muito mal recebido) de September do Earth, Wind & Fire exclusivamente para o aplicativo, além de um vídeo vertical para Delicate mas em nada deu certo: é raríssimo ver Swift penetrando o top 50 do Spotify (isso sem falar do Apple Music que, apesar dela ter sido garota propaganda, é quase totalmente dominado por música urbana).
  • E, falando em música urbana, outro fator é, para variar, realmente alheio a Swift: como já disse várias vezes aqui, o público estado-unidense simplesmente não está interessado em música pop e o som produzido por Max Martin, antes totalmente irresistível e que dominava tudo no período que “1989” foi lançado, ficou obsoleto. É raro uma música não-urbana viralizar e ter repercussão grande nos EUA. E o restante do mundo também está se afastado do gênero.
  • Aliado a isso, a falta de narrativas interessantes na vida de Taylor ajudaram a fazer o público perder o interesse. Se, com o álbum anterior, cada música veio com um clipe que era diretamente correlacionado com aspectos da personalidade de Taylor que o público se interessava por (sua dorkyness em Shake It Off; sua reputação de ex-namorada doida em Blank Space; sua briga com Katy Perry e seu squad em Bad Blood), os novos vídeos – com exceção de Look What You Made Me Do – se baseavam exclusivamente em visuais impressionantes de altíssimo orçamento, algo que não ressoa tanto nem com os fãs dela, muito menos com o público em geral.
  • Finalmente, o principal problema é mesmo a reputação de Taylor. Durante anos, uma parcela do público criticou seus showmances; seu complexo de vítima e sua incapacidade de evoluir e amadurecer. E ela própria legitimou todas essas críticas com decisões tomadas entre 2015 e 2016, que alienaram até mesmo fãs mais dedicados. O culto imaculado em torno dela mostrou graves rachaduras e vai ser difícil se recuperar integralmente. Ela conseguiu cultivar uma fanbase dedicada gigantesca que, por enquanto, ainda está com ela. O restante do público, porém, perdeu o interesse.

What’s next?

A carreira de Taylor Swift foi, ao longo de quase 10 anos, uma constante evolução. Mas, depois de uma trajetória de sucesso impressionante e quase nunca antes vista, ela finalmente estagnou. A cada CD, a cantora tinha uma carta na manga mas, a essa altura, todos os artifícios parecem já ter se esgotados. Aonde ela pode ir?

Em primeiro lugar, Swift e sua equipe terão que deixar a vaidade de lado e entender que o ápice da cantora já aconteceu. Os números de Taylor provavelmente continuaram altos, de modo que é melhor saber apreciar isso ao invés de ficar fixado em quebrar recordes de venda de primeira semana a cada dois anos, algo que não deverá voltar a acontecer.

No mais, minha humilde opinião é que Taylor deve voltar para o country. Ser uma estrela pop é algo que está fora de moda e o universo country é sempre um refugio seguro, muito menos volúvel as tendências do momento e com um público cativo e numeroso. Sem falar que é um universo muito mais low-key onde é fácil evitar a exposição exaustiva.

Em relação a narrativa da vida pessoal, está claro que o que está sendo vendido é que Taylor está feliz como nunca com seu atual namorado, Joe Alwyn. Se for para recuperar o interesse do público e fazer as redes sociais vibrarem, nada melhor do que o combo noivado/casamento/gravidez. Porém, talvez seja o momento de auto-reflexão e de fazer aquilo que Taylor nunca conseguiu: se desligar da percepção pública dela e viver para ela mesma.

Causando em 2017: Latino style

Em setembro do ano passado, falei que reggaeton estava a ponto de conquistar o mundo. Quase um ano depois, a previsão se provou certeira. “Despacito” é a maior música do planeta, quebrando um recorde atrás do outro e, depois de três meses, acaba de ser substituído no topo da parada global do Spotify por “Mi Gente” do colombiano J Balvin. Enquanto isso, Daddy Yankee é o artista mais ouvido na principal plataforma de streams do mundo.

Tá tudo dominado

A conquista mundial do reggaeton está em andamento mas, na América Latina e na Espanha, a dominação está mais do que consolidada. O sucesso é tanto que a pluralidade nos charts quase acabou e até alguns dos maiores fenômenos do mercado hispânico — como Romeo Santos, o ícone do bachata, o estilo da moda faz poucos anos — tem tido dificuldade para emplacar hits.

Depois de obter fama avassaladora com o seu grupo Aventura, Romeo se consolidou como o maior nome da música latina . Seu segundo álbum, “Formula, Vol. 2”, lançado em 2014, fez com que ele desbancasse até Shakira como o maior nome da América Hispânica.

Mas, desde que ele entrou em um break, o reggaeton ganhou tanta força que seu aguardado retorno esse ano foi ofuscado pelo sucesso fenomenal de canções do gênero, como a inescapável “Despacito”.

Lançado em fevereiro, seu comeback single “Heróe Favorito” teve resultados dignos mas muito aquém ao esperado de um cantor que encheu absolutamente todos os estádios da América Latina e obteve, com o lead single do álbum anterior, “Propuesta Indecente”, um dos maiores hits em espanhol da década.

O problema de “Heróe Favorito” foi que, na minha opinião, a música era tão tipicamente Romeo que poderia ser uma faixa de qualquer álbum dele. Espera-se que um primeiro single tenha o som marca registrada do artista combinado com algo striking que prenda a atenção do ouvinte para o seu retorno.

Isso, somado ao fato de que bachata perdeu espaço para reggaeton com a ausência de Romeo da cena, fez com que a música do maior astro de todos acabasse passando despercebida.

Para o segundo single, Romeo step up his plate e trouxe a muito mais pegajosa e marcante “Imitadora”. Agradou bem mais aos ouvintes e foi um sucesso maior, apesar de que não chegou ao patamar dos grandes hits do reggaeton — algo que ele era capaz de fazer com facilidade faz apenas dois anos.

Nesse cenário de ditadura do reggaeton, sempre existe a opção de seguir os passos de Shakira e Enrique Iglesias e se render ao gênero.

Mas, diferente das estrelas pop, Santos sempre foi de raiz. Ele é fiel ao estilo que o catapultou ao estrelato e raramente dá o braço a torcer. Mesmo quando colaborou com Drake — o maior rapper do universo — ele não se flexibilizou: foi o canadense que se rendeu e cantou em espanhol, no maior estilo cantor brega latino.

Mas o poder do reggaeton é tanto que Santos não se segurou. Seu novo álbum, “Gold”, inclui a canção “Bella y Sensual” com Daddy Yankee e Nicky Jam. O raro gesto do nova-iorquino parece estar rendendo frutos: o bachataton já penetrou o top 50 da Espanha e de todos os países latinos no Spotify e, em tempo recorde, alcançou o top 10 no Chile, superando o sucesso de todos os demais single que ele lançou ao longo de 2017.

Além de colaborações com os maiores nomes da música romântica em espanhol — Juan Luis Guerra, Julio Iglesias — ele ainda colabora em mais outra faixa com uma das maiores estrelas do reggaeton, Ozuna.

Apesar de estar em uma fase mais modesta, Romeo segue arrasando: a estréia do seu terceiro álbum solo foi a melhor semana de vendas de um álbum latino nos EUA, superando “El Dorado”, o CD de Shakira, lançado em junho.

O fenômeno Shakira

Falando em Shakira, ela é outra que resolveu apostar no seguro e entregou um álbum cheio de reggaeton. “Chantaje”, o maior hit do CD, foi uma colaboração com o fenômeno Maluma. Mais uma música com o jovem reggaetonero foi inclusa no álbum e deve ser lançada como single depois de uma colaboração bem pancadão com Nicky Jam, cujo vídeo acaba de ser gravado.

O interessante é que, apesar de ter se rendido ao reggaeton, Shakira é uma das poucas artistas latinas capaz de obter sucesso se desviando do gênero. Enquanto Santos teve problema para emplacar “Heroé Favorito”, “Deja Vu”, a colaboração da colombiana com Prince Royce — também uma típica bachata — entrou no top 50 do Spotify de todos os mercados hispânicos na mesma semana que o vídeo foi lançado. Seu pop vallenato com Carlos Vives, outro astro colombiano, “La Bicicleta”, foi um dos maiores sucessos em espanhol de 2016.

Não recomendado para os mais sensíveis

Os dois maiores propulsores de talento da América Latina na atualidade são Puerto Rico e Colômbia. Puerto Rico é o berço do reggaeton moderno e de onde saíram quase todos os principais nomes do gênero. Já a Colômbia soube levar o estilo para outro patamar e revelou ao mundo Maluma e J Balvin, as duas maiores sensações, além de ter sido parte do renascimento de Nicky Jam, outro dos grandes nomes.

Mas, além desses dois países, outro mercado que vale a pena prestar atenção é a Republica Dominicana. A nação caribenha também teve um papel importante na criação do gênero — foram os dominicanos radicados em NY que ajudaram a cria-lo — e também é de lá o outro ritmo que tomou conta da América Latina e da Espanha, a bachata. O país da América Central também tem um gosto muito particular e é um grande descobridor de talentos do trap, um gênero do reggaeton que tem muitas semelhanças com a música urbana americana nascida no East Coast.

A influência do rap e do hip-hop de Nova Iorque no gosto local é compreensível: milhões de habitantes do país tem laços fortes com a principal cidade dos EUA, que tem uma comunidade gigante de imigrantes provenientes da Republica Dominicana. Até a bachata moderna, de Romeo Santos e do Aventura, teve origem no Bronx.

Apesar disso, o trap que a Republica Dominicana tanto ama não nasceu no país e sim em Puerto Rico, a colônia dos EUA que também tem relação estretíssima com NY. Mas apesar de não ter sido criado por dominicanos, foi a partir do país da América Central  que o gênero começou a conquista do restante da comunidade latina.

Quando Maluma lançou, em meados do ano passado, a música “4 Babys”, ele chocou o mundo hispânica com a letra. Misoginia na música não é algo raro em nenhum gênero ou país, muito menos no reggaeton latino americano, mas o que deixou muitos de boca aberta foi o baixo calão das palavras. Na canção, sobre o affair  dele com quatro mulheres diferentes, o astro colombiana fala em “meter”, “trepar”, etc. — termos comuns no funk brasileiro ou no rap americano mas pouco visto na música latina mainstream.

O astro colombiano ficou chocado com a reação negativa. Ele só estava trazendo para seu repertório o reggaeton no estilo trap, que, na verdade, já gozava de grande popularidade. Mas, até então, o estilo não tinha sido legitimidade por um astro estabelecido de primeiro escalão. Apesar de bombar no YouTube faz muito tempo, o alcance que ele deu ao subgênero foi muito maior e chegou a um público que nunca tinha sido exposto a ele antes.

No final das contas, “4 Babys” — apesar de todo o choque que a letra causou — serviu apenas como aperitivo, porque o reggaeton proibidão está cada vez mais popular na América Latina. Ozuna, a maior revelação do ano passado, flerta com o estilo e Bad Bunny, a maior sensação desse ano, faz um trap de raiz.

Provenientes de Puerto Rico, ambos estouraram na Republica Dominicana bem antes de conquistarem os demais países do continente. Bunny, em específico, é um Midas no país e todas as suas colaborações com outros nomes do trap — como Anuel AA, Jory Boy, Brytiago e Bryant Myers — são sucessos instantâneos. Agora, ele está dominando o restante das Américas e Espanha, obtendo hit atrás de hit e colaborando com gigantes como J Balvin (no mega hit “Si Tu Novio Te Dejas Solo”).

No trap de Bad Bunny, palavrões, drogas e outros temas que aparecem de maneira filtrada no reggaeton dos outros astros são lugar comum.

Alguns excertos de “Soy Peor”, seu maior hit solo, no qual ele narra estar aliviado ao terminar um relacionamento péssimo: “Agora faço tudo o que eu quero/Só penso em eu mesmo/Jogando notas dentro do puteiro/Para merda o amor verdadeiro/Eu só quero ganhar dinheiro/Baby o que tinhamos descansa em paz/Não estou nem ai para com quem você tá/Diga pra sua mãe que ela não me faz falta/Já tenho sogras demais/Tenho a branquinha que me faz um lap dance/A roqueirinha que meto com tudo, de Vans/Tenho a pretinha, a loirinha, as modelos e todas as fãs”.

A menção obrigatória a substâncias ilícitas: “Eu não quero fumar o regular/Me traga o kush que me deixa espetacular/Que já não tenho mais você para especular/E para encher meu saco por todas as fotos de bunda que tenho no celular”.

E, claro, o refrão: “Siga seu caminho, sem ti eu estou melhor/Agora tenho outras que trepam bem melhor/Se antes eu era um filho da puta, agora sou bem pior”.

Com a forte influência do rap americano, o trap também é bem americanizado. Em “Tu No Metes Cabra”, seu atual hit, Bunny fala de prom, de bleachers, de bilionários americanos, de carrões e de jogadores de basquete. A temática U.S. não impede o single de ser um enorme sucesso em todos os países, da Argentina ao México e também na Espanha. Bunny está próximo a obter o nível espetacular de sucesso alcançado por Balvin e Maluma.

Antes tarde do que nunca

Assim como no rap americano, o universo do reggaeton é um clube do bolinha. Enquanto a música pop — particularmente a mexicana — sempre teve boa participação feminina, a dominação do reggaeton apagou quase todas as mulheres da parada, com exceção da colossal Shakira.

Se aliando com Maluma, Thalia conseguiu um mega hit com “Desde Esa Noche” no ano passado. Com a participação de Cali y el Dandi, a ex-RBD Maite Perroni, hoje mais conhecida como mocinha de telenovelas mexicanas, conseguiu recentemente seu primeiro sucesso desde os tempos de Rebelde com “Loca”. Mas esses casos estão mais para exceção do que para regra.

Apesar disso, é possível que, aos poucos, as coisas estejam mudando. Dentre as 20 faixas mais populares nos principais mercados latinos e na Espanha no Youtube, dois são reggaetons com mulheres como lead singers. Dois em 20 pode parecer um número patético mas é uma evolução de zero.

As duas artistas que conseguiram esse feito foram Karol G. e Becky G. O que ambas tem em comum além do “G” como sobrenome? O fenômeno Bad Bunny participando de suas músicas.

Mas enquanto o reggaetonero foi, sem duvida, um fator importante para o sucesso, a música é majoritariamente das mulheres, na qual ele contribui apenas com alguns poucos versos. Mesmo assim, a influência dele é enormemente perceptível, principalmente na música de Karol.

Em  “Ahora Me Llama” a colombiana se apresenta como uma espécie de versão feminina do trap star porto riquenho.

“Agora me chama/Diz que eu faço falta na sua cama/Mas para mim já não dá, já não dá/Agora eu só quero sair com meu próprio squad/Afinal a vida é minha/E quero curtir ela sem a sua companhia/Agora eu quero viver minha vida/Afinal a vida é minha/Saí com o coração partido e agora já não espero nada/A não ser os melhores drinks e a roupa trazida de Dubai”.

Mais para frente, no melhor estilo “soy peor”, ela afirma: “Se antes eu era má/Agora chegou a nova versão, ainda mais má/Continuo fazendo fama/Depois decido que gostinho quero levar pra minha cama/Porque viver de amor/Isso não me faz falta/Sou dona da minha vida e em mim ninguém manda”. Já Bunny faz uma aparição breve para dizer que “para ele melhor assim como solteiro/Eu curto, bebo, fumo, faço tudo o que eu quero”. No YouTube, o vídeo da canção já tem 150 milhões de views em 2 meses.

Já Becky G. é uma criação do polêmico produtor americano Dr. Luke. Apesar de ter sido lançado na época que ele emplacava hits fáceis, Becky — nascida e criada em Los Angeles — demorou muito até obter um mid sized hit com a música “Shower”. Apesar do gostinho do sucesso, a cantora não obteve grande fama mesmo com contratos publicitários gigantes (ela é garota propaganda da CoverGirl junto com Katy Perry, Ellen e Sofia Vergara) e filmes de Hollywood (ela é a Power Ranger amarela na adaptação cinematográfica da franquia).

Depois que sua carreira teen pop não decolou, Becky mudou para o pop em espanhol mas seguiu penando. Até que se juntou com Bunny numa canção cheia de duplo sentido e, voila, sucesso na América Latina e na Espanha e 60 milhões de visualizações em poucas  semanas no YouTube.

Enquanto Karol optou pelo viés “bad bitch”, Becky preferiu os trocadilhos sexuais. Em “Mayores”, ela canta: “Eu gosto mesmo dos maiores/Os que são chamados de senhores/Que seguram a porta e me dão flores/Eu gosto daqueles que são grandes/Que não cabem na boca/Os beijos que vão me dar/Que me deixam louca”. O porto-riquenho aparece para questiona-la: “Quer um mais velho, está segura?/Te dou mil aventuras/E duro o que ele não dura”.

Para os latino-americanos que ficaram chocados com “4 Babys”, talvez seja o momento de parar de ouvir a rádio.

Causando em 2017: agora é que são elas!

Depois de alguns anos de prosperidade, a era das divas pop parece ter chegado ao fim, pelo menos temporariamente. “Witness” de Katy Perry — o grande lançamento feminino do primeiro semestre — foi oficialmente um fracasso e, durante meses, somente homens foram capazes de emplacar hits com Ed Sheeran e Justin Bieber emplacando um hit atrás do outro; lançamentos solos de absolutamente todos os ex integrantes do One Direction e desempenhos bastante respeitáveis obtidos por nomes como Charlie Puth e Shawn Medes. Isso sem falar no sucesso espetacular de rappers como Drake e Kendrick Lamar.

Os CDs de nomes como Lorde, Halsey e Lana del Rey obtiveram resultados decentes porém não espetaculares e a falta de estrelas de primeiro escalão (Beyoncé, Taylor Swift, Rihanna) e a ausência de revelações ou grandes hits pop colocaram as mulheres num lamentável e injusto papel secundário.

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Sza

Outro fator que colaborou com a erosão de nomes femininos da lista dos mais vendidos foi a a urbanização do Hot 100. O streaming — hoje responsável por mais de 50% do consumo de música nos EUA — colocou o rap e o hip-hop no center stage. No Spotify, o maior serviço, metade das músicas dentre as 50 mais ouvidas da última semana — incluindo 80% do top 10 — pertencia ao gênero urban.  No Apple Music, que também tem enorme força no mercado americano, o número é ainda mais chocante — 80% das canções mais populares eram de rap, hip-hop e R&B. Todos esses gêneros são majoritariamente dominados por artistas masculinos então isso ajudou a deixar a situação ainda mais desigual nos charts.

Dito isso, existem sinais de que as mulheres estão recuperando força e, apesar do apetite do público para cantoras de pop tradicional estar baixo, revelações tem surgido dentro do gênero favorito da juventude americana, o hip-hop.

O primeiro nome é SZA (lê-se Sizá). Descoberta em 2011 pela Top Dawg Entertainment, a agência de Kendrick Lamar, a cantora de 26 anos foi apresentada ao grande público quando apareceu na faixa de abertura do último CD de Rihanna, “ANTI”, lançado no começo do ano passado. Ela também lançou três EPs antes de finalmente colocar no mercado seu grande debut, o álbum Ctrl.

Lançado na mesma semana de “Witness” de Katy Perry, o álbum e não tem tido nenhuma dificuldade em superar as vendas do quarto disco da estrela do pop nos EUA. Sucesso de crítica e público, o lead single do CD, “Love Galore”, está no top 10 do Apple Music e escalando a passos largos o Spotify, onde já está no top 25, sendo um contender forte para entrar dentre as 10 músicas mais populares dos EUA na parada da Billboard nas próximas semanas.

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Cardi B

O outro grande nome é a rapper Cardi B. Nascida e criada no Bronx, de origem dominicana, B. é uma ex-stripper que virou um enorme sucesso no Instagram com sua irreverência e ganhou ainda mais fama ao virar parte do elenco do popular reality show do VH1, “Love & Hip-Hop New York”. Apesar de ter muitos seguidores, poucos acreditavam que ela tinha chances de emplacar uma credbile music carreer.

Mas ela está se provando plenamente capaz. Sua música, “Bodak Yellow”, já excedeu todas as expectativas, alcançando o segundo lugar no Apple Music; sendo a segunda canção mais popular no YouTube dos EUA (atrás apenas de “Despacito”) e começando sua escalada no Spotify, onde penetrou o top 50 na segunda-feira. No Hot 100, a música subiu 21 posições em uma semana, alcançando a posição #29 e se tornando oficialmente um top 40 hit. Isso parece ser só o começo da jornada de sucesso da latina.

A estréia meteórica de Cardi B é impressionante porque dá para contar nas mãos a quantidade de rappers mulheres que obtiveram sucesso. Além disso, é o melhor debut desde Nicki Minaj, faz 7 anos. Diferente de Nicki, porém, Cardi não faz parte da Young Money — a trupe do gigantesco rapper Lil Wayne — nem foi apresentada ao público em um summer smash com a participação de todos os nomes do grupo, como Drake. Ao invés disso, a música de Cardi é totalmente solo — sem nenhum featured rapper — e a única participação de algum outro nome forte do gênero é através do instrumental — ela canta em cima de uma batida de uma música do hypado rapper da Florida, Kodak Black (daí o nome da canção, “Bodak Yellow”).

Cardi B e SZA estão leading the way para mulheres na música e provando que não é preciso ser loira e com hits pop para fazer barulho. Na verdade, em um momento em que o público está sedento por mudança, oferecer mais do mesmo — como Perry fez com “Witness” — pode inclusive ser um impeditivo.