Causando no Brasil: a trajetória da dominação sertaneja

Na parte anterior, tivemos uma visão geral de como o sertanejo se estabeleceu como o maior gênero do Brasil. Nesse post, vamos fazer uma uma linha do tempo do sertanejo moderno onde entenderemos melhor os passos da dominação.

2007: a volta dos que não foram

Depois do protagonismo no começo dos 90, o boom sertanejo deu uma aquietada e, apesar da enorme popularidade, tinha se tornado um estilo secundário.

Mas, ao longo da primeira década dos 2000, ele estava ganhando nova roupagem — sendo rebatizado de “sertanejo universitário” — e conquistando terreno na capital de São Paulo e outras regiões importantes do país. O maior fenômeno do estilo no século 21 era, ate então, Bruno & Marrone mas outras duplas, como Edson & Hudson e Cesar Menotti & Fabiano, também estavam obtendo ótimos resultados.

Os olhos da indústria, porém, estavam em outros filões. Pagode (Exaltasamba e Sorriso Maroto), música nordestina (como Asa de Águia, Ivete Sangalo, Aviões do Forró e Babado Novo) e brega (Calypso) eram os estilos brasileiros mais em voga, além de fenômenos pré-adolescentes multimídia como RBD e High School Musical. O rock (de bandas que iam de Los Hermanos a Jota Quest, passando por Charlie Brown Jr.) seguia forte e passava por um revival graças ao sucesso de bandas teen como NX Zero, Strike e Fresno. A rádio e os canais de clipe, por sua vez, só tinham olhos para Beyoncé, Akon, Black Eyed Peas e pop internacional.

“Amigo Apaixonado”: um dos hits que ajudou a transformar Victor & Leo nos maiores nomes da indústria fonográfica brasileira

Mas isso estava prestes a mudar: a dupla Victor & Leo se firmava como um fenômeno impossível de ignorar graças ao sucesso de músicas como “Fada” e “Amigo Apaixonado”. Em junho, eles lançam o seu segundo CD com a Sony BMG, Ao Vivo em Uberlândia, que iria consolidá-los como os maiores nomes do Brasil.

O ano de 2007 também foi a grande estréia nacional da dupla que iria ser um divisor de águas na história do sertanejo, Jorge & Mateus. Pela Universal, eles lançaram seu grande debut, Ao Vivo em Goiânia.

Jorge & Mateus já chega fazendo barulho com “Ao Vivo em Goiânia”

Os desenvolvimentos de 2007, porém, nem de longe indicavam a proporção que o fenômeno sertanejo iria tomar.

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Causando no Brasil: como o sertanejo voltou a dominar o país

Ao longo dos últimos anos, o Tá Causando cobriu principalmente a cultura pop internacional. Nas próximas semanas, vamos virar a lente para o Brasil e fazer uma análise do que realmente bomba no país, musicalmente falando. Hoje começamos com o gênero que é, indiscutivelmente, o rei da indústria fonográfica atual: o sertanejo.

Mapa musical da parada brasileira: o sertanejo

O estilo sertanejo foi criado no começo do século 20, quando os bandeirantes paulistas colonizaram o interior do país e a “cultura caipira” começou a se estabelecer.

Amigos: Leandro & Leonardo; Chitãozinho & Xororó e Zezé DiCamargo & Luciano desataram o fenômeno sertanejo

Mas, apesar da música rural ter se espalhado por todo o Brasil nos anos seguintes, o gênero só ganhou força colossal — e começou a ser levado a sério pela indústria — no fim da década de 1980 e no começo da década de 1990. Naquele então, nomes como Chitãozinho & Xororó, Zezé Di Camargo & Luciano e Leandro & Leonardo alcançaram um nível de sucesso quase nunca antes visto na história da música brasileira.

O gênero romântico, com voz gemida e refrões chicletes, explodiu envolto em preconceito mas os números de venda e repercussão popular eram tão gigantescos que foi impossível de ignorar. Em meados dos ’90, as principais duplas se juntaram e criaram um projeto conjunto, o “Amigos”, que virou um especial de fim de ano na Rede Globo, a maior emissora do país, e, em 1999, um programa semanal, conhecido como “Amigos & Amigos”.

Apesar da exposição na Globo, o sertanejo deu uma estagnada a partir do fim dos 90. Tanto que, na virada dos anos 2000, o sertanejo perdeu o espaço fixo nas telas da emissora. Parte disso foi porque a elite cultural — principalmente a do Rio de Janeiro, berço da MPB — nunca abraçou de fato o gênero.

Além disso, a força dos “Amigos” era tanta que monopolizou o mercado e limitou investimentos em novos nomes, algo agravado pelo fato de que ritmos como axé e pagode eram, naquele então, as novidades que prendiam a atenção do público jovem.

Mas, longe do olhar dos formadores de opinião, o sertanejo seguiu se consolidando como o estilo favorito do brasileiro. Na Zona Sul e no Centro do Rio ele permanecia banido mas aquela região era a exceção. Apesar da importância simbólica, essa área era só um fragmento muito microscópico de um país gigantesco.

Dormi na Praça: o maior sucesso sertanejo da primeira década dos 2000

E, no resto do Brasil, a música caipira, que aos poucos ia se modernizando, se firmava cada vez mais como a trilha sonora tanto do trabalhador rural do interior quanto do jovem de elite em São Paulo, frequentador da popular e influente boate Villa Country. Ela foi se infiltrando tanto nas tradicionais festas juninas do Nordeste quanto na vida universitária do Sul.

Mesmo assim, as grandes gravadoras não davam muita bola para o sertanejo. Artistas da primeira leva — Zezé Di Camargo & Luciano, Leonardo, Daniel — seguiam sendo os principais nomes e Bruno & Marrone, que tinham explodido no país inteiro com “Dormi na Praça” na virada dos 2000, eram um dos poucos que conseguiram se firmar em todas as regiões do país desde então.

O novo sertanejo e a dominação iminente

Porém, em 2007, quando Cesar Menotti & Fabiano, uma dupla novata, teve o terceiro CD mais vendido do Brasil , estava claro que havia uma vontade grande por novos nomes. E, no ano seguinte, esse vontade deu origem a um fenômeno que escancarou as portas para o momento imperial do sertanejo.

A dupla em questão, Victor & Leo, teve o álbum Ao Vivo em Uberlândia como o maior do Brasil em 2008. Eles foram os primeiros grandes nomes do novo sertanejo, que tinha clara influência do sertanejo do começo da década anterior mas adotava uma sonoridade mais pop e mais voltada aos ouvidos do século 21. As músicas deles — como “Fada”, “Amigo Apaixonado”, “Tem Que Ser Você” e “Borboletas” — eram as mais pedidas nas rádios de todas as regiões do país e eles foram as atrações estrela em ambientes onde sertanejo era raramente visto, como o festival de rock Planeta Atlântida no Rio Grande do Sul e o Festival de Verão de Salvador.

Fada, um dos sucessos que consolidou Victor & Leo como os maiores nomes do país

O Rio de Janeiro, como de costume, ficou relativamente indiferente em relação aos novos monstros do mercado fonográfico mas, apesar de ter sede na cidade, a Rede Globo já começou a abrir os olhos. Em um momento de crise de audiência, a emissora recorreu ao sertanejo para tentar fortalecer os laços com o Brasil profundo e colocou diversas músicas do estilo na trilha sonora de sua novela das 9, “A Favorita”, ambientada em São Paulo.

Diferente das décadas passadas, onde as principais duplas reinavam por anos e anos a fio, o momento de ápice de Victor & Leo foi relativamente curto e não demorou muito para eles começarem a perder espaço para outros nomes. Mas foi a repercussão alcançada por eles que sacudiu o mercado e alertou para a invasão sertaneja que estava prestes a acontecer.

O nome seguinte a abalar todas as estruturas foi Luan Santana. Com um lançamento independente, o adolescente tinha obtido sucesso no Mato Grosso do Sul, seu estado natal, e no Paraná e tinha chamado atenção de Sorocaba, um artista e produtor influente do gênero. Sob a tutela dele, Luan gravou um CD que deu origem ao enorme hit “Meteoro” que, rapidamente, se alastrou pelo Brasil.

Luan Santana Ao Vivo: o álbum que desatou o fenômeno

Prontamente, a Som Livre, o braço musical da Globo, assinou contrato com o menino. Em novembro de 2009, um CD ao vivo, gravado na frente de 80 mil pessoas em Campo Grande, foi o primeiro lançamento dele com a gravadora. Impulsionado pela promoção intensa nas telas da emissora carioca, que o colocou até mesmo na novela teen “Malhação”, Luan se transformou no maior vendedor de 2010.

O fenômeno Luan Santana foi interessante porque foi o primeiro voltado especificamente para o público juvenil. Apesar do enorme sucesso do gênero no ambiente universitário e na noite jovem de cidades como São Paulo e Belo Horizonte, ainda havia uma percepção (falsa) entre as gravadoras de que o público mais novo tinha resistência ao estilo. O sucesso de Luan provou, de uma vez por todas, o quão intra-geracional o sertanejo era.

Mas enquanto Victor & Leo escancaravam a porta e Luan Santana virava uma sensação midiática, uma dupla até então bem mais low profile iria mudar para sempre o rumo do sertanejo: Jorge & Mateus.

A dupla de Goiás teve seu primeiro CD lançado em 2007 e, mostrando a versatilidade do sertanejo moderno, um dos seus primeiros sucessos foi “Pode Chorar”, um cover de uma música do Aviões do Forró, banda sensação do Nordeste. Mas, apesar de começar bebendo da fonte da música nordestina, Jorge & Mateus iriam rapidamente se firmar como os maiores nomes do sertanejo, revitalizando o gênero no país inteiro e se sustentando no topo da lista dos maiores artistas do país por 10 anos ininterruptos.

A invasão Jorge & Mateus aconteceu sem que a grande mídia percebesse. De fato, eles de vez em nunca apareciam na TV e eu, morador da Zona Sul do Rio de Janeiro, nunca sequer tinha ouvido uma música deles na rádio. Mesmo assim, eles prontamente se tornaram os maiores nomes da música brasileira, comandando o cachê mais alto para shows e sendo capazes de atrair públicos massivos em toda as regiões do país.

“Flor”: um dos sucessos do DVD de Jorge & Mateus gravado em Jurerê, exclusivo litoral de Florianópolis.

O sucesso foi tanto que eles viraram atração essencial em absolutamente todos os grandes eventos ao vivo do Brasil: nas viradas de ano; no Planeta Atlântida no Sul do país; com um bloco próprio e enorme no carnaval de Salvador e também como atração estrela nos camarotes exclusivos de elite que envelopam o percurso Barra-Ondina; em todas as grandiosas festas juninas populares do Nordeste; nos rodeios do interior de São Paulo (eles foram os primeiros artistas a sustentar duas noites consecutivas lotadas no mais tradicional de todos, o Festival de Barretos) e, claro, nos principais espaços de show do Centro-Oeste, Minas e São Paulo capital. Seja em Jurerê, o litoral de Florianópolis considerado o mais elitizado do país, ou no Royal Albert Hall de Londres, show de Jorge & Mateus era sinônimo de muitos ingressos vendidos.

O sucesso da dupla — que começou na Universal Music em 2007, antes de fazer o pulo obrigatório para a poderosa Som Livre em 2012 — e a infinidade de hits que eles produziam ano após ano foi basicamente o que deu o fôlego para o sertanejo se firmar como o gênero número 1 do país e também o que realinhou todo o mercado.

Jorge & Mateus foram um fenômeno tão grande que redefiniram toda a indústria sertaneja

O estilo virou a prioridade de todas as gravadoras. As rádios do país foram totalmente tomadas pelo ritmo (exceto o Rio, que até hoje ainda não tem uma estação sertanejo). E Goiás — o estado de origem de Zezé DiCamargo & Luciano, Leandro & Leonardo e Bruno & Marrone — voltou a ser o epicentro do mundo da música. Afinal de contas, era em Goiânia que ficava a sede da AudioMix, o escritório de Jorge & Mateus que, impulsionado pelo sucesso deles, virou a maior agência de empresariamento artístico do país.

O triunfo da AudioMix fez com que os investidores do Centro-Oeste ficassem ouriçados. E, em 2014, mais uma dupla, Henrique & Juliano, despontou de maneira espetacular, transformando o escritório deles, WorkShow, em um rival de igual porte. Assim, Goiânia — uma cidade fora do eixo Rio-SP — tinha dois dos maiores escritórios artísticos do Brasil.

A chegada de Henrique & Juliano foi meteórica. Os irmãos do Tocantins gravaram um CD independente em 2011 e rapidamente foram contratados pela WorkShow, numa clara intenção de reproduzir o sucesso de Jorge & Mateus. Eles se mudaram para Goiás; foram colocados no estúdio com Pinochio, responsável por grande parte dos sucessos dos ‘oponentes’ e, em 2012, já assinaram com a Som Livre. O primeiro DVD deles, Ao Vivo em Palmas, fez sucesso mas o segundo, uma produção milionária gravada em Brasília, foi o que os consolidou como artistas do momento.

Henrique & Juliano: fenômenos que elevaram o mercado sertanejo a um novo patamar

O plano do escritório funcionou perfeitamente. Em menos de três anos, Henrique & Juliano se tornaram os únicos nomes do sertanejo capazes de competir de igual para igual com Jorge & Mateus, lançando uma sequência absurda de hits monstros e atraindo multidões pelo país, apesar de, assim como seus antecessores, também seguirem uma cartilha pouco midiática e com pouca exposição televisiva. Absolutamente todas as músicas de trabalho deles — “Cuida Bem Dela”, “Recaídas”, “Até Você Voltar”, “Como É Que A Gente Fica”, “Na Hora da Raiva”, “Mudando de Assunto”, “Vidinha de Balada” — viraram clássicos instantâneos e eles elevaram a WorkShow ao mesmo patamar que a AudioMix.

Uma mulher no topo

Quando parecia que o sertanejo não tinha mais como crescer, uma evolução do gênero o levou a patamares ainda mais elevados: o feminejo.

A explosão do feminejo aconteceu em 2016 mas, na realidade, as sementes começaram a ser plantadas em 2011, quando Paula Fernandes virou o maior nome da indústria musical brasileira. Era a primeira vez, desde Roberta Miranda nos anos 80, que uma mulher alcançava o topo do mercado sertanejo, um gênero quase que totalmente masculino.

Paula Fernandes obteve números de venda que não eram visto desde os tempos pré-pirataria na década de 1990

O sucesso inicial da cantora tem muitos traços em comum com o percurso de Victor & Leo. A explosão dela veio pouco depois do momento de ápice da dupla; o seu maior hit (“Não Precisa”) tinha a participação deles; Victor era um amigo próximo e frequente colaborador e todos eles eram do interior de Minas Gerais. Mas, mais do que isso, tanto Victor & Leo quanto Paula Fernandes foram fenômenos que, naquele então, abalaram todas as estruturas mas que, em retrospecto, duraram pouco e serviram apenas como uma prévia de coisas muito maiores que estavam por vir.

Em 2011, porém, parecia que nada seria capaz de superar a cantora. Ela era, de longe, a artista que mais vendida no país e seus dois CDs — Paula Fernandes Ao Vivo e Pássaros de Fogo — estavam alcançados milhões de unidades comercializadas, números que não eram vistos desde o fim da década de 1990 quando a indústria fonográfica ainda não tinha sido devastada pela pirataria.

Com seu rosto de boneca e seu jeito encantador de garota do interior, Paula foi apresentada ao grande público no especial de Natal de Roberto Carlos de 2010 e, depois de ser apadrinhada pelo Rei, estava em todas as partes: nos principais programas de TV; na trilha sonora da novela das 9; nas rádios; tocando on repeat nas Lojas Americanas. Sua voz dócil, longe das afetações do sertanejo, atraía até mesmo aqueles que não eram fãs do gênero. Em 6 meses, seu CD ao vivo tinha superado 1 milhão de cópias comercializadas.

Mas, assim como o amor por Paula Fernandes foi súbito, a perda de interesse também parece ter acontecido do dia para noite. Quando ela lançou seu segundo DVD ao vivo, gravado na HSBC Arena do Rio, tinham se passado menos de três anos desde que ela tinha sido coroada como a artista mais vendida do país. Mas o Brasil já parecia ter a superado e, prontamente, ela parou de dominar as rádios. Assim, a única mulher do sertanejo perdeu seu lugar no topo.

Em seu álbum, Paula Fernandes colaborou com nomes consagrados da música sertaneja, indo de Leonardo a Almir Sater.

Um dos grandes pecados de Paula foi que ela não teve a destreza necessária para transitar pelo mercado sertanejo. Um meio concorrido e competitivo, é necessário suar muito para ficar no topo. Para começar, tem que ter uma relação boa com todo mundo: com os contratantes; com os patrocinadores; com os empresários poderosos; com os outros artistas do gênero, com os quais espera-se que você colabore com certa frequência e, claro, com os compositores e produtores que vão te fornecer seus hits.

É uma lista longa de pessoas e a cantora, conhecida por seu gênio forte e que enfrentava uma depressão pesada, conseguiu — supostamente — desagradar ela toda. Além disso, em meados de 2012, Paula rompeu com o escritório que, até então, cuidava de sua carreira, Talismã, do cantor Leonardo.

Mas, mais do que isso, ela não soube se reinventar. O seu estilo permaneceu estático e ela não acompanhou as tendências sertanejas, fazendo com que suas músicas ficassem repetitivas.

“Amo Noite & Dia”, um dos incontáveis sucessos de Jorge & Mateus.

É um contraste, por exemplo, com Jorge & Mateus. Para permanecer mais de 10 anos no topo, a dupla soube perfeitamente se adaptar aos tempos: depois de começar com um sertanejo mais forrozeiro e de interior (“Querendo Te Amar”, “De Tanto Te Querer”, “Vou Fazer Pirraça”), eles migraram para um estilo ainda mais romântico e pop, com letras um pouco mais rebuscadas (“Amo Noite e Dia”, “Duas Metades”, “Ai Já Era”) e, nos últimos tempos, deram uma “desofisticada”, apostando em refrões chicletes com conceitos mais lúdicos (“Sosseguei”, “Contrato”, “Propaganda”, “Medida Certa”).

O boom feminejo

Essa tendência recente de conceitos lúdicos, alias, foi o motor para a explosão do feminejo.

O momento de Paula no topo foi breve mas serviu para mostrar que, sim, o público não teria nenhum problema em consumir sertanejo feito por mulheres. Nada mais lógico, afinal de contas, a grande maioria desse público é formado por mulheres. Mas, uma vez comprovado o óbvio, os empresários sertanejos começaram a procurar nomes para explorar esse filão. E quando vozes femininas foram combinadas com letras irreverentes, o Brasil se rendeu.

A explosão de hits feminejos aconteceu em uma sucessão impressionante ao longo de 2016 e, com as mulheres no comando, o sertanejo chegou a espaços onde o gênero — considerado até então heteronormativo e conservador — nunca tinha chegado antes, como rádios pop e festas LGBTs.

10%: o primeiro sucesso viral do feminejo

Maiara & Maraísa foram as que escancaram a porta do sub-gênero com “10%”. Na canção, elas estão na fossa e imploram para que um garçom pare de colocar músicas de amor no bar para se aproveitar do sofrimento delas. “Garçom troca o DVD/Que essa moda me faz sofrer/E o coração não guenta/Desse jeito você me desmonta/Cada dose cai na conta e os 10% aumenta!”, elas cantam de maneira dramática no refrão pegajoso que fez com que a música virasse um clássico instantâneo.

As irmãs gêmeas emendaram um hit monstro em outro (“Medo Bobo”, sobre finalmente se render aos encantos de um amigo próximo: “E na hora que eu te beijei/Foi melhor do que eu imaginei/Se eu soubesse tinha feito antes/No fundo sempre fomos bons amantes”) e ainda apareceram como convidadas em mais uma canção essencial para a coroação das mulheres no sertanejo: “50 Reais”.

“Medo Bobo”: mais um fenômeno de Maiara & Maraísa

Com uma letra tão dramática quanto divertida, “50 Reais” de Naiara Azevedo conta a história de uma mulher que pega seu marido no flagra a traindo e, antes de ir embora, deixa um dinheiro para a amante, insinuando que ela é uma garota de programa. “Não sei se dou na cara dela ou bato em você/Mas eu não vim atrapalhar sua noite de prazer/E pra ajudar pagar a dama que lhe satisfaz/Toma aqui uns 50 reais”.

Além de Maiara & Maraísa, outro casal de irmãs foi revelado nesse momento lúdico e girl power: Simone & Simaria. Depois de começar como backing vocals do forrozeiro Frank Aguiar, com quem trabalharam por quase uma década, as baianas partiram para carreira solo em 2012. Depois de anos na estrada, elas começaram a colher frutos do sucesso, adaptaram seu som, chamaram a atenção de empresários de Goiânia, assinaram com a AudioMix e, em 2016, foram alçadas a fama nacional com a explosão do feminejo.

“50 Reais”: a divertida música de Naiara Azevedo que virou febre no país

Apesar de que, num primeiro momento, os sucessos solos delas (“Meu Violão e o Nosso Cachorro”, “Quando Mel é Bom”) não alcançaram um nível tão alto quanto as de M&M (algo que seria feito mais tarde com “Regime Fechado”), elas viraram estrelas de primeiro escalão graças as suas personalidades cativantes.

Simone & Simaria trazem a irreverência nordestina para o feminejo

Morenas de corpos voluptuosos (uma espécie de versão agro das Kardashians), elas tinham uma história de vida que incluiu uma infância triste na pobreza extrema, vozes potentes e personalidades abrasivas, com senso de humor apurado e grande predileção por uma cerveja. Esse combo fez com que as nordestinas virassem queridinhas da mídia.

Mas enquanto Simone & Simaria e Maiara & Maraísa dominavam a atenção, um fenômeno feminejo de proporções nunca antes vistas estava discretamente tomando conta do pedaço: Marília Mendonça.

A rainha da sofrência

Marília Mendonça: fenômeno de massa que trouxe a vida real para o topo das paradas

Um prodígio do sertanejo, Marília Mendonça começou a carreira ainda adolescente, trabalhando como compositora de vários sucessos. Os maiores deles, “Cuida Bem Dela” e “Até Você Voltar”, foram feitos para Henrique & Juliano.

Com o apoio da dupla, ela assinou um contrato com a poderosa WorkShow para se lançar como cantora solo. Em um primeiro momento, Henrique & Juliano serviram como seus padrinhos artísticos, incluindo uma canção com ela em seu terceiro DVD, Novas Histórias, gravado no Recife. A música em questão, “Flor e o Beija-Flor”, foi um sucesso considerável e ajudou a impulsionar seu primeiro single solo, “Infiel”.

“Flor & o Beija-Flor” apresentou Marília Mendonça ao público

Por ser um pouco mais séria, a impressão foi que a música “Infiel” não viralizou como “50 Reais” e “10%”. Mas não passou de impressão: na realidade, o vídeo da canção se tornou, na época, um dos mais vistos da história do YouTube brasileiro (assim como “Flor e o Beija-Flor”).

Desde então, o sucesso de Marília Mendonça tomou uma dimensão que excedeu qualquer expectativa: ela se tornou indiscutivelmente o maior nome da indústria fonográfica brasileira, capaz de transformar qualquer música em um hit. Ela também é o nome mais requisitado para shows no país todo, superando até mesmo seus colegas de agência, Henrique & Juliano, e também Jorge & Mateus, os Midas do sertanejo.

“Infiel”, primeiro hit de Marília Mendonça

O que a WorkShow fez com Marília foi o que o escritório, assim como a AudioMix, se especializou em fazer. Eles investem em artistas que, num primeiro momento, surfam na onda de sucessos meteóricos mas que, a longo prazo, tem carreiras infinitamente mais duradouras que estes.

Apesar de terem sido eles que abriram as portas para o novo sertanejo, o tempo de Victor & Leo como os maiores do Brasil, por exemplo, durou menos de 5 anos. Quem ficou conhecido como os reis do novo sertanejo no final das contas não foram eles mas sim Jorge & Mateus, que permanecem no topo faz 10 anos.

Marília, por sua vez, também bebeu um pouco da fonte da sua predecessora, Paula Fernandes. Além de cantoras e compositoras que dão uma perspectiva feminina ao sertanejo, ambas tem timbres que se assemelham mais ao de uma cantora de MPB tradicional e que, portanto, tem um alcance ainda maior do que o sertanejo tradicional.

Mas, apesar das semelhanças serem cruciais, as diferenças são o que fizeram de Marília Mendonça um sucesso duradouro. Enquanto Paula tinha uma imagem de garota do campo, uma beleza delicada e músicas sobre amores etéreos e natureza, as músicas de Marília falam sobre sofrimento, fossa, beber demais, fazer besteira. Ela não parecia uma estrela feita sob medida para o consumo: seu biotipo e styling eram totalmente fora dos padrões e muito mais próximos a típica mulher brasileira.

As músicas dela falam sobre o amor sem grandes idealizações. Muito pelo contrário: sua visão sem filtro sobre a paixão é uma das chaves do seu sucesso. Seu primeiro hit solo, “Infiel”, é sobre um homem que a trai mas em várias das suas maiores canções — “Amante Não Tem Lar”, “Traição Não Tem Perdão”, “Ciumeira”, “Bem Pior Que Eu” — é ela que é a outra.

“Eu Sei de Cor”: a música que consolidou Marília no primeiro escalão do sertanejo

Em seus sucessos, Marília cobre absolutamente todos os estágios possíveis da fossa: sofrer por se apaixonar pela pessoa errada; ser traída; trair; ser a outra; beber demais e fazer o que não deveria; amar e não ser correspondido; sofrer pelo término; beber para esquecer a dor; ser abandonada e, claro, conseguir juntar as forças para superar.

O apetite do público parece ser insaciável: ela tem músicas novas todos os meses e tudo o que lança é um hit. No YouTube, que ainda é a plataforma de consumo musical mais utilizada no país, absolutamente nenhum brasileiro consegue chegar perto dos números obtidos por Marília e ela é, de longe, a mais ouvida em todas as regiões do país, incluindo o Rio de Janeiro.

O estilo da sertaneja transcendeu o selo de “feminejo” e é hoje conhecido como sofrência. Estar no fundo do poço por causa de um coração partido sempre foi um tema popular na música brasileira, e no sertanejo em particular, mas ninguém tinha conseguido explorar esse filão com tanta maestria — e com resultados tão extraodinários — quanto Marília, a Rainha da Sofrência.

O topo

A ascensão de Marília Mendonça ao topo é a prova de que sertanejo segue sendo, de longe, o estilo mais popular do Brasil. De Victor & Leo e Paula Fernandes a Jorge & Mateus e Henrique & Juliano a Marília Mendonça, já faz mais de 10 anos que o gênero fornece o mercado brasileiro com suas estrelas mais rentáveis. E, a julgar pelo apetite do público, o reinado do estilo está bem longe de acabar.

Mas uma coisa é certa: a concorrência está cada vez mais acirrada. Depois de anos relegados a um papel secundário, o pagode, o funk e o pop estão todos lutando por um espaço no pódio. Para se manter no topo, o rimo terá que continuar se reinventando, mesmo tendo alcançado um patamar onde ele parece não ter mais para onde crescer. A lição que foi aprendida na última década, porém, é nunca subestimar o gênero.

Na parte 2Uma análise detalhada dos principais acontecimentos do mercado na última década, rastreando o trajeto que fez com que Goiânia deixasse de ser apenas a capital do sertanejo para se solidificar como a capital do entretenimento brasileiro.