Causando no cinema: o ano da música na telona

Nem atores famosos, nem histórias engajantes, nem críticas boas. Em tempos atuais, uma das únicas maneiras de se obter um gigantesco sucesso de bilheteria no cinema é ser parte de uma franquia mundialmente conhecida. Mas 2018 foi o ano que alguns poucos filmes conseguiram furar esse bloqueio. O segredo? Música.

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O primeiro grande fenômeno foi “The Greatest Showman” (no Brasil, “O Rei do Show”). Tecnicamente um lançamento de 2017 (ele teve sua estréia oficial no dia 20 de dezembro), o longa metragem tinha como grande estrela Hugh Jackman e contava também com Zac Efron, Zendaya, Michelle Williams e Rebecca Fergunson em seu elenco. O público alvo era abrangente: qualquer um interessado em entretenimento family friendly.

O musical era livremente inspirado na história de P.T. Barnum, o criador do primeiro grande circo dos EUA, o Barnum & Bailey Circus. Apesar de uma promoção forte e um elenco com nomes conhecidos, não havia nenhum motivo para suspeitar que o musical iria ser um sucesso excepcional. Ele foi uma produção relativamente cara (U$85 milhões de dólares, sem contar com marketing) e muitos achavam que o valor investido não era justificado e que o filme ia penar para recuperar os gastos (para isso, estima-se que é preciso lucrar três vezes o custo original).

Mas “The Greatest Showman” surpreendeu a todos, captando a imaginação do público de uma maneira que ninguém esperava e se consagrando como um fenômeno.

Arrisco dizer que, desde “High School Musical”, nenhum musical — nem o record breaking “Mamma Mia”, de 2008, nem o super premiado “La La Land”, de 2016 — chegou perto de se tornar um fenômeno de massa da proporção do filme de estréia do diretor australiano Michael Gracey.

“The Greatest Showman” não foi nenhum queridinho dos críticos. De acordo com o agregador de reviews Rotten Tomatoes, o musical teve aprovação profissional de 53%, um resultado bom mas longe de ser excepcional. Ele tampouco foi um fenômeno espetacular logo de cara: estreou em quarto lugar nas bilheterias estado-unidenses e em terceiro no Reino Unido, obtendo números iniciais mornos. Porém, algo muito raro aconteceu: na segunda semana, os números cresceram. O público amou e, aos poucos, o boca-a-boca o elevou a um nível de sucesso impar.

Depois de lucrar 8 milhões de dólares no seu fim de semana de estréia nos EUA, um resultado mediocre, o filme se consolidou como uma das opções mais populares por meses à fio. No fim de sua trajetória, “The Greatest Showman” tinha alcançado 175 milhões de dólares arrecadados só no seu país de origem e tinha se tornado um dos filmes com bilheteria mais estável na história.

A trilha sonora encerrou 2018 como o único álbum a conseguir ultrapassar 1 milhão de cópias em vendas puras nos EUA (1.49 milhões para ser exato). Com números de streaming acrescentados, “The Greatest Showman” alcançou o equivalente a 2.5 milhões de cópias, sendo o terceiro maior CD do ano no país (atrás apenas de Drake e Post Malone). Cinco músicas do filme obtiveram certificação de Platina, enquanto outras duas alcançaram Ouro.

Mas o sucesso ficou longe de ficar limitado apenas aos EUA. Muito pelo contrário, internacionalmente a recepção foi ainda mais calorosa. Dos 435 milhões de dólares arrecadados, 261 milhões foram em mercados estrangeiros. Os três países onde “The Greatest Showman” conseguiu superar os EUA em sucesso proporcional foram o Reino Unido, a Austrália e o Japão. Em todos esses mercados, o musical figurou dentre as 5 maiores bilheterias do ano.

O Reino Unido foi o lugar que abraçou o filme mais entusiasticamente. No país, a trilha sonora ficou nada menos do que 11 semanas no topo das paradas dos mais vendidos (e ainda está no topo, de modo que poderá estender sua lideranças por várias semanas mais) e encerrou 2018 como o maior CD do ano, com 1.6 milhão de unidades vendidas (uma distância de quase 1 milhão de cópias em relação ao álbum #2, Staying at Tamara’s de George Ezra). A música “This Is Me”, cantada por Keala Settle, foi o quarto maior single do ano no país.

A trilha de “The Greatest Showman” também foi o álbum mais vendido de 2018 na Austrália e o álbum internacional mais vendido no Japão. Além disso, durante a temporada natalina, um novo CD, com artistas como P!nk, Kesha, Panic! at the Disco e Kelly Clarkson reinterpretando as músicas do filme, também foi bem recebido.

O sucesso do filme serviu de trampolim para consolidar a estrela do longa, o ator Hugh Jackman, como uma sensação capaz de lotar estádios. Ao longo de 2019, Jackman irá explorar sua faceta como showman e irá front o espetáculo Hugh Jackman: The Show que já tem 64 shows agendados nas maiores arenas da Europa, Reino Unido, EUA, Austrália e Oceânia. A agenda inclui 6 noites na gigantesca The O2 em Londres, 6 noites na Manchester Arena e três noites no Madison Square Garden em Nova Iorque.

“The Greatest Showman”: U$ 435 milhões
– Álbum mais vendido de 2018, com 5.4 milhões de cópias equivalentes.
– Único álbum a ultrapassar 1 milhão de unidades puras (sem streaming) nos EUA em 2018.
– Único álbum a ultrapassar 1 milhão de unidades no Reino Unido em 2018.
– #18 maior filme do ano nos EUA
– #4 maior filme do ano no Reino Unido
– #5 maior filme do ano na Austrália
– #6 maior filme do ano no Japão
– O CD spin-off “The Greatest Showman: Reimagined”, lançado em novembro de 2018, estreou no top 5 do Reino Unido (onde foi certificado Platina), Austrália e EUA.
– Impulsionado pelo sucesso do show, “Hugh Jackman: The Show” rodará América do Norte, Europa e Oceânia com 64 shows. No total, estima-se que 1 milhão de pessoas irão prestigiar a turnê.

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“The Greatest Showman” deu o ponta-pé inicial mas, depois dele, muitos outros sucessos musicais vieram. Em julho, “Mamma Mia: Here We Go Again” foi outro grande hit.

Diferente de Showman, o sucesso de “Mamma Mia 2” era mais do que assegurado. O filme narrava as aventuras de uma divertida mãe solteira, interpretada por Meryl Streep, e de sua filha adulta (Amanda Seyfried) nas paradisíacas praias da Grécia e tinha como ponto alto o fato de ser integralmente embalado por músicas do icônico grupo sueco Abba

Depois de arrasar nos palcos da Broadway e do West-End londrino, a adaptação cinematográfica, lançada em 2008, se tornou um dos musicais mais bem-sucedidos de todos os tempos. Por tanto, as expectativas para a continuação eram altíssimas.

“Here We Go Again” não conseguiu alcançar o sucesso histórico do antecessor. Enquanto o primeiro lucrou 605 milhões de dólares, o segundo ficou na casa dos 400 milhões. Mas, com uma produção que custou $75 milhões de dólares, foi, mesmo assim, um sucesso espetacular. A trilha sonora alcançou o topo das paradas no Reino Unido (onde alcançou Disco de Platina por 300 mil cópias vendidas) e na Austrália e chegou ao #3 nos EUA.

Um dos grandes chamarizes de “Mamma Mia 2” era Cher, que se juntava ao elenco estrelado encabeçado por Strip, Seyfried, Colin Firth e Pierce Brosnan. Surfando na onda do filme, a cantora lendária aproveitou para lançar um CD de covers da banda sueca, entitulado “Dancing Queen”.

Foi mais um exemplo de uma bem sucedida sinergia entre Hollywood e o mercado fonográfico. O álbum de Cher estreou em #3 nos EUA, com 153k cópias na primeira semana, a melhor estréia dela no país. No Reino Unido e na Austrália, o disco debutou em #2, dando a veterana artista seu maior pico nas paradas de CDs locais desde 1992 e 1989 respectivamente. Ela ainda embarcou na turnê solo Here We Go Again, com 67 apresentações em arenas da Austrália, Nova Zelândia, EUA, Reino Unido e Europa.

“Mamma Mia: Here We Go Again”: U$ 395 milhões
– 1.5 milhão de unidades vendidas da trilha sonora globalmente
– #4 CD mais vendido do ano no Reino Unido.
– #1 maior filme do ano na Suécia, Noruega e Finlândia.
– #2 maior filme do ano no Reino Unido.
– #11 maior filme do ano na Alemanha, #12 na Austrália.
– #26 maior filme do ano nos EUA
– Serviu de mote para o lançamento do álbum de covers da Cher, “Dancing Queen”, seu maior lançamento em décadas. A turnê do álbum, Here We Go Again, terá 63 datas na Oceânia, Reino Unido, Europa e América do Norte, com um total de 550 mil ingressos disponíveis.

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No dia 5 de outubro, “A Star Is Born” (Nasce Uma Estrela), que se tornaria um dos filmes mais comentados de 2018, teve sua estréia nos EUA. Apesar de não ser tecnicamente um musical, é óbvio que música é um componente essencial na narrativa do filme.

O terceiro remake de um longa de 1937, a produção foi anunciada pela primeira vez em 2011. Naquele então, Beyoncé iria estrelar junto a Leonardo DiCaprio sob a direção de Clint Eastwood.

Depois de anos sem andar para frente, perdendo as suas estrelas e diretor no processo, a produção finalmente engrenou em março de 2016, quando Bradley Cooper anunciou que iria protagonizar e dirigir o longa. Lady Gaga se juntou como co-protagonista em agosto daquele mesmo ano.

Diferente de “Showman”, muito do burburinho inicial de “A Star Is Born” foi relacionado a ótima recepção que o filme teve por parte dos críticos. O longa chegou a 90% de aprovação no Rotten Tomatoes. A direção de Cooper e a atuação dele e de Gaga foram exaltadas por praticamente todo mundo que viu o longa em festivais que precederem sua estréia oficial. Com todo o buzz positivo, “A Star is Born” teve uma estréia fantástica nos EUA, lucrando mais de 40 milhões de dólares no seu final de semana inicial.

De todos os filmes mencionados, “A Star Is Born” foi, de longe, o mais barato de se produzir (custando $30 milhões de dólares). Além disso, foi o único que foi promovido como um filme para um público mais maduro. Nos EUA, ele teve classificação etária R, proibido para menores de 17 desacompanhados (todos os demais tiveram classificação PG ou PG-13).

Nada disso serviu como obstaculo para seu estrondoso sucesso. Impulsionado pela ótima recepção crítica e pelo boca-a-boca, o filme lucrou $425.5 milhões de dólares globalmente. Como coroação final, ele foi indicado a 8 Oscares, incluindo Melhor Ator (Cooper), Melhor Atriz (Gaga), Melhor Filme e Melhor Música (“Shallow”). Ele levou o último.

“A Star Is Born”, que trata da história de amor entre um cantor country alcoólatra e uma popstar em ascensão, foi um verdadeiro divisor de água tanto na carreira de Cooper, em sua estréia como diretor, como na de Gaga, em sua estréia como atriz de cinema.

Apesar de ser um household name que ainda atrai bastante interesse, Lady Gaga estava em um momento difícil d. Depois de uma estréia meteórica em 2008, que rapidamente a consolidou como o maior fenômeno do mundo, ela começou a desinflar a partir do lançamento do seu segundo CD e estava encontrado dificuldades de encontrar seu nicho.

Depois do (relativo) fracasso do seu terceiro álbum, ela se reinventou como uma cantora de jazz e voltou ao pop em 2016, com Joanne. O CD ajudou ela a se estabilizar — ela fez uma turnê bem sucedida e headlined o Super Bowl e também o Coachella (substituindo Beyoncé, que adiou a participação por causa da gravidez). Mesmo assim, ela estava longe de obter resultados espetaculares e de se adaptar as mudanças da indústria com a chegada do streaming.

Mas “A Star Is Born” a elevou para outro patamar e colocou seu nome de volta no topo do A-list. Apesar de várias estrelas pop terem se aventurado no mundo cinematográfico nas últimas duas décadas, absolutamente nenhuma delas chegou perto do aclame alcançado por Gaga, que já emplacou uma indicação ao Oscar com seu primeiro grande papel.

A trilha sonora do filme também foi um gigantesco sucesso, sendo o terceiro álbum mais vendido de 2018 na Austrália e sétimo no Reino Unido. A música “Shallow” alcançou o #1 no Reino Unido, na Suécia e na Austrália (o primeiro chart-topper dela em ambos os países em quase 7 anos), além de ter alcançado #4 na França e #10 na Alemanha.

Levando em conta apenas unidades puras, a trilha sonora de “A Star Is Born” foi o segundo álbum mais vendido do ano nos EUA, com 700 mil cópias. Porém, mostrando a vulnerabilidade de Gaga na era streaming, o CD não figurou no top 10 uma vez que os números das plataformas digitais foram contabilizados.

Mas o sucesso do filme é tanto que até essa barreira da cantora ele está conseguindo furar. Logo depois da exibição do Oscar, e impulsionado por memes e pela repercussão da performance dos protagonistas durante a premiação, “Shallow” alcançou a #6 posição no Spotify dos EUA. Anteriormente, o melhor resultado de Gaga na plataforma tinha sido quando “A Million Reasons” atingiu a posição #25 logo depois de sua apresentação no Super Bowl de 2016. No ranking global, a canção chegou a posição #2.

A performance de “Shallow” no Academy Awards deu o que falar e gerou muitos memes.

Com o empurrãozinho do streaming — combinado com espetaculares vendas digitais e bom desempenho na rádio — “Shallow” alcançou o topo do Billboard Hot 100 dessa semana. É a primeira vez que Gaga atinge a posição desde que “Born this Way” estreou em primeiro nos EUA em fevereiro de 2011.

Também graças a repercussão dos Oscars, a trilha sonora voltou para o topo das paradas de vendas de álbuns, onde o filme será relançado com 12 minutos extras. Ou seja, “A Star Is Born” ainda tem fôlego e, mais do que um filme bem-sucedido, ele marca o renascimento de Gaga como uma das maiores estrelas da atualidade.

“A Star Is Born”: U$ 425.3 milhões
– 2.5 milhões de unidades vendidas da trilha sonora globalmente.
– #13 maior filme do ano nos EUA.
– #11 maior filme do ano no Reino Unido.
– #8 maior filme do ano na Austrália.
– #2 CD mais vendido de 2018 nos EUA em pure sales
– #3 álbum mais vendido de 2018 na Austrália. #7 mais vendido no UK.
– “Shallow” foi o primeiro #1 de Lady Gaga nos EUA em 8 anos (e o primeiro de Bradley Cooper).
– “Shallow” também foi o maior hit global dela desde fevereiro de 2011.
– A música atingiu #1 no Reino Unido e Austrália, #3 no Canadá, #4 na França e #10 na Alemanha. Na parada global do Spotify, atingiu a posição #2, a melhor já obtida por uma música de trilha sonora e o melhor resultado obtido por Gaga na era de streaming.
– 8 indicações ao Oscar, incluindo vitória de Melhor Canção Original.

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“Bohemian Rhapsody” chegou algumas semanas depois do bem sucedido filme de Gaga e Bradley Cooper.

Assim como “Mamma Mia”, “Bohemian Rhapsody” se beneficiava do fato de ter como trilha sonora as músicas de uma das bandas mais amadas de todos os tempos, Queen. Diferente do filme estrelado por Meryl Streep, que tinha uma história original, “Bohemian” era um filme biográfico centrado no amado frontman da banda, Freddie Mercury. Além disso, assim como “A Star Is Born”, ele não era tecnicamente um musical (para isso, os personagens tem que começar a cantar espontaneamente e do nada) mas sim um filme com música (onde as canções estão inseridas em situações realistas).

O longa teve um caminho tortuoso até seu lançamento. Ele foi originalmente anunciado em 2010, com Sascha Baron Cohen no papel principal. Depois de três anos de desenvolvimento, Baron deixou o projeto por causa de diferenças criativas. Foram mais três anos tentando levantar o filme do chão até que, no fim de 2016, Rami Malek foi escolhido para o papel de Mercury e a produção voltou a andar.

Além da dificuldade para achar um protagonista, “Bohemian Rhapsody” ainda enfrentou outra gigantesca dor de cabeça: seu diretor. Bryan Singer, responsável por dezenas de filmes bem-sucedidos, foi afastado da produção quando o filme já estava quase concluído, em dezembro de 2017, pelo seu comportamento altamente tempestuoso. Além disso, a Fox, a distribuidora do filme, ainda estava preocupada com as dezenas de alegações de abuso sexual e assédio que o rondavam. No final das contas, apesar dele ter sido o de facto diretor, o nome dele foi apagado de quase todo o material promocional.

Apesar do tumulto, tudo foi perdoado quando “Bohemian Rhapsody” estreou e se provou, logo de cara, um gigantesco fenômeno de bilheteria. De maneira geral, as críticas foram bem mornas mas a atuação de Rami Malek foi universalmente elogiada. E, apesar de não empolgar tanto os profissionais, o aclame popular foi tanto que o filme foi um dos mais premiados durante a award season e recebeu 4 indicações ao Oscar, incluindo Melhor Filme. Malek acabou levando a estatueta de Melhor Ator para casa. Seguindo a cartilha promocional, o diretor Bryan Singer não foi mencionado por ninguém durante as cerimônias.

De todos os filmes de música de 2018, “Bohemian Rhapsody” foi o fenômeno mais universal. “The Greatest Showman” foi gigantesco porém seu sucesso fora de série ficou limitado a alguns mercados chaves importantes. Já “A Star Is Born” teve repercussão universal graças a música “Shallow” e os protagonistas mas os números de bilheterias foram espetaculares somente nos EUA e em outros mercados anglo-saxões. “Mamma Mia: Here We Go Again” foi particularmente grande na Europa Continental. O filme do Queen, por sua vez, foi enorme em todos os continentes, da América do Sul a Ásia.

O climax do filme é a recriação da legendária performance da banda no Live Aid de 1985 no Estádio de Wembley

Apesar do Greatest Hits do Queen ser um dos discos mais vendidos de todos os tempos (e o mais vendido da história no Reino Unido), a trilha sonora do filme, composta basicamente por canções já lançadas, também foi um sucesso.

“Bohemian Rhapsody” prova que, mesmo tendo se passado 27 anos desde sua morte, o poder de Freddie Mercury em comover multidões segue inigualável.

“Bohemian Rhapsody”: U$ 870 milhões de dólares
– #6 maior filme de 2018 no mundo.
– #10 maior filme de 2018 nos EUA.
– #1 filme do ano no Japão, na Espanha e na Itália. #2 filme do ano na Austrália. #3 filme do ano na Alemanha e na Coréia do Sul. #4 filme do ano no Reino Unido. #5 filme do ano na França.
– Com o sucesso do filme, várias músicas do Queen entraram no top 50 de streaming global. A trilha sonora vendeu mais de 1 milhão de unidades globalmente, apesar de dezenas de greatest hits do Queen já estarem disponíveis (e o primeiro deles ser um dos álbuns mais vendidos da história).
– Os integrantes vivos do Queen, junto com Adam Lambert como vocalista, anunciaram a Rhapsody Tour para 2019. Até o momento, só as datas dos EUA e no Canadá foram confirmadas: serão 25 shows, para mais de 300 mil pessoas. Datas adicionais na Europa, na Austrália, na Ásia e na América Latina devem ser anunciadas em breve.

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A questão é: 2018 foi um ano impar para filmes de música ou a consolidação de um gênero que seguirá rendendo bons frutos em 2019?

É uma pergunta bem difícil de se responder mas será muito difícil reproduzir os fenômenos do ano passado. Mesmo assim, os grandes estúdios terão várias apostas musicais.

Os maiores lançamento de todos serão, sem duvida nenhuma, “Frozen 2” (previsto para 27 de novembro) e “O Rei Leão” (19 de julho), ambos propriedades bilionárias da Disney e franquias bem sucedidas. “Let It Go”, a música do primeiro Frozen, foi um fenômeno sem igual e o desafio da segunda parte é conseguir emplacar um hit que se aproxime disso. Já a adaptação de computação gráfica de “O Rei Leão” terá as músicas já amadas do original animado, compostas por Elton John, e trás as estrelas musicais Donald Glover (a.k.a. Childish Gambino) e Beyoncé nos papéis principais.

E falando em Elton John, a grande aposta de filme biográfico de 2019 é “Rocket Man”, que conta a história do lendário artista britânico. Taron Egerton interpretará o músico sob a direção Dexter Fletcher, que substituiu Singer na direção de “Bohemian Rhapsody”. Será que um filme embalado pelos clássicos de Elton John conseguirá comover tanto o público quanto os filmes do Queen e do Abba? A estréia está prevista para 31 de maio e o longa faz parte da despedida de Elton, que estará se aposentando depois da conclusão da sua turnê Farewell Yellow Brick Road, prevista para durar de 2019 até 2021.

Outra aposta é o projeto dos premiados diretores Danny Boyle (Trainspotting, Slumdong Millionaire) e Richard Curtis (Love, Actually; Notting Hill), “Yesterday”. Estrelando o novato Himesh Patel, o filme conta a história de um músico que se dá conta que ele é a única pessoa do mundo que lembra dos Beatles. A produção ainda contará com uma participação especial de Ed Sheeran. O filme será lançado dia 13 de setembro.

Finalmente, o musical de Andrew Lloyd Weber, “Cats”, também será adaptado para as telonas em um filme com um elenco robusto que inclui, entre muitos outros, Taylor Swift, Idris Elba, Rebel Wilson, Dame Judi Dench, James Corden e Ian McKellen.

A sinergia entre Hollywood e a indústria fonográfica trouxe muito dinheiro no ano passado. Se depender da vontade dos executivos e das gravadoras, foi apenas o começo. Porém não depende: nesse caso, a vontade soberana é do público. Os próximos meses vão nos mostrar se a mescla de cinema com música voltara a cativa-los.

Causando no Japão: o sucesso histórico de Kimi no Na Wa/Your Name

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Essa semana, a animação Kimi no Na Wa, traduzida como Your Name para o mercado ocidental, completa 6 meses no top 5 das maiores bilheterias da semana do Japão. Desde sua estreia, em agosto de 2016, o filme segue movimentando número recorde de pessoas para as salas de cinema. Ainda com fôlego impressionante, já foram vendidos 18.35 milhões de bilhetes, deixando mais de 24 bilhões de ienes (U$230 milhões) no box office do país oriental. Um resultado histórico.

No Japão, um filme é considerado um blockbuster quando ele alcança a marca de 5 bilhões de ienes (cerca de U$40 milhões). Mas, em raras ocasiões, um longa pode virar um fenômeno social, atraindo pessoas de todas as idades e virando onipresente no panorama pop japonês. Quando isso acontece — como foi o caso de Frozen em 2014 ou Titanic em 1997 — o céu é o limite.

Até o momento, Kimi no Na Wa é o quarto filme com maior recorde de público e de arrecadação na Terra do Sol Nascente. A expectativa é que, até o final da sua trajetória, ele chegue pelo menos ao terceiro lugar. Os possíveis alvos a serem desbancados são a animação da Disney, Frozen (a segunda maior bilheteria da história); Titanic (que, por enquanto, o supera em arrecadação) e o filme de 1965, Tokyo Olimpiad (que o supera em número de ingressos vendidos). Ultrapassar A Viagem de Chihiro, o filme de 2004 do Studio Ghibli que é o único a ultrapassar 30 bilhões de ienes arrecadados no Japão, é uma meta bastante improvável porém não impossível.

Independentemente da sua performance no Japão, o desempenho espetacular do longa na China (mais de U$80mi) e na Coreia do Sul (U$30mi) já fez com que a obra de Makoto Shinkai se consolidasse como o longa japonês com maior arrecadação da história a nível global: U$ 320 milhões de dólares. E o número não para de crescer.

Kimi No Na Wa trata sobre dois adolescentes — uma garota num vilarejo no campo e um rapaz de Tóquio — que, misteriosamente, começam a trocar de corpo nas semanas que antecedem a passagem de um raro cometa pelo Japão. Essa singela história — com alguns elementos já bastante conhecidos — acabou se transformando num sucesso histórico. O que ajudou a fazer com que esse filme se destacasse de maneira tão contundente?

Contendo as expectativas

Em 2014, Hayao Miyazaki, o proprietário e principal criador do Studio Ghibli, anunciou sua aposentadoria. Considerado o maior mestre da animação japonesa — e uma força sem igual nas bilheterias do país — a notícia causou muito burburinho e, rapidamente, começaram as especulações acerca de quem seria capaz de preencher um pouco a lacuna gigantesca que seria deixada. O nome mais óbvio: Momoru Hosoda.

As animações de Hosoda — A Garota Que Conquistou O Tempo (2006) e Summer Wars (2009) — obtiveram bilheterias discretas mas alcançaram grande repercussão graças aos DVDs e subsequentes emissões na TV paving the way para seu filme de 2012, Wolf Children, se tornar um notável sucesso de bilheteria. Seu lançamento de 2015, O Rapaz e o Monstro, teve grande apoio de marketing e ultrapassou a marca de 5 bilhões de ienes arrecadados, algo raro para uma animação japonesa que não faz parte de uma propriedade já conhecida ou não tem assinatura Ghibli.

Mas, enquanto os olhos estavam em Hosoda, o wild card era, na verdade, Makoto Shinkai. Um premiadíssimo diretor e roteirista de animações, Shinkai obteve respaldo crítico e sucesso de nicho com seus filmes anteriores — como 5 Centimeters Per Second — mas, diferente do outro, nunca tinha chegado perto de um sucesso mainstream.

Esse fato fez com que muitos contivessem as expectativas em relação ao que era, sem duvida nenhuma, sua obra com maior apelo popular, Kimi no Na Wa. Em entrevista para o Hollywood Reporter, o produtor do filme, Genki Kawamura, afirmou que eles esperavam uma bilheteria bem modesta: “[o filme anterior de Shinkai] Garden of Words lucrou 150 milhões de ienes [o longa foi exibido apenas em 23 salas] então nós achávamos que, na melhor das hipóteses, lucraríamos 10 vezes isso”.

Na minha opinião, a frase de Kawamura contém muito da modéstia que é considerado etiqueta básica no Japão e, quase sempre, carrega uma pitada de insinceridade. Enquanto não tenho duvidas de que ninguém esperava que o filme fosse se tornar a maior bilheteria da história do cinema japonês, a verdade é que o marketing polpudo que o filme recebeu indicava que a Toho — a gigantesca distribuidora da animação — esperava mais do que 1.5 bilhão de ienes na bilheteria.

Para começar, assim como os filmes de Miyazaki e de Hosoda, Kimi No Na Wa teve a emissora NTV — uma das quatro principais redes privadas do país — como parceira de promoção, enchendo sua programação de reportagens acerca do filme que destacavam a animação excepcional, o premiado diretor e demais aspectos que poderiam atrair o público.

Além disso, numa promotional partneship bem significativa, a água mineral mais vendida do país — Suntory Tennensui — colocou os protagonistas do longa em seus anúncios televisivos a serem exibidos ao longo do verão. Os personagens também estamparam uma campanha imprensa da JR East — a maior empresa rodoviária do Japão — que promovia o turismo em Tóquio.

Até a popular banda Radwimps — que ficou responsável pela trilha sonora da animação — se jogou de cabeça na promoção. Com 13 anos de atividade e diversos discos de Platina, o grupo sempre evitou aparecer na TV mas, para promover a trilha sonora, aceitaram fazer uma primeira aparição no icônico Music Station, o mais importante programa musical da TV japonesa. Eles cantaram Zen Zen Zense.

Era impossível prever a proporção que o filme alcançaria mas estava claro que a Toho tinha confiança de que tinham algo especial em mãos.

As chaves do sucesso

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No Japão — mais ainda do que na maior parte dos outros mercados — o boca a boca é enormemente importante para fazer com que um filme bombe. Nem o marketing mais exaustivamente onipresente é capaz de transformar um longa em grande sucesso se ele realmente não despertar o interesse do público.

Sendo assim, apesar da campanha muito bem efetuada de Kimi No Na Wa, o verdadeiro motivo do seu sucesso foi que ele struck a chord com a sociedade japonesa de uma maneira que pouquíssimos filmes são capazes de fazer.

As chaves para o sucesso sem precedentes são muitas mas começam, claro, pelo fato de que o Japão é um mercado bastante receptivo para animações. Os filmes do Studio Ghibli, por exemplo, não tem como foco principal crianças e sim pessoas de todas as idades. Muitos filmes da Disney — como Frozen, por exemplo — devem a sua popularidade não apenas ao público infantil mas também a mulheres de diferentes gerações que lotaram as salas de cinema por meses.

Enquanto muitas das propriedades animadas do Japão — como Pokemon e Yokai Watch — são focadas em crianças pequenas, muitas das franquias mais lucrativas — como Detetive Conan, Evangelion e One Piece — são direcionadas a jovens e adultos.

Sendo assim, Kimi No Na Wa nunca foi rotulado como “filme de criança” só pelo fato dele ser animado. Muito pelo contrário: seu apelo foi, de imediato, intergeracional, atraindo famílias, adolescentes e adultos.

Existem vários motivos que nos levam a entender o apelo imediato, a começar pela sua fantástica animação que recriou Tóquio em seus mais mínimos detalhes, além dos cenários lindos, típicos do interior do país. O filme homenageia a capital — com recriações idênticas de paisagens urbanas — mas também a vida provinciana, retratando costumes dos pequenos vilarejos locais.

Outro elemento foi a música: as canções do Radwimps — usadas extensivamente nos anúncios televisivos e nos trailers — caíram de imediato no gosto do público, ajudando a colocar o filme no imaginário popular.

Mas, acima de tudo,  a história — bastante melancólica, cheia de simbolismos e eventos que refletem bastante a realidade, os anseios e as tradições da sociedade japonesa — era certeira, tocando o coração do público nipônico de maneira que poucos longas-metragens são capazes de fazer.

Logo na primeira semana, em agosto, o filme já registrou uma bilheteria enorme, acima de qualquer expectativa. E seis meses depois, ele continua forte e já excedeu absolutamente todas as expectativas.

Tudo dominado

O sucesso de Kimi No Na Wa foi completamente multimídia: além de ser líder total de bilheteria no Japão, a música tema do filme, Zen Zen Zense, está próxima a alcançar 1 milhão de unidades vendidas, sendo o maior sucesso do ano. Outras 5 músicas da trilha já obtiveram certificação de platina. A trilha sonora completa, toda composta pelos RADWIMPS, passou semanas em primeiro lugar, com mais de 500k unidades comercializadas. O livro mais vendido de 2016? A novela do filme, escrito pelo próprio diretor e roteirista, que vendeu 1.2 milhão de cópias, mais do que o dobro do segundo colocado.

Sendo assim, a animação alcançou o topo das bilheterias, das paradas musicais e dos livros mais vendidos.

Os resultados obtidos foram tão espetaculares que Kimi No Na Wa foi apontado como o principal motivo para que 2016 fosse um ano histórico para o mercado cinematográfico japonês que bateu recorde de arrecadação (235.5 bilhões de ienes, cerca de U$2.25 bilhões) e teve a maior quantidade de ingressos vendidos desde 1974 (180 milhões).

O único percalço no caminho da animação foi que, provavelmente por ter uma distribuidora relativamente pequena nos EUA, ele não conseguiu uma indicação como Melhor Animação ao Oscar. Isso, claro, multiplicaria infinitamente sua projeção no Ocidente e também acrescentaria milhões a sua arrecadação no Japão.

Mas, apesar disso, o filme teve excelente resultado em suas early screenings na Europa e, claro, tem quebrado todos os recordes na Ásia. Também recebeu indicações recordes no Japan Academy Prize, que tem grande importância no mercado local. E, premiações aparte, o sucesso dele junto ao público é indiscutível e histórico.

Sucessor do Ghibli

Mas retornando ao tópico lá de cima sobre quem seria o sucessor de Hayao Miyazaki: a resposta é que, provavelmente, ninguém. Não só porque o papel histórico de Miyazaki é único mas também porque o próprio já parece ter voltado atrás.

Já é de conhecimento público que Hayao trabalha em uma nova animação que deve ser anunciada publicamente em breve. Não é a primeira vez que o mestre desiste da aposentadoria: nos anos 90, ele também se despediu, para voltar, em 1997, com o record breaking Princesa Mononoke.

A diferença é que, dessa vez, o criador do Studio Ghibli terá outro animador, Makoto Shinkai, capaz de atrair multidões tão significativas quanto ele, um fato, até então, inédito.

Nessa competição todo mundo deverá sair ganhando.

Causando na Argentina: um aterrorizante Clan domina as bilheterias do país

  • Na Argentina, o filme El Clan está batendo todos os recordes alcançados por Relatos Selvagens ao longo do ano passado. Enquanto o filme de Damian Szifrón — a maior bilheteria de um filme local na história do país, com mais de 3.4 milhões de ingressos vendidos — demorou 11 dias para superar a barreira de 1 milhão de espectadores, El Clan chegou a marca em apenas nove. A estréia do filme superou em mais de 10% o primeiro final de semana de Relatos Selvagens e levou 505 mil espectadores ao cinema (53% de todo o público naquele final de semana).
  • O filme de Pablo Trapero conta a história real do clan Puccio, um caso que fascinou e aterrorizou a Argentina em meados dos anos 80. Os Puccio pareciam uma típica família de classe alta do idílico e afluente bairro de San Isidro, na Grande Buenos Aires. Mas, por detrás da faixada de família perfeita, escondia-se um grupo de criminosos que, entre 1982 e 1985, sequestrou quatro pessoas e, apesar de ter recolhido os resgates, matou três das vítimas. A aterrorizante história é um dos casos policiais mais assustadoramente celebres do país vizinho e, trinta anos depois, segue gerando repercussão.
  • Guillermo Francella, que interpreta Arquimedes Puccio, patriarca da família e a mente por detrás dos crimes, foi vital para transformar El Clan num dos filmes mais esperados do ano. Francella é um dos maiores nomes na Argentina, um sucesso tanto na TV quanto no cinema. Apesar de ser mais fortemente associado a comédia, o ator tinha surpreendido com seus dotes dramáticos em El Secreto de tus Ojos, filme de 2009 que levou o Oscar de Melhor Filmes Estrangeiro e que, até ser superado por Relatos no ano passado, detinha o recorde de maior bilheteria de um filme local. Para El Clan, Francella passou por uma extrema transformação e, através de maquiagem pesada e próteses, sua fisionomia foi drasticamente alterada para transformá-lo num sósia do famoso sequestrador. O resultado foi tão assombrosamente perfeito que, meses antes da estréia, o longa já era assunto por todo o país e o trailer já tinha acumulado milhões de visualizações.
  • Além de Francella, o filme tem Peter Lanzani, um ex-teen idol e protagonista de novelas adolescentes, no papel de Alex Puccio, o filho mais velho que, além de sequestrador e assassino, era um exímio jogador de rugby (um esporte muito popular entre a classe alta portenha).
  • Assim como Relatos Selvagens, o longa foi co-produzido por Pedro Almodovar e pela Telefe, uma das maiores emissoras do país, o que garantiu uma promoção intensa (o canal também esteve por detrás de O Segredo de seus Olhos). A direção é de Pablo Traperos, que, apesar de bastante aclame (Carancho, seu filme de 2010, foi indicado ao Oscar de Filme Estrangeiro), nunca tinha dirigido um blockbuster. Seu último filme, Elefante Blanco, lançado em 2012 e estrelando Ricardo Darín, alcançou 800 mil ingressos vendidos, um resultado bastante digno para um filme local mas que El Clán superou em pouco mais de uma semana.

  • A Telefe, a emissora por detrás do filme, quer lucrar ao máximo com o revivido interesse na história. Por isso, além do filme, o canal também exibirá uma mini-série de 13 episódios, Historias de un Clán. A estréia está prevista para esse mês e o elenco conta com a prestigiosa atriz Cecilia Roth no papel da matriarca, Epifania, e El Chino Darin, filho de Ricardo, no papel de Alex, o filho mais velho. Arquimedes será interpretado por Alejandro Awada.
  • A mini-série, produzida pela Underground, uma das produtoras de confiança da Telefe, estréia com o objetivo de levantar a audiência da emissora que, no momento, está levando uma surra do Canal 13 que domina o horário nobre com o fenômeno turco Las Mil y una Noches.

O Ano De Ouro Da Universal (Parte 2)

Parte 1 aqui

Em seus 103 anos, a Universal Pictures nunca tinha tido um filme sequer que superou a casa do bilhão de dólares. Até o fim de 2015, o estúdio terá três. Além disso, em apenas 7 meses, a gigante de Hollywood quebrou o recorde histórico de maior arrecadação nas bilheterias, com mais de 5.55 bilhões de dólares em ingressos vendidos. Mas como o estúdio teve um ano tão espetacular? É essa a pergunta que tentaremos responder ao longo de 2 posts.

Na Parte 1, analisamos os grandes sucessos (e os poucos fracassos) do estúdio ao longo do primeiro semestre e, na parte final, veremos os acertos dos últimos dois meses e também o que a Universal tem preparado para os quatro meses finais de 2015.

Julho: A Revolução Será Amarela

Bilheteria até o momento: U$ 969.836.943

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Em 2010, a Universal estreou no lucrativo mercado da animação 3D com Despicable Me. O filme lucrou 543 milhões de dólares, um resultado extremamente satisfatório. Em 2013, a continuação do filme alcançou 970 milhões e virou a quarta maior bilheteria de animação da história (e o único não-Disney no top 5). Apesar de serem meros coadjuvantes, os Minions — os engraçados mascotes amarelos — foram a verdadeira sensação do filme.

O carisma deles significou bilhões de dólares para a Universal, que os transformou numa verdadeira mina de ouro em licenciamento. Tudo que envolvia os personagens vendia como água e tudo e todos queriam se associar a eles. Obviamente, a evolução natural das coisas era dar aos Minions o estrelato que eles mereciam. E foi isso que aconteceu em julho de 2015, quando Minions — estrelando Kevin, Stuart e Bob — se tornou o maior lançamento animado da história. E, ao que tudo indica, o filme se transformará no terceiro billion-dollar juggernaut do estúdio esse ano (que, até 2015, vale lembrar, não tinha nenhum).

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Os Minions invadem outdoors mundo afora (na foto, Toronto, no Canadá)

Ao em vez de optar por uma estreia simultânea global, a Universal escolheu um lançamento sucessivo para Minions, de maneira a coincidir com as férias escolares em cada mercado. O filme começou sua trajetória no fim de junho na Austrália, na Malásia, na Indonésia e em Singapura. Na semana seguinte, a animação chegou em mais 9 países, incluindo o Brasil e o Reino Unido. Nas vésperas da estreia nos EUA, na segunda semana de julho, o filme já tinha ultrapassado 200 milhões de dólares na bilheteria global. Minions foi o lançamento mais lucrativo para um filme animado em 29 países, incluindo o Brasil. Nos EUA, a bilheteria de estreia — U$115.7 milhões — foi maior do que a de Toy Story 3. O filme tem sido um sucesso gigantesco até em mercados pouco receptivos, como Japão, um país onde nenhuma animação 3D internacional não-Disney obteve lucro considerável. Em apenas três semanas, o Japão já é o sexto maior mercado global para o filme, com arrecadação de mais de 26 milhões (nota do André: como vocês podem notar, o departamento de marketing da Universal no Japão é bem bom. E o fato de que existe um parque Universal Studios no país, na cidade de Osaka, que é um grande sucesso, também ajuda).

Até o momento, o filme já arrecadou 969.8 milhões de dólares. E sim, ele vai passar a casa do bilhão porque ele ainda tem um gigantesco trunfo: a China, onde o filme tem estreia prevista para setembro. O filme também ainda não estreou na Itália, outro mercado importante, e chegou na Coreia do Sul e no Japão faz apenas três semanas. Até o momento, os únicos dois filmes animados que ultrapassaram 1 bilhão de dólares arrecadados foram Frozen e Toy Story 3, ambos da Disney. Até agora, os maiores mercados dos Minions são os EUA (U$315mi); o Reino Unido (U$67.6mi); a Alemanha (U$55.9mi); o México (U$44mi); a França (U$39mi); o Brasil (U$37mi); a Argentina (U$35mi) e a Rússia (U$31mi).

Apesar das estrelas serem os Minions, os personagens humanos do filme foram dublados por astros reconhecidos. A grande antagonista, Scarlett Overkill, teve a voz de Sandra Bullock, uma das atrizes de Hollywood com o box office record mais impecável dos últimos anos. O marido da personagem, Herb, foi dublado por Jon Hamm enquanto Steve Carrel fez a voz de Gru. Grandes comediantes britânicos — Steve Coogan e Jennifer Saunders — também participaram do elenco.

Sandra Bullock se rendeu a febre dos Minions na pré-estreia do filme
Sandra Bullock se rendeu a febre dos Minions na pré-estreia do filme

Para as dublagens internacionais, a Universal tentou recrutar estrelas locais do mesmo porte. Marion Cotillard, por exemplo, deu voz a Scarlet na versão francesa do filme enquanto seu marido na vida real, Gillaume Canet, dublou Herb. O mesmo se repetiu no Brasil, com Adriana Esteves e Vladimir Brichita assumindo os personagens. Na América Latina, a estrela Thalia substituiu Bullock enquanto Ricky Martin fez a voz do personagem masculino. Para o papel de Gru, foram chamados humoristas locais famosos: Leandro Hassum no Brasil; Gad Elameh na França e o mexicano Andres Bustamente. Nomes consagrados também dublaram os personagens na Alemanha, na Itália e no Japão.

Minions foi o maior promotional push da história da Universal. Foram centenas de milhões de dólares investidos em outdoors em todas as principais cidades do mundo e os Minions ainda cobriram ônibus e trens em grandes metrópoles. Mas a Universal economizou bastante com dezenas de promotional partnerships. Dez empresas colocaram os personagens em seus anúncios de TV, incluindo a SKY BSB no Reino Unido; o Carrefour na França e o smartphone VIVO na China. Globalmente, os mascotes invadiram o McDonald’s, que ofereceu uma batata especial no formato dos personagens e brindes no McLanche Feliz; os cereais da General Mills e os da Nestlé; as bananas Chiquita; as balas Haribo; os chocolates Kinder Ovo e os pacotes da pastilha Tic-Tac. As encomendas da Amazon, a maior loja online do planeta, chegaram no mundo inteiro em caixas amarelas promovendo o filme. A Walmart, a loja física de varejo mais poderosa do mundo, também ajudou no marketing e ofereceu centenas de produtos exclusivos. Os Minions ganharam sua própria paleta PANTONE e apareceram nas balas Fruitsnackia e em todos os doces da CandyMania, nos sucos e iogurtes Mott’s e também nos iogurtes Go-Gurt; nos bolinhos Twinkies; nos papéis toalha Bounty; nos lenços de papel Puff’s e em mais outras centenas de promoções personalizadas mundo afora. Isso sem contar os milhares de produtos licenciados que incluem gravatas, aromatizadores de carro, canudos e ganchos de cortina de chuveiro (juro).

Nos EUA, a promoção televisiva incluiu um anuncio especial para o Superbowl (visto por mais de 114 milhões de pessoas); um takeover do programa matinal latino Despierta America e um comercial especial para a ESPN onde o Minion Bob aparecia ao lado dos astros do basquete Steph Curry e Klay Thompson.

… e, de um trainwreck, nasce uma estrela

Bilheteria até o momento: U$ 122.284.000

trainwreck

Como contei na coluna On My Radar, já faz um tempinho que sou fã de Amy Schumer. Ao longo do último ano, porém, pude ver ela ascender a outro patamar e se transformar numa celebridade enormemente reconhecida. Ela foi escolhida Women of the Year pela revista Glamour e apareceu na capa da revista e de outras publicações de enorme importância como GQ e Entertainment Weekly. Ela foi escolhida como uma das 100 Pessoas Mais Influentes do Mundo pela revista Time e apresentou o MTV Movie Awards. O seu programa de TV, Inside Amy Schumer chegou na terceira temporada batendo recordes de audiência e vários sketches — como a paródia de Friday Night Lights; o julgamento de Bill Cosby e Last Fuckable Day — tiveram enorme repercussão e foram muitíssimo elogiados.  O timing de tudo isso não poderia ter sido mais perfeito, leading up to the debut do seu primeiro grande filme, em julho. Trainwreck, o filme em questão, foi estrelado e escrito por ela e dirigido por Judd Apatow.

Apatow, o influente diretor — por de trás de comédias como O Virgem de 40 Anos e Knocked Up — e produtor — de filmes como Bridesmaids; Superbad e das comédias televisivas Girls e Freaks & Geeks — apostou forte em Schumer e em seu projeto, viabilizando a produção do longa. A pré-produção começou em janeiro de 2014 e as filmagens em maio. Bill Hader foi escolhido como o co-protagonista e Tilda Swinton, Vanessa Bayer e LeBron James foram casted em papéis chaves.

Em março, o filme foi muito bem recebido na sua estreia oficial no festival SXSW em Austin. Isso, aliado a toda a empolgação em torno de Schumer na mídia, fez com que o estúdio esperasse uma abertura boa, na casa dos 20 milhões. Seria um ótimo resultado para uma comédia adulta focada no público feminino, estrelando uma comediante ainda relativamente iniciante. Mas, apesar das expectativas já serem otimistas, o resultado final as excedeu bastante: 30 milhões de dólares.

Os números confirmaram mais um acerto da Universal e o opening catapultou Schumer direto para a A-list, com muitos apostando que ela poderá ser uma nova Melissa McCarthy, atualmente a estrela de comédia mais rentável dos EUA, que capitaneia anualmente filmes de enorme sucesso no mercado doméstico. O notável é que a estreia de Trainwreck superou a do último filme de Melissa, Spy. Uma pesquisa da Rentrak, encomendada pela Universal, revelou que 28% das pessoas que foram ver o filme em seu final de semana de estreia tinham como principal motivação o fato de serem fãs de Schumer, um número bastante alto.

O sucesso de Trainwreck comprova a enorme demanda por comédias adultas femininas, algo que ficou bastante claro para Hollywood depois do gigantesco sucesso de Bridesmaids, lançado em 2011 e também distribuído pela Universal. Porém, apesar do grande sucesso desses filmes nos EUA, os estúdios não costumam investir na distribuição e promoção deles internacionalmente. Especula-se que isso mudará com o reboot de Ghostbusters em 2016, que estrelará um elenco integralmente feminino (o filme da Sony reunirá muitos nomes envolvidos em Bridesmaids como Kristen Wigg, McCarthy e o diretor Paul Feig) mas, enquanto isso, o filme de Schumer ainda sofre de certa dificuldade para ser notado internacionalmente. Seu lucro total até o momento é de 122 milhões de dólares, dos quais 98mi foram nos EUA. O rendimento internacional deve aumentar nas próximas semanas, porém, já que o filme acaba de ser lançado na Europa — incluindo no Reino Unido, onde recebeu um fortíssimo marketing push — nesse final de semana. No Brasil, o longa, que se chamará Descompensada (eu particularmente adorei a tradução), chega no fim de setembro.

Agosto: Fuck the police

Bilheteria do final de semana de estreia: US$ 60.200.000

compton

Na primeira semana de agosto, faltando cinco meses para o fim do ano, foi anunciado que a Universal tinha alcançado o faturamento recorde de 5.54 bilhões de dólares. Já dava para pendurar as chuteiras e entrar de férias. Mas não, ainda havia hits em potencial prontos para estrear. Em agosto, mais uma aposta da Universal — o filme Straight Outta Compton overperformed espetacularmente. Com um orçamento de 26 milhões de dólares, esperava-se que ele estreasse na casa dos 20 ou 30 milhões. Ele acabou arrecadando 60.2 milhões de dólares em seu primeiro final de semana nos EUA e no Canadá, superando os lucros de estreia tanto do último filme da Marvel quanto do último Missão Impossível.

Straight Outta Compton conta a história real do grupo de hip-hop N.W.A., um dos primeiros grupos de gangsta rap que, no final dos anos 80 e começo dos 90, vendeu milhões de cópias e revelou nomes como Dr. Dre e Ice Cube. A julgar pelo público no final de semana de estreia, o apelo do filme foi multigeracional: 51% do público tinha mais de 30 anos e 49%, menos. A divisão de sexo também foi bem democrática: 52%  foi feminino, 48% masculino. A maior parte dos espectadores eram negros — 46% — mas brancos — 26% — e hispânicos — 21% — também apoiaram a produção em massa. O mercado mais forte foi Los Angeles, o berço do grupo, mas o filme também overindexed em San Francisco; em cidades do sul como Atlanta, St. Louis e Baltimore e até na rica Palm Springs, na Florida. O filme ainda teve uma nota ‘A’ no Cinemascore, o que indica longevidade graças ao boca a boca.

O filme foi apoiada com uma efetiva e bem executada estratégia de marketing, a começar pela campanha viral StraightOuttaSomewhere.com. Na página, qualquer um pode fazer sua própria versão do logo do filme, substituindo Compton por sua cidade de origem (ou qualquer outra palavra). O stamp criado no site pode ser sobreposto em uma foto de sua escolha. O site foi um fenômeno, com mais de 6 milhões de imagens criadas. A campanha foi o assunto mais comentado no Facebook, Twitter e Instagram por dois dias consecutivas, dando origem a milhares de memes e seduzindo até celebridades, como J.Lo, Bette Midler e Demi Lovato, que também se renderam a brincadeira.  Na semana anterior ao lançamento do longa-metragem, Dr. Dre lançou Compton, seu primeiro CD em 14 anos. O álbum vendeu 295 mil unidades nos EUA e também estreou em primeiro lugar no Reino Unido, ajudando a criar ainda mais expectativas em relação ao longa.

Os headphones e equipamentos de som da Beats by Dr. Dre — responsáveis por deixar o rapper bilionário — são provavelmente os product placements mais onipresentes da indústria, fazendo aparição em basicamente todos os vídeo clipes e filmes lançados nos últimos anos. E já que os produtos estão presente em basicamente todo lugar, é natural que eles tivesse papel de destaque na promoção do filme sobre a história de seu criador. A empresa, junto com sua parent company, a Apple, teve papel chave na promoção do filme. O CD Compton estreou na integra na Beats1, a rádio de Dre no serviço de streaming recém-lançado Apple Music. O álbum foi disponibilizado exclusivamente no serviço e na loja virtual da companhia, iTunes. A Beats também estava por detrás do fenômeno viral StraightOuttaSomewhere.com. Já a Interscope, a gravadora do N.W.A. e de Dre, contratou um avião para escrever a palavra COMPTON no céu de Los Angeles e San Francisco e as fotos do stunt também viralizaram nas redes sociais.

Como é costume, spots — em 27 versões — invadiram a TV americana antecedendo a estreia do filme. Na semana de lançamento, os comerciais foram exibidos 975 vezes, principalmente na BET e em emissoras jovens como Comedy Central (incluindo no muitíssimo aguardado episódio final do Daily Show with Jon Stewart) e MTV. O logotipo do filme também estava presente no ringue da luta da UFC em que Ronda Roussey knockeou Bethe Correia em 36 segundos.  Sem duvida nenhuma, porém, o anuncio mais chamativo foi ao ar na FOX News, no dia 6 de agosto, durante o debate presidencial dos candidatos à presidência do partido conservador Republicano (que, com 24 milhões de espectadores, se consolidou como o programa mais visto da história da TV a cabo americana). O spot de 1 minuto foi ao ar imediatamente depois em que os candidatos passaram exatos 30 segundos discutindo o tema Race Issues (questões raciais).

Race issues é, obviamente, um tema que merece muito mais do que 30 segundos de discussão num debate presidencial. Nos últimos anos, a quantidade de jovens negros inocentes assassinados pela policia americana ganhou repercussão nacional e gerou riots históricos na cidade de Ferguson (em 2014) e em Baltimore (em 2015). O tema não só é extremamente relevante em 2015 como também era enormemente presente no fim dos anos 80/começo dos anos 90. Em 1992, o espancamento do motorista negro Rodney King e absolvição dos policiais envolvidos causou um distúrbio de 6 dias no sul de Los Angeles (onde Compton fica), deixando 52 mortos e um prejuízo de mais de 1 bilhão de dólares. O episódio, claro, faz parte de Straight Outta Compton e brutalidade policial sempre foi um tema presente nas canções do N.W.A. (cujo um dos maiores hits, vale lembrar, se chama Fuck the Police).

Compton invade o céu de Los Angeles
Compton invade o céu de Los Angeles

Com uma estreia espetacular e um ‘A’ no CinemaScore, Straight Outta Compton irá rapidamente cruzar a barreira dos 100 milhões e, nos EUA, o céu é o limite. O filme não terá nenhuma dificuldade de ultrapassar o último blockbuster do mundo do rap, 8 Mile. Em 2003, o longa do Eminem arrecadou 116.75 milhões domesticamente. É bem provável que o longa supere também os $150.6mi de Walk the Line, baseado na história de Johnny Cash, e se transforme no biopic de música mais bem-sucedido da história do país.

Internacionalmente a trajetória do filme provavelmente será mais complicada. Com um tema muito local, alguns mercados — Ásia e América Latina — não deveriam contribuir muito para o lucro final do filme. Em 2003, 8 Mile foi um gigantesco sucesso global — lucrando mais de 126 milhões fora dos EUA (e 242.9 mi no total, o music biopic com maior bilheteria da historia) — mas Eminem, naquele então, era um dos maiores astros do mundo. O sucesso do N.W.A. não só foi há quase três décadas como também foi muito especifico aos EUA. De qualquer maneira, o filme tem bastante potencial na Europa, principalmente no Reino Unido e na França, países onde o rap americano é bastante popular. A Austrália também pode ser outro mercado receptivo.

De qualquer maneira, com os resultados espetaculares obtidos em casa, qualquer ganho adicional mundo afora é um extra.

O que vem por ai…

Com recorde histórico de arrecadação depois de 7 meses, está mais que óbvio que o ano já está ganho para Universal. Mas ainda faltam 4 meses até 2016 e o estúdio ainda tem nove lançamentos até dezembro. Não há mais nenhum blockbuster bilionário no estilo Jurassic Park/Minions/Furiosos 7 previsto e, é verdade, a companhia apostou todas as suas fichas fortíssimas e garantida nos primeiros 7 meses do ano mas ainda há futuros lançamentos cujos sucessos são muito possíveis (e quem sabe algum outro que possa surpreender a la Compton?).

Um deles é Steve Jobs, sobre a vida do criador da Apple, com roteiro do premiadíssimo Aaron Sorkins e baseado no best-seller global de Walter Isaacson. O longa foi super disputado por todos os estúdios (prova disso são os e-mails vazados entre Amy Pascal, diretora da Sony, e o produtor, Scott Rudin) e existe a esperança de que ele repita as altíssimas arrecadações de A Rede Social (também escrito por Sorkins). Michael Fassbender estrela no papel título e a direção é do Oscarizado britânico Danny Boyle (Trainspotting; Slumdog Millionaire; 72 Hours).

Outra aposta segura é Sisters, uma comédia que reúne Tina Fey e Amy Poehler, dois dos nomes mais respeitados e queridos da comédia americana, sob a direção de Jason Moore (Pitch Perfect). A Universal confia tanto no projeto que estreará o filme no mesmo final de semana que a Disney lança o novo Guerra nas Estrelas, inquestionavelmente o filme mais esperado do ano.

O repertório da Universal também tem fracassos óbvios como Jem & the Holograms. O longa, previsto para 23 de outubro, é baseado numa franquia muito popular dos anos 80 e é o primeiro fruto da parceria entre a Universal e a fabricante de brinquedos Hasbro (que é dona de Transformers e G.I. Joe, propriedades que arrecadaram muito na Paramount). Apesar de Jem ter um enorme público em potencial — mulheres nostálgicas que cresceram nos anos 80 — a produção as menosprezou completamente e o filme parece ser apenas um filme pré-adolescente genérico, cheio de atores desconhecidos. Não é exatamente a receita para um smash hit mas o filme custou apenas 5 milhões para produzir, então a Universal não tem tanto para se preocupar assim.

E, falando em filmes baratos, o próximo lançamento da Universal é The Visit, filme de terror de M. Night Shaymalan, que veio com um precinho tão camarada quanto Jem (5mi) mas tem muito mais potencial para recuperar seu custos. O buzz inicial é positivo, já que o filme tem feito sucesso nas early screenings e a expectativa da indústria é que ele tenha ótimos resultados.

Os lançamentos restantes da Universal dependem de uma série de fatores como a recepção crítica e marketing. No fim de setembro, Everest é uma aposta ousada, sobre o avalanche que, em 1996, deixou 8 escaladores mortos. O filme é encabeçado por Jack Gylenhaal, Josh Brolin e Jason Clarke e custou 65 milhões de dólares. Keira Knightely, Robin Wright e Sam Worthington são alguns dos outros nomes no elenco.

Outubro é o mês mais saturado de lançamentos. Além de Jobs e Jem, a Universal ainda tem Crimson Peak, um grandioso filme de terror dirigido por Guillerme del Toro e, abrindo o mês, Legend, estrelando Tom Hardy como os gêmeos Kray que, nos anos 60, foram os gangsters mais notórios de Londres.

Em novembro, o único lançamento é By the Sea, que reúne Angelina Jolie e Brad Pitt na tela pela primeira vez em mais de uma década sob a direção da própria Angelina. Já em dezembro, além de Sisters, a Universal aposta em Kramus, um filme de terror/comédia protagonizado por Toni Colette e Adam Scott.

Independentemente dos resultados até o fim do ano, porém, a Universal já tem assegurado o melhor ano de sua história.

O Ano De Ouro Da Universal (Parte 1)

A Universal Pictures foi fundada faz 103 anos. Ao longo de mais de um século, nenhum filme da gigante de Hollywood chegou na casa do bilhão. Até esse ano. No primeiro semestre de 2015, dois filmes do estúdio — Jurassic World Furious 7 — ultrapassaram a barreira e um terceiro — Minions — está quase lá. Até a primeira semana de julho a Universal tinha arrecadado 5.55 bilhão de dólares nas bilheterias do mundo todo. Para se ter uma ideia, o recorde histórico anterior tinha sido 5.5 bilhões — alcançados pela FOX em 2014 — e a companhia levou 12 meses para alcança-lo. A Universal quebrou esse recorde em sete. E sem nenhum filme de super-herói. O número ainda vai crescer dado que o estúdio, sob direção de Donna Langley, ainda tem muito lançamentos para os próximos meses.

Mas como a Universal conseguiu um ano tão espetacular? O que esteve por detrás de um sucesso tão estrondoso? Vamos analisar.

Janeiro: Péssimo começo…

Bilheteria final: U$ 17.752.940

blogfilme
Chris Hemsworth, você pode correr mas você não conseguirá se esconder desse fracasso homérico

Quem vê o ótimo momento que o estúdio está passando nem consegue imaginar que o ano começou da pior maneira possível para a companhia. 2015 estava apenas em sua segunda semana e a Universal já tinha um fracasso épico em suas mãos, Blackhat. O thriller de ação dirigido por Michael Mann (Collateral; O Último dos Moicanos) e estrelado por Chris Hemsworth (Thor) teve um dos piores lançamentos da história, deixando apenas 4.4 milhões em bilheteria, apesar de estar em cartaz em mais de 2500 salas. O filme ficou muito longe de recuperar seu orçamento — gigantes 70 milhões de dólares — arrecadando apenas 7.9 milhões nos EUA e 9.85mi no resto do mundo, para uma soma de 17.75 mi. Apesar de várias estrelas chinesas em papéis de destaque, como Tang Wei e Wang Leehom, Blackhat nunca chegou na China, um mercado com potencial grande, e acabou dando enorme prejuízo.

No papel, Blackhat parecia ter muito a seu favor: um diretor capaz; um astro em ascensão; um enredo que falava de temas atuais como ISIS e ataques de hackers comandados pela Coreia do Norte (algo que de fato tinha acontecido com a Sony poucos meses antes). Na prática, porém, o filme foi um fiasco sem igual. Mas porque?

Para começar, a data de lançamento, num final de semana sobresaturado, não ajudou. O filme da Universal teve que disputar atenção com American Sniper, ainda bombando muitíssimo, e com a estreia de Taken 3, ambos com públicos similares. Além disso, a campanha de marketing foi pouco efetiva e o star power de Hemsworth decepcionou. A cartada final foi a insatisfação do público: os poucos que prestigiaram o final de semana de estreia deram nota ‘C’  ao filme no CinemaScore, indicando que ele não seria recomendado e, por tanto, não teria nenhuma longevidade.

… mas Jenny from the Block (meio que) saves the day

Bilheteria final: U$ 50.163.103

Por outro lado, o thriller sensual The Boy Next Door, estrelando Jennifer Lopez, teve um desempenho bastante razoável. Com um orçamento irrisório — 4 milhões de dólares — o filme abriu com 15 milhões e fechou sua trajetória com 35.5 milhões domesticamente e um total de 50.2 milhões, somado com a bilheteria internacional. Foi um resultado bastante respeitável, principalmente para um longa que custou basicamente nada. E ainda provou que Lopez mantém algum star power já que o marketing do longa — que teve como alvo mulheres de origem latina — foi integralmente centrado nela.

O sucesso relativo do filme de J.Lo não foi o suficiente para ofuscar o gigante prejuízo de Blackhat. Alias, ofuscar é até uma palavra forte porque como ofuscar um filme que ninguém nem notou que existia? Tudo relacionado ao longa foi um fiasco. Mas os executivos do estúdio devem ter respirado fundo e focado no fato de que ainda faltavam 11 meses até o fim do ano…

Fevereiro: 50 tons de ka-shing

Bilheteria final: U$ 569.651.467

Por sorte, não demorou muito para o estúdio emplacar seu primeiro enorme acerto na bilheteria, 50 Tons de Cinza. O filme, baseado no fenômeno editorial erótico, estava originalmente previsto para agosto de 2014 mas o estúdio resolveu adiar a estreia para 14 de fevereiro desse ano. A aposta era que o clima de romance — a data é Dia dos Namorados em quase todo o planeta — potencializasse os resultados do filme.

Parece ter dado certo. Em seu primeiro final de semana, o longa arrecadou 248.7 milhões de dólares, incluindo 81.7 mi nos EUA, a maior abertura já alcançada por um filme com classificação indicativa R (acesso restringido para menores de 18 desacompanhados dos pais). Com esse resultado espetacular, os executivos da Universal finalmente puderam respirar aliviados depois de percorrem um longuíssimo e árduo caminho até a estreia.

Tudo começou nos primeiros meses de 2012. Em 9 de março daquele ano, o New York Times publicou uma extensa matéria sobre o sucesso da trilogia de E.L. James. Naquele então, a série estava disponível exclusivamente como e-book. Com 250 mil unidades vendidas digitalmente, a editora americana Vintage Books tinha pago na casa dos 7 dígitos pelo direito da publicação impressa dos livros. A aquisição, somado ao sucesso viral da série entre mulheres urbanas país afora, chamou a atenção do periódico mais importante dos EUA, que usou o termo mommy porn para descrever o fenômeno.

A reportagem do New York Times foi o mote para que todos os principais estúdios de Hollywood dessem inicio a um frenético leilão pelos direitos de adaptação da obra. Ari Emmanuels, um dos agentes mais poderosos da indústria, estava tão desesperado para conseguir os direitos que ele aceitou uma reunião com James e sua agente apesar da data coincidir com o dia em que ele estava esperando um telefonema de ninguém menos que Barack Obama.

50 Shades: Qualquer dor é válida desde que venha acompanhada de lucro

Menos de três semanas depois, a frenética disputa tinha chegado ao fim, com a Universal emergindo vitoriosa. O estúdio pagou 5 milhões de dólares — um valor bastante alto — e, o mais chocante de tudo, aceitou uma cláusula que dava a E.L. James, a autora, o controle total dos filmes. Nem autores do porte de J.K. Rowling (Harry Potter); Stephanie Meyers (Crepúsculo); Suzanne Collins (Jogos Vorazes) ou John Green (A Culpa É Das Estrelas) têm poder de veto nas adaptações de suas obras. O máximo cedido pelos estúdios a esses grandes nomes é o direito de serem consultores da produção.

O enorme e até então inédito poder que foi concedido a James foi só um dos motivos pelo qual muitos da indústria expressaram duvidas em relação a viabilidade da adaptação. O tema do livro — altamente erótico, e gráfico — e o tom — melodramático e caricato — também poderiam apresentar sérias dificuldades. “Se não forem cuidadosos, o filme vai acabar parecendo um esquete do Saturday Night Live“, disse um produtor para o Hollywood Reporter.

A medida que as vendas da trilogia iam crescendo a níveis exorbitantes — as 250 mil unidades inicias viraram mais de 100 milhões de cópias, das quais 45 mi somente nos EUA — ficava óbvio para todos que o valor pago pelos direitos — 5 milhões — tinha sido uma verdadeira pechincha. Mas os problemas relacionados a como adaptar a série e o poder dado a James se provaram, como todo mundo já esperava, uma grande dor de cabeça para a Universal.

Roteiros foram escritos e reescritos. Kelly Marcel foi contratada, Patrick Marber reescreveu o roteiro, Mark Bomback o editou. Foram muitos e muitos rascunhos até que todo mundo — a autora, o estúdio, a diretora — estivesse satisfeitos. Alias, conseguir um diretor também não foi fácil: dezenas de nomes foram considerados — de Angelina Jolie a Steve Sordebergh a Patty Jenkins — até a britânica Sam Taylor-Johnson ser finalmente anunciada, em junho de 2013.

O casting também foi complicado. Depois de muitas idas e vindas, Dakota Johnson e Charlie Hunnam foram anunciados para os papéis de Anastasia Steele e Christian Grey em setembro de 2013. A escolha de Charlie não foi bem recebida por uma parcela dos fãs e, em outubro, foi anunciado que ele não participaria mais dos filmes. Mais caos. No final do mês, Jamie Dornan foi confirmado como o novo Christian.

Com diretora e elenco finalmente decididos, a produção começou — depois de ser adiada duas vezes — em dezembro. E, claro, não foi fácil conciliar a visão da diretora com a de E.L. James. O embate entre ambas foi fonte de constante dor de cabeça e, apesar de que a gravação tinha sido oficialmente encerrada em fevereiro de 2014, os dois atores principais foram recrutados para refilmagens em outubro, nunca um bom sinal.

Tanto caos fez com que muitos se preparassem para o pior. Dakota e James, os protagonistas, não pareciam se dar bem nas entrevistas e muitos duvidavam da química entre os dois. Boatos de que o estúdio tinha detestado o produto final circulavam pela internet. Muitos diziam que os três livros tinham sido combinados e transformado em apenas um filme, um alerta vermelho num mundo onde os estúdios fazem de tudo para espremer franquias até a última gota.

A medida que a estreia ia se aproximando, muito do que se alegava até então começava a parecer exagerado (os livros, por exemplo, não tinham sido combinados em um filme). E, quando as primeiras críticas saíram, começou a ficar claro que o longa não ia ser o desastre que muitos esperavam. Evidentemente, as críticas estavam longe de serem positivas (dado a fonte original, ninguém esperava por isso) mas todos pareciam concordar que o filme era melhor que o livro (um backhanded compliment mas we’ll take what we can get, né) e que a performance de Dakota, em particular, era surpreendente.

Quando os números começaram a aparecer, qualquer conflito ao longo da produção foi completamente esquecido e perdoado. Afinal, a regra de ouro de Hollywood é que lucro apaga qualquer rancor, qualquer ferida, qualquer desentendimento. Com um orçamento de 40 milhões de dólares, o filme ultrapassou 570 milhões arrecadados mundo afora (incluindo 166.2mi nos EUA; 51.6mi no Reino Unido e 31.4mi no Brasil). Qualquer duvida de que a Universal não iria investir na franquia — e espreme-la até a última gota — se dissiparam.

A trilha sonora também foi um enorme sucesso. O CD alcançou disco de ouro no Reino Unido, na Alemanha, na Austrália, no Brasil e no México e vendeu mais de 700 mil unidades nos EUA. A música que Ellie Goulding contribuiu para o filme, Love Me Like You Do, produzida pelo Midas sueco do pop, Max Martin, alcançou o primeiro lugar na Austrália e em quase todos os países da Europa, incluindo o Reino Unido, onde ultrapassou 1 milhão de cópias vendidas. Nos EUA, a canção chegou ao terceiro lugar e vendeu mais de 2 milhões de unidades. Já Earned It, cantado pelo rapper canadense The Weeknd, chegou a 3 milhões de cópias na Terra do Tio Sam e 600 mil no Reino Unido. O CD ainda tinha uma versão exclusiva de Crazy in Love, regravada por Beyoncé exclusivamente para o longa.

Claro que o sucesso do filme não significou o fim das dores de cabeça para a Universal. Muito pelo contrário. Afinal, ainda existem pelo menos mais dois filmes pela frente. A diretora, Sam Taylor-Johnson, que teve seu trabalho (relativamente) elogiado pela crítica, anunciou que não iria continuar no comando da franquia. Achar um substituto tem se provado uma missão impossível para o estúdio, já que ninguém quer se submeter a E.L. James e seu controle criativo e poder de veto.  Achar um roteirista também foi difícil mas no final, eles settled por Niall Leonard, marido de E.L., que tem experiência como roteirista de televisão. Em junho, o filme começou a ser rodado, sem diretor.

Apesar de tudo isso, a franquia tem se provado um grande acerto para o estúdio e a estreia de Fifty Shades Darker está confirmada para 10 de fevereiro de 2017.  E se a série continuar lucrando, a Universal está disposta a aguentar qualquer enxaqueca. Afinal, como a própria série ensina, a dor é justificada se o final é prazeroso.

Abril: Velozes e Furioso$$$$$$

Bilheteria final: U$ 1.511.726.205

furious7

A franquia Velozes e Furiosos sempre foi a crown jewel da Universal. Os seis filmes iniciais da série acumularam mais de 2 bilhões de dólares nas bilheterias mundo afora e quase 1 bilhão só nos EUA. Todos eles mostraram crescimentos consideráveis em relação aos seus antecessores, provando que a saga — um enorme sucesso global — ainda tinha potencial para crescer.

Apesar do otimismo em torno do novo filme da série, a produção de Furiosos 7 — assim como a de 50 Tons — passou por uma boa dose de conflito. Em novembro de 2013, no meio das filmagens, Paul Walker, um dos astros da franquia, morreu em um acidente de carro. A produção do longa foi interrompida por período indeterminado enquanto todos os envolvidos na produção se esforçavam ao máximo para decidir como seguir adiante.

Em abril, depois de quase quatro meses de hiatus, a produção foi retomada. O roteiro teve que ser reescrito — arranjando uma justificativa para a saída do personagem de Walker — e CGI e oito stand-ins com semelhanças físicas ao ator (incluindo dois irmãos dele) foram utilizados para que as cenas restantes com o personagem pudessem ser gravadas. As filmagens se estenderam até julho, quando o filme entrou em processo de finalização.

No fim, o esforço valeu a pena: como já falei aqui, o filme foi um gigantesco sucesso, se tornando o primeiro lançamento da Universal a ultrapassar 1 bilhão de dólares arrecadados. A marca foi atingida em apenas 17 dias, um recorde histórico. A bilheteria acumulada — 1.16 bilhão — o coloca em quinto lugar entre as maiores bilheterias da história. O seu maior mercado não foi os EUA (U$ 310 mi) e sim a China (U$ 390 mi), onde se transformou no filme mais bem-sucedido da história do país. O filme lucrou U$ 57mi no Reino Unido; U$ 52mi no México; U$ 45.5mi no Brasil e U$ 40.4mi na Alemanha.

Assim como 50 Tons, Furiosos 7 foi um sucesso multimídia. A música tema do filme, See You Again, uma homenagem a Paul Walker cantada pelo rapper americano Wiz Khalifa e pelo novato Charlie Puth passou 12 semanas em primeiro lugar nos EUA, onde vendeu 4 milhões de unidades. A música também alcançou o primeiro lugar em mais de 30 países, incluindo Alemanha, Austrália e Reino Unido. Nesse último, a canção ultrapassou 1 milhão de cópias e quebrou o recorde de streaming (3.65 mi) que pertencia a Love Me Like You Do (de Ellie Goulding/50 Tons). A trilha sonora do filme — que incluía canções inéditas de astros do rap (T.I.; Kid Ink; Tyga; Lil Jon; Flo Rida); da música eletrônica (David Guetta; Dillon Francis; DJ Snake) e da música latina (Prince Royce; J Balvin; Nicky Jam; Fito Blanko) — alcançou disco de ouro no Japão, no Reino Unido e na Austrália.

e um trocadinho extra

Bilheteria final: U$ 58.082.000

Apesar de que o sucesso fenomenal de Furiosos 7 monopolizou toda a atenção, a Universal emplacou mais um sucesso no mês de junho. Unfriended, com um orçamento de apenas 1 milhão de dólares (o equivalente a 25 centavos para um grande estúdio hollywoodiano), abriu com 15 milhões de dólares e, até o final de sua trajetória, deixou 58 milhões nas bilheterias. Uma sequência já está em produção.

O sucesso de Unfriended exemplifica bem o porque dos grandes estúdios amarem filmes de terror. Eles são extremamente baratos de produzir; não dependem de nenhuma grande estrela e têm potencial para dar muito lucro. O filme do russo-georgiano Levan Gabriadze, o primeiro dele nos EUA, foi produzido por Timur Bekamemketov (Wanted) e tinha como público-alvo adolescentes, um segmento particularmente atraído pelo gênero de terror. Mais de 75% da audiência no final de semana de estreia era composta por menores de 25 anos.

O longa contava a história de uma colegial, interpretada por Shelley Henning, que era aterrorizada através de redes sociais. Para promover o filme, a personagem principal ganhou contas de verdade em diversas redes — Twitter; Facebook; KIK Messenger e até Skype — e o filme foi exibido pela primeira vez no Playlist Live, uma convenção frequentada por webcelebs do YouTube do Vine. A pré-estreia oficial foi em março, no SXSW Festival em Austin.

Maio: Sucesso Afinadíssimo

Bilheteria até o momento: U$ 284.016.870

pitchperfect759

Lançado em 2012, com um orçamento de apenas 17 milhões de dólares, Pitch Perfect, conhecido no Brasil como A Escolha Perfeita, excedeu as expectativas mais otimistas e se transformou numa espécie de cult classic. A comédia teen sobre as Barden Bellas, um grupo acapella universitário, arrecadou  115 milhões de dólares (dos quais 65mi foram nos EUA) e revelou a australiana Rebel Wilson, que interpretou Fat Amy, para o grande público americano. O The-Numbers estima que o DVD e o blu-ray superaram 6 milhões de cópias comercializadas (só nos EUA) e a trilha sonora alcançou disco de platina (1 milhão). A música Cups, cantada pela protagonista do filme, Anna Kendrick, penetrou o top 10 da Billboard e alcançou 3 milhões de unidades vendidas.

Com tudo isso em vista, a Universal tomou uma decisão bem lógica: produzir uma sequência. Culpando scheduling conflicts,  Jason Moore, responsável pelo original, não pode retornar para filmar a continuação e, para substituí-lo, a Universal recrutou a atriz Elizabeth Banks que, com Pitch Perfect 2, faz sua estreia na direção. O elenco inteiro — encabeçado por Kendrick — voltou, com a adição de Hailee Steinsfeld.

Apesar do orçamento da sequência se manter baixo (U$24mi), a campanha de marketing para o filme foi bastante pesada. Em novembro, seis meses antes da lançamento, Anna Kendrick, Rebel Wilson e Hayden Pannetiere estamparam a capa da Entertainment Weekly, anunciando a continuação. Nas semanas antecedendo a estreia, a televisão foi inundada com centenas de spots promovendo o filme. Na internet, inserções publicitárias invadiram o YouTube e o Vevo e o longa também fez uma parceria com o Buzzfeed. As redes sociais também desempenharam papel important na divulgação, com colaborações com SnapChat e presença forte no Instagram e no Twitter. Ainda houve parcerias com grandes marcas, como a Covergirl e as lâminas de depilação Shick, que, além de colocarem anúncios temáticos do filme na televisão e na grande mídia, ainda fizeram várias ações de promoção integrada.

O esforço rendeu frutos. No primeiro final de semana nos EUA, o filme lucrou gigantes 69 milhões de dólares, mais que o lucro doméstico total do filme anterior.  Os números de estreia foram tão altos — quase 30 milhões de dólares acima das expectativas — que Pitch Perfect 2 bloqueou o tentpole de ação Mad Max: Fury Road do primeiro lugar.

A arrecadação final nos EUA foi de 184 milhões de dólares. Para se ter noção do tamanho disso, 50 Tons de Cinza lucrou “apenas” 166 milhões. Mad Max: Fury Road teve que se contentar com 153 mi.

A bilheteria total do filme até o momento é bastante discreto se comparado aos outros blockbusters da Universal. Apesar de ter superado confortavelmente 50 Tons de Cinza no mercado domestico, as meninas do grupo acapella Barden Bellas lucraram 284 milhões a nível global contra os os 570mi arrecadados por Christian Grey. Isso é compreensível dado que Pitch Perfect, o filme original, nem foi lançado em grande parte do mundo, limitando bastante o alcance da sequencia.

O filme foi particularmente bem-sucedido em mercados anglo-saxões: na Austrália, o maior mercado internacional para o primeiro filme (13mi), Pitch Perfect 2 lucrou 21 milhões. No Reino Unido, a sequencia quase triplicou os resultados do seu antecessor (10mi), fechando com 27.3mi. Na Alemanha, onde o primeiro filme foi um surprise hit (10.5), a sequencia também teve um bom desempenho. E os números ainda podem aumentar, já que o filme ainda está sendo lançado em diversos mercados mundo afora. No Brasil, por exemplo, Pitch Perfect 2 acabou de estrear, no dia 14 de agosto.

Junho: Um sucesso jurássico destruidor…

Lucro até o momento: U$ 1.582.418.997

jurassicworld

O ano nem tinha chegado a metade e a Universal já poderia se dar por satisfeita. Mas o melhor ainda estava por vir. No dia 12 de junho, Jurassic World, o quarto filme da série Jurassic Park, teve sua estreia global. É óbvio que todos já esperavam que o filme fosse um sucesso — ele é parte de uma enorme e fortíssima franquia — mas os resultados finais superaram até as estimativas mais otimistas. No seu primeiro final de semana, o filme dos dinossauros alcançou 524.4 milhões de dólares arrecadados, a melhor abertura da história. Em apenas 13 dias, o filme tinha superando a casa do bilhão, ultrapassando o recorde que outro filme do estúdio, Furious 7 tinha quebrado apenas dois meses antes (17 dias).

Foram 21 recordes quebrados pelo filme até o momento e, até agora, ele está em primeiro lugar na bilheteria anual em quase todos os mercados do planeta (o Brasil sendo uma das poucas exceções). No fim de julho, ele alcançou 1.51 bilhão de dólares arrecadados, superando Os Vingadores e se transformando na terceira maior bilheteria da história. E isso porque ainda faltava um mês para o filme estrear em seu último mercado, o Japão, onde ele acaba de chegar, semana passada, quebrando recordes.

Nos últimos anos, o Japão parece ter virado as costas para blockbusters americanos. Hoje em dia, para assegurar sucesso no país, é necessário montar uma estratégia bastante específica e, mesmo assim, existem chances de decepção. Por isso, muitos estúdios nem consideram mais o Japão como mercado chave para seus tentpoles, optando por investir na China e na Coreia do Sul, mercados muito mais receptivos.

Não foi o caso da Universal com Jurassic World. Enquanto a estreia do filme em todos os mercados do mundo foi nos dias 11 e 12 de junho, o longa só chegou ao Japão no final da primeira semana de agosto. O atraso foi para que o lançamento coincidisse com o Obon, um feriado de 9 dias que registra recorde de público em todos os cinemas do país. O lançamento postergado também ajudou bastante a equipe de marketing local do filme, que pode utilizar o sucesso histórico de Jurassic World no resto do mundo para despertar a atenção do público japonês. Todo esse esforço rendeu resultados: o filme lucrou 1.65 bilhões de ienes no seu primeiro final de semana (o equivalente a 13.3 milhões de dólares na atual cotação), o melhor resultado para um live-action internacional desde o último filme da saga Harry Potter, em julho de 2011.

O sucesso de Jurassic World, na Terra do Sol Nascente indica que o longa tem fortes chances de acabar o ano como o maior sucesso de bilheteria do país em 2015. Alguns analistas acreditam que, mesmo com o iene em baixa em relação ao dólar, o filme deva chegar a U$ 65 milhões. O filme não conseguirá chegar aos 2 bilhões de dólares alcançados por Avatar Titanic, ambos de James Cameron, mas ele provavelmente encerrará sua trajetória com resultado acima de 1.65 bilhão e um nada lastimável terceiro lugar na bilheteria global histórica (não ajustada para inflação).

É difícil dizer o porque de Jurassic World ter se transformado num fenômeno tão grande, a ponto de quebrar tantos recordes um atrás do outro. Mas uma série de fatores deixavam claro que o filme tinha muito a seu favor: ele é parte de uma franquia conhecida, querida e bem estabelecida; tem um público-alvo expansivo (adultos, nostálgicos; jovens, sempre interessados em blockbusters de ação e crianças, principalmente garotos, atraídos pelos dinossauros) e foi lançado com um bom timing (abrindo a temporada de tentpoles de verão, com uma distância boa desde os últimos filmes grandes de ação, Os Vingadores 2 e Furiosos 7). Outra coisa a favor do longa, e possivelmente o motivo que chega mais perto de explicar o fenômeno, é que ele é, para todos os efeitos, bastante bom, pelo menos baseado na opinião dos críticos e de grande parte do público que foi ver (nota do André: isso não me inclui). Isso contrasta com Jurassic Park 2 e 3, ambos com recepção bem morna (o fato de ambos terem sido sucesso apesar disso prova a força da franquia).

jurassicworld
Chris Pratt, a estrela de Jurassic World

Como de costume, os maiores mercados para Jurassic World foram, com folga, os EUA (U$637 milhões) e a China (U$228 milhões), seguido pelo Reino Unido (U$ 98 milhões). O filme ultrapassou a casa dos 40 milhões na Alemanha (U$ 48mi); México (U$ 44mi) e Coreia do Sul (U$ 40mi) e analistas estimam que, além do Japão, o filme também alcançara a marca dos 40mi na França e na Austrália. No Brasil, Jurassic World marcha para os U$ 30 milhões, fazendo do país o décimo mercado para o longa. Mesmo assim, por aqui, ele ainda está longe de Os Vingadores 2, dos Minions, de Furiosos 7 e de, pasmem, 50 Tons de Cinza. Na China, apesar do lucro monstro, Jurassic World não chegou perto de Furiosos 7 que, com mais de 300 milhões de dólares arrecadados, é o filme de maior sucesso da história do país.

Os resultados históricos de Jurassic World tiveram três gigantescos beneficiados: o estúdio, que obteve dois sucessos bilionários em um só ano, depois de um século sem nenhum; o protagonista, Chris Pratt e o diretor, Colin Treverrow.

Um ator bem sucedido, principalmente em comédia (ele era parte do elenco fixo de Parks & Recreation), Pratt tinha debutado como uma grande estrela de cinema no fim de 2014 quando, depois de perder as gordurinhas extras e ganhar um tanquinho, capitaneou o inesperado mega sucesso da Marvel, Guardians of the Galaxy, que lucrou mais de 774 milhões. Com o sucesso estrondoso de Jurassic World (co-estrelado por Bryce Dallas-Howard), Pratt tem seu nome associado a duas gigantescas franquias e se consolida como um dos principais leading men do presente. Atualmente, ele filma The Magnificent Seven ao lado de Denzel Washington, Ethan Hawke e Matt Bomer (e também Wagner Moura) e se prepara para co-estrelar a super produção Passenger, ao lado de Jennifer Lawrence, a estrela mais badalada de Hollywood. Ele ainda está, claro, nas sequencias de Jurassic  e de seu filme com a Marvel, previstas para 2018 e 2017 respectivamente.

Já o diretor, Colin Treverrow, foi uma grande aposta do estúdio. Antes de comandar o blockbuster dos dinossauros, que teve orçamento de 150 milhões, Treverrow só tinha um outro filme no currículo: a elogiada comédia independente Safety Not Guaranteed, filmada por 750 mil dólares. Agora, com o sucesso bilionário do filme, Colin é um dos diretores mais disputados em Hollywood e acaba de emplacar um filmezinho bobo chamado Guerra nas Estrelas Episódio IX. Com estreia prevista para 2019, o filme dele sucederá o episódio VII, dirigido por JJ Abrams e com estreia prevista para o fim desse ano, e o Episódio VIII, comandado por Rian Johnson e previsto para 2017. Antes de assumir o controle do universo de George Lucas, Colin filmará a sequência de Jurassic World.

…e uma pequena decepção

Bilheteria até o momento: U$ 173.720.000

ted2

O bom de ter acumulado grandes sucessos ao longo do ano é a possibilidade de fazer com que alguns de seus deslizes passem despercebidos. Um desses deslizes foi Ted 2, a segunda decepção do ano (que, sendo justo, não chegou nem perto da primeira).

Em 2012, o filme original — sobre um ursinho de pelúcia boca-suja e seu dono, interpretado por Mark Wahlberg — tinha desbancado The Hangover (Se Beber Não Case) para se transformar numa das comédias adultas mais bem sucedidas de todos os tempos. Dar luz verde para uma sequência era uma decisão mais que lógica. Mas, infelizmente, o momentum parece não ter se sustentado e a continuação arrecadou menos de 1/3 do que o filme original conseguiu.

Os resultados medíocres de Ted 2 ficam bem claros quando contrastados com Pitch Perfect 2. Ambos os filmes estrearam em 2012 e tiveram sequências lançadas esse ano. O primeiro filme das garotas cantoras lucrou 115 milhões no mundo todo enquanto, em 2015, a sequência já ultrapassou 284 milhões. Já o filme do ursinho arrecadou quase 550 milhões no seu ano de lançamento — números de blockbuster de primeira linha — mas a continuação despencou para menos de 175 milhões.

É verdade que ainda existem esperanças de que Ted 2 cresça mundo afora. E essa esperança se chama Japão. O filme original foi um sucesso gigantesco no país em 2012, excedendo todas as expectativas e acumulando 43 milhões de dólares (o terceiro maior mercado global do longa). Por lá, a estreia da continuação está prevista para 28 de agosto. O filme também não estreou nos principais mercados latinos — Brasil e México — e acaba de chegar na França.

Mesmo assim, os prospectos internacionais não são os mais positivos a julgar os resultados da continuação no Reino Unido. Em 2012, o país superou o Japão e, com 49 milhões de dólares arrecadados, foi o segundo maior mercado internacional do filme. A sequência, porém, empacou em patéticos 15 milhões.

Mesmo decepcionando, Ted 2 não foi um fracasso custoso. Feito por 60 milhões de dólares, o filme deve superar 200 milhões de dólares até o final do ano sem nenhum problema. Seu desempenho foi aquém ao esperado, mas nem se compara com o fiasco épico de Blackhat que, graças a todos os sucessos acumulados até agora, os executivos da Universal puderam se dar ao luxo de esquecer que aconteceu.

Na próxima parte: como a Universal conseguiu um terceiro sucesso bilionário; o nascimento de uma A-list star e o sucesso explosivo (e surpreendente) do mês de agosto. E mais, o que a Universal tem guardado para os quatro meses finais do ano?

Causando por ai: testosterona edition

O evento do século?

leggero

  • Considerado os dois melhores boxeadores da atualidade, a luta de Floyd Mayweather e de Manny Pacquiao, no dia 3 de maio no MGM Grand em Las Vegas, foi considerada um evento histórico . Ambos os lutadores receberam centenas de milhões de dólares pela luta (isso mesmo, mais de 100 milhões de dólares cada).
  • O evento foi tão gigantesco que os dois maiores canais premium dos EUA — e enormes rivais — a HBO e o Showtime, se uniram para comprar os direitos e a luta foi o pacote pay per view mais caro da história: 100 dólares para assistir em HD. Mesmo assim, estima-se que o evento tenha quebrado o recorde anterior de pacotes vendidos (mais de 2 milhões na luta de Mayweather contra Oscar de la Hoya em 2007), o que significa que mais de 3 milhões de pessoas desembolsaram a modesta quantia. O começo da luta foi atrasado para quase meia-noite (no fuso-horário EST) porque, mesmo depois do horário previsto, milhares de pessoas ainda estavam comprando o acesso.
  • Na platéia do MGM Grand, desde Hilary Duff e Bow Wow até Beyoncé e Jay-Z. Justin Bieber estava lá como parte da entourage de Mayweather (eles são amigos íntimos) e Jimmy Kimmel estava com Pacquiao; Jack Gylenhaal estava lá para promover seu próximo filme (ambientado no mundo de boxing) assim como o elenco de metade dos seriados da Showtime, Nicki Minaj, Jamie Foxx (que cantou o hino), Robert DeNiro, Denzel Washington (absolutamente irreconhecível e bizarro), Joshua Jackson e Diane Kruger, Mark Wahlberg e P. Diddy. Diddy e Wahlberg, alias, apostaram 250 mil dólares nos seus favoritos (Wahlberg em Pacquiao; Diddy em Mayweather).
  • Las Vegas, claro, foi a loucura com o evento. Apenas 500 ingressos foram disponibilizados para o grande público e os preços no mercado de revenda atingiram cinco, seis e até sete dígitos. Apenas com a venda de ingressos foram arrecadados mais de 100 milhões de dólares. O valor de quartos de hotéis e aluguéis de curta-temporada chegaram a aumentar até 15x. Alguns estimaram que a luta iria acrescentar mais de 300 milhões de dólares a economia da cidade e o final de semana seria o mais lucrativo e movimentado da história.
  • Basicamente todas as centenas de boates da Las Vegas desembolsaram fortunas para ter festas com os hosts mais chamativos, em geral rappers e DJs de música eletrônica. Scott Disick (of Kardashians fame); 50 Cent; Nelly; Diddy; 2Chainz; Avicci; Ryan Lewis & Macklemore; David Guetta; Ludacris; Jamie Foxx; Lil Wayne; Snoop Dogg; Chris Brown; Justin Bieber; Busta Rhymes; Kaskade; Calvin Harris; Wale; Travis Barker; Afrojack e Alesso foram alguns dos nomes contratados pelas casas noturnas. A festa mais cara foi a de Jay Z no club Marquee: reservar uma mesa na soireé custou a bagatela de 50 mil dólares.
  • A luta em si, claro, foi uma ótima lembrança de que o mundo não é justo. Mayweather, acusado na justiça de dezenas de casos sérissimos de violência doméstica contra ex-esposas, namoradas e até seus filhos, recebeu 170 milhões de dólares e foi coroado o grande vencedor. Mas, pelo menos, ele foi vaiado por basicamente toda a arena no final da luta.
  • O filipino Pacquiao, com seu jeito sorridente, era o favorito de todo mundo mas as chances dele ganhar realmente eram mínimas já que, diferente de Mayweather, ele não está mais no ápice de sua carreira. Mesmo assim, ele embolsou 120 milhões de dólares. Ele nunca espancou ninguém mas, nas Filipinas, seu país natal, ele é um político super conservador, anti-casamento gay e direitos das mulheres então ele também não é exatamente a melhor pessoa.
  • Funfact: como Pacquiao era filipino e Mayweather americano, os hinos de ambos os países foram cantados. Floyd escolheu Jamie Foxx para entonar o Star Spangled Banner e Manny optou por uma adolescente anônima filipino-americana, de Nova Iorque. Porém, por algum motivo não muito claro, o hino do Mexico também foi cantado. Alguns disseram que foi em comemoração ao Cinco de Mayo, o dia da independência mexicano, que também é feriado nacional nos EUA (a luta foi dia 2), e outros afirmaram que foi pelo fato de uma cerveja mexicana, Tecate, ser patrocinadora do evento. Em todo o caso, como a luta foi basicamente em terras historicamente mexicanas eu achei apropriado….

Furiosos 7: quebrando todos os recordes

  • Alguns filmes são sucessos tão gigantescos que eles transcendem as telas do cinema e viram sucessos multimídas, emplacando, por exemplo, músicas de enorme sucesso. Titanic teve a inescapável My Heart Will Go On oficializando o fenômeno desatado pelo romance e Let It Go ajudou a colocar Frozen na história da cultura pop, só para citar dois sucessos emblemáticos. Atualmente, o maior sucesso no mundo é novamente ligada a um filme: See You Again, do rapper Wiz Khalifa, e que serve como música tema do filme Velozes e Furiosos 7. A canção está no topo em 20 países, incluindo EUA; Reino Unido; França; Austrália e Alemanha. Nos EUA, a canção foi responsável por destronar Uptown Funk, de Mark Ronson e Bruno Mars, do topo do Hot 100 da Billboard depois de 14 semanas.
  • A música é uma homenagem a Paul Walker, um dos astros da franquia e que morreu em um acidente em 2013. A curiosidade em torno do último filme dele pode ser apontado como um dos motivos para o sucesso descomunal de Furious Seven.
  • Mas todos os filmes da franquia são sucessos descomunais e não é a primeira vez que o filme desata uma música fenômeno (Danza Kuduro de Don Omar explodiu graças a Fast Five). Mas, é verdade, os resultados desse filme são particularmente espetaculares. Em apenas 12 dias, ele ultrapassou 1 bilhão de dólares arrecadados (um recorde histórico) e se transformou na quinta maior bilheteria da história.
  • Grande parte do sucesso histórico do filme pode ser atribuído a China. Em apenas 15 dias, Furious Seven desbancou Transformers 4 e se transformou no maior sucesso da história do país, com 322 milhões de dólares. Já falei sobre a importância crescente do mercado chinês aqui.
  • Mas, diferente de Transformers, que basicamente dependeu da China para ter um resultado satisfatório e teve um desempenho bem inferior aos antecessores em outros países do mundo, Furious 7 está tendo resultados espetaculares globalmente. Além da China, o filme quebrou recordes de bilheteria em seu primeiro final de semana em 29 países, incluindo o Brasil, México, Argentina, Chile, Colômbia, Venezuela, Taiwan, Tailândia e Oriente Médio. Foi a melhor estreia de um filme da Universal em 40 países, incluindo Alemanha e Itália. Os maiores mercados internacionais para o filme foram China; Reino Unido; México; Brasil e Alemanha. Nos EUA, arrecadou 147.1 milhões de dólares no primeiro final de semana, melhor resultado já obtido no mês de abril. Com mais de 300 milhões de dólares arrecadados em um mês, o filme já superou todos os outros da franquia (Fast 6 encerrou seu run com 239mi; Fast Five com 210).
  • Muita gente crítica os filmes da franquia Velozes & Furiosos por serem repetitivos e formulaicos. Contudo, eles também são bastante elogiados por serem um dos únicos blockbusters de ação com um elenco multirracial e com personagens femininos de destaque. O filme estrela Paul Walker; Vin Diesel; Michelle Rodriguez; Jordana Brewster; Ludacris; Tyrese Gibson e Jason Statham. Muitos apontam o casting diverso e o destaque dado a todo o ensemble como um dos motivos pela aceitação da franquia em todo o mundo.
  • O filme, claro, tem um rival a altura: o recém estreado Avengers 2. O filme da Marvel irá lutar pesadamente para desbancar Furious 7 do posto de maior bilheteria de 2015 (e provavelmente conseguirá).
  • Tirando Furious 7, que ultrapassou 300 milhões de dólares, nenhum outro filme lançado esse ano conseguiu sequer ultrapassar a barreira dos 200 milhões arrecadados nos EUA. O mais próximo foi a adaptação live-action de Cinderella da Disney, que já ultrapassou 190mi. Nos próximos meses, contudo, alguns lançamentos muito provavelmente irão ultrapassar esse patamar: Avengers 2; os novos filmes das franquias Jurassic Park Star Wars e o último filme da saga Jogos Vorazes.

Cinema 2014: fádiga de Hollywood ajuda fenômenos locais

O verão estado-unidense é a época de ouro para os grandes estúdios. As férias escolares trazem faturamento recordes e explicam o porque de tantos grandes lançamentos serem concentrados entre os meses de junho e agosto. Esse ano, porém, o verão foi motivo de bastante lamentação: Hollywood teve seu pior resultado desde 1997 (ajustado pela inflação) e uma queda de 15% em relação a 2013, deixando claro que os americanos estão cada vez menos empolgados com a ideia de gastar seus suados trocados em filmes que, francamente, são quase sempre mais do mesmo.

Apesar disso, a hegemonia dos filmes de Hollywood segue inabalada. Com mais de 1 bilhão de dólares lucrados globalmente, o quarto filme da franquia Transformers, Age of Extinction — o primeiro com Mark Whalberg e Nicole Peltz nos papeis principais — ocupa com folga o posto de longa de maior sucesso do ano. O resultado espetacular, contudo, não ofusca o fato de que Transformers é um exemplo clássico do tipo de filme que explica a fadiga do públicp: formulaico, baseado numa franquia já existente e com uma forte dependência de efeitos especiais espetaculares para distrair do fato de que o roteiro basicamente não existe.

Transformers 4 foi o único filme da franquia a não ultrapassar dos 300 milhões de dólares no seu mercado natal e, com 245.5 milhões de dólares arrecadados, ele mostrou uma queda considerável em relação ao segundo filme da série, lançado em 2009, e que lucrou mais de  400 milhões. O resultado do longa em mercados europeus e no Japão também foi bastante aquém aos antecessores.

Contudo, como os resultados globais do longa de Michael Bay deixam claros, Hollywood está sabendo mascarar essa queda de interesse graças a conquista de novos territórios que, até pouco tempo atrás, eram insignificantes. Hoje, esses países — como a Rússia (onde Age of Extinctinon lucrou mais de 45 milhões de dólares) — são alguns dos mais lucrativos mercados internacionais e, depois de conquistar o ex país soviético, as garras de Hollywood estão fincadas na China.

Com mais de 1 bilhão de pessoas, a China é um mercado gigantesco. Lançar um filme no país, porém, é complicado e exige muitíssima negociação com os órgãos públicos. O esforço é justificado pelo tamanho do lucro em potencial. O país, sozinho, foi responsável por fazer de Transformers: Age of Extinction o sucesso monstro que ele acabou sendo. Coproduzido por uma companhia chinesa, o longa é o maior sucesso da história do país, com 301 milhões de dólares arrecadados, conseguindo o ato quase inédito de superar o faturamento norte-americano.  O amor dos chineses por blockbusters de ação também significou lucros gigantescos para X-Man: Days of the Future Past; Captain American: The Winter Soldier; Dawn of the Planet Apes; Guardians of the Galaxy e The Amazing Spider Man 2, todos com rendas superiores a 90 milhões de dólares no país.

A crescente demanda por assistir filmes via métodos legais na China é fonte de enorme otimismo para os executivos de Hollywood. Porém, no resto do mundo, a falta de ofertas empolgantes dos titãs do entretenimento está fazendo com que o público local opte por prestigiar produções locais, com roteiros mais criativos e que falam de maneira mais profunda e direta com a população. E, apesar da enorme dificuldade de qualquer país de enfrentar os gigantescos americanos, 2014 foi um ano onde, novamente, diversos países conseguiram produzir seus próprios fenômenos de bilheteria.

Espanha: diante de uma nação fragmentado e em caos econômico e político, uma comédia une o país

A Espanha, com sua milenar história de grandes descobertas, conflitos e riquezas, foi um dos maiores responsáveis por moldar o mundo ocidental. Mas, apesar do seu passado glorioso e rico, o país passou grande parte da segunda metade do século 20 ofuscado, sofrendo uma opressora ditadura que os manteve bastante atrasados em comparação com seus vizinhos europeus. As Olimpíadas de Barcelona em 1991 os colocaram no centro do holofote global, transformando-os num dos maiores polos de turismo mundial e a Espanha entrou no novo milênio cheio de otimismo, investimento e a sensação de que, novamente, eles estavam lado a lado das grandes potências. Tudo isso came crashing down com a crise global de 2008 e, desde então, o país tem enfrentado uma crise histórica, com enorme desemprego e poucas perspectivas de recuperação.

O tumulto econômico espanhol é só um dos muitos aspectos que refletem o caótico panorama na Espanha. Dividido em diversas regiões autônomas, o país tem enorme dificuldade para inspirar em sua população a sensação de um “país unido” e cada região tem sua própria cultura, forma de encarar a vida e muitas delas têm inclusive língua própria. As duas principais cidades do país, Madrid, a capital, e Barcelona, a principal cidade da rica região da Catalunha, tem uma rivalidade histórica que trace back para séculos e séculos atrás e, com a crise, o movimento separatista catalão ganha cada vez mais força.

No meio desse caos, uma comédia que ri das diferenças culturais do país, Ocho Apellidos Vascos (Oito Sobrenomes Bascos), lançado em março, conseguiu a difícil missão de unir a Espanha, levando mais de 9 milhões de pessoas aos cinemas (quase 1/4 da população do país) e se transformando na maior bilheteria da história.

Enquanto a cobertura das rivalidades e conflitos separatistas em geral focam em Madrid e Barcelona, ambas as cidades, grandes e cosmopolitas, não são tão diferentes entre si. Ocho Apellidos foca em duas regiões que, essas sim, são total opostos uma da outra: a quentíssima, cálida, romântica, espanholíssima Andalucia e o frio, nublado, desenvolvido País Basco.

Os protagonistas do filme são Rafa, um andaluz, super latin lover e representante de todos os estereótipos da região e Amaia, uma basca fria e moderna. Por coincidências do destino, os dois acabam se cruzando e, apesar de serem completamente diferentes, Rafa acaba se apaixonando perdidamente por Amaia, que pertence a uma família ultranacionalista que nunca aceitaria que ela estivesse num relacionamento com alguém fora da região. Abandonada por seu noivo poucos dias antes do seu casamento, Amaia vai receber a visita do seu pai ausente pela primeira vez em anos e não quer contar para ele que seu noivado foi por água baixo. Por isso, ela recruta o andaluz apaixonado, que faria qualquer coisa para vê-la novamente, até sua cidade natal com uma missão quase impossível: manter a farsa de que ele é o noivo basco dela.

Enquanto as tentativas do andaluz de raiz em fingir que é basco são hilariantes para o público espanhol, familiarizado com os estereótipos e tradições das respectivas regiões, as piadas se perdem para os não locais. Isso significou que o filme teve um alcance internacional curtíssimo, fracassando inclusive no país vizinho, Portugal, onde, por também fazer parte da Peninsula Ibérica e ter uma cultura bastante similar, recebeu um significante marketing push. Mas os resultados históricos na Espanha fizeram com que a recepção morna internacional passasse completamente despercebida: o filme superou The Impossible, o filme de 2012 de Juan Antonio Bayona, para se transformar na maior bilheteria da história da Espanha, com um rendimento de quase 60 milhões de euros (em dólares, o rendimento foi de U$77.5 milhões).

Na cena que dá origem ao título do filme, o pai de Amaia menciona que a garota teve um namorado “do sul”. “Do sul?”, pergunta em choque Rafa. “Sim, de Vitória”, responde o pai, citando uma cidade do País Baixo que, por sua posição geográfica, é menos de raiz que suas vizinhas ao norte. “Mais ele era bem vasco, hein! Ele tinha os oito sobrenomes vascos!!”. “Ah, ele também tem!”, diz Amaia apontando para Rafa, dando a deixa para que ele invente, de cabeça, oito sobrenomes longuíssimos e cheios de consoante, como os tradicionais sobrenomes locais.

Em outro momento do longa, Rafa joga um cigarro aceso numa lixeira, iniciando um pequeno incêndio que é confundido com um ato de protesto. Em pouco tempo, ele aglomera uma multidão e vira o líder de uma manifestação separatista. Pressionado pelas pessoas reunidas (e até pela TV local), Rafa puxa um grito de guerra: “Somos mejores! Que los españoles!”. “Discurse em basco!!“,  alguém grita. “Não! Para quem estamos pedindo a independência? Para os bascos? Ou para Madrid? Temos que falar em espanhol para que eles nos entendam!”, responde Rafa, que não sabe uma palavra do complicadíssimo idioma local. Já com a multidão ao seu lado ele entona uma versão super desafinada do famosíssimo hit “Sevilla tiene un color especial” do Los del Rio (conhecidos globalmente graças a obra de arte Macarena), substituindo a capital andaluz por “Euskadi” (“País Basco” no idioma local). “Euskadi tiene un color especial! Euskadi tiene un color diferente!” repetem os protestantes.

O filme que ri das diferenças espanholas acabou por unir o país. De norte a sul, não teve uma cidade onde 8 Apellidos não foi um fenômeno: Madrid, Catalunha, Andalucia, País Baixos e todas as demais regiões, a sensação foi que não teve ninguém que não foi no cinema prestigiar o longa metragem. Clara Lagos e Dani Rovira, ambos já bastante sucedidos, tiveram a popularidade potencializada, sendo escolhidos como protagonistas da mega campanha de liquidação de verão do El Corte Inglés, a maior loja de departamento da Espanha. O sucesso foi tamanho que, quando o DVD e o blu-ray foram lançados,  seis meses após a estreia, ainda haviam 54 salas de cinema exibindo o filme.

Em abril de 2015, a sequência começa a ser filmada. A continuação focará novamente nas diferenças entre Andaluzia e País Baixo e adicionará mais uma região autônoma a equação: Catalunha.

Em momentos de crise econômica e protestos separatistas, nada melhor do que o humor para lembrar que, por mais que o país tenha muitas diferenças, são todos, no final das contas, parte da mesma cultura.

Argentina: gargalhadas selvagens em um país transtornado

Damian Szifrón é um nome fortíssimo na Argentina. Entre 2002 e 2003, criou e roteirizou Los Simuladores, fenômeno de audiência na Telefe e considerado por muitos como a melhor série argentina de todos os tempos. Em 2003 e 2005, dirigiu dois elogiados e bem-sucedidos filmes, El Fondo del Mar e Tiempos Valientes antes de voltar a televisão, em 2006, com mais um sucesso: Hermanos y Detectives. Desde então, Szifrón se retraiu. Por tanto, quando, depois de quase oito anos, foi anunciado que ele iria voltar com um novo filme, Relatos Salvajes — que tinha o maior ator argentino, Ricardo Darin, no elenco e produção do celebradíssimo diretor espanhol Pedro Almodovar —  as expectativas eram altíssimas. Mesmo assim, o filme conseguiu a missão dificílima de superá-las: com 3.5 milhões de ingressos vendidos, o filme se se transformou no filme local de maior sucesso da história.

Todo mundo esperava uma estreia fantástica de um filme que envolvia Szifrón, Darin, Almodovar e tinha promoção da Telefe e recepção fantástica em festivais mundo afora, incluindo Cannes. Porém, logo no primeiro final de semana, já ficou claro que até as apostas altas iriam ser modestas quando comparados aos resultados: 500 mil pessoas correram para o cinema, coroando o filme como a melhor abertura de um filme local na história. Demorou oito semanas para Relatos Selvagens desocupar o topo dos filmes mais vistos do país e ele não mostra sinais de que vai sair dos top 5 por bastante tempo. O filme já é a terceira maior bilheteria da história da Argentina, só superado por A Era do Gelo 4 e Titanic. Relatos Selvagens e Titanic são, alias, os únicos dois filmes não-animados a ultrapassarem a casa de 3 milhões de ingressos vendidos no país.

Relatos Selvagens engloba seis histórias curtas de humor negro, todas elas fazendo jus ao título. O filme, claro, será a nominação argentina ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro.

Ainda teremos que esperar uns meses para constatar se Relatos vai conseguir agradar a Academia tanto quanto O Segredo de seus Olhos mas, em contrapartida, o público já foi totalmente conquistado. O ganhador do Oscar era, até a estreia do filme de Szifrón, a maior bilheteria de um filme local na Argentina. Relatos Salvajes, contudo, mais que dobrou o lucro do filme anterior, chegando a 19 milhões de dólares arrecadados na Argentina e no Uruguai.

O tom cínico e autodepreciativo do filme tem bastante do humor e do jeito argentino de ver o mundo. E, em tempos de caos político, impunidade e economia extremamente turbulenta, o sucesso de Relatos pode indicar um pouquinho sobre o estado emocional do povo local.

Mas, deixando a análise psicológica de lado, não tem como discordar que o filme é realmente impressionante e mais um ótimo exemplo da alta capacidade dos nossos vizinhos de fazer longas-metragens com produção, roteiro e direção do mais alto calibre. Além dos 18 milhões de dólares arrecadados na Argentina e no Uruguai, Relatos tem tido bom desempenho na Espanha, país que co-financiou o filme. Depois de uma estreia para lá de discreta — lucrando 653 mil dólares e estreando em sexto nas bilheterias — o filme se beneficiou do boca a boca e se mantém estável entre as quatro maiores bilheterias do país desde então, já tendo ultrapassado 3.5 milhões de dólares de rendimento em um mês desde que foi lançado.

Com 25 milhões de dólares arrecadados até o momento, o filme tem um longo caminho até alcançar os 33 milhões alcançados globalmente por El Secreto de sus Ojos (incluindo 8mi na Espanha; 6.4mi nos EUA; 1.6mi no Brasil; 1.55mi na Itália e 1.1mi no Reino Unido) mas, mesmo sem um Oscar, o filme tem superado o filme de Campanella nos poucos mercados onde já estreou (Peru, Chile, Venezuela, Colombia, Holanda) além de estar andando a longos passos na Espanha e no Brasil.

França: rindo do racismo ou apenas reforçando-o?
Fenômeno de bilheteria ressalta problemas que o país tem com o multiculturalismo

Em 2008, Bienvenue chez les Ch’tis, que ri dos estereótipos da infame região nordeste da França, quebrou o recorde de maior bilheteria da história do país, arrecadando 194 milhões de dólares e levando mais de 20 milhões de pessoas aos cinemas (e também originando uma super bem-sucedida adaptação italiana). Em 2009, Avatar, o primeiro filme de James Cameron desde Titanic (que, com 21.8 milhões de ingressos vendidos em 1997, é o único filme na história da França que vendeu mais ingressos que Ch’tis) também levou uma multidão para os cinemas que, curiosas pela nova  e groundbreaking tecnologia 3D, não se incomodou em pagar um preço mais alto pelo ingresso, deixando incríveis 175.6 milhões de dólares nas bilheterias do país. E, em 2011, depois de um 2010 tranquilo, a tocante comédia Intouchables, sobre a amizade entre um aristocrata deficiente físico branco com seu auxíliar negro do gueto, levou 19.5 milhões de pessoas aos cinemas, se transformando na terceira maior atração da história do cinema na França (atrás só de Titanic e Ch’tis) com mais de 166 milhões de dólares na França. O filme transcendeu a França e, graças a resultados altíssimos no mundo inteiro, o longa fechou seu run com 426.6 milhões de dólares, o lançamento francês mais bem sucedido da história.

Desde então, nenhum grande arrasa quarteirão abalou as estruturas das salas de cinema francês mas, esse ano, um filme chegou perto. Qu’est-ce qu’on a fait au Bon Dieu? (O que fizemos ao Bom Deus?) não alcançou os resultados dignos dos livros dos recordes de Intouchables e Ch’tis mas foi um dos quatro filmes a ultrapassar a barreira dos 100 milhões de dólares arrecadados nas últimas duas décadas e apenas o sétimo filme a vender mais de 12 milhões de ingressos nos últimos 40 anos. Nada mal, né?

Qu’est-ce qu’on a fait… é uma comédia que, assim como Intouchables, trata de uma França cada vez mais diversa e a dificuldade de muitos em se adaptar a isso. Em tempos de muita controvérsia em relação a racismo e direitos de minoria e do assustador crescimento do partido de extrema direita, Front National, o filme causou identificação no público local contando a história de um casal provinciano, burguês, branco e ultra conservador, Claude e Marie e a dificuldade deles em aceitar o casamento multi-racial de suas filhas. Isabelle se casou com o muçulmano Rachid; Odile com o judeu David e Ségolene com o chinês Chao. Quando a filha mais nova, Lauren, avisa que está noiva, o casal sente tanto alivio em descobrir que ele é católico e se chama Charles que estão dispostos até em perdoar o fato de que ele é ator. Qual a surpresa deles em descobrir que Charles é negro, veio da Costa de Marfim e tem um pai cheio de ressentimento com brancos e a colonização da África.

O filme, que celebra uma França cada vez mais multicultural e faz piada com a ideia de que todo mundo, independentemente da etnia, guarda preconceitos, também teve ótimos resultados em outros mercados europeus onde já foi lançado como Grécia e Bélgica. Na Alemanha e na Áustria, o filme ultrapassou os 39 milhões de dólares arrecadados e é um dos maiores sucessos do ano e, a julgar pelo ótimo recebimento em Portugal, o filme tem grande potencial na Espanha, onde estreia em dezembro, e na Itália.

Mas enquanto Qu’est-ce…, cujo título internacional é Serial (Bad) Weddings, tem obtido bons resultados em diversos mercados (seu lucro global até o momento, 149 milhões de dólares, é mais do que 10 vezes o custo de produção, que foi de apenas 13mi), ele tem encontrado enorme dificuldade para arranjar distribuidores no Reino Unido e nos EUA, mercados onde filmes franceses com respaldo tão gigantesco não costumam ter dificuldades em serem lançados. Em entrevista ao Le Point, a diretora de vendas internacionais da TF1, Sabine Chemaly, explica o porque da dificuldade: “eles têm um approach cultural bastante diferente do nosso. Eles consideram o filme muito politicamente incorreto e eles nunca se permitiram rir  de negros, judeus e asiáticos. É claro que o sucesso do filme os empolga mas eles sabem que ele seria instantaneamente fonte de enorme polêmica”.

“A fonte de comédia é diferente nesses países. Eles vivem com as diferenças, mas não sabem rir delas. Mesmo com a distância cômica, caricaturas não são consideradas aceitáveis”. E olha, posso dizer? Os EUA e o Reino Unido estão cobertos de razão. Ainda não vi o filme e posso morder minha língua mas existe uma linha tênue entre rir de estereótipos e reforça-los e, a julgar pelo trailer e pelo que ouvi, o filme se adequa mais a segunda categoria. A mídia britânica e americana estão longe de ser perfeitas mas a percepção do que é aceitável e não é por lá é bastante mais acentuada do que na França e outros países europeus.

A intenção do filme com certeza não é cruel e acho ótimo e importante a celebração do multiculturalismo francês mas acho que a ideia de que “todo mundo é um pouquinho racista” (sim, eu sei que isso é uma música do Avenue Q) e a celebração disso através do humor é algo bastante repugnante, com mais danos do que benefícios. Não, não vejo absolutamente nada de endearing numa senhora que chora, mesmo que comicamente, com a ideia de que seu neto será miscigenado.

Tudo bem que eu não vi o filme (apesar de que, admito, não fiquei com muita vontade depois de ver o trailer. Não me pareceu engraçado) e, depois que tiver a oportunidade de assisti-lo, posso mudar de ideia. Mas acho bem difícil. De qualquer maneira, uma sequência já está sendo planejada, com lançamento previsto para 2016. Estou na torcida que, até lá, as visões do que é aceitável na França mudem um pouco e o filme acabe sendo de mais bom gosto.

Coreia do Sul: um antídoto nacionalista para um país em luto

Assim como na França, a Coreia do Sul tem diversas leis para proteger o cinema nacional e garantir espaço para filmes locais nas salas de exibição. Graças a isso, o mercado é bastante saudável e o top 10 anual sempre está cheio de filmes locais. Contudo, um fenômeno do tamanho do filme épico Myengryang: Roaring Currents, lançado no final de julho, é algo inédito na história do país. O filme vendeu 18 milhões de ingressos (num país com uma população de 50 milhões) e foi o primeiro longa doméstico a ultrapassar a barreira de 100 milhões de dólares arrecadados (131.5 milhões).

Lançado pela gigantesca CJ Entertainment com uma enorme campanha de marketing, o filme estreou em mais da metade de todas as salas de cinema do país. O longa, uma super produção com impressionantes sequências de ação, conta a história de uma batalha naval no século 16 onde, contra todos os prognósticos, uma frota pequena da Coreia, sob o comando do almirante Yu Sun-sin, conseguiu derrotar a muito mais numerosa e poderosa frota dos históricos rivais do país, os japoneses.

A vitória é, até hoje, considerado um dos maiores triunfos da Coreia do Sul, uma nação que se orgulha de ter ascendido da pobreza pós-guerra para se transformar numa grande potência mundial e que, em abril de 2014, sofreu um enorme trauma nacional quando o ferry Sewol naufragou num acidente causado por enormes negligências, matando 304 pessoas, a maior parte deles alunos e professores de uma escola em Seoul. O diretor da escola, resgatado durante o acidente, cometeu suicido algumas semanas depois e grande parte dos coreanos, inclusive os pais das vítimas, acreditam que a justiça ainda não foi feita, com muitos dos responsáveis pelo acidente ainda livres e muitos corpos ainda não encontrados.

O filme, nacionalista e uplifting, que reproduz de maneira impressionante um dos maiores contos de vitória da história do país, serviu para reviver um pouco os ânimos de um país em luto.