A encruzilhada de Katy Perry

O comecinho do ano de 2017 foi marcado pelo retorno de duas das maiores estrelas recentes da indústria fonográfica: Katy Perry e Ed Sheeran. Enquanto o comeback de Sheeran foi de vento em popa, o consolidando como o maior artista do mundo no momento, a trajetória de Perry foi mais complicada. Mas isso significa que ela está fracassando? Bom, vamos começar pelo começo..

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To the top

Katy Hudson, como era originalmente conhecida, começou como cantora gospel antes de adotar Perry, o sobrenome de solteira da mãe, e fazer a transição para o pop secular. Com seu jeito kitshy with an edge, ela surgiu na cena em 2008 — começando no Wraped Tour, um festival que era reduto dos teen cool e roqueirinhos da época — e rapidamente obteve dois gigantescos hits, o provocativo I Kissed a Girl e a divertida Hot ‘n’ Cold. As duas músicas serviram como blueprint para toda a carreira futura de Katy: letras irreverentes e produções chiclete e pure pop feito pelo duo extraordinário Max Martin/Dr. Luke que se consolidaram como os maiores produtores daquele período.

O segundo álbum — um desafio para qualquer artista — serviu para confirmar KP como uma das maiores artistas do mundo. Com “Teenage Dream”, ela emplacou nada menos do que 5 hits gigantescos — todos alcançando o primeiro lugar nos EUA consecutivamente, um feito até então só conquistado por Michael Jackson.

Ambiciosa, Perry não poupou esforços para conseguir seu lugar no A-list da música, promovendo seu CD exaustivamente em todos os principais mercados e levando sua turnê para 5 continentes, com 127 apresentações no total. O período de promoção do álbum, que começou em maio de 2010, englobou um casamento, um divórcio, um relançamento (que deu origem a mais um número 1 nos EUA, a música Part of Me) e um filme documentário em 3D, e só terminou no outono americano de 2012.

O CD seguinte, “Prism”, tinha a missão de confirmar que Katy estava aqui para o long run. Era um projeto tão importante que Dr. Luke — que tinha assinado um contrato de exclusividade com a Sony — conseguiu ser liberado para poder produzir o álbum junto à Max Martin apesar de ser um lançamento da concorrente, Universal.

Repetir o resultado de “Teenage Dream” era quase impossível mas, apesar de não ter alcançado o nível do antecessor, o terceiro CD cumpriu sua função, produzindo mais dois hits gigantescos e inescapáveis para Perry (Roar e Dark Horse), servindo de mote para a turnê mais bem sucedida e lucrativa da cantora e concluindo com algo reservado para pouquíssimos artistas: uma apresentação no evento mais importante dos EUA, o Super Bowl, assistido por mais de metade da população.

Assim como no CD anterior, o período de atividade foi bem longo, começando no último quadrimestre de 2013 e finalizando apenas em outubro de 2015. Mas, diferente do antecessor, todos os dois número 1 de “Prism” aconteceram logo no começo do período de promoção. A era, por tanto, não foi sustentada por canções gigantescas — os subsequentes singles tiveram resultados pífios — mas sim pela tour de sucesso.

O presente

O primeiro sinal de que talvez as coisas não estivessem indo tão bem na terra de Katy foi o lançamento do buzz single Rise em julho de 2016. A música, que foi usada como tema para a transmissão das Olimpíadas nos EUA, o evento televisivo mais assistido do verão, ficou bem aquém as expectativas e passou despercebida.

O fato da música ter sido disponibilizada com exclusividade no Apple Music por uma semana foi apontado como o principal motivo para o desempenho fraco. A promoção intensa recebida no iTunes e no serviço de streaming da gigante da tecnologia não foi o suficiente para compensar o fato da canção ter sido completamente esnobada pelo Spotify que, em vingança por receber o lançamento atrasado, não a incluiu em nenhuma playlist importante e também não deu destaque a ela entre os lançamentos.

Posteriormente, a Universal Music proibiria seus contratados de fazerem lançamentos exclusivos, argumentando que esses beneficiavam mais os serviços de streaming do que os próprios artistas. A canção de Perry não foi a gota d’água para essa decisão, e sim a manobra utilizada por Frank Ocean para finalizar seu contrato com a gravadora e lançar um álbum pelo Apple Music, mas com certeza contribiu para a decisão.

Em todo o caso, era só um buzz single. Quando finalmente chegou o momento de estrear o de facto primeiro single do seu álbum, em fevereiro de 2017, a lição tinha sido aprendida a perfeição.

Chained to the Rhythm, a primeira música do KP4, lançada no dia 10 de fevereiro, foi produzido pelo Midas do pop — e frequente colaborador de Katy — Max Martin junto com a própria cantora e a australiana Sia, outro nome badaladíssimo.

Para não cometer o mesmo erro, a Capitol acertou tudo com o Spotify, que promoveu o lançamento com um banner em sua página inicial e colocou a canção em todas as suas principais playlist. O entrosamento entre o serviço de streaming e Katy foi tanto que o Spotify colocou outdoors promovendo a música em grandes metrópoles dos EUA e do Canadá, mandou  um e-mail comunicando a estreia para seus usuários e o CEO/fundador, Daniel Ek, até parabenizou Katy pela nova era no Twitter.

Além do Spotify, rádio — outro elemento importante — também estava pronta para dar o máximo apoio ao retorno de uma das principais cantoras pop do mundo. A canção ganhou estreia prioritária em todas as estações do conglomerado iHeart Radio, o maior dos EUA, que reproduziu a música pelo menos uma vez por hora em absolutamente todas as estações top 40 nas primeiras 24 horas.

E, para coroar a estreia, Katy ainda fez a primeira apresentação televisionada da música no maior evento musical de todos, o Grammy que, em 2017, obteve altíssima audiência.

Ou seja, um rollout mais estrategicamente perfeito que esse impossível. E, apesar de tudo isso, a primeira semana da canção teve um desempenho abaixo das expectativas.

No iTunes, a canção não alcançou o primeiro lugar, empacando em terceiro — algo extremamente preocupante já que até fracassos como Perfect Illusion de Lady Gaga e o próprio Rise de Perry atingiram o topo por algumas horinhas. No Spotify, apesar da promoção intensa, a música estreou em sétimo na parada global e oitavo nos EUA no primeiro dia antes de começar a despencar bem rapidamente.

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Spotify se empenha na promoção do single com um outdoor em Los Angeles

Foi uma diferença bem gritante do sucesso imediato de todos os anteriores lead singles dela que nunca tiveram nenhum problema em atingir o topo.

No resto do mundo, o resultado também não foi muito melhor. A canção não liderou a parada em nenhum dos mercados principais de Katy, como o Reino Unido ou, mais preocupante, a Austrália.

O país Oceânico tinha se rendido totalmente a artista, fruto do esforço de Katy que, com o CD anterior, deu especial atenção ao país. Em sua última turnê, Prismatic World Tour, Katy fez nada menos do que 23 apresentações na Austrália.

Como resultado disso, o terceiro CD dela, “Prism”, alcançou a espetacular marca de 5x Platina no país, superando até mesmo as vendas de “Teenage Dream”. Até a música Rise — fracasso em todo o mundo — atingiu o topo da parada de singles australiana em 2016. Chained to the Rhythm, em contrapartida, teve que se contentar com o quarto lugar, uma marca bem decepcionante.

Mas o que deu errado?

Dizer que Chained to the Rhythm foi um fracasso é uma afirmação injusta. Fracasso é, por exemplo, Perfect Illusion, o lead single do último álbum de Lady Gaga. Mas dado o que se esperava da música — atingir o topo em todo o mundo, como é costume para Katy — não tem como negar que o desempenho foi frustrante.

Nos EUA, assim como na Austrália, a situação foi particularmente desanimadora. A canção estreou em quarto no Billboard Hot 100 — fruto da boa recepção na rádio e de ter aguentado dentro do top 10 do Spotify pela maior parte da semana — mas rapidamente começou a despencar, não chegando nem perto de atingir o topo. Na Europa, apesar de picos mais baixos, a música teve mais fôlego — no Reino Unido, por exemplo, ela foi ajudada por uma apresentação no BRIT Awards — mas mesmo assim ficou aquém das expectativas. Mas, afinal, o que deu errado?

Chained to the Rhythm tinha como objetivo ser uma canção woke, uma música de protesto, que abordava a situação política dos EUA. As duas primeiras apresentações da música — no Grammy e no BRIT Awards — foram cheias de simbolismos políticos, assim como o vídeo clipe da canção. Perry, que foi um dos principais cabos eleitorais de Hillary Clinton, queria, com essa nova era, homenagear a candidata e se posicionar como uma figura que não é só uma cantora de bubblegum pop mas é também uma cidadã consciente. E para atingir esse objetivo ela foi zero sutil. A biografia dela no Twitter, por exemplo, é Artista. Ativista, Consciente.

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Perry é promovida pelo Spotify em Toronto

E ai está um dos problemas: essa escolha por ser política tinha tudo para sair pela culatra. Primeiro que, diferente de Barack Obama, Hillary Clinton não é uma figura querida ou popular e ser tão fortemente associada a ela pode alienar fãs de todos os espectros políticos, já que a candidata escolhida de Perry não é popular nem sequer entre os jovens esquerdistas, que escolheram em massa o oponente socialista dela, Bernie Sanders, nas primárias.

Apesar disso, Katy e sua equipe não estão poupando esforços para a legitimar como uma ativista consciente. Por exemplo, algumas semanas antes da estreia do single, Katy recebeu um prêmio humanitário numa cerimônia da Unicef na qual ela foi homenageada por ninguém menos que Clinton, em sua primeira aparição pública pós-derrota. Em março, Perry ganhou o National Equality Award no Human Rights Campaign.

A questão do milhão é: porque Katy merece um prêmio humanitário ou um prêmio LGBT? Fazer campanha para Hillary Clinton e cantar uma música chamada I Kissed A Girl (que, aliás, é bem homofóbica. E não vamos nem falar de Ur So Gay) não te transforma magicamente em uma pessoa consciente e, muito menos, em uma ativista social.

Ou seja, o ativismo de Perry não convenceu e o conceito da música, com toda essa estratégia de lançamento performativo ~querendo dizer alguma coisa~, soou bastante pedante para um público que, francamente, está bem saturado de política.

Mas enquanto o ativismo falho de Perry é um aspecto que contribuiu para esse início pífio, ele não é o fator principal. O principal elemento é, na verdade, algo ainda mais preocupante em termos do sucesso a longo prazo da cantora.

Ao contrário de Rihanna, por exemplo, que é bastante camaleônica e sabe transitar perfeitamente pelas tendências do momento, a imagem e o som de Katy são bastante engessados: música puramente pop chiclete, produzida por Max Martin (e por Dr. Luke, até o processo legal de Kesha acabar com sua carreira), com uma estética muito colorida e irreverente.

O problema é que, depois de muito tempo, esse estilo sônico Max Martin está perdendo espaço. Tendências, inclusive as musicais, são cíclicas e os EUA principalmente está retornando a um período mais urbano. Desde que streaming virou o método mais popular de consumo de música, o rap e o hip-hop — que sempre foram estilos enormemente populares no país — viraram reis totais e o pop pegajoso ficou, com algumas exceções, em segundo plano.

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Perry foi parte importante da campanha de Hillary Clinton

É verdade que Max Martin — que já teve um período de vacas magras na última invasão urbana entre 2001 e 2006 — segue forte e seu trademark sound ainda é capaz de ressoar no mundo todo, como provado pelo sucesso global de Can’t Stop This Feeling de Justin Timberlake mas, no geral, o som de Perry não está em seu melhor momento nos EUA.

E quanto ao resto do mundo? Afinal de contas, Chained to the Rhythm também teve uma recepção decepcionante no Reino Unido e na Austrália, dentre outros países. Será que, depois de três álbuns, a formula de Perry simplesmente cansou?

Existe salvação?

Como já disse, Chained to the Rhythm não foi um fracasso gigantesco. A música simplesmente teve um desempenho abaixo das expectativas. Então sim, Perry pode ser capaz de sair dessa.

De certa maneira, o desempenho da música lembra um pouco o lead single do último álbum de Bruno Mars, 24k Magic.

Bruno, assim como Katy, é um artista que tem facilidade histórica de atingir o topo das paradas e o fez várias vezes, inclusive com o lead single de seus dois primeiros álbuns. Ele também teve o maior sucesso de 2015, a inescapável Uptown Funk. Sendo assim, todo mundo esperava que a primeira música de seu terceiro álbum fosse, logo de cara, um gigantesco sucesso global.

Mas não foi o que aconteceu. Assim como a música de Perry, 24k Magic empacou em oitava no Spotify dos EUA e nunca alcançou o topo em nenhum dos mercados principais, sendo apenas um sucesso razoável enquanto todo mundo esperava um smash hit dado o track record impressionante de Mars ao longo dos últimos 5 anos.

Apesar disso, Bruno se recuperou bem e o segundo single do álbum, That’s What I Like, já é um sucesso muito maior do que a música anterior e deve alcançar o topo da parada do EUA em breve. Além disso, a turnê dele esgotou em minutos e o álbum segue um vendedor constante mundo afora. Ou seja, existe vida após um single de estreia decepcionante.

Seria Chained to the Rhythm um deslize ou um prenuncio de uma decadência brava na carreira de Katy Perry? Stay tuned.

How-to: Como ser a revelação musical fenômeno do ano no Reino Unido

Leia antes: A cena musical britânica e sua constante renovação

No post anterior, fiz um repasse detalhado das renovações da cena musical britânicas e das revelações que aparecem ano após ano. E agora, vim ensinar como você também pode seguir os passos de Adele e Ed Sheeran e se transformar no novo fenômeno de vendas do Reino Unido rssssss

Mas falando sério, ao longo de meus anos de observação, percebi que existe uma receita para que as grandes apostas das gravadoras atinjam o seu máximo potencial. Essa receita acaba sendo, na verdade, um ótimo insight da indústria britânica como um todo. Por isso, acho interessante dividir com vocês as várias etapas que ajudaram Sheeran, Sam Smith dentre vários outros a alcançar sucesso meteórico com seus primeiros álbuns.

  • Antes do público, conquiste a indústria: Isso foi essencial para absolutamente todos os ganhadores do Critics’ Choice, afinal de contas, nenhum deles teria ganho o prêmio se eles não tivessem executado esse passo à perfeição. Ser bem conectado dentro do biz é necessário para que tudo esteja alinhado a favor do artista no momento que este tiver a chance de lançar um álbum. Glynne, Jessie J e Emeli Sande conheceram os produtores por detrás de seus sucessos através de carreiras como compositoras. Florence, Bay e Smith também faziam parte do inner circle musical fazia tempo. Além disso, ter essas conexões é importante para conseguir reuniões, fazer shows privados para executivos tanto nos EUA quanto no Reino Unido, ter  early buzz nas principais rádios e na BBC e para, quem saber, ser convidado para ser vocalista convidado em algum hit em potencial, o que nos leva a outro ponto…
  • Hits pré-estreia aumentam seu valor no mercado: Ser vocalista convidado em canções de sucesso aumentam o interesse do público e garantem airplay do material solo do artista nas grandes rádios. Jess Glynne, Emeli Sandé e Sam Smith tiveram impulso enorme graças a participação deles em number one hits de outros artistas e produtores antes de suas estreias oficiais.
  • Tente cultivar uma fanbase antes da seu primeiro single oficial: Lance mixtapes, disponibilize seu trabalho na internet, consiga buzz através de shows pequenos, cante em festivais. Foi assim que Ed Sheeran conseguiu um top 5 hit de imediato quando finalmente teve chance de lançar “The A-Team” mas também funcionou muitíssimo bem para Lily Allen, James Bay, dentre vários outros. Outro bom meio para ganhar divulgação é o BBC Introducing, que destaca novos talentos e dá espaço para novatos tanto na Radio 1 quanto em palcos especiais em festivais de grande porte como Glastonbury, T in the Park, Leeds and Reading e o próprio evento da estação, Radio 1 Big Weekend. Foi através do Introducing que Bastille, George Ezra, Florence & the Machine e Jake Bugg foram apresentados ao público.
  • Tenha credibilidade (ou a ilusão de ter): Mesmo que você seja uma artista puramente pop comercial, como Jessie J, é sempre um bônus criar a ilusão de que você é um ~artista de verdade~ que acrescenta algo de novo a cena. Fazer a estréia no Jools Holland — um programa bastante popular entre music snobs e conhecido por destacar música boa e musicos autênticos — é um ótimo começo e foi a plataforma de lançamento de basicamente todas as revelações citadas nesse post. Ser incluso no line-up do Glastonbury e outros festivais mais “sérios” também é muito bom, assim como ter alguma cobertura na imprensa especializada. Outro ponto importante: ganhar destaque na Radio 1, a rádio da BBC que, apesar de ser comercial, também tem credibilidade. Seja hyped pelas personalidades da emissora e tente aparecer no Radio 1 Live Lounge — onde artistas cantam versões stripped down de seus hits e fazem covers de sucessos de terceiros — para mostrar sua versatilidade e dotes vocais.
  • Mas também seja comercial: A Radio 1 é um bom começo mas, para ter um hit, é essencial ter airplay nas rádios top 40 comerciais, sobretudo a Captial FM, a estação líder entre jovens. Para isso, claro, a música tem que estar de acordo com as tendências do momento. Televisão também é muito importante: é preciso ir em pelo menos um talk-show de destaque (Graham Norton na BBC1 é o mais cobiçado mas Jonathan Ross na ITV também é uma boa alternativa) e, para os que tem estomago, The X Factor segue sendo um prime spot de divulgação, mesmo em plena decadência. Cantar no evento anual de caridade da BBC — Children in Need ou Comic Relief — é ótimo mas ainda melhor é uma música sua escolhida como o “single oficial” do evento (como aconteceu com Sam Smith; James Bay; Ellie Goulding e Jess Glynne). Além de Glastonbury, não dá para dispensar festivais mais comerciais — como o V Festival — e eventos grandiosos organizados pela rádio. O Radio 1 Big Weekend é um must mas o Capital FM Summertime Ball ou o Capital FM Jingle Bell Ball também são um big deal, principalmente para os que tem uma sonoridade e imagem mais pop.
  • Para pais e filhos: Os jovens gostarem de você é muito importante mas, para vender muito, é bastante útil ter as mães e os pais e os tios e as tias do Reino Unido inclinados a comprar sua música, afinal são eles que mais compram CD. Aparecer na TV, claro, ajuda o artista a atingir esse público mas os singles têm que ser atuais o suficiente para estar na Capital FM mas também melódicos na medida certa para conseguir airplay nas rádios voltadas ao público acima dos 30, como Radio 2, Magic ou Heart. Ou seja, evite ter um guest rapper. E cuidado: exposição em rádios adultas é bom para vender CD mas, se você quiser manter a imagem de hip e cool, não se associe demais a esse público. Evite, por tanto, eventos “de velho”. Entrar na playlist da Radio 2 é bom mas deixe o Radio 2 Live in Hyde Park, o grandioso evento organizado pelo estação, para Elton John; Rod Stewart e Bryan Adams ou para artistas que os jovens já decidiram que não querem mais (tipo Leona Lewis). O lugar do artista cool é no Radio 1 Big Weekend.
  • Tenha ambições de conquistar a América: O artista precista ter ambição e a confiança de que conseguirá penetrar o mercado dos EUA. A verdade é que ele provavelmente não conseguirá, mesmo se tiver obtido grande sucesso no Reino Unido, mas todos os A&R de gravadoras e empresários só apostam em que eles acreditam que tem chance de conquistar a muitíssimo valiosa Terra do Tio Sam. Esteja disposto para ir no programa da Ellen, em programas matinais e late night talk shows e shows de rádio e e shows para executivos do outro lado do Atlântico. Conseguir um slot para cantar no Saturday Night Live já é meio caminho andado e você já pode se considerar vitorioso se conseguir um top 10 hit ou uma indicação a Best New Act no Grammy.
  • Timing é tudo: O álbum deve ser lançado bem próximo de um single bem pancada, que tenha probabilidade altíssima de virar hit e represente o som e a vibe do artista. Stay with Me de Sam Smith e Hold my Hand de Jess Glynne e Hold Back the River do James Bay e Next to Me de Emeli Sandé e Starry Eyed de Ellie Goulding foram todos lançados bem próximos aos respectivos álbuns. Por outro lado, o CD de Tom Odell chegou as lojas meses depois de Long Way Down, o maior hit dele, o que possivelmente colaborou para que as vendas não fossem tão altas quanto esperado.
  • Corra para o abraço: Caso você obtenha sucesso nos passos acima, você será convidado para uma grandiosa performance no BRIT Awards do ano seguinte ao lançamento do seu álbum e, quiçás, ganhara um prêmio. Possivelmente, será o ápice da sua carreira, então aproveite. Os mais sortudos conseguiram sustentar o sucesso por mais álguns álbuns ou algum tipo de sucesso nos EUA, mas não todos. Boa sorte!

A constante renovação da cena musical britânica

A indústria fonográfica do Reino Unido — a terceira maior a nível global (atrás dos EUA e do Japão) — é uma das mais dinâmicas do mundo e é origem de vários dos artistas mais influentes da história (Beatles; Rolling Stones; Queen; Spice Girls; Oasis) e da contemporaneidade (Adele; Ed Sheeran; Coldplay).

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Adele, maior estrela do mundo, made in UK

Mas, claro, é uma indústria que depende, acima de qualquer coisa, do mercado interno. E esse mercado não é moleza: o público britânico é bastante influenciado pelas tendências do momento e sedento por novidades. Para mantê-los satisfeitos, é necessário uma constante renovação e criação de novos talentos ano após ano.

A shelf life do artista do momento não precisar ser duradoura. Muito pelo contrário: muitos só duram 1 álbum. A longevidade não é importante, o hype a curto prazo que é. Se ele durar — alguns conseguem — ótimo. Se não, não tem problema: novos artistas — mais condizentes com o que é cool no momento — surgirão para substituí-lo.

Apesar disso ser relativamente comum em todo o mundo, o ritmo no Reino Unido é particularmente frenético e, para que essa renovação possa acontecer, a indústria britânica conta com a total colaboração da mídia local — estações de TV e de rádio sabem promover artistas a perfeição, criando hype e dando espaço para que as apostas do momento possam brilhar. Um elemento importante desse aparato todo são duas premiações específicas que tem como objetivo apresentar quem serão os hot new acts da temporada. São elas: BBC Sound of... e o BRIT Critics’ Choice.

A enquete da BBC é a mais hypada por ser mais eclética e ousada. Porém, o Critics’ Choice — que serve como uma categoria da principal premiação da música britânica, o BRIT Awards — é bem mais comercial e, por tanto, mais certeiro.

Ter o selo de escolhido do Sound of… dá uma aura de credibilidade e expectativa para o artista e garante uma cobertura decente nos veículos da emissora pública britânica, incluindo airplay na influente Radio 1.

Receber o Crticis’ Choice, porém, significa o apoio integral dos executivos das principais gravadoras e respaldo não só da BBC mas também das estações de rádio comercial e emissoras de TV privada (principalmente a Capital FM, a principal rádio top 40 do país, e a ITV, o canal que exibe os BRIT). Apesar do nome aludir a críticos, a escolha é feita, na verdade, pelos executivos das grandes gravadoras.

Através dos escolhidos nas premiações, vamos dar uma olhada em como a indústria britânica se renovou ao longo da última década.

2008:

BRIT Critics’ Choice: Adele
BBC Sound of 2008: Adele

Em 2008, o Sound Of… estava em seu sexto ano mas só então começava a exercer maior influência. Indo na mesma onda de promover novos artistas, o BRIT Crtics’ Choice foi criado. Ambos se alinharam perfeitamente, selecionando a mesma artista como vencedora: Adele. Bem óbvio o quão acertada foi essa decisão, não é mesmo? Mas é hilário voltar ao tempo e ver que, naquele então, a escolha foi quase injusta.

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Causando en español: si necesita el reggaeton, ¡dale!

A dominação atual

Um estilo domina as paradas de sucesso do mundo hispânico: o reggaeton. Esteja em Miami ou Madrid; Barcelona ou Cidade do México; Buenos Aires ou Bogota, nada bomba tanto quanto um sucesso do gênero.

Esse monopólio pode ser confirmado com uma olhada no top 50 do Spotify nos principais mercados ibero-americanos. No México, por exemplo, apenas 13 músicas em espanhol aparecem dentre as mais ouvidas, mas 10 dessas são reggaeton. Na Argentina, a dominação é ainda mais evidente: 24 dentre as 28 músicas na língua pátria entre as 50 mais ouvidas pertencem ao gênero. Chile (21/25); Espanha (17/21) e Colômbia (17/19) não ficam atrás.

De certa maneira, esse takeover pode ser comparado com o sertanejo que, no Brasil, se solidificou como, de longe, o estilo mais popular. Até os números no Spotify são similares: 18 das 22 músicas brasileiras no nosso top 50 são de artistas sertanejos.

Além do sertanejo, o reggaeton também tem paralelos com o funk: um estilo assumidamente popular e que muita gente torce o nariz para mas que, na pista, é sempre sucesso garantido.

A origem

Comparações aparte,  a explosão do reggaeton é relativamente recente. O gênero surgiu no Panamá, na década de 1980, antes de chegar em Nova Iorque e, finalmente, em Puerto Rico. Foi na colônia estado-unidense onde o estilo começou a se massificar, com o gigantesco sucesso de Don Omar. A explosão internacional de Gasolina de Daddy Yankee, em 2004, confirmou o reggaeton como um dos principais pilares da música latina.

Enquanto o sucesso de Omar ficou mais restringido ao mercado latino (pelo menos até 2010, com Danza Kuduro),  Gasolina transcendeu barreiras linguísticas e atingiu o top 10 geral da Billboard assim como as paradas europeias e até japonesa. O álbum que continha a música, Barrio Fino, vendeu 1.7 milhão de unidades nos EUA, o maior vendedor latino da década. E Yankee se transformou numa lenda e no rei do reggaeton.

Nenhum dos singles subsequentes teve o alcance internacional de Gasolina, mas o porto-riquenho se transformou num staple na cena latina e suas músicas fazem sucesso até hoje. O triunfo dele também ajudou dezenas de outros grandes nomes do reggaeton — todos de origem porto-riquenha — a emergirem.

A música desses artistas fez a América toda dançar mas a falta de sangue novo no gênero acabou causando uma saturação e Pitbull, com suas produções mais urban top 40, grande partes dela em inglês, se apossou do nicho festeiro no final da década.

Mas Yankee, Wisin, Yandel e demais artistas nunca pararam de produzir hits e se mantiveram consistentes no cenário latino (que, aliás, é bem fiel). Na Espanha, o DJ catalão Juan Magan — o rei do electrolatino — junto a outras dezenas de artistas provenientes das Américas também ajudaram a fazer do ritmo algo completamente inescapável. Mesmo ofuscado, o estilo foi uma presença constante, ajudando a abrir caminho para o atual monopólio.

De San Juan a Medellin

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Enquanto Puerto Rico foi quem deu o ponta pé inicial no fenômeno, foi a Colômbia, especificamente a cidade de Medellín, que elevou o estilo ao seu atual patamar e deu uma nova roupagem ao gênero. O primeiro megastar proveniente dessa nova fase foi J. Balvin.

A hypada publicação americana Fader, que dedicou uma capa ao megastar latino, fez uma boa descrição da diferença entre o colombiano e os anteriores ícones do gênero:

“O reggaeton de Balvin é mais sutil, mais relaxado e mais em linha com o que está acontecendo na cena pop e hip-hop atual. Enquanto Daddy Yankee parecia estar gritando em suas músicas, Balvin canta com uma pronunciação mais suave”, descreve a revista.

“Ao invés de enormes óculos aviadores e bonés largos, Balvin opta por um chapéu de cowboy de abas largas e streetwear direto da passarela de designers badalados como Guillermo Andrade”.

Assim como Kanye e Drake ajudaram a reinventar a cena do rap, Balvin — com seu swagger e estilo — marcou um novo começo na cena do reggaeton. Em 2011, ele começou a emplacar sucessos na Colômbia. Em 2012, Yo Te La Dije e Tranquila estouraram nos EUA, nas Américas e na Espanha. E, em 2013, ele obteve seu primeiro mega blockbuster hit com 6 AM. Seu primeiro álbum, La Familia, foi um grande sucesso e, provando que tinha chegado de verdade,  emplacou logo em seguida outro inescapável hit, Ay, Vamos.

O estilo único de Balvin está diretamente ligado a sua história de vida: nascido numa família de classe alta em Medellín, ele cresceu apaixonado por grunge e Nirvana. Depois,  descobriu Daddy Yankee, sua maior inspiração. Sua família foi a falência e Balvin começou a transitar entre dois mundos, estudando numa escola de elite e vivendo num bairro próximo do gueto. Num intercâmbio para os EUA, ficou fascinado pelo universo do rap e hip-hop e todo o business bilionário em torno do gênero. Voltou para sua cidade natal disposto a fazer do reggaeton um negócio similarmente lucrativo. E, claro, o resto é história.

Balvin aponta Yankee como a figura responsável por fazê-lo se apaixonar pelo reggaeton. O porto-riquenho também tem influência direta em outro dos principais nomes ligados a cena de Medellín, Nicky Jam.

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Nicky Jam

Jam nasceu em Massachusetts mas foi criado em San Juan, Puerto Rico. Seu talento chamou atenção de Daddy Yankee, que o apoiou e o treinou em seus primeiros anos, além de ter colaborado com ele em várias músicas. Não demorou para começar a obter sucesso mas as drogas e uma briga com seu mentor (que estava prestes a estourar com Gasolina) deram fim prematuro a sua carreira, interrompida em 2005.

Com a autoconfiança abalada, Nicky Jam se mudou para Medellín. A cidade era louca por reggaeton mas, antes de Balvin explodir, poucos imaginavam que alguém de lá poderia se tornar um grande astro do gênero. A chegada do porto-riquenho na cidade — com seu sucesso prévio e sua antiga associação com Yankee — causou burburinho e não demorou para as portas começarem a se abrir uma atrás da outra.

A forte cultura musical colombiana (cujo gênero local principal é o vallenato) influenciou Jam a dar mais melodia e romantismo a suas produções. E, depois de anos se preparando, ele finalmente estava pronto para oficialmente retornar. Foi um sucesso de imediato. Em 2014, a repercussão arrebatadora do single Travesuras o colocou na primeira linha. Apesar de ter nascido nos EUA e ter sido criado em San Juan, o sucesso dele era made in Colombia.

Em paralelo a Jam e Balvin, outra cria de Medellín começava a deixar sua marca. Enquanto Travesuras estourava, Maluma, então com 20 anos, conquistava a Colômbia com seu rostinho bonito e se estabelecia como o maior teen idol do país. O sucesso da sua música La Temperatura abriu as portas dos EUA, assim como de outros mercados latinos e da Espanha e deixava claro que ele também não estava para brincadeira. Com a ajuda das redes sociais, o garoto se estabelecia como uma das estrelas mais rentáveis da América Latina.

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Maluma

2015: o ano em que reggaeton virou a norma

Se Travesuras tinha dado nova vida a carreira de Nicky Jam, o porto-riquenho — agora baseado em Medellín — não imaginava o que estava por vir em 2015: seu single subsequente se transformaria num dos maiores sucessos em espanhol da história recente.

El Perdón, que contava com a participação de Enrique Iglesias, inquestionavelmente um dos maiores astros da música latina, passou 1 ano inteiro no topo de absolutamente todos os países de língua hispana (e 30 semanas no topo do Hot 100 Latin dos EUA), acumulou mais de 1 bilhão de views no YouTube e se transformou na música em espanhol mais streamed do Spotify (335mi), transcendendo barreiras e atingindo o top 10 de mercados não latinos como Alemanha, França, Suécia e Holanda. A música cristalizou a posição de Jam dentre os maiores nomes da música latina. O single também significou um renascimento de Enrique Iglesias.

De certa maneira, Iglesias serve como um termômetro do que é popular no cenário latino: ele está sempre colaborando e produzindo músicas de maneira milimetricamente planejada para obter os maiores hits.

Sendo assim, a transição de Enrique para o reggaeton foi um momento divisor de águas: era um sinal de que o gênero deixava de ser apenas mais um estilo popular para se transformar no estilo principal.

Iglesias é, desde meados dos anos 90, um dos maiores nomes da música em espanhol. Assim como seu pai, Julio, seu repertório era formado por baladas românticas e, logo de cara, ele virou um dos maiores astros da América Latina, com hits como Experiencia Religiosa e Nunca Te Olvidaré antes de crossover para o mercado anglo-saxão com giga hits como Hero e Escape.

Em 2007, Iglesias voltou as paradas com uma série de sucessos em inglês como I Like It e Tonight (I’m Fucking You), quase todos com participação de Pitbull. Para suas canções em espanhol, contudo, ele seguiu apostando em um som mais romântico, obtendo grandes sucessos como Cuando Me Enamoro, uma colaboração com Juan Luis Guerra que ficou 14 semanas em primeiro lugar, assim como duetos com grandes ícones da música romântica como Romeo Santos (Loco) e Marco Antonio Solis (El Perdedor)

Mas, em 2014, o artista espanhol começou a flertar com estilos mais dançantes. O resultado foi Bailando, uma colaboração com o grupo Gente de Zona e o artista Descemar Santos, ambos cubanos, que mesclava pop, flamenco e um pouco de reggaeton. Foi um sucesso sem precedentes na carreira do artista, superando todos os seus sucessos anteriores (e isso não era tarefa fácil para alguém que, naquela altura, já tinha passado 104 semanas no topo da parada Latina da Billboard).

Foram 41 semanas ininterruptas no topo da Billboard Latin Tracks, um recorde histórico. Nos EUA, a canção vendeu 3 milhões de unidades, números inéditos para uma faixa em língua estrangeira. Na Espanha e na América Latina, a música tocou — sem parar — por 1 ano inteiro. O clipe acumulou mais de 1.6 bilhão de visualizações no YouTube, se tornando o vídeo em espanhol mais visto na plataforma (e o nono mais visto no total).

Repetir esse sucesso não seria fácil. Mas daí Iglesias viu um trecho de El Perdón, que Jam estava previewing no Instagram; pediu para participar e o resto é história. A canção fez o impossível e igualou o sucesso histórico da antecessora, dando para Enrique mais um ano ininterrupto no topo das paradas de todos os países hispano e além (a música foi um enorme sucesso em quase toda Europa continental).

O fenômeno da colaboração com Nicky Jam fez com que Enrique finalmente assumisse seu novo papel de reggaetonero. Duele El Corazón, seu follow-up, uma colaboração com Yandel, provavelmente encerrará o ano como um dos maiores hits de 2016.

O cenário atual

Basta ver a diferença de orçamento entre os clipes de reggaeton de 2014 para o presente para constatar que, graças a rentabilidade dos principais nomes do gênero, muita coisa mudou.

Enquanto Iglesias se acomodava e Nicky Jam ascendia, J. Balvin seguia imparável. Depois do sucesso de 6 AM e Ay, Vamos!, Balvin lançou, em julho, o que se tornaria seu maior hit internacional até então: Ginza. A música foi catapultada quase de imediato para o topo de todos os países que falam espanhol (e substituiu El Perdón na Hot 100 Latin, onde ocupou o primeiro lugar por 20 semanas)  e é a segunda canção em espanhol mais ouvida da história do Spotify. No YouTube, são mais de 700 milhões de visualizações (mas ainda não chega nem perto do sucesso de Ay Vamos! na plataforma).

Balvin atingiu um milestone importante quando foi selecionado para fazer parte do jurado do The Voice mexicano. O programa frequentemente atraí nomes gigantes para seu painel, como Alejandro Sanz e Laura Pausini. Sendo assim, a adição de Balvin foi um huge deal e um testamento de sua força no mercado (de quebra, a candidata dele ainda ganhou a edição), consolidando-o como um household name no México, inquestionavelmente o principal mercado hispano-americano (que tem influência direta no que faz sucesso no lucrativo mercado latino dos EUA). Por lá, ele ainda tem tem um contrato milionário com a Pepsi e aparece nas embalagens do refrigerante.

Ele também se solidifica como um fashion icon — algo nunca antes visto no cenário urbano latino — usando peças Gucci, Saint Laurent, Chanel e colaborando até com a Vogue.

Mais importante, ele segue como um hitmaker impressionante. Otra Vez, sua colaboração com o duo porto-riquenho Zion & Lennox, é atualmente o reggaeton mais badalado na América Latina, no top 5 do Spotify do México, Espanha e Argentina (e disparado em primeiro no Chile e na Colômbia). Seu atual single solo, Safari, acumulou 30 milhões de visualizações no YouTube em uma semana (depois de duas semanas de exclusividade na Apple Music). E o anterior, Bobo, quebrou recorde de views e streams nas principais plataformas.

Assim como Balvin, Nicky Jam também tem o toque de Midas:  depois de 20 semanas ininterruptas em primeiro lugar no Hot Latin Tracks, Ginza foi substituído no topo da Billboard pelo primeiro single pós-El Perdón do porto-riquenho, Hasta El Amanecer. A canção encabeçou a lista por 14 semanas  e quebrou recordes no YouTube  e no Spotify (sendo o single em espanhol de maior sucesso de 2016 em ambas as plataformas).

Sua colaboração com Cosculluela, Te Busco, também está impressionando: apesar de nem sequer ter um clipe ou um lyric video oficial, a canção já tem mais de 300 milhões de views no YouTube e está prestes a penetrar o seleto grupo de músicas em espanhol no Spotify que superaram 100 milhões de streams (apenas 12 canções no idioma atingiram a marca, das quais três são de Jam).

Nada mais natural que tanto o colombiano quanto o porto-riquenho estejam em altíssima demanda. O primeiro colaborou com Pharrell Williams (que cantou em espanhol para a canção Safari) e Justin Bieber (sendo responsável por adicionar alguns versos na versão para o mercado hispânico do giga hit Sorry). O segundo foi acionado por Maná, inquestionavelmente o maior grupo de rock latino , para fazer um remake reggaeton de De Pies a Cabeza, um sucesso de 1992, e também por Sia, que o incluiu na versão latina de Cheap Thrills.

Mas a disputa pelo topo não foi só entre Balvin, Jam e Enrique. O já mencionado Maluma está se provando um fenômeno igualmente potente e, possivelmente, o nome mais rentável de todos. Com seu rosto de proporções perfeitas e seu estilo fashion, o autodenominado Pretty Boy, Dirty Boy emplacou seu primeiro gigantesco hit, Borro Cassette, no começo desse ano. A música atingiu o topo em todos os principais mercados — México, Argentina, Chile, Espanha — e o terceiro lugar nos EUA.

O poder dele ficou claro quando os ingressos de sua turnê foram disponibilizadas. Ele esgotou 5 noites no Luna Park de Buenos Aires em tempo recorde e sua turnê mexicana, incluindo duas noites no lendário Auditorio Nacional da Cidade do México, também estava toda vendida com meses de antecedência. Enquanto Balvin assinou com a Pepsi, Maluma é garoto propaganda da Coca Cola. Nas redes sociais, seus números já superam os de quase todas os outros mega astros latinos. Seus singles são imediatamente adicionados na alta rotação das rádios latinas, além de penetrarem as paradas do Spotify com enorme rapidez. No Youtube, ele é rei absoluto de views. No Instagram, nenhuma estrela hispânica tem tantos seguidores e likes.

Seu calibre é tamanho que sua estreia no Brasil foi digna de estrela internacional de primeiro escalão, aparecendo com equal-billing em Sim Ou Não, primeiro single do novo álbum de Anitta, a maior estrela pop do país (Ginza de J. Balvin também fez sucesso aqui graças a uma versão com a participação dela).

Anitta está longe de ser a estrela mais high profile com a qual o colombiano colaborou. Ele aproveitou uma passagem relâmpago por Barcelona para gravar com uma conterrânea que é, inquestionavelmente, a maior estrela da América Latina, Shakira.  Ele também está no próximo single de outro dos principais astros da região, Ricky Martin. E Desde Esa Noche, sua colaboração com Thalia, está bombando.

A velha guarda

Apesar do enorme sucesso da nova geração, Daddy Yankee segue o rei. Já se passaram 12 anos desde seu primeiro giga hit, Gasolina, mas ele segue no topo das paradas. Shaky Shaky, seu atual single, é, junto com Otra Vez, o maior hit reggaeton do o momento. Atualmente, a canção está em primeiro no Spotify da Argentina e no top 10 de todos os demais mercados. O vídeo da canção é a música em espanhol mais popular do YouTube das últimas semanas (quarto vídeo mais visto no total, superando quase todos os lançamentos de artistas anglo-saxões).

Enquanto o som de Yankee é bem batidão, seu arquirrival, Don Omar, é conhecido por seguir uma linha bem mais romântica. Atualmente, se dedica a atuação, fazendo parte da mega franquia Velozes & Furiosos (que fez de Danza Kuduro música tema de seu quinto filme, um sucesso global).

Apesar de sempre terem posado para mídia como “inimigos”, Yankee e Omar tem, na realidade, uma relação profissional amigável. Esse ano, até fizeram uma turnê em conjunto, The Kingdom, que esgotou as principais arenas dos EUA, incluindo o Madison Square Garden de Nova Iorque, o Staples Center de Los Angeles e a American Airline Arena de Miami.

Além dos dois, outra dupla monopolizou o gênero nos idos dos anos 2000: Wisin & Yandel. Depois de gravar dezenas de sucessos em conjunto, ambos seguiram em carreira solo. Wisin obteve um hit inescapável em 2014, Adrenalina, com a ajuda de J.Lo e Ricky Martin enquanto Yendel fez bonito junto a Daddy Yankee com Moviendo Caderas. Depois, Wisin se juntou a estrela colombiana do pop vallenato, Carlos Vives, no sucesso Notas de Amor e Yandel, sozinho, obteve grande sucesso com Encantadora.

Hit instantâneo

O mercado latino é extremamente fiel. Shakira é capaz de produzir um hit instantâneo no continente hoje em dia quase tão facilmente quanto em 2003 ou em 1997. Ricky Martin, Marc Anthony, Chayanne, Maná e Alejandro Sanz seguem enchendo os maiores estádios. Uma vez que o público latino te aceita entre os grandes, ele não vai te abandonar tão facilmente. Mas fidelidade e consistência não significa que eles não são ofuscados pelas novas sensações jovens. Por isso, um remédio foi encontrado: se associar com as tais sensações.

Seguindo o exemplo de Iglesias, todos os principais  nomes da música em espanhol estão se rendendo ao reggaeton.

Lançado em 2015, La Mordidita, de Ricky Martin, foi o maior hit do porto-riquenho na década. O próximo single dele, que será lançado essa sexta, será uma colaboração com Maluma. O lendário cantor colombiano Carlos Vives também frequentemente colabora com o pretty boy colombiano (o fato de dividirem um empresário provavelmente ajuda) e obteve um grande sucesso com Notas de Amor, junto a Wisin e Daddy Yankee. Marc Anthony emprestou seus vocais para La Gozadera, o giga hit do Gente de Zorra que homenageia a América Latina (e, ironicamente, foi um dos maiores hits da história recente não no continente, mas sim na Espanha, atrás apenas de El Perdón). Com Desde Essa Noche, também colaboração com o fenômeno Maluma, Thalía obteve seu maior sucesso da década.

Outra técnica utilizada para maximizar o impacto das canções no mercado latino: regravá-las em estilo reggaeton.

Carlos Baute, popular cantor de origem venezuelana, tem obtido grande sucesso com Amor y Dolor refeito pelo duo porto-riquenho Alex & Fido. A banda romântica mexicana Reik fez sucesso com Ya Me Enteré mas o urban remix, refeito por Nicky Jam, é o que está penetrando o top 10 do Spotify em países onde a versão original não chegou sequer ao top 50 (como Argentina, Chile e Espanha). Como já mencionei antes, até o Maná, não exatamente conhecidos por serem inovadores, se rendeu, relançando uma versão do seu hit de 1992, De Pies à Cabeza com Jam. Vários dos maiores hits internacionais do ano (Cheap Thrill; Sorry; Cold Water) também adicionaram os principais nomes do gênero (Balvin, Jam, Don Omar) em remixes lançados especialmente para o mercado hispânico.

Dos países hispânicos para o mundo

O mais óbvio próximo passo é fazer com que o gênero conquiste de vez o resto do mundo.

Isso inclui, claro, os dois principais mercados de todos, notoriamente resistentes a músicas estrangeiras: os EUA e o Reino Unido (Gasolina e Danza Kuduro foram as únicas duas músicas a atingirem o mainstream nesses dois países).

No Brasil, Anitta, inquestionavelmente o maior nome pop do país, serve como uma embaixadora não oficial do gênero. Com a ajuda dela, Ginza, de J Balvin, obteve sucesso por aqui e Maluma está sendo introduzido em grande estilo pela diva pop . Fica a dúvida se o reggaeton, que já conquistou todo o resto do continente, conseguirá levantar voo em nosso mercado.

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Alguns acreditam que gravar em inglês pode agilizar a conquista do mundo anglo. Nicky Jam, que nasceu nos EUA e Enrique, um ato global, costumam gravar versões em inglês dos seus maiores hits. Apesar de o idioma ter mais alcance, nenhum desses remakes ganhou tração.

Já Balvin declarou que não pretende se render. A aposta dele é que o mundo English-speaking que se entregará ao espanhol (como Pharrell Williams faz no atual single do colombiano ou Drake fez em Odio, do astro da bachata Romeo Santos).

Seja como for, a verdade é que os ventos sopram a favor do reggaeton: os dois maiores sucessos de 2016 foram One Dance de Drake e Work da Rihanna, ambas músicas que, assim como o estilo sensação latino, têm enorme influência jamaicana e caribenha. Repetição e batidas familiares são a porta para o sucesso. Logo, essa onda tropical abre precedentes para músicas com estilo similar — como reggaeton – acontecerem nas rádios e nas paradas mundo afora.

Será que é só questão de tempo até as paradas globais refletirem as da Espanha e da América Latina?

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Causando nas Paradas: Dominação escandinava

O sueco Max Martin é, sem duvida nenhuma, o produtor mais influente e poderoso da música popular moderna, tendo sido responsável tanto pelos hits definidores de Britney Spears e dos Backstreet Boys no fim dos anos 90 quanto pelos sucessos inescapáveis contemporâneos de Taylor Swift, Katy Perry, The Weeknd, Maroon 5 e inúmeros outros. Por sua vez, grande parte do repertório estourado de Rihanna veio dos estúdios dos noruegueses do Stargate.

Baseado apenas nesses dois, já dá para comprovar que a mágica escandinava é elemento essencial no sucesso de 99% dos nomes mais estourados da música pop global. Recentemente, porém, a Escandinávia parece ter cansado de ficar apenas nos bastidores e está começando a invadir o palco principal.

Estrelas provenientes da região estão dominando as paradas dos mercados mais influentes do mundo e, cada vez mais, os charts da Noruega, Dinamarca e, principalmente, da Suécia são indicativas de futuros sucessos internacionais.

A banda dinamarquesa Lukas Graham (capitaneada, coincidentemente, por Lukas Graham) é um grande sucesso na seu país de origem desde o seu debut, em 2012. Mas, no fim de 2015, a música 7 Years virou o primeiro chart-topper deles no país vizinho, Suécia. E, se a Suécia aprovou, grandes chances do resto do mundo também abraçar.

Voila. Essa semana, a música completa 1 mês no topo da parada de singles do Reino Unido, o mercado mais influente da Europa. O single também acaba de alcançar o primeiro lugar no iTunes dos EUA, obviamente o maior mercado fonográfico do universo.

Em dezembro de 2015, antes de 7 Years acontecer mundo afora, a canção já tinha sido desbancada na Escandinávia pelo DJ norueguês Alan Walker. Faded foi o primeiro lançamento de Walker, que tem apenas 18 anos (!!!!), e foi imediatamente para o primeiro lugar das paradas na Suécia, na Dinamarca e em sua Noruega natal.

Com o seu sucesso explosivo instantâneo, Walker demonstra seu potencial para se transformar numa mega estrela da EDM (electronic dance music) junto com outros nomes locais como Kygo (da Noruega), Avicii (o sueco é a maior estrela do gênero) e os aposentados da Swedish House Mafia que foram diretamente responsáveis por dar o gás necessário para transformar a música eletrônica em um dos gêneros mais lucrativos e populares da atualidade.

Depois de estourar na Escandinávia, o DJ começou 2016 alcançando o topo de todos os demais países europeus. Recentemente, chegou ao primeiro lugar na Alemanha, o terceiro maior mercado fonográfico ocidental, onde quebrou o recorde histórico de streaming, com 3.7 milhões de plays em plataformas como Spotify e Deezer em uma semana. No Reino Unido, a música ainda não chegou ao top 20 mas, essa semana, ela foi oficialmente inclusa na playlist da Radio 1, a estação de rádio mais influente do país.

Finalmente temos Zara Larsson. A loira, que parece ter nascido pronta para a fama pop, também tem apenas 18 anos e, através das redes sociais, mostra ser muito mais do que apenas um rostinho bonito, com seu feminismo e defesa de imigrantes e refugiados.

Na sua Suécia natal, ela já é popular faz bastante tempo, tendo sido revelada num programa de talento local e tendo atingido o topo da parada pela primeira vez com a balada Uncover, um gigantesco hit em 2013

Em junho de 2015, ela voltou para o primeiro lugar em seu país: a upbeat Lush Life foi um dos grandes hits de verão no país. Meses mais tarde, mais um mega-hit com Never Forget You, uma colaboração com o britânico MNEK. Ambas as canções também arrasaram por todo o resto da Europa e Lush Life inclusive chegou ao topo na Alemanha.

Agora, Larsson parece estar pronta para conquistar o mundo. No Reino Unido, a menina tem duas canções no top 5: Girls Like, sua colaboração com o rapper Tinnie Tempah e, algumas posições acima, seu megasucesso solo Lush Life. No fim do ano passado, Never Forget You passou semanas no top 10 e já vendeu mais de 600 mil unidades.

Agora, Zara está de olho no maior mercado de todos. Lush Life está sendo inclusa nas playlists das principais estações top 40 dos EUA, como a Z100 nova-iorquina e KIIS de Los Angeles. Enquanto a canção está escalando os charts, Never Forget You, seu hit dance com o MNEK, acaba de penetrar o top 10 do iTunes estado-unidenses. Além disso, ela foi nomeada o rosto de uma nova campanha de marketing da gigantesca de beleza Clinique. Nada mal.

Qual será o próximo mega hit? A dica é ficar de olho no chart da Suécia no Spotify.

Worth noting: o Spotify, responsável por mudar a maneira que as pessoas escutam música em todo o mundo (streaming já é até contabilizado nas principais paradas mundo afora), é outra criação sueca. No país, mais de 90% do consumo de música é feito através do aplicativo.

A plataforma, cuja sede fica em Estocolmo, é uma grande entusiasta de atos escandinavos. O  DJ sueco Aviccii, a maior e mais bem paga estrela da região atualmente, aponta o serviço de streaming como peça chave na sua explosão global. Atualmente, o Spotify promove com entusiasmo Zara Larsson, Lukas Graham e Alan Walker, os colocando em playlists proeminentemente (como a Today’s Top Hits, com mais de 7 milhões de seguidores) e dando destaque a eles em sua página inicial.

De Max Martin ao Spotify aos popstars que dominam as paradas da atualidade, parece que o Scandinavian musical takeover não vai parar tão cedo.

O que diabos aconteceu com os Video Music Awards da MTV?

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Quando a MTV anunciou que Miley Cyrus iria apresentar os Video Music Awards desse ano, eu fiquei muito impressionado. Ame-a ou a odeie, é inegável que ela é uma das maiores estrelas da atual geração e, além disso, ela é ótima para causar. E causar é a raison d’etre dos VMAs. Era uma match made in heaven.

Daí, com a revelação dos indicados, rolou toda aquela treta no Twitter entre Nicki Minaj e Taylor Swift (em geral insuportavelmente adversa a polêmicas) e pensei “caramba, falta muito e esse VMA já está delievering! Tem tudo para ser o melhor ever!”. E daí, já logo comecei a pensar quem iam ser os performers. Porque, digam o que quiserem da premiação, em geral ela tem uma line-up sólida e bastante representativa do que realmente está fazendo sucesso no momento.

Pensei imediatamente em The Weeknd, rapper canadense que está em ascensão e que, depois de dois hits grandes (Earned It, de 50 Tons de Cinza e The Hills), está arrebentando a boca do balão com Can’t Feel My Face (produzido por ninguém menos que Midas pop sueco, Max Martin, velho conhecido dos leitores). One Direction também seria outro bom nome: eles são meio sem sal mas bombam muito e faz anos desde a última vez que eles cantaram nos VMAs. Também dei como certa presença de Justin Bieber, que lançaria seu comeback single no dia seguinte a premiação. Ed Sheeran, um dos maiores nomes da atualidade, que vende milhões e enche estádios, também era um must. Mas quem mais? Alguma cantora… Selena, talvez? “Rival” de Miley e ex de Bieber, sua performance causaria (mesmo ela não sendo uma boa performer) e seu novo single Good to Me — é bastante sólido e está fazendo sucesso.  Um rapper — como Kendrick Lamar  — também seria uma boa pedida.

Em geral, os primeiros performers são anunciados com no mínimo um mês de antecedência. Mas esse ano, nada. O que até fazia sentido, afinal, o anúncio de Miley como apresentadora já era o suficiente para causar uma repercussão grande. Mas o tempo passou e passou. Até que, finalmente, eles anunciaram The Weeknd (uhull, acertei). E depois, novamente, silêncio.

Ficou claro que algo estava muito errado quando faltava menos de uma semana para a premiação e mais ninguém tinha sido anunciado. A essa altura, pelo menos 90% do line-up deveria ser público, até para que a MTV pudesse tirar o máximo proveito desses grandes nomes no material promocional. Era bizarro que tudo girava em torno só de Miley — todos os anúncios televisivos e outdoors — e mais ninguém.

Até que, finalmente, hoje, faltando cinco dias para a premiação, grande parte dos performers foram anunciados. E gente, é óbvio que algo deu muito errado nos bastidores. O line-up não é só excepcionalmente fraco para os padrões dos VMAs, é fraco para qualquer award show televisionado. Estou de olho nos Billboard, Hits Daily Double e Hollywood Reporters da vida para ver se algum deles noticia o que se passou nos bastidores (e óbvio, conto para vocês!) mas pode ter certeza de que algo sério aconteceu. Talvez alguma cláusula financeira desagradou os grandes nomes (como quase aconteceu com o SuperBowl, que ameaçou pedir uma parcela das vendas de ingresso da turnê em troca da vaga de half-time act e causou ira entre os empresários e artistas. A NFL voltou atrás e, graças a isso, conseguiram Katy Perry para o show de intervalo) ou talvez o investimento em Miley tenha os deixado sem verba para atender os pedidos de outros A-listers. Mas, especulações a parte, algo claramente não foi como planejado..

Mas afinal, quem são os performers?

  • Tori Kelly, de 22 anos, tem um time impressionante por detrás dela. Apesar de nunca ter tido um top 50 single na vida (olha o nível. Não tô falando nem de top 10), essa será a segunda performance dela num award show (o primeiro foi o Billboard Music Awards) e ninguém menos do que Max Martin co-produziu o CD de estreia dela, Unbreakable Smile. O álbum em questão até teve uma estreia decente (segundo lugar, com 75 mil unidades) mas, numa ocasião normal, uma cantora sem nenhum hit e com um único CD, com vendas medíocres,  nunca conseguiria um espaço nos Video Music Awards.
  • Twenty One Pilots são tão irrelevantes que eu tive que recorrer ao Google e a Wikipedia para descobrir alguma coisa sobre eles. Aparentemente, eles são um duo indie cujo último CD estreou em primeiro lugar. As vendas deles são OK mas longe de serem espetacular: o álbum mais vendido deles nos EUA teve 300 mil unidades vendidas (um disco de ouro, a menor certificação, exige 500 mil). Eles vão contar com a participação especial do rapper A$AP Rocky (que, até agora, eu achava ser bem mais relevante que eles).

  • Demi Lovato tem um name recognition bem alto comparado com os dois acima. E ela está, em tese, num bom momento para estrear nos VMAs: com uma nova (e maior) gravadora, o seu atual single é uma música pop viciante e com cara de hit, produzido, claro, por Max Martin. A questão é que, na real, ela não está num bom momento: Hot for the Summer é, apesar da promoção intensa, o primeiro lead single dela a não alcançar o top 10 e, sinceramente, o poder comercial dela sempre foi bem mais ou menos e, hoje em dia, anda mais para menos. Selena Gomez — que está sempre na mídia e cujo single atual chegou ao sexto lugar (dez posições acima do pico de Demi) — seria uma escolha que faria mais sentido.
  • Pharrel seria um performer perfeito. Se estivéssemos em 2013. Apesar de credibilidade e vários mega hits (tipo Happy que foi tão overplayed que acho que ninguém aguenta ouvir nem sequer as notas iniciais), Pharrel não tem absolutamente nada para promover; não tem CD pronto para ser lançado nem single nas rádios. A única explicação para sua presença na lista de performers era que a MTV estava desesperada por alguém — qualquer pessoa — que tenha A-list credentials e ele foi o único que topou. Ou que ele vai fazer alguma performance especial com a apresentadora, Miley, de quem ele é bastante próximo.
  • Macklemore & Ryan Lewis são mais um nome para categoria “ótima escolha se estivéssemos em 2013“. Alias, eles de fato se apresentaram em 2013, quando estavam por cima da carne seca, tinham três mega-hits e estavam prestes a ganhar um Grammy. A questão é que desde então ninguém sentiu a falta deles e eles foram totalmente esquecidos. A presença deles não é como o comeback de um artista midiático como Justin Bieber ou, pasmem, Rihanna (cujo último CD também foi em 2013). Ninguém estava pedindo ou clamando por uma performance do duo. Mas foi tudo que  a MTV conseguiu infelizmente. A primeira música liberada do novo CD tem a participação de Ed Sheeran (esse sim bastante relevante) mas nada foi dito sobre uma potencial participação dele.

  • The Weeknd. O único artista dentre os já anunciados que realmente faz sentido.

A MTV ainda anunciará mais dois nomes. Eles serão revelados, individualmente, na quarta e na quinta-feira, o que indica que eles são nomes grandes. Todo mundo meio que já sabe que serão Justin Bieber, com seu aguardado retorno, e Nicki Minaj que, apesar de badalada, não tem nada para promover. Com duas exceções — Bieber e Weeknd — todos os anunciados deixam explicito o desespero da MTV: ou eles são irrelevantes ou estão em decadência ou parecem estar lá para quebrar um galho para a emissora. É realmente uma situação triste para uma cerimônia cujo ponto forte sempre foi a habilidade de capturar o zeitgeist pop.

Em todo o caso, nem tudo está perdido. Teremos Miley; o retorno de Bieber; a estreia de The Weeknd na cerimônia e Kanye West, que será homenageado com um Vanguard Award. Mesmo não se apresentando, Taylor Swift também deverá estar presente já que é meio que óbvio que ela ganhará o prêmio de Video of the Year.

De resto, esse line-up parece mais fitting para um pré-show. Alias, por pouco que o pré-show não acabou sendo mais estrelado do que a cerimônia em si. O tapete vermelho terá performance de Nick Jonas (que, bem ou mal, está em ascensão e teve hits na rádio ao longo do ano, diferente de 90% dos performers do show principal) e a estreia do novo vídeo de Swift, Wildest Dreams.

Causando en Español: The king of bachata

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Não se engane pela cara de pagodeiro, ele é o rei do bachata

Engana-se quem pensa que o espanhol é a língua predominante das Américas. Mais de metade dos países — a maior parte pequenas ilhas caribenhas — falam francês, creole, inglês ou holandês. Mas, quando falamos especificamente de países com populações grandes, daí as coisas mudam: dentre as 25 nações mais populosas da América do Sul; da America Central e da America do Norte, apenas cinco não tem o castelhano como o idioma principal. O maior de todos, claro, é os EUA mas, curiosamente, a terra do Tio Sam não tem idioma oficial e, apesar de o inglês ser a língua predominante, o espanhol é usado como língua primária por 10% da população e é dominado por mais de 50 milhões de americanos. Isso significa que os Estados Unidos são o segundo maior país hispano-hablantes do mundo, superando a Espanha, a Colombia e a Argentina e ficando atrás apenas do México (que tem uma pop. de mais de 120 milhões).

Levando em conta esse dado, fica claríssimo que o Brasil destoa bastante do resto das Américas. O segundo maior país da região, abrigando quase metade de toda a população da América do Sul, a nossa língua é o português (no way!! Não é espanhol brasileiro?!) e não temos sequer uma comunidade considerável de gente que fala espanhol por aqui. Sim, ambas línguas são, até certo ponto, parecidas mas, obviamente, estão longe de ser iguais (e ai do ignorante que sugerir para um brasileiro que espanhol e português são a mesma coisa).  Por incrível que pareça, eu acho que isso é apenas um detalhe: para cada diferença, também há semelhanças, tanto históricas quanto contemporâneas; tanto boas (calidez, otimismo, temperaturas boas, joie de vivre) quanto ruins (corrupção; desigualdade social; serviços públicos que deixam a desejar). O Brasil é gigantesco, praticamente um continente por si só, e tem, dentro dele, uma infinidade de culturas, mas isso não elimina nossas muitas semelhanças com nossos hermanos America afora.

Porém, contudo, todavia…. quando o assunto é cultura pop, daí sim o Brasil vira um caso a parte. Para cada Chaves/Shakira/Maria do Bairro/Usurpadora/RBD que estoura por aqui, temos milhares de outras coisas que enlouqueceram o continente e foram ignoradas por nós. Por exemplo, o hit completamente inescapável em toda a América Latina atualmente (e também na Espanha) é El Perdón, de Nicky Jam com Enrique Iglesias. É quase impossível ir numa festa — seja ela em Buenos Aires; Bogota; Punta del Este ou Cidade do México — e não ouvir Enrique entonando porque yo sin ti y tu sin mi; dime quien puede ser felíz; esto no me gusta, esto no me gusta.

No Brasil, essa música, assim como quase qualquer canção em espanhol, é completamente ignorada pelas rádios e é desconhecida por grande parte do público. Enquanto Enrique está tendo um novo ápice nas Américas (esse é o segundo hit gigantesco consecutivo dele nos últimos meses; Bailando foi outro sucesso completamente inescapável no ano passado. Apesar de uma versão brasileira com participação de Luan Santana, a música não aconteceu da mesma maneira por aqui), Iglesias filho é apenas uma figura vagamente familiar no Brasil, mais associado com o fim dos anos 90 — época que ele tinha grandes hits em inglês —  do que com o presente.

Sendo assim, não é surpresa que ninguém no Brasil tenha ouvido falar de Romeo Santos. Mas o cantor, de 34 anos, é o maior fenômeno da música em espanhol, imparavel em todo o continente. Atualmente, nem Shakira consegue chegar perto dos resultados obtidos por ele. Em fevereiro, na Cidade do México, 50 mil ingressos foram vendidos em tempo recorde para seu show no Foro Sol. Na semana seguinte, em Buenos Aires, 90 mil pessoas lotaram dois shows no estádio do River Plate, o maior do país. Depois disso, foram mais 45 mil no Estádio Nacional de Santiago, no Chile. São os mesmos palcos ocupados por Madonna, Paul McCartney, U2 e One Direction em suas respectivas turnês latino-americanas e Santos as lotou com facilidade, cobrando preços similares. Seja em Asunción no Paraguai ou em Montevideo no Uruguai, existem poucos artistas que conseguem uma convocatória tão considerável quanto Romeo.

Santos, cujo nome de batismo é Anthony, canta bachata, um gênero romântico originado na Republica Dominicana. Apesar de ter alcançando a fama cantando em espanhol, ele é americano, nascido e criado no Bronx, em Nova Iorque. Foi no bairro, ainda adolescente, que ele se juntou com seu primo e alguns amigos e formou um grupo de música romântica, Los Tinellers (no sotaque dominicano, pronuncia-se Los Teenagers, os adolescentes). Eles lançaram o primeiro álbum de maneira independente em 1995 mas foram completamente ignorados. Cinco anos mais tarde, eles se relançaram com o nome de Aventura.

Em 2002, o Aventura explodiu internacionalmente, A música Obsesión foi um dos maiores hits do ano não nos EUA ou na América Latina mas na Europa, onde a canção alcançou o topo na Alemanha, na França (sete semanas em primeiro lugar e quase 1 milhão de unidades vendidas), na Suíça e na Itália (16 semanas no topo!). Nos últimos três países, o segundo CD do grupo, We Broke the Rules, também atingiu o primeiro lugar. Impulsionado pelo sucesso internacional, a música começou a ganhar espaço nas Américas (hoje em dia, ela é um clássico) e, aos poucos, o Aventura começou a se consolidar.

Em 2005, o terceiro CD dos meninos, God’s Project, atingiu a terceira posição da parada latina estado-unidense e deu origem a diversos hits obtendo, eventualmente, certificado de 4x Platina. Em 2006, eles esgotaram o Madison Square Garden pela primeira vez. Em 2007, Mi Corazoncito foi o maior sucesso em espanhol do ano nos EUA. E, em 2009, com The Last, eles se consolidarem como o maior sucesso do segmento latino nos EUA: o álbum ocupou o primeiro lugar da parada hispano durante 16 semanas; eles se apresentaram para Barack Obama e fizeram a maior turnê deles até então, sendo um dos poucos atos, tanto anglo-saxões quanto hispânicos, que esgotaram o Madison Square Garden com quatros shows consecutivos. Eles atingiram também enorme popularidade na América Latina, rodando extensivamente a região e fazendo dezenas de shows esgotados. Em 2011, no ápice de popularidade, o Aventura anunciou que iria se separar.

O rompimento, claro, serviu como um trampolim para a carreira solo de Romeo, o vocalista e grande estrela do grupo  compositor de todas as canções. Alguns meses antes do anuncio, ele tinha assinado um contrato de 10 milhões de dólares com a Sony. Como parte do Aventura, Santos pertencia a uma micro subsidiária da companhia, a Premium Latin Music, especializada em bachata mas, com o novo contrato, ele seria parte da primeira linha de artistas da gravadora. O primeiro álbum dele, Formula vol. 1, foi lançado em novembro de 2011 e tinha como objetivo consolida-lo como o rei da bachata urban. O álbum contou com colaborações de grandes estrelas — tanto da musica hispano (Tomatito; Mario Domm, vocalista da banda Camila) quanto da americana (Usher; Lil Wayne) — e, além de receber disco de platina, o CD deu origem a quatro hits número 1 na parada latina da Billboard e uma excursão com 75 shows.

A turnê, apropriadamente intitulada The King Stays King,  abriu com três shows esgotados no Madison Square Garden. Foram 36 shows nos EUA, incluindo apresentações para mais de 19 mil pessoas em Miami, Houston, Los Angeles, Nova Jersey, Chicago, Phoenix, San Antonio, Anaheim e Orlando. Dentre os 37 shows na América Latina, houve paradas em estádios da Republica Dominicana, Peru, Colombia, Panama e El Salvador. Em Buenos Aires, 18 mil ingressos foram vendidos e, em Santiago, 15 mil. Santos ainda se apresentou em seis cidades do México e em Barcelona e Madri, na Espanha.

Romeo parecia ter atingido o ápice. Mas o que ninguém esperava é que o primeiro álbum dele seria apenas a introdução do fenômeno que ele viraria. Sim, naquele então, Romeo era indubitavelmente uma das grandes forças do nicho hispano nos EUA e também uma das estrelas mais rentáveis pan-latina. Mas, com seu álbum seguinte, Formula vol. 2, ele deixaria de ser uma das para se tornar grande estrela da musica em espanhol.

O primeiro single do segundo álbum solo do cantor foi o que deu o empurrãozinho para fazer dele o fenômeno imparável que ele é hoje. A sugestivamente entitulada Propuesta Indecente se transformou num dos maiores hits em espanhol da última década, uma daquelas raras canções que alcançou a façanha de se transformar num fenômeno em todos os países que falam em espanhol.

Nos EUA, a música quebrou todos os recordes: foram 86 semanas no topo das paradas. Lançada em julho de 2013, a música continua em segundo lugar nos charts dessa semana (de junho de 2015!) da Billboard (atrás apenas do já mencionado hit de Nicky Jam e Enrique Iglesias). A canção ainda conseguiu transcender a America Latina e chegou na Espanha. O país também se viciou no hit de Romeo, que alcançou o topo das paradas de  singles e foi streamed mais de 10 milhões de vezes pelos espanhóis no Spotify. No Youtube, o vídeo da música ultrapassou 700 milhões de views, sendo um dos clipes mais vistos da história da plataforma.

Impulsionado pelo fenômeno de Propuesta Indecente, a arena Madison Square Garden — a mais prestigiosa dos EUA e a maior de NYC — ficou pequena para ele. Em julho do ano passado, Romeo fez dois shows esgotados no Yankee Stadium, reunindo 90 mil pessoas no total. Ao se apresentar no estádio, localizado a pouquíssimas quadras de onde ele nasceu e foi criado, no Bronx, Santos se junta a um seletíssimo grupo de artistas que inclui, além dele,  apenas Roger Waters (que não conseguiu esgotar o estádio duas vezes); Eminem; Jay-Z; Justin Timberlake; Madonna e Paul McCartney. Se apelarmos para tecnicalidades, o grupinho é ainda mais seleto: Jay-Z; Eminem e Timberlake nunca se apresentaram solo no estádio (Eminem se apresentou ao lado de Jay em 2010e Timberlake também se juntou ao marido de Beyoncé em 2013).

Na sua Nova Iorque natal não existe nenhum artista que venda tanto ingressos quanto Romeo. Nessa turnê, além dos 90 mil no Yankee, ele ainda fará, em julho, três shows no Barclays Center, no Brooklyn, para um total de 60 mil pessoas.

E não foi só Nova Iorque onde a demanda ultrapassou, em muito, o esperado. Em Buenos Aires, os dois shows programados para o estádio G.E.B.A., para 18 mil pessoas cada um, se transformaram em cinco apresentações completamente esgotadas, com um total de 90 mil assistentes. Sete meses depois, ainda na mesma turnê, ele voltou para os já mencionados concertos no River Plate, atraindo novamente 90 mil fanáticas. Em Santiago, a mesmíssima coisa: sete meses antes de vender, em tempo recorde, os 45 mil ingressos para seu show no Estadio Nacional, Santos tinha atraído a mesma quantidade de gente para três shows na Movistar Arena (que, originalmente, estava programado para ser apenas um). E, no México, foram 42 mil ingressos para dois shows na Arena Cidade do México, que abriram a turnê do último CD dele em março do ano passado, antes do retorno triunfal em fevereiro, menos de um ano depois, com um show para 50 mil no Foro Sol.

A popularidade de Santos é digna de atenção porque, ao contrário do que muitos pensam, o gosto do público latino nos EUA pode diferenciar bastante do gosto da América Latina e artistas hispanos nascidos nos EUA em particular tem certa dificuldade para penetrar grande parte dos maiores mercados da América do Sul (Argentina; Chile) e mesmo do México (Selena, por exemplo, o maior fenômeno da música latina dos EUA, só se transformou num gigantesco sucesso no México depois de sua morte e ela não é mainstream na Argentina, por exemplo). O fato de Romeo estar esgotando os maiores estádios de Buenos Aires e de Santiago é surpreendente.

Mesmo nos EUA, sua popularidade transcendeu barreiras. Bachata, o gênero que ele canta, sempre foi um ritmo considerado bastante rural e pouco atraente pela nova geração. Santos reverteu tudo isso. Além disso, o ritmo sempre gozou de certa popularidade na costa leste americana — onde existe uma grande concentração de imigrantes da Republica Dominicana e países caribenhos vizinhos — mas o resto do público latino dos EUA, como as gigantescas comunidades latinas no Texas e na Califórnia (que tem populações com origens predominantemente mexicanas e centro-americanas), nunca tiveram nenhum interesse ou familiaridade com o gênero. Santos, primeiro com o Aventura e depois com sua carreira solo, conquistou esses mercados e ainda influenciou uma geração de artistas novos, como Prince Royce, provavelmente o segundo cantor mais popular entre o público hispano nos EUA atualmente e que também tem fortíssima influência de bachata (Royce, assim como Santos, também é do Bronx).

Nos EUA, Romeo foi ajudado pelo seu estilo moderno. O fato dele cantar num falseto bastante associado ao R&B e ter crescido no Bronx faz muitos chamarem o seu estilo de bachata urban. Essa associação ficou ainda mais forte nos últimos anos: depois de colaborar com Usher e Lil’ Wayne no seu primeiro CD, Santos teve a participação de dois dos rappers mais quentes da atualidade no seu segundo álbum: Drake, indiscutivelmente o maior vendedor do gênero hip-hop do presente, e Nicki Minaj.  Apesar disso, ele não parece muito afim de crossover e começar a apelar para o grande público americano. Em Odio, não foi Romeo que se rendeu ao rap. Foi Drake, um dos maiores rappers da atualidade e um superstar global, que se rendeu ao bachata, cantando um fragmento considerável da música em espanhol (com surpreendente habilidade). Em Animales, Nicki também se arrisca no spanglish em seu verso (Dame un beso, yo necesito/Dominicana, Puerto Rico).

Com o status de megastar latino alcançado, a expectativa geral é que ele dê o passo seguinte e comece a cantar em inglês para um público ainda mais global. Mas a música de Romeo é tão latina de raiz que seria bastante estranho ouvi-la em qualquer outro idioma se não o espanhol. E, de qualquer maneira, mesmo com seu repertório 100% bachata en español, ele tem uma respeitável carreira internacional. Na sua atual turnê, ainda impulsionado pelo sucesso fenomenal de Obsesión faz mais de uma década, ele cantou nas maiores arenas de Paris, Roma e Milão e também fez apresentações em Hannover, na Alemanha; em Londres e em Amsterdam. Ele também fez algumas aparições em veículos mainstream estado-unidenses: ele ensinou um pouco de espanhol para Elmo em Sesame Street; cantou no Tonight Show e fez uma participação em The Bachelor. Ele teve um cameo no blockbuster Velozes & Furiosos 7. E em abril, ele fez uma grandiosa apresentação no Today Show, um dos matinais mais importantes do país.

Na TV, ele teve que dar uma moderada em suas performances que, em sua versão original, nunca seriam permitidas no prime time americano. Em seus shows, ele é conhecido por apresentações com altíssima dose de erotismo. O ápice de seus concertos é quando ele chama uma fã — pode ser gorda, magra, jovem ou velha — para uma sessão de pegação no palco. Eles se abraçam, se bolinam, as vezes se beijam e acabam de baixo dos lençóis de uma cama cenográfica. O público, óbvio, vai a loucura.

No palco, Romeo se entrega totalmente, sem nenhum pudor. Fora dele, porém, guarda sua vida pessoal a sete chaves e, diferente da maior parte dos artistas pop, ele é zero midiático. Um dos únicos momentos que  mostrou um pouquinho de sua vida particular foi quando apareceu, junto a seu filho de 14 anos, na capa da People en Español. Nem mesmo perguntas sobre sua sexualidade ele responde com muito entusiasmo. As especulações atingiram o ápice quando, no seu último CD, ele lançou a música anti-homofobia No Tiene la Culpa, um ato particularmente corajoso no mundo ultra machista e conservador latino.  Em entrevista para Billboard, ele falou diretamente sobre os boatos: “A minha relutância de responder essa pergunta faz com que as pessoas tenham certeza que estou escondendo algo. Eu não quero vender nada, só minha música. Mas não, não sou gay. Só não quero apresentar minha namorada. A única coisa que posso revelar é que não sou casado” (quem investigou afirma que ele namora, faz anos, com uma mulher anônima que vive no seu Bronx natal).

romeo santos
Na capa da Billboard, a principal publicação da indústria fonográfica americana, que o chamou de “Justin Timberlake em espanhol”

Esse enorme compromisso em manter sua privacidade é só um dos muitos aspectos que fazem Romeo tão fascinante. Nascido e criado nos EUA, com inglês como primeira língua, sua falta de interesse em crossover para o mercado global não deixa de ser outro aspecto bastante singular. De certa maneira, é quase como se ele tivesse feito um crossover ao contrário: depois de chamar enorme atenção na Europa e conquistar os EUA, ele colocou suas garras na América Latina. As cartas não estavam a seu favor — bachata, até a explosão do Aventura, era um ritmo antiquado que, to put it bluntly, era ouvido primariamente por gente pobre (motorista de ônibus; domésticas; porteiros) e rural — mas ele conseguiu reverter totalmente o jogo, mudando, no processo, a direção do pop latino. Ser Shakira — a artista latina mais conhecida e celebrada do planeta — tem suas vantagens mas, por outro lado, Romeo não precisa disso: de jatinhos particulares aos maiores estádios, tudo já está a seu alcance. Para Billboard, Romeo, que não é conhecido pela sua humildade, foi claro: “eu toco nos mesmos lugares que os maiores artistas do mundo, que a Beyoncé. Só que eu faço isso em espanhol”. Romeo, não tem porque ser modesto: Beyoncé ainda não esgotou o Yankee Stadium. Nem a Shakira.

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