Causando no Brasil: a trajetória da dominação sertaneja

Na parte anterior, tivemos uma visão geral de como o sertanejo se estabeleceu como o maior gênero do Brasil. Nesse post, vamos fazer uma uma linha do tempo do sertanejo moderno onde entenderemos melhor os passos da dominação.

2007: a volta dos que não foram

Depois do protagonismo no começo dos 90, o boom sertanejo deu uma aquietada e, apesar da enorme popularidade, tinha se tornado um estilo secundário.

Mas, ao longo da primeira década dos 2000, ele estava ganhando nova roupagem — sendo rebatizado de “sertanejo universitário” — e conquistando terreno na capital de São Paulo e outras regiões importantes do país. O maior fenômeno do estilo no século 21 era, ate então, Bruno & Marrone mas outras duplas, como Edson & Hudson e Cesar Menotti & Fabiano, também estavam obtendo ótimos resultados.

Os olhos da indústria, porém, estavam em outros filões. Pagode (Exaltasamba e Sorriso Maroto), música nordestina (como Asa de Águia, Ivete Sangalo, Aviões do Forró e Babado Novo) e brega (Calypso) eram os estilos brasileiros mais em voga, além de fenômenos pré-adolescentes multimídia como RBD e High School Musical. O rock (de bandas que iam de Los Hermanos a Jota Quest, passando por Charlie Brown Jr.) seguia forte e passava por um revival graças ao sucesso de bandas teen como NX Zero, Strike e Fresno. A rádio e os canais de clipe, por sua vez, só tinham olhos para Beyoncé, Akon, Black Eyed Peas e pop internacional.

“Amigo Apaixonado”: um dos hits que ajudou a transformar Victor & Leo nos maiores nomes da indústria fonográfica brasileira

Mas isso estava prestes a mudar: a dupla Victor & Leo se firmava como um fenômeno impossível de ignorar graças ao sucesso de músicas como “Fada” e “Amigo Apaixonado”. Em junho, eles lançam o seu segundo CD com a Sony BMG, Ao Vivo em Uberlândia, que iria consolidá-los como os maiores nomes do Brasil.

O ano de 2007 também foi a grande estréia nacional da dupla que iria ser um divisor de águas na história do sertanejo, Jorge & Mateus. Pela Universal, eles lançaram seu grande debut, Ao Vivo em Goiânia.

Jorge & Mateus já chega fazendo barulho com “Ao Vivo em Goiânia”

2008: o sertanejo volta ao topo

“Tem Que Ser Você”, a maior música de 2008.

Victor & Leo se consolidam como os maiores nomes da indústria, tendo o CD mais vendido do ano (Ao Vivo em Uberlândia) e a música mais tocada (“Tem que ser você”), confirmando a força do novo sertanejo. Em junho, eles lançam o primeiro CD de estúdio deles, Borboletas, que incluiu o sucesso homônimo.

“Borboletas”, o primeiro single do muito bem sucedido álbum homônimo de Victor & Leo

“A Favorita”, a novela das 9 da Globo, ambientada em São Paulo, inclui diversas músicas sertanejas em sua trilha sonora, marcando o retorno do gênero ao horário nobre da principal emissora do país. Apesar da presença de veteranos (Rionegro & Solimões, Daniel, Roberta Miranda, Chitãozinho & Xororó, Daniel), a maior parte dos nomes — como Victor & Leo (que abriam o disco), Jorge & Mateus, Cesar Menoti & Fabiano, Hugo Pena & Gabriel — são da leva mais recente.

2009: a dominação continua

Em 2009, o pop internacional atingiu o ápice no Brasil. O sucesso espetacular foi Beyoncé e a balada “Halo” se consagrou como a mais tocada do ano nas rádios do país. Mas nem a diva pop conseguiu freiar o crescimento do sertanejo, que continuou em ascensão.

“Chora, Me Liga”: sucesso sertanejo que transcendeu o nicho sertanejo

“Chora, Me Liga” de João Bosco & Vinicius foi a maior música nacional. Com seu arranjo puxando para o forró, a canção transcendeu barreiras e alcançou até ambientes onde o estilo não era bem visto.

Depois de abalar as estruturas do mercado local, Victor & Leo tentam carreira internacional, com o CD em espanhol Nada es Normal, e também lançam um novo álbum ao vivo para o mercado local, Ao Vivo e em Cores em São Paulo.

Mas, apesar de se manter como a maior dupla, eles começam a perder terreno para Jorge & Mateus que estão crescendo a passos gigantes. A dupla de Goiás lança seu segundo álbum, O Mundo é Tão Pequeno, que dá origem a vários hits grandes.

Com o álbum O Mundo é Tão Pequeno, Jorge & Mateus seguem em pleno crescimento.

Depois de mais de 10 anos como artista independente, Paula Fernandes faz a sua estréia sob uma grande gravadora. Seu primeiro CD com a Universal, Pássaro de Fogo, é bem recebido, com a música homônima sendo inclusa na trilha sonora de Paraíso, novela das 6 da Globo com ambientação rural. “Jeito de Mato”, colaboração com Almir Sater, também se prova um sucesso.

Já o jovem Luan Santana, de 18 anos, conquista grande repercussão com seu CD independente, Tô de Cara. A música “Meteoro” viraliza. Ele assina com a Som Livre e grava seu primeiro CD e DVD ao vivo no seu estado natal, Mato Grosso do Sul.

Com o mercado sertanejo extremamente aquecido, muitos nomes conseguem repercussão nacional, mesmo que brevemente. O casal sul-mato grossense Maria Cecília & Rodolfo chama atenção por ter uma mulher como voz principal e emplaca canções como “Coisas Esotéricas” e “Você de Volta”. A dupla paranaense Hugo Pena & Gabriel também tem bons resultados com faixas como “Vou Te Amar (Cigana)”, “Fora do Eixo” e “Malas Prontas”.

Os hits definidores de 2009.

2010: meteoro da paixão

Com forte promoção da Globo, uma agenda repleta de shows pelo país e dezenas de músicas na rádio, Luan Santana vira o maior fenômeno da indústria fonográfica brasileira. Seu Ao Vivo é o álbum mais vendido do ano.

O sucesso de “Meteoro” fez de Luan Santana o maior artista do ano

Os únicos nomes capazes de fazer frente ao ídolo teen são Jorge e Mateus que desbancam oficialmente Victor & Leo para se transformar na maior dupla do país.

Um dos trunfos iniciais de Jorge & Mateus foi que, apesar de sertanejos até o último fio do cabelo, eles não pouparam esforços para conquistar novos territórios. Com o sertanejo absorvendo influências fortes do forró e do arrocha, o gênero avançou muito no Nordeste e a dupla fez um investimento forte para tirar proveito disso. As primeiras colaborações que eles fizeram — incluídas no CD lançado em 2009 — foram com artistas de axé, Asa de Águia e Alexandre Peixe.

Naquela época, a música baiana ainda era um dos gêneros mais fortes do Brasil e as micaretas eram um dos programas mais populares entre jovens de todo o país. De olho nessa fatia do mercado, Jorge & Mateus foram pioneiros e lançaram o primeiro trio elétrico sertanejo. No ano anterior, o projeto virou um álbum, o Elétrico e, em 2010, fez sua estréia, com grande sucesso, no carnaval de Salvador.

A inovadora micareta Jorge & Mateus é um fenômeno de público em Salvador e no restante do país.

Eles também lançam o Ao Vivo Sem Cortes, gravado em um mega show em Goiânia, e seu primeiro CD de estúdio, Ai Já Era. O álbum marca uma transição para uma sonoridade com mais influência pop, dando origem a 5 singles. A música “Amo Noite e Dia” se transforma no maior sucesso deles até o momento e a canção que dá nome ao álbum também ajuda a levá-los para outro patamar.

Impulsionado por Luan Santana e Jorge & Mateus, o sertanejo se confirma como o gênero de maior sucesso no país e começa a tomar conta da rádio que, até então, ainda era dominada por música estrangeira.

Dentre os maiores beneficiados pelo boom está o artista e produtor Fernando Fakri, conhecido como Sorocaba. Além de ser o nome por de trás dos sucessos de Luan Santana, a sua carreira de cantor — como parte da dupla Fernando & Sorocaba — também vai de vento em popa graças a títulos como “Paga Pau”, “Bala de Prata” e “Madri”.

Os excelentes resultados alcançados por Luan também encorajam a indústria a investir em mais cantores solos. Michel Teló foi a aposta da Som Livre. Super conhecido no Mato Grosso do Sul, onde liderava a banda Tradição, ele partiu para carreira individual apostando no sertanejo de balada, com um som mais forrozeiro como o que fez de “Chora, Me Liga” de João Bosco & Vinicius um fenômeno.

Não à toa, ele recrutou a dupla para seu primeiro single, “Ei, Psiu! Beijo Me Liga”. Mas foi com uma regravação do Exaltasamba, “Fugidinha” que ele teve seu primeiro enorme sucesso nacional.

O álbum Ai Já Era marcou uma transição de Jorge & Mateus para uma sonoridade mais pop.

Já a AudioMix, o escritório de Jorge & Mateus, começou a investir pesado no jovem Gusttavo Lima com seu repertório cheio de músicas românticas. O seu primeiro CD, “Inventor dos Amores”, foi lançado naquele ano, obtendo sucesso com a canção homônima, que tinha a participação da dupla estrela da empresa.

Ao longo de 2010, Paula Fernandes começa a ganhar mais espaço na indústria com o sucesso de sua música, “Pássaro de Fogo”. Hugo Pena & Gabriel tem mais um estouro com “Estrela”. Guilherme & Santiago, uma dupla que está na ativa desde os anos 90, tem um revival depois de assinar com a Som Livre, da poderosa Globo, e emplaca diversos hits festeiros, como “E Daí?”, “Que Da Vontade Dá” e “Tá Se Achando’.

O apetite pelo sertanejo é tanto que músicas de nomes desconhecidos e sem grandes investimentos, como “Fã” de Christian & Cristiano e “Que Se Dane o Mundo” de Adair Cardoso, viram sucessos nacionais.

Os principais sucessos do sertanejo em 2010.

2011: o tempestuoso mercado sertanejo se entrega a Paula Fernandes

Depois de ser a convidada principal de Roberto Carlos no seu tradicional especial de Natal no fim de 2010, Paula Fernandes se consolida oficialmente como a maior estrela da música brasileira e lança seu primeiro Ao Vivo, gravado em São Paulo. É a primeira vez que uma mulher é a maior artista do sertanejo. Ela domina a mídia, emplaca várias faixas simultaneamente nas paradas e atinge números de venda inimagináveis para o mercado daquele então.

A demanda pelo gênero sertanejo segue em firme crescimento mas, apesar disso, também fica claro que sustentar uma carreira nesse meio também não é moleza.

Apesar de obter vários hits ao longo dos últimos 2 anos e um contrato com a Som Livre, a dupla Hugo Pena & Gabriel anuncia a separação depois de um desentendimento com o empresário. Já nomes que surgiram fortes, como Maria Cecília & Rodolfo e Guilherme & Santiago, não conseguem transcender o nicho e ter alcance de nomes do primeiro escalão.

“Não Precisa”, uma colaboração com Victor & Leo, é a maior música de Paula Fernandes.

Até alguns dos artistas maiores, como a dupla Victor & Leo, tem dificuldade em manter o burburinho apesar de que, graças ao sucesso de Paula, eles ganham uma impressionante sobrevida. Não só Victor Chaves compôs várias músicas para ela como a dupla aparece no maior hit da cantora, “Não Precisa”.

Mas, no meio desse tumultuoso mercado, dois nomes seguem extremamente firmes no topo: Jorge & Mateus e Luan Santana. A dupla de Goiânia segue em pleno crescimento e se confirma cada vez mais como os artistas mais requisitados para shows em todo o Brasil.

Paula Fernandes se transforma na maior artista do país.

Já Luan se mostra extremamente ambicioso e escolhe o Rio de Janeiro, o mercado mais hostil para a música sertaneja, como palco do seu segundo DVD, que tem participação de Ivete Sangalo, então uma das maiores estrelas do país, e dos ícones do sertanejo, Zezé DiCamargo & Luciano.

O show, com uma produção milionária, foi gravado na frente de 10 mil fãs na HSBC Arena. O Ao Vivo no Rio deu origem a 5 singles, com o maior deles sendo “Amar Não é Pecado”.

Ainda indo na tendência de cantores solos, Cristiano Araújo é a grande aposta do mercado de Goiânia. “Efeitos”, a sua colaboração com os Midas do sertanejo, Jorge & Mateus, tem repercussão nacional e impulsiona o seu primeiro CD ao vivo.

Já Gusttavo Lima e Michel Teló continuam crescendo. O primeiro tem um catalogo formado principalmente por canções românticas mas, apesar de o sucesso delas, foi com a música de farra “Balada Boa” que ele virou uma febre em todo o país. Já o sertanejo baladeiro sempre foi a marca registrada de Teló e, depois do sucesso de “Fugidinha”, ele se supera com “Ai, Se Eu Te Pego” que rapidamente vira a maior música do Brasil.

Os hits que definiram 2011.

2012: a conquista mundial

O ano de 2012 foi quando o sertanejo transcendeu as fronteiras nacionais e virou uma febre global.

“Ai, Se Eu Te Pego!” vira um hit a nível global

No segundo semestre de 2011, “Ai, Se Eu Te Pego!” conquistou o Brasil inteiro, incluindo Neymar e demais futebolistas. Através deles, a faixa chegou aos ouvidos dos atletas europeus, que também se renderam ao ritmo. Pronto: os maiores nomes do esporte no mundo, como Cristiano Ronaldo e Rafael Nadal, estavam comemorando suas vitórias com o hit de Teló, o que deixou muitos curiosos em relação a canção. Assim, o single viralizou e se transformou na maior música de 2012 a nível mundial, alcançando o topo das paradas de toda Europa e América Latina.

A predileção pelo sertanejo festeiro mundo afora era tanta que, surfando na onda da música de Teló, “Balada Boa” de Gusttavo Lima também virou um sucesso internacional.

Gusttavo Lima e Você: o álbum agradou com seu romantismo mas “Balada Boa” conquistou o Brasil e o mundo.

No Brasil, o estilo seguia em altíssima demanda. “Eu Quero Tchu, Eu Quero Tcha” de João Lucas & Marcelo; “Camaro Amarelo” de Munhoz & Mariano; “Lê Lê Lê” de João Neto & Frederico e “Vem Ni Mim Dodge Ram” de Israel Novaes foram alguns títulos que obtiveram bastante êxito ao seguir a formula. Michel Teló também colheu bons resultados com seu novo single, “Humilde Residência”, que foi a música mais reproduzida na rádio brasileira naquele ano.

Já Gusttavo Lima continuou se consolidando com suas músicas românticas. Ele até tentou continuar tirando uma casquinha da moda farofeira, com quase todas as músicas do seu novo CD, Ao Vivo em São Paulo, seguindo a receita mas o público queria mesmo era consumir sua faceta mais tradicional, vista em canções como “Refém”, “60 Segundos” e “Fora do Comum”. Isso, na verdade, era um ótimo omen para o artista: o sertanejo de festa até podia te dar alguns grandes sucessos mas não sustentava nenhuma carreira.

Os maiores nomes da indústria, como Jorge & Mateus e Luan Santana, pareciam saber direitinho disso e nem perderam tempo com a tendência do momento. Muito pelo contrário.

A dupla apostou ainda mais fortemente no romântico para seu novo álbum, A Hora É Agora – Ao Vivo em Jurerê, o primeiro deles com a Som Livre. O lançamento foi muito bem recebidos, dando origem a 6 singles e mantendo eles incólumes como a maior dupla do Brasil. Já Luan também não modificou a sua formula de sucesso com seu terceiro CD, Quando Chega a Noite (cujos destaques incluíram “Te Vivo”, “Você de Mim Não Saí” e “Nêga”).

“Duas Metades” foi uma das faixas destaques do novo CD/DVD de Jorge & Mateus

Paula Fernandes, por sua vez, já começou a dar sinais de desgaste. Apesar do sucesso da música “Eu Sem Você”, o segundo álbum de estúdio da cantora, Meu Encanto, não conseguiu repetir a repercussão dos antecessores, mesmo com uma promoção intensa na TV. Apesar disso, ela se manteve firme como uma das maiores vendedoras do país.

A essa altura, a impressão é que o sertanejo já tinha conquistado quase todos os espaços imagináveis. A exceção? O Rock in Rio, o principal festival de música do Brasil que, assim como a elite da sua cidade natal, nunca abriu as portas para o gênero.

50 mil pessoas prestigiam a segunda edição do Festival Villa Mix em Goiânia

Em resposta a isso, a AudioMix — que graças ao sucesso monstruoso de Jorge & Mateus e ao bom desempenho de Gusttavo Lima tinha se firmado como a maior agência de entretenimento do Brasil — criou o Festival Villa Mix. A primeira edição, organizada em 2011 em Goiânia, foi um enorme sucesso, vendendo 50 mil ingressos. A edição de 2012 foi ainda mais grandiosa, servindo como um protótipo para a empresa expandir o evento para outros estados e torná-lo o maior do Brasil.

Os hits definidores de 2012.

2013: back to basics

Depois de um ano atípico onde Michel Teló e Gusttavo Lima conquistaram brevemente o mundo, as coisas voltaram ao normal no universo sertanejo em 2013.

Como de costume, a dupla Jorge & Mateus seguiu reinando, sendo os artistas mais requisitados para shows no país todo. A altíssima demanda por eles foi o que motivou Marcos Araújo, o dono da AudioMix, a expandir o Festival Villa Mix para o resto do Brasil, usando-os como headliners. Além da edição de Goiânia, que bateu recorde de público, com 60 mil ingressos vendidos, o festival passou por mais de 20 cidades, incluindo São Paulo, Brasília, Recife, São Luís, Londrina, Fortaleza, Niterói, Salvador, Belo Horizonte, João Pessoa, Vitória, Teresina, Maceió e Florianópolis. A edição de Goiânia ainda virou especial de Fim de Ano da Globo.

Além da agenda intensa de shows — tanto solo como parte do Festival — eles ainda estrearam novo DVD, gravado no Royal Albert Hall em Londres.

Jorge & Mateus gravam DVD no prestigioso Royal Albert Hall em Londres

Junto com eles no topo, Luan Santana também lançou o seu quarto álbum ao vivo, O Nosso Tempo é Hoje, gravado em Itu, no interior de São Paulo e que deu origem a hits como “Tudo Que Você Quiser” e “Te Esperando”.

Luan Santana emplaca mais um sucesso com “Tudo Que Você Quiser”, parte de seu novo projeto ao vivo.

Detentor de 20% da carreira de Luan, Sorocaba se firmava cada vez mais como um nome forte na indústria. Pra começar, sua dupla, Fernando & Sorocaba, seguia estável e obtendo bons sucessos. Ele também abriu seu próprio escritório de gerenciamento artístico, FS Produções que, apesar de não ter oficialmente Luan em seu casting, tinha nomes com alcance no segmento sertanejo, como Marcos & Bellutti e Thaeme & Thiago.

Mas, em 2013, Sorocaba acreditava ter encontrado um artista que seria capaz de ir mais longe e, assim como Luan, virar um fenômeno nacional: Lucas Lucco. O cantor galã surgiu forte, com sucessos como “Pra Te Fazer Lembrar” e “11 Vidas”.

Já o sertanejo festeiro estava oficialmente desgastado. Gusttavo Lima continuou obtendo um ótimo desempenho voltando para a música romântica, com faixas como “Fui Fiel” e “Diz Pra Mim”, enquanto Michel Teló, que ficou muito tachado como representante do estilo, teve bem mais dificuldade para sustentar a carreira musical, apesar de ter obtido resultados decentes com “Amiga da Minha Irmã”.

Porém, a repercussão nacional de “Ai, Se Eu Te Pego!” fez dele um rosto conhecido, o que o tornou uma figura midiática e um popular garoto-propaganda, um caminho lucrativo e pouco transitado por sertanejos.

Além disso, seu escritório de gerenciamento artístico, Brothers, ganhou um baita de um impulso com o sucesso Jads & Jadson. Com mais de 10 anos de estrada, a dupla — que tem um estilo mais de raiz, com bastante viola — excedeu todas as expectativas com o sucesso da música “Jeito Carinhoso” e se tornou um dos nomes mais badalados do mercado.

Por sua vez, Paula Fernandes demonstrava ainda ter força na indústria. Sua nova música, “Um Ser Amor”, foi escolhida como tema do casal principal da nova novela das 9, “Amor a Vida”, o que garantiu um hit grande para ela. Ela aproveitou o momento para lançar seu segundo DVD ao vivo, gravado na HSBC Arena do Rio. Victor & Leo também ressurgiram fortíssimos, com a música “Na Linha do Tempo”. Mas, apesar dos bons resultados, ambos os artistas estavam no fim da linha em termos de repercussão e, daí em diante, foram oficialmente engolidos por nomes com mais frescor.

Os hits definidores de 2013.

2014: novos fenômenos

Já fazia 8 anos que o sertanejo estava fortalecendo sua influência sobre o mercado fonográfico mas, desde Gusttavo Lima e (momentaneamente) Paula Fernandes, nenhum nome conseguiu de fato se firmar no primeiro escalão do gênero. Alguém do tamanho de Jorge & Mateus então, não surgia desde Luan Santana, em 2010, e mesmo assim, é discutível se Luan realmente poderia se equiparar dado que o público dele, juvenil, era mais restrito. Mas o ano de 2014 chegou para mudar esse cenário.

Na realidade, tudo começou dois anos antes quando muitos artistas conseguiram repercussão nacional ao tomar carona na tendência do sertanejo festeiro desatada primeiro por “Chora, Me Liga” e, depois, com ainda mais força, por “Ai, Se Eu Te Pego!” e “Balada Boa”. Como o ano seguinte provou, entretanto, quase nenhum deles conseguiu se estabelecer como parte do primeiro escalão e até Michel Teló empacou.

Mesmo assim, muita gente conseguiu colher bons frutos com o boom. Um deles foi o empresário Wander Oliveira que tinha observado o sucesso meteórico da AudioMix, em grande parte graças a Jorge & Mateus, e queria reproduzir aquilo no seu próprio escritório, o WorkShow.

“Até Você Voltar”: com seu arranjo bachata, a música foi um divisor de águas na indústria do sertanejo.

E na onda baladeira, ele conseguiu que uma dupla de seu casting, João Neto & Frederico, tivesse um sucesso bem grande, “Lê Lê Lê”. A dupla, diferente de outras que viralizaram na época, não foi um sucesso efêmero. Eles tinham uma carreira longa e diversos hits, tendo se firmado como os principais nomes da WorkShow. Mas a música os colocou ainda mais em evidência em todo o país e impulsionou o DVD deles gravado no Tocantins, o que ajudou a encher ainda mais os cofres da agência.

Esse dinheiro foi utilizado para investir em outra dupla, Henrique & Juliano, que tinha um perfil mais universitário e que Wander acreditava poder reproduzir o sucesso que a AudioMix tinha obtido com Jorge & Mateus.

Num primeiro momento, o repertório dos meninos era cheio de músicas que seguiam a formula do momento, com letras sobre festa e pegação. As canções — como “Vem Novinha!” e “Mistura Louca” — tiveram ótima aceitação no Norte e no Centro-Oeste e, em 2013, eles lançaram o primeiro DVD, Ao Vivo em Palmas, gravado no estado natal deles. João Neto & Frederico também participaram do show, os apadrinhando e gravando com eles o que seria, num primeiro momento, a música mais conhecida do repertório da dupla, “Não Tô Valendo Nada“.

Mas, como a gente já sabe, o que realmente consolida um artista são as músicas românticas. E foi quando uma faixa com essa pegada, “Recaídas” virou um hit enormee que a carreira deles deu uma guinada. Vendo o potencial, a WorkShow investiu pesado na gravação do segundo DVD em Brasília, cheio de canções de amor. Quando o material foi lançado, em abril de 2014, ele desatou um fenômeno que não era visto em anos. Prontamente, Henrique & Juliano fizeram o que parecia impossível: atingiram o mesmo patamar que Jorge & Mateus.

O sucesso inicial de João Neto & Frederico foi o que permitiu que a WorkShow pudesse investir na criação do fenômeno. Por tanto, não deixa de ser irônico que, ao mesmo tempo que Henrique & Juliano explodia e transformava o escritório em um dos maiores do Brasil, a dupla original rompia com a empresa.

Henrique & Juliano, assim como Jorge & Matheus, representaram uma revolução no meio sertanejo. Além de aquecerem o mercado como um todo, foram eles, através da música “Até Você Voltar”, que ajudaram a introduzir arranjos bachata — um gênero romântico que foi sensação na América Latina e que eu já falei sobre aqui no blog — na música sertaneja. Daí em diante, grande parte dos hits tiveram a batida influenciada pelo ritmo dominicano.

Enquanto a WorkShow se fortalecia como a segunda maior de Goiânia, a FS Produções, de Sorocaba, também tinha um ano fantástico. Para começar, a dupla Marcos & Belutti, parte do casting deles, conseguiu algo espetacular com a música “Domingo de Manhã” que se consagrou como a maior de 2014. O próprio Sorocaba também seguia com uma carreira estável, com a boa aceitação de “Gaveta” gravado com seu parceiro, Fernando.

“Domingo de Manhã” de Marcos & Belutti foi a música mais reproduzida do ano.

Já Lucas Lucco estava seguindo a risca o caminho traçado para ele pelo escritório, provando ter o que era preciso para se tornar um fenômeno

O mineiro, com sua beleza e composições originais, virou um sucesso nas redes sociais e no nicho sertanejo em Minas e no Centro-Oeste, o que chamou atenção de Sorocaba, que não poupou investimentos no jovem.

Lucas Lucco: sertanejo galã

Ao longo de 2013, ela obteve bastante repercussão com suas músicas e lançou um álbum independente, Nem Te Conto, se firmando em todo o país. Em poucas semanas, ele já tinha assinado com a Sony e, em janeiro de 2014, o seu segundo álbum, Tá Diferente, foi disponibilizado. Graças a faixa “Mozão”, ele virou um dos artistas que mais causaram impacto ao longo do ano. O vídeo da canção foi o mais visto do YouTube brasileiro em 2014.

Um dos diferenciais de Lucco era sua imagem menos sertaneja: alto e com porte e corpo de modelo, ele tinha tatuagens, era fã de hip-hop e rock e trazia influências de diferentes gêneros para sua música (uma delas, “Princesinha”, era um funknejo gravado com MC Catra).

De qualquer maneira, não foi coincidência que Lucas Lucco e Henrique & Juliano emergiram justamente no ano em que nem Luan Santana nem Jorge & Mateus colocaram novo álbum nas prateleiras. O que não significa que eles tiraram um ano sabático: além de centenas de show, ambos lançaram vários hits. Luan seguiu a promoção do seu Ao Vivo enquanto Jorge & Mateus obtiveram sucesso com canções novas como “Logo Eu”, “Calma” e “Nocaute”.

Quem também teve um 2014 agitado foi Cristiano Araújo. Depois da boa recepção de Continua, seu CD de estúdio no ano anterior — que deu origem a músicas enormes como “Maus Bocados” e “Casos Indefinidos” — ele lançou o grandiosíssimo projeto, In the Cities – Ao Vivo em Cuiabá, que o confirmou como um dos nomes mais badalados da música.

O artista, que estourou em 2011 com a colaboração com Jorge & Mateus, “Efeitos”, encerrou o ano assinando contrato com a AudioMix. A adição de Araújo ao casting foi possivelmente para suprir uma baixa importante: Gusttavo Lima.

“Caso Indefinido” foi um dos destaques do grandioso DVD de Cristiano Araújo.

Desde sua estréia, Gusttavo se manteve como o segundo principal artista do escritório, obtendo bons resultados com todos seus álbuns e uma agenda de shows lotadas. Mas, no fim de 2014, ele anunciou que estava rompendo com a AudioMix. Foi um término caro — ele teve que desembolsar R$12 milhões para se libertar do contrato — mas a vontade de ter total autonomia sobre sua própria carreira falou mais alto.

Enquanto isso, a dominação do sertanejo na rádio segue a passos largos. Em 2014, 59 das 100 músicas mais tocadas (de acordo com dados da Crowley) pertenciam ao gênero, incluindo 9 do top 10. A maior de todas foi “Domingo da Manhã” de Marcos & Belutti.

Os hits d

2015: Safadão e tragédia

“Camarote”, um dos sucessos de 2015.

O principal acontecimento do ano foi a ascensão de Wesley Safadão que, da noite para o dia, virou a maior estrela do Brasil, com o cachê mais alto e inúmeros hits. Wesley já era um nome consolidado no Nordeste, onde era vocalista da banda Garota Safada, e sua popularidade pelo restante do país andava a passos largos. Mas, em 2015, ele se lançou em carreira solo e, de imediato, virou um fenômeno sem igual.

Tecnicamente, Wesley Safadão não é sertanejo. Suas raízes estão no Nordeste e no forró. E isso, inclusive, foi essencial para a sua dominação pois, com esse background, ele facilmente conquistou o Rio, a segunda maior praça do país, notoriamente sertanejofóbica. Mas porque ele está sendo citado aqui então?

Porque a estratégia para lançar sua carreira solo foi se utilizar do aparato sertanejo, indiscutivelmente o de maior alcance no país. Ele fez uma parceria com a AudioMix, que começou a co-administrar sua agenda; escolheu o Centro-Oeste, especificamente Brasília, para gravação de seu primeiro CD/DVD ao vivo e ainda lançou uma colaboração com Marcos & Belutti, artistas de “Domingo de Manhã”, o hit mais impactante de 2014. A música em questão, “Aquele 1%”, foi o maior fenômeno do ano.

Safadão, com seu som forrozeira, trouxe de volta o sertanejo de balada que tanto bombou em 2012. Além disso, o sertanejo começou a abrir cada vez mais as portas para uma mescla de estilos. Essas duas tendências se uniram em um dos grandes hits do ano, “Suite 14”, cantado pela dupla sertaneja Henrique & Diego (não confundir com Henrique & Juliano) com arranjos de EDM e a participação do MC Guimé, então um dos maiores nomes do funk ostentação paulista.

“Suite 14”: a mescla de EDM, funk e sertanejo se provou um sucesso.

Enquanto Wesley abalava as estruturas, os nomes mais consolidados do sertanejo voltavam com força. Jorge & Mateus lançaram, com enorme sucesso, um novo álbum de estúdio, “Os Anjos Cantam” que deu origem a música homônima. No fim do ano, lançaram uma inédita, “Sosseguei”, que se firmou como a maior música deles até então.

Em comemoração aos 10 anos de carreira, a dupla faz um show para 50 mil pessoas no Estádio Mané Garrincha de Brasília, se tornando os únicos artistas nacionais a esgotaram o estádio desde que o Legião Urbana fez uma fatídica apresentação no local em 1988.

O sucesso de dupla no carnaval de Salvador ainda ofereceu uma oportunidade extremamente lucrativa para a AudioMix: a abertura de um camarote no Circuito Barra-Ondina durante as festividades. Os camarotes — que vendem abadás por mil reais por dia — lucram milhões todos os anos e, graças a força de Jorge & Mateus, o Camarote VillaMix se tornou, logo de primeira, um dos mais fortes da cidade, fazendo frente até ao super tradicional Camarote Salvador.

Luan Santana, o outro fenômeno do sertanejo, também teve novo projeto, Acústico. No CD/DVD, Luan regravou algumas das suas músicas mais marcantes, junto com outras novas, como “Chuva de Arroz” e “Escreve Aí” que, como sempre, tiveram ótima aceitação.

Ainda embalados pelo sucesso histórico do seu Ao Vivo em Brasília, Henrique & Juliano se consolidaram como parte do primeiro escalão. O plano do empresário Wander Oliveira funcionou perfeitamente e a dupla elevou a WorkShow e transformou o escritório em um dos maiores.

Festeja!, sob controle da WorkShow, começou a fazer frente ao VillaMix Festival.

Ainda focado em fazer frente a AudioMix, a WorkShow assumiu o controle do Festeja!, um evento sertanejo da Globo/Som Livre. A intenção era usar das suas estrelas — principalmente Henrique & Juliano, um dos maiores chamarizes de público no país — para fazer frente ao VillaMix, o festival itinerante da concorrência que tinha conseguido se consolidar como o maior do Brasil. O clima de competição estava instaurado.

Como pode-se ver, o universo sertanejo é feroz e, para se manter no topo, tem que ter muita garra e muita sede de sucesso. O mercado é extremamente saturado e exige que os artistas não só lancem músicas novas constantemente como também trabalhem 7 dias por semana, fazendo shows em absolutamente todos os cantos do Brasil. É preciso abrir mão de muita coisa e ter um pique absurdo para alcançar e se manter no primeiro time.

Jorge & Mateus, Henrique & Juliano e Luan Santana todos tinham esse pique. O mesmo não pode ser dito para Lucas Lucco. O mineiro chegou arrebentando a boca do balão no ano anterior mas a vida na estrada e a competição insana do mercado sertanejo não eram para ele.

“Escreve aí” foi a música mais reproduzida de 2015.

Em 2015, Lucco lançou seu terceiro CD, Advinha. O álbum deu origem a diversos sucessos, como “Vai Vendo”, que ia na linha sertanejo farra mas, apesar da ótima repercussão, o jovem optou por dar uma pausa. Ele fixou residência no Rio de Janeiro; entrou como co-protagonista da novela adolescente “Malhação”, da Rede Globo e reduziu drasticamente a sua agenda de shows. Seu sucesso nas redes sociais — onde virou uma espécie de muso fitness — e sua exposição na maior emissora do país o mantiveram em evidência mas ele optou por deixar a música em segundo plano, ao invés de lutar com unhas e dentes por um lugar no muito restrito primeiro escalão do sertanejo.

Michel Teló foi outro que foi pelo mesmo caminho. Um músico com uma longa estrada, Teló se identificava mais com o meio sertanejo do que Lucco, que sempre deixou claro o seu desejo de explorar outros universos. Mesmo assim, depois do sucesso histórico de “Ai, Se Eu Te Pego!”, ele teve enorme dificuldade de continuar emplacando hits. Mas ele fez limonada dos limões e tirou proveito da notoriedade que a música lhe deu em todo o país. Teló assinou contratos lucrativos para estrelar diversas publicidades; virou jurado no “The Voice” da Globo em 2015 e começou uma família com a atriz Thaís Fersoza, que virou uma popular influencer de assuntos familiares e maternais nas redes.

Em contrapartida, um que indiscutivelmente tinha garra para segurar o mercado sertanejo pelos dentes era Gusttavo Lima. Depois de romper com a AudioMix, ele pagou 12 milhões de reais para se liberar do contrato e conseguir lançar seu álbum inédito, “Boteco do Gusttavo Lima”. Em 2015, fundou seu próprio escritório, Balada Eventos e seguiu com sua agenda de show pelo país, ganhando notoriedade pelas suas apresentações longas e cheias de energia.

Apesar do sucesso do seu álbum “Advinha”, Lucas Lucco optou por dar uma desacelerada na carreira.

Outro que demonstrava ter a sede necessária era Cristiano Araújo. Mas, na noite do dia 24 de junho, um acidente de carro interrompeu tragicamente a vida do artista, que estava no ápice de sua carreira.

A cobertura midiática do falecimento serviu como exemplo do contraste entre dois universos: o mundo do sertanejo e dos seus fãs e o mundo que, com raras exceções, não tem a menor idéia do que acontece nesse nicho.

No dia 25, a Globo — localizada no Rio de Janeiro, a cidade mais hostil com o gênero — dedicou toda sua programação matinal e diurna para cobrir a tragédia. Nas redes sociais, milhares de pessoas demonstravam confusão em relação ao cantor e, mesmo no ar, jornalistas e personalidades admitiam nunca ter ouvido falar de Cristiano Araújo. “Não o conhecia e estou impressionado com a comoção”, disse Otaviano Costa, ao vivo, na cobertura diurna da Globo. Mais cedo, Fátima Bernardes se referiu a ele como “Cristiano Ronaldo”, um erro repetido por uma repórter do Video Show algumas horas depois.

Apesar da confusão dos apresentadores residentes do Rio e de telespectadores que não acompanham o gênero, a cobertura intensa mostrou a força impressionante do sertanejo. Tanto a Globo quanto a Record bateram recordes de audiência no dia, com Mais Você, Encontro, Video Show, Jornal Hoje e Cidade Alerta todos registrando os números mais altos de 2015 em São Paulo.

A comoção pela morte de Cristiano Araújo chocou apresentadores da Globo e fez com que as emissoras batessem recorde de audiência.

Em todo o caso, o evento que melhor encapsulou o pouco caso que a elite cultural carioca trata o sertanejo foi uma crônica que o jornalista e apresentador Zeca Camargo fez no “Jornal das 10” da GloboNews. Nele, ele classificou Cristiano como “tão famoso mas tão desconhecido”, comparou a música sertaneja com tendências “vazias” como “livros de colorir para adulto” e fez um contraste entre a morte dele e “ídolos de verdade”, como Lady Di e Senna. Para piorar, os gráficos atrás dele mostravam imagens de astros do rock e da MPB, como Cazua, Pitty e Titãs.

O descaso com que ele tratou o gênero e a tragédia gerou um processo por parte da família de Araujo; um boicote de artistas sertanejos aos seus programas na Globo e uma enorme revolta nas redes sociais, incitado por estrelas como Zezé DiCamargo & Luciano e Henrique & Juliano.

Mas, apesar dos seus lamentos, Zeca Camargo era indiscutivelmente o ignorante. Independentemente de gostos pessoais, o sertanejo é inquestionavelmente de onde muito dos ídolos “de verdade” do Brasil atual emergem, os únicos capazes de lotar shows em quase qualquer cidade do Brasil, seja uma capital ou o interior.

A prova maior do impacto do gênero? Se, no ano anterior, 59 das 100 músicas mais tocadas na rádio eram sertanejas, em 2015 esse número pulou para 82. No top 50, apenas 5 eram de outros ritmos.

A mais reproduzida de 2015 na rádio foi “Escreve Aí” de Luan Santana, que também foi o vídeo mais visto do ano no YouTube. “Aquele 1%” de Marcos & Belutti com Wesley Safadão foi o segundo clipe mais bombado na plataforma.

Os hits definidores de 2015.

2016: agora é que são elas

2016 foi o ano do feminejo. Maiara & Maraisa explodiram com “10%” e “Medo Bobo”; Simone e Simaria, as Coleguinhas, emplacaram “Meu Violão e Nosso Cachorro”; Naiara Azevedo chegou com seus “50 Reais” e Marília Mendonça estourou “Infiel” e “Eu Sei de Cor”. De supetão, as mulheres tomaram conta das paradas, viraram enormemente requisitadas para shows em todo o país e levaram o sertanejo para ambientes onde ele nunca tinha estado, como noites LGBT e festas pop.

A dominação se concretizou por vários motivos. Em primeiro lugar, teve o sucesso anterior de Paula Fernandes, que abriu o caminho e fez com que os escritórios grandes começassem a investir mais em talentos femininos. Além disso, os hits que estouraram tinham, em sua maioria, letras lúdicas e que davam bons memes, um filão que tinha sido redescoberto com a explosão de Safadão no ano anterior. O motivo final foi que nunca esteve tão fácil consumir música no Brasil.

Além do mais do que consolidado Youtube, ainda tinha o Spotify, que chegou ao país em 2014 e estava cada vez mais forte, facilitando a viralização dos hits e a descoberta e promoção de novos artistas.

Falando no Spotify, o sucesso da plataforma (e de outras, como o Deezer) deu um gás à indústria fonográfica brasileira que, depois de anos, voltou a crescer. Pela primeira vez em mais de uma década, as pessoas estavam ouvindo música de maneira legal. E, como o maior gênero do país, o sertanejo foi bastante beneficiado.

Em 2016, os cinco artistas mais ouvidos na plataforma incluíram Jorge & Mateus, Henrique & Juliano, Matheus & Kauan e Wesley Safadão (Justin Bieber, o quarto mais ouvido, uma posição acima de Safadão, completava o top 5).

Matheus & Kauan foram um dos maiores nomes de 2016.

Matheus & Kauan, como pode-se perceber, foi a revelação do ano e mais uma bola dentro da AudioMix. Os irmãos assinaram com o escritório em 2010 e, num primeiro momento, obtiveram sucesso como compositores, escrevendo músicas para Jorge & Mateus, Gusttavo Lima, Luan Santana, José Neto & Frederico, Michel Teló, Bruno & Marrone, Cristiano Araújo, dentre outros.

Mas a intenção deles nunca foi ficar nos bastidores. A dupla lançou um primeiro álbum em 2010 mas não emplacou nenhuma faixa. Em 2013, “Mundo Paralelo: Ao Vivo”, um projeto mais ambicioso, com distribuição da Som Livre, contou com as participações de Jorge & Mateus, Teló e Luan Santana. Mesmo assim, não vingou.

“Decide Aí”, mais uma faixa de Matheus & Kauan que brilhou bastante em 2015.

Apesar dos percalços, a AudioMix seguiu investindo neles e, em 2015, os irmãos assinaram com a Universal Music. Em Brasília, gravaram o ao vivo Face a Face e, no fim do ano, a música “Que Sorte A Nossa” se provou um sucesso considerável. Aproveitando o embalo, eles gravaram um segundo projeto, Na Praia, no Lago Paranoá do Distrito Federal e emplacaram mais três enormes hits: o reggaenejo “O Nosso Santo Bateu”; “A Rosa e o Beija-Flor” e “Decide Aí”. Antes do fim do ano, lançaram a inédita “Te Assumi Para o Brasil” que rapidamente também se provou inescapável. Além disso tudo, eles ainda participaram da maior música de Wesley Safadão de 2016, “Meu Coração Deu P.T.“.

Com nada menos do que seis gigantescos hits em um ano, um resultado digno de sertanejo Série A, a dupla Matheus & Kauan virou um dos projetos mais bem-sucedidos da AudioMix.

“Te Assumi Pro Brasil”: seis mega hits em um ano.

Mas, como de costume, Jorge & Mateus seguiram insubstituíveis no topo e foram os mais ouvidos do ano no Spotify. Com o álbum Como. Sempre Feito. Nunca, gravado ao vivo em São Paulo, a dupla também emplacou 6 sucessos: “Sosseguei”, “Louca de Saudades”, “Para Sempre Com Você”, “Paredes”, “Vou Voando” e “Ou Some ou Soma“.

Além do sucesso espetacular de dois dos seus principais artistas, a AudioMix seguiu a bem sucedida parceria com Wesley Safadão e ainda tirou casquinha do fenômeno feminejo, através de Simone & Simaria, parte do casting deles.

Para completar, o escritório ainda se juntou com a FM O Dia, a rádio mais influente e escutada do Rio de Janeiro e transformou o tradicional evento de fim de ano da estação, Maratona da Alegria, em Villa Mix.

Sendo assim, o festival itinerante chegou na Cidade Maravilhosa em grande estilo, no Parque Olímpico que, durante o Rock in Rio, também serve como a Cidade do Rock. Algo bem irônico dado que o Villa Mix nasceu parcialmente como resposta ao festival e seu esnobismo com o sertanejo. A colaboração ainda foi um passo muito importante para ganhar terreno no segundo mercado mais importante do país (e, indiscutivelmente, o mais complicado de se penetrar para o sertanejo).

Festival Villa Mix foi ficando cada vez mais grandioso.

Mas, se a AudioMix teve um ótimo ano, a WorkShow ficou logo na cola, continuando seu crescimento assombroso e se firmando oficialmente como a segunda maior agência do Brasil.

Para começar, ninguém se beneficiou tanto do boom feminejo quanto eles. Afinal, tanto Marília Mendonça quanto Maiara & Maraísa, as maiores expoentes do gênero, eram parte de seu casting.

A dupla Henrique & Juliano, cuja força impulsionou o escritório, seguiu bem forte com o lançamento de Novas Histórias, gravado ao vivo no Recife. Do álbum, também saíram 6 músicas que dominaram as rádios e as plataformas digitais: “Na Hora da Raiva”, “Como É Que A Gente Fica”, “Flor e o Beija-Flor”, “Nada Nada”, “Ele Quer Ser Eu” e “Parece Piada”.

“Na Hora da Raiva”: mais um fenômeno de Henrique & Juliano.

A WorkShow ainda estava nutrindo uma segunda dupla, Zé Neto & Cristiano. O álbum deles, Ao Vivo em São José do Rio Preto, obteve ótima repercussão, impulsionado pelas faixas “Te Amo”, “Eu Ligo Pra Você” e, principalmente, “Seu Polícia”, a mais tocada nas rádios do Brasil no ano.

Enquanto as duas gigantes de Goiânia disputavam para se tornar a maior do Brasil, Luan Santana estava em um momento de transição. Seu contrato com o cantor e empresário Sorocaba que, até então, detinha 20% de sua carreira, chegou ao fim e ele usou da oportunidade para dar novos rumos a sua carreira.

Para isso, ele adotou uma sonoridade ainda mais pop, como vista na bem-sucedida “Eu, você, o mar e ela”. No fim do ano, ele lançou o CD “1977”, um álbum mais conceitual, que homenageava as mulheres e continha músicas acústicas, em colaboração com as principais cantoras do país como Ivete Sangalo, Anitta, Marília Mendonça, Sandy e Ana Carolina.

Gusttavo Lima, por sua vez, seguiu com força, provando ser um dos artistas mais sedentos no ultra competitivo mercado sertanejo.

Seu rompimento com a AudioMix e fundação do próprio escritório, Balada Eventos, veio com alguns percalços. Seu cachê caiu e, sem a ponte que a gigante do ramo fazia com os contratantes, sua agenda ficou um pouco menos cheia. Mas, como um dos nomes mais estabelecidos do sertanejo, o artista continuou em altíssima demanda e, em 2016, estava mostrando sinais impressionantes de força.

O seu quinto CD ao vivo, 50/50, gravado no interior de Goiás, teve uma ótima recepção, dando origem, dentre outras, as músicas “Homem de Família” e “Que Pena Que Acabou”. Além disso, o show dele no Festival de Peão de Barretos, o mais influente para o meio sertanejo, foi considerado o ponto alto do evento.

Com o projeto “50/50”, Gusttavo Lima continuou firme no primeiro escalão do sertanejo.

Na ocasião, ele cantou até o sol raiar, por 4 horas ininterruptas; bebeu uma garrafa de rum; conversou efusivamente com o público; aceitou pedidos de músicas da platéia (que chegaram até ele através da papelzinhos escrito a mão) e, no fim do show, atravessou a multidão para comprar pastel em um dos quiosques do estádio. Ao amanhecer, um dos diretores do Clube dos Independentes, a associação que organiza o evento, subiu ao palco e o nomeou como o Embaixador do evento no próximo ano, uma posição de enorme prestígio.

Nas rádios do Brasil, nada menos do que 90 das 100 músicas mais reproduzidas ao longo de 2016 pertenciam ao gênero sertanejo. Mostrando o investimento da WorkShow no rádio, as mais tocadas foram “Seu Polícia” de Zé Neto & Cristiano e “Infiel” de Marília Mendonça. No YouTube, o funk encabeçou a lista de vídeos mais vistos (“Bum Bum Granada”) mas foi logo seguido de “O Nosso Santo Bateu” de Matheus & Kauan e “50 Reais” de Naiara Azevedo.

Os hits que definiram 2016.

2017: a conquista da sofrência

O boom feminejo deu uma grande sacudida no cenário e, em 2017, Marília Mendonça se consolidou como a maior artista do país. De Norte a Sul, de Leste a Oeste, ninguém chegou perto dos números assombrosos alcançados pela artista de apenas 22 anos.

Marilia Mendonça se confirma como a maior artista do país.

Como já disse no post anterior, o fenômeno Marília Mendonça tem alguns paralelos com Paula Fernandes. Além de oferecer uma perspectiva feminina ao gênero, ambas tem timbres que tendem ao MPB, com menos afetação que o típico sertanejo, o que ajuda as músicas delas a terem um alcance ainda maior.

Mas as semelhanças acabam ai. Wander Oliveira, o dono da WorkShow, até tentou convencer Marília a gravar músicas sobre amores perfeitos e natureza, como as de Paula, mas a artista preferiu tratar da vida real. E assim, com suas canções sobre uma vida de muito álcool, decepções amorosas, traições e ciúmes, ela conquistou o coração do brasileiro.

Apesar de ter sido criada no interior de Goiás, o berço do sertanejo moderno, Marília optou por uma estratégia diferente: focar, de primeira, no Norte e no Nordeste. Fazia sentido, uma vez que os sucessos históricos tanto de Henrique & Juliano quanto de Jorge & Mateus estavam diretamente relacionados com a conquista de mercados nessas regiões do país.

O plano deu certo: em pouco tempo, ela era extremamente popular em ambas as zonais e daí, conquistar o Centro-Oeste, o Sul e os rincões tradicionais do sertanejo no Sudeste foram fichinha. Mais do que isso, Marília conseguiu o que a maior parte dos sertanejos nunca foram capazes de fazer: obter resultados expressivos no Rio de Janeiro.

“Como Faz Com Ela” foi destaque no primeiro álbum de Marília

Em menos de 1 ano, Marília lançou seu primeiro álbum, Ao Vivo, com uma pegada mais acústica e dezenas de hits (“Infiel”; “Sentimento Louco”; “Como Faz Com Ela”; “Alô Porteiro”; “Meu Cupido é Gari”; “Folgado”); um EP digital, Agora É Que São Elas, com a gigantesca “Eu Sei de Cor” e o seu segundo CD/DVD, o grandioso Realidade, gravado na frente de 40 mil pessoas no Sambódromo de Manaus (o álbum deu origem a “Amante Não Tem Lar”). A artista metralhou hit atrás de hit e consolidou a “sofrência” nas paradas de todo o Brasil.

As músicas sobre decepções amorosas sempre tiveram boa aceitação no mundo sertanejo mas, na última década, o sertanejo romântico priorizou faixas mais otimistas. A maior parte dos hits de Victor & Leo, Jorge & Mateus, Paula Fernandes e Luan Santana falam de grandes amores, de se apaixonar e, mesmo nas canções sobre fim de relacionamento, o tom segue sendo de otimismo, com letras que falam sobre a esperança de reconquistar a amada; da felicidade da superação ou de ter se livrado de um peso.

Quem começou a mudar um pouco o panorama foram os artistas da WorkShow, começando por Henrique & Juliano. As situações narradas em canções como “Recaídas”, “Até Você Voltar” e “Cuida Bem Dela” tinham grande dose de drama e arrependimento. Não à toa, as últimas duas foram compostas por Marília.

O escritório também investiu no filão em suas apostas mais recentes, tanto com Zé Neto & Cristiano, que viraram nomes reconhecidos com “Seu Polícia”, quanto com Maiara & Maraísa, que deram o ponta-pé no boom feminejo com “10%”.

Mas, enquanto todos esses artistas obtiveram grandes resultados se arriscando na sofrência, foi Marília que fez do sub-gênero toda a base de sua carreira, se transformando, no processo, na maior artista do país. Assim como “Chora, Me Liga” incentivou a proliferação do sertanejo de pegação, Marília Mendonça fez com que a quantidade de hits sobre estar no fundo do poço virassem cada vez mais comum.

Surfando na onda da sofrência desde o seu álbum anterior, Zé Neto & Cristiano continuaram explorando a temática em seu segundo DVD, Um Novo Sonho, gravado em Cuiabá. As faixas “Cadeira de Aço” e “Amigo Taxista” iriam solidificar ainda mais a dupla.

Pode-se perceber que foi um ótimo ano para a WorkShow. Marília Mendonça chegou ao topo, dando ao escritório mais um artista de primeiríssimo escalão; Zé Neto & Cristiano continuaram andando a passos largos e Maiara & Maraísa obtiveram sucessos expressivos (com a música “Sorte Que Cê Beija Bem”, parte do novo DVD, Ao Vivo em Campo Grande e com “Esqueci Como Namora”, colaboração com Nego do Borel).

Como cereja do bolo, os artistas supremos do escritório, Henrique & Juliano, voltaram com novo álbum. O projeto O Céu Explica Tudo , gravado ao vivo no Citibank Hall de São Paulo, incluiria o maior hit da dupla até o momento: “Vidinha de Balada”.

“Vidinha de Balada” cumpriu a difícil missão de se tornar o maior sucesso da carreira de Henrique & Juliano.

O clima de competição em Goiânia estava pesado e a AudioMix obviamente não estava disposta a ceder seu trono. Felizmente para eles, 2017 também foi um ano em que registraram crescimento.

Apesar da WorkShow ter sido a maior beneficiada com o boom feminejo, isso não significa que a concorrente também não lucrou pesado com o filão. Em 2017, Simone & Simaria, as grandes apostas femininas do escritório, atingiram o ápice.

“Loka”, de Simone & Simaria com Anitta, foi o maior sucesso do ano no YouTube.

“Loka”, uma colaboração com Anitta, a cantora pop mais badalada da atualidade, ultrapassou 600 milhões de visualizações e se transformou no vídeo musical mais visto do YouTube brasileiro. “Regime Fechado”, lançado alguns meses mais tarde, foi o maior hit solo delas. E, antes do fim do ano, elas emplacaram “Raspão“, um feat com a dupla Henrique & Diego.

As irmãs ainda viraram coaches do The Voice Kids, sendo presenças constantes no horário nobre da Globo, e também se transformaram em queridinhas do mercado publicitário, aparecendo em comerciais das lojas Marisa, da operadora TIM, da Coca Cola e da tintura Cor & Tom da Niely.

A presença midiática delas — que equipara-se, por exemplo, a de Luan Santana — mostra a tentativa de consolida-las como estrelas que transcendem o mercado sertanejo, algo mais do que compreensível dado que elas são nordestinas com raízes no forró.

Os demais artistas da AudioMix também tiveram um ano agitado. Matheus & Kauan não repetiram em 2017 a quantidade de hits do ano anterior mas se mantiveram estáveis. O sucesso de “Na Praia 2”, gravado no Sheraton do Rio de Janeiro, fez deles os artistas mais ouvidos do ano no Spotify.

Wesley Safadão lançou a inescapável “Ar Condicionado no 15”, parte do seu novo DVD, WS in Miami Beach, gravado nos EUA.

Já Jorge & Mateus, os titãs da AudioMix, não tiveram CD/DVD inédito mas preencheram o ano com o lançamento de três bem sucedidos singles: “Contrato”, “Se o Amor Tiver Lugar” e “Medida Certa”, além de manter a agenda de shows lotada como de costume.

Porém, o grande trunfo da AudioMix foi se expandir para além do mercado sertanejo e se associar a Alok que, com o sucesso histórico de “Hear Me Now”, tinha se transformado no maior DJ do Brasil (e o maior DJ brasileiro a nível mundial). O artista, que também é de Goiânia, uniu sua agência, Artist Factory, ao escritório em um momento onde a EDM (electronic dance music) se popularizava cada vez mais em terras tupiniquins. De imediato, Alok virou figura fixa no Villa Mix, que seguia firme como o maior festival, batendo recorde de público em todos os estados do país.

Outro momento de glória para o escritório foi a a adição de Luan Santana ao seu casting. Depois de 10 anos, o contrato dele com Sorocaba finalmente chegou ao fim. Como um dos maiores fenômenos musicas do país, absolutamente todas as agências lutaram para ter ele em seu casting e, no fim, ele optou pela AudioMix.

A associação com Luan seguia os moldes da bem sucedida parceria com Safadão: o artista tinha controle total da parte artística da sua carreira, através da sua agência própria (no caso, a LS Music), mas a AudioMix prestaria consultoria e faria a ponte com os contratantes, organizando a agenda de shows dele. Além disso, ele seria parte semi-fixa do Festival Villa Mix.

A WorkShow, sempre sedenta pelo topo, respondeu a altura: assinou com Gusttavo Lima, que tinha rompido de maneira dramática com a concorrente dois anos antes e, mesmo assim, tinha se mantido um dos principais artistas do país.

A carreira de Gusttavo e Luan, inclusive, estavam em momentos contrastantes. Ambos os artistas surgiram ao mesmo tempo e a ascensão de Gusttavo foi uma resposta ao fenômeno que foi a chegada do intérprete de “Meteoro”, que criou apetite por cantores jovens solo no mercado sertanejo.

Os dois se mantiveram no topo desde então mas Luan sempre foi mais experimental, testando conceitos diferenciados e tentando transcender a barreira do sertanejo, enquanto Gusttavo sempre foi mais de raiz, bastante satisfeito de fazer parte do gênero. Prova disso é a sede que o cantor de “Balada” encara suas apresentações em uma das mecas do sertanejo, o Festival do Peão de Barretos.

Gusttavo Lima canta até o sol raiar mais uma vez em Barretos.

Depois do seu show histórico de 4 horas no ano anterior, que fez com que ele fosse nomeado o Embaixador da edição seguinte, Gusttavo Lima quebrou seu próprio recorde, cantando por 5 horas. Diferente de 2016, onde a arena já tinha se esvaziado nas horas finais, mais de 10 mil pessoas ainda o prestigiavam quando sua apresentação chegou ao fim, as 7 da manhã. Numa decisão histórica, Gusttavo foi nomeado Embaixador da festa por um segundo ano consecutivo.

Em contrapartida, Luan, que, em 2010, no seu ápice, foi o primeiro artista a ser nomeado Embaixador de Barretos, estava deixando a sonoridade que o consagrou para trás. Ele queria ser um artista pop mais tradicional e já estava experimentando arranjos diferentes desde seus lançamentos do ano anterior, que obtiveram sucesso considerável. No começo de 2017, quando sua nova faixa, “Acordando o Prédio”, arrebentou a boca do balão, tudo parecia estar bem encaminhado. Mas a pouca repercussão das músicas seguintes começaram a acender o alerta de que abandonar o ritmo mais popular do país talvez não fosse a melhor idéia…

A concorrência entre a AudioMix e a WorkShow também se manifestou no âmbito dos festivais. O Villa Mix seguiu sendo o mais forte e consolidado e sua edição chave, de Goiânia, foi expandida para dois dias. Já o Festeja!, da WorkShow, saiu na frente do concorrente na conquista do mercado internacional, fazendo edições em Lisboa, Bruxelas e Londres.

2017 também foi o ano que o sertanejo resolveu sair da caixa, com muitas parcerias pop. Simone & Simaria arrasaram com “Loka”, colaboração com Anitta. Maiara & Maraisa tiveram sucesso com “Eu Esqueci Como Namora” com Nego do Borel. E Naiara Azevedo também teve boa repercussão com “Avisa Que Eu Cheguei”, dueto com Ivete Sangalo.

Mas ninguém foi tão requisitado para feats quanto Kevinho. Funk é o único ritmo que consegue fazer frente ao sertanejo e, dentro do gênero, não existia estrela maior que o paulista. Em 2017, todo mundo queria um hit funknejo com ele.

Quem começou a moda foi João Neto & Frederico. Com uma longa discografia cheia de sertanejo pegação, a temática deles combinava bastante com o universo funk e eles foram os primeiros a se arriscar na mescla do estilo e recorrer a Kevinho. O resultado, “Cê Acredita”, foi muito bem-sucedido.

“Deixa Ela Beijar”: a junção da nata do funk com a nata do sertanejo.

Depois deles, veio Naiara Azevedo, que também bombou com “Mentalmente” e, finalmente, os maiores nomes de todos, Matheus & Kauan, que tiveram seu maior hit de 2017 com “Deixa Ela Beijar”. A junção pouco provável do funk com sertanejo — que, por muito tempo, foram considerados os estilos mais opostos possíveis — se provou um sucesso. Nada mais lógico, afinal os dois dominam, em geral juntos, grande parte das noitadas país afora.

2017 marcou o começo de um novo ciclo, ainda mais fluído, para o gênero. Mas também foi o ano em que os artistas que escancararam a porta do sertanejo moderno, Victor & Leo, atingiram o final da linha.

Apesar de que o momento de ápice deles durou pouco — rapidamente eles foram engolidos por outros nomes — a dupla tinha mantido uma carreira estável e, desde o ano anterior, eram jurados do “The Voice Kids”. Mas uma acusação de agressão contra Victor, feito por sua esposa grávida, não só fez com que a dupla fosse suspensa do programa (substituídos por Simone & Simaria) como também manchou permanentemente a reputação deles. No ano seguinte, eles se separariam oficialmente.

Enquanto alguns ídolos se apagam, novos nomes surgem. E a revelação de 2017 foi Felipe Araújo, irmão mais novo de Cristiano.

Enquanto Cristiano Araújo era a grande aposta da família, Felipe também sempre esteve envolvido no meio sertanejo, tendo formado duas duplas com amigos próximos. Mas, depois do falecimento trágico do irmão, ele atendeu um pedido do seu pai e, em 2015, se lançou como artista solo, assinando contrato com a a Universal.

Felipe Araújo: irmão de Cristiano desponta.

A indústria sertanejo o apoiou em peso: logo de cara, ele fez parceria com os três maiores artistas do meio. A colaboração com Marília Mendonça foi a faixa do seu primeiro álbum que teve melhor repercussão mas foram as músicas com Jorge & Mateus (“Chave Cópia”) e, principalmente, com Henrique & Juliano (“A Mala é Falsa”) que o colocaram em evidência. Em 2017, “Amor da sua Cama” foi seu primeiro grande hit solo.

A indústria também começou a prestar cada vez mais atenção no Nordeste. Já faz anos que gêneros nordestinos como forró e arrocha influenciam diretamente a música sertaneja e a AudioMix em particular sempre buscou talentos na região, tendo assinado não só com Simone & Simaria mas também com os dois maiores fenômenos do Nordeste, Wesley Safadão e Aviões do Forró. E, em 2017, apesar de não ser afiliado a nenhum grande escritório, mais um nome despontou: Mano Walter.

O vaqueiro do Alagoas tinha explodido, na verdade, no ano anterior, com um CD ao vivo gravado em Maceió cujo grande hit foi “O que Houve?”, um dueto com Marília Mendonça. Mas, em 2017, ele ficou ainda mais forte com seu primeiro hit solo, “Não Deixo Não”, que celebra suas raízes rurais.

Enquanto isso, nas rádios, o sertanejo bate seu próprio recorde: 91 das 100 músicas mais tocadas do ano pertenciam ao gênero de acordo com levantamento da Crowley. A mais popular foi “Acordando o Prédio” de Luan Santana. No YouTube, o vídeo mais visto foi “Loka” de Simone e Simaria com Anitta. Na plataforma, Marília Mendonça foi a artista mais reproduzida.

Já no Spotify, o sertanejo “só” aparece em terceiro lugar dentre as faixas mais ouvidas, com “Vidinha de Balada” do Henrique & Juliano (atrás de “Shape of You” de Ed Sheeran e “Hear me Now” do Alok).

Mas o gênero domina tanto a lista de artistas mais populares (o top 5 foi formado por Matheus & Kauan; Jorge & Mateus; Henrique & Juliano; Marília Mendonça e Wesley Safadão) quanto de álbuns mais reproduzidos (Na Praia 2 de Matheus & Kauan; Como. Sempre Feito. Nunca, lançamento de 2016 de Jorge & Mateus; Realidade de Marília Mendonça; Ao Vivo de Marília Mendonça e O Céu Explica Tudo – Ao Vivo de Henrique & Juliano).

Os hits definidores de 2017.

2018: estratégias

Em apenas 4 anos, a WorkShow conseguiu crescer em um nível assombroso, se consolidando como o segundo maior escritório de empresariamento artístico do Brasil. Do estouro de Henrique & Juliano ao boom feminejo e a consolidação de Marília Mendonça como a maior artista do Brasil, é inquestionável a competência da agência em nutrir novos talentos. E, em 2018, eles deram mais um gol dentro: Zé Neto & Cristiano, parte do casting deles, entrou para o extremamente seleto primeiro escalão do sertanejo.

“Largado às Traças” transformou Zé Neto & Cristiano nos maiores artistas do Brasil.

A WorkShow vinha nutrindo a dupla de São José do Rio Preto, interior de São Paulo, desde 2015 e, com seus dois primeiros álbuns, eles já tinham emplacado diversos hits. O investimento do escritório neles, inclusive, fez com que tivessem a música mais tocada nas rádios de 2016, “Seu Polícia”.

Mas o sucesso de “Amigo Taxista”, no fim de 2017, os expôs a um público ainda maior e, em março do ano seguinte, um EP digital lotado de hits os catapultou para outro patamar de fama.

A idéia do Acústico era apenas familiarizar o público com algumas faixas que fariam parte do repertório do álbum ao vivo, cuja previsão de lançamento era poucos meses mais tarde. Mas, de imediato, o resultado obtido excedeu todas as expectativas. O destaque foi “Largado às Traças”, que se transformou, de longe, na maior música do ano.

Zé Neto & Cristiano

Quando o projeto ao vivo chegou, em maio, eles já eram um fenômeno. Esquece o Mundo Lá Fora, gravado no Espaço das Américas em São Paulo, incluía não só o hit monstro “Largado às Traças” como também trazia “Notificação Preferida”, “Status Que Eu Não Queria”, “Bebida na Ferida”, “Mulher Maravilha”, “Derreter a Aliança” e “Ontem Era Eu”.

O sucesso de Zé Neto & Cristiano foi um exemplo bem claro da sofrência como a vertente mais popular do sertanejo. Quase todos os hits deles seguem a formula popularizada pela companheira de escritório, Marília Mendonça: histórias tristes sobre corações partidos, arrependimentos amorosos, superações doloridas e muito álcool. E, com esse combo, eles viraram os maiores nomes do Brasil em 2018.

Zé Neto & Cristiano era a resposta da WorkShow para Matheus & Kauan, da AudioMix. Ambas as duplas foram nutridas para, de certa maneira, suceder os artistas que colocaram as respectivas companhias no mapa: Henrique & Juliano e Jorge & Mateus. Mas, pelo menos a principio, a WorkShow parece ter mandado bem melhor em sua estratégia.

A AudioMix começou a administrar a carreira de Matheus & Kauan com enorme maestria. Apesar de ter demorado para conseguir emplacá-los, quando eles finalmente aconteceram eles se tornaram, quase de imediato, os maiores do Brasil, metralhando uma sucesso atrás da outro. Porém, depois da enorme repercussão do “Na Praia”, a mágica não se repetiu com a mesma intensidade no “Na Praia 2”.

Esquece O Mundo La Fora foi o álbum mais bem-sucedido do ano.

Não que o álbum tenha sido um fracasso, muito pelo contrário. Não só ele foi o mais ouvido de 2017 no Spotify, o primeiro single , “Te Assumi Pro Brasil”, foi inescapável. Outras músicas do CD, como “Nessas Horas”, também gozaram de repercussão decente. Mas não repetiu o fenômeno do álbum anterior, algo que os sertanejos de primeiro escalão não costumam ter dificuldade em fazer.

A AudioMix também insistiu na estratégia de fazê-los colaborar com artistas de outro segmento. É verdade que isso trouxe sucessos e os expôs a um público que não necessariamente consome sertanejo. Em 2017, eles obtiveram bons resultados tanto com “Fica”, gravado com a dupla indie pop ANAVITORIA, quanto com o funknejo “Deixa Ela Beijar”, junto a Kevinho. Em 2018, eles passaram semanas no topo das mais ouvidas do Spotify com “Ao Vivo e a Cores”, com Anitta.

Mas, na minha opinião, essa excessiva popzação e a dependência grande de parcerias não fideliza o público e trás problemas a longo prazo. Primeiro porque o repertório e todo o branding da dupla fica menos coerente. Segundo que, para a base de fãs maciça do gênero, que é a que lota os shows, quanto mais sertanejo, melhor. E terceiro que a marca de um sertanejo de primeiro escalão é a facilidade de obter sucessos solos.

Apesar de uma década como os maiores artistas do Brasil, Jorge & Mateus, por exemplo, nunca deram os braços a torcer. Todas as participações em músicas de outros artistas foram com nomes cuja sonoridade combinava perfeitamente com a deles, em sua maioria do âmbito sertanejo. Tem que ter uma convergência ali, uma linearidade. Além disso, eles emplacam sucessos solos ano após ano. É isso, mais do que qualquer outra coisa, que fez com que eles continuassem em destaque como dupla, mesmo em um mercado saturado E foi essa estratégia que a WorkShow empregou para Henrique & Juliano e, depois, para Zé Neto & Cristiano.

Já a AudioMix, com Matheus & Kauan, resolveu mudar a receita e ser mais ousada. E, sinceramente, não sei se isso os beneficiou.

“Ao Vivo e a Cores”: a bem recebida colaboração entre Anitta e Matheus e Kauan.

É importante ressaltar novamente que a estratégia da AudioMix tampouco deu errado. Matheus & Kauan seguiram sendo uma das principais duplas sertanejas do país. Além do mega hit com Anitta, eles também obtiveram um sucesso solo em 2018, com “Tô Com a Moral no Céu”; mantiveram agenda cheia; tiveram ótimos números de streaming, além de serem uma das atrações estrela do Festival Villa Mix e presença constante na rádio.

Mas, mesmo assim, o volume de hits solo estava abaixo do esperado para artistas do porte deles e o projeto Intensamente Hoje (que foi lançado, inicialmente, como 4 EPs) não deu origem a vários clássicos instantâneos, algo que seus predecessores (e eles próprios no seu primeiro ano de sucesso) conseguiam com facilidade. Ademais, tanto em 2017 (“Deixa Ela Beijar”) quanto em 2018 (“Ao Vivo e a Cores”), os maiores hits deles foram parcerias que, como já disse, não tem o efeito duradouro e potencializador de um sucesso solo.

Outro artista que optou por uma estratégia ousada foi Luan Santana. Mas. no caso dele, os resultados foram indiscutivelmente catastróficos.

Desde 2016, o artista está fazendo um esforço para adotar uma imagem mais pop. Começando com “Eu, Você, o Mar e Ela”, as coisas pareciam estar bem encaminhadas e, no começo de 2017, “Acordando o Prédio”, com sua influência do reggaeton, foi um sucesso enorme.

O cantor, é verdade, nunca seguiu a risca as regras do sertanejo e sempre transitou por caminhos mais típicos de artista pop. Por exemplo, ele é uma figura constante na mídia, aparecendo nas telas da TV Globo com enorme frequência. Outros sertanejos de primeiro escalão são muito mais low profile, dosando bastante suas aparições midiáticas.

Ele também era um garoto-propaganda popular, tendo seu próprio perfume da Jequiti e fazendo campanhas da Coca-Cola, das tintas Suvinil, do posto Shell, das Casas Bahia e até mesmo de produtos para acne da Asepxia. Aparecer em comerciais é comum para artistas como Anitta, Ivete Sangalo, Ludmilla ou até Wesley Safadão. Mas é raríssimo um sertanejo moderno de primeiro escalão associar seu nome a uma grande marca. Marília e Jorge & Mateus, por exemplo, não costumam fazer campanhas publicitárias, apesar de serem os maiores artistas do país.

Marília Mendonça segue em alta.

Para Luan e sua equipe, essas quebras de paradigma sempre trouxeram bons resultados. E é natural que, depois de quase 10 anos, eles quisessem ir mais além. Mas se o rebranding pop dele começou bem, não demorou muito para as coisas desandarem de vez.

Ao longo de 2018, Luan lançou quatro singles: “Acertou a Mão”; “Check-In”, “2050” e “MC Lençol e DJ Travesseiro”. Ele apostou em arranjos com influências de eletrônico e reggaeton e abriu mão dos tradicionais clipes ao vivo para fazer vídeos com estética internacional e orçamentos altos.

As primeiras duas músicas tiveram clipes gravados na Colômbia dirigido por um cineasta estado-unidense enquanto a última teve vídeo estrelando a badaladíssima atriz e comediante Tata Werneck. Todos, sem nenhuma exceção, foram fracassos retumbantes.

Na sua nova fase, Luan não só alienou o público sertanejo, o mais numeroso do país, como não conseguiu conquistar o público pop. E, na minha opinião, essa estratégia estava fadada ao fracasso desde o começo. No passado, era comum artistas perderem o jeito “de interior” para alcançar um público maior. Mas já faz tempo que o caminho é o inverso: se sertanejar é um atalho para o sucesso, inclusive nos grandes centros, como São Paulo.

Diferente de outros grandes nomes do sertanejo, que são intra-geracionais, Luan Santana sempre atraiu um público mais juvenil. E artistas juvenis costumam ter data de validade: uma hora, a popularidade cai. Com sua capacidade impressionante de gerar hits, o artista conseguiu se manter no topo por muito mais tempo que o esperado. Mas sua transformação pop parece ter finalmente causado o inevitável declínio.

“Apelido Carinhoso” se confirmaria como a maior música de Gusttavo Lima.

Por outro lado, Gusttavo Lima, que abraçava totalmente o mercado sertanejo, seguia no topo. Mesmo com anos de sucesso nas costas, ele provou, em 2018, que ainda não tinha alcançando o ápice. Lançado no fim de 2017, Buteco do Gusttavo Lima Vol. 2 trouxe “Apelido Carinhoso”, que se transformaria na maior música dele até então, e “Mundo de Ilusões”.

Em agosto, mostrando que o mercado sertanejo é cheio de reviravoltas, o artista anunciou que iria deixar a WorkShow para voltar para a AudioMix, o escritório que o lançou e com qual ele tinha rompido dramaticamente vários anos antes.

Na nova parceria, Gusttavo seguiria o mesmo esquema de Luan Santana e Wesley Safadão: a sua Balada Eventos permaneceria responsável pelo gerenciamento artístico mas a AudioMix administraria a agenda e ele viraria artista fixo no Festival Villa Mix. O anuncio foi feito poucos dias antes dele fazer a sua apresentação em Barretos, que já tinha se tornado uma tradição e era considerado o ponto alto das festividades.

Para 2018, ele se superou. Depois de ter sido o primeiro artista a ser nomeado Embaixador do evento por dois anos consecutivos, ele decidiu que seu show no Festival do Peão seria o cenário do seu novo álbum/DVD que seria intitulado, claro, “O Embaixador”. Foi a primeira vez que Barretos foi escolhido como palco da gravação de um projeto ao vivo. A filmagem durou 2 horas mas depois ele cantou por mais 3 horas e 40 minutos para quebrar o recorde que ele mesmo estabeleceu no ano passado.

Já o boom feminejo deixou de ser a grande novidade do pedaço. O que não quer dizer que acabou. Pelo contrário, ele se estabilizou como parte fixa do gênero e todas as principais estrelas encontraram seus respectivos nichos.

Depois de um começo espetacular, com “10%”, “Medo Bobo” e “Sorte Que Cê Beija Bem”, Maiara & Maraísa tiveram certa dificuldade de continuar emplacando grandes sucessos solos. Como já disse, na métrica do sertanejo, sucessos solos são o principal indício de que você é parte fixa do primeiro escalão então isso poderia ser problema.

Mas as gêmeas não deixaram isso ser um empecilho. Talvez elas não tenham alcançado o topo da pirâmide mas, com o apoio da WorkShow, mantiveram a agenda cheia; são parte fixa do festival Festeja! e foram abraçadas pela indústria. O DVD delas, Reflexo, gravado em São Paulo, teve participações de Zé Neto & Cristiano, Jorge & Mateus e Henrique & Juliano. De certa maneira, elas servem como embaixatrizes do feminejo, colaborando frequentemente com Marília Mendonça e também aparecendo em “Cobaia”, hit que revelou a mais nova representante do estilo, Lauana Prado.

O funknejo de Kevinho com Simone & Simaria foi outro dos sucessos do ano.

Já Simone & Simaria optaram por transcender o sertanejo e viraram figuras pop com presença constante na mídia, posto fixo no “The Voice” e muitos lucrativos contratos publicitários. O funk delas com Kevinho, “Ta Tum Tum”, foi um dos maiores hits do ano. Como comentei antes, a popzação tem o seu preço mas, no caso delas, cumpriu o papel de mantê-las em evidência.

Apesar de não ser afiliada aos maiores escritórios, Naiara Azevedo também continuou forte no nicho sertanejo, com músicas com refrões pegajosos como “Pegada Que Desgrama” e “Chora no Meu Colo”, além de colaborações irreverentes com nomes como Ivete Sangalo (“Avisa Que Eu Cheguei”) e as funkeiras Dani Russo e MC Pocahontas (“Oh Quem Voltou”). Em 2018, ela se associou brevemente a WorkShow mas saiu para fundar sua própria agência, NA Produções. A NA prontamente atraiu nomes consolidados no segmento, como Israel Novaes e Humberto & Ronaldo.

Já a rainha suprema Marília Mendonça seguiu como uma das maiores artistas do Brasil em 2018. Ao longo do ano, lançou Agora É Que São Elas 2, um EP digital em colaboração com Maiara & Maraísa, que deu origem a hits como “A Culpa é Dele”, que tinha a participação das gêmeas; “Estranho” e “Ausência”.

Mais tarde, ela deu início ao ambicioso projeto Todos os Cantos. Nele, ela visitaria todas as capitais do país e gravaria uma música inédita ao vivo em cada uma delas, em um show gratuito. O primeiro single, “Ciumeira”, gravado em Belém do Pará foi um estrondoso sucesso e, em 2018, ela ainda lançou “Bem Pior Que Eu” (gravado em Goiânia); “Casa da Mãe Joana” (gravada em Palmas, TO, com participação de Henrique & Juliano); “Bye Bye” (Sam Luis, MA); “Passa Mal” (Recife, PE); “Sem Sal” (Fortaleza, CE) e “Bebi Liguei” (Natal, RN).

Além de Marília, outros artistas de primeiro escalão tiveram um 2018 animado. Jorge & Mateus voltaram com o projeto ao vivo Terra Sem CEP que, como de costume, foi muitíssimo bem recebido. “Propaganda”, o primeiro single, foi um fenômeno nas plataformas digitais e “Trincadinho” e “Coração Calejado” também obtiveram ótimos desempenhos.

Já Henrique & Juliano optaram por um caminho diferente. Em termos de sucesso, eles continuaram intocáveis, com o álbum do ano anterior, O Céu Explica Tudo, gerando vários sucessos ao longo de 2018. Mas, por outro lado, eles pareciam estar num momento de redefinição da carreira. E, apesar de que eles nunca romperiam com a WorkShow, onde são praticamente sócios, eles optaram por não renovar com a Som Livre, a poderosa gravadora da Globo que os revelou.

“Ciumeira” deu o ponta-pé no muito bem sucedido projeto “Todos os Cantos”.

No fim do ano, lançaram Menos É Mais, o primeiro projeto independente da dupla, gravado ao vivo em um show intimista na fazenda deles no Tocantins. Mesmo sem contar com a poderosa promoção na Globo que a gravadora anterior proporcionava, o primeiro single, “Quem Pegou, Pegou”, foi mais um hit para os irmãos. A WorkShow também não ficou tão queimada com o selo, uma vez que o fenômeno Zé Neto & Cristiano, que também são artistas Som Livre, supriu a baixa.

Com todo o primeiro escalão na ativa, 2018 foi mais um ano dominado pelo sertanejo. Em contrapartida, foi um ano sem grandes revoluções no gênero.

A chegada de Zé Neto & Cristiano no topo foi sim um momento importante porém eles foram embalados por tendências que os precedem: a bachata e a sofrência. Além disso, com 2 álbuns bem sucedidos, eles não eram exatamente novatos. Isso de maneira alguma tira o mérito deles, afinal o sucesso que eles alcançaram foi realmente histórico. Mas significa que o mercado como um todo não produziu nenhuma grande renovação.

“Propaganda”, mais um sucesso definidor para Jorge & Mateus.

A maior revelação do ano foi provavelmente Gustavo Mioto. O jovem do interior de São Paulo, filho de um dos maiores contratantes de show do país, lançou o seu Ao Vivo Em São Paulo cheio de colaborações grandiosas. Obteve enorme sucesso com “Coladinha em Mim”, junto com a cantora pop Anitta e ainda mais repercussão com “Anti-Amor”, que contou com a participação de Jorge & Mateus.

Felipe Araújo também continuou bem. E partiu dele uma das novidades do ano: o sertanejo com cara carioca. Apesar disso soar como um oxímoro, foi essa a proposta do seu novo DVD, Por Inteiro Ao Vivo, gravado no Rio de Janeiro. E pior que deu certo.

Ao lado de Ferrugem, Felipe Araújo estreou o sertanejo com estética carioca.

“Atrasadinha”, a faixa mais bombada do projeto, foi um dos maiores sucessos do ano, em grande parte graças ao alcance dela no Rio. O segredo para conquistar o tão difícil público da Cidade Maravilhosa? A participação do pagodeiro Ferrugem e um arranjo que tende ao samba, fazendo da faixa um pagonejo.

Já Humberto & Ronaldo obtiveram seu primeiro hit nacional depois de 10 anos de estrada. Ao longo desse tempo, eles se estabeleceram como nomes grandes dentro do nicho sertanejo sob a tutela da AudioMix mas, ironicamente, foi só depois de sair da toda poderosa que eles conseguiram um sucesso que repercutiu em todo o país. “Não Fala Não Pra Mim” foi uma parceria com o funkeiro galã Jerry Smith, o que ajudou bastante na difusão da canção.

Mas, mesmo tendo trazido novidades para o mercado, nenhum desses artistas representou algum tipo de impacto grande ao gênero. Apesar de colecionar sucessos, tanto Mioto quanto Araújo ainda vão ter que suar para alcançar o primeiro escalão e, no caso de Humberto & Ronaldo, um hit nacional não significou popularidade duradoura fora do nicho que eles já conquistaram.

“Quem Pegou, Pegou” foi o primeiro single da nova era independente de Henrique & Juliano.

O ano de 2018 também foi marcado por eleições que deixaram claro a polarização do país. E o sertanejo tomou partido: o candidato de extrema-direita. Ele foi apoiado tanto por nomes tradicionais do gênero — Bruno & Marrone; Leonardo; Zezé Di Camargo — quanto por representantes da nova geração, como Zé Neto & Cristiano, Gusttavo Lima e Henrique & Juliano. Ainda vamos ter que esperar para confirmar qual marca esse apoio deixará na história do ritmo mas a associação do sertanejo com Collor, no começo dos anos 90, foi um propulsor para que ele fosse rotulado, por muitos, como algo tacanho e atrasado, um preconceito que ainda perdura.

Em todo caso, a curto prazo, o apoio não causou nenhum dano a popularidade dos artistas. E nem todo mundo tornou público qualquer apoio. Quase todos os artistas da AudioMix, incluindo Jorge & Mateus e Luan Santana, se mantiveram quietos, assim como a maior parte das artistas de feminejo. A única que se pronunciou vocalmente contra — indo na onda oposta da maior parte dos nomes da WorkShow — foi Marília Mendonça, que aderiu a campanha #EleNão. Contudo, ela apagou o post e pediu desculpas depois de sofrer ameaças.

Independentemente do tumulto do país, os escritórios artísticos de Goiânia seguiram em pleno crescimento. A AudioMix continuou expandido para outros gêneros e começou a gerenciar a agenda do maior funkeiro do Brasil, Kevinho. O Villa Mix também finalmente chegou em território europeu, esgotando 15 mil ingressos em Lisboa.

Já a WorkShow teve um ano fantástico. Mas, apesar de ter os dois maiores artistas de 2019, Zé Neto & Cristiano e Marília Mendonça, eles continuaram usando a AudioMix como referência. Inspirado no enorme sucesso da contratação de Alok por parte da AudioMix, o escritório se associou a agência carioca de música eletrônica HUB Records. Vendo o sucesso da concorrente com artistas nordestinos (a AudioMix tinha os dois maiores nomes da região, Wesley Safadão e Xand Avião), eles assinaram com Léo Santana, uma das maiores sensações da Bahia.

Além disso, eles criaram mais um festival para competir com a WorkShow, o Skuta. Desde 2015, o escritório assumiu o Festeja!, fazendo com que ele se tornasse um dos mais importantes do país. Contudo, o evento era feito em associação com a Globo/SomLivre, o que afetava a margem de lucro deles.

A primeira edição do Skuta em Sào Paulo se provou um enorme sucesso.

Sendo assim, eles resolveram investir num festival integralmente deles, que seria baseado em São Paulo e cuja primeira edição, que contou com todos os principais artistas do escritório, atraiu 45 mil pessoas ao Allianz Parque. O evento ainda serviu de solução para Henrique & Juliano que, com a saída da Som Livre, perderiam a plataforma proporcionada pelo Festeja! (Zé Neto & Cristiano se juntariam a Marília como atrações estrelas do festival da Globo).

O sucesso duradouro da AudioMix e da WorkShow — tanto do ponto de vista de negócios quanto artisticamente — é algo particularmente chamativo pois é um contraste grande com o resto do mercado.

A FS Produções, por exemplo, bombou muito com Lucas Lucco e Marcos & Bellutti mas, depois deles alcançarem o ápice, o escritório não conseguiu seguir potencializando-os e ambos decidiram por não renovar contrato com Sorocaba, optando por partir para a Noix, recém-fundada por Rodrigo Byça (o empresário que descobriu Lucco).

A Brothers, de Michel Teló, perdeu seu outro único artista relevante, Jads & Jadson, para a WorkShow em 2018. Apesar de grande e respeitada, a Talismã, do cantor Leonardo, só conseguiu revelar uma sensação nova na última década, Paula Fernandes, e, hoje em dia, ainda depende inteiramente de nomes veteranos, como seu fundador, Eduardo Costa e Trio Parada Dura. A Mega Produção, de José Neto & Frederico, não conseguiu manter seu outro nome forte, Naiara Azevedo, que também optou por ir para a WorkShow antes de abrir sua própria agência, NA.

“Anti-Amor”, o maior sucesso de Gustavo Mioto, a revelação do ano.

A Duts, sediada no Mato Grosso do Sul, começou graças ao sucesso da banda Tradição, na época liderada por Michel Teló, e se manteve forte por mais de uma década. Mas, apesar de obterem hits expressivos, seus artistas, como Attaque 67 e Bruninho & Davi, também não conseguiram se firmar a nível nacional e os nomes que chegaram mais perto disso, Henrique & Diego, de “Suite 14” e “Raspão, deixaram a agência em meados do ano por causa de desentendimentos acerca do cachê.

Isso não quer dizer que esses escritórios estão indo mal, pois não é o caso. Todos eles seguem se beneficiando do boom sertanejo que domina o Brasil. Mas deixa claro que a WorkShow e a AudioMix estão competindo em um nível completamente diferente. Além de gerir a carreira e/ou agenda dos maiores artistas do país, elas expandiram para outros gêneros e investiram em grandiosos festivais, se consolidando como verdadeiros titãs do entretenimento.

Prova disso é que, dentre os 10 artistas mais ouvidos em 2018 no Spotify (Zé Neto & Cristiano; Jorge & Mateus; Anitta; Matheus & Kauan; Marília Mendonça; Henrique & Juliano; Wesley Safadão; MC Kevinho; Alok e Gusttavo Lima), apenas um (Anitta) não era afiliado a nenhum dos dois escritórios.

Um investimento maior das grandes gravadoras em outros gêneros, como pop e pagode, fez com que o sertanejo tivesse apenas 83 músicas dentre as 100 mais tocadas na rádio em 2018. A campeã de reprodução foi “Apelido Carinhoso” de Gusttavo Lima.

Mas, apesar do avanço de outros ritmos, o sertanejo seguiu dominando. Tanto no Spotify quanto no YouTube, Zé Neto & Cristiano foram os artistas mais ouvidos de 2019, com a música “Largado as Traças” como a mais popular do ano.

O top 5 das músicas mais populares no Spotify ainda incluiu “Propaganda” de Jorge & Mateus (#2), “Ao Vivo e a Cores” de Matheus e Kauan com Anitta (#4) e “Ta Ta Tum Tum” de Kevinho com Simone e Simaria (#5).

Já os 5 álbuns mais populares na plataforma foram “Esquece o Mundo Lá Fora – Ao Vivo” (Zé Neto & Cristiano); “Terra Sem CEP” (Jorge & Mateus); “Intensamente Hoje!” (Matheus & Kauan); “O Céu Explica Tudo – Ao Vivo” (Henrique & Juliano) e “Ao Vivo em São Paulo” (Gustavo Mioto).

Os hits definidores de 2018.

2019: o presente e o futuro

Ainda é cedo para fazer um balance do sertanejo ao longo do ano mas, de maneira geral, o gênero segue forte.

Com um volume de lançamentos impressionante, que continuam sendo compilados no projeto Todos os Cantos, Marília Mendonça se mantém firme como maior artista do país.

Já a dupla Zé Neto & Cristiano, que conseguiu desbancar a rainha da sofrência no ano passado, iniciou 2019 com um segundo EP, Acústico de Novo. Apesar de bem recebido, a repercussão não atingiu o nível dos projetos de 2018. Mas o single, “Estado Decadente”, lançado em janeiro, está em pleno crescimento e as músicas do álbum anterior, Esquece O Mundo Lá Fora, permanecem firmes dentre as mais populares do país, o que ajudou a consolidá-los como um dos artistas mais disputados para shows Brasil afora.

O Embaixador de Gusttavo Lima é, até o momento, o álbum mais popular do ano.

Gusttavo Lima, por sua vez, continua em alta e é um dos artistas mais badalados de 2019 graças a recepção calorosa do seu projeto gravado em Barretos. O Embaixador deu origem a faixas como “Cem Mil”, “Zé da Recaída”, “Eu Não Iria” e “Sujeito”.

Gustavo Mioto, a revelação do ano passado, também se mantém firme com o sucesso solo “Solteiro Não Traí” e um namoro com a influencer Thaynara OG, que ajuda a fazer dele uma sensação nas redes sociais.

“Cem Mil” é o maior hit do projeto “O Embaixador”.

Depois de sair da caixa ao longo dos últimos anos, fazendo colaborações pop e funk, o sertanejo está voltando as suas raízes como visto nos últimos desdobramentos das carreiras de Matheus & Kauan, Luan Santana e Simone & Simaria.

Matheus & Kauan seguem fortes com o recém lançado Tem Moda Pra Tudo. Depois de transitar por diferentes estilos entre 2017 e 2018, eles voltaram a apostar no seguro, com todas as faixas seguindo as tendências do sertanejo atual. O projeto foi gravado ao vivo em Goiânia e todos os convidados eram estrelas do gênero.

O bem-recebido álbum de Matheus & Kauan

O álbum, mais uma vez, foi super bem recebido. Mas eles seguem caindo na questão da hiper dependência das colaborações. A maior música do projeto é “Vou Ter Que Superar”, com Marília Mendonça. Os outros destaques? “Quarta Cadeira” com Jorge & Mateus e “Mágica” com Gusttavo Lima.

Não tenho a menor duvida que o álbum será um dos mais ouvidos do ano no Spotify e que a dupla continuara em alta demanda. Mas, desde “Te Assumi Pro Brasil”, lançado no fim de 2017, eles não tem uma música solo gigantesca, o que não deixa de ser um pouco preocupante. Canções como “Tô Com a Moral no Céu” e “Cerveja, Sal e Limão” tiveram bom alcance mas nada comparado com os lançamentos de 2015 e 2016.

Depois de quase cair no ostracismo no ano passado, Luan Santana também voltou as origens sertanejas no seu novo projeto, Live-Móvel, gravado ao vivo em diferentes pontos do Brasil. O primeiro single, “Sofazinho“, com Jorge & Mateus foi bem recebido e o segundo, “Vingança”, com MC Kekel, tem se provado o maior hit dele em anos.

“Vingança” ajudou Luan Santana a dar a volta por cima.

Mas, apesar de tudo, Luan continua com vontade de ousar. Esse mês, ele grava novo DVD em Salvador, com a temática cyber punk e participação do DJ Alok. Se vai dar certo? Vamos ter que esperar para ver…

Outras que estão voltando a se sertanejar são as irmãs Simone & Simaria. É verdade que, até o momento, a música delas com maior repercussão em 2019 é o popnejo Qualidade de Vida“, com participação de Ludmilla. Mas existem grandes expectativas para o show da dupla no Festival de Peão de Barretos. Elas foram nomeadas as Embaixadoras da edição de 2019, sucedendo Gusttavo Lima. É a primeira vez que mulheres ocupam essa posição.

Outras divas do feminejo seguem consistentes. “Rapariga Digital” de Naiara Azevedo teve um desempenho bem forte no YouTube enquanto o novo projeto de Maiara & Maraisa, Reflexo, está bombando no Spotify.

Novos nomes também estão emergindo. Lauana Prada, com tatuagens e dreads, foge um pouco da estética sertaneja mas tem a maior música sertaneja de 2019 até o momento, “Cobaia”.

Lauana Prado é uma aposta forte para 2019.

Yasmin Santos, de São Paulo, está sendo fortemente investida pela Sony. Depois dos bons resultados da faixa “Saudade Nível Hard” no ano passado, ela acaba de gravar DVD com participações de Marília Mendonça, Maiara & Maraisa e Safadão.

Mas, até o momento, a aposta mais forte é a dupla mineira Diego & Victor Hugo da WorkShow.

Em 2018, eles chegaram com o DVD Sem Contraindicações, cuja canção com Henrique & Juliano, “O Alvo”, teve ótima repercussão. No fim do ano, lançaram o projeto Querosene & Violão. Desse álbum saiu o hit definidor deles, “Infarto”, um dos grandes sucessos da atualidade. Algumas semanas depois, gravaram Ao Vivo em Brasília, que estão lançando em partes. Os singles de destaque até o momento são “A Culpa é do meu Grau”, com Zé Neto & Cristiano, e “Do Copo Eu Vim” com Marília Mendonça.

Diego & Victor Hugo são uma das principais apostas da indústria.

Apesar de que a estratégia parece estar dando certo e agradando os fãs do gênero, é difícil classificar a dupla como artistas que conseguiram continuar renovando o sertanejo. Não pela qualidade da música em si mas pelo fato de que as táticas utilizada e os materiais lançados (parcerias, arranjos bachata, letras de sofrência e álcool) faz com que seja difícil de diferencia-los de outros nomes badalados.

O sertanejo segue indiscutivelmente como o estilo dominante do Brasil. Mas, para que a dominação continue, é preciso continuar gerando novidades. Novas temáticas, novos artistas, novos arranjos. Afinal, outros gêneros — como o sempre forte funk; o pagode; o EDM e o pop — estão em pleno crescimento, algo que fica comprovado com o investimento cada vez maior da AudioMix e da WorkShow em outros filões.

Sendo assim, o grande desafio do ritmo para o futuro próximo é seguir gerando renovação, algo essencial para manter a atenção do público. O sertanejo precisa constantemente de novos nomes no primeiro escalão e não deve ficar dependendo apenas de suas estrelas já estabelecidas, pois foi isso que estagnou o ritmo ao longo da primeira década dos 2000. Será que Mioto, Lauana, Diego & Victor Hugo tem o que é preciso para suprir essa demanda por sangue novo?

Em 2019, o sertanejo completa uma década como o estilo mais rentável do Brasil. Mas, apesar de tudo que a indústria conquistou, uma coisa é certa: não dá para se acomodar.

Os hits de 2019 até o momento…

Causando no Brasil: como o sertanejo voltou a dominar o país

Ao longo dos últimos anos, o Tá Causando cobriu principalmente a cultura pop internacional. Nas próximas semanas, vamos virar a lente para o Brasil e fazer uma análise do que realmente bomba no país, musicalmente falando. Hoje começamos com o gênero que é, indiscutivelmente, o rei da indústria fonográfica atual: o sertanejo.

Mapa musical da parada brasileira: o sertanejo

O estilo sertanejo foi criado no começo do século 20, quando os bandeirantes paulistas colonizaram o interior do país e a “cultura caipira” começou a se estabelecer.

Amigos: Leandro & Leonardo; Chitãozinho & Xororó e Zezé DiCamargo & Luciano desataram o fenômeno sertanejo

Mas, apesar da música rural ter se espalhado por todo o Brasil nos anos seguintes, o gênero só ganhou força colossal — e começou a ser levado a sério pela indústria — no fim da década de 1980 e no começo da década de 1990. Naquele então, nomes como Chitãozinho & Xororó, Zezé Di Camargo & Luciano e Leandro & Leonardo alcançaram um nível de sucesso quase nunca antes visto na história da música brasileira.

O gênero romântico, com voz gemida e refrões chicletes, explodiu envolto em preconceito mas os números de venda e repercussão popular eram tão gigantescos que foi impossível de ignorar. Em meados dos ’90, as principais duplas se juntaram e criaram um projeto conjunto, o “Amigos”, que virou um especial de fim de ano na Rede Globo, a maior emissora do país, e, em 1999, um programa semanal, conhecido como “Amigos & Amigos”.

Apesar da exposição na Globo, o sertanejo deu uma estagnada a partir do fim dos 90. Tanto que, na virada dos anos 2000, o sertanejo perdeu o espaço fixo nas telas da emissora. Parte disso foi porque a elite cultural — principalmente a do Rio de Janeiro, berço da MPB — nunca abraçou de fato o gênero.

Além disso, a força dos “Amigos” era tanta que monopolizou o mercado e limitou investimentos em novos nomes, algo agravado pelo fato de que ritmos como axé e pagode eram, naquele então, as novidades que prendiam a atenção do público jovem.

Mas, longe do olhar dos formadores de opinião, o sertanejo seguiu se consolidando como o estilo favorito do brasileiro. Na Zona Sul e no Centro do Rio ele permanecia banido mas aquela região era a exceção. Apesar da importância simbólica, essa área era só um fragmento muito microscópico de um país gigantesco.

Dormi na Praça: o maior sucesso sertanejo da primeira década dos 2000

E, no resto do Brasil, a música caipira, que aos poucos ia se modernizando, se firmava cada vez mais como a trilha sonora tanto do trabalhador rural do interior quanto do jovem de elite em São Paulo, frequentador da popular e influente boate Villa Country. Ela foi se infiltrando tanto nas tradicionais festas juninas do Nordeste quanto na vida universitária do Sul.

Mesmo assim, as grandes gravadoras não davam muita bola para o sertanejo. Artistas da primeira leva — Zezé Di Camargo & Luciano, Leonardo, Daniel — seguiam sendo os principais nomes e Bruno & Marrone, que tinham explodido no país inteiro com “Dormi na Praça” na virada dos 2000, eram um dos poucos que conseguiram se firmar em todas as regiões do país desde então.

O novo sertanejo e a dominação iminente

Porém, em 2007, quando Cesar Menotti & Fabiano, uma dupla novata, teve o terceiro CD mais vendido do Brasil , estava claro que havia uma vontade grande por novos nomes. E, no ano seguinte, esse vontade deu origem a um fenômeno que escancarou as portas para o momento imperial do sertanejo.

A dupla em questão, Victor & Leo, teve o álbum Ao Vivo em Uberlândia como o maior do Brasil em 2008. Eles foram os primeiros grandes nomes do novo sertanejo, que tinha clara influência do sertanejo do começo da década anterior mas adotava uma sonoridade mais pop e mais voltada aos ouvidos do século 21. As músicas deles — como “Fada”, “Amigo Apaixonado”, “Tem Que Ser Você” e “Borboletas” — eram as mais pedidas nas rádios de todas as regiões do país e eles foram as atrações estrela em ambientes onde sertanejo era raramente visto, como o festival de rock Planeta Atlântida no Rio Grande do Sul e o Festival de Verão de Salvador.

Fada, um dos sucessos que consolidou Victor & Leo como os maiores nomes do país

O Rio de Janeiro, como de costume, ficou relativamente indiferente em relação aos novos monstros do mercado fonográfico mas, apesar de ter sede na cidade, a Rede Globo já começou a abrir os olhos. Em um momento de crise de audiência, a emissora recorreu ao sertanejo para tentar fortalecer os laços com o Brasil profundo e colocou diversas músicas do estilo na trilha sonora de sua novela das 9, “A Favorita”, ambientada em São Paulo.

Diferente das décadas passadas, onde as principais duplas reinavam por anos e anos a fio, o momento de ápice de Victor & Leo foi relativamente curto e não demorou muito para eles começarem a perder espaço para outros nomes. Mas foi a repercussão alcançada por eles que sacudiu o mercado e alertou para a invasão sertaneja que estava prestes a acontecer.

O nome seguinte a abalar todas as estruturas foi Luan Santana. Com um lançamento independente, o adolescente tinha obtido sucesso no Mato Grosso do Sul, seu estado natal, e no Paraná e tinha chamado atenção de Sorocaba, um artista e produtor influente do gênero. Sob a tutela dele, Luan gravou um CD que deu origem ao enorme hit “Meteoro” que, rapidamente, se alastrou pelo Brasil.

Luan Santana Ao Vivo: o álbum que desatou o fenômeno

Prontamente, a Som Livre, o braço musical da Globo, assinou contrato com o menino. Em novembro de 2009, um CD ao vivo, gravado na frente de 80 mil pessoas em Campo Grande, foi o primeiro lançamento dele com a gravadora. Impulsionado pela promoção intensa nas telas da emissora carioca, que o colocou até mesmo na novela teen “Malhação”, Luan se transformou no maior vendedor de 2010.

O fenômeno Luan Santana foi interessante porque foi o primeiro voltado especificamente para o público juvenil. Apesar do enorme sucesso do gênero no ambiente universitário e na noite jovem de cidades como São Paulo e Belo Horizonte, ainda havia uma percepção (falsa) entre as gravadoras de que o público mais novo tinha resistência ao estilo. O sucesso de Luan provou, de uma vez por todas, o quão intra-geracional o sertanejo era.

Mas enquanto Victor & Leo escancaravam a porta e Luan Santana virava uma sensação midiática, uma dupla até então bem mais low profile iria mudar para sempre o rumo do sertanejo: Jorge & Mateus.

A dupla de Goiás teve seu primeiro CD lançado em 2007 e, mostrando a versatilidade do sertanejo moderno, um dos seus primeiros sucessos foi “Pode Chorar”, um cover de uma música do Aviões do Forró, banda sensação do Nordeste. Mas, apesar de começar bebendo da fonte da música nordestina, Jorge & Mateus iriam rapidamente se firmar como os maiores nomes do sertanejo, revitalizando o gênero no país inteiro e se sustentando no topo da lista dos maiores artistas do país por 10 anos ininterruptos.

A invasão Jorge & Mateus aconteceu sem que a grande mídia percebesse. De fato, eles de vez em nunca apareciam na TV e eu, morador da Zona Sul do Rio de Janeiro, nunca sequer tinha ouvido uma música deles na rádio. Mesmo assim, eles prontamente se tornaram os maiores nomes da música brasileira, comandando o cachê mais alto para shows e sendo capazes de atrair públicos massivos em toda as regiões do país.

“Flor”: um dos sucessos do DVD de Jorge & Mateus gravado em Jurerê, exclusivo litoral de Florianópolis.

O sucesso foi tanto que eles viraram atração essencial em absolutamente todos os grandes eventos ao vivo do Brasil: nas viradas de ano; no Planeta Atlântida no Sul do país; com um bloco próprio e enorme no carnaval de Salvador e também como atração estrela nos camarotes exclusivos de elite que envelopam o percurso Barra-Ondina; em todas as grandiosas festas juninas populares do Nordeste; nos rodeios do interior de São Paulo (eles foram os primeiros artistas a sustentar duas noites consecutivas lotadas no mais tradicional de todos, o Festival de Barretos) e, claro, nos principais espaços de show do Centro-Oeste, Minas e São Paulo capital. Seja em Jurerê, o litoral de Florianópolis considerado o mais elitizado do país, ou no Royal Albert Hall de Londres, show de Jorge & Mateus era sinônimo de muitos ingressos vendidos.

O sucesso da dupla — que começou na Universal Music em 2007, antes de fazer o pulo obrigatório para a poderosa Som Livre em 2012 — e a infinidade de hits que eles produziam ano após ano foi basicamente o que deu o fôlego para o sertanejo se firmar como o gênero número 1 do país e também o que realinhou todo o mercado.

Jorge & Mateus foram um fenômeno tão grande que redefiniram toda a indústria sertaneja

O estilo virou a prioridade de todas as gravadoras. As rádios do país foram totalmente tomadas pelo ritmo (exceto o Rio, que até hoje ainda não tem uma estação sertanejo). E Goiás — o estado de origem de Zezé DiCamargo & Luciano, Leandro & Leonardo e Bruno & Marrone — voltou a ser o epicentro do mundo da música. Afinal de contas, era em Goiânia que ficava a sede da AudioMix, o escritório de Jorge & Mateus que, impulsionado pelo sucesso deles, virou a maior agência de empresariamento artístico do país.

O triunfo da AudioMix fez com que os investidores do Centro-Oeste ficassem ouriçados. E, em 2014, mais uma dupla, Henrique & Juliano, despontou de maneira espetacular, transformando o escritório deles, WorkShow, em um rival de igual porte. Assim, Goiânia — uma cidade fora do eixo Rio-SP — tinha dois dos maiores escritórios artísticos do Brasil.

A chegada de Henrique & Juliano foi meteórica. Os irmãos do Tocantins gravaram um CD independente em 2011 e rapidamente foram contratados pela WorkShow, numa clara intenção de reproduzir o sucesso de Jorge & Mateus. Eles se mudaram para Goiás; foram colocados no estúdio com Pinochio, responsável por grande parte dos sucessos dos ‘oponentes’ e, em 2012, já assinaram com a Som Livre. O primeiro DVD deles, Ao Vivo em Palmas, fez sucesso mas o segundo, uma produção milionária gravada em Brasília, foi o que os consolidou como artistas do momento.

Henrique & Juliano: fenômenos que elevaram o mercado sertanejo a um novo patamar

O plano do escritório funcionou perfeitamente. Em menos de três anos, Henrique & Juliano se tornaram os únicos nomes do sertanejo capazes de competir de igual para igual com Jorge & Mateus, lançando uma sequência absurda de hits monstros e atraindo multidões pelo país, apesar de, assim como seus antecessores, também seguirem uma cartilha pouco midiática e com pouca exposição televisiva. Absolutamente todas as músicas de trabalho deles — “Cuida Bem Dela”, “Recaídas”, “Até Você Voltar”, “Como É Que A Gente Fica”, “Na Hora da Raiva”, “Mudando de Assunto”, “Vidinha de Balada” — viraram clássicos instantâneos e eles elevaram a WorkShow ao mesmo patamar que a AudioMix.

Uma mulher no topo

Quando parecia que o sertanejo não tinha mais como crescer, uma evolução do gênero o levou a patamares ainda mais elevados: o feminejo.

A explosão do feminejo aconteceu em 2016 mas, na realidade, as sementes começaram a ser plantadas em 2011, quando Paula Fernandes virou o maior nome da indústria musical brasileira. Era a primeira vez, desde Roberta Miranda nos anos 80, que uma mulher alcançava o topo do mercado sertanejo, um gênero quase que totalmente masculino.

Paula Fernandes obteve números de venda que não eram visto desde os tempos pré-pirataria na década de 1990

O sucesso inicial da cantora tem muitos traços em comum com o percurso de Victor & Leo. A explosão dela veio pouco depois do momento de ápice da dupla; o seu maior hit (“Não Precisa”) tinha a participação deles; Victor era um amigo próximo e frequente colaborador e todos eles eram do interior de Minas Gerais. Mas, mais do que isso, tanto Victor & Leo quanto Paula Fernandes foram fenômenos que, naquele então, abalaram todas as estruturas mas que, em retrospecto, duraram pouco e serviram apenas como uma prévia de coisas muito maiores que estavam por vir.

Em 2011, porém, parecia que nada seria capaz de superar a cantora. Ela era, de longe, a artista que mais vendida no país e seus dois CDs — Paula Fernandes Ao Vivo e Pássaros de Fogo — estavam alcançados milhões de unidades comercializadas, números que não eram vistos desde o fim da década de 1990 quando a indústria fonográfica ainda não tinha sido devastada pela pirataria.

Com seu rosto de boneca e seu jeito encantador de garota do interior, Paula foi apresentada ao grande público no especial de Natal de Roberto Carlos de 2010 e, depois de ser apadrinhada pelo Rei, estava em todas as partes: nos principais programas de TV; na trilha sonora da novela das 9; nas rádios; tocando on repeat nas Lojas Americanas. Sua voz dócil, longe das afetações do sertanejo, atraía até mesmo aqueles que não eram fãs do gênero. Em 6 meses, seu CD ao vivo tinha superado 1 milhão de cópias comercializadas.

Mas, assim como o amor por Paula Fernandes foi súbito, a perda de interesse também parece ter acontecido do dia para noite. Quando ela lançou seu segundo DVD ao vivo, gravado na HSBC Arena do Rio, tinham se passado menos de três anos desde que ela tinha sido coroada como a artista mais vendida do país. Mas o Brasil já parecia ter a superado e, prontamente, ela parou de dominar as rádios. Assim, a única mulher do sertanejo perdeu seu lugar no topo.

Em seu álbum, Paula Fernandes colaborou com nomes consagrados da música sertaneja, indo de Leonardo a Almir Sater.

Um dos grandes pecados de Paula foi que ela não teve a destreza necessária para transitar pelo mercado sertanejo. Um meio concorrido e competitivo, é necessário suar muito para ficar no topo. Para começar, tem que ter uma relação boa com todo mundo: com os contratantes; com os patrocinadores; com os empresários poderosos; com os outros artistas do gênero, com os quais espera-se que você colabore com certa frequência e, claro, com os compositores e produtores que vão te fornecer seus hits.

É uma lista longa de pessoas e a cantora, conhecida por seu gênio forte e que enfrentava uma depressão pesada, conseguiu — supostamente — desagradar ela toda. Além disso, em meados de 2012, Paula rompeu com o escritório que, até então, cuidava de sua carreira, Talismã, do cantor Leonardo.

Mas, mais do que isso, ela não soube se reinventar. O seu estilo permaneceu estático e ela não acompanhou as tendências sertanejas, fazendo com que suas músicas ficassem repetitivas.

“Amo Noite & Dia”, um dos incontáveis sucessos de Jorge & Mateus.

É um contraste, por exemplo, com Jorge & Mateus. Para permanecer mais de 10 anos no topo, a dupla soube perfeitamente se adaptar aos tempos: depois de começar com um sertanejo mais forrozeiro e de interior (“Querendo Te Amar”, “De Tanto Te Querer”, “Vou Fazer Pirraça”), eles migraram para um estilo ainda mais romântico e pop, com letras um pouco mais rebuscadas (“Amo Noite e Dia”, “Duas Metades”, “Ai Já Era”) e, nos últimos tempos, deram uma “desofisticada”, apostando em refrões chicletes com conceitos mais lúdicos (“Sosseguei”, “Contrato”, “Propaganda”, “Medida Certa”).

O boom feminejo

Essa tendência recente de conceitos lúdicos, alias, foi o motor para a explosão do feminejo.

O momento de Paula no topo foi breve mas serviu para mostrar que, sim, o público não teria nenhum problema em consumir sertanejo feito por mulheres. Nada mais lógico, afinal de contas, a grande maioria desse público é formado por mulheres. Mas, uma vez comprovado o óbvio, os empresários sertanejos começaram a procurar nomes para explorar esse filão. E quando vozes femininas foram combinadas com letras irreverentes, o Brasil se rendeu.

A explosão de hits feminejos aconteceu em uma sucessão impressionante ao longo de 2016 e, com as mulheres no comando, o sertanejo chegou a espaços onde o gênero — considerado até então heteronormativo e conservador — nunca tinha chegado antes, como rádios pop e festas LGBTs.

10%: o primeiro sucesso viral do feminejo

Maiara & Maraísa foram as que escancaram a porta do sub-gênero com “10%”. Na canção, elas estão na fossa e imploram para que um garçom pare de colocar músicas de amor no bar para se aproveitar do sofrimento delas. “Garçom troca o DVD/Que essa moda me faz sofrer/E o coração não guenta/Desse jeito você me desmonta/Cada dose cai na conta e os 10% aumenta!”, elas cantam de maneira dramática no refrão pegajoso que fez com que a música virasse um clássico instantâneo.

As irmãs gêmeas emendaram um hit monstro em outro (“Medo Bobo”, sobre finalmente se render aos encantos de um amigo próximo: “E na hora que eu te beijei/Foi melhor do que eu imaginei/Se eu soubesse tinha feito antes/No fundo sempre fomos bons amantes”) e ainda apareceram como convidadas em mais uma canção essencial para a coroação das mulheres no sertanejo: “50 Reais”.

“Medo Bobo”: mais um fenômeno de Maiara & Maraísa

Com uma letra tão dramática quanto divertida, “50 Reais” de Naiara Azevedo conta a história de uma mulher que pega seu marido no flagra a traindo e, antes de ir embora, deixa um dinheiro para a amante, insinuando que ela é uma garota de programa. “Não sei se dou na cara dela ou bato em você/Mas eu não vim atrapalhar sua noite de prazer/E pra ajudar pagar a dama que lhe satisfaz/Toma aqui uns 50 reais”.

Além de Maiara & Maraísa, outro casal de irmãs foi revelado nesse momento lúdico e girl power: Simone & Simaria. Depois de começar como backing vocals do forrozeiro Frank Aguiar, com quem trabalharam por quase uma década, as baianas partiram para carreira solo em 2012. Depois de anos na estrada, elas começaram a colher frutos do sucesso, adaptaram seu som, chamaram a atenção de empresários de Goiânia, assinaram com a AudioMix e, em 2016, foram alçadas a fama nacional com a explosão do feminejo.

“50 Reais”: a divertida música de Naiara Azevedo que virou febre no país

Apesar de que, num primeiro momento, os sucessos solos delas (“Meu Violão e o Nosso Cachorro”, “Quando Mel é Bom”) não alcançaram um nível tão alto quanto as de M&M (algo que seria feito mais tarde com “Regime Fechado”), elas viraram estrelas de primeiro escalão graças as suas personalidades cativantes.

Simone & Simaria trazem a irreverência nordestina para o feminejo

Morenas de corpos voluptuosos (uma espécie de versão agro das Kardashians), elas tinham uma história de vida que incluiu uma infância triste na pobreza extrema, vozes potentes e personalidades abrasivas, com senso de humor apurado e grande predileção por uma cerveja. Esse combo fez com que as nordestinas virassem queridinhas da mídia.

Mas enquanto Simone & Simaria e Maiara & Maraísa dominavam a atenção, um fenômeno feminejo de proporções nunca antes vistas estava discretamente tomando conta do pedaço: Marília Mendonça.

A rainha da sofrência

Marília Mendonça: fenômeno de massa que trouxe a vida real para o topo das paradas

Um prodígio do sertanejo, Marília Mendonça começou a carreira ainda adolescente, trabalhando como compositora de vários sucessos. Os maiores deles, “Cuida Bem Dela” e “Até Você Voltar”, foram feitos para Henrique & Juliano.

Com o apoio da dupla, ela assinou um contrato com a poderosa WorkShow para se lançar como cantora solo. Em um primeiro momento, Henrique & Juliano serviram como seus padrinhos artísticos, incluindo uma canção com ela em seu terceiro DVD, Novas Histórias, gravado no Recife. A música em questão, “Flor e o Beija-Flor”, foi um sucesso considerável e ajudou a impulsionar seu primeiro single solo, “Infiel”.

“Flor & o Beija-Flor” apresentou Marília Mendonça ao público

Por ser um pouco mais séria, a impressão foi que a música “Infiel” não viralizou como “50 Reais” e “10%”. Mas não passou de impressão: na realidade, o vídeo da canção se tornou, na época, um dos mais vistos da história do YouTube brasileiro (assim como “Flor e o Beija-Flor”).

Desde então, o sucesso de Marília Mendonça tomou uma dimensão que excedeu qualquer expectativa: ela se tornou indiscutivelmente o maior nome da indústria fonográfica brasileira, capaz de transformar qualquer música em um hit. Ela também é o nome mais requisitado para shows no país todo, superando até mesmo seus colegas de agência, Henrique & Juliano, e também Jorge & Mateus, os Midas do sertanejo.

“Infiel”, primeiro hit de Marília Mendonça

O que a WorkShow fez com Marília foi o que o escritório, assim como a AudioMix, se especializou em fazer. Eles investem em artistas que, num primeiro momento, surfam na onda de sucessos meteóricos mas que, a longo prazo, tem carreiras infinitamente mais duradouras que estes.

Apesar de terem sido eles que abriram as portas para o novo sertanejo, o tempo de Victor & Leo como os maiores do Brasil, por exemplo, durou menos de 5 anos. Quem ficou conhecido como os reis do novo sertanejo no final das contas não foram eles mas sim Jorge & Mateus, que permanecem no topo faz 10 anos.

Marília, por sua vez, também bebeu um pouco da fonte da sua predecessora, Paula Fernandes. Além de cantoras e compositoras que dão uma perspectiva feminina ao sertanejo, ambas tem timbres que se assemelham mais ao de uma cantora de MPB tradicional e que, portanto, tem um alcance ainda maior do que o sertanejo tradicional.

Mas, apesar das semelhanças serem cruciais, as diferenças são o que fizeram de Marília Mendonça um sucesso duradouro. Enquanto Paula tinha uma imagem de garota do campo, uma beleza delicada e músicas sobre amores etéreos e natureza, as músicas de Marília falam sobre sofrimento, fossa, beber demais, fazer besteira. Ela não parecia uma estrela feita sob medida para o consumo: seu biotipo e styling eram totalmente fora dos padrões e muito mais próximos a típica mulher brasileira.

As músicas dela falam sobre o amor sem grandes idealizações. Muito pelo contrário: sua visão sem filtro sobre a paixão é uma das chaves do seu sucesso. Seu primeiro hit solo, “Infiel”, é sobre um homem que a trai mas em várias das suas maiores canções — “Amante Não Tem Lar”, “Traição Não Tem Perdão”, “Ciumeira”, “Bem Pior Que Eu” — é ela que é a outra.

“Eu Sei de Cor”: a música que consolidou Marília no primeiro escalão do sertanejo

Em seus sucessos, Marília cobre absolutamente todos os estágios possíveis da fossa: sofrer por se apaixonar pela pessoa errada; ser traída; trair; ser a outra; beber demais e fazer o que não deveria; amar e não ser correspondido; sofrer pelo término; beber para esquecer a dor; ser abandonada e, claro, conseguir juntar as forças para superar.

O apetite do público parece ser insaciável: ela tem músicas novas todos os meses e tudo o que lança é um hit. No YouTube, que ainda é a plataforma de consumo musical mais utilizada no país, absolutamente nenhum brasileiro consegue chegar perto dos números obtidos por Marília e ela é, de longe, a mais ouvida em todas as regiões do país, incluindo o Rio de Janeiro.

O estilo da sertaneja transcendeu o selo de “feminejo” e é hoje conhecido como sofrência. Estar no fundo do poço por causa de um coração partido sempre foi um tema popular na música brasileira, e no sertanejo em particular, mas ninguém tinha conseguido explorar esse filão com tanta maestria — e com resultados tão extraodinários — quanto Marília, a Rainha da Sofrência.

O topo

A ascensão de Marília Mendonça ao topo é a prova de que sertanejo segue sendo, de longe, o estilo mais popular do Brasil. De Victor & Leo e Paula Fernandes a Jorge & Mateus e Henrique & Juliano a Marília Mendonça, já faz mais de 10 anos que o gênero fornece o mercado brasileiro com suas estrelas mais rentáveis. E, a julgar pelo apetite do público, o reinado do estilo está bem longe de acabar.

Mas uma coisa é certa: a concorrência está cada vez mais acirrada. Depois de anos relegados a um papel secundário, o pagode, o funk e o pop estão todos lutando por um espaço no pódio. Para se manter no topo, o rimo terá que continuar se reinventando, mesmo tendo alcançado um patamar onde ele parece não ter mais para onde crescer. A lição que foi aprendida na última década, porém, é nunca subestimar o gênero.

Na próxima parte… Uma análise detalhada dos principais acontecimentos do mercado na última década, rastreando o trajeto que fez com que Goiânia deixasse de ser apenas a capital do sertanejo para se solidificar como a capital do entretenimento brasileiro.

Causando en español: os maiores fenômenos do Netflix em 2018

Nem “Stranger Things”, nem “13 Reasons Why”. Até agora, os dois maiores sucessos de repercussão do Netflix de 2018 foram em castelhano, provando que o público mundo afora está sedento por conteúdo envolvente, seja ele na língua que for.

Case 1: La casa de papel

Quando “La casa de papel” estreou no canal Antena 3 na Espanha, em maio de 2017, ela seguia a formula de muitas séries locais: produção cuidadosa e roteiros envolventes com referências ao universo jovem e um enredo grandioso com alguns ganchos dignos de novela juvenil (que, na realidade, tem sempre apelo universal).

O criador da série, Álex Pina, conhecia muito bem essa receita dado que ele construiu sua carreira na Globomedia, que foi por anos a principal produtora independente do país e que ajudou — através de enormes sucessos como “Un Paso Adelante”; “Los Serrano”; “Los Hombres de Paco”; “El Internado” e “El Barco” —  a construir esse molde.

A nova série de Pina — agora presidente de própria produtora, Vancouver Media —  tratava de um grupo de desajustados com problemas com a lei que são recrutados por uma misteriosa figura, El Profesor, para fazer um roubo gigantesco na Casa da Moeda espanhola. A série era contada através dos olhos da jovem Tokio, interpretada por Ursula Cobréro, uma popular estrela jovem no país.

Na Espanha, “Casa de papel” não foi inicialmente um fracasso mas tampouco foi um grande sucesso. Os 15 episódios –transformados em 22 para distribuição internacional  — foram todos gravados de uma só vez porém foram exibidos ao longo de duas temporada, uma entre maio e junho e outra entre outubro e dezembro. A série recebeu boas críticas e até alguns prêmios e, ajudada por uma promoção grandiosa, começou com ótima audiência antes de desinflar e perder o fôlego. A segunda temporada ficou, inclusive, abaixo da média da emissora.

Mas, apesar do público ibérico não ter dado muita bola, pelo menos de início, o Netflix viu bastante valor na produção e comprou os direitos de distribuição internacional. E, na plataforma de streaming, a série mostrou o seu verdadeiro potencial. Para surpresa geral, se transformou em um fenômeno global que ninguém esperava ser possível, principalmente para uma série que não era nem sequer de lingua inglesa. Ao longo do primeiro semestre de 2018 nenhuma série foi tão comentadas na América Latina e na Europa quanto “La casa de papel”.

O tamanho que a ficção tomou pode ser comprovada pelo fato dela ter virado um verdadeiro sucesso multimídia. A série chegou no Netflix em dezembro de 2017 e, pouco tempo depois, no carnaval brasileiro de 2018, fantasias inspiradas na produção tomavam conta da rua. Apesar das altas temperaturas, o abafado disfarce usado pelos personagens para invadir a Casa da Moeda — um jumpsuit vermelho com uma máscara do pintor Salvador Dali — foi visto em milhares de brasileiros, inclusive a sensação sertaneja Marília Mendonça que optou pela roupa para aproveitar os blocos em Salvador anonimamente.

A série também caiu no gosto dos funkeiros da periferia de São Paulo. Um dos maiores sucessos do ano foi a música “Só Quer Vrau”, uma recriação de “Bella Ciao”, a canção italiana dos anos ’40 usada proeminentemente na produção. No clipe, MC MM e DJ RD trajam a fantasia usado pelos ladrões da série e dançam animadamente a música enquanto assaltam uma instituição financeira, em clara alusão a ficção espanhola. Até o momento, “Só Quer Vrau” já teve 173 milhões de visualizações desde que foi lançado, em maio.

O vídeo foi lançado no canal do Kondzilla, o diretor de vídeos de funk que ajudou a colocar a periferia paulista no topo de todas as paradas e acumula 37 milhões de assinantes no YouTube. E não foi a primeira vez que o canal usou a série como referência: o clipe de “Fuleragem” — outro dos maiores hits de 2018 até o momento, com 220 milhões de views — também tem dançarinos caracterizados como a trupe de “Casa de papel”.

Além de conquistar os sertanejos e os funkeiros, o impacto da série também foi sentido na electronic dance music brasileira. Alok, o principal DJ do país e uma megaestrela do gênero, se juntou ao seu irmão Bhaskar e o duo Jet Lag para remixar a já mencionada “Bella Ciao”.

O Brasil foi um dos primeiros países onde a dimensão do fenômeno ficou clara mas o sucesso de “Casa de papel” foi muito além: a América Latina inteira se rendeu a série e, rapidamente, ela também estourou na Europa onde, assim como aqui, ela invadiu a cultura pop em geral.

A França foi outros dos países onde a série ressoou pesadamente. Se o Brasil tem o funk e o sertanejo como os gêneros mais populares, a nação européia é completamente rendida ao rap e diversos nomes do gênero recorreram a “Casa de papel” para obter hits ao longo do primeiro semestre do ano.

O duo SKG foi um dos primeiros a surfar na onda, lançando uma música intitulada como a série, “Casa de papel”, e um clipe inspirado na mesma no fim de fevereiro. Não demorou para viralizar, acumulando mais de 43 milhões de visualizações no Youtube até o momento. No mesmo dia, Gradur, um gigante nome do universo urbano, também lançou um single que tira casquinha do fenômeno espanhol, “Sheguey 12“. Um mês mais tarde, outro astro, Remy, fez um freestyle em cima de “Bella Ciao” e, logo depois, Maitre Gims, o rapper que mais vende discos no país, se juntou a outros nomes famosos, como seu irmão Dadju; Vitaa; Slimane e Maestro, para também gravar sua versão da canção italiana, que alcançou a posição #2 nas paradas da single local.

Como se isso tudo não fosse o suficiente, o DJ francês Hugel ainda fez um remix dance da canção italiana, que foi um sucesso na França e um sucesso ainda maior na Alemanha, onde o single chegou a segunda posição.

Isso sem contar o impacto da série nas redes sociais. Ursula Cobrero, a jovem protagonista, tinha 1 milhão de seguidores no Instagram nas semanas que antecederam a estréia da série no Netflix. Nos 10 meses seguintes, graças ao sucesso global, o número sextuplicou: a atriz agora acumula 6 milhões de followers. Alvaro Morte, que interpreta o Professor, foi de 35 mil a 3 milhões no mesmo período. Jaime Lorente, que fez o papel de Denver, também alcançou 3 milhões (ele tinha 100 mil no mês de dezembro de 2017).

Miguel Herán, que interpretou o par romântico da protagonista, Rio, já demonstrou que a série tinha grande potencial de engajamento nas redes sociais mesmo na Espanha. Quando a segunda temporada da série estreou na Antena 3, em 16 de outubro, ele tinha 71 mil seguidores. Uma semana depois do fim da exibição da mesma na TV espanhola, em primeiro de dezembro, ele tinha superado a barreira do milhão. Com o sucesso internacional da série, ele também alcançou a casa dos 3m.

Foram poucas as ficções — americanas ou não — que tomaram conta de tantas vertentes da cultura pop. Na Suécia ou na Argentina, todo mundo parecia estar viciado na “Casa de papel”. Não foi surpresa quando o Netflix confirmou que a série tinha se tornado a produção de lingua estrangeira mais vista da plataforma na história.

A série, porém, não conseguiu transcender a barreira do idioma em territórios de lingua inglesa, onde seu sucesso foi mais limitado. Isso, inclusive, foi um assunto explorado numa matéria de capa sobre a plataforma de streaming na revista New York de 14 de junho.

“Ted Sarandos (CEO e criador do Netflix) e eu estávamos comentando sobre a peculiaridade de Casa. Como ela é gigantesca em todos os mercados estrangeiros porém relativamente pequena nos EUA, no Canadá e no Reino Unido”, comentou Eric Barmack, o responsável por séries internacionais, para a publicação. Barmack até considerou produzir uma versão americana mas a idéia foi rejeitada por grande parte das equipes estrangeiras do Netflix e, junto com Pina, o criador da série, ele estava analisando possibilidades como um spin-off ambientado nos EUA.

Em todo o caso, o pouco sucesso (relativo) no universo English-speaking não chega a ser uma preocupação dado a repercussão avassaladora em todo o restante do universo. Uma terceira temporada — algo que tinha sido descartada inicialmente pela emissora detentora da série, Antena 3 — já foi confirmada.

E, inclusive, esse anuncio me fez refletir: é óbvio que existe enorme apetite para uma nova temporada da série. Porém, na minha opinião, isso é um enorme erro. Essa mania das companhias americanas de quererem espremer as séries até a última gota faz até sentido monetariamente mas é um desserviço a todo mundo. Isso ficou super claro com a adolescente “13 Reasons Why” que foi um fenômeno sem igual para a plataforma. Apesar da primeira temporada ser uma história completa, a sede por $$$ fez eles insistirem em renová-la e a segunda temporada não só matou muito do buzz da série como foi quase que universalmente mal recebida e iniciou uma onda de backlash em relação a ficção. É claro que isso não os impediu de renovar para uma ainda mais desnecessária terceira temporada.

Eu, em particular, não acho “Casa de papel” grandes coisas (e não tenho interesse em “13 reasons”). Mas o público obviamente se apaixonou e se envolveu com a série de uma maneira muito rara. Essa recepção calorosa já foi o ápice da série — porque alargar o que todo mundo já considera perfeito e arriscar saturar a audiência e diminuir a qualidade geral dos roteiros e da série no coletivo popular? (pensem, por exemplo, como “Sex and the City 2” manchou uma das franquias mais amadas de todos os tempos).

Acho a mesma coisa de “Big Little Lies”, a sensação da HBO que assisti e gostei bastante e que, apesar de ter sido planejada para apenas uma temporada (e ter sido muito bem recebida com esse conceito), irá ganhar uma continuação. Em contrapartida, aplaudo os produtores de “Game of Thrones” que souberam que está na hora de colocar um ponto final naquilo, mesmo existindo apetite infinito para mais dezenas de temporada.

Tanto a Netflix quanto a HBO foram capazes de ir contra diversos mal hábitos das grandes emissoras — dando mais liberdade aos roteiristas e tendo um modelo que não os deixa a mercê de anunciantes, etc. — mas esse — espremer o que rende muito dinheiro até a última gota — foi um vicio que eles não conseguiram largar.

De qualquer maneira, a proposta principal do Netflix não é colocar roteiro e qualidade acima da ganância e sim dar ao público o que ele quer. E é óbvio que o público, pelo menos por enquanto, quer mais “Casa de papel”.

Case 2: Luís Miguel, La Serie.

Conseguir dar ainda mais força para a carreira de um dos cantores mais bem sucedidos de todos os tempos é uma tarefa bastante difícil. Mas foi exatamente isso que “Luis Miguel, La Serie” — a ficção baseada na vida do fenômeno da música latina — fez.

Dizer que Luís Miguel é um ícone seria um understatement. O mexicano é uma lenda viva e um fenômeno sem igual desde o início da sua adolescência nos anos 80; tem incontáveis hits reconhecidos por quase todo mundo em países de língua hispânica e sua vida — separações, casamentos, a sua turbulenta família — é bem novelesca e causa fascínio desde sempre. Por isso, uma série biográfica — feita com a aprovação do mesmo — foi um prato cheio para o público. Mas, mesmo que as expectativas já fossem altas, a repercussão de “Luis Miguel” ainda assim surpreendeu.

A série, produzido pelo titã da TV global Marc Burnett, e com Diego Boneta no papel título, não teve um alcance global como “Casa de papel”. Isso, porém, foi proposital: a distribuição do produto foi concentrado apenas para os EUA, Espanha e América Latina. Diferente da maior parte das séries originais do Netflix, a ficção também não foi lançada de uma só vez mas, ao invés disso, episódios inéditos eram liberados semanalmente.

O motivo disso? A série teve distribuição internacional simultânea pelo Netflix mas ela foi produzida para ser exibida na TV dos EUA, na emissora hispânica Telemundo que, obviamente, optou por seguir o modelo tradicional de um episódio a cada 7 dias.

Mas o formato semanal funcionou e significou que, entre domingo a noite e segunda-feira, um assunto dominava as redes sociais latina: a turbulenta vida de Luismi. Ao longo dos 6 dias seguintes, o burburinho e as expectativas só aumentavam.

Enquanto a série foi um grande sucesso em quase todos os territórios — gerando enorme repercussão desde os EUA até a Argentina — não é surpresa que foi no México onde o fenômeno foi mais perceptível. Um dia depois da exibição do primeiro episódio, nada menos que 27 músicas de Luismi invadiram o top 200 do Spotify no país, um recorde. As redes sociais explodiram com discussões sobre a vida do artista, com canais do YouTube dedicado a análise de cada capitulo acumulando milhões de visualizações. Nas boates, bares e restaurantes do México, o reggaeton perdeu espaço para os hits nostálgicos do cantor, que está embalando o verão local. “Culpable o No”, um hit de 1988, se tornou inescapável depois que o quarto episódio da série revelou a história por detrás da canção.

O motivo de tanto sucesso é a fascinação que o público hispânico tem com Luis Miguel. E a série — apesar de ser autorizada  pelo mesmo — prometeu não se esquivar das polêmicas da vida do cantor. A promoção foi muito focada em um dos assuntos que mais intrigam o público (e que não costuma ser tratado pelo astro): a misteriosa desaparição de Marcela, a mãe do artista, que sumiu em meados dos anos 80 em meio de muita especulação.

Todo esse interesse veio em ótimo momento para o cantor, que estava passando por um período meio turbulento com diversos cancelamentos de show e vários processos, vindo de ex-empresários, agentes e da mãe de dois dos filhos deles, além de um perceptível aumento de peso.

Mas não existe crise que uma boa série biográfica não resolva.

Taylor Swift: da ascenção ao ano que ela perdeu sua relevância cultural.

Em termos de lucro e vendas, nenhum artista americano na última década conseguiu chegar perto de Taylor Swift. Ao longo dos anos, sua ascenção foi um caso único e ela conseguiu manter o buzz em torno dela em um nível estratosférico por um período bem longo. Mas, hoje em dia, apesar da cantora seguir sendo um fenômeno de vendas, está claro que ela está perdendo muito da sua relevância cultural. Como isso aconteceu?

O caminho até o topo

Taylor Swift apareceu em cena — com seu híbrido de country teen pop — em 2006 e rapidamente virou um enorme sucesso com suas composições sobre o seu dia-a-dia; seus high school crushes e decepções amorosas. Ela tinha uma imagem que era fácil de vender; que jovens adoravam; que pais a procura de uma role model modesta e segura para suas filhas também apoiavam e que ressoava com uma parcela enorme do público americano — priorizando o super fiel público country. Ao escrever e compor suas próprias músicas, Taylor ainda tinha aquela legitimidade de artista “de verdade”.

Desde o começo, Swift se mostrou enormemente capaz de surfar nas ondas do momento. Naquele então, o Disney Channel era a maior força da cultura pop nos EUA e, apesar de não ser afiliada com o canal, a cantora apareceu no Grammy em dueto com sua então melhor amiga Miley Cyrus; na adaptação cinematográfica do seriado de Cyrus, Hannah Montana: The Movie e num hypado filme em 3D dos Jonas Brothers.

E, se o foco inicial eram seus namoradinhos da escola, Swift não demorou para emplacar um namoro com Joe Jonas, coincidindo com o breve momento em que os Jonas Brothers eram a maior banda do mundo.

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Taylor Swift como uma nerd fofa no clipe sensação de You Belong with Me

Foi o namoro com Joe, aliás, que fez com que Swift aperfeiçoasse a arte de transformar sua vida pessoal em material de fascínio: quando o astro terminou com ela, por telefone, ela postou um vídeo no MySpace o esculachando que rapidamente viralizou.

Mas não existe melhor vingança que o sucesso e o drama com o então astro serviu de gás para fazer com que Swift deixasse os irmãos comendo poeira. No fim de agosto de 2008, “A Little Bit Longer”, o segundo álbum dos Jonas, estreou nos EUA com espetaculares vendas de 525 mil cópias na primeira semana. Três meses depois, “Fearless”, o segundo CD de Taylor, lançado em simultâneo com o drama do término com Joe, superou os irmãos, com 592 mil unidades.

O lançamento do álbum foi acompanhado de um especial no talk-show de Ellen DeGeneres onde Swift revelou que, no último segundo, tinha adicionado uma canção dedicado ao ex no CD, Forever & Always. Em sua turnê, alguns meses mais tarde, ela cantava a música furiosamente em direção a um sósia de Joe.

Em todo o caso, os Jonas estavam em declínio e não demorou muito para Joe virar apenas um roda-pé na carreira de Taylor cuja fama crescia numa velocidade avassaladora.

Além de saber muito bem vender sua vida pessoal, Swift tem um inegável talento para compor hits. Depois de um primeiro CD muito bem sucedido, o lead single de “Fearless”, Love Story, foi um sucesso gigantesco que a levou para outro patamar e ela followed up com outra música gigantesca, You Belong with Me, cujo clipe, que retratava Swift como uma nerd fofa e desajeitada, ajudou a firmar sua imagem como uma garota que — apesar de milionária e gigantescamente bem-sucedida — pode ser a melhor amiga de qualquer uma de suas fãs.

No meio da promoção do seu segundo álbum, o memorável incidente com Kanye West nos VMAs elevou Swift a um nível ainda mais alto e, no começo de 2010, ela se tornou a artista mais jovem a ganhar um Grammy de Album of the Year, consolidando o ar de artista imaculada.

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Taylor Swift varre os Grammys de 2010

Quando o terceiro álbum de Swift, “Speak Now”, saiu, ela tinha formado uma coalização impressionante de fãs: a América profunda — os EUA rural, sulista — a amava por ela não renegar suas raízes country e pelo seu jeito All-American. Nas grandes cidades, sua música chiclete e sua imagem girl next door também ressoavam muito. Ela era consumida tanto pelo público pop, que naquele então ditava as tendências, quanto pelo público country, o mais fiel e mais disposto a gastar dinheiro em seus artistas favoritos. Garotas jovens a amavam; amavam acompanhar sua vida e se identificavam com suas canções. Os pais também a amavam já que ela era um refugio seguro, principalmente em comparação com as Miley Cyrus rebeldes do mundo. E a imprensa e crítica especializada a respeitavam pelos seus dotes de compositora e sua bem construída imagem de “artista de verdade”.

Depois dos EUA, o mundo

“Speak Now”, o terceiro álbum de Taylor Swift, foi o primeiro dela a ultrapassar 1 milhão de cópias na primeira semana, algo que se repetiria com todos os seus CDs seguintes, uma demonstração de força inédita na indústria fonográfica americana. Porém, enquanto “Speak Now” foi mais um enorme sucesso para Swift nos EUA, o álbum representou um passo para trás no restante do mundo.

Apesar de Swift ter conseguido se consolidar como a maior artista do seu país nativo, esses resultados colossais tinham se repetido em alguns poucos mercados. No Canadá, um país com uma cultura similar aos EUA e com tradição country, Swift se mostrava capaz de reproduzir o sucesso sem problemas. Na Austrália, outro país também muito influenciado pelos Estados Unidos, a imagem da cantora também ressoou e seu segundo álbum, “Fearless”, teve vendas altíssimas, alcançando 7x Platina (vendas equivalentes proporcionalmente as obtidas nos EUA). Na Ásia, casa do segundo maior mercado fonográfico do mundo (Japão), onde sua equipe não dispensou esforços de promoção, ela também tinha conseguido se consolidar como uma estrela.

Mas, apesar dos bons resultados obtidos, o seu desempenho ainda era extremamente tímido no mais influente mercado internacional, a Europa. No Reino Unido, o segundo mais importante mercado para artistas ocidentais, ela tinha conseguido um hit considerável com “Love Story” e seu segundo CD tinha obtido certificação de Platina por 300 mil unidades mas era um número tímido comparado com artistas como Rihanna, Beyoncé, Lady Gaga e P!nk que, naquela época, ultrapassavam facilmente a barreira de 1 milhão de cópias na terra da rainha.

Com “Speak Now”, os resultados foram ainda mais discrepantes. Na Europa, o CD foi virtualmente ignorado, com exceção do Reino Unido, onde ele penou para chegar a Disco de Ouro (100k), colocando um abismo ainda maior entre ela e artistas internacionais de primeiro escalão. Mesmo na Austrália, onde ela ainda era gigantesca, o álbum só alcançou 2x Platina, uma queda considerável em relação ao anterior.

O motivo? A falta de um radio hit. Enquanto o sucesso sem precedentes nos EUA deixava claro que a perda de fôlego na carreira internacional de Swift não era uma situação particularmente alarmante, a ausência de um crossover hit como Love Story You Belong with Me foram um empecilho nas ambições globais da cantora.

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Se afastando do country, Taylor assumiu um look mais hipster cute para a era “Red”.

Com isso em mente, Swift recrutou ninguém menos que o sueco Max Martin, então o Midas do Pop, capaz de emplacar dezenas de #1 global hits, para ajudar na produção o seu quarto CD, “Red”. Dentre outros acenos ao mercado internacional — principalmente o britânico — ela incluiu colaborações com Gary Lightbody, da banda de rock Snow Patrol, e com Ed Sheeran, uma das maiores sensações de vendas no Reino Unido (e Swift foi peça vital para que ele conquistasse o mercado dos EUA já que ela o promoveu intensamente em suas redes sociais e o escolheu como ato de abertura da sua turnê anterior. Nada mais justo do que Sheeran retribuir o favor).

Deu certo: “Red” — que foi o segundo álbum consecutivo de Swift a bater 1 milhão de cópias na primeira semana nos EUA — foi o primeiro lançamento da cantora a alcançar o #1 no Reino Unido, onde superou 600k unidades vendidas no total. Na Austrália, o álbum registrou um aumento de 100% em relação ao antecessor, obtendo 4x Platina. Foi o primeiro CD de Swift a atingir ouro na Alemanha e suas músicas começaram a tocar com mais frequência nas rádios européias.

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Taylor Swift e Harry Styles: a junção de dois fenômenos teen

O sucesso do CD, claro, foi impulsionado pelas músicas produzidas por Martin: We Are Never Ever Getting Back Together I Knew You Were Trouble em específico foram hits com repercussão grande no mundo todo.

E Swift soube novamente aliar o novo som a um romance com alcance igualmente global: ela emplacou um namoro com Harry Styles, o integrante mais popular da boyband One Direction, que mobilizava multidões em absolutamente todos os continentes.

Styles e Max Martin aparte, o mérito principal do sucesso de Swift até então foi dela mesma que soube dar aos fãs exatamente o que eles queriam ao longo de quatro álbuns. Sua fanbase principal — os fãs dedicados; capazes de encher estádios e comprar mais de 1 milhão de cópias na primeira semana nos EUA — se manteve fiel enquanto ela dava passos para expandir seu público em outras direções. E ela soube cada vez mais alimentar o culto em torno dela: ela começou a interagir com fanáticos no Tumblr e a chamar fãs para listening sessions dos seus CDs e outros eventos surpresas, criando a impressão de que todo mundo tinha a chance de conhece-la e de ter acesso a material exclusivo se eles simplesmente a amassem muito e demonstrassem isso sem nenhuma vergonha na internet.

1989: o segundo ápice

O ano de 2014 chegou e todos os fãs de Swift já sabiam o que esperar: um novo CD da sensação country pop. Naquela altura, a cantora já tinha estabelecido um padrão claro de lançamento, com um novo álbum a cada dois anos, sempre em outubro.

Era difícil imaginar que Taylor ainda tinha para onde crescer — principalmente na América do Norte — mas, como provado com “Red”, ela ainda tinha ambições globais e novos marcos para atingir.

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Com “1989”, Taylor conquistou a cidade grande e todo o restante do mundo.

“1989” foi o álbum que fez o que parecia ser impossível: deixar Taylor ainda maior. Para o CD, ela resolveu abandonar totalmente a sonoridade country para se dedicar ao pop. O que parecia uma decisão tola — os fãs country são os mais fiéis e foram essenciais para transforma-la na maior artista dos EUA — se mostrou extremamente acertado: não só seu quinto CD foi, de longe, o mais bem sucedido dela em todo o mundo como, nos EUA, foi o seu segundo maior álbum, ultrapassando os números obtidos por todos os seus lançamentos com excessão de “Fearless”, de 2009.

O rebranding de Taylor Swift, que a transformou numa artista de primeiro escalão a nível global, incluiu:

  • um CD inteiramente produzido por Max Martin que soube produzir hits perfeitos para a rádio global, com uma sonoridade bem mais internacional e sem influências country, gênero que tem alcance internacional bem limitado
  • uma mudança para Nova York. A base de Swift sempre foi Nashville, a capital country no sul dos EUA mas, para sua nova era, a artista resolveu conquistar a cidade grande e comprou um imóvel milionário no bairro do Chelsea. Isso, claro, tinha como objetivo internacionalizar sua imagem e deixá-la mais in line com uma diva pop tradicional. Ela era fotografada quase que diariamente com looks chamativos e estilosos andando pelas ruas de Manhattan e uma faixa em homenagem a cidade, chamada “Welcome to New York”, onde ela dizia que lá tudo era possível, até garotos com garotos e garotas com garotas (uma demonstração rara de liberalismo da cuidadosamente apolítica Swift), abria o CD.
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Taylor Swift, sempre escoltada por integrantes do seu squa
  • falando em liberalismo, ela adotou uma imagem mais vagamente socialmente ~liberal~, em que ela abraçou uma versão pouco ameaçadora do feminismo e deixou os rapazes de lado para se associar a um squad formado quase que exclusivamente por it girls famosas que iam desde a estrela liberal Lena Dunham até Blake Lively passando por todas as modelos mais badaladas (Kendall Jenner; Cara DeLavigne; Karlie Kloss e todas as demais Angels da Victoria’s Secrets); artistas com um ar mais indie (Lorde; HAIM) e jovens estrelas em ascenção (Zendaya; Hailee Steinfeld). Esse squad ganhou center stage nas redes sociais de Taylor e virou uma obsessão global. Mas, mostrando que Taylor ainda era “a mesma garota”, ela nunca esquecia de incluir as suas “melhores amigas” de sempre: Abigail, sua bff da high school, mencionada em músicas desde a primeira aparição de Swift na cena, e Selena Gomez, a primeira e mais fiel amiga famosa da artista.
  • apesar da nova fase girl power, ela não deixou as picuinhas e dramas amorosos de lado. Seu álbum foi quase que integralmente dedicado ao seu ex, o maior heartthrob do planeta naquele então, Harry Styles, incluindo uma faixa chamada Style que prontamente se transformou num fan fave. A excessão? Bad Blood, dedicado a uma recém revelada inimiga igualmente high profile: Katy Perry (que, até então, tinha obtido muito mais sucesso internacional que Swift).
  • a capacidade de transformar todos os singles em eventos. O primeiro, Shake It Off, lançado junto com um vídeo que, assim como You Belong with Me vários anos antes, reforçava Swift como uma nerd fofa desajeitada, foi um sucesso global. O segundo, Blank Space, foi uma sensação ainda maior com sua letra que zombava da reputação de Taylor Swift como uma “crazy ex” (self-awareness não era algo muito on brand para Taylor até então) e um clipe igualmente chamativo. E, claro, Bad Blood, o single que escancarava a guerra com Perry e cujo vídeo de altíssimo orçamento incluía todo o celebrado squad da cantora.

Além de alcançar 9x Platina nos EUA, “1989” ultrapassou a barreira do milhão de cópias no Reino Unido, finalmente colocando ela na primeira linha de estrelas do país. Também foi o álbum de Swift que mais vendeu no Canadá e na Austrália, além de ter obtido registros de venda consideravelmente mais altos em toda a Europa e América Latina. Finalmente, Swift parecia ter conquistado o título de mega-estrela global.

A força e influência de Taylor foram comprovadas diversas vezes durante o ciclo promocional do álbum: em 2014, ela tirou todo seu catalogo do Spotify, apesar de que a plataforma de streaming estava em pleno crescimento e dominando o consumo de música no mundo. Alguns meses mais tarde, quando a Apple anunciou que lançaria seu próprio serviço de reprodução digital, a cantora publicou um op-ed no Wall Street Journal criticando o modelo de royalty do serviço, fazendo com que a gigante do Vale do Silício mudasse suas diretrizes e aumentasse o pagamento a artistas. Satisfeita com o desfecho, Swift colocou seu catalogo exclusivamente no Apple Music e virou garota propaganda da plataforma, estrelando anúncios que foram sucessos virais.

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Em 2016, mais uma vez, Taylor Swift dominou os prêmios Grammy.

No começo de 2016, ela repetiu o feito de “Fearless” e, com “1989”, ganhou o Album of the Year no Grammy pela segunda vez, se transformando na primeira mulher que ganhou o prêmio principal da indústria fonográfica duas vezes. Não parecia ter objetivo traçado que Swift e sua equipe não conseguissem conquistar.

Saturação e backlash

Ao longo da carreira de Taylor houve vários momentos onde se ensaiou um backlash. Muitos consideraram injusto ela ter ganho o Grammy de Álbum do Ano em 2009, por exemplo, e sua performance desastrosa com Stevie Nicks na premiação foi motivo de chacota. Nos anos seguintes, sua constante exposição da vida pessoal e sua postura permanente de vítima e garota mimada também geraram muitas críticas, assim como sua obsessão com dinheiro (ela processou fãs que vendiam artesanatos com quotes dela no Etsy e muitos interpretaram a briga dela com o Spotify por mais royalties como outro exemplo de ganância).

Swift nunca soube lidar bem com críticas — sua única tentativa bem-sucedida de domá-las foi com o lançamento de Blank Space, onde ela vestia a carapuça de vingativa — mas seu sucesso estrondoso sempre ofuscava as opiniões menos favoráveis e sua equipe tinha uma habilidade impressionante em conseguir controlar a narrativa.

Porém, ao longo de 2015, a onipresença de Swift começou a causar saturação real. Todos os esforços de marketing foram tão forçados que o coro de haters começou a ficar mais alto. Um exemplo disso foi o squad de amigas badaladas de Taylor que foi tão empurrado goela-abaixo que chegou a um ponto onde muitos consideravam o grupo de amizade falso e artigos criticando a artificialidade daquilo tudo começaram a viralizar.

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Taylor Swift e Calvin Harris: o primeiro namorado que ela não conseguiu domar.

Taylor e sua equipe também começaram a perder o controle que detinham sobre as pessoas do circulo da cantora. Ao longo da promoção de 1989, Swift assumiu um namoro com o DJ escocês Calvin Harris. Apesar de quase todos os seus namoros high-profiles terem sido debaixo de holofotes, foi a primeira vez que a cantora colocou seu namorado em suas redes sociais de maneira tão pública.

Quando o namoro chegou ao fim, Swift sacou sua carta habitual de se colocar como vítima: alguns veículos noticiaram que o namoro terminou pois Harris tinha inveja do sucesso da cantora e que ele teria inclusive escondido o fato dela ter escrito um dos seus maiores hitsThis Is What You Came For.

Harris foi rápido no gatilho: nas redes sociais, ele deixou claro que não ia deixar a equipe dela passar por cima dele como fizeram com Katy Perry e tantos outros e que a decisão de assinar a música sob um pseudônimo tinha sido da própria Taylor. Rapidamente, colocaram-se panos quentes e, no fim das contas, o DJ apagou os tweets. Taylor, por sua vez, nunca fez uma música falando mal do ex, algo raro.

Em 2016, veio o maior golpe contra a reputação de Taylor quando uma mentira dela foi exposta de maneira espetacular por ninguém menos que Kim Kardashian-West.

Tudo começou, claro, no VMA de 2009 quando o futuro marido de Kim interrompeu o discurso de aceitação de Swift. Desde então, a relação entre as duas estrelas sempre foi complicada mas, em 2015, as mágoas pareciam ter ficado oficialmente no passado: Taylor até apresentou o VMA Vanguard Award a West, se declarando uma enorme fã.

Mas as coisas entre os dois voltaram a ficar estremecidas com o lançamento da música Famous, na qual Kanye cantava: “For all my Southside niggas that know me best/ I feel like me and Taylor might still have sex/ Why? I made that bitch famous“.

Swift se mostrou extremamente irritada com a letra vulgar e fez dela o pilar do seu discurso de aceitação do Grammy de 2016, na qual ela afirmou: “para todas as garotas jovens no mundo, sempre terão pessoas que iram tentar diminuir o seu sucesso e tentar levar crédito por ele”. Mas West, revoltado, afirmou que todas as demonstrações de fúria dela eram falsas já que a própria Taylor tinha autorizado o verso. Daí começou um “disse/não disse” que durou algumas semanas até que Kim Kardashian finalmente botou um ponto final na controvérsia: no Snapchat, ela publicou um vídeo que provava que Taylor deu, através de uma ligação, sua benção para a letra.

As redes sociais explodiram com memes atacando a cantora; as redes sociais dela foram inundadas com emojis de cobra e, pela primeira vez, Taylor e sua equipe tinham perdido totalmente o controle da situação.

Para piorar, enquanto tudo isso estava acontecendo, Taylor ainda estava envolvida em um romance com o ator britânico Tom Hiddlestone que virou motivo de piada dado o quão armado a coisa toda parecia. Por anos, a cantora era criticada por expor demais sua vida pessoal e se envolver em showmances — namoros supostamente armados para gerar burburinho. Com Hiddlestone, a coisa foi tão descarada – culminando no ator usando uma camisa com a frase “I ❤ TS” enquanto tomava banho de mar com ela e seu squad – que afetou bastante a popularidade de ambos e deixou Swift numa posição que nem seus fãs mais dedicados conseguiam defender.

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Taylor Swift é ‘flagrada’ sendo apresentada a mãe de seu namorado, Tom Hiddleston.

Esse furacão de bad publicity concentrado em poucas semanas era algo inédito na carreira de Taylor.

Ainda por cima, uma eleição servia como pano de fundo para tudo isso. Taylor Swift foi a única grande popstar que se recusou a se pronunciar sobre o assunto. De um ponto de vista estratégico, fazia completo sentido: Swift é a artista mais popular dos EUA exatamente porque ela conseguiu não alienar quase ninguém, incluindo os fãs conservadores concentrados no sul do país. Além disso, todos os artistas country morrem de medo de se pronunciar politicamente desde que críticas feitas pelas Dixie Chicks, então as maiores estrelas country do país, direcionadas ao então presidente George W. Bush quase destruíram a carreira delas. Ser apolítica sempre foi um pilar na carreira de Taylor.

Por outro lado, pegou enormemente mal para uma artista que usou feminismo como marketing manter completo silêncio numa eleição onde um neo-fascista misógino era um dos candidatos. Ademais, priorizar a carreira e o dinheiro reforçavam a imagem dela como gananciosa, que prioriza dinheiro acima de qualquer coisa.

A volta

Depois de dois anos de superexposição que culminaram em um tsunami de más notícias, Taylor resolveu se ausentar dos holofotes por um ano. Óbvio que, depois de uma década de exposição constante, foi difícil notar o “sumiço” dela, até porque, durante esse período, ela lançou uma música inédita (I Don’t Want To Live Forever, um dueto com Zayn para a trilha sonora de 50 Shades Darker) mas, pela primeira vez desde que apareceu na cena, ela não lançou um álbum novo no período pré-determinado (outubro de 2016, 2 anos depois do lançamento do último CD).

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Taylor Swift e sua “reputation”, supostamente arruinada pela imprensa.

Um ano mais tarde, porém, ela estava de volta a cena. Em agosto, a limpa generalizada das suas redes sociais anunciou que algo estava por vir e, em poucos dias, imagens de cobras tomaram conta do seu Instagram, deixando claro que a cantora mais uma vez estava disposta a reclaim a narrativa e assumir controle da imagem dela que foi tão difundida durante o fiasco Kim/Kanye.

No final da semana, Look What You Made Me Do, o aguardadíssimo retorno de Taylor, foi lançado. A canção foi disponibilizada em todos os serviços de streaming, incluindo o Spotify, assinalando uma trégua entre a cantora e o app sueco, e mostrou que o apetite para o retorno dela era altíssimo: foram 8 milhões de streams só na plataforma, até então um recorde histórico. Ela também quebrou o recorde de streams nos EUA e liderou as paradas no Reino Unido e na Austrália.

Alguns dias mais tarde, o vídeo – onde Swift novamente mostrava self-awareness e zombava dos seus escândalos no ano anterior – também quebrou recordes de visualizações e foi universalmente aclamado. As coisas pareciam estar se alinhando perfeitamente para o retorno da cantora.

Cadê o interesse que estava aqui?

A nova era da cantora, “reputation” (estilizado todo em letras minúsculas), é um comentário sobre como a mídia destruiu a reputação dela. Como é costume com Taylor, ela não assume nenhuma culpa, se fazendo de vítima e colocando a responsabilidade nos outros. É uma formula que já estava se mostrando saturada.

No primeiro momento, com o vídeo do primeiro single cheio de auto-referências, parecia que Taylor de novo iria assumir o controle da narrativa. Mas algo diferente estava no ar: muitas das reações que mais viralizaram nas redes sociais demonstravam cansaço com a cantora e sua imagem.

E, apesar do começo espetacular, não demorou muito para Look What You Made Me Do perder fôlego. Apesar da música ter alcançado o topo do Hot 100 e da parada de singles britânicas, o momentum da canção não durou quase nada e, em pouco tempo, ela já tinha sumido do top 50 das plataformas de streaming. Músicas sem 1/100 do hype e de artistas bem menos estabelecidos – como Sorry Not Sorry de Demi Lovato – estavam facilmente superando o desempenho de Taylor.

Em todo o caso, a narrativa do novo álbum estava claro: Taylor tinha visto sua reputação sendo (injustamente) arruinada; ela sumiu por um período; encontrou o verdadeiro amor (o ator britânico Joe Alwyn) e a verdadeira felicidade e parou de se importar com o que as pessoas diziam sobre ela. Ela não daria entrevistas pois não queria ser injustamente retratada (na realidade, ela não queria responder perguntas desconfortáveis sobre política e seus escândalos) e seu novo relacionamento seria muito mais privado,  com apenas alguns poucos vazamentos estratégicos para imprensa.

De certa maneira, deu certo. “reputation” novamente vendeu mais de 1 milhão de cópias na primeira semana, fazendo dela a única artista a atingir isso com quatro álbuns consecutivos. Sua turnê atual por estádios está esgotada e a caminho de se tornar uma das mais lucrativas da história (apesar de usar um modelo bastante polêmico de venda de ingressos, que inflaciona o preço de acordo com a demanda). E, apesar disso, a relevância cultural de Swift… evaporou.

Sim, ela ainda lucra muitíssimo. E a sua fanbase dedicada – que compra o CD na primeira semana e ingressos para shows – ainda é maior do que de quase qualquer outro nos EUA. Mas suas músicas não repercutem. Ela tem enorme dificuldade de penetrar o top 50 nas plataformas de streaming. Ninguém fora da fanbase comenta mais sobre ela e mesmo alguns fãs mais dedicados perderam a paciência. Apesar de suas vendas serem muito superior a quase qualquer outro, está claro que “reputation” será, de longe, o álbum menos vendido de sua carreira. E, depois de avançar consideravelmente no mercado global, toda a evolução foi desfeita com o novo CD que, novamente, tem obtido vendas baixas – quase nulas – em mercados não anglo-saxões, além de quedas consideráveis até mesmo no Canadá, Reino Unido e Austrália.

O que ela fez de errado?

Não foram apenas os escândalos e a superexposição que fizeram com que Swift perdesse relevância cultural. Vários passos em falso contribuíram para que o público perdesse o interesse. São eles:

  • Não saber manage as expectativas. Antes do lançamento de “reputation”, alguns na equipe de Swift acreditavam que, baseado na repercussão imediata de Look What You Made Me Do, o álbum dela poderia se aproximar a 2 milhões de unidades vendidas na primeira semana. E, para impulsionar os números, técnicas que incentivavam os fãs a comprar várias cópias (como disponibilizar duas edições deluxe diferentes e priorizar acesso a ingressos da turnê para fãs que compraram o CD diversas vezes) foram adotadas. Mesmo assim, o álbum vendeu “apenas” 1.2 milhões de unidades, registrando – pela primeira vez – uma queda em relação a primeira semana do CD anterior (“1989” vendeu 1.29m). Ainda um número espetacular mas a equipe de Taylor mesmo assim bateu o pé, se recusando a aceitar os números oficiais e dizendo que eles preferiam acreditar no BuzzAngle, uma empresa de rastreamento de vendas menos confiável que estimou que o CD teria alcançado 1.3m antes da divulgação dos dados oficiais da Billboard. Isso, claro, foi um dos aspectos menos importantes dos missteps, dado que 1 milhão de vendas foi alcançado e as technicalities disso foram quase imperceptíveis para quem não estava acompanhando de perto.
  • Muito mais grave que o primeiro erro apontado, a obsessão de Swift e de sua equipe com ter margens de lucro gigantescas com shows afetou – e muito – a carreira internacional dela já que era difícil ela obter garantias similares de arrecadação as que ela tinha em alguns poucos mercados chaves (EUA/Canadá/Austrália/Ásia). É quase inimaginável um artista grande dos EUA não fazer turnês extensas pela Europa, algo essencial para consolidá-los no mercado global. Swift, apesar de ter feito várias viagens promocionais, nunca fez uma turnê grande pelo continente. Na turnê de “Red”, seu primeiro CD com grande repercussão global, a perna européia de sua turnê incluiu apenas paradas em Londres e em Berlin. Na excursão seguinte, do gigantesco “1989”, ela novamente esnobou quase todos os lucrativos mercados europeus, pisando apenas no Reino Unido, Alemanha e Holanda. Isso sem falar na América Latina, quase que totalmente ignorada (salvo uma breve visita promocional ao Rio durante a era Red), apesar de ter sido um dos principais mercados para ela em “1989”. A atenção dela só foi direcionada a mercados onde ela já era de enorme escalão — Ásia e Austrália — e a obsessão com garantia de lucros e números espetaculares como os obtidos nos EUA impediu o crescimento dela globalmente, mesmo com o enorme apetite gerado pelos seus quarto e quinto álbum (que teve bom desempenho na França, na Escandinávia, na Espanha, no México, no Brasil, etc).
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Taylor e Spotify: uma relação quase tão conturbada quanto Taylor e Kanye.
  • O pior erro de todos: a guerra que ela travou com o Spotify, a maior plataforma de streaming do mundo. Sim, durante “1989”, o sucesso foi tanto que ofuscou as repercussões negativas disso mas limitar o catálogo dela foi um tiro no próprio pé, principalmente porque o consumo de música legal hoje em dia se dá quase que exclusivamente via streaming. Ed Sheeran e Drake, os dois maiores artistas da atualidade, viraram os maiores do mundo pois souberam usar o streaming a seu favor. Swift em busca de margens de lucro maior, acabou se limitando novamente. Para “reputation”, ela parece ter se dado conta do erro que cometeu e o Spotify foi um grande aliado no lançamento do primeiro single, colocando a música em todas as playlists principais, dando destaque ao lançamento em sua página inicial e até espalhando outdoors promovendo a música. Taylor retribuiu criando playlists para o app. Mas, na última hora, ela resolveu lançar seu CD apenas em formato físico e via iTunes nas primeiras duas semanas e a situação amargurou novamente. Além disso, o público simplesmente não se habituou a stream ela.
  • Resultado? Total falta de interesse no novo álbum no mercado internacional — onde o consumo de pop estrangeiro é dependente de streaming — e má vontade do Spotify em promover as músicas dela. Ela até tentou correr atrás do prejuízo gravando um cover (muito mal recebido) de September do Earth, Wind & Fire exclusivamente para o aplicativo, além de um vídeo vertical para Delicate mas em nada deu certo: é raríssimo ver Swift penetrando o top 50 do Spotify (isso sem falar do Apple Music que, apesar dela ter sido garota propaganda, é quase totalmente dominado por música urbana).
  • E, falando em música urbana, outro fator é, para variar, realmente alheio a Swift: como já disse várias vezes aqui, o público estado-unidense simplesmente não está interessado em música pop e o som produzido por Max Martin, antes totalmente irresistível e que dominava tudo no período que “1989” foi lançado, ficou obsoleto. É raro uma música não-urbana viralizar e ter repercussão grande nos EUA. E o restante do mundo também está se afastado do gênero.
  • Aliado a isso, a falta de narrativas interessantes na vida de Taylor ajudaram a fazer o público perder o interesse. Se, com o álbum anterior, cada música veio com um clipe que era diretamente correlacionado com aspectos da personalidade de Taylor que o público se interessava por (sua dorkyness em Shake It Off; sua reputação de ex-namorada doida em Blank Space; sua briga com Katy Perry e seu squad em Bad Blood), os novos vídeos – com exceção de Look What You Made Me Do – se baseavam exclusivamente em visuais impressionantes de altíssimo orçamento, algo que não ressoa tanto nem com os fãs dela, muito menos com o público em geral.
  • Finalmente, o principal problema é mesmo a reputação de Taylor. Durante anos, uma parcela do público criticou seus showmances; seu complexo de vítima e sua incapacidade de evoluir e amadurecer. E ela própria legitimou todas essas críticas com decisões tomadas entre 2015 e 2016, que alienaram até mesmo fãs mais dedicados. O culto imaculado em torno dela mostrou graves rachaduras e vai ser difícil se recuperar integralmente. Ela conseguiu cultivar uma fanbase dedicada gigantesca que, por enquanto, ainda está com ela. O restante do público, porém, perdeu o interesse.

What’s next?

A carreira de Taylor Swift foi, ao longo de quase 10 anos, uma constante evolução. Mas, depois de uma trajetória de sucesso impressionante e quase nunca antes vista, ela finalmente estagnou. A cada CD, a cantora tinha uma carta na manga mas, a essa altura, todos os artifícios parecem já ter se esgotados. Aonde ela pode ir?

Em primeiro lugar, Swift e sua equipe terão que deixar a vaidade de lado e entender que o ápice da cantora já aconteceu. Os números de Taylor provavelmente continuaram altos, de modo que é melhor saber apreciar isso ao invés de ficar fixado em quebrar recordes de venda de primeira semana a cada dois anos, algo que não deverá voltar a acontecer.

No mais, minha humilde opinião é que Taylor deve voltar para o country. Ser uma estrela pop é algo que está fora de moda e o universo country é sempre um refugio seguro, muito menos volúvel as tendências do momento e com um público cativo e numeroso. Sem falar que é um universo muito mais low-key onde é fácil evitar a exposição exaustiva.

Em relação a narrativa da vida pessoal, está claro que o que está sendo vendido é que Taylor está feliz como nunca com seu atual namorado, Joe Alwyn. Se for para recuperar o interesse do público e fazer as redes sociais vibrarem, nada melhor do que o combo noivado/casamento/gravidez. Porém, talvez seja o momento de auto-reflexão e de fazer aquilo que Taylor nunca conseguiu: se desligar da percepção pública dela e viver para ela mesma.

Anitta e o sucesso internacional

Um dos assuntos relacionados a cultura pop que mais tem bombado ultimamente nas redes sociais é a viabilidade da carreira internacional de Anitta. A cantora sensação acaba de aparecer em uma música da popstar internacional Iggy Azalea — que foi bastante bem recebida pelo público brasileiro — e todo mundo quer saber se isso é o começo de um promissor futuro de sucesso no mundo todo. Mas será que é?

Antes do mundo, o Brasil

Se tem um país que ama desproporcionalmente divas pop, esse país é o Brasil. É verdade que em termos de lucro, o nosso país está bem atrás dos EUA e da Europa mas quando o assunto é tietagem, NINGUÉM bate nossa pátria. No YouTube, uma porcentagem altíssima de views dos clipes das Katy e Britney da vida vem do Brasil; nas redes sociais, o “COME TO BRAZIL” já virou um meme e, no Spotify, nenhum país dá tanta bola para as novidades dessas cantoras quanto o nosso.

Os últimos dias, particularmente saturados de lançamentos pop, ilustram isso bem: na parada diária do Spotify brasileiro, a estreia solo de Camila Cabello, Crying in the Club, debutou na posição #4; Selena Gomez, com Bad Liar, começou em #6 e Swish Swish de Katy Perry chegou em #7. Compare com as estreias das mesmas músicas nos EUA, o mercado natal de todas elas: #57; #12; #54. No Reino Unido, o principal mercado internacional: #64; #47; #47.

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Anitta conquistou o Brasil de imediato com o “Show das Poderosas”

Está claro que nós temos um apetite insaciável por popstars e, claro, nós precisávamos urgentemente da nossa própria representante do gênero. E nós arranjamos: Anitta. Carismática, divertida, talentosa, ambiciosa e com músicas animadas e com letras de empoderamento e curtição, ela é uma força que, sozinha, faz frente a febre sertaneja e a invasão do funk paulistano.

Nascida Larissa e criada no subúrbio carioca, Anitta começou no Furacão 2000 mas explodiu mesmo ao ser rebatizada com seu nome artístico e lançar o Show das Poderosas. Eu moro no Rio e lembro do frenesi imediato que foi essa música. Na época achei que ela não ia conseguir superar um sucesso tão icônico e que deu tão certo. Mas ledo engano: ela gravou sucesso atrás de sucesso e virou uma espécie de Midas, transformando em sucesso tudo que ela tocava — seja colaboração com o reggaetonero J Balvin; com a dupla sertaneja Simone e Simara ou com Nego do Borel.

Mas, depois de conquistar o Brasil, a ambiciosa Anitta quer mais e não tem escondido de ninguém seu desejo de conquistar o resto do mundo e, essa semana, a fandom pop do Brasil vibrou com o lançamento de Switch, que dá o primeiro gostinho da versão “pop americano” da nossa musa nacional. Muitos consideram que gravar com Iggy é uma grande honra e pode abrir muitas portas para Anitta.

Eu não sou uma dessas pessoas. Sinto jogar um balde de água fria em quem acha que a rapper australiana representa uma entrada em grande porte no mercado internacional. Até porque, dentre as duas, só uma delas é realmente bem sucedida. E não, essa pessoa não é a gringa.

O fracasso de Iggy Azalea

O Brasil tem um certo complexo de vira-lata em que nós achamos que o internacional é sempre superior. Ver a nossa representante do pop nacional contribuir com uma artista loira, que canta em inglês e que já obteve sucesso internacional é, automaticamente, um upgrade. Mas gente, vamos ser realistas: não é Iggy que está ajudando Anitta, muito pelo contrário.

Vamos fazer um breve repasse pela carreira da rapper:

Nascida em Sidney, Amethyst Amelia Kelly cresceu apaixonada por hip-hop e, em 2006, aos 16 anos, imigrou para os EUA onde começou a perseguir seu sonho de se tornar uma rapper e adotou o pseudônimo com o qual ficou conhecida. Uma garota branca, australiana, cantando rap americano não é exatamente a mistura mais convencional mas essa peculiaridade ajudou a abrir portas e, em 2011, ela lançou seu próprio mixtape que fez com que ela começasse a ganhar buzz na internet.

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Iggy Azalea

Ela foi alçada a outro patamar quando, em 2012, o muitíssimo bem-sucedido rapper T.I. virou seu conselheiro. Rapidamente, ela começou a chamar atenção das gravadoras e de empresários; ganhou apoio da influente Radio 1 britânica; lançou mais um EP produzido pelo aclamado produtor Diplo; excursionou na Europa e fez shows de abertura para NAS no Reino Unido e Beyoncé na sua Austrália natal.

Depois de assinar com a Island Def Jam, a rapper obteve algum sucesso no Reino Unido com os primeiros singles e bastante buzz virtual mas explodiu de verdade quando, no começo de 2014, Fancy virou um sucesso inescapável no mundo, atingindo o topo do Billboard Hot 100 nos EUA.

Obviamente, o sucesso da pegajosa canção fez os olhos da indústria brilharem, acreditando que Iggy tinha todo o potencial para ser a nova sensação. Ela foi inclusa num single badalado de Ariana Grande; lançou música super sensual com Jennifer Lopez; fez colaboração com Britney Spears e apareceu em todos os award shows, programas de TV e radio concerts possíveis e imagináveis.

Mas, enquanto a indústria estava do lado dela, o público não estava. Mesmo com o sucesso gigantesco de Fancy; a promoção pesada do seu single seguinte, Black Widow e as muitas colaborações com artistas famosas (algumas bastante apelativas, como Bootie com a J.Lo, designada para quebrar o Youtube), o álbum dela, The New Classic, penou para vender. Apesar de um relançamento, o CD teve dificuldade em alcançar Disco de Ouro em sua Austrália natal (40k) e não chegou nem perto dessa certificação no Reino Unido. Nos EUA, o resultado foi um pouquinho melhor: demorou mas ela conseguiu chegar a 500 mil unidades e, com streaming incluso, obteve um Disco de Platina.

Impulsionada pelo sucesso de Fancy, a canção seguinte de Iggy, Black Widow, atingiu o terceiro lugar no Hot 100 e quarto no Reino Unido. Depois disso, nenhuma outra música dela conseguiu penetrar o top 20, apesar da promoção forte e das colaborações com artistas badalados. A equipe dela, que foi iludida pelo próprio hype, anunciou uma turnê por arenas na América do Norte — com 24 datas em locais enormes como o Barclay Center no Brooklyn; AmericanAirlines Arena em Miami e o Staples Center em L.A. — e teve que passar pelo constrangimento de cancelar tudo quando pouquíssimas pessoas se interessaram por ingressos.

Azalea ainda levantou discussões sobre apropriação cultural por se aproveitar da música afro-americana — inclusive adotando um blaccent, o sotaque associado a população negra americana — ao mesmo tempo que não mostrava muito respeito pela comunidade. Letras em que ela se chamava de “mestre escravocrata” e se descrevia como uma “garota branca com bunda de favelada” despertou bastante ira assim como vários tweets antigos onde ela fazia comentários misóginos e racistas acerca de latinos, asiáticos; negros e chamava mulheres que vestiam roupas curtas de “putas”.

Rapidamente, ela perdeu o pouco apoio que ela tinha na comunidade hip-hop; o post compilando seus tweets racistas foi dividido 146 mil vezes no Tumblr e a imprensa e as redes sociais começaram a se virar contra ela. Mesmo assim, ela se recusou a se desculpar e, quando outro rapper branco, Macklemore, fez uma música sobre privilégio branco, na qual ele citava ele mesmo e Iggy, a resposta dela foi ficar ofendida por ter sido mencionada.

Apesar de alguns sucessos — namely, o número 1 obtido por Fancy — a estreia de Iggy teve grande hype e apoio financeiro mas pouquíssimo apoio do público. Sendo assim, era necessário muita ingenuidade para achar que o “grande comeback” dela ia ter qualquer tipo de respaldo.

Team, a volta de Azalea depois de 1 ano, não conseguiu alcançar o top 40 nem dos EUA, nem do Reino Unido. A canção seguinte, Mo’ Bounce, atingiu #53 no UK mas não conseguiu sequer penetrar o Hot 100.

O sucesso de Anitta

Em contrapartida a decadência de Iggy, a carreira de Anitta no Brasil foi um sucesso atrás do outro desde que ela estourou com Show das Poderosas no começo de 2013. Apesar de sua fama local, os números dela frequentemente superam o da “rapper internacional”. Por exemplo, Team de Iggy Azalea acumulou 98.3 milhões de views no YouTube ao longo de um ano enquanto o último lançamento de Anitta, Loka, a colaboração dela com a dupla Simone e Simara, tem 302 milhões de visualizações em 4 meses. Sim ou Não, o último single oficial da carioca, se aproxima da casa de 200 milhões.

No Instagram, Anitta tem 20 milhões de seguidores, o dobro do número de Iggy. No Facebook, a brasileira também quase duplica os números da estrela gringa: 13.5 milhões de curtidas versus 7.5 mi.

Dado o track record de ambas, é possível concluir duas coisas: Iggy Azalea, que já foi quase que completamente esquecida no mercado internacional, não tem nenhuma capacidade de dar a Anitta um hit global. Já a brasileira pode sim quebrar o track record de fracassos internacionais de Iggy podendo facilmente garantir a ela um sucesso no Brasil.

E, né? Prova disso é o resultado de Switch no Spotify. Aqui, a música já estreou no segundo lugar. Em Portugal, provavelmente impulsionada pela brasileira, o single chegou a #38 e, no país vizinho, Espanha, em #85. Nos demais países europeus, EUA, Canadá e Austrália? Switch não foi capaz de figurar nem sequer no top 200.

Switch é a junção de um nome desprestigiado e com cada vez menos clout no mercado com uma artista que, por mais que não tenha o name recognition internacional, é excepcionalmente bem-sucedida. Se tem alguém que deve estar ~honrada~ pela possibilidade de colaborar com uma estrela, esse alguém é Iggy.

Caminhos melhores

Pelos motivos listados acima, não acho que colaborar com Iggy seja uma entrada no mercado internacional pela ~porta principal~. Inclusive, dado a total irrelevância da cantora ultimamente, talvez não seja nem pela porta dos fundos.

Claro que a colaboração tem sim seu valor — os brasileiros fãs de pop amaram a canção; os poucos sites especializados internacionais que deram atenção ao lançamento também o elogiaram e ademais é interessante ver Anitta, um ícone nacional, numa produção em inglês. Mas, por outro lado, para olhos mais observadores, a colaboração parece um pouco desesperada. “Se dê mais valor, Anitta”, é o que eu pensei quando soube do dueto.

A própria Iggy parece ter sido abandonada pelos nomes mais profissionais de sua equipe dado o rollout cagado da música, com alguns missteps que, sinceramente, não são normais para um artista sério.

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Maluma e Anitta: a primeira colaboração internacional da brasileira

Para começar, a própria dispensou o lançamento de um lyric video por motivos que não fazem nenhum sentido (“resolvi que vou usar como backdrop no telão durante meus shows”. 1. Porque isso impede de coloca-lo no YT? 2. Que shows, lindinha?). Isso é uma decisão estúpida pois o site de compartilhamento de vídeo  é um dos maiores veículos de promoção no mundo (e no Brasil em particular) e, dado a força que os brasileiros tem para impulsionar vídeos, o filme com as letras acumularia muito mais views que os lançamentos recentes de Azalea, ajudando talvez a criar uma ilusão de que a decadência dela estava perdendo força.

Mas tudo bem, isso não necessariamente é um big deal porque o que importa mesmo é o vídeo oficial. Só que aí, o clipe — sabe-se lá como — vazou na internet e, óbvio, não demorou muito para ele se espalhar pela sempre histérica websfera brasileira. Resultado? Azalea dizendo que talvez vá cancelar o lançamento oficial do clipe. Cuma? Assim fica difícil te ajudar.

Mas enfim, o fato é que existem caminhos muito mais dignos para o sucesso internacional. E a própria Anitta já transitou por eles.

Um exemplo é a colaboração com Maluma, Sim ou Não. Diferente de Azalea, e similarmente a Anitta, Maluma é um dos artistas mais badalados do momento e provavelmente um dos maiores — se não o maior — no mercado latino. Com alcance em absolutamente toda a América Latina; na Espanha e também com o numeroso público latino dos EUA, o reggaetonero é, de fato, um aliado importante na busca pelo sucesso mundo afora e um fenômeno de seguidores nas redes sociais, com bilhões de views no YouTube.

É preciso muito networking e muito poder para conseguir colaborar com um artista de primeiro escalão global. Um feat de Justin Bieber, por exemplo, a colocaria no top 10 de todo o universo mas, vamos combinar, isso é semi impossível. Uma opção um pouco mais realista são DJs/produtores. Anitta, que não é boba nem nada, já está correndo atrás disso e deverá aparecer em uma colaboração com o Major Lazer que também deverá contar com Pablo Vittar. Aqui no Brasil mesmo tem Alok, que provavelmente é o artista local com maior alcance internacional no momento e cujo single, Hear Me Now, obteve mais repercussão global que qualquer música recente de Iggy.

Anitta é bastante fã do rap e do hip-hop americano e foi fotografada com Tyga recentemente. Minha opinião sobre ele é a mesma que tenho sobre Iggy: NÃO. Além de muitos fracassos recentes, ele também tem uma péssima imagem. Mas isso não quer dizer que a artista não deva network no mundo urban mas, claro, sempre tomando cuidado para não oversstep the boundaries e virar caricatura (como foi o caso de Iggy).

Outro gênero com o qual ela flerta muito é o reggaeton. Vários dos seus sucessos recentes tem influência do estilo, como Loka com Simone e Simara e o exemplo mais óbvio, Sim ou Não, com o maior fenômeno do gênero, Maluma. Tem também o remix com a participação dela do hit pan-hispânico Ginza de J Balvin, que fez com que a música entrasse em alta rotação no Brasil.

No momento, como já decorri sobre, não existe estilo mais onipresente e poderoso na Espanha e na América Latina de modo que o reggaeton certo pode quebrar fronteiras para ela. Dito isso, não tem como negar que nenhuma mulher obteve grande sucesso dentro do estilo e — apesar de ter gerado grandes divas pop como Thalia e Paulina Rubio no fim dos anos 90/começo dos 2000 — o mercado hispânico tem rechaçado música feminina (a não ser, claro, que seu nome seja Shakira). Mas bom, tá mais do que na hora disso mudar, né? Quem sabe Anitta não dê uma ajudinha nisso.

Anitta poderá ser um sucesso internacional?

Não tenho bola de cristal mas a resposta para a questão acima é, muito provavelmente, não.

Anitta tem talento, ambição e star quality. Mas ela é um fenômeno no Brasil porque seu estilo e sua personalidade ressoam enormemente com o público nacional. Essa mágica quase que invariavelmente é lost in translation. Mesmo nomes anglo-saxões, como Little Mix e Jess Glynne, não são capazes de traduzir os fatores que fazem delas grandes no mercado natal para o palco global.

Dá para contar nas mãos os artistas não americanos que obtiveram sucesso global duradouro nos últimos anos. Um dos poucos foi Shakira que tinha um estilo e uma voz muitíssimo peculiares, capazes de quebrar qualquer barreira, o que já havia sido provado mesmo antes do seus sucessos em inglês, quando ela virou um fenômeno no Brasil, um mercado historicamente difícil para artistas de língua hispânica.

O fato do sucesso não ser muito provável não significa que ela não deva ter essa ambição e correr atrás dos seus sonhos. “Sucesso internacional” é algo muito subjetivo e artistas brasileiros — como Michel Teló; a lambada do Kaoma e Xuxa — já conseguiram, mesmo que por poucos instantes, hipnotizar todo o planeta. Sendo assim, porque não tentar?

Como já disse, star quality e sede de sucesso ela tem. E, na pior das hipóteses, caso suas international collaborations não cheguem no resto do mundo, o sucesso delas no Brasil está mais do que assegurado. Por mérito próprio, a cantora é, em terras tupiniquim, sinônimo de um bom pop de bater cabelo, seja ele em inglês, em português, em espanhol ou em mandarim.

Seja como for, Anitta é um alívio para os (muitos) fãs de pop do Brasil. Ela é uma das poucas estrelas que não é precisa implorar para COME TO BRAZIL!!!. Afinal de contas, ela já é nossa.

De olho nas paradas da Europa: Reino Unido

O impacto do streaming

O Reino Unido, assim como os EUA, está sempre a frente do resto do mundo quando o assunto são tendências do consumo de musica. Enquanto, até hoje, o resto da Europa ainda está fazendo a transição para o digital, o país adotou quase de imediato o iTunes, inaugurando uma nova era nas paradas já a partir de 2004. Da mesma forma, a população rapidamente migrou para o streaming e, esse ano, o Spotify e Apple Music se consolidaram como os principais métodos de consumo de música do país.

Um dos efeitos colaterais da adoção em massa do streaming foi que a parada de singles ficou muito menos dinâmica. Antes, ela refletia o que as pessoas estavam comprando e, apesar de que algumas músicas ocupavam o topo por meses, existe um certo limite de tempo que uma música pode ser a mais vendida. Hoje em dia, porém, com o crescimento das plataformas pagas de reprodução, ela reflete principalmente o que as pessoas estão ouvindo. E, nesse caso, o tempo que o público leva para superar uma música é muito, muito maior.

Em 2015, a essa altura do ano, 20 músicas tinham encabeçado a parada de singles britânica. Em 2014, 32. Em 2016, com o streaming totalmente consolidado, chegamos a outubro com apenas oito músicas chart toppers.

Quase todos os número 1 são músicas que foram hits globais. A maior de todas foi, unsurprisingly, One Dance de Drake que ocupou o topo por históricas 15 semanas.  Ao longo de todo o mês de setembro, a parada foi encabeçada por Closer dos Chainsmokers com Halsey, assim como todo o resto do universo. Outros sucessos desse ano incluíram I Took A Pill In Ibiza de Mike Posner; Love Yourself de Justin Bieber; Cold Water do Major Lazer (com Bieber e MØ); o primeiro single do ex-1D ZAYN, Pillow Talk e 7 Years, da banda dinamarquesa Lukas Graham.

Um comeback inesperado

Mas, no meio de um monte de sucesso que refletiu com exatidão as paradas de grande parte do resto do mundo, um number 1 hit atípico emergiu na última semana: Say You Won’t Let Me Go de James Arthur.

Em termos de melodia e letra, a música se adequa a um gênero que eu chamo de Ed Sheeran/Sam Smith pop, também conhecida como white guy with a guitar: acústica, com produção minimalista e letra pseudo sentimental. Dado o sucesso de Sheeran, Smith e afins, ninguém duvida da rentabilidade do gênero. Mesmo assim, o sucesso imediato da canção é enormemente impressionante, afinal o intérprete está longe de ser um nome gigantesco ou com grande buzz em torno dele. De fato, ele tem uma história bem complicada.

James Arthur foi o vencedor da nona temporada do The X Factor, em 2012. Naquele então, o programa já não era mais o fenômeno imparável de alguns anos antes mas seguia sendo um sucesso bem maior do que é hoje em dia. Com seu jeitinho nice edgy guy next door, Arthur se destacou, ganhou a edição e seu winning single, Impossible, um cover da música de Shont’elle, foi um enorme hit não só no Reino Unido mas também no resto da Europa. Isso foi um fato inédito e bastante surpreendente, dado que a finalidade da canção do vencedor é ser um novelty hit esquecível com alcance limitado aos países onde o programa é exibido (Reino Unido e Irlanda).

Mas a música de James Arthur foi bem mais longe. Para começar, foram vendidas 1.3 milhão de unidades no Reino Unido, um recorde histórico para um ganhador do programa. Dado que The X Factor estava longe do seu ápice, era extremamente notável que ele superou  lançamentos de nomes como Leona Lewis (a ganhadora do programa com mais buzz da história) e Alexandra Burke (vencedora da temporada com maior audiência, cujo lançamento do single físico coincidiu com as super promoções de falência da Woolworths, o que impulsionou ainda mais as vendas do seu terrível cover de Hallelujah).

Mais do que isso: a canção foi um enorme sucesso na Austrália assim como na França, Alemanha, Suécia, Suíça, Espanha, Itália e demais países do continente europeu onde o programa que revelou Arthur não é nem sequer exibido. Impulsionado pela canção, o cantor embarcou numa turnê pela Europa cuja venda de ingressos superou todas as expectativas.

Tudo parecia estar encaminhado para o rapaz se tornar um dos mais bem sucedidos ganhadores do X Factor. Mas não foi exatamente o que aconteceu: naturalmente, o burburinho em torno dele diminuiu com o sumiço dele da mídia para preparar seu primeiro álbum mas, quando voltou, foi por péssimos motivos: ele falou mal do programa que o lançou e, pior, do One Direction, a cria mais bem sucedida da atração (e com um fanbase bm intensa). Depois, lançou um rap amador que usava queer (homossexual) como ofensa e atacou os que se ofenderam com o ato. Alvo de muitas críticas, teve uma gigantesca meltdown no Twitter.

A situação pegou tão mal que o iTunes aceitou devolver o dinheiro daqueles que tinham comprado o álbum antes da controvérsia e, desapontados com o comportamento do rapaz, estavam arrependidos.

No fim, as vendas do CD de lançamento dele (menos de 300 mil unidades) não justificaram tamanha bad publicity e e ele acabou sendo liberado do seu contrato com a SYCO, o selo de Simon Cowell dentro da Sony.

Parecia o end of the road para James Arthur. Tudo indicava que ele se juntaria aos outros vencedores do The X Factor cujas carreiras, que pareciam ser cheias de potencial, empacaram. Se nem Leona Lewis, ganhadora da terceira temporada, conseguiu uma carreira longeva — mesmo depois do álbum de lançamento mais vendidos da história do Reino Unido e um single, Bleeding Love, que atingiu o topo até nos EUA — as chances dele se reerguer eram poucas.

Mas,  no dia 9 de setembro, sem nenhuma expectativa, ele lançou Say You Won’t Let Me Go. Todos os olhares estavam em Perfect Illusion, o lead single do novo álbum de Lady Gaga (que fracassou alias) mas, sem performance na TV ou apoio da rádio, foi James Arthur que se estabeleceu na segunda posição do iTunes enquanto Gaga desmoronava no top 10.

Com promoção mínima e poucos streamings no Spotify, que não incluiu a canção em quase nenhuma das suas principais playlists, a canção debutou oficialmente na 25ª posição. Dado que uma estreia no top 40 já seria uma vitória, foi um resultado espetacular.

A semana seguinte seria marcada pelo grande retorno, depois de três anos, de Emeli Sandé — cujo álbum anterior vendeu 2.5 milhões de unidades no Reino Unido — e um novo lançamento do DJ superstar Calvin Harris. Mas quem se consolidou no primeiro lugar no iTunes e deslanchou em streaming? James Arthur, que subiu 23 posições na parada e finalizou sua segunda semana no top 2. Finalmente, essa semana, a canção atingiu o topo no Spotify, desbancando, depois de 1 mês, o smash hit Closer.

A tendência é que as vendas e os streams só aumentem agora que a canção finalmente está sendo incluída na alto rotação das principais estações do país e também nas playlists do Spotify.

A SYCO, vendo esse sucesso todo, prontamente recontratou o rapaz, dois anos depois de tê-lo liberado. No dia 28 de outubro, o novo álbum dele, Back from the Edge, chega as lojas e a companhia fará de tudo para que ele vire a estrela global que ele ensaiou ser em 2012. Apesar do comportamento imaturo em 2012 (e de achar a música dele bastante uninspiring), simpatizo com Arthur e espero que ele alcance seu verdadeiro potencial. Estou na torcida para ele não arruinar tudo.

Causando nas Paradas: Dominação escandinava

O sueco Max Martin é, sem duvida nenhuma, o produtor mais influente e poderoso da música popular moderna, tendo sido responsável tanto pelos hits definidores de Britney Spears e dos Backstreet Boys no fim dos anos 90 quanto pelos sucessos inescapáveis contemporâneos de Taylor Swift, Katy Perry, The Weeknd, Maroon 5 e inúmeros outros. Por sua vez, grande parte do repertório estourado de Rihanna veio dos estúdios dos noruegueses do Stargate.

Baseado apenas nesses dois, já dá para comprovar que a mágica escandinava é elemento essencial no sucesso de 99% dos nomes mais estourados da música pop global. Recentemente, porém, a Escandinávia parece ter cansado de ficar apenas nos bastidores e está começando a invadir o palco principal.

Estrelas provenientes da região estão dominando as paradas dos mercados mais influentes do mundo e, cada vez mais, os charts da Noruega, Dinamarca e, principalmente, da Suécia são indicativas de futuros sucessos internacionais.

A banda dinamarquesa Lukas Graham (capitaneada, coincidentemente, por Lukas Graham) é um grande sucesso na seu país de origem desde o seu debut, em 2012. Mas, no fim de 2015, a música 7 Years virou o primeiro chart-topper deles no país vizinho, Suécia. E, se a Suécia aprovou, grandes chances do resto do mundo também abraçar.

Voila. Essa semana, a música completa 1 mês no topo da parada de singles do Reino Unido, o mercado mais influente da Europa. O single também acaba de alcançar o primeiro lugar no iTunes dos EUA, obviamente o maior mercado fonográfico do universo.

Em dezembro de 2015, antes de 7 Years acontecer mundo afora, a canção já tinha sido desbancada na Escandinávia pelo DJ norueguês Alan Walker. Faded foi o primeiro lançamento de Walker, que tem apenas 18 anos (!!!!), e foi imediatamente para o primeiro lugar das paradas na Suécia, na Dinamarca e em sua Noruega natal.

Com o seu sucesso explosivo instantâneo, Walker demonstra seu potencial para se transformar numa mega estrela da EDM (electronic dance music) junto com outros nomes locais como Kygo (da Noruega), Avicii (o sueco é a maior estrela do gênero) e os aposentados da Swedish House Mafia que foram diretamente responsáveis por dar o gás necessário para transformar a música eletrônica em um dos gêneros mais lucrativos e populares da atualidade.

Depois de estourar na Escandinávia, o DJ começou 2016 alcançando o topo de todos os demais países europeus. Recentemente, chegou ao primeiro lugar na Alemanha, o terceiro maior mercado fonográfico ocidental, onde quebrou o recorde histórico de streaming, com 3.7 milhões de plays em plataformas como Spotify e Deezer em uma semana. No Reino Unido, a música ainda não chegou ao top 20 mas, essa semana, ela foi oficialmente inclusa na playlist da Radio 1, a estação de rádio mais influente do país.

Finalmente temos Zara Larsson. A loira, que parece ter nascido pronta para a fama pop, também tem apenas 18 anos e, através das redes sociais, mostra ser muito mais do que apenas um rostinho bonito, com seu feminismo e defesa de imigrantes e refugiados.

Na sua Suécia natal, ela já é popular faz bastante tempo, tendo sido revelada num programa de talento local e tendo atingido o topo da parada pela primeira vez com a balada Uncover, um gigantesco hit em 2013

Em junho de 2015, ela voltou para o primeiro lugar em seu país: a upbeat Lush Life foi um dos grandes hits de verão no país. Meses mais tarde, mais um mega-hit com Never Forget You, uma colaboração com o britânico MNEK. Ambas as canções também arrasaram por todo o resto da Europa e Lush Life inclusive chegou ao topo na Alemanha.

Agora, Larsson parece estar pronta para conquistar o mundo. No Reino Unido, a menina tem duas canções no top 5: Girls Like, sua colaboração com o rapper Tinnie Tempah e, algumas posições acima, seu megasucesso solo Lush Life. No fim do ano passado, Never Forget You passou semanas no top 10 e já vendeu mais de 600 mil unidades.

Agora, Zara está de olho no maior mercado de todos. Lush Life está sendo inclusa nas playlists das principais estações top 40 dos EUA, como a Z100 nova-iorquina e KIIS de Los Angeles. Enquanto a canção está escalando os charts, Never Forget You, seu hit dance com o MNEK, acaba de penetrar o top 10 do iTunes estado-unidenses. Além disso, ela foi nomeada o rosto de uma nova campanha de marketing da gigantesca de beleza Clinique. Nada mal.

Qual será o próximo mega hit? A dica é ficar de olho no chart da Suécia no Spotify.

Worth noting: o Spotify, responsável por mudar a maneira que as pessoas escutam música em todo o mundo (streaming já é até contabilizado nas principais paradas mundo afora), é outra criação sueca. No país, mais de 90% do consumo de música é feito através do aplicativo.

A plataforma, cuja sede fica em Estocolmo, é uma grande entusiasta de atos escandinavos. O  DJ sueco Aviccii, a maior e mais bem paga estrela da região atualmente, aponta o serviço de streaming como peça chave na sua explosão global. Atualmente, o Spotify promove com entusiasmo Zara Larsson, Lukas Graham e Alan Walker, os colocando em playlists proeminentemente (como a Today’s Top Hits, com mais de 7 milhões de seguidores) e dando destaque a eles em sua página inicial.

De Max Martin ao Spotify aos popstars que dominam as paradas da atualidade, parece que o Scandinavian musical takeover não vai parar tão cedo.