Causando na TV latino-americana: teledramaturgia turca

A primeira vista, a Argentina, o Chile, o Afeganistão e o Paquistão são países que não têm quase nada em comum entre si. O gosto televisivo deles, contudo, parece bastante similar: produções turcas dominam a lista de maiores audiências da TV em todos. Mas enquanto o Paquistão e a Turquia são relativamente próximos, tanto geograficamente quanto culturalmente, é difícil entender como a teledramaturgia de um país tão distante conseguiu conquistar de maneira avassaladora o Chile e a Argentina, dois mercados televisivos latino-americanos altamente importantes e bastante concorridos. Por incrível que pareça, Avenida Brasil é chave para entender a ascensão das novelas turcas na América do Sul.

Dentre todos os países latino-americanos, acho que nenhum país é tão orgulhoso de suas produções próprias quanto o Brasil. E é verdade, temos mesmo muito o que nos orgulhar: num país tão fragmentado como o nosso, a teledramaturgia une todas as classes sociais em frente a TV. Temos produção de ponta; exportamos nossas novelas para o mundo todo e ainda por cima ganhamos um montão de Emmy. Acontece que o nosso orgulho acaba contribuindo para que tenhamos um complexo de superioridade. E esse complexo faz com que nem prestemos atenção aos nossos concorrentes de continente.

Sim, as produções mexicanas são muito precárias e formulaicas mas desbancam a Globo como os maiores exportadores e maiores produtores de novela do mundo. Sim, a Argentina não tem 1/10 do tamanho do nosso mercado e nem 1/10 dos nossos orçamentos mas, com muito menos dinheiro que a gente, eles fazem teledramaturgia com produções impressionante, são considerados um polo de produção a nível global (não a toa, as sedes da Disney e da Endemol na AmLat ficam lá)  e são um dos maiores vendedores de formato do mundo (desbancando fácil o Brasil). Sim, a Colômbia tem ainda menos orçamento mas muitas novelas deles têm aclame e repercussão mundial (Café con Aroma de Mujer; Pasión de Gavilanes) e é deles a novela mais bem-sucedida da história, Betty a Feia, que foi adaptada com sucesso extraordinário em países tão diversos como Alemanha, Holanda, México, EUA e China.

Um país que não mencionei acima foi o Chile. A quarta maior economia da América Latina e a mais consolidada (é o único país da America Latina que não precisa de visto para entrar nos EUA), o Chile tem quatro canais grandes que costumam investir em produções próprias. Mas o país não tem a tradição do Brasil, do México e da Colômbia, nem o expertise da Argentina e, por isso, a sua dramaturgia não chama muita atenção no panorama global. Além disso, a boa economia deles faz com que se acomodem. Diferentemente da Argentina, que tem um mercado publicitário muito abalado por sucessivas crises e precisa vender e produzir seus programas para mercados externos, o Chile tem um mercado saudável, um bolo publicitário muito grande e nenhuma grande necessidade de vender formatos, nem novelas. Muito pelo contrário, a impressão é que eles consomem mais do que exportam pois são, afinal de contas, um dos maiores compradores de formatos da Argentina.

Isso não quer dizer que eles não vendem nada — várias sucessos recentes do país foram adaptados pela Telemundo, como Donde Esta Elisa, Alguién que te Mira e Las Vegas e eles também tem vendido vários formatos para a Colômbia e para o México — mas, dentre todos os grandes mercados latinos, os chilenos com certeza são os que têm a teledramaturgia menos estabelecida. Um dos lados positivos disso é que eles têm menos medo de arriscar. E esse lado destemido deles foi o responsável por trazer uma novela turca que começou uma mini revolução no mercado televisivo latino-americano.

2013: Pablo Escobar e Avenida Brasil dominam o Chile

Tudo começou em 2013. O Chile sempre comprou novelas do Brasil, do México, da Colômbia e da Argentina mas as estrelas da TV local sempre foram as produções próprias. Mas, em 2013, as coisas foram diferentes e a teledramaturgia chilena foi completamente ofuscada por duas produções internacionais: Pablo Escobar, El Patrón del Mal, da Colômbia, e Avenida Brasil, do Brasil (duh).

Avenida Brasil dispensa apresentações. Apesar de que, desde os anos 70, as produções brasileiras têm espaço e público fixo na TV chilena, há muito tempo uma novela tupiniquim não tinha tanta repercussão. Mas a novela de João Emanuel Carneiro, com sua impressionaste produção e trama extremamente clássica de amor e vingança, conquistou os chilenos a tal ponto que o 13, canal que exibia a novela, começou a fragmentar os capítulos em diversas partes na esperança de estender a duração da novela (e, consequentemente, os resultados de audiência espetaculares obtidos por ela). As horas de “cenas do capítulo anterior” e os poucos minutos de cenas inéditas não abalaram em nada os números de sintonia e, quando finalmente chegou a hora do capítulo final, ele foi exibido em horário nobre (a novela era exibida a tarde) com números recordes de audiência.

A colombiana Pablo Escobar: El Patrón del Mal, sobre um dos traficantes mais celebres da história, também não ficou muito longe em termos de sucesso, lançando bordões e conquistando o prime time da TV local.

2014: a invasão da Argentina

Ao mesmo tempo que Avenida Brasil chegava ao fim no Chile, a novela desembarcava na Argentina, na Telefe, um dos principais canais do país. Fazia anos desde a última vez que a emissora apostou numa produção brasileira mas o sucesso da ficção nos dois países vizinhos (nós e o Chile, no caso) os motivou a lançar a trama com uma enorme campanha de marketing e como ponto focal da programação de fim de tarde do canal. E a aposta deu resultado: rapidamente, Avenida Brasil era a maior audiência da TV argentina, superando todas as produções locais do horário nobre. Era a primeira vez em quase uma década que um programa internacional liderava as audiências locais (desde a colombiana Pasión de Gavilanes em 2005). Quando Showmatch, o programa de variedade e incontestável líder de audiência da TV local, estava prestes a começar sua nova temporada no canal rival, o Trece (não confundir com o 13 chileno), a Telefe não titubeou em mover a novela brasileira para o horário nobre para enfrentar a oposição. Pela primeira vez, a Telefe colocou uma produção internacional no seu horário noturno central.

A jogada se provou certeira, com a novela global brigando de igual para igual com o programa mais celebre da TV local e, na maior parte das vezes, ganhando da concorrência. O sucesso foi tão gigantesco que o canal levou o elenco para Buenos Aires para apresentar o capitulo final na frente de 8 mil fanáticos no estádio Luna Park e Avenida Brasil foi coroado como o maior fenômeno da TV argentina ao longo de 2014.

O sucesso de Avenida Brasil serviu para destacar o ano fraquíssimo das produções locais argentinas, que penavam em chamar a atenção do público local. Um dos poucos destaques de ficção na TV argentina em 2014 foi a colombiana Pablo Escobar: El Patrón del Mal. Diferente do Chile, onde foi exibida num canal grande, Escobar foi comprada na Argentina pelo Canal 9, um canal com audiências bem insignificantes.  Mesmo assim, a novela conseguiu a façanha de triplicar as audiências do horário nobre da emissora e incomodar o Trece, um dos dois grandes líderes.

As turcas desembarcam no Chile

Enquanto Avenida Brasil e Pablo Escobar repetiam, na Argentina, o sucesso que tinham obtidos no Chile, os canais chilenos estavam com dificuldade para repor os dois fenômenos. Inicialmente, ambas as emissoras apostaram no que parecia seguro: o Mega substituiu Escobar por outra narco-novela colombiana, El Cartel de los Sapos, e o 13 (não confundir com o Trece argentino) substituiu Avenida Brasil por outra novela brasileira, Salve Jorge. Ambas decepcionaram e ficaram distantes do enorme respaldo obtido pelas suas antecessoras. E foi ai que a Mega resolveu chutar o balde e apostar no incerto, comprando a novela turca Binbir Gece ou As Mil e Uma Noites. Assim como Avenida Brasil, As Mil e uma Noites tinha uma produção grandiosa e uma história de romance clássica cheia de sensualidade. Se a novela brasileira dublada virou um fenômeno para o 13, porque a turca não poderia repetir esse sucesso para o Mega?

O risco provou-se uma das decisões mais acertadas já feitas pela emissora e, em poucas semanas, Las Mil y una Noches estava obtendo números recordes de audiência, superando inclusive os números obtidos por Avenida Brasil e Pablo Escobar um ano antes. A novela estreou em fevereiro do ano passado e chegou ao fim na primeira semana de 2015. Ao longo dos seus 180 capítulos, teve uma média de 28 pontos, alcançando um pico de quase 39 pontos em um dos capítulos finais em dezembro. Como comparação, o fenômeno Avenida Brasil teve média de 13 pontos e Escobar teve 15, ambos com picos de 26 pontos em seus respectivos capítulos finais.

A internacionalização do horário nobre argentino

Quando Avenida Brasil chegou ao fim na Argentina, em julho de 2014, a Telefe devolveu seu horário nobre para as produções locais, com duas grandes apostas: o romance  Camino al Amor, que reunia os protagonistas e a equipe do mega hit de 2012 do canal, Dulce Amor e a comédia Viudas y Hijos del Rock&Roll, que reunia os protagonistas e a equipe de outro mega hit de 2012 do canal, Graduados. Mas, infelizmente, a tentativa da Telefe de voltar o relógio para 2012 não deu muito certo. Mesmo assim, eles não desistiram e, para 2015, resolveram continuar a tentativa de voltar a tempos de glória passados, dessa vez com a intenção de repetir os resultados de 2014. Para isso, eles voltaram a ceder o horário nobre para uma novela da Globo, Rastros de Mentira (título internacional de Amor à Vida).

A emissora concorrente, Trece (não confundir com o 13 chileno) teve mais visão e notou que o que dava certo no Chile, tinha grandes possibilidades de dar certo na Argentina. Por isso, o canal apostou em Las Mil y una Noche. Foi a primeira vez na história recente que os dois principais canais argentinos apostaram em títulos internacionais (ou latas, como eles chamam) para o horário central. Ambas as produções estrearam juntas, no dia 5 de janeiro. Rastros levou vantagem com 11.5 pontos, mas Noches teve resultado digno, com 10.6 pontos. Mas, enquanto a brasileira ficou estacionada nos 11 pontos, a novela turca decolou e, em sua terceira semana, já está na casa dos 19 pontos de audiência, sendo o programa mais visto da TV argentina.

¿”Las mil y una noches” es la nueva “Avenida Brasil”?, perguntou o jornal Clarin, o periódico mais importante do país. “Nos bares, nos elevadores e nos escritórios, todos falam de Onur e Sherezade como se estivessem falando de João e Maria. E quando a naturalidade dos nomes da ficção se impõem, o fenômeno fica claro”, resumiu a publicação.

As novelas turcas; as novelas brasileiras e a TV latino-americana

Ainda é muito cedo para dizer se as novelas turcas vieram para ficar. Mas, a julgar pelo Chile, parece que sim: com o fim de Las Mil y una Noches, a Mega apostou em duas outras produções turcas, Fatmagul e Ezel. Ambas atualmente lideram com folga a lista de programas mais vistos no país e consolidaram o Mega como o canal mais visto do Chile, elevando toda a programação noturna da emissora. Em breve, uma terceira produção turca, Sila, estreará na faixa diurna do canal. As emissoras rivais também se renderam:  a atual novela do horário central do 13 é a épica El Sultán (Muhteşem Yüzyıl) enquanto o Chilevision investiu em Tormenta de Pasiónes (Öyle Bir Geçer Zaman Ki). Enquanto isso, na Argentina, a Telefe já mostrou que também entrará no jogo e se antecipou ao Trece, comprando os direitos de Fatmagul.

Avenida Brasil (re)abriu muitas portas para a Rede Globo. Foi a primeira vez que uma produção brasileira liderou a audiência da TV argentina e foi um retorno triunfal para as novelas globais na Telefe, que, graças ao sucesso de AvB, continua apostando em títulos brasileiros nas faixas diurnas e noturnas. No Chile, que sempre teve faixas fixas para dramaturgia brasileira, o interesse nas produções nacionais foi revivido. Depois de anos sem emplacar uma novela na TV colombiana, Avenida Brasil se instalou no horário nobre de um dos principais canais locais com grande sucesso. No México, foi a primeira vez que uma novela da Rede Globo foi exibida na TV aberta e o sucesso da trama de JEC significou a abertura de um horário noturno para nossas produções. Isso sem contar os números altíssimos no Uruguai, na Venezuela, no Peru, no Paraguai….

A questão é que, assim como no Brasil, onde Avenida Brasil reviveu muito momentaneamente o interesse maciço do público em novela das 8, a Rede Globo não parece ter produções igualmente fortes para prender o interesse dos espectadores mundo afora. Avenida Brasil não é a regra e sim a exceção. Sim, Amor à Vida está tendo resultados dignos nos países que está sendo exibido e, ainda em 2015, João Emanuel Carneiro volta com uma nova trama mas a verdade é que a herdeira do apetite do grande público latino-americano por grandiosas produções internacionais não parece ter sido a Globo, que foi a pioneira da tendência, e sim a Turquia.

Em todo o caso, o mercado brasileiro é forte e gigantesco o suficiente para a Globo não ter praticamente nenhuma dependência do mercado externo. O sucesso internacional é apenas um bônus, a cereja no topo. O importante mesmo é o sucesso nacional. Mas nem aqui no Brasil a emissora conseguiu repetir o sucesso e isso fica clara quando constatamos que nada que o canal exibiu, nem mesmo a Copa do Mundo, conseguiu chegar perto dos 51 pontos registrados pelo capitulo final de Avenida Brasil em outubro de 2012.

Mas a Globo tem pouco com que se preocupar quando comparado com os executivos televisivos chilenos ou argentinos. Na Argentina, particularmente, a dramaturgia local sempre foi o ponto central da TV, liderando com facilidade os níveis de audiência e sendo exportada para todo o mundo. Contudo, desde 2012, nenhum canal — nem a Telefe, nem o Canal 13 — consegue emplacar um enorme sucesso e todas as histórias que conquistaram o público são títulos internacionais que, pela primeira vez na história, estão dominando o horário nobre das duas principais emissoras do país.

No Canal 13, Noche & Dia, a grande aposta nacional do canal, estrelando grandes nomes locais, tem penado para conseguir metade da audiência da novela turca. A emissora teve que deixar o orgulho de lado e aceitar que o programa importado, não a produção própria, era a grande estrela do canal. Por isso, os horários foram invertidos: Mil y Una Noches agora é exibido no horário nobre, as 22hs, enquanto Noche & Dia foi movido para as 23hs. A maior audiência da Telefe também é uma lata, Amor à Vida, que apesar de não ter chegado perto do sucesso da turca também tem feitos números respeitáveis.

Pelo menos na Argentina, os produtores locais ainda tem esperança de reviver o interesse do público nas ficções nacionais. A Telefe irá produzir três novelas para 2015, incluindo uma super produção dirigida por Juan José Campanella, ganhador do Oscar por El Secreto de tus Ojos. Já o Trece também prepara duas ficções noturnas, incluindo um thriller com o respeitado ator Julio Chavez. Mas, enquanto esses programas não chegam, as turcas continuam sua dominação, com Mil y una Noches liderando com folga as audiências nacionais no Trece e, em breve, também desembarcam na Telefe.

Além da Argentina e do Chile, Las Mil y Una Noches também está sendo exibida na Colômbia e no Peru e, em breve, estreia no México e no Brasil, na Bandeirantes.

As novelas turcas


Produções impressionantes; paisagens exóticas e enredos tradicionais e machistas . Uma formula ganhadora. Antes de julgar, lembre-se: isso também descreve grande parte dos grandes sucessos brasileiros e internacionais (Crepúsculo e 50 Tons de Cinza anyone?).

Sendo justo, os turcos conseguem pegar umas ideias pavorosas e fazer a coisa de maneira tão sedutora que faz com que você quase releve o nível de errado da coisa toda, o que não deixa de ser um talento. Além disso, quando eles querem, eles também são capazes de fazer programas com ótimos scripts e bastante thought-provoking. E, mesmo com os enredos tradicionalistas e machistas, uma das grandes inovações das novelas turcas foi mostrar mulheres independentes e bem-sucedidas no mundo islâmico, quebrando estereótipos e gerando admiração entre as mulheres do Oriente Médio (e também bastante polêmica).

Antes de chegar na América Latina, as novelas turcas causaram uma verdadeira revolução (e bastante controvérsia) no Oriente Médio e na Europa do Leste. Em alguns países árabes, alguns consideraram as temáticas muito polêmicas; em outros países, o sucesso das produções causou preocupação pelas implicações políticas, já que muitos países têm relações conturbadas com a Turquia. A controvérsia não atrapalhou em nada os números recordes de audiência, que ajudaram a consolidar a imagem da Turquia como um país que sabe equilibrar as tradições do mundo árabe com a modernidade ocidental. O país lucra centenas de milhões de dólares por ano com a venda de suas ficções.

Binbir Gece (As Mil e Uma Noites)
93 episódios exibidos entre 2006 e 2009 no Kanal D, na Turquia. Antes de conquistar o Chile e a Argentina, a novela tinha sido exibida com enorme sucesso no Oriente Médio e na Europa do Leste.

Com um filho doente, Sherazade precisa desesperadamente de dinheiro para operá-lo. Sem ninguém a quem recorrer, ela pede ajuda a Onur, o dono da empresa de construção na qual ele trabalha. Ele concorda em dar o dinheiro, com uma condição: ela terá que passar a noite com ele. Sherazade aceita e, depois dessa noite, Onur não consegue mais tirar a mulher de sua cabeça. Nasce assim um complicado e intenso romance, cheio de culpa e reviravoltas.

As Mil e Uma Noites é, até o momento, o maior fenômeno da Turquia a nível internacional e é responsável por desatar a febre das novelas turcas no Chile, onde conseguiu níveis históricos de audiência, e no resto da América Latina. Ela atualmente lidera com folga as audiências da Argentina, obtendo números que produções locais não conseguem em anos.

Fatmagül’ün Suçu Ne? (Que culpa tem Fatmagul?)
81 episódios, exibidos entre 2010 e 2012 no Kanal D. O seriado foi um sucesso no seu país natal mas também se consolidou como um dos maiores sucessos da história do Paquistão, onde já foi reprisado três vezes.

Baseado numa história real, Fatmagul é uma garota simples que cria ovelhas em um pequeno povoado na costa da Turquia, e está prestes a se casar com o pescador Mustafa. Uma noite, ela encontra três rapazes alterados por drogas e álcool que a estupram. Os rapazes — Salim, Erdogan e Kerim — estão reunidos para celebrar a despedida de solteiro de Salim, filho do empresário mais rico da região. Um quarto rapaz do grupo, Kerim, que desmaiou de bêbado antes do estupro, assume a culpa e, para proteger a imagem dos negócios do pai de Salim, é obrigado a casar com Fatmagul. Ambos se mudam para Istambul mas Mustafa, o ex-noivo da moça, promete se vingar de todos que destruíram seu amor. Apesar desse argumento pavoroso, li gente dizendo que a série é sobre Fatmagul tentando se recuperar do abuso que sofreu e seguir adiante e que a série tem seu valor e consegue fazer jus ao tema complicado. Hmm… não sei não.

Fatmagul foi a substituta de Las Mil y una Noches no Chile. Apesar de não ter conseguido os níveis históricos de audiência da antecessora, a turca é atualmente o programa mais visto do país. Na Argentina, a Telefe já comprou os direitos.

Ezel
71 episódios, exibidos entre 2009 e 2011 pela ShowTV e pela ATV. Uma das séries mais premiadas da Turquia, com mais de dez reconhecimentos nacionais e internacionais, incluindo Best Script Format no C21 Awards e Best Drama no Seoul International Drama Awards.

Omer é um jovem, vivendo uma vida normal de classe média em Istanbul. Um dia ele conhece a bela Eysan e ambos se apaixonam perdidamente. Os dois, junto com dois amigos de infância de Omer, são coagidos, pelo mafioso pai de Eysan, a roubar um cassino. O roubo dá errado e Omer é traído pelo amor de sua vida e seus dois melhores amigos e acaba sendo condenado a vida na prisão. Enquanto isso, Eysan descobre que está gravida do filho do seu namorado, agora preso. Passam-se 12 anos e, graças a um grande incêndio, Omer consegue finalmente escapar. Com a ajuda de um ex-companheiro de cela, ele consegue reconstruir sua vida e modificar, através de plásticas, sua aparência. Sob uma nova identidade, Omer, agora conhecido como Ezel, promete se vingar de todos aqueles que o traíram.

Ezel é exibido logo após Fatmagul no Chile e é a segunda maior audiência do país atualmente.

Muhteşem Yüzyıl (O Maravilhoso Século)
139 episódios, exibidos entre 2011 e 2014 pela ShowTV e pela Star TV. A super produção histórica conta a história do Sultão Suileman, o Magnifico e sua conquista do Império Otomano. A retratação dramática e um pouco escandalosa da idolatrada figura histórica causou enorme polêmica na Turquia mas também rendeu audiências altíssimas, desatando uma febre por novelas épicas.

A produção foi uma das séries turcas mais exportadas, tendo chegado aos EUA; França; Itália; Espanha; Israel e outras dezenas de países. A popularidade enorme da série na Grécia e na Macedônia causou controvérsias políticas e na Macedônia, especificamente, foram introduzidos regulamentações para limitar o número de séries turcas nos canais locais.

No Chile, onde está sendo exibida como nome de El Sultán, a novela foi a grande aposta do canal 13 para 2015 que se rendeu as produções turcas depois dos sucessos excepcionais no Mega. Apesar da produção não ter obtido tanto respaldo quanto as do concorrente, El Sultán é o programa mais visto da emissora.

Novos começos

Depois de cinco anos com atualizações bem espaçadas no Blogspot, o Tá Causando começa uma nova era com o  seu domínio próprio.

Sim, tá tudo meio bagunçado; sim, eu ainda tenho que transferir todos os posts antigos e sim, eventualmente isso aqui vai ganhar uma carinha mais bonitinha. Mas até lá, não deixem isso prejudicar o proveito de vocês porque, afinal das contas, ao contrário do meu approach  na vida real, o Tá Causando sempre deu mais foco ao conteúdo que ao rostinho bonito (brinksss).

Cinema 2014: fádiga de Hollywood ajuda fenômenos locais

O verão estado-unidense é a época de ouro para os grandes estúdios. As férias escolares trazem faturamento recordes e explicam o porque de tantos grandes lançamentos serem concentrados entre os meses de junho e agosto. Esse ano, porém, o verão foi motivo de bastante lamentação: Hollywood teve seu pior resultado desde 1997 (ajustado pela inflação) e uma queda de 15% em relação a 2013, deixando claro que os americanos estão cada vez menos empolgados com a ideia de gastar seus suados trocados em filmes que, francamente, são quase sempre mais do mesmo.

Apesar disso, a hegemonia dos filmes de Hollywood segue inabalada. Com mais de 1 bilhão de dólares lucrados globalmente, o quarto filme da franquia Transformers, Age of Extinction — o primeiro com Mark Whalberg e Nicole Peltz nos papeis principais — ocupa com folga o posto de longa de maior sucesso do ano. O resultado espetacular, contudo, não ofusca o fato de que Transformers é um exemplo clássico do tipo de filme que explica a fadiga do públicp: formulaico, baseado numa franquia já existente e com uma forte dependência de efeitos especiais espetaculares para distrair do fato de que o roteiro basicamente não existe.

Transformers 4 foi o único filme da franquia a não ultrapassar dos 300 milhões de dólares no seu mercado natal e, com 245.5 milhões de dólares arrecadados, ele mostrou uma queda considerável em relação ao segundo filme da série, lançado em 2009, e que lucrou mais de  400 milhões. O resultado do longa em mercados europeus e no Japão também foi bastante aquém aos antecessores.

Contudo, como os resultados globais do longa de Michael Bay deixam claros, Hollywood está sabendo mascarar essa queda de interesse graças a conquista de novos territórios que, até pouco tempo atrás, eram insignificantes. Hoje, esses países — como a Rússia (onde Age of Extinctinon lucrou mais de 45 milhões de dólares) — são alguns dos mais lucrativos mercados internacionais e, depois de conquistar o ex país soviético, as garras de Hollywood estão fincadas na China.

Com mais de 1 bilhão de pessoas, a China é um mercado gigantesco. Lançar um filme no país, porém, é complicado e exige muitíssima negociação com os órgãos públicos. O esforço é justificado pelo tamanho do lucro em potencial. O país, sozinho, foi responsável por fazer de Transformers: Age of Extinction o sucesso monstro que ele acabou sendo. Coproduzido por uma companhia chinesa, o longa é o maior sucesso da história do país, com 301 milhões de dólares arrecadados, conseguindo o ato quase inédito de superar o faturamento norte-americano.  O amor dos chineses por blockbusters de ação também significou lucros gigantescos para X-Man: Days of the Future Past; Captain American: The Winter Soldier; Dawn of the Planet Apes; Guardians of the Galaxy e The Amazing Spider Man 2, todos com rendas superiores a 90 milhões de dólares no país.

A crescente demanda por assistir filmes via métodos legais na China é fonte de enorme otimismo para os executivos de Hollywood. Porém, no resto do mundo, a falta de ofertas empolgantes dos titãs do entretenimento está fazendo com que o público local opte por prestigiar produções locais, com roteiros mais criativos e que falam de maneira mais profunda e direta com a população. E, apesar da enorme dificuldade de qualquer país de enfrentar os gigantescos americanos, 2014 foi um ano onde, novamente, diversos países conseguiram produzir seus próprios fenômenos de bilheteria.

Espanha: diante de uma nação fragmentado e em caos econômico e político, uma comédia une o país

A Espanha, com sua milenar história de grandes descobertas, conflitos e riquezas, foi um dos maiores responsáveis por moldar o mundo ocidental. Mas, apesar do seu passado glorioso e rico, o país passou grande parte da segunda metade do século 20 ofuscado, sofrendo uma opressora ditadura que os manteve bastante atrasados em comparação com seus vizinhos europeus. As Olimpíadas de Barcelona em 1991 os colocaram no centro do holofote global, transformando-os num dos maiores polos de turismo mundial e a Espanha entrou no novo milênio cheio de otimismo, investimento e a sensação de que, novamente, eles estavam lado a lado das grandes potências. Tudo isso came crashing down com a crise global de 2008 e, desde então, o país tem enfrentado uma crise histórica, com enorme desemprego e poucas perspectivas de recuperação.

O tumulto econômico espanhol é só um dos muitos aspectos que refletem o caótico panorama na Espanha. Dividido em diversas regiões autônomas, o país tem enorme dificuldade para inspirar em sua população a sensação de um “país unido” e cada região tem sua própria cultura, forma de encarar a vida e muitas delas têm inclusive língua própria. As duas principais cidades do país, Madrid, a capital, e Barcelona, a principal cidade da rica região da Catalunha, tem uma rivalidade histórica que trace back para séculos e séculos atrás e, com a crise, o movimento separatista catalão ganha cada vez mais força.

No meio desse caos, uma comédia que ri das diferenças culturais do país, Ocho Apellidos Vascos (Oito Sobrenomes Bascos), lançado em março, conseguiu a difícil missão de unir a Espanha, levando mais de 9 milhões de pessoas aos cinemas (quase 1/4 da população do país) e se transformando na maior bilheteria da história.

Enquanto a cobertura das rivalidades e conflitos separatistas em geral focam em Madrid e Barcelona, ambas as cidades, grandes e cosmopolitas, não são tão diferentes entre si. Ocho Apellidos foca em duas regiões que, essas sim, são total opostos uma da outra: a quentíssima, cálida, romântica, espanholíssima Andalucia e o frio, nublado, desenvolvido País Basco.

Os protagonistas do filme são Rafa, um andaluz, super latin lover e representante de todos os estereótipos da região e Amaia, uma basca fria e moderna. Por coincidências do destino, os dois acabam se cruzando e, apesar de serem completamente diferentes, Rafa acaba se apaixonando perdidamente por Amaia, que pertence a uma família ultranacionalista que nunca aceitaria que ela estivesse num relacionamento com alguém fora da região. Abandonada por seu noivo poucos dias antes do seu casamento, Amaia vai receber a visita do seu pai ausente pela primeira vez em anos e não quer contar para ele que seu noivado foi por água baixo. Por isso, ela recruta o andaluz apaixonado, que faria qualquer coisa para vê-la novamente, até sua cidade natal com uma missão quase impossível: manter a farsa de que ele é o noivo basco dela.

Enquanto as tentativas do andaluz de raiz em fingir que é basco são hilariantes para o público espanhol, familiarizado com os estereótipos e tradições das respectivas regiões, as piadas se perdem para os não locais. Isso significou que o filme teve um alcance internacional curtíssimo, fracassando inclusive no país vizinho, Portugal, onde, por também fazer parte da Peninsula Ibérica e ter uma cultura bastante similar, recebeu um significante marketing push. Mas os resultados históricos na Espanha fizeram com que a recepção morna internacional passasse completamente despercebida: o filme superou The Impossible, o filme de 2012 de Juan Antonio Bayona, para se transformar na maior bilheteria da história da Espanha, com um rendimento de quase 60 milhões de euros (em dólares, o rendimento foi de U$77.5 milhões).

Na cena que dá origem ao título do filme, o pai de Amaia menciona que a garota teve um namorado “do sul”. “Do sul?”, pergunta em choque Rafa. “Sim, de Vitória”, responde o pai, citando uma cidade do País Baixo que, por sua posição geográfica, é menos de raiz que suas vizinhas ao norte. “Mais ele era bem vasco, hein! Ele tinha os oito sobrenomes vascos!!”. “Ah, ele também tem!”, diz Amaia apontando para Rafa, dando a deixa para que ele invente, de cabeça, oito sobrenomes longuíssimos e cheios de consoante, como os tradicionais sobrenomes locais.

Em outro momento do longa, Rafa joga um cigarro aceso numa lixeira, iniciando um pequeno incêndio que é confundido com um ato de protesto. Em pouco tempo, ele aglomera uma multidão e vira o líder de uma manifestação separatista. Pressionado pelas pessoas reunidas (e até pela TV local), Rafa puxa um grito de guerra: “Somos mejores! Que los españoles!”. “Discurse em basco!!“,  alguém grita. “Não! Para quem estamos pedindo a independência? Para os bascos? Ou para Madrid? Temos que falar em espanhol para que eles nos entendam!”, responde Rafa, que não sabe uma palavra do complicadíssimo idioma local. Já com a multidão ao seu lado ele entona uma versão super desafinada do famosíssimo hit “Sevilla tiene un color especial” do Los del Rio (conhecidos globalmente graças a obra de arte Macarena), substituindo a capital andaluz por “Euskadi” (“País Basco” no idioma local). “Euskadi tiene un color especial! Euskadi tiene un color diferente!” repetem os protestantes.

O filme que ri das diferenças espanholas acabou por unir o país. De norte a sul, não teve uma cidade onde 8 Apellidos não foi um fenômeno: Madrid, Catalunha, Andalucia, País Baixos e todas as demais regiões, a sensação foi que não teve ninguém que não foi no cinema prestigiar o longa metragem. Clara Lagos e Dani Rovira, ambos já bastante sucedidos, tiveram a popularidade potencializada, sendo escolhidos como protagonistas da mega campanha de liquidação de verão do El Corte Inglés, a maior loja de departamento da Espanha. O sucesso foi tamanho que, quando o DVD e o blu-ray foram lançados,  seis meses após a estreia, ainda haviam 54 salas de cinema exibindo o filme.

Em abril de 2015, a sequência começa a ser filmada. A continuação focará novamente nas diferenças entre Andaluzia e País Baixo e adicionará mais uma região autônoma a equação: Catalunha.

Em momentos de crise econômica e protestos separatistas, nada melhor do que o humor para lembrar que, por mais que o país tenha muitas diferenças, são todos, no final das contas, parte da mesma cultura.

Argentina: gargalhadas selvagens em um país transtornado

Damian Szifrón é um nome fortíssimo na Argentina. Entre 2002 e 2003, criou e roteirizou Los Simuladores, fenômeno de audiência na Telefe e considerado por muitos como a melhor série argentina de todos os tempos. Em 2003 e 2005, dirigiu dois elogiados e bem-sucedidos filmes, El Fondo del Mar e Tiempos Valientes antes de voltar a televisão, em 2006, com mais um sucesso: Hermanos y Detectives. Desde então, Szifrón se retraiu. Por tanto, quando, depois de quase oito anos, foi anunciado que ele iria voltar com um novo filme, Relatos Salvajes — que tinha o maior ator argentino, Ricardo Darin, no elenco e produção do celebradíssimo diretor espanhol Pedro Almodovar —  as expectativas eram altíssimas. Mesmo assim, o filme conseguiu a missão dificílima de superá-las: com 3.5 milhões de ingressos vendidos, o filme se se transformou no filme local de maior sucesso da história.

Todo mundo esperava uma estreia fantástica de um filme que envolvia Szifrón, Darin, Almodovar e tinha promoção da Telefe e recepção fantástica em festivais mundo afora, incluindo Cannes. Porém, logo no primeiro final de semana, já ficou claro que até as apostas altas iriam ser modestas quando comparados aos resultados: 500 mil pessoas correram para o cinema, coroando o filme como a melhor abertura de um filme local na história. Demorou oito semanas para Relatos Selvagens desocupar o topo dos filmes mais vistos do país e ele não mostra sinais de que vai sair dos top 5 por bastante tempo. O filme já é a terceira maior bilheteria da história da Argentina, só superado por A Era do Gelo 4 e Titanic. Relatos Selvagens e Titanic são, alias, os únicos dois filmes não-animados a ultrapassarem a casa de 3 milhões de ingressos vendidos no país.

Relatos Selvagens engloba seis histórias curtas de humor negro, todas elas fazendo jus ao título. O filme, claro, será a nominação argentina ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro.

Ainda teremos que esperar uns meses para constatar se Relatos vai conseguir agradar a Academia tanto quanto O Segredo de seus Olhos mas, em contrapartida, o público já foi totalmente conquistado. O ganhador do Oscar era, até a estreia do filme de Szifrón, a maior bilheteria de um filme local na Argentina. Relatos Salvajes, contudo, mais que dobrou o lucro do filme anterior, chegando a 19 milhões de dólares arrecadados na Argentina e no Uruguai.

O tom cínico e autodepreciativo do filme tem bastante do humor e do jeito argentino de ver o mundo. E, em tempos de caos político, impunidade e economia extremamente turbulenta, o sucesso de Relatos pode indicar um pouquinho sobre o estado emocional do povo local.

Mas, deixando a análise psicológica de lado, não tem como discordar que o filme é realmente impressionante e mais um ótimo exemplo da alta capacidade dos nossos vizinhos de fazer longas-metragens com produção, roteiro e direção do mais alto calibre. Além dos 18 milhões de dólares arrecadados na Argentina e no Uruguai, Relatos tem tido bom desempenho na Espanha, país que co-financiou o filme. Depois de uma estreia para lá de discreta — lucrando 653 mil dólares e estreando em sexto nas bilheterias — o filme se beneficiou do boca a boca e se mantém estável entre as quatro maiores bilheterias do país desde então, já tendo ultrapassado 3.5 milhões de dólares de rendimento em um mês desde que foi lançado.

Com 25 milhões de dólares arrecadados até o momento, o filme tem um longo caminho até alcançar os 33 milhões alcançados globalmente por El Secreto de sus Ojos (incluindo 8mi na Espanha; 6.4mi nos EUA; 1.6mi no Brasil; 1.55mi na Itália e 1.1mi no Reino Unido) mas, mesmo sem um Oscar, o filme tem superado o filme de Campanella nos poucos mercados onde já estreou (Peru, Chile, Venezuela, Colombia, Holanda) além de estar andando a longos passos na Espanha e no Brasil.

França: rindo do racismo ou apenas reforçando-o?
Fenômeno de bilheteria ressalta problemas que o país tem com o multiculturalismo

Em 2008, Bienvenue chez les Ch’tis, que ri dos estereótipos da infame região nordeste da França, quebrou o recorde de maior bilheteria da história do país, arrecadando 194 milhões de dólares e levando mais de 20 milhões de pessoas aos cinemas (e também originando uma super bem-sucedida adaptação italiana). Em 2009, Avatar, o primeiro filme de James Cameron desde Titanic (que, com 21.8 milhões de ingressos vendidos em 1997, é o único filme na história da França que vendeu mais ingressos que Ch’tis) também levou uma multidão para os cinemas que, curiosas pela nova  e groundbreaking tecnologia 3D, não se incomodou em pagar um preço mais alto pelo ingresso, deixando incríveis 175.6 milhões de dólares nas bilheterias do país. E, em 2011, depois de um 2010 tranquilo, a tocante comédia Intouchables, sobre a amizade entre um aristocrata deficiente físico branco com seu auxíliar negro do gueto, levou 19.5 milhões de pessoas aos cinemas, se transformando na terceira maior atração da história do cinema na França (atrás só de Titanic e Ch’tis) com mais de 166 milhões de dólares na França. O filme transcendeu a França e, graças a resultados altíssimos no mundo inteiro, o longa fechou seu run com 426.6 milhões de dólares, o lançamento francês mais bem sucedido da história.

Desde então, nenhum grande arrasa quarteirão abalou as estruturas das salas de cinema francês mas, esse ano, um filme chegou perto. Qu’est-ce qu’on a fait au Bon Dieu? (O que fizemos ao Bom Deus?) não alcançou os resultados dignos dos livros dos recordes de Intouchables e Ch’tis mas foi um dos quatro filmes a ultrapassar a barreira dos 100 milhões de dólares arrecadados nas últimas duas décadas e apenas o sétimo filme a vender mais de 12 milhões de ingressos nos últimos 40 anos. Nada mal, né?

Qu’est-ce qu’on a fait… é uma comédia que, assim como Intouchables, trata de uma França cada vez mais diversa e a dificuldade de muitos em se adaptar a isso. Em tempos de muita controvérsia em relação a racismo e direitos de minoria e do assustador crescimento do partido de extrema direita, Front National, o filme causou identificação no público local contando a história de um casal provinciano, burguês, branco e ultra conservador, Claude e Marie e a dificuldade deles em aceitar o casamento multi-racial de suas filhas. Isabelle se casou com o muçulmano Rachid; Odile com o judeu David e Ségolene com o chinês Chao. Quando a filha mais nova, Lauren, avisa que está noiva, o casal sente tanto alivio em descobrir que ele é católico e se chama Charles que estão dispostos até em perdoar o fato de que ele é ator. Qual a surpresa deles em descobrir que Charles é negro, veio da Costa de Marfim e tem um pai cheio de ressentimento com brancos e a colonização da África.

O filme, que celebra uma França cada vez mais multicultural e faz piada com a ideia de que todo mundo, independentemente da etnia, guarda preconceitos, também teve ótimos resultados em outros mercados europeus onde já foi lançado como Grécia e Bélgica. Na Alemanha e na Áustria, o filme ultrapassou os 39 milhões de dólares arrecadados e é um dos maiores sucessos do ano e, a julgar pelo ótimo recebimento em Portugal, o filme tem grande potencial na Espanha, onde estreia em dezembro, e na Itália.

Mas enquanto Qu’est-ce…, cujo título internacional é Serial (Bad) Weddings, tem obtido bons resultados em diversos mercados (seu lucro global até o momento, 149 milhões de dólares, é mais do que 10 vezes o custo de produção, que foi de apenas 13mi), ele tem encontrado enorme dificuldade para arranjar distribuidores no Reino Unido e nos EUA, mercados onde filmes franceses com respaldo tão gigantesco não costumam ter dificuldades em serem lançados. Em entrevista ao Le Point, a diretora de vendas internacionais da TF1, Sabine Chemaly, explica o porque da dificuldade: “eles têm um approach cultural bastante diferente do nosso. Eles consideram o filme muito politicamente incorreto e eles nunca se permitiram rir  de negros, judeus e asiáticos. É claro que o sucesso do filme os empolga mas eles sabem que ele seria instantaneamente fonte de enorme polêmica”.

“A fonte de comédia é diferente nesses países. Eles vivem com as diferenças, mas não sabem rir delas. Mesmo com a distância cômica, caricaturas não são consideradas aceitáveis”. E olha, posso dizer? Os EUA e o Reino Unido estão cobertos de razão. Ainda não vi o filme e posso morder minha língua mas existe uma linha tênue entre rir de estereótipos e reforça-los e, a julgar pelo trailer e pelo que ouvi, o filme se adequa mais a segunda categoria. A mídia britânica e americana estão longe de ser perfeitas mas a percepção do que é aceitável e não é por lá é bastante mais acentuada do que na França e outros países europeus.

A intenção do filme com certeza não é cruel e acho ótimo e importante a celebração do multiculturalismo francês mas acho que a ideia de que “todo mundo é um pouquinho racista” (sim, eu sei que isso é uma música do Avenue Q) e a celebração disso através do humor é algo bastante repugnante, com mais danos do que benefícios. Não, não vejo absolutamente nada de endearing numa senhora que chora, mesmo que comicamente, com a ideia de que seu neto será miscigenado.

Tudo bem que eu não vi o filme (apesar de que, admito, não fiquei com muita vontade depois de ver o trailer. Não me pareceu engraçado) e, depois que tiver a oportunidade de assisti-lo, posso mudar de ideia. Mas acho bem difícil. De qualquer maneira, uma sequência já está sendo planejada, com lançamento previsto para 2016. Estou na torcida que, até lá, as visões do que é aceitável na França mudem um pouco e o filme acabe sendo de mais bom gosto.

Coreia do Sul: um antídoto nacionalista para um país em luto

Assim como na França, a Coreia do Sul tem diversas leis para proteger o cinema nacional e garantir espaço para filmes locais nas salas de exibição. Graças a isso, o mercado é bastante saudável e o top 10 anual sempre está cheio de filmes locais. Contudo, um fenômeno do tamanho do filme épico Myengryang: Roaring Currents, lançado no final de julho, é algo inédito na história do país. O filme vendeu 18 milhões de ingressos (num país com uma população de 50 milhões) e foi o primeiro longa doméstico a ultrapassar a barreira de 100 milhões de dólares arrecadados (131.5 milhões).

Lançado pela gigantesca CJ Entertainment com uma enorme campanha de marketing, o filme estreou em mais da metade de todas as salas de cinema do país. O longa, uma super produção com impressionantes sequências de ação, conta a história de uma batalha naval no século 16 onde, contra todos os prognósticos, uma frota pequena da Coreia, sob o comando do almirante Yu Sun-sin, conseguiu derrotar a muito mais numerosa e poderosa frota dos históricos rivais do país, os japoneses.

A vitória é, até hoje, considerado um dos maiores triunfos da Coreia do Sul, uma nação que se orgulha de ter ascendido da pobreza pós-guerra para se transformar numa grande potência mundial e que, em abril de 2014, sofreu um enorme trauma nacional quando o ferry Sewol naufragou num acidente causado por enormes negligências, matando 304 pessoas, a maior parte deles alunos e professores de uma escola em Seoul. O diretor da escola, resgatado durante o acidente, cometeu suicido algumas semanas depois e grande parte dos coreanos, inclusive os pais das vítimas, acreditam que a justiça ainda não foi feita, com muitos dos responsáveis pelo acidente ainda livres e muitos corpos ainda não encontrados.

O filme, nacionalista e uplifting, que reproduz de maneira impressionante um dos maiores contos de vitória da história do país, serviu para reviver um pouco os ânimos de um país em luto.