Causando em 2017: o ano foi deles

Ainda falta para encerrar o ano mas os sete primeiros meses já nos dão um retrato bem completo de vários dos principais acontecimentos pop de 2017. É isso que vamos analisar através dos próximos três posts.

Na primeira parte, o tópico são os artistas e músicas que indiscutivelmente dominaram o mundo ao longo do ano.

Um fato sobre 2017:  nada nem ninguém no cenário musical chegou perto do sucesso obtido por dois artistas e duas músicas.

O maior nome de todos foi, sem duvida nenhuma, Ed Sheeran. O britânico com seu pop água com açúcar é um fenômeno sem igual em absolutamente todos os fronts, quebrando recorde de vendas em todo o mundo; vendendo milhões de ingressos para sua turnê e obtendo o maior sucesso do ano (Shape of You), que ficou no topo por meses e meses a fio.

Sheeran, porém, esta correndo um risco: a super-exposição. A sua compatriota Adele — literalmente a única artista capaz de superá-lo em vendas mundo afora — deu uma aula de como não se desgatar, fazendo pouquíssimas aparições na mídia ao longo da promoção dos seus últimos dois álbuns.

Sheeran, em contrapartida, passou os primeiros meses do ano dando as caras em absolutamente todos os eventos e programas de TV da Europa, dos EUA e da Austrália. Ele não precisa disso: a essa altura, já está claro que ele é capaz de vender muito mesmo fazendo nada. Faz poucas semanas, sua aparição na estréia de temporada de outro colosso da cultura pop, “Game of Thrones”, foi muitíssimo mal recebida e expôs os possíveis perigos de sua onipresença.

Isso, claro, é um potencial problema a longo prazo. Por enquanto, tudo está perfeito no universo do ruivo. Sua turnê caminha a longos passos para se transformar numa das mais bem sucedidas de todos os tempos, com as datas em estádios na Europa e na Oceânia em 2018 já completamente esgotadas. Em vários países, como na Irlanda e na Austrália, ele quebrou recordes históricos de vendas de ingresso.

“Shape of You” dominou os primeiros três meses do ano, antes de ser substituída no topo pela inescapável “Despacito”. A música de Luis Fonsi e Daddy Yankee era um fenômeno sem igual na América Latina desde janeiro e estava escalando as paradas européias antes de virar um instantâneo número 1 global com o lançamento do remix com Justin Bieber no fim de abril. A música se transformou recentemente na música mais streamed da história e deverá desbancar “See You Again” como o vídeo mais visto do YouTube. A música de Wiz Khalifa e Charlie Puth demorou mais de 2 anos para alcançar 3 bilhões de views, algo que o reggaeton deverá fazer em oito meses.

E falando em Bieber, é ele que é o outro grande nome do ano. O canadense — que atingiu outro patamar em sua carreira com a ótima aceitação do seu último álbum, “Purpose” — tem emplacado um sucesso atrás do outro desde 2015 e teve seu toque de Midas confirmado em 2017, quando todas as suas colaborações atingiram o topo quase de imediato, começando por “I’m the One” com DJ Khaled, Lil Wayne, Chance the Rapper e Quavo e seguido pela inescapável “Despacito”. Desde que ele lançou seu último CD — com três smash number 1 hits, “What Do You Mean?”, “Sorry” e “Love Yourself” — Bieber já lançou cinco colaborações com nomes como Major Lazer (“Cold Water”), DJ Snake (“Let Me Love You”) e David Guetta (“2U”), todas super bem recebidas.

Além disso, foram 150 shows completamente esgotados em seis continentes com lucros recordes ao longo 16 meses. Bieber não aguentou o tranco e cancelou os 14 shows finais. Considerei algo mais do que compreensível porque não só a turnê estava longuíssima como o cantor parecia estar de saco cheio dela desde o primeiríssimo show, em março do ano passado.

Tirando a falta de entusiasmo nos shows e um ou outro piti, Justin conseguiu se manter longe das polêmicas durante a maior parte da era, o que já é uma vitória. O estado mental do cantor — que tem sido fotografado sempre todo oleoso, ao lado do pastor da igreja bizarra que frequenta — não parece ser dos melhores mas, then again, obter esse nível de sucesso tão jovem é uma garantia de problemas psicológicos. Enquanto ele continuar lançando músicas boas, o público vai continuar sem se importar.

O rap e o hip-hop sempre foram os gêneros mais populares entre o público jovem dos EUA mas o avanço do streaming no país — hoje responsável por mais da metade do consumo legal de música por lá — colocou os gêneros urbanos em outro patamar.

No meio da dominação, um trio se destacou: Migos. A música deles, “Bad and Boujee”, foi um number one hit giga na Terra do Tio Sam e eles obtiveram sucesso com outras várias músicas como “T-Shirt” e “Slippery”.

Quavo, é o líder do grupo, estando para o Migos como Beyoncé estava para o Destiny’s Child. Kelly e Michelle são, respectivamente, Offset e Takeoff. Os três são amigos de infância, nascidos e criados no estado sulista da Georgia.

Quavo, sozinho ou junto com seus dois companheiros, foi o featured artist mais popular de 2017, recrutado por absolutamente todos os artistas que queriam surfar na onda urbana que tomou conta dos EUA.

Ao notar que seu som pop estava outdated, Katy Perry pediu ajuda para os Migos e os colocou em “Bon Appetit”. Eles também apareceram, ao lado de Frank Ocean, em “Slide” do DJ escocês Calvin Harris e em um single do jamaicano Sean Paul. A música de estréia do ex-One Direction Liam Payne, “Strip That Down”, conta com a participação de Quavo que também está no novo CD da cantora indie pop Halsey e da popstar aposta do momento Camila Cabello. Ele ainda teve sucessos consideráveis ao lado de Drake (“Portland); Bieber e Khaled (“I’m the One”) e Post Malone (“Congratulation”).

Enfim, se teve alguém que trabalhou duro ao longo dos primeiros 8 meses do ano esse alguém foi Quavalicious Marshall.

What’s next?

Para a indústria musical, o ano é dividido em quatro trimestres. O mais importante deles — com as vendas mais altas — começa em outubro e é conhecido como Q4. Álbuns previstos para esse período incluem retornos de Taylor Swift, Eminem, P!nk, Sam Smith, Miley Cyrus, Demi Lovato, Shania Twain, Celine Dion, U2, dentre outros.

Nos próximos meses também teremos a confirmação de quem será o ato que vai se apresentar no Super Bowl em fevereiro do ano que vem. Minha aposta é em P!nk, que faria uma espetacular apresentação cheia de malabarismo mas também não me surpreenderia se fosse Justin Timberlake, que tem álbum previsto para ser lançado entre o fim desse ano e o começo do próximo. Por mais que Swift fosse uma escolha lógica dado o seu calibre, ela é bastante improvável pelo seu contrato publicitário com a Coca Cola. O Halftime Show é patrocinado pela Pepsi.

Seja como for, vamos ficar ligados.

Anitta e o sucesso internacional

Um dos assuntos relacionados a cultura pop que mais tem bombado ultimamente nas redes sociais é a viabilidade da carreira internacional de Anitta. A cantora sensação acaba de aparecer em uma música da popstar internacional Iggy Azalea — que foi bastante bem recebida pelo público brasileiro — e todo mundo quer saber se isso é o começo de um promissor futuro de sucesso no mundo todo. Mas será que é?

Antes do mundo, o Brasil

Se tem um país que ama desproporcionalmente divas pop, esse país é o Brasil. É verdade que em termos de lucro, o nosso país está bem atrás dos EUA e da Europa mas quando o assunto é tietagem, NINGUÉM bate nossa pátria. No YouTube, uma porcentagem altíssima de views dos clipes das Katy e Britney da vida vem do Brasil; nas redes sociais, o “COME TO BRAZIL” já virou um meme e, no Spotify, nenhum país dá tanta bola para as novidades dessas cantoras quanto o nosso.

Os últimos dias, particularmente saturados de lançamentos pop, ilustram isso bem: na parada diária do Spotify brasileiro, a estreia solo de Camila Cabello, Crying in the Club, debutou na posição #4; Selena Gomez, com Bad Liar, começou em #6 e Swish Swish de Katy Perry chegou em #7. Compare com as estreias das mesmas músicas nos EUA, o mercado natal de todas elas: #57; #12; #54. No Reino Unido, o principal mercado internacional: #64; #47; #47.

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Anitta conquistou o Brasil de imediato com o “Show das Poderosas”

Está claro que nós temos um apetite insaciável por popstars e, claro, nós precisávamos urgentemente da nossa própria representante do gênero. E nós arranjamos: Anitta. Carismática, divertida, talentosa, ambiciosa e com músicas animadas e com letras de empoderamento e curtição, ela é uma força que, sozinha, faz frente a febre sertaneja e a invasão do funk paulistano.

Nascida Larissa e criada no subúrbio carioca, Anitta começou no Furacão 2000 mas explodiu mesmo ao ser rebatizada com seu nome artístico e lançar o Show das Poderosas. Eu moro no Rio e lembro do frenesi imediato que foi essa música. Na época achei que ela não ia conseguir superar um sucesso tão icônico e que deu tão certo. Mas ledo engano: ela gravou sucesso atrás de sucesso e virou uma espécie de Midas, transformando em sucesso tudo que ela tocava — seja colaboração com o reggaetonero J Balvin; com a dupla sertaneja Simone e Simara ou com Nego do Borel.

Mas, depois de conquistar o Brasil, a ambiciosa Anitta quer mais e não tem escondido de ninguém seu desejo de conquistar o resto do mundo e, essa semana, a fandom pop do Brasil vibrou com o lançamento de Switch, que dá o primeiro gostinho da versão “pop americano” da nossa musa nacional. Muitos consideram que gravar com Iggy é uma grande honra e pode abrir muitas portas para Anitta.

Eu não sou uma dessas pessoas. Sinto jogar um balde de água fria em quem acha que a rapper australiana representa uma entrada em grande porte no mercado internacional. Até porque, dentre as duas, só uma delas é realmente bem sucedida. E não, essa pessoa não é a gringa.

O fracasso de Iggy Azalea

O Brasil tem um certo complexo de vira-lata em que nós achamos que o internacional é sempre superior. Ver a nossa representante do pop nacional contribuir com uma artista loira, que canta em inglês e que já obteve sucesso internacional é, automaticamente, um upgrade. Mas gente, vamos ser realistas: não é Iggy que está ajudando Anitta, muito pelo contrário.

Vamos fazer um breve repasse pela carreira da rapper:

Nascida em Sidney, Amethyst Amelia Kelly cresceu apaixonada por hip-hop e, em 2006, aos 16 anos, imigrou para os EUA onde começou a perseguir seu sonho de se tornar uma rapper e adotou o pseudônimo com o qual ficou conhecida. Uma garota branca, australiana, cantando rap americano não é exatamente a mistura mais convencional mas essa peculiaridade ajudou a abrir portas e, em 2011, ela lançou seu próprio mixtape que fez com que ela começasse a ganhar buzz na internet.

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Iggy Azalea

Ela foi alçada a outro patamar quando, em 2012, o muitíssimo bem-sucedido rapper T.I. virou seu conselheiro. Rapidamente, ela começou a chamar atenção das gravadoras e de empresários; ganhou apoio da influente Radio 1 britânica; lançou mais um EP produzido pelo aclamado produtor Diplo; excursionou na Europa e fez shows de abertura para NAS no Reino Unido e Beyoncé na sua Austrália natal.

Depois de assinar com a Island Def Jam, a rapper obteve algum sucesso no Reino Unido com os primeiros singles e bastante buzz virtual mas explodiu de verdade quando, no começo de 2014, Fancy virou um sucesso inescapável no mundo, atingindo o topo do Billboard Hot 100 nos EUA.

Obviamente, o sucesso da pegajosa canção fez os olhos da indústria brilharem, acreditando que Iggy tinha todo o potencial para ser a nova sensação. Ela foi inclusa num single badalado de Ariana Grande; lançou música super sensual com Jennifer Lopez; fez colaboração com Britney Spears e apareceu em todos os award shows, programas de TV e radio concerts possíveis e imagináveis.

Mas, enquanto a indústria estava do lado dela, o público não estava. Mesmo com o sucesso gigantesco de Fancy; a promoção pesada do seu single seguinte, Black Widow e as muitas colaborações com artistas famosas (algumas bastante apelativas, como Bootie com a J.Lo, designada para quebrar o Youtube), o álbum dela, The New Classic, penou para vender. Apesar de um relançamento, o CD teve dificuldade em alcançar Disco de Ouro em sua Austrália natal (40k) e não chegou nem perto dessa certificação no Reino Unido. Nos EUA, o resultado foi um pouquinho melhor: demorou mas ela conseguiu chegar a 500 mil unidades e, com streaming incluso, obteve um Disco de Platina.

Impulsionada pelo sucesso de Fancy, a canção seguinte de Iggy, Black Widow, atingiu o terceiro lugar no Hot 100 e quarto no Reino Unido. Depois disso, nenhuma outra música dela conseguiu penetrar o top 20, apesar da promoção forte e das colaborações com artistas badalados. A equipe dela, que foi iludida pelo próprio hype, anunciou uma turnê por arenas na América do Norte — com 24 datas em locais enormes como o Barclay Center no Brooklyn; AmericanAirlines Arena em Miami e o Staples Center em L.A. — e teve que passar pelo constrangimento de cancelar tudo quando pouquíssimas pessoas se interessaram por ingressos.

Azalea ainda levantou discussões sobre apropriação cultural por se aproveitar da música afro-americana — inclusive adotando um blaccent, o sotaque associado a população negra americana — ao mesmo tempo que não mostrava muito respeito pela comunidade. Letras em que ela se chamava de “mestre escravocrata” e se descrevia como uma “garota branca com bunda de favelada” despertou bastante ira assim como vários tweets antigos onde ela fazia comentários misóginos e racistas acerca de latinos, asiáticos; negros e chamava mulheres que vestiam roupas curtas de “putas”.

Rapidamente, ela perdeu o pouco apoio que ela tinha na comunidade hip-hop; o post compilando seus tweets racistas foi dividido 146 mil vezes no Tumblr e a imprensa e as redes sociais começaram a se virar contra ela. Mesmo assim, ela se recusou a se desculpar e, quando outro rapper branco, Macklemore, fez uma música sobre privilégio branco, na qual ele citava ele mesmo e Iggy, a resposta dela foi ficar ofendida por ter sido mencionada.

Apesar de alguns sucessos — namely, o número 1 obtido por Fancy — a estreia de Iggy teve grande hype e apoio financeiro mas pouquíssimo apoio do público. Sendo assim, era necessário muita ingenuidade para achar que o “grande comeback” dela ia ter qualquer tipo de respaldo.

Team, a volta de Azalea depois de 1 ano, não conseguiu alcançar o top 40 nem dos EUA, nem do Reino Unido. A canção seguinte, Mo’ Bounce, atingiu #53 no UK mas não conseguiu sequer penetrar o Hot 100.

O sucesso de Anitta

Em contrapartida a decadência de Iggy, a carreira de Anitta no Brasil foi um sucesso atrás do outro desde que ela estourou com Show das Poderosas no começo de 2013. Apesar de sua fama local, os números dela frequentemente superam o da “rapper internacional”. Por exemplo, Team de Iggy Azalea acumulou 98.3 milhões de views no YouTube ao longo de um ano enquanto o último lançamento de Anitta, Loka, a colaboração dela com a dupla Simone e Simara, tem 302 milhões de visualizações em 4 meses. Sim ou Não, o último single oficial da carioca, se aproxima da casa de 200 milhões.

No Instagram, Anitta tem 20 milhões de seguidores, o dobro do número de Iggy. No Facebook, a brasileira também quase duplica os números da estrela gringa: 13.5 milhões de curtidas versus 7.5 mi.

Dado o track record de ambas, é possível concluir duas coisas: Iggy Azalea, que já foi quase que completamente esquecida no mercado internacional, não tem nenhuma capacidade de dar a Anitta um hit global. Já a brasileira pode sim quebrar o track record de fracassos internacionais de Iggy podendo facilmente garantir a ela um sucesso no Brasil.

E, né? Prova disso é o resultado de Switch no Spotify. Aqui, a música já estreou no segundo lugar. Em Portugal, provavelmente impulsionada pela brasileira, o single chegou a #38 e, no país vizinho, Espanha, em #85. Nos demais países europeus, EUA, Canadá e Austrália? Switch não foi capaz de figurar nem sequer no top 200.

Switch é a junção de um nome desprestigiado e com cada vez menos clout no mercado com uma artista que, por mais que não tenha o name recognition internacional, é excepcionalmente bem-sucedida. Se tem alguém que deve estar ~honrada~ pela possibilidade de colaborar com uma estrela, esse alguém é Iggy.

Caminhos melhores

Pelos motivos listados acima, não acho que colaborar com Iggy seja uma entrada no mercado internacional pela ~porta principal~. Inclusive, dado a total irrelevância da cantora ultimamente, talvez não seja nem pela porta dos fundos.

Claro que a colaboração tem sim seu valor — os brasileiros fãs de pop amaram a canção; os poucos sites especializados internacionais que deram atenção ao lançamento também o elogiaram e ademais é interessante ver Anitta, um ícone nacional, numa produção em inglês. Mas, por outro lado, para olhos mais observadores, a colaboração parece um pouco desesperada. “Se dê mais valor, Anitta”, é o que eu pensei quando soube do dueto.

A própria Iggy parece ter sido abandonada pelos nomes mais profissionais de sua equipe dado o rollout cagado da música, com alguns missteps que, sinceramente, não são normais para um artista sério.

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Maluma e Anitta: a primeira colaboração internacional da brasileira

Para começar, a própria dispensou o lançamento de um lyric video por motivos que não fazem nenhum sentido (“resolvi que vou usar como backdrop no telão durante meus shows”. 1. Porque isso impede de coloca-lo no YT? 2. Que shows, lindinha?). Isso é uma decisão estúpida pois o site de compartilhamento de vídeo  é um dos maiores veículos de promoção no mundo (e no Brasil em particular) e, dado a força que os brasileiros tem para impulsionar vídeos, o filme com as letras acumularia muito mais views que os lançamentos recentes de Azalea, ajudando talvez a criar uma ilusão de que a decadência dela estava perdendo força.

Mas tudo bem, isso não necessariamente é um big deal porque o que importa mesmo é o vídeo oficial. Só que aí, o clipe — sabe-se lá como — vazou na internet e, óbvio, não demorou muito para ele se espalhar pela sempre histérica websfera brasileira. Resultado? Azalea dizendo que talvez vá cancelar o lançamento oficial do clipe. Cuma? Assim fica difícil te ajudar.

Mas enfim, o fato é que existem caminhos muito mais dignos para o sucesso internacional. E a própria Anitta já transitou por eles.

Um exemplo é a colaboração com Maluma, Sim ou Não. Diferente de Azalea, e similarmente a Anitta, Maluma é um dos artistas mais badalados do momento e provavelmente um dos maiores — se não o maior — no mercado latino. Com alcance em absolutamente toda a América Latina; na Espanha e também com o numeroso público latino dos EUA, o reggaetonero é, de fato, um aliado importante na busca pelo sucesso mundo afora e um fenômeno de seguidores nas redes sociais, com bilhões de views no YouTube.

É preciso muito networking e muito poder para conseguir colaborar com um artista de primeiro escalão global. Um feat de Justin Bieber, por exemplo, a colocaria no top 10 de todo o universo mas, vamos combinar, isso é semi impossível. Uma opção um pouco mais realista são DJs/produtores. Anitta, que não é boba nem nada, já está correndo atrás disso e deverá aparecer em uma colaboração com o Major Lazer que também deverá contar com Pablo Vittar. Aqui no Brasil mesmo tem Alok, que provavelmente é o artista local com maior alcance internacional no momento e cujo single, Hear Me Now, obteve mais repercussão global que qualquer música recente de Iggy.

Anitta é bastante fã do rap e do hip-hop americano e foi fotografada com Tyga recentemente. Minha opinião sobre ele é a mesma que tenho sobre Iggy: NÃO. Além de muitos fracassos recentes, ele também tem uma péssima imagem. Mas isso não quer dizer que a artista não deva network no mundo urban mas, claro, sempre tomando cuidado para não oversstep the boundaries e virar caricatura (como foi o caso de Iggy).

Outro gênero com o qual ela flerta muito é o reggaeton. Vários dos seus sucessos recentes tem influência do estilo, como Loka com Simone e Simara e o exemplo mais óbvio, Sim ou Não, com o maior fenômeno do gênero, Maluma. Tem também o remix com a participação dela do hit pan-hispânico Ginza de J Balvin, que fez com que a música entrasse em alta rotação no Brasil.

No momento, como já decorri sobre, não existe estilo mais onipresente e poderoso na Espanha e na América Latina de modo que o reggaeton certo pode quebrar fronteiras para ela. Dito isso, não tem como negar que nenhuma mulher obteve grande sucesso dentro do estilo e — apesar de ter gerado grandes divas pop como Thalia e Paulina Rubio no fim dos anos 90/começo dos 2000 — o mercado hispânico tem rechaçado música feminina (a não ser, claro, que seu nome seja Shakira). Mas bom, tá mais do que na hora disso mudar, né? Quem sabe Anitta não dê uma ajudinha nisso.

Anitta poderá ser um sucesso internacional?

Não tenho bola de cristal mas a resposta para a questão acima é, muito provavelmente, não.

Anitta tem talento, ambição e star quality. Mas ela é um fenômeno no Brasil porque seu estilo e sua personalidade ressoam enormemente com o público nacional. Essa mágica quase que invariavelmente é lost in translation. Mesmo nomes anglo-saxões, como Little Mix e Jess Glynne, não são capazes de traduzir os fatores que fazem delas grandes no mercado natal para o palco global.

Dá para contar nas mãos os artistas não americanos que obtiveram sucesso global duradouro nos últimos anos. Um dos poucos foi Shakira que tinha um estilo e uma voz muitíssimo peculiares, capazes de quebrar qualquer barreira, o que já havia sido provado mesmo antes do seus sucessos em inglês, quando ela virou um fenômeno no Brasil, um mercado historicamente difícil para artistas de língua hispânica.

O fato do sucesso não ser muito provável não significa que ela não deva ter essa ambição e correr atrás dos seus sonhos. “Sucesso internacional” é algo muito subjetivo e artistas brasileiros — como Michel Teló; a lambada do Kaoma e Xuxa — já conseguiram, mesmo que por poucos instantes, hipnotizar todo o planeta. Sendo assim, porque não tentar?

Como já disse, star quality e sede de sucesso ela tem. E, na pior das hipóteses, caso suas international collaborations não cheguem no resto do mundo, o sucesso delas no Brasil está mais do que assegurado. Por mérito próprio, a cantora é, em terras tupiniquim, sinônimo de um bom pop de bater cabelo, seja ele em inglês, em português, em espanhol ou em mandarim.

Seja como for, Anitta é um alívio para os (muitos) fãs de pop do Brasil. Ela é uma das poucas estrelas que não é precisa implorar para COME TO BRAZIL!!!. Afinal de contas, ela já é nossa.

A encruzilhada de Katy Perry

O comecinho do ano de 2017 foi marcado pelo retorno de duas das maiores estrelas recentes da indústria fonográfica: Katy Perry e Ed Sheeran. Enquanto o comeback de Sheeran foi de vento em popa, o consolidando como o maior artista do mundo no momento, a trajetória de Perry foi mais complicada. Mas isso significa que ela está fracassando? Bom, vamos começar pelo começo..

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To the top

Katy Hudson, como era originalmente conhecida, começou como cantora gospel antes de adotar Perry, o sobrenome de solteira da mãe, e fazer a transição para o pop secular. Com seu jeito kitshy with an edge, ela surgiu na cena em 2008 — começando no Wraped Tour, um festival que era reduto dos teen cool e roqueirinhos da época — e rapidamente obteve dois gigantescos hits, o provocativo I Kissed a Girl e a divertida Hot ‘n’ Cold. As duas músicas serviram como blueprint para toda a carreira futura de Katy: letras irreverentes e produções chiclete e pure pop feito pelo duo extraordinário Max Martin/Dr. Luke que se consolidaram como os maiores produtores daquele período.

O segundo álbum — um desafio para qualquer artista — serviu para confirmar KP como uma das maiores artistas do mundo. Com “Teenage Dream”, ela emplacou nada menos do que 5 hits gigantescos — todos alcançando o primeiro lugar nos EUA consecutivamente, um feito até então só conquistado por Michael Jackson.

Ambiciosa, Perry não poupou esforços para conseguir seu lugar no A-list da música, promovendo seu CD exaustivamente em todos os principais mercados e levando sua turnê para 5 continentes, com 127 apresentações no total. O período de promoção do álbum, que começou em maio de 2010, englobou um casamento, um divórcio, um relançamento (que deu origem a mais um número 1 nos EUA, a música Part of Me) e um filme documentário em 3D, e só terminou no outono americano de 2012.

O CD seguinte, “Prism”, tinha a missão de confirmar que Katy estava aqui para o long run. Era um projeto tão importante que Dr. Luke — que tinha assinado um contrato de exclusividade com a Sony — conseguiu ser liberado para poder produzir o álbum junto à Max Martin apesar de ser um lançamento da concorrente, Universal.

Repetir o resultado de “Teenage Dream” era quase impossível mas, apesar de não ter alcançado o nível do antecessor, o terceiro CD cumpriu sua função, produzindo mais dois hits gigantescos e inescapáveis para Perry (Roar e Dark Horse), servindo de mote para a turnê mais bem sucedida e lucrativa da cantora e concluindo com algo reservado para pouquíssimos artistas: uma apresentação no evento mais importante dos EUA, o Super Bowl, assistido por mais de metade da população.

Assim como no CD anterior, o período de atividade foi bem longo, começando no último quadrimestre de 2013 e finalizando apenas em outubro de 2015. Mas, diferente do antecessor, todos os dois número 1 de “Prism” aconteceram logo no começo do período de promoção. A era, por tanto, não foi sustentada por canções gigantescas — os subsequentes singles tiveram resultados pífios — mas sim pela tour de sucesso.

O presente

O primeiro sinal de que talvez as coisas não estivessem indo tão bem na terra de Katy foi o lançamento do buzz single Rise em julho de 2016. A música, que foi usada como tema para a transmissão das Olimpíadas nos EUA, o evento televisivo mais assistido do verão, ficou bem aquém as expectativas e passou despercebida.

O fato da música ter sido disponibilizada com exclusividade no Apple Music por uma semana foi apontado como o principal motivo para o desempenho fraco. A promoção intensa recebida no iTunes e no serviço de streaming da gigante da tecnologia não foi o suficiente para compensar o fato da canção ter sido completamente esnobada pelo Spotify que, em vingança por receber o lançamento atrasado, não a incluiu em nenhuma playlist importante e também não deu destaque a ela entre os lançamentos.

Posteriormente, a Universal Music proibiria seus contratados de fazerem lançamentos exclusivos, argumentando que esses beneficiavam mais os serviços de streaming do que os próprios artistas. A canção de Perry não foi a gota d’água para essa decisão, e sim a manobra utilizada por Frank Ocean para finalizar seu contrato com a gravadora e lançar um álbum pelo Apple Music, mas com certeza contribiu para a decisão.

Em todo o caso, era só um buzz single. Quando finalmente chegou o momento de estrear o de facto primeiro single do seu álbum, em fevereiro de 2017, a lição tinha sido aprendida a perfeição.

Chained to the Rhythm, a primeira música do KP4, lançada no dia 10 de fevereiro, foi produzido pelo Midas do pop — e frequente colaborador de Katy — Max Martin junto com a própria cantora e a australiana Sia, outro nome badaladíssimo.

Para não cometer o mesmo erro, a Capitol acertou tudo com o Spotify, que promoveu o lançamento com um banner em sua página inicial e colocou a canção em todas as suas principais playlist. O entrosamento entre o serviço de streaming e Katy foi tanto que o Spotify colocou outdoors promovendo a música em grandes metrópoles dos EUA e do Canadá, mandou  um e-mail comunicando a estreia para seus usuários e o CEO/fundador, Daniel Ek, até parabenizou Katy pela nova era no Twitter.

Além do Spotify, rádio — outro elemento importante — também estava pronta para dar o máximo apoio ao retorno de uma das principais cantoras pop do mundo. A canção ganhou estreia prioritária em todas as estações do conglomerado iHeart Radio, o maior dos EUA, que reproduziu a música pelo menos uma vez por hora em absolutamente todas as estações top 40 nas primeiras 24 horas.

E, para coroar a estreia, Katy ainda fez a primeira apresentação televisionada da música no maior evento musical de todos, o Grammy que, em 2017, obteve altíssima audiência.

Ou seja, um rollout mais estrategicamente perfeito que esse impossível. E, apesar de tudo isso, a primeira semana da canção teve um desempenho abaixo das expectativas.

No iTunes, a canção não alcançou o primeiro lugar, empacando em terceiro — algo extremamente preocupante já que até fracassos como Perfect Illusion de Lady Gaga e o próprio Rise de Perry atingiram o topo por algumas horinhas. No Spotify, apesar da promoção intensa, a música estreou em sétimo na parada global e oitavo nos EUA no primeiro dia antes de começar a despencar bem rapidamente.

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Spotify se empenha na promoção do single com um outdoor em Los Angeles

Foi uma diferença bem gritante do sucesso imediato de todos os anteriores lead singles dela que nunca tiveram nenhum problema em atingir o topo.

No resto do mundo, o resultado também não foi muito melhor. A canção não liderou a parada em nenhum dos mercados principais de Katy, como o Reino Unido ou, mais preocupante, a Austrália.

O país Oceânico tinha se rendido totalmente a artista, fruto do esforço de Katy que, com o CD anterior, deu especial atenção ao país. Em sua última turnê, Prismatic World Tour, Katy fez nada menos do que 23 apresentações na Austrália.

Como resultado disso, o terceiro CD dela, “Prism”, alcançou a espetacular marca de 5x Platina no país, superando até mesmo as vendas de “Teenage Dream”. Até a música Rise — fracasso em todo o mundo — atingiu o topo da parada de singles australiana em 2016. Chained to the Rhythm, em contrapartida, teve que se contentar com o quarto lugar, uma marca bem decepcionante.

Mas o que deu errado?

Dizer que Chained to the Rhythm foi um fracasso é uma afirmação injusta. Fracasso é, por exemplo, Perfect Illusion, o lead single do último álbum de Lady Gaga. Mas dado o que se esperava da música — atingir o topo em todo o mundo, como é costume para Katy — não tem como negar que o desempenho foi frustrante.

Nos EUA, assim como na Austrália, a situação foi particularmente desanimadora. A canção estreou em quarto no Billboard Hot 100 — fruto da boa recepção na rádio e de ter aguentado dentro do top 10 do Spotify pela maior parte da semana — mas rapidamente começou a despencar, não chegando nem perto de atingir o topo. Na Europa, apesar de picos mais baixos, a música teve mais fôlego — no Reino Unido, por exemplo, ela foi ajudada por uma apresentação no BRIT Awards — mas mesmo assim ficou aquém das expectativas. Mas, afinal, o que deu errado?

Chained to the Rhythm tinha como objetivo ser uma canção woke, uma música de protesto, que abordava a situação política dos EUA. As duas primeiras apresentações da música — no Grammy e no BRIT Awards — foram cheias de simbolismos políticos, assim como o vídeo clipe da canção. Perry, que foi um dos principais cabos eleitorais de Hillary Clinton, queria, com essa nova era, homenagear a candidata e se posicionar como uma figura que não é só uma cantora de bubblegum pop mas é também uma cidadã consciente. E para atingir esse objetivo ela foi zero sutil. A biografia dela no Twitter, por exemplo, é Artista. Ativista, Consciente.

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Perry é promovida pelo Spotify em Toronto

E ai está um dos problemas: essa escolha por ser política tinha tudo para sair pela culatra. Primeiro que, diferente de Barack Obama, Hillary Clinton não é uma figura querida ou popular e ser tão fortemente associada a ela pode alienar fãs de todos os espectros políticos, já que a candidata escolhida de Perry não é popular nem sequer entre os jovens esquerdistas, que escolheram em massa o oponente socialista dela, Bernie Sanders, nas primárias.

Apesar disso, Katy e sua equipe não estão poupando esforços para a legitimar como uma ativista consciente. Por exemplo, algumas semanas antes da estreia do single, Katy recebeu um prêmio humanitário numa cerimônia da Unicef na qual ela foi homenageada por ninguém menos que Clinton, em sua primeira aparição pública pós-derrota. Em março, Perry ganhou o National Equality Award no Human Rights Campaign.

A questão do milhão é: porque Katy merece um prêmio humanitário ou um prêmio LGBT? Fazer campanha para Hillary Clinton e cantar uma música chamada I Kissed A Girl (que, aliás, é bem homofóbica. E não vamos nem falar de Ur So Gay) não te transforma magicamente em uma pessoa consciente e, muito menos, em uma ativista social.

Ou seja, o ativismo de Perry não convenceu e o conceito da música, com toda essa estratégia de lançamento performativo ~querendo dizer alguma coisa~, soou bastante pedante para um público que, francamente, está bem saturado de política.

Mas enquanto o ativismo falho de Perry é um aspecto que contribuiu para esse início pífio, ele não é o fator principal. O principal elemento é, na verdade, algo ainda mais preocupante em termos do sucesso a longo prazo da cantora.

Ao contrário de Rihanna, por exemplo, que é bastante camaleônica e sabe transitar perfeitamente pelas tendências do momento, a imagem e o som de Katy são bastante engessados: música puramente pop chiclete, produzida por Max Martin (e por Dr. Luke, até o processo legal de Kesha acabar com sua carreira), com uma estética muito colorida e irreverente.

O problema é que, depois de muito tempo, esse estilo sônico Max Martin está perdendo espaço. Tendências, inclusive as musicais, são cíclicas e os EUA principalmente está retornando a um período mais urbano. Desde que streaming virou o método mais popular de consumo de música, o rap e o hip-hop — que sempre foram estilos enormemente populares no país — viraram reis totais e o pop pegajoso ficou, com algumas exceções, em segundo plano.

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Perry foi parte importante da campanha de Hillary Clinton

É verdade que Max Martin — que já teve um período de vacas magras na última invasão urbana entre 2001 e 2006 — segue forte e seu trademark sound ainda é capaz de ressoar no mundo todo, como provado pelo sucesso global de Can’t Stop This Feeling de Justin Timberlake mas, no geral, o som de Perry não está em seu melhor momento nos EUA.

E quanto ao resto do mundo? Afinal de contas, Chained to the Rhythm também teve uma recepção decepcionante no Reino Unido e na Austrália, dentre outros países. Será que, depois de três álbuns, a formula de Perry simplesmente cansou?

Existe salvação?

Como já disse, Chained to the Rhythm não foi um fracasso gigantesco. A música simplesmente teve um desempenho abaixo das expectativas. Então sim, Perry pode ser capaz de sair dessa.

De certa maneira, o desempenho da música lembra um pouco o lead single do último álbum de Bruno Mars, 24k Magic.

Bruno, assim como Katy, é um artista que tem facilidade histórica de atingir o topo das paradas e o fez várias vezes, inclusive com o lead single de seus dois primeiros álbuns. Ele também teve o maior sucesso de 2015, a inescapável Uptown Funk. Sendo assim, todo mundo esperava que a primeira música de seu terceiro álbum fosse, logo de cara, um gigantesco sucesso global.

Mas não foi o que aconteceu. Assim como a música de Perry, 24k Magic empacou em oitava no Spotify dos EUA e nunca alcançou o topo em nenhum dos mercados principais, sendo apenas um sucesso razoável enquanto todo mundo esperava um smash hit dado o track record impressionante de Mars ao longo dos últimos 5 anos.

Apesar disso, Bruno se recuperou bem e o segundo single do álbum, That’s What I Like, já é um sucesso muito maior do que a música anterior e deve alcançar o topo da parada do EUA em breve. Além disso, a turnê dele esgotou em minutos e o álbum segue um vendedor constante mundo afora. Ou seja, existe vida após um single de estreia decepcionante.

Seria Chained to the Rhythm um deslize ou um prenuncio de uma decadência brava na carreira de Katy Perry? Stay tuned.

How-to: Como ser a revelação musical fenômeno do ano no Reino Unido

Leia antes: A cena musical britânica e sua constante renovação

No post anterior, fiz um repasse detalhado das renovações da cena musical britânicas e das revelações que aparecem ano após ano. E agora, vim ensinar como você também pode seguir os passos de Adele e Ed Sheeran e se transformar no novo fenômeno de vendas do Reino Unido rssssss

Mas falando sério, ao longo de meus anos de observação, percebi que existe uma receita para que as grandes apostas das gravadoras atinjam o seu máximo potencial. Essa receita acaba sendo, na verdade, um ótimo insight da indústria britânica como um todo. Por isso, acho interessante dividir com vocês as várias etapas que ajudaram Sheeran, Sam Smith dentre vários outros a alcançar sucesso meteórico com seus primeiros álbuns.

  • Antes do público, conquiste a indústria: Isso foi essencial para absolutamente todos os ganhadores do Critics’ Choice, afinal de contas, nenhum deles teria ganho o prêmio se eles não tivessem executado esse passo à perfeição. Ser bem conectado dentro do biz é necessário para que tudo esteja alinhado a favor do artista no momento que este tiver a chance de lançar um álbum. Glynne, Jessie J e Emeli Sande conheceram os produtores por detrás de seus sucessos através de carreiras como compositoras. Florence, Bay e Smith também faziam parte do inner circle musical fazia tempo. Além disso, ter essas conexões é importante para conseguir reuniões, fazer shows privados para executivos tanto nos EUA quanto no Reino Unido, ter  early buzz nas principais rádios e na BBC e para, quem saber, ser convidado para ser vocalista convidado em algum hit em potencial, o que nos leva a outro ponto…
  • Hits pré-estreia aumentam seu valor no mercado: Ser vocalista convidado em canções de sucesso aumentam o interesse do público e garantem airplay do material solo do artista nas grandes rádios. Jess Glynne, Emeli Sandé e Sam Smith tiveram impulso enorme graças a participação deles em number one hits de outros artistas e produtores antes de suas estreias oficiais.
  • Tente cultivar uma fanbase antes da seu primeiro single oficial: Lance mixtapes, disponibilize seu trabalho na internet, consiga buzz através de shows pequenos, cante em festivais. Foi assim que Ed Sheeran conseguiu um top 5 hit de imediato quando finalmente teve chance de lançar “The A-Team” mas também funcionou muitíssimo bem para Lily Allen, James Bay, dentre vários outros. Outro bom meio para ganhar divulgação é o BBC Introducing, que destaca novos talentos e dá espaço para novatos tanto na Radio 1 quanto em palcos especiais em festivais de grande porte como Glastonbury, T in the Park, Leeds and Reading e o próprio evento da estação, Radio 1 Big Weekend. Foi através do Introducing que Bastille, George Ezra, Florence & the Machine e Jake Bugg foram apresentados ao público.
  • Tenha credibilidade (ou a ilusão de ter): Mesmo que você seja uma artista puramente pop comercial, como Jessie J, é sempre um bônus criar a ilusão de que você é um ~artista de verdade~ que acrescenta algo de novo a cena. Fazer a estréia no Jools Holland — um programa bastante popular entre music snobs e conhecido por destacar música boa e musicos autênticos — é um ótimo começo e foi a plataforma de lançamento de basicamente todas as revelações citadas nesse post. Ser incluso no line-up do Glastonbury e outros festivais mais “sérios” também é muito bom, assim como ter alguma cobertura na imprensa especializada. Outro ponto importante: ganhar destaque na Radio 1, a rádio da BBC que, apesar de ser comercial, também tem credibilidade. Seja hyped pelas personalidades da emissora e tente aparecer no Radio 1 Live Lounge — onde artistas cantam versões stripped down de seus hits e fazem covers de sucessos de terceiros — para mostrar sua versatilidade e dotes vocais.
  • Mas também seja comercial: A Radio 1 é um bom começo mas, para ter um hit, é essencial ter airplay nas rádios top 40 comerciais, sobretudo a Captial FM, a estação líder entre jovens. Para isso, claro, a música tem que estar de acordo com as tendências do momento. Televisão também é muito importante: é preciso ir em pelo menos um talk-show de destaque (Graham Norton na BBC1 é o mais cobiçado mas Jonathan Ross na ITV também é uma boa alternativa) e, para os que tem estomago, The X Factor segue sendo um prime spot de divulgação, mesmo em plena decadência. Cantar no evento anual de caridade da BBC — Children in Need ou Comic Relief — é ótimo mas ainda melhor é uma música sua escolhida como o “single oficial” do evento (como aconteceu com Sam Smith; James Bay; Ellie Goulding e Jess Glynne). Além de Glastonbury, não dá para dispensar festivais mais comerciais — como o V Festival — e eventos grandiosos organizados pela rádio. O Radio 1 Big Weekend é um must mas o Capital FM Summertime Ball ou o Capital FM Jingle Bell Ball também são um big deal, principalmente para os que tem uma sonoridade e imagem mais pop.
  • Para pais e filhos: Os jovens gostarem de você é muito importante mas, para vender muito, é bastante útil ter as mães e os pais e os tios e as tias do Reino Unido inclinados a comprar sua música, afinal são eles que mais compram CD. Aparecer na TV, claro, ajuda o artista a atingir esse público mas os singles têm que ser atuais o suficiente para estar na Capital FM mas também melódicos na medida certa para conseguir airplay nas rádios voltadas ao público acima dos 30, como Radio 2, Magic ou Heart. Ou seja, evite ter um guest rapper. E cuidado: exposição em rádios adultas é bom para vender CD mas, se você quiser manter a imagem de hip e cool, não se associe demais a esse público. Evite, por tanto, eventos “de velho”. Entrar na playlist da Radio 2 é bom mas deixe o Radio 2 Live in Hyde Park, o grandioso evento organizado pelo estação, para Elton John; Rod Stewart e Bryan Adams ou para artistas que os jovens já decidiram que não querem mais (tipo Leona Lewis). O lugar do artista cool é no Radio 1 Big Weekend.
  • Tenha ambições de conquistar a América: O artista precista ter ambição e a confiança de que conseguirá penetrar o mercado dos EUA. A verdade é que ele provavelmente não conseguirá, mesmo se tiver obtido grande sucesso no Reino Unido, mas todos os A&R de gravadoras e empresários só apostam em que eles acreditam que tem chance de conquistar a muitíssimo valiosa Terra do Tio Sam. Esteja disposto para ir no programa da Ellen, em programas matinais e late night talk shows e shows de rádio e e shows para executivos do outro lado do Atlântico. Conseguir um slot para cantar no Saturday Night Live já é meio caminho andado e você já pode se considerar vitorioso se conseguir um top 10 hit ou uma indicação a Best New Act no Grammy.
  • Timing é tudo: O álbum deve ser lançado bem próximo de um single bem pancada, que tenha probabilidade altíssima de virar hit e represente o som e a vibe do artista. Stay with Me de Sam Smith e Hold my Hand de Jess Glynne e Hold Back the River do James Bay e Next to Me de Emeli Sandé e Starry Eyed de Ellie Goulding foram todos lançados bem próximos aos respectivos álbuns. Por outro lado, o CD de Tom Odell chegou as lojas meses depois de Long Way Down, o maior hit dele, o que possivelmente colaborou para que as vendas não fossem tão altas quanto esperado.
  • Corra para o abraço: Caso você obtenha sucesso nos passos acima, você será convidado para uma grandiosa performance no BRIT Awards do ano seguinte ao lançamento do seu álbum e, quiçás, ganhara um prêmio. Possivelmente, será o ápice da sua carreira, então aproveite. Os mais sortudos conseguiram sustentar o sucesso por mais álguns álbuns ou algum tipo de sucesso nos EUA, mas não todos. Boa sorte!

A constante renovação da cena musical britânica

A indústria fonográfica do Reino Unido — a terceira maior a nível global (atrás dos EUA e do Japão) — é uma das mais dinâmicas do mundo e é origem de vários dos artistas mais influentes da história (Beatles; Rolling Stones; Queen; Spice Girls; Oasis) e da contemporaneidade (Adele; Ed Sheeran; Coldplay).

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Adele, maior estrela do mundo, made in UK

Mas, claro, é uma indústria que depende, acima de qualquer coisa, do mercado interno. E esse mercado não é moleza: o público britânico é bastante influenciado pelas tendências do momento e sedento por novidades. Para mantê-los satisfeitos, é necessário uma constante renovação e criação de novos talentos ano após ano.

A shelf life do artista do momento não precisar ser duradoura. Muito pelo contrário: muitos só duram 1 álbum. A longevidade não é importante, o hype a curto prazo que é. Se ele durar — alguns conseguem — ótimo. Se não, não tem problema: novos artistas — mais condizentes com o que é cool no momento — surgirão para substituí-lo.

Apesar disso ser relativamente comum em todo o mundo, o ritmo no Reino Unido é particularmente frenético e, para que essa renovação possa acontecer, a indústria britânica conta com a total colaboração da mídia local — estações de TV e de rádio sabem promover artistas a perfeição, criando hype e dando espaço para que as apostas do momento possam brilhar. Um elemento importante desse aparato todo são duas premiações específicas que tem como objetivo apresentar quem serão os hot new acts da temporada. São elas: BBC Sound of... e o BRIT Critics’ Choice.

A enquete da BBC é a mais hypada por ser mais eclética e ousada. Porém, o Critics’ Choice — que serve como uma categoria da principal premiação da música britânica, o BRIT Awards — é bem mais comercial e, por tanto, mais certeiro.

Ter o selo de escolhido do Sound of… dá uma aura de credibilidade e expectativa para o artista e garante uma cobertura decente nos veículos da emissora pública britânica, incluindo airplay na influente Radio 1.

Receber o Crticis’ Choice, porém, significa o apoio integral dos executivos das principais gravadoras e respaldo não só da BBC mas também das estações de rádio comercial e emissoras de TV privada (principalmente a Capital FM, a principal rádio top 40 do país, e a ITV, o canal que exibe os BRIT). Apesar do nome aludir a críticos, a escolha é feita, na verdade, pelos executivos das grandes gravadoras.

Através dos escolhidos nas premiações, vamos dar uma olhada em como a indústria britânica se renovou ao longo da última década.

2008:

BRIT Critics’ Choice: Adele
BBC Sound of 2008: Adele

Em 2008, o Sound Of… estava em seu sexto ano mas só então começava a exercer maior influência. Indo na mesma onda de promover novos artistas, o BRIT Crtics’ Choice foi criado. Ambos se alinharam perfeitamente, selecionando a mesma artista como vencedora: Adele. Bem óbvio o quão acertada foi essa decisão, não é mesmo? Mas é hilário voltar ao tempo e ver que, naquele então, a escolha foi quase injusta.

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Causando no Japão: o sucesso histórico de Kimi no Na Wa/Your Name

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Essa semana, a animação Kimi no Na Wa, traduzida como Your Name para o mercado ocidental, completa 6 meses no top 5 das maiores bilheterias da semana do Japão. Desde sua estreia, em agosto de 2016, o filme segue movimentando número recorde de pessoas para as salas de cinema. Ainda com fôlego impressionante, já foram vendidos 18.35 milhões de bilhetes, deixando mais de 24 bilhões de ienes (U$230 milhões) no box office do país oriental. Um resultado histórico.

No Japão, um filme é considerado um blockbuster quando ele alcança a marca de 5 bilhões de ienes (cerca de U$40 milhões). Mas, em raras ocasiões, um longa pode virar um fenômeno social, atraindo pessoas de todas as idades e virando onipresente no panorama pop japonês. Quando isso acontece — como foi o caso de Frozen em 2014 ou Titanic em 1997 — o céu é o limite.

Até o momento, Kimi no Na Wa é o quarto filme com maior recorde de público e de arrecadação na Terra do Sol Nascente. A expectativa é que, até o final da sua trajetória, ele chegue pelo menos ao terceiro lugar. Os possíveis alvos a serem desbancados são a animação da Disney, Frozen (a segunda maior bilheteria da história); Titanic (que, por enquanto, o supera em arrecadação) e o filme de 1965, Tokyo Olimpiad (que o supera em número de ingressos vendidos). Ultrapassar A Viagem de Chihiro, o filme de 2004 do Studio Ghibli que é o único a ultrapassar 30 bilhões de ienes arrecadados no Japão, é uma meta bastante improvável porém não impossível.

Independentemente da sua performance no Japão, o desempenho espetacular do longa na China (mais de U$80mi) e na Coreia do Sul (U$30mi) já fez com que a obra de Makoto Shinkai se consolidasse como o longa japonês com maior arrecadação da história a nível global: U$ 320 milhões de dólares. E o número não para de crescer.

Kimi No Na Wa trata sobre dois adolescentes — uma garota num vilarejo no campo e um rapaz de Tóquio — que, misteriosamente, começam a trocar de corpo nas semanas que antecedem a passagem de um raro cometa pelo Japão. Essa singela história — com alguns elementos já bastante conhecidos — acabou se transformando num sucesso histórico. O que ajudou a fazer com que esse filme se destacasse de maneira tão contundente?

Contendo as expectativas

Em 2014, Hayao Miyazaki, o proprietário e principal criador do Studio Ghibli, anunciou sua aposentadoria. Considerado o maior mestre da animação japonesa — e uma força sem igual nas bilheterias do país — a notícia causou muito burburinho e, rapidamente, começaram as especulações acerca de quem seria capaz de preencher um pouco a lacuna gigantesca que seria deixada. O nome mais óbvio: Momoru Hosoda.

As animações de Hosoda — A Garota Que Conquistou O Tempo (2006) e Summer Wars (2009) — obtiveram bilheterias discretas mas alcançaram grande repercussão graças aos DVDs e subsequentes emissões na TV paving the way para seu filme de 2012, Wolf Children, se tornar um notável sucesso de bilheteria. Seu lançamento de 2015, O Rapaz e o Monstro, teve grande apoio de marketing e ultrapassou a marca de 5 bilhões de ienes arrecadados, algo raro para uma animação japonesa que não faz parte de uma propriedade já conhecida ou não tem assinatura Ghibli.

Mas, enquanto os olhos estavam em Hosoda, o wild card era, na verdade, Makoto Shinkai. Um premiadíssimo diretor e roteirista de animações, Shinkai obteve respaldo crítico e sucesso de nicho com seus filmes anteriores — como 5 Centimeters Per Second — mas, diferente do outro, nunca tinha chegado perto de um sucesso mainstream.

Esse fato fez com que muitos contivessem as expectativas em relação ao que era, sem duvida nenhuma, sua obra com maior apelo popular, Kimi no Na Wa. Em entrevista para o Hollywood Reporter, o produtor do filme, Genki Kawamura, afirmou que eles esperavam uma bilheteria bem modesta: “[o filme anterior de Shinkai] Garden of Words lucrou 150 milhões de ienes [o longa foi exibido apenas em 23 salas] então nós achávamos que, na melhor das hipóteses, lucraríamos 10 vezes isso”.

Na minha opinião, a frase de Kawamura contém muito da modéstia que é considerado etiqueta básica no Japão e, quase sempre, carrega uma pitada de insinceridade. Enquanto não tenho duvidas de que ninguém esperava que o filme fosse se tornar a maior bilheteria da história do cinema japonês, a verdade é que o marketing polpudo que o filme recebeu indicava que a Toho — a gigantesca distribuidora da animação — esperava mais do que 1.5 bilhão de ienes na bilheteria.

Para começar, assim como os filmes de Miyazaki e de Hosoda, Kimi No Na Wa teve a emissora NTV — uma das quatro principais redes privadas do país — como parceira de promoção, enchendo sua programação de reportagens acerca do filme que destacavam a animação excepcional, o premiado diretor e demais aspectos que poderiam atrair o público.

Além disso, numa promotional partneship bem significativa, a água mineral mais vendida do país — Suntory Tennensui — colocou os protagonistas do longa em seus anúncios televisivos a serem exibidos ao longo do verão. Os personagens também estamparam uma campanha imprensa da JR East — a maior empresa rodoviária do Japão — que promovia o turismo em Tóquio.

Até a popular banda Radwimps — que ficou responsável pela trilha sonora da animação — se jogou de cabeça na promoção. Com 13 anos de atividade e diversos discos de Platina, o grupo sempre evitou aparecer na TV mas, para promover a trilha sonora, aceitaram fazer uma primeira aparição no icônico Music Station, o mais importante programa musical da TV japonesa. Eles cantaram Zen Zen Zense.

Era impossível prever a proporção que o filme alcançaria mas estava claro que a Toho tinha confiança de que tinham algo especial em mãos.

As chaves do sucesso

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No Japão — mais ainda do que na maior parte dos outros mercados — o boca a boca é enormemente importante para fazer com que um filme bombe. Nem o marketing mais exaustivamente onipresente é capaz de transformar um longa em grande sucesso se ele realmente não despertar o interesse do público.

Sendo assim, apesar da campanha muito bem efetuada de Kimi No Na Wa, o verdadeiro motivo do seu sucesso foi que ele struck a chord com a sociedade japonesa de uma maneira que pouquíssimos filmes são capazes de fazer.

As chaves para o sucesso sem precedentes são muitas mas começam, claro, pelo fato de que o Japão é um mercado bastante receptivo para animações. Os filmes do Studio Ghibli, por exemplo, não tem como foco principal crianças e sim pessoas de todas as idades. Muitos filmes da Disney — como Frozen, por exemplo — devem a sua popularidade não apenas ao público infantil mas também a mulheres de diferentes gerações que lotaram as salas de cinema por meses.

Enquanto muitas das propriedades animadas do Japão — como Pokemon e Yokai Watch — são focadas em crianças pequenas, muitas das franquias mais lucrativas — como Detetive Conan, Evangelion e One Piece — são direcionadas a jovens e adultos.

Sendo assim, Kimi No Na Wa nunca foi rotulado como “filme de criança” só pelo fato dele ser animado. Muito pelo contrário: seu apelo foi, de imediato, intergeracional, atraindo famílias, adolescentes e adultos.

Existem vários motivos que nos levam a entender o apelo imediato, a começar pela sua fantástica animação que recriou Tóquio em seus mais mínimos detalhes, além dos cenários lindos, típicos do interior do país. O filme homenageia a capital — com recriações idênticas de paisagens urbanas — mas também a vida provinciana, retratando costumes dos pequenos vilarejos locais.

Outro elemento foi a música: as canções do Radwimps — usadas extensivamente nos anúncios televisivos e nos trailers — caíram de imediato no gosto do público, ajudando a colocar o filme no imaginário popular.

Mas, acima de tudo,  a história — bastante melancólica, cheia de simbolismos e eventos que refletem bastante a realidade, os anseios e as tradições da sociedade japonesa — era certeira, tocando o coração do público nipônico de maneira que poucos longas-metragens são capazes de fazer.

Logo na primeira semana, em agosto, o filme já registrou uma bilheteria enorme, acima de qualquer expectativa. E seis meses depois, ele continua forte e já excedeu absolutamente todas as expectativas.

Tudo dominado

O sucesso de Kimi No Na Wa foi completamente multimídia: além de ser líder total de bilheteria no Japão, a música tema do filme, Zen Zen Zense, está próxima a alcançar 1 milhão de unidades vendidas, sendo o maior sucesso do ano. Outras 5 músicas da trilha já obtiveram certificação de platina. A trilha sonora completa, toda composta pelos RADWIMPS, passou semanas em primeiro lugar, com mais de 500k unidades comercializadas. O livro mais vendido de 2016? A novela do filme, escrito pelo próprio diretor e roteirista, que vendeu 1.2 milhão de cópias, mais do que o dobro do segundo colocado.

Sendo assim, a animação alcançou o topo das bilheterias, das paradas musicais e dos livros mais vendidos.

Os resultados obtidos foram tão espetaculares que Kimi No Na Wa foi apontado como o principal motivo para que 2016 fosse um ano histórico para o mercado cinematográfico japonês que bateu recorde de arrecadação (235.5 bilhões de ienes, cerca de U$2.25 bilhões) e teve a maior quantidade de ingressos vendidos desde 1974 (180 milhões).

O único percalço no caminho da animação foi que, provavelmente por ter uma distribuidora relativamente pequena nos EUA, ele não conseguiu uma indicação como Melhor Animação ao Oscar. Isso, claro, multiplicaria infinitamente sua projeção no Ocidente e também acrescentaria milhões a sua arrecadação no Japão.

Mas, apesar disso, o filme teve excelente resultado em suas early screenings na Europa e, claro, tem quebrado todos os recordes na Ásia. Também recebeu indicações recordes no Japan Academy Prize, que tem grande importância no mercado local. E, premiações aparte, o sucesso dele junto ao público é indiscutível e histórico.

Sucessor do Ghibli

Mas retornando ao tópico lá de cima sobre quem seria o sucessor de Hayao Miyazaki: a resposta é que, provavelmente, ninguém. Não só porque o papel histórico de Miyazaki é único mas também porque o próprio já parece ter voltado atrás.

Já é de conhecimento público que Hayao trabalha em uma nova animação que deve ser anunciada publicamente em breve. Não é a primeira vez que o mestre desiste da aposentadoria: nos anos 90, ele também se despediu, para voltar, em 1997, com o record breaking Princesa Mononoke.

A diferença é que, dessa vez, o criador do Studio Ghibli terá outro animador, Makoto Shinkai, capaz de atrair multidões tão significativas quanto ele, um fato, até então, inédito.

Nessa competição todo mundo deverá sair ganhando.

The Great British Fuck Up

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2016 não está sendo um ano fácil no Reino Unido. Para começar, o país decidiu, num voto histórico e apertado, deixar a União Europeia, o que causou a maior crise política da história recente do país, além de muita incerteza e angustia. Como se isso não fosse o suficiente, outra decisão chocante está causando revolta. Em setembro foi anunciado que, a partir de 2017, The Great British Bake Off, o programa de TV mais popular do país, deixará a programação da BBC. A competição de confeiteiros migrará para uma emissora comercial, arriscando assim perder a essência que fez dele um fenômeno.

As duas situações, claro, são bastante diferentes entre si e a comparação tem fins humorísticos. Mas nem tanto assim: o fim da jornada do Bake Off na BBC1 realmente foi uma notícia que, num ano difícil, caiu como água fria na população. Comparações entre a mudança de canal e o Brexit foram lugar comum na mídia e nas redes sociais.

O reality culinário começou sua jornada na BBC2 antes de migrar para o canal principal da emissora pública em 2014, depois de 4 anos de popularidade crescente. Desde então, se estabeleceu como a emissão mais vista do país, obtendo números de audiência que pareciam inimagináveis no cenário fragmentado e concorrido do mundo contemporâneo. A final da temporada passada teve 15.6 milhões de espectadores, de longe a maior audiência de 2015.

Em termos de repercussão, Bake Off ultrapassou o burburinho causado pelo The X Factor em seu ápice, entre 2008 e 2012. Em termos de audiência, também. Como já falei antes, o apelo do programa de competição culinária é oposto ao grandioso show de talento da ITV1: a ausência de drama e exageros.

The Great British Bake Off é um programa relaxante e minimalista, onde os confeiteiros se ajudam entre si, os jurados sempre fazem críticas positivamente construtivas, o cenário é bucólico e em tons pastéis e todo mundo parece estar se divertindo e tirando máximo proveito da experiência. Momentos de tensão ou de conflito são raros e a competição preza por um clima enormemente otimista.

Com sua doçura e celebração da diversidade da população britânica, Bake Off é um antídoto perfeito em tempos de incerteza, xenofobia, recessão e crise política. De fato, a atual temporada, que está sendo exibida pela BBC1 desde o fim de agosto, tem obtido recordes históricos de audiência (algo notável dado os já gigantescos números das temporadas passadas).

A mudança para outro canal coloca em risco toda essa dinâmica, cuidadosamente cultivada pela BBC. Por isso, a notícia foi bastante mal recebida pelo público britânico.

Acabou-se o que era doce?

No dia 12 de setembro, a BBC anunciou, através de um comunicado em tom amargo, que, por decisão da produtora, The Great British Bake Off mudaria de emissora: “Junto com a Love Productions, nós investimos [no programa] e o transformamos no enorme sucesso que ele é hoje. Fizemos uma oferta considerável para mantê-lo na nossa programação mas não chegamos a um acordo monetário. Os recursos da BBC não são infinitos”.

A nota acabava com um apelo: “GBBO é um programa feito pela BBC e temos a esperança de que a produtora mude de ideia para que Bake Off possa continuar sendo exibido sem anúncios na BBC One”.

Mas alas, não era para ser. Algumas horas mais tarde, foi confirmado que o programa mais popular do Reino Unido migraria para o Channel 4. Apesar de também ser um canal público, a emissora é mantida através de publicidade, diferente da BBC cujos recursos são frutos das taxas e do license fee pago pelos cidadãos do país. Sem a necessidade de prestar contas para a população, a emissora ofereceu mais de 25 milhões de libras por ano pelo formato, 10 milhões acima do valor que a Beeb estava disposta a desembolsar. O contrato é válido por 3 anos.

O risco da mudança, porém, era bem claro para todos: modificar a formula ganhadora que transformou o programa em um fenômeno social.

O anúncio da transição mal tinha sido feito e Sue Perkins e Mel Giedoryc, as amadas apresentadoras, confirmaram que não concordavam com a mudança e, por tanto, não continuariam na atração. A dupla, que nunca perde a oportunidade de fazer bem-humorados trocadilhos, divulgou um comunicado em que diziam que não iriam “follow the dough. Dough significa, literalmente, massa de confeitaria mas também é uma gíria para dinheiro.

A decisão firme delas — que não aceitaram nem ouvir a proposta milionária dos donos do formato — foi lamentada mas também bastante elogiada. “Muito respeito as duas”, escreveu o badalado ator e apresentador James Corden no Twitter.

O impacto da notícia ficou ainda mais claro na manhã seguinte: o fim de Bake Off na BBC foi manchete em literalmente todos os periódicos, desde os tabloides como The Sun, Mirror e Daily Mail até os títulos mais sérios e respeitáveis, como o The Guardian e o The Times.

Na semana seguinte, a cartada final: Mary Berry, a celebrada cozinheira e a mais querida dentre os jurados, também confirmou que não iria continuar no programa por lealdade a BBC. Novamente, a decisão causou frustração mas o consenso foi que ela fez a coisa certa. “Eu quero que Mary Berry apareça nas notas de 20 libras”, sugeriu um usuário no Twitter (no começo do ano, foi decidido que o pintor William Turner estamparia as notas). Outro usuário reimaginou a oração do Ave Maria e a dedicou a cozinheira televisiva enquanto mais um concluiu que a saída dela do programa era a prova cabal que o apocalipse tinha chegado.

Com a saída de Mary, foi confirmado que o único integrante original que seguiria na atração era o chef Paul Hollywood, indiscutivelmente o menos popular do time.

Sem suas principais estrelas, a questão na mente de todos é: qual o sentido dessa mudança a longo prazo? Vale a pena desembolsar mais de 75 milhões de libras por um formato e, no processo, perder o elenco responsável por fazer com que o programa seja tão valioso?

São perguntas que a maior parte do público preferiria que não estivessem sequer sendo feitas. Mas, mesmo a contragosto, a partir de 2017 elas serão respondidas.

Read more: Por ser, de longe, o maior programa da TV britânica, a mudança de canal do GBO causou uma controvérsia brutal. Mas o mercado televisivo britânico é enormemente competitivo e feroz e casos como esse não são tão raros. Leia mais  para saber de algumas disputas recentes.

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