Causando em 2017: Latino style

Em setembro do ano passado, falei que reggaeton estava a ponto de conquistar o mundo. Quase um ano depois, a previsão se provou certeira. “Despacito” é a maior música do planeta, quebrando um recorde atrás do outro e, depois de três meses, acaba de ser substituído no topo da parada global do Spotify por “Mi Gente” do colombiano J Balvin. Enquanto isso, Daddy Yankee é o artista mais ouvido na principal plataforma de streams do mundo.

Tá tudo dominado

A conquista mundial do reggaeton está em andamento mas, na América Latina e na Espanha, a dominação está mais do que consolidada. O sucesso é tanto que a pluralidade nos charts quase acabou e até alguns dos maiores fenômenos do mercado hispânico — como Romeo Santos, o ícone do bachata, o estilo da moda faz poucos anos — tem tido dificuldade para emplacar hits.

Depois de obter fama avassaladora com o seu grupo Aventura, Romeo se consolidou como o maior nome da música latina . Seu segundo álbum, “Formula, Vol. 2”, lançado em 2014, fez com que ele desbancasse até Shakira como o maior nome da América Hispânica.

Mas, desde que ele entrou em um break, o reggaeton ganhou tanta força que seu aguardado retorno esse ano foi ofuscado pelo sucesso fenomenal de canções do gênero, como a inescapável “Despacito”.

Lançado em fevereiro, seu comeback single “Heróe Favorito” teve resultados dignos mas muito aquém ao esperado de um cantor que encheu absolutamente todos os estádios da América Latina e obteve, com o lead single do álbum anterior, “Propuesta Indecente”, um dos maiores hits em espanhol da década.

O problema de “Heróe Favorito” foi que, na minha opinião, a música era tão tipicamente Romeo que poderia ser uma faixa de qualquer álbum dele. Espera-se que um primeiro single tenha o som marca registrada do artista combinado com algo striking que prenda a atenção do ouvinte para o seu retorno.

Isso, somado ao fato de que bachata perdeu espaço para reggaeton com a ausência de Romeo da cena, fez com que a música do maior astro de todos acabasse passando despercebida.

Para o segundo single, Romeo step up his plate e trouxe a muito mais pegajosa e marcante “Imitadora”. Agradou bem mais aos ouvintes e foi um sucesso maior, apesar de que não chegou ao patamar dos grandes hits do reggaeton — algo que ele era capaz de fazer com facilidade faz apenas dois anos.

Nesse cenário de ditadura do reggaeton, sempre existe a opção de seguir os passos de Shakira e Enrique Iglesias e se render ao gênero.

Mas, diferente das estrelas pop, Santos sempre foi de raiz. Ele é fiel ao estilo que o catapultou ao estrelato e raramente dá o braço a torcer. Mesmo quando colaborou com Drake — o maior rapper do universo — ele não se flexibilizou: foi o canadense que se rendeu e cantou em espanhol, no maior estilo cantor brega latino.

Mas o poder do reggaeton é tanto que Santos não se segurou. Seu novo álbum, “Gold”, inclui a canção “Bella y Sensual” com Daddy Yankee e Nicky Jam. O raro gesto do nova-iorquino parece estar rendendo frutos: o bachataton já penetrou o top 50 da Espanha e de todos os países latinos no Spotify e, em tempo recorde, alcançou o top 10 no Chile, superando o sucesso de todos os demais single que ele lançou ao longo de 2017.

Além de colaborações com os maiores nomes da música romântica em espanhol — Juan Luis Guerra, Julio Iglesias — ele ainda colabora em mais outra faixa com uma das maiores estrelas do reggaeton, Ozuna.

Apesar de estar em uma fase mais modesta, Romeo segue arrasando: a estréia do seu terceiro álbum solo foi a melhor semana de vendas de um álbum latino nos EUA, superando “El Dorado”, o CD de Shakira, lançado em junho.

O fenômeno Shakira

Falando em Shakira, ela é outra que resolveu apostar no seguro e entregou um álbum cheio de reggaeton. “Chantaje”, o maior hit do CD, foi uma colaboração com o fenômeno Maluma. Mais uma música com o jovem reggaetonero foi inclusa no álbum e deve ser lançada como single depois de uma colaboração bem pancadão com Nicky Jam, cujo vídeo acaba de ser gravado.

O interessante é que, apesar de ter se rendido ao reggaeton, Shakira é uma das poucas artistas latinas capaz de obter sucesso se desviando do gênero. Enquanto Santos teve problema para emplacar “Heroé Favorito”, “Deja Vu”, a colaboração da colombiana com Prince Royce — também uma típica bachata — entrou no top 50 do Spotify de todos os mercados hispânicos na mesma semana que o vídeo foi lançado. Seu pop vallenato com Carlos Vives, outro astro colombiano, “La Bicicleta”, foi um dos maiores sucessos em espanhol de 2016.

Não recomendado para os mais sensíveis

Os dois maiores propulsores de talento da América Latina na atualidade são Puerto Rico e Colômbia. Puerto Rico é o berço do reggaeton moderno e de onde saíram quase todos os principais nomes do gênero. Já a Colômbia soube levar o estilo para outro patamar e revelou ao mundo Maluma e J Balvin, as duas maiores sensações, além de ter sido parte do renascimento de Nicky Jam, outro dos grandes nomes.

Mas, além desses dois países, outro mercado que vale a pena prestar atenção é a Republica Dominicana. A nação caribenha também teve um papel importante na criação do gênero — foram os dominicanos radicados em NY que ajudaram a cria-lo — e também é de lá o outro ritmo que tomou conta da América Latina e da Espanha, a bachata. O país da América Central também tem um gosto muito particular e é um grande descobridor de talentos do trap, um gênero do reggaeton que tem muitas semelhanças com a música urbana americana nascida no East Coast.

A influência do rap e do hip-hop de Nova Iorque no gosto local é compreensível: milhões de habitantes do país tem laços fortes com a principal cidade dos EUA, que tem uma comunidade gigante de imigrantes provenientes da Republica Dominicana. Até a bachata moderna, de Romeo Santos e do Aventura, teve origem no Bronx.

Apesar disso, o trap que a Republica Dominicana tanto ama não nasceu no país e sim em Puerto Rico, a colônia dos EUA que também tem relação estretíssima com NY. Mas apesar de não ter sido criado por dominicanos, foi a partir do país da América Central  que o gênero começou a conquista do restante da comunidade latina.

Quando Maluma lançou, em meados do ano passado, a música “4 Babys”, ele chocou o mundo hispânica com a letra. Misoginia na música não é algo raro em nenhum gênero ou país, muito menos no reggaeton latino americano, mas o que deixou muitos de boca aberta foi o baixo calão das palavras. Na canção, sobre o affair  dele com quatro mulheres diferentes, o astro colombiana fala em “meter”, “trepar”, etc. — termos comuns no funk brasileiro ou no rap americano mas pouco visto na música latina mainstream.

O astro colombiano ficou chocado com a reação negativa. Ele só estava trazendo para seu repertório o reggaeton no estilo trap, que, na verdade, já gozava de grande popularidade. Mas, até então, o estilo não tinha sido legitimidade por um astro estabelecido de primeiro escalão. Apesar de bombar no YouTube faz muito tempo, o alcance que ele deu ao subgênero foi muito maior e chegou a um público que nunca tinha sido exposto a ele antes.

No final das contas, “4 Babys” — apesar de todo o choque que a letra causou — serviu apenas como aperitivo, porque o reggaeton proibidão está cada vez mais popular na América Latina. Ozuna, a maior revelação do ano passado, flerta com o estilo e Bad Bunny, a maior sensação desse ano, faz um trap de raiz.

Provenientes de Puerto Rico, ambos estouraram na Republica Dominicana bem antes de conquistarem os demais países do continente. Bunny, em específico, é um Midas no país e todas as suas colaborações com outros nomes do trap — como Anuel AA, Jory Boy, Brytiago e Bryant Myers — são sucessos instantâneos. Agora, ele está dominando o restante das Américas e Espanha, obtendo hit atrás de hit e colaborando com gigantes como J Balvin (no mega hit “Si Tu Novio Te Dejas Solo”).

No trap de Bad Bunny, palavrões, drogas e outros temas que aparecem de maneira filtrada no reggaeton dos outros astros são lugar comum.

Alguns excertos de “Soy Peor”, seu maior hit solo, no qual ele narra estar aliviado ao terminar um relacionamento péssimo: “Agora faço tudo o que eu quero/Só penso em eu mesmo/Jogando notas dentro do puteiro/Para merda o amor verdadeiro/Eu só quero ganhar dinheiro/Baby o que tinhamos descansa em paz/Não estou nem ai para com quem você tá/Diga pra sua mãe que ela não me faz falta/Já tenho sogras demais/Tenho a branquinha que me faz um lap dance/A roqueirinha que meto com tudo, de Vans/Tenho a pretinha, a loirinha, as modelos e todas as fãs”.

A menção obrigatória a substâncias ilícitas: “Eu não quero fumar o regular/Me traga o kush que me deixa espetacular/Que já não tenho mais você para especular/E para encher meu saco por todas as fotos de bunda que tenho no celular”.

E, claro, o refrão: “Siga seu caminho, sem ti eu estou melhor/Agora tenho outras que trepam bem melhor/Se antes eu era um filho da puta, agora sou bem pior”.

Com a forte influência do rap americano, o trap também é bem americanizado. Em “Tu No Metes Cabra”, seu atual hit, Bunny fala de prom, de bleachers, de bilionários americanos, de carrões e de jogadores de basquete. A temática U.S. não impede o single de ser um enorme sucesso em todos os países, da Argentina ao México e também na Espanha. Bunny está próximo a obter o nível espetacular de sucesso alcançado por Balvin e Maluma.

Antes tarde do que nunca

Assim como no rap americano, o universo do reggaeton é um clube do bolinha. Enquanto a música pop — particularmente a mexicana — sempre teve boa participação feminina, a dominação do reggaeton apagou quase todas as mulheres da parada, com exceção da colossal Shakira.

Se aliando com Maluma, Thalia conseguiu um mega hit com “Desde Esa Noche” no ano passado. Com a participação de Cali y el Dandi, a ex-RBD Maite Perroni, hoje mais conhecida como mocinha de telenovelas mexicanas, conseguiu recentemente seu primeiro sucesso desde os tempos de Rebelde com “Loca”. Mas esses casos estão mais para exceção do que para regra.

Apesar disso, é possível que, aos poucos, as coisas estejam mudando. Dentre as 20 faixas mais populares nos principais mercados latinos e na Espanha no Youtube, dois são reggaetons com mulheres como lead singers. Dois em 20 pode parecer um número patético mas é uma evolução de zero.

As duas artistas que conseguiram esse feito foram Karol G. e Becky G. O que ambas tem em comum além do “G” como sobrenome? O fenômeno Bad Bunny participando de suas músicas.

Mas enquanto o reggaetonero foi, sem duvida, um fator importante para o sucesso, a música é majoritariamente das mulheres, na qual ele contribui apenas com alguns poucos versos. Mesmo assim, a influência dele é enormemente perceptível, principalmente na música de Karol.

Em  “Ahora Me Llama” a colombiana se apresenta como uma espécie de versão feminina do trap star porto riquenho.

“Agora me chama/Diz que eu faço falta na sua cama/Mas para mim já não dá, já não dá/Agora eu só quero sair com meu próprio squad/Afinal a vida é minha/E quero curtir ela sem a sua companhia/Agora eu quero viver minha vida/Afinal a vida é minha/Saí com o coração partido e agora já não espero nada/A não ser os melhores drinks e a roupa trazida de Dubai”.

Mais para frente, no melhor estilo “soy peor”, ela afirma: “Se antes eu era má/Agora chegou a nova versão, ainda mais má/Continuo fazendo fama/Depois decido que gostinho quero levar pra minha cama/Porque viver de amor/Isso não me faz falta/Sou dona da minha vida e em mim ninguém manda”. Já Bunny faz uma aparição breve para dizer que “para ele melhor assim como solteiro/Eu curto, bebo, fumo, faço tudo o que eu quero”. No YouTube, o vídeo da canção já tem 150 milhões de views em 2 meses.

Já Becky G. é uma criação do polêmico produtor americano Dr. Luke. Apesar de ter sido lançado na época que ele emplacava hits fáceis, Becky — nascida e criada em Los Angeles — demorou muito até obter um mid sized hit com a música “Shower”. Apesar do gostinho do sucesso, a cantora não obteve grande fama mesmo com contratos publicitários gigantes (ela é garota propaganda da CoverGirl junto com Katy Perry, Ellen e Sofia Vergara) e filmes de Hollywood (ela é a Power Ranger amarela na adaptação cinematográfica da franquia).

Depois que sua carreira teen pop não decolou, Becky mudou para o pop em espanhol mas seguiu penando. Até que se juntou com Bunny numa canção cheia de duplo sentido e, voila, sucesso na América Latina e na Espanha e 60 milhões de visualizações em poucas  semanas no YouTube.

Enquanto Karol optou pelo viés “bad bitch”, Becky preferiu os trocadilhos sexuais. Em “Mayores”, ela canta: “Eu gosto mesmo dos maiores/Os que são chamados de senhores/Que seguram a porta e me dão flores/Eu gosto daqueles que são grandes/Que não cabem na boca/Os beijos que vão me dar/Que me deixam louca”. O porto-riquenho aparece para questiona-la: “Quer um mais velho, está segura?/Te dou mil aventuras/E duro o que ele não dura”.

Para os latino-americanos que ficaram chocados com “4 Babys”, talvez seja o momento de parar de ouvir a rádio.

Causando em 2017: agora é que são elas!

Depois de alguns anos de prosperidade, a era das divas pop parece ter chegado ao fim, pelo menos temporariamente. “Witness” de Katy Perry — o grande lançamento feminino do primeiro semestre — foi oficialmente um fracasso e, durante meses, somente homens foram capazes de emplacar hits com Ed Sheeran e Justin Bieber emplacando um hit atrás do outro; lançamentos solos de absolutamente todos os ex integrantes do One Direction e desempenhos bastante respeitáveis obtidos por nomes como Charlie Puth e Shawn Medes. Isso sem falar no sucesso espetacular de rappers como Drake e Kendrick Lamar.

Os CDs de nomes como Lorde, Halsey e Lana del Rey obtiveram resultados decentes porém não espetaculares e a falta de estrelas de primeiro escalão (Beyoncé, Taylor Swift, Rihanna) e a ausência de revelações ou grandes hits pop colocaram as mulheres num lamentável e injusto papel secundário.

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Sza

Outro fator que colaborou com a erosão de nomes femininos da lista dos mais vendidos foi a a urbanização do Hot 100. O streaming — hoje responsável por mais de 50% do consumo de música nos EUA — colocou o rap e o hip-hop no center stage. No Spotify, o maior serviço, metade das músicas dentre as 50 mais ouvidas da última semana — incluindo 80% do top 10 — pertencia ao gênero urban.  No Apple Music, que também tem enorme força no mercado americano, o número é ainda mais chocante — 80% das canções mais populares eram de rap, hip-hop e R&B. Todos esses gêneros são majoritariamente dominados por artistas masculinos então isso ajudou a deixar a situação ainda mais desigual nos charts.

Dito isso, existem sinais de que as mulheres estão recuperando força e, apesar do apetite do público para cantoras de pop tradicional estar baixo, revelações tem surgido dentro do gênero favorito da juventude americana, o hip-hop.

O primeiro nome é SZA (lê-se Sizá). Descoberta em 2011 pela Top Dawg Entertainment, a agência de Kendrick Lamar, a cantora de 26 anos foi apresentada ao grande público quando apareceu na faixa de abertura do último CD de Rihanna, “ANTI”, lançado no começo do ano passado. Ela também lançou três EPs antes de finalmente colocar no mercado seu grande debut, o álbum Ctrl.

Lançado na mesma semana de “Witness” de Katy Perry, o álbum e não tem tido nenhuma dificuldade em superar as vendas do quarto disco da estrela do pop nos EUA. Sucesso de crítica e público, o lead single do CD, “Love Galore”, está no top 10 do Apple Music e escalando a passos largos o Spotify, onde já está no top 25, sendo um contender forte para entrar dentre as 10 músicas mais populares dos EUA na parada da Billboard nas próximas semanas.

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Cardi B

O outro grande nome é a rapper Cardi B. Nascida e criada no Bronx, de origem dominicana, B. é uma ex-stripper que virou um enorme sucesso no Instagram com sua irreverência e ganhou ainda mais fama ao virar parte do elenco do popular reality show do VH1, “Love & Hip-Hop New York”. Apesar de ter muitos seguidores, poucos acreditavam que ela tinha chances de emplacar uma credbile music carreer.

Mas ela está se provando plenamente capaz. Sua música, “Bodak Yellow”, já excedeu todas as expectativas, alcançando o segundo lugar no Apple Music; sendo a segunda canção mais popular no YouTube dos EUA (atrás apenas de “Despacito”) e começando sua escalada no Spotify, onde penetrou o top 50 na segunda-feira. No Hot 100, a música subiu 21 posições em uma semana, alcançando a posição #29 e se tornando oficialmente um top 40 hit. Isso parece ser só o começo da jornada de sucesso da latina.

A estréia meteórica de Cardi B é impressionante porque dá para contar nas mãos a quantidade de rappers mulheres que obtiveram sucesso. Além disso, é o melhor debut desde Nicki Minaj, faz 7 anos. Diferente de Nicki, porém, Cardi não faz parte da Young Money — a trupe do gigantesco rapper Lil Wayne — nem foi apresentada ao público em um summer smash com a participação de todos os nomes do grupo, como Drake. Ao invés disso, a música de Cardi é totalmente solo — sem nenhum featured rapper — e a única participação de algum outro nome forte do gênero é através do instrumental — ela canta em cima de uma batida de uma música do hypado rapper da Florida, Kodak Black (daí o nome da canção, “Bodak Yellow”).

Cardi B e SZA estão leading the way para mulheres na música e provando que não é preciso ser loira e com hits pop para fazer barulho. Na verdade, em um momento em que o público está sedento por mudança, oferecer mais do mesmo — como Perry fez com “Witness” — pode inclusive ser um impeditivo.

Causando em 2017: o ano foi deles

Ainda falta para encerrar o ano mas os sete primeiros meses já nos dão um retrato bem completo de vários dos principais acontecimentos pop de 2017. É isso que vamos analisar através dos próximos três posts.

Na primeira parte, o tópico são os artistas e músicas que indiscutivelmente dominaram o mundo ao longo do ano.

Um fato sobre 2017:  nada nem ninguém no cenário musical chegou perto do sucesso obtido por dois artistas e duas músicas.

O maior nome de todos foi, sem duvida nenhuma, Ed Sheeran. O britânico com seu pop água com açúcar é um fenômeno sem igual em absolutamente todos os fronts, quebrando recorde de vendas em todo o mundo; vendendo milhões de ingressos para sua turnê e obtendo o maior sucesso do ano (Shape of You), que ficou no topo por meses e meses a fio.

Sheeran, porém, esta correndo um risco: a super-exposição. A sua compatriota Adele — literalmente a única artista capaz de superá-lo em vendas mundo afora — deu uma aula de como não se desgatar, fazendo pouquíssimas aparições na mídia ao longo da promoção dos seus últimos dois álbuns.

Sheeran, em contrapartida, passou os primeiros meses do ano dando as caras em absolutamente todos os eventos e programas de TV da Europa, dos EUA e da Austrália. Ele não precisa disso: a essa altura, já está claro que ele é capaz de vender muito mesmo fazendo nada. Faz poucas semanas, sua aparição na estréia de temporada de outro colosso da cultura pop, “Game of Thrones”, foi muitíssimo mal recebida e expôs os possíveis perigos de sua onipresença.

Isso, claro, é um potencial problema a longo prazo. Por enquanto, tudo está perfeito no universo do ruivo. Sua turnê caminha a longos passos para se transformar numa das mais bem sucedidas de todos os tempos, com as datas em estádios na Europa e na Oceânia em 2018 já completamente esgotadas. Em vários países, como na Irlanda e na Austrália, ele quebrou recordes históricos de vendas de ingresso.

“Shape of You” dominou os primeiros três meses do ano, antes de ser substituída no topo pela inescapável “Despacito”. A música de Luis Fonsi e Daddy Yankee era um fenômeno sem igual na América Latina desde janeiro e estava escalando as paradas européias antes de virar um instantâneo número 1 global com o lançamento do remix com Justin Bieber no fim de abril. A música se transformou recentemente na música mais streamed da história e deverá desbancar “See You Again” como o vídeo mais visto do YouTube. A música de Wiz Khalifa e Charlie Puth demorou mais de 2 anos para alcançar 3 bilhões de views, algo que o reggaeton deverá fazer em oito meses.

E falando em Bieber, é ele que é o outro grande nome do ano. O canadense — que atingiu outro patamar em sua carreira com a ótima aceitação do seu último álbum, “Purpose” — tem emplacado um sucesso atrás do outro desde 2015 e teve seu toque de Midas confirmado em 2017, quando todas as suas colaborações atingiram o topo quase de imediato, começando por “I’m the One” com DJ Khaled, Lil Wayne, Chance the Rapper e Quavo e seguido pela inescapável “Despacito”. Desde que ele lançou seu último CD — com três smash number 1 hits, “What Do You Mean?”, “Sorry” e “Love Yourself” — Bieber já lançou cinco colaborações com nomes como Major Lazer (“Cold Water”), DJ Snake (“Let Me Love You”) e David Guetta (“2U”), todas super bem recebidas.

Além disso, foram 150 shows completamente esgotados em seis continentes com lucros recordes ao longo 16 meses. Bieber não aguentou o tranco e cancelou os 14 shows finais. Considerei algo mais do que compreensível porque não só a turnê estava longuíssima como o cantor parecia estar de saco cheio dela desde o primeiríssimo show, em março do ano passado.

Tirando a falta de entusiasmo nos shows e um ou outro piti, Justin conseguiu se manter longe das polêmicas durante a maior parte da era, o que já é uma vitória. O estado mental do cantor — que tem sido fotografado sempre todo oleoso, ao lado do pastor da igreja bizarra que frequenta — não parece ser dos melhores mas, then again, obter esse nível de sucesso tão jovem é uma garantia de problemas psicológicos. Enquanto ele continuar lançando músicas boas, o público vai continuar sem se importar.

O rap e o hip-hop sempre foram os gêneros mais populares entre o público jovem dos EUA mas o avanço do streaming no país — hoje responsável por mais da metade do consumo legal de música por lá — colocou os gêneros urbanos em outro patamar.

No meio da dominação, um trio se destacou: Migos. A música deles, “Bad and Boujee”, foi um number one hit giga na Terra do Tio Sam e eles obtiveram sucesso com outras várias músicas como “T-Shirt” e “Slippery”.

Quavo, é o líder do grupo, estando para o Migos como Beyoncé estava para o Destiny’s Child. Kelly e Michelle são, respectivamente, Offset e Takeoff. Os três são amigos de infância, nascidos e criados no estado sulista da Georgia.

Quavo, sozinho ou junto com seus dois companheiros, foi o featured artist mais popular de 2017, recrutado por absolutamente todos os artistas que queriam surfar na onda urbana que tomou conta dos EUA.

Ao notar que seu som pop estava outdated, Katy Perry pediu ajuda para os Migos e os colocou em “Bon Appetit”. Eles também apareceram, ao lado de Frank Ocean, em “Slide” do DJ escocês Calvin Harris e em um single do jamaicano Sean Paul. A música de estréia do ex-One Direction Liam Payne, “Strip That Down”, conta com a participação de Quavo que também está no novo CD da cantora indie pop Halsey e da popstar aposta do momento Camila Cabello. Ele ainda teve sucessos consideráveis ao lado de Drake (“Portland); Bieber e Khaled (“I’m the One”) e Post Malone (“Congratulation”).

Enfim, se teve alguém que trabalhou duro ao longo dos primeiros 8 meses do ano esse alguém foi Quavalicious Marshall.

What’s next?

Para a indústria musical, o ano é dividido em quatro trimestres. O mais importante deles — com as vendas mais altas — começa em outubro e é conhecido como Q4. Álbuns previstos para esse período incluem retornos de Taylor Swift, Eminem, P!nk, Sam Smith, Miley Cyrus, Demi Lovato, Shania Twain, Celine Dion, U2, dentre outros.

Nos próximos meses também teremos a confirmação de quem será o ato que vai se apresentar no Super Bowl em fevereiro do ano que vem. Minha aposta é em P!nk, que faria uma espetacular apresentação cheia de malabarismo mas também não me surpreenderia se fosse Justin Timberlake, que tem álbum previsto para ser lançado entre o fim desse ano e o começo do próximo. Por mais que Swift fosse uma escolha lógica dado o seu calibre, ela é bastante improvável pelo seu contrato publicitário com a Coca Cola. O Halftime Show é patrocinado pela Pepsi.

Seja como for, vamos ficar ligados.

Anitta e o sucesso internacional

Um dos assuntos relacionados a cultura pop que mais tem bombado ultimamente nas redes sociais é a viabilidade da carreira internacional de Anitta. A cantora sensação acaba de aparecer em uma música da popstar internacional Iggy Azalea — que foi bastante bem recebida pelo público brasileiro — e todo mundo quer saber se isso é o começo de um promissor futuro de sucesso no mundo todo. Mas será que é?

Antes do mundo, o Brasil

Se tem um país que ama desproporcionalmente divas pop, esse país é o Brasil. É verdade que em termos de lucro, o nosso país está bem atrás dos EUA e da Europa mas quando o assunto é tietagem, NINGUÉM bate nossa pátria. No YouTube, uma porcentagem altíssima de views dos clipes das Katy e Britney da vida vem do Brasil; nas redes sociais, o “COME TO BRAZIL” já virou um meme e, no Spotify, nenhum país dá tanta bola para as novidades dessas cantoras quanto o nosso.

Os últimos dias, particularmente saturados de lançamentos pop, ilustram isso bem: na parada diária do Spotify brasileiro, a estreia solo de Camila Cabello, Crying in the Club, debutou na posição #4; Selena Gomez, com Bad Liar, começou em #6 e Swish Swish de Katy Perry chegou em #7. Compare com as estreias das mesmas músicas nos EUA, o mercado natal de todas elas: #57; #12; #54. No Reino Unido, o principal mercado internacional: #64; #47; #47.

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Anitta conquistou o Brasil de imediato com o “Show das Poderosas”

Está claro que nós temos um apetite insaciável por popstars e, claro, nós precisávamos urgentemente da nossa própria representante do gênero. E nós arranjamos: Anitta. Carismática, divertida, talentosa, ambiciosa e com músicas animadas e com letras de empoderamento e curtição, ela é uma força que, sozinha, faz frente a febre sertaneja e a invasão do funk paulistano.

Nascida Larissa e criada no subúrbio carioca, Anitta começou no Furacão 2000 mas explodiu mesmo ao ser rebatizada com seu nome artístico e lançar o Show das Poderosas. Eu moro no Rio e lembro do frenesi imediato que foi essa música. Na época achei que ela não ia conseguir superar um sucesso tão icônico e que deu tão certo. Mas ledo engano: ela gravou sucesso atrás de sucesso e virou uma espécie de Midas, transformando em sucesso tudo que ela tocava — seja colaboração com o reggaetonero J Balvin; com a dupla sertaneja Simone e Simara ou com Nego do Borel.

Mas, depois de conquistar o Brasil, a ambiciosa Anitta quer mais e não tem escondido de ninguém seu desejo de conquistar o resto do mundo e, essa semana, a fandom pop do Brasil vibrou com o lançamento de Switch, que dá o primeiro gostinho da versão “pop americano” da nossa musa nacional. Muitos consideram que gravar com Iggy é uma grande honra e pode abrir muitas portas para Anitta.

Eu não sou uma dessas pessoas. Sinto jogar um balde de água fria em quem acha que a rapper australiana representa uma entrada em grande porte no mercado internacional. Até porque, dentre as duas, só uma delas é realmente bem sucedida. E não, essa pessoa não é a gringa.

O fracasso de Iggy Azalea

O Brasil tem um certo complexo de vira-lata em que nós achamos que o internacional é sempre superior. Ver a nossa representante do pop nacional contribuir com uma artista loira, que canta em inglês e que já obteve sucesso internacional é, automaticamente, um upgrade. Mas gente, vamos ser realistas: não é Iggy que está ajudando Anitta, muito pelo contrário.

Vamos fazer um breve repasse pela carreira da rapper:

Nascida em Sidney, Amethyst Amelia Kelly cresceu apaixonada por hip-hop e, em 2006, aos 16 anos, imigrou para os EUA onde começou a perseguir seu sonho de se tornar uma rapper e adotou o pseudônimo com o qual ficou conhecida. Uma garota branca, australiana, cantando rap americano não é exatamente a mistura mais convencional mas essa peculiaridade ajudou a abrir portas e, em 2011, ela lançou seu próprio mixtape que fez com que ela começasse a ganhar buzz na internet.

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Iggy Azalea

Ela foi alçada a outro patamar quando, em 2012, o muitíssimo bem-sucedido rapper T.I. virou seu conselheiro. Rapidamente, ela começou a chamar atenção das gravadoras e de empresários; ganhou apoio da influente Radio 1 britânica; lançou mais um EP produzido pelo aclamado produtor Diplo; excursionou na Europa e fez shows de abertura para NAS no Reino Unido e Beyoncé na sua Austrália natal.

Depois de assinar com a Island Def Jam, a rapper obteve algum sucesso no Reino Unido com os primeiros singles e bastante buzz virtual mas explodiu de verdade quando, no começo de 2014, Fancy virou um sucesso inescapável no mundo, atingindo o topo do Billboard Hot 100 nos EUA.

Obviamente, o sucesso da pegajosa canção fez os olhos da indústria brilharem, acreditando que Iggy tinha todo o potencial para ser a nova sensação. Ela foi inclusa num single badalado de Ariana Grande; lançou música super sensual com Jennifer Lopez; fez colaboração com Britney Spears e apareceu em todos os award shows, programas de TV e radio concerts possíveis e imagináveis.

Mas, enquanto a indústria estava do lado dela, o público não estava. Mesmo com o sucesso gigantesco de Fancy; a promoção pesada do seu single seguinte, Black Widow e as muitas colaborações com artistas famosas (algumas bastante apelativas, como Bootie com a J.Lo, designada para quebrar o Youtube), o álbum dela, The New Classic, penou para vender. Apesar de um relançamento, o CD teve dificuldade em alcançar Disco de Ouro em sua Austrália natal (40k) e não chegou nem perto dessa certificação no Reino Unido. Nos EUA, o resultado foi um pouquinho melhor: demorou mas ela conseguiu chegar a 500 mil unidades e, com streaming incluso, obteve um Disco de Platina.

Impulsionada pelo sucesso de Fancy, a canção seguinte de Iggy, Black Widow, atingiu o terceiro lugar no Hot 100 e quarto no Reino Unido. Depois disso, nenhuma outra música dela conseguiu penetrar o top 20, apesar da promoção forte e das colaborações com artistas badalados. A equipe dela, que foi iludida pelo próprio hype, anunciou uma turnê por arenas na América do Norte — com 24 datas em locais enormes como o Barclay Center no Brooklyn; AmericanAirlines Arena em Miami e o Staples Center em L.A. — e teve que passar pelo constrangimento de cancelar tudo quando pouquíssimas pessoas se interessaram por ingressos.

Azalea ainda levantou discussões sobre apropriação cultural por se aproveitar da música afro-americana — inclusive adotando um blaccent, o sotaque associado a população negra americana — ao mesmo tempo que não mostrava muito respeito pela comunidade. Letras em que ela se chamava de “mestre escravocrata” e se descrevia como uma “garota branca com bunda de favelada” despertou bastante ira assim como vários tweets antigos onde ela fazia comentários misóginos e racistas acerca de latinos, asiáticos; negros e chamava mulheres que vestiam roupas curtas de “putas”.

Rapidamente, ela perdeu o pouco apoio que ela tinha na comunidade hip-hop; o post compilando seus tweets racistas foi dividido 146 mil vezes no Tumblr e a imprensa e as redes sociais começaram a se virar contra ela. Mesmo assim, ela se recusou a se desculpar e, quando outro rapper branco, Macklemore, fez uma música sobre privilégio branco, na qual ele citava ele mesmo e Iggy, a resposta dela foi ficar ofendida por ter sido mencionada.

Apesar de alguns sucessos — namely, o número 1 obtido por Fancy — a estreia de Iggy teve grande hype e apoio financeiro mas pouquíssimo apoio do público. Sendo assim, era necessário muita ingenuidade para achar que o “grande comeback” dela ia ter qualquer tipo de respaldo.

Team, a volta de Azalea depois de 1 ano, não conseguiu alcançar o top 40 nem dos EUA, nem do Reino Unido. A canção seguinte, Mo’ Bounce, atingiu #53 no UK mas não conseguiu sequer penetrar o Hot 100.

O sucesso de Anitta

Em contrapartida a decadência de Iggy, a carreira de Anitta no Brasil foi um sucesso atrás do outro desde que ela estourou com Show das Poderosas no começo de 2013. Apesar de sua fama local, os números dela frequentemente superam o da “rapper internacional”. Por exemplo, Team de Iggy Azalea acumulou 98.3 milhões de views no YouTube ao longo de um ano enquanto o último lançamento de Anitta, Loka, a colaboração dela com a dupla Simone e Simara, tem 302 milhões de visualizações em 4 meses. Sim ou Não, o último single oficial da carioca, se aproxima da casa de 200 milhões.

No Instagram, Anitta tem 20 milhões de seguidores, o dobro do número de Iggy. No Facebook, a brasileira também quase duplica os números da estrela gringa: 13.5 milhões de curtidas versus 7.5 mi.

Dado o track record de ambas, é possível concluir duas coisas: Iggy Azalea, que já foi quase que completamente esquecida no mercado internacional, não tem nenhuma capacidade de dar a Anitta um hit global. Já a brasileira pode sim quebrar o track record de fracassos internacionais de Iggy podendo facilmente garantir a ela um sucesso no Brasil.

E, né? Prova disso é o resultado de Switch no Spotify. Aqui, a música já estreou no segundo lugar. Em Portugal, provavelmente impulsionada pela brasileira, o single chegou a #38 e, no país vizinho, Espanha, em #85. Nos demais países europeus, EUA, Canadá e Austrália? Switch não foi capaz de figurar nem sequer no top 200.

Switch é a junção de um nome desprestigiado e com cada vez menos clout no mercado com uma artista que, por mais que não tenha o name recognition internacional, é excepcionalmente bem-sucedida. Se tem alguém que deve estar ~honrada~ pela possibilidade de colaborar com uma estrela, esse alguém é Iggy.

Caminhos melhores

Pelos motivos listados acima, não acho que colaborar com Iggy seja uma entrada no mercado internacional pela ~porta principal~. Inclusive, dado a total irrelevância da cantora ultimamente, talvez não seja nem pela porta dos fundos.

Claro que a colaboração tem sim seu valor — os brasileiros fãs de pop amaram a canção; os poucos sites especializados internacionais que deram atenção ao lançamento também o elogiaram e ademais é interessante ver Anitta, um ícone nacional, numa produção em inglês. Mas, por outro lado, para olhos mais observadores, a colaboração parece um pouco desesperada. “Se dê mais valor, Anitta”, é o que eu pensei quando soube do dueto.

A própria Iggy parece ter sido abandonada pelos nomes mais profissionais de sua equipe dado o rollout cagado da música, com alguns missteps que, sinceramente, não são normais para um artista sério.

anitta
Maluma e Anitta: a primeira colaboração internacional da brasileira

Para começar, a própria dispensou o lançamento de um lyric video por motivos que não fazem nenhum sentido (“resolvi que vou usar como backdrop no telão durante meus shows”. 1. Porque isso impede de coloca-lo no YT? 2. Que shows, lindinha?). Isso é uma decisão estúpida pois o site de compartilhamento de vídeo  é um dos maiores veículos de promoção no mundo (e no Brasil em particular) e, dado a força que os brasileiros tem para impulsionar vídeos, o filme com as letras acumularia muito mais views que os lançamentos recentes de Azalea, ajudando talvez a criar uma ilusão de que a decadência dela estava perdendo força.

Mas tudo bem, isso não necessariamente é um big deal porque o que importa mesmo é o vídeo oficial. Só que aí, o clipe — sabe-se lá como — vazou na internet e, óbvio, não demorou muito para ele se espalhar pela sempre histérica websfera brasileira. Resultado? Azalea dizendo que talvez vá cancelar o lançamento oficial do clipe. Cuma? Assim fica difícil te ajudar.

Mas enfim, o fato é que existem caminhos muito mais dignos para o sucesso internacional. E a própria Anitta já transitou por eles.

Um exemplo é a colaboração com Maluma, Sim ou Não. Diferente de Azalea, e similarmente a Anitta, Maluma é um dos artistas mais badalados do momento e provavelmente um dos maiores — se não o maior — no mercado latino. Com alcance em absolutamente toda a América Latina; na Espanha e também com o numeroso público latino dos EUA, o reggaetonero é, de fato, um aliado importante na busca pelo sucesso mundo afora e um fenômeno de seguidores nas redes sociais, com bilhões de views no YouTube.

É preciso muito networking e muito poder para conseguir colaborar com um artista de primeiro escalão global. Um feat de Justin Bieber, por exemplo, a colocaria no top 10 de todo o universo mas, vamos combinar, isso é semi impossível. Uma opção um pouco mais realista são DJs/produtores. Anitta, que não é boba nem nada, já está correndo atrás disso e deverá aparecer em uma colaboração com o Major Lazer que também deverá contar com Pablo Vittar. Aqui no Brasil mesmo tem Alok, que provavelmente é o artista local com maior alcance internacional no momento e cujo single, Hear Me Now, obteve mais repercussão global que qualquer música recente de Iggy.

Anitta é bastante fã do rap e do hip-hop americano e foi fotografada com Tyga recentemente. Minha opinião sobre ele é a mesma que tenho sobre Iggy: NÃO. Além de muitos fracassos recentes, ele também tem uma péssima imagem. Mas isso não quer dizer que a artista não deva network no mundo urban mas, claro, sempre tomando cuidado para não oversstep the boundaries e virar caricatura (como foi o caso de Iggy).

Outro gênero com o qual ela flerta muito é o reggaeton. Vários dos seus sucessos recentes tem influência do estilo, como Loka com Simone e Simara e o exemplo mais óbvio, Sim ou Não, com o maior fenômeno do gênero, Maluma. Tem também o remix com a participação dela do hit pan-hispânico Ginza de J Balvin, que fez com que a música entrasse em alta rotação no Brasil.

No momento, como já decorri sobre, não existe estilo mais onipresente e poderoso na Espanha e na América Latina de modo que o reggaeton certo pode quebrar fronteiras para ela. Dito isso, não tem como negar que nenhuma mulher obteve grande sucesso dentro do estilo e — apesar de ter gerado grandes divas pop como Thalia e Paulina Rubio no fim dos anos 90/começo dos 2000 — o mercado hispânico tem rechaçado música feminina (a não ser, claro, que seu nome seja Shakira). Mas bom, tá mais do que na hora disso mudar, né? Quem sabe Anitta não dê uma ajudinha nisso.

Anitta poderá ser um sucesso internacional?

Não tenho bola de cristal mas a resposta para a questão acima é, muito provavelmente, não.

Anitta tem talento, ambição e star quality. Mas ela é um fenômeno no Brasil porque seu estilo e sua personalidade ressoam enormemente com o público nacional. Essa mágica quase que invariavelmente é lost in translation. Mesmo nomes anglo-saxões, como Little Mix e Jess Glynne, não são capazes de traduzir os fatores que fazem delas grandes no mercado natal para o palco global.

Dá para contar nas mãos os artistas não americanos que obtiveram sucesso global duradouro nos últimos anos. Um dos poucos foi Shakira que tinha um estilo e uma voz muitíssimo peculiares, capazes de quebrar qualquer barreira, o que já havia sido provado mesmo antes do seus sucessos em inglês, quando ela virou um fenômeno no Brasil, um mercado historicamente difícil para artistas de língua hispânica.

O fato do sucesso não ser muito provável não significa que ela não deva ter essa ambição e correr atrás dos seus sonhos. “Sucesso internacional” é algo muito subjetivo e artistas brasileiros — como Michel Teló; a lambada do Kaoma e Xuxa — já conseguiram, mesmo que por poucos instantes, hipnotizar todo o planeta. Sendo assim, porque não tentar?

Como já disse, star quality e sede de sucesso ela tem. E, na pior das hipóteses, caso suas international collaborations não cheguem no resto do mundo, o sucesso delas no Brasil está mais do que assegurado. Por mérito próprio, a cantora é, em terras tupiniquim, sinônimo de um bom pop de bater cabelo, seja ele em inglês, em português, em espanhol ou em mandarim.

Seja como for, Anitta é um alívio para os (muitos) fãs de pop do Brasil. Ela é uma das poucas estrelas que não é precisa implorar para COME TO BRAZIL!!!. Afinal de contas, ela já é nossa.