Causando em 2017: Latino style

Em setembro do ano passado, falei que reggaeton estava a ponto de conquistar o mundo. Quase um ano depois, a previsão se provou certeira. “Despacito” é a maior música do planeta, quebrando um recorde atrás do outro e, depois de três meses, acaba de ser substituído no topo da parada global do Spotify por “Mi Gente” do colombiano J Balvin. Enquanto isso, Daddy Yankee é o artista mais ouvido na principal plataforma de streams do mundo.

Tá tudo dominado

A conquista mundial do reggaeton está em andamento mas, na América Latina e na Espanha, a dominação está mais do que consolidada. O sucesso é tanto que a pluralidade nos charts quase acabou e até alguns dos maiores fenômenos do mercado hispânico — como Romeo Santos, o ícone do bachata, o estilo da moda faz poucos anos — tem tido dificuldade para emplacar hits.

Depois de obter fama avassaladora com o seu grupo Aventura, Romeo se consolidou como o maior nome da música latina . Seu segundo álbum, “Formula, Vol. 2”, lançado em 2014, fez com que ele desbancasse até Shakira como o maior nome da América Hispânica.

Mas, desde que ele entrou em um break, o reggaeton ganhou tanta força que seu aguardado retorno esse ano foi ofuscado pelo sucesso fenomenal de canções do gênero, como a inescapável “Despacito”.

Lançado em fevereiro, seu comeback single “Heróe Favorito” teve resultados dignos mas muito aquém ao esperado de um cantor que encheu absolutamente todos os estádios da América Latina e obteve, com o lead single do álbum anterior, “Propuesta Indecente”, um dos maiores hits em espanhol da década.

O problema de “Heróe Favorito” foi que, na minha opinião, a música era tão tipicamente Romeo que poderia ser uma faixa de qualquer álbum dele. Espera-se que um primeiro single tenha o som marca registrada do artista combinado com algo striking que prenda a atenção do ouvinte para o seu retorno.

Isso, somado ao fato de que bachata perdeu espaço para reggaeton com a ausência de Romeo da cena, fez com que a música do maior astro de todos acabasse passando despercebida.

Para o segundo single, Romeo step up his plate e trouxe a muito mais pegajosa e marcante “Imitadora”. Agradou bem mais aos ouvintes e foi um sucesso maior, apesar de que não chegou ao patamar dos grandes hits do reggaeton — algo que ele era capaz de fazer com facilidade faz apenas dois anos.

Nesse cenário de ditadura do reggaeton, sempre existe a opção de seguir os passos de Shakira e Enrique Iglesias e se render ao gênero.

Mas, diferente das estrelas pop, Santos sempre foi de raiz. Ele é fiel ao estilo que o catapultou ao estrelato e raramente dá o braço a torcer. Mesmo quando colaborou com Drake — o maior rapper do universo — ele não se flexibilizou: foi o canadense que se rendeu e cantou em espanhol, no maior estilo cantor brega latino.

Mas o poder do reggaeton é tanto que Santos não se segurou. Seu novo álbum, “Gold”, inclui a canção “Bella y Sensual” com Daddy Yankee e Nicky Jam. O raro gesto do nova-iorquino parece estar rendendo frutos: o bachataton já penetrou o top 50 da Espanha e de todos os países latinos no Spotify e, em tempo recorde, alcançou o top 10 no Chile, superando o sucesso de todos os demais single que ele lançou ao longo de 2017.

Além de colaborações com os maiores nomes da música romântica em espanhol — Juan Luis Guerra, Julio Iglesias — ele ainda colabora em mais outra faixa com uma das maiores estrelas do reggaeton, Ozuna.

Apesar de estar em uma fase mais modesta, Romeo segue arrasando: a estréia do seu terceiro álbum solo foi a melhor semana de vendas de um álbum latino nos EUA, superando “El Dorado”, o CD de Shakira, lançado em junho.

O fenômeno Shakira

Falando em Shakira, ela é outra que resolveu apostar no seguro e entregou um álbum cheio de reggaeton. “Chantaje”, o maior hit do CD, foi uma colaboração com o fenômeno Maluma. Mais uma música com o jovem reggaetonero foi inclusa no álbum e deve ser lançada como single depois de uma colaboração bem pancadão com Nicky Jam, cujo vídeo acaba de ser gravado.

O interessante é que, apesar de ter se rendido ao reggaeton, Shakira é uma das poucas artistas latinas capaz de obter sucesso se desviando do gênero. Enquanto Santos teve problema para emplacar “Heroé Favorito”, “Deja Vu”, a colaboração da colombiana com Prince Royce — também uma típica bachata — entrou no top 50 do Spotify de todos os mercados hispânicos na mesma semana que o vídeo foi lançado. Seu pop vallenato com Carlos Vives, outro astro colombiano, “La Bicicleta”, foi um dos maiores sucessos em espanhol de 2016.

Não recomendado para os mais sensíveis

Os dois maiores propulsores de talento da América Latina na atualidade são Puerto Rico e Colômbia. Puerto Rico é o berço do reggaeton moderno e de onde saíram quase todos os principais nomes do gênero. Já a Colômbia soube levar o estilo para outro patamar e revelou ao mundo Maluma e J Balvin, as duas maiores sensações, além de ter sido parte do renascimento de Nicky Jam, outro dos grandes nomes.

Mas, além desses dois países, outro mercado que vale a pena prestar atenção é a Republica Dominicana. A nação caribenha também teve um papel importante na criação do gênero — foram os dominicanos radicados em NY que ajudaram a cria-lo — e também é de lá o outro ritmo que tomou conta da América Latina e da Espanha, a bachata. O país da América Central também tem um gosto muito particular e é um grande descobridor de talentos do trap, um gênero do reggaeton que tem muitas semelhanças com a música urbana americana nascida no East Coast.

A influência do rap e do hip-hop de Nova Iorque no gosto local é compreensível: milhões de habitantes do país tem laços fortes com a principal cidade dos EUA, que tem uma comunidade gigante de imigrantes provenientes da Republica Dominicana. Até a bachata moderna, de Romeo Santos e do Aventura, teve origem no Bronx.

Apesar disso, o trap que a Republica Dominicana tanto ama não nasceu no país e sim em Puerto Rico, a colônia dos EUA que também tem relação estretíssima com NY. Mas apesar de não ter sido criado por dominicanos, foi a partir do país da América Central  que o gênero começou a conquista do restante da comunidade latina.

Quando Maluma lançou, em meados do ano passado, a música “4 Babys”, ele chocou o mundo hispânica com a letra. Misoginia na música não é algo raro em nenhum gênero ou país, muito menos no reggaeton latino americano, mas o que deixou muitos de boca aberta foi o baixo calão das palavras. Na canção, sobre o affair  dele com quatro mulheres diferentes, o astro colombiana fala em “meter”, “trepar”, etc. — termos comuns no funk brasileiro ou no rap americano mas pouco visto na música latina mainstream.

O astro colombiano ficou chocado com a reação negativa. Ele só estava trazendo para seu repertório o reggaeton no estilo trap, que, na verdade, já gozava de grande popularidade. Mas, até então, o estilo não tinha sido legitimidade por um astro estabelecido de primeiro escalão. Apesar de bombar no YouTube faz muito tempo, o alcance que ele deu ao subgênero foi muito maior e chegou a um público que nunca tinha sido exposto a ele antes.

No final das contas, “4 Babys” — apesar de todo o choque que a letra causou — serviu apenas como aperitivo, porque o reggaeton proibidão está cada vez mais popular na América Latina. Ozuna, a maior revelação do ano passado, flerta com o estilo e Bad Bunny, a maior sensação desse ano, faz um trap de raiz.

Provenientes de Puerto Rico, ambos estouraram na Republica Dominicana bem antes de conquistarem os demais países do continente. Bunny, em específico, é um Midas no país e todas as suas colaborações com outros nomes do trap — como Anuel AA, Jory Boy, Brytiago e Bryant Myers — são sucessos instantâneos. Agora, ele está dominando o restante das Américas e Espanha, obtendo hit atrás de hit e colaborando com gigantes como J Balvin (no mega hit “Si Tu Novio Te Dejas Solo”).

No trap de Bad Bunny, palavrões, drogas e outros temas que aparecem de maneira filtrada no reggaeton dos outros astros são lugar comum.

Alguns excertos de “Soy Peor”, seu maior hit solo, no qual ele narra estar aliviado ao terminar um relacionamento péssimo: “Agora faço tudo o que eu quero/Só penso em eu mesmo/Jogando notas dentro do puteiro/Para merda o amor verdadeiro/Eu só quero ganhar dinheiro/Baby o que tinhamos descansa em paz/Não estou nem ai para com quem você tá/Diga pra sua mãe que ela não me faz falta/Já tenho sogras demais/Tenho a branquinha que me faz um lap dance/A roqueirinha que meto com tudo, de Vans/Tenho a pretinha, a loirinha, as modelos e todas as fãs”.

A menção obrigatória a substâncias ilícitas: “Eu não quero fumar o regular/Me traga o kush que me deixa espetacular/Que já não tenho mais você para especular/E para encher meu saco por todas as fotos de bunda que tenho no celular”.

E, claro, o refrão: “Siga seu caminho, sem ti eu estou melhor/Agora tenho outras que trepam bem melhor/Se antes eu era um filho da puta, agora sou bem pior”.

Com a forte influência do rap americano, o trap também é bem americanizado. Em “Tu No Metes Cabra”, seu atual hit, Bunny fala de prom, de bleachers, de bilionários americanos, de carrões e de jogadores de basquete. A temática U.S. não impede o single de ser um enorme sucesso em todos os países, da Argentina ao México e também na Espanha. Bunny está próximo a obter o nível espetacular de sucesso alcançado por Balvin e Maluma.

Antes tarde do que nunca

Assim como no rap americano, o universo do reggaeton é um clube do bolinha. Enquanto a música pop — particularmente a mexicana — sempre teve boa participação feminina, a dominação do reggaeton apagou quase todas as mulheres da parada, com exceção da colossal Shakira.

Se aliando com Maluma, Thalia conseguiu um mega hit com “Desde Esa Noche” no ano passado. Com a participação de Cali y el Dandi, a ex-RBD Maite Perroni, hoje mais conhecida como mocinha de telenovelas mexicanas, conseguiu recentemente seu primeiro sucesso desde os tempos de Rebelde com “Loca”. Mas esses casos estão mais para exceção do que para regra.

Apesar disso, é possível que, aos poucos, as coisas estejam mudando. Dentre as 20 faixas mais populares nos principais mercados latinos e na Espanha no Youtube, dois são reggaetons com mulheres como lead singers. Dois em 20 pode parecer um número patético mas é uma evolução de zero.

As duas artistas que conseguiram esse feito foram Karol G. e Becky G. O que ambas tem em comum além do “G” como sobrenome? O fenômeno Bad Bunny participando de suas músicas.

Mas enquanto o reggaetonero foi, sem duvida, um fator importante para o sucesso, a música é majoritariamente das mulheres, na qual ele contribui apenas com alguns poucos versos. Mesmo assim, a influência dele é enormemente perceptível, principalmente na música de Karol.

Em  “Ahora Me Llama” a colombiana se apresenta como uma espécie de versão feminina do trap star porto riquenho.

“Agora me chama/Diz que eu faço falta na sua cama/Mas para mim já não dá, já não dá/Agora eu só quero sair com meu próprio squad/Afinal a vida é minha/E quero curtir ela sem a sua companhia/Agora eu quero viver minha vida/Afinal a vida é minha/Saí com o coração partido e agora já não espero nada/A não ser os melhores drinks e a roupa trazida de Dubai”.

Mais para frente, no melhor estilo “soy peor”, ela afirma: “Se antes eu era má/Agora chegou a nova versão, ainda mais má/Continuo fazendo fama/Depois decido que gostinho quero levar pra minha cama/Porque viver de amor/Isso não me faz falta/Sou dona da minha vida e em mim ninguém manda”. Já Bunny faz uma aparição breve para dizer que “para ele melhor assim como solteiro/Eu curto, bebo, fumo, faço tudo o que eu quero”. No YouTube, o vídeo da canção já tem 150 milhões de views em 2 meses.

Já Becky G. é uma criação do polêmico produtor americano Dr. Luke. Apesar de ter sido lançado na época que ele emplacava hits fáceis, Becky — nascida e criada em Los Angeles — demorou muito até obter um mid sized hit com a música “Shower”. Apesar do gostinho do sucesso, a cantora não obteve grande fama mesmo com contratos publicitários gigantes (ela é garota propaganda da CoverGirl junto com Katy Perry, Ellen e Sofia Vergara) e filmes de Hollywood (ela é a Power Ranger amarela na adaptação cinematográfica da franquia).

Depois que sua carreira teen pop não decolou, Becky mudou para o pop em espanhol mas seguiu penando. Até que se juntou com Bunny numa canção cheia de duplo sentido e, voila, sucesso na América Latina e na Espanha e 60 milhões de visualizações em poucas  semanas no YouTube.

Enquanto Karol optou pelo viés “bad bitch”, Becky preferiu os trocadilhos sexuais. Em “Mayores”, ela canta: “Eu gosto mesmo dos maiores/Os que são chamados de senhores/Que seguram a porta e me dão flores/Eu gosto daqueles que são grandes/Que não cabem na boca/Os beijos que vão me dar/Que me deixam louca”. O porto-riquenho aparece para questiona-la: “Quer um mais velho, está segura?/Te dou mil aventuras/E duro o que ele não dura”.

Para os latino-americanos que ficaram chocados com “4 Babys”, talvez seja o momento de parar de ouvir a rádio.

Causando em 2017: agora é que são elas!

Depois de alguns anos de prosperidade, a era das divas pop parece ter chegado ao fim, pelo menos temporariamente. “Witness” de Katy Perry — o grande lançamento feminino do primeiro semestre — foi oficialmente um fracasso e, durante meses, somente homens foram capazes de emplacar hits com Ed Sheeran e Justin Bieber emplacando um hit atrás do outro; lançamentos solos de absolutamente todos os ex integrantes do One Direction e desempenhos bastante respeitáveis obtidos por nomes como Charlie Puth e Shawn Medes. Isso sem falar no sucesso espetacular de rappers como Drake e Kendrick Lamar.

Os CDs de nomes como Lorde, Halsey e Lana del Rey obtiveram resultados decentes porém não espetaculares e a falta de estrelas de primeiro escalão (Beyoncé, Taylor Swift, Rihanna) e a ausência de revelações ou grandes hits pop colocaram as mulheres num lamentável e injusto papel secundário.

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Sza

Outro fator que colaborou com a erosão de nomes femininos da lista dos mais vendidos foi a a urbanização do Hot 100. O streaming — hoje responsável por mais de 50% do consumo de música nos EUA — colocou o rap e o hip-hop no center stage. No Spotify, o maior serviço, metade das músicas dentre as 50 mais ouvidas da última semana — incluindo 80% do top 10 — pertencia ao gênero urban.  No Apple Music, que também tem enorme força no mercado americano, o número é ainda mais chocante — 80% das canções mais populares eram de rap, hip-hop e R&B. Todos esses gêneros são majoritariamente dominados por artistas masculinos então isso ajudou a deixar a situação ainda mais desigual nos charts.

Dito isso, existem sinais de que as mulheres estão recuperando força e, apesar do apetite do público para cantoras de pop tradicional estar baixo, revelações tem surgido dentro do gênero favorito da juventude americana, o hip-hop.

O primeiro nome é SZA (lê-se Sizá). Descoberta em 2011 pela Top Dawg Entertainment, a agência de Kendrick Lamar, a cantora de 26 anos foi apresentada ao grande público quando apareceu na faixa de abertura do último CD de Rihanna, “ANTI”, lançado no começo do ano passado. Ela também lançou três EPs antes de finalmente colocar no mercado seu grande debut, o álbum Ctrl.

Lançado na mesma semana de “Witness” de Katy Perry, o álbum e não tem tido nenhuma dificuldade em superar as vendas do quarto disco da estrela do pop nos EUA. Sucesso de crítica e público, o lead single do CD, “Love Galore”, está no top 10 do Apple Music e escalando a passos largos o Spotify, onde já está no top 25, sendo um contender forte para entrar dentre as 10 músicas mais populares dos EUA na parada da Billboard nas próximas semanas.

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Cardi B

O outro grande nome é a rapper Cardi B. Nascida e criada no Bronx, de origem dominicana, B. é uma ex-stripper que virou um enorme sucesso no Instagram com sua irreverência e ganhou ainda mais fama ao virar parte do elenco do popular reality show do VH1, “Love & Hip-Hop New York”. Apesar de ter muitos seguidores, poucos acreditavam que ela tinha chances de emplacar uma credbile music carreer.

Mas ela está se provando plenamente capaz. Sua música, “Bodak Yellow”, já excedeu todas as expectativas, alcançando o segundo lugar no Apple Music; sendo a segunda canção mais popular no YouTube dos EUA (atrás apenas de “Despacito”) e começando sua escalada no Spotify, onde penetrou o top 50 na segunda-feira. No Hot 100, a música subiu 21 posições em uma semana, alcançando a posição #29 e se tornando oficialmente um top 40 hit. Isso parece ser só o começo da jornada de sucesso da latina.

A estréia meteórica de Cardi B é impressionante porque dá para contar nas mãos a quantidade de rappers mulheres que obtiveram sucesso. Além disso, é o melhor debut desde Nicki Minaj, faz 7 anos. Diferente de Nicki, porém, Cardi não faz parte da Young Money — a trupe do gigantesco rapper Lil Wayne — nem foi apresentada ao público em um summer smash com a participação de todos os nomes do grupo, como Drake. Ao invés disso, a música de Cardi é totalmente solo — sem nenhum featured rapper — e a única participação de algum outro nome forte do gênero é através do instrumental — ela canta em cima de uma batida de uma música do hypado rapper da Florida, Kodak Black (daí o nome da canção, “Bodak Yellow”).

Cardi B e SZA estão leading the way para mulheres na música e provando que não é preciso ser loira e com hits pop para fazer barulho. Na verdade, em um momento em que o público está sedento por mudança, oferecer mais do mesmo — como Perry fez com “Witness” — pode inclusive ser um impeditivo.

Causando em 2017: o ano foi deles

Ainda falta para encerrar o ano mas os sete primeiros meses já nos dão um retrato bem completo de vários dos principais acontecimentos pop de 2017. É isso que vamos analisar através dos próximos três posts.

Na primeira parte, o tópico são os artistas e músicas que indiscutivelmente dominaram o mundo ao longo do ano.

Um fato sobre 2017:  nada nem ninguém no cenário musical chegou perto do sucesso obtido por dois artistas e duas músicas.

O maior nome de todos foi, sem duvida nenhuma, Ed Sheeran. O britânico com seu pop água com açúcar é um fenômeno sem igual em absolutamente todos os fronts, quebrando recorde de vendas em todo o mundo; vendendo milhões de ingressos para sua turnê e obtendo o maior sucesso do ano (Shape of You), que ficou no topo por meses e meses a fio.

Sheeran, porém, esta correndo um risco: a super-exposição. A sua compatriota Adele — literalmente a única artista capaz de superá-lo em vendas mundo afora — deu uma aula de como não se desgatar, fazendo pouquíssimas aparições na mídia ao longo da promoção dos seus últimos dois álbuns.

Sheeran, em contrapartida, passou os primeiros meses do ano dando as caras em absolutamente todos os eventos e programas de TV da Europa, dos EUA e da Austrália. Ele não precisa disso: a essa altura, já está claro que ele é capaz de vender muito mesmo fazendo nada. Faz poucas semanas, sua aparição na estréia de temporada de outro colosso da cultura pop, “Game of Thrones”, foi muitíssimo mal recebida e expôs os possíveis perigos de sua onipresença.

Isso, claro, é um potencial problema a longo prazo. Por enquanto, tudo está perfeito no universo do ruivo. Sua turnê caminha a longos passos para se transformar numa das mais bem sucedidas de todos os tempos, com as datas em estádios na Europa e na Oceânia em 2018 já completamente esgotadas. Em vários países, como na Irlanda e na Austrália, ele quebrou recordes históricos de vendas de ingresso.

“Shape of You” dominou os primeiros três meses do ano, antes de ser substituída no topo pela inescapável “Despacito”. A música de Luis Fonsi e Daddy Yankee era um fenômeno sem igual na América Latina desde janeiro e estava escalando as paradas européias antes de virar um instantâneo número 1 global com o lançamento do remix com Justin Bieber no fim de abril. A música se transformou recentemente na música mais streamed da história e deverá desbancar “See You Again” como o vídeo mais visto do YouTube. A música de Wiz Khalifa e Charlie Puth demorou mais de 2 anos para alcançar 3 bilhões de views, algo que o reggaeton deverá fazer em oito meses.

E falando em Bieber, é ele que é o outro grande nome do ano. O canadense — que atingiu outro patamar em sua carreira com a ótima aceitação do seu último álbum, “Purpose” — tem emplacado um sucesso atrás do outro desde 2015 e teve seu toque de Midas confirmado em 2017, quando todas as suas colaborações atingiram o topo quase de imediato, começando por “I’m the One” com DJ Khaled, Lil Wayne, Chance the Rapper e Quavo e seguido pela inescapável “Despacito”. Desde que ele lançou seu último CD — com três smash number 1 hits, “What Do You Mean?”, “Sorry” e “Love Yourself” — Bieber já lançou cinco colaborações com nomes como Major Lazer (“Cold Water”), DJ Snake (“Let Me Love You”) e David Guetta (“2U”), todas super bem recebidas.

Além disso, foram 150 shows completamente esgotados em seis continentes com lucros recordes ao longo 16 meses. Bieber não aguentou o tranco e cancelou os 14 shows finais. Considerei algo mais do que compreensível porque não só a turnê estava longuíssima como o cantor parecia estar de saco cheio dela desde o primeiríssimo show, em março do ano passado.

Tirando a falta de entusiasmo nos shows e um ou outro piti, Justin conseguiu se manter longe das polêmicas durante a maior parte da era, o que já é uma vitória. O estado mental do cantor — que tem sido fotografado sempre todo oleoso, ao lado do pastor da igreja bizarra que frequenta — não parece ser dos melhores mas, then again, obter esse nível de sucesso tão jovem é uma garantia de problemas psicológicos. Enquanto ele continuar lançando músicas boas, o público vai continuar sem se importar.

O rap e o hip-hop sempre foram os gêneros mais populares entre o público jovem dos EUA mas o avanço do streaming no país — hoje responsável por mais da metade do consumo legal de música por lá — colocou os gêneros urbanos em outro patamar.

No meio da dominação, um trio se destacou: Migos. A música deles, “Bad and Boujee”, foi um number one hit giga na Terra do Tio Sam e eles obtiveram sucesso com outras várias músicas como “T-Shirt” e “Slippery”.

Quavo, é o líder do grupo, estando para o Migos como Beyoncé estava para o Destiny’s Child. Kelly e Michelle são, respectivamente, Offset e Takeoff. Os três são amigos de infância, nascidos e criados no estado sulista da Georgia.

Quavo, sozinho ou junto com seus dois companheiros, foi o featured artist mais popular de 2017, recrutado por absolutamente todos os artistas que queriam surfar na onda urbana que tomou conta dos EUA.

Ao notar que seu som pop estava outdated, Katy Perry pediu ajuda para os Migos e os colocou em “Bon Appetit”. Eles também apareceram, ao lado de Frank Ocean, em “Slide” do DJ escocês Calvin Harris e em um single do jamaicano Sean Paul. A música de estréia do ex-One Direction Liam Payne, “Strip That Down”, conta com a participação de Quavo que também está no novo CD da cantora indie pop Halsey e da popstar aposta do momento Camila Cabello. Ele ainda teve sucessos consideráveis ao lado de Drake (“Portland); Bieber e Khaled (“I’m the One”) e Post Malone (“Congratulation”).

Enfim, se teve alguém que trabalhou duro ao longo dos primeiros 8 meses do ano esse alguém foi Quavalicious Marshall.

What’s next?

Para a indústria musical, o ano é dividido em quatro trimestres. O mais importante deles — com as vendas mais altas — começa em outubro e é conhecido como Q4. Álbuns previstos para esse período incluem retornos de Taylor Swift, Eminem, P!nk, Sam Smith, Miley Cyrus, Demi Lovato, Shania Twain, Celine Dion, U2, dentre outros.

Nos próximos meses também teremos a confirmação de quem será o ato que vai se apresentar no Super Bowl em fevereiro do ano que vem. Minha aposta é em P!nk, que faria uma espetacular apresentação cheia de malabarismo mas também não me surpreenderia se fosse Justin Timberlake, que tem álbum previsto para ser lançado entre o fim desse ano e o começo do próximo. Por mais que Swift fosse uma escolha lógica dado o seu calibre, ela é bastante improvável pelo seu contrato publicitário com a Coca Cola. O Halftime Show é patrocinado pela Pepsi.

Seja como for, vamos ficar ligados.

How-to: Como ser a revelação musical fenômeno do ano no Reino Unido

Leia antes: A cena musical britânica e sua constante renovação

No post anterior, fiz um repasse detalhado das renovações da cena musical britânicas e das revelações que aparecem ano após ano. E agora, vim ensinar como você também pode seguir os passos de Adele e Ed Sheeran e se transformar no novo fenômeno de vendas do Reino Unido rssssss

Mas falando sério, ao longo de meus anos de observação, percebi que existe uma receita para que as grandes apostas das gravadoras atinjam o seu máximo potencial. Essa receita acaba sendo, na verdade, um ótimo insight da indústria britânica como um todo. Por isso, acho interessante dividir com vocês as várias etapas que ajudaram Sheeran, Sam Smith dentre vários outros a alcançar sucesso meteórico com seus primeiros álbuns.

  • Antes do público, conquiste a indústria: Isso foi essencial para absolutamente todos os ganhadores do Critics’ Choice, afinal de contas, nenhum deles teria ganho o prêmio se eles não tivessem executado esse passo à perfeição. Ser bem conectado dentro do biz é necessário para que tudo esteja alinhado a favor do artista no momento que este tiver a chance de lançar um álbum. Glynne, Jessie J e Emeli Sande conheceram os produtores por detrás de seus sucessos através de carreiras como compositoras. Florence, Bay e Smith também faziam parte do inner circle musical fazia tempo. Além disso, ter essas conexões é importante para conseguir reuniões, fazer shows privados para executivos tanto nos EUA quanto no Reino Unido, ter  early buzz nas principais rádios e na BBC e para, quem saber, ser convidado para ser vocalista convidado em algum hit em potencial, o que nos leva a outro ponto…
  • Hits pré-estreia aumentam seu valor no mercado: Ser vocalista convidado em canções de sucesso aumentam o interesse do público e garantem airplay do material solo do artista nas grandes rádios. Jess Glynne, Emeli Sandé e Sam Smith tiveram impulso enorme graças a participação deles em number one hits de outros artistas e produtores antes de suas estreias oficiais.
  • Tente cultivar uma fanbase antes da seu primeiro single oficial: Lance mixtapes, disponibilize seu trabalho na internet, consiga buzz através de shows pequenos, cante em festivais. Foi assim que Ed Sheeran conseguiu um top 5 hit de imediato quando finalmente teve chance de lançar “The A-Team” mas também funcionou muitíssimo bem para Lily Allen, James Bay, dentre vários outros. Outro bom meio para ganhar divulgação é o BBC Introducing, que destaca novos talentos e dá espaço para novatos tanto na Radio 1 quanto em palcos especiais em festivais de grande porte como Glastonbury, T in the Park, Leeds and Reading e o próprio evento da estação, Radio 1 Big Weekend. Foi através do Introducing que Bastille, George Ezra, Florence & the Machine e Jake Bugg foram apresentados ao público.
  • Tenha credibilidade (ou a ilusão de ter): Mesmo que você seja uma artista puramente pop comercial, como Jessie J, é sempre um bônus criar a ilusão de que você é um ~artista de verdade~ que acrescenta algo de novo a cena. Fazer a estréia no Jools Holland — um programa bastante popular entre music snobs e conhecido por destacar música boa e musicos autênticos — é um ótimo começo e foi a plataforma de lançamento de basicamente todas as revelações citadas nesse post. Ser incluso no line-up do Glastonbury e outros festivais mais “sérios” também é muito bom, assim como ter alguma cobertura na imprensa especializada. Outro ponto importante: ganhar destaque na Radio 1, a rádio da BBC que, apesar de ser comercial, também tem credibilidade. Seja hyped pelas personalidades da emissora e tente aparecer no Radio 1 Live Lounge — onde artistas cantam versões stripped down de seus hits e fazem covers de sucessos de terceiros — para mostrar sua versatilidade e dotes vocais.
  • Mas também seja comercial: A Radio 1 é um bom começo mas, para ter um hit, é essencial ter airplay nas rádios top 40 comerciais, sobretudo a Captial FM, a estação líder entre jovens. Para isso, claro, a música tem que estar de acordo com as tendências do momento. Televisão também é muito importante: é preciso ir em pelo menos um talk-show de destaque (Graham Norton na BBC1 é o mais cobiçado mas Jonathan Ross na ITV também é uma boa alternativa) e, para os que tem estomago, The X Factor segue sendo um prime spot de divulgação, mesmo em plena decadência. Cantar no evento anual de caridade da BBC — Children in Need ou Comic Relief — é ótimo mas ainda melhor é uma música sua escolhida como o “single oficial” do evento (como aconteceu com Sam Smith; James Bay; Ellie Goulding e Jess Glynne). Além de Glastonbury, não dá para dispensar festivais mais comerciais — como o V Festival — e eventos grandiosos organizados pela rádio. O Radio 1 Big Weekend é um must mas o Capital FM Summertime Ball ou o Capital FM Jingle Bell Ball também são um big deal, principalmente para os que tem uma sonoridade e imagem mais pop.
  • Para pais e filhos: Os jovens gostarem de você é muito importante mas, para vender muito, é bastante útil ter as mães e os pais e os tios e as tias do Reino Unido inclinados a comprar sua música, afinal são eles que mais compram CD. Aparecer na TV, claro, ajuda o artista a atingir esse público mas os singles têm que ser atuais o suficiente para estar na Capital FM mas também melódicos na medida certa para conseguir airplay nas rádios voltadas ao público acima dos 30, como Radio 2, Magic ou Heart. Ou seja, evite ter um guest rapper. E cuidado: exposição em rádios adultas é bom para vender CD mas, se você quiser manter a imagem de hip e cool, não se associe demais a esse público. Evite, por tanto, eventos “de velho”. Entrar na playlist da Radio 2 é bom mas deixe o Radio 2 Live in Hyde Park, o grandioso evento organizado pelo estação, para Elton John; Rod Stewart e Bryan Adams ou para artistas que os jovens já decidiram que não querem mais (tipo Leona Lewis). O lugar do artista cool é no Radio 1 Big Weekend.
  • Tenha ambições de conquistar a América: O artista precista ter ambição e a confiança de que conseguirá penetrar o mercado dos EUA. A verdade é que ele provavelmente não conseguirá, mesmo se tiver obtido grande sucesso no Reino Unido, mas todos os A&R de gravadoras e empresários só apostam em que eles acreditam que tem chance de conquistar a muitíssimo valiosa Terra do Tio Sam. Esteja disposto para ir no programa da Ellen, em programas matinais e late night talk shows e shows de rádio e e shows para executivos do outro lado do Atlântico. Conseguir um slot para cantar no Saturday Night Live já é meio caminho andado e você já pode se considerar vitorioso se conseguir um top 10 hit ou uma indicação a Best New Act no Grammy.
  • Timing é tudo: O álbum deve ser lançado bem próximo de um single bem pancada, que tenha probabilidade altíssima de virar hit e represente o som e a vibe do artista. Stay with Me de Sam Smith e Hold my Hand de Jess Glynne e Hold Back the River do James Bay e Next to Me de Emeli Sandé e Starry Eyed de Ellie Goulding foram todos lançados bem próximos aos respectivos álbuns. Por outro lado, o CD de Tom Odell chegou as lojas meses depois de Long Way Down, o maior hit dele, o que possivelmente colaborou para que as vendas não fossem tão altas quanto esperado.
  • Corra para o abraço: Caso você obtenha sucesso nos passos acima, você será convidado para uma grandiosa performance no BRIT Awards do ano seguinte ao lançamento do seu álbum e, quiçás, ganhara um prêmio. Possivelmente, será o ápice da sua carreira, então aproveite. Os mais sortudos conseguiram sustentar o sucesso por mais álguns álbuns ou algum tipo de sucesso nos EUA, mas não todos. Boa sorte!

A constante renovação da cena musical britânica

A indústria fonográfica do Reino Unido — a terceira maior a nível global (atrás dos EUA e do Japão) — é uma das mais dinâmicas do mundo e é origem de vários dos artistas mais influentes da história (Beatles; Rolling Stones; Queen; Spice Girls; Oasis) e da contemporaneidade (Adele; Ed Sheeran; Coldplay).

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Adele, maior estrela do mundo, made in UK

Mas, claro, é uma indústria que depende, acima de qualquer coisa, do mercado interno. E esse mercado não é moleza: o público britânico é bastante influenciado pelas tendências do momento e sedento por novidades. Para mantê-los satisfeitos, é necessário uma constante renovação e criação de novos talentos ano após ano.

A shelf life do artista do momento não precisar ser duradoura. Muito pelo contrário: muitos só duram 1 álbum. A longevidade não é importante, o hype a curto prazo que é. Se ele durar — alguns conseguem — ótimo. Se não, não tem problema: novos artistas — mais condizentes com o que é cool no momento — surgirão para substituí-lo.

Apesar disso ser relativamente comum em todo o mundo, o ritmo no Reino Unido é particularmente frenético e, para que essa renovação possa acontecer, a indústria britânica conta com a total colaboração da mídia local — estações de TV e de rádio sabem promover artistas a perfeição, criando hype e dando espaço para que as apostas do momento possam brilhar. Um elemento importante desse aparato todo são duas premiações específicas que tem como objetivo apresentar quem serão os hot new acts da temporada. São elas: BBC Sound of... e o BRIT Critics’ Choice.

A enquete da BBC é a mais hypada por ser mais eclética e ousada. Porém, o Critics’ Choice — que serve como uma categoria da principal premiação da música britânica, o BRIT Awards — é bem mais comercial e, por tanto, mais certeiro.

Ter o selo de escolhido do Sound of… dá uma aura de credibilidade e expectativa para o artista e garante uma cobertura decente nos veículos da emissora pública britânica, incluindo airplay na influente Radio 1.

Receber o Crticis’ Choice, porém, significa o apoio integral dos executivos das principais gravadoras e respaldo não só da BBC mas também das estações de rádio comercial e emissoras de TV privada (principalmente a Capital FM, a principal rádio top 40 do país, e a ITV, o canal que exibe os BRIT). Apesar do nome aludir a críticos, a escolha é feita, na verdade, pelos executivos das grandes gravadoras.

Através dos escolhidos nas premiações, vamos dar uma olhada em como a indústria britânica se renovou ao longo da última década.

2008:

BRIT Critics’ Choice: Adele
BBC Sound of 2008: Adele

Em 2008, o Sound Of… estava em seu sexto ano mas só então começava a exercer maior influência. Indo na mesma onda de promover novos artistas, o BRIT Crtics’ Choice foi criado. Ambos se alinharam perfeitamente, selecionando a mesma artista como vencedora: Adele. Bem óbvio o quão acertada foi essa decisão, não é mesmo? Mas é hilário voltar ao tempo e ver que, naquele então, a escolha foi quase injusta.

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Causando en español: si necesita el reggaeton, ¡dale!

A dominação atual

Um estilo domina as paradas de sucesso do mundo hispânico: o reggaeton. Esteja em Miami ou Madrid; Barcelona ou Cidade do México; Buenos Aires ou Bogota, nada bomba tanto quanto um sucesso do gênero.

Esse monopólio pode ser confirmado com uma olhada no top 50 do Spotify nos principais mercados ibero-americanos. No México, por exemplo, apenas 13 músicas em espanhol aparecem dentre as mais ouvidas, mas 10 dessas são reggaeton. Na Argentina, a dominação é ainda mais evidente: 24 dentre as 28 músicas na língua pátria entre as 50 mais ouvidas pertencem ao gênero. Chile (21/25); Espanha (17/21) e Colômbia (17/19) não ficam atrás.

De certa maneira, esse takeover pode ser comparado com o sertanejo que, no Brasil, se solidificou como, de longe, o estilo mais popular. Até os números no Spotify são similares: 18 das 22 músicas brasileiras no nosso top 50 são de artistas sertanejos.

Além do sertanejo, o reggaeton também tem paralelos com o funk: um estilo assumidamente popular e que muita gente torce o nariz para mas que, na pista, é sempre sucesso garantido.

A origem

Comparações aparte,  a explosão do reggaeton é relativamente recente. O gênero surgiu no Panamá, na década de 1980, antes de chegar em Nova Iorque e, finalmente, em Puerto Rico. Foi na colônia estado-unidense onde o estilo começou a se massificar, com o gigantesco sucesso de Don Omar. A explosão internacional de Gasolina de Daddy Yankee, em 2004, confirmou o reggaeton como um dos principais pilares da música latina.

Enquanto o sucesso de Omar ficou mais restringido ao mercado latino (pelo menos até 2010, com Danza Kuduro),  Gasolina transcendeu barreiras linguísticas e atingiu o top 10 geral da Billboard assim como as paradas europeias e até japonesa. O álbum que continha a música, Barrio Fino, vendeu 1.7 milhão de unidades nos EUA, o maior vendedor latino da década. E Yankee se transformou numa lenda e no rei do reggaeton.

Nenhum dos singles subsequentes teve o alcance internacional de Gasolina, mas o porto-riquenho se transformou num staple na cena latina e suas músicas fazem sucesso até hoje. O triunfo dele também ajudou dezenas de outros grandes nomes do reggaeton — todos de origem porto-riquenha — a emergirem.

A música desses artistas fez a América toda dançar mas a falta de sangue novo no gênero acabou causando uma saturação e Pitbull, com suas produções mais urban top 40, grande partes dela em inglês, se apossou do nicho festeiro no final da década.

Mas Yankee, Wisin, Yandel e demais artistas nunca pararam de produzir hits e se mantiveram consistentes no cenário latino (que, aliás, é bem fiel). Na Espanha, o DJ catalão Juan Magan — o rei do electrolatino — junto a outras dezenas de artistas provenientes das Américas também ajudaram a fazer do ritmo algo completamente inescapável. Mesmo ofuscado, o estilo foi uma presença constante, ajudando a abrir caminho para o atual monopólio.

De San Juan a Medellin

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Enquanto Puerto Rico foi quem deu o ponta pé inicial no fenômeno, foi a Colômbia, especificamente a cidade de Medellín, que elevou o estilo ao seu atual patamar e deu uma nova roupagem ao gênero. O primeiro megastar proveniente dessa nova fase foi J. Balvin.

A hypada publicação americana Fader, que dedicou uma capa ao megastar latino, fez uma boa descrição da diferença entre o colombiano e os anteriores ícones do gênero:

“O reggaeton de Balvin é mais sutil, mais relaxado e mais em linha com o que está acontecendo na cena pop e hip-hop atual. Enquanto Daddy Yankee parecia estar gritando em suas músicas, Balvin canta com uma pronunciação mais suave”, descreve a revista.

“Ao invés de enormes óculos aviadores e bonés largos, Balvin opta por um chapéu de cowboy de abas largas e streetwear direto da passarela de designers badalados como Guillermo Andrade”.

Assim como Kanye e Drake ajudaram a reinventar a cena do rap, Balvin — com seu swagger e estilo — marcou um novo começo na cena do reggaeton. Em 2011, ele começou a emplacar sucessos na Colômbia. Em 2012, Yo Te La Dije e Tranquila estouraram nos EUA, nas Américas e na Espanha. E, em 2013, ele obteve seu primeiro mega blockbuster hit com 6 AM. Seu primeiro álbum, La Familia, foi um grande sucesso e, provando que tinha chegado de verdade,  emplacou logo em seguida outro inescapável hit, Ay, Vamos.

O estilo único de Balvin está diretamente ligado a sua história de vida: nascido numa família de classe alta em Medellín, ele cresceu apaixonado por grunge e Nirvana. Depois,  descobriu Daddy Yankee, sua maior inspiração. Sua família foi a falência e Balvin começou a transitar entre dois mundos, estudando numa escola de elite e vivendo num bairro próximo do gueto. Num intercâmbio para os EUA, ficou fascinado pelo universo do rap e hip-hop e todo o business bilionário em torno do gênero. Voltou para sua cidade natal disposto a fazer do reggaeton um negócio similarmente lucrativo. E, claro, o resto é história.

Balvin aponta Yankee como a figura responsável por fazê-lo se apaixonar pelo reggaeton. O porto-riquenho também tem influência direta em outro dos principais nomes ligados a cena de Medellín, Nicky Jam.

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Nicky Jam

Jam nasceu em Massachusetts mas foi criado em San Juan, Puerto Rico. Seu talento chamou atenção de Daddy Yankee, que o apoiou e o treinou em seus primeiros anos, além de ter colaborado com ele em várias músicas. Não demorou para começar a obter sucesso mas as drogas e uma briga com seu mentor (que estava prestes a estourar com Gasolina) deram fim prematuro a sua carreira, interrompida em 2005.

Com a autoconfiança abalada, Nicky Jam se mudou para Medellín. A cidade era louca por reggaeton mas, antes de Balvin explodir, poucos imaginavam que alguém de lá poderia se tornar um grande astro do gênero. A chegada do porto-riquenho na cidade — com seu sucesso prévio e sua antiga associação com Yankee — causou burburinho e não demorou para as portas começarem a se abrir uma atrás da outra.

A forte cultura musical colombiana (cujo gênero local principal é o vallenato) influenciou Jam a dar mais melodia e romantismo a suas produções. E, depois de anos se preparando, ele finalmente estava pronto para oficialmente retornar. Foi um sucesso de imediato. Em 2014, a repercussão arrebatadora do single Travesuras o colocou na primeira linha. Apesar de ter nascido nos EUA e ter sido criado em San Juan, o sucesso dele era made in Colombia.

Em paralelo a Jam e Balvin, outra cria de Medellín começava a deixar sua marca. Enquanto Travesuras estourava, Maluma, então com 20 anos, conquistava a Colômbia com seu rostinho bonito e se estabelecia como o maior teen idol do país. O sucesso da sua música La Temperatura abriu as portas dos EUA, assim como de outros mercados latinos e da Espanha e deixava claro que ele também não estava para brincadeira. Com a ajuda das redes sociais, o garoto se estabelecia como uma das estrelas mais rentáveis da América Latina.

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Maluma

2015: o ano em que reggaeton virou a norma

Se Travesuras tinha dado nova vida a carreira de Nicky Jam, o porto-riquenho — agora baseado em Medellín — não imaginava o que estava por vir em 2015: seu single subsequente se transformaria num dos maiores sucessos em espanhol da história recente.

El Perdón, que contava com a participação de Enrique Iglesias, inquestionavelmente um dos maiores astros da música latina, passou 1 ano inteiro no topo de absolutamente todos os países de língua hispana (e 30 semanas no topo do Hot 100 Latin dos EUA), acumulou mais de 1 bilhão de views no YouTube e se transformou na música em espanhol mais streamed do Spotify (335mi), transcendendo barreiras e atingindo o top 10 de mercados não latinos como Alemanha, França, Suécia e Holanda. A música cristalizou a posição de Jam dentre os maiores nomes da música latina. O single também significou um renascimento de Enrique Iglesias.

De certa maneira, Iglesias serve como um termômetro do que é popular no cenário latino: ele está sempre colaborando e produzindo músicas de maneira milimetricamente planejada para obter os maiores hits.

Sendo assim, a transição de Enrique para o reggaeton foi um momento divisor de águas: era um sinal de que o gênero deixava de ser apenas mais um estilo popular para se transformar no estilo principal.

Iglesias é, desde meados dos anos 90, um dos maiores nomes da música em espanhol. Assim como seu pai, Julio, seu repertório era formado por baladas românticas e, logo de cara, ele virou um dos maiores astros da América Latina, com hits como Experiencia Religiosa e Nunca Te Olvidaré antes de crossover para o mercado anglo-saxão com giga hits como Hero e Escape.

Em 2007, Iglesias voltou as paradas com uma série de sucessos em inglês como I Like It e Tonight (I’m Fucking You), quase todos com participação de Pitbull. Para suas canções em espanhol, contudo, ele seguiu apostando em um som mais romântico, obtendo grandes sucessos como Cuando Me Enamoro, uma colaboração com Juan Luis Guerra que ficou 14 semanas em primeiro lugar, assim como duetos com grandes ícones da música romântica como Romeo Santos (Loco) e Marco Antonio Solis (El Perdedor)

Mas, em 2014, o artista espanhol começou a flertar com estilos mais dançantes. O resultado foi Bailando, uma colaboração com o grupo Gente de Zona e o artista Descemar Santos, ambos cubanos, que mesclava pop, flamenco e um pouco de reggaeton. Foi um sucesso sem precedentes na carreira do artista, superando todos os seus sucessos anteriores (e isso não era tarefa fácil para alguém que, naquela altura, já tinha passado 104 semanas no topo da parada Latina da Billboard).

Foram 41 semanas ininterruptas no topo da Billboard Latin Tracks, um recorde histórico. Nos EUA, a canção vendeu 3 milhões de unidades, números inéditos para uma faixa em língua estrangeira. Na Espanha e na América Latina, a música tocou — sem parar — por 1 ano inteiro. O clipe acumulou mais de 1.6 bilhão de visualizações no YouTube, se tornando o vídeo em espanhol mais visto na plataforma (e o nono mais visto no total).

Repetir esse sucesso não seria fácil. Mas daí Iglesias viu um trecho de El Perdón, que Jam estava previewing no Instagram; pediu para participar e o resto é história. A canção fez o impossível e igualou o sucesso histórico da antecessora, dando para Enrique mais um ano ininterrupto no topo das paradas de todos os países hispano e além (a música foi um enorme sucesso em quase toda Europa continental).

O fenômeno da colaboração com Nicky Jam fez com que Enrique finalmente assumisse seu novo papel de reggaetonero. Duele El Corazón, seu follow-up, uma colaboração com Yandel, provavelmente encerrará o ano como um dos maiores hits de 2016.

O cenário atual

Basta ver a diferença de orçamento entre os clipes de reggaeton de 2014 para o presente para constatar que, graças a rentabilidade dos principais nomes do gênero, muita coisa mudou.

Enquanto Iglesias se acomodava e Nicky Jam ascendia, J. Balvin seguia imparável. Depois do sucesso de 6 AM e Ay, Vamos!, Balvin lançou, em julho, o que se tornaria seu maior hit internacional até então: Ginza. A música foi catapultada quase de imediato para o topo de todos os países que falam espanhol (e substituiu El Perdón na Hot 100 Latin, onde ocupou o primeiro lugar por 20 semanas)  e é a segunda canção em espanhol mais ouvida da história do Spotify. No YouTube, são mais de 700 milhões de visualizações (mas ainda não chega nem perto do sucesso de Ay Vamos! na plataforma).

Balvin atingiu um milestone importante quando foi selecionado para fazer parte do jurado do The Voice mexicano. O programa frequentemente atraí nomes gigantes para seu painel, como Alejandro Sanz e Laura Pausini. Sendo assim, a adição de Balvin foi um huge deal e um testamento de sua força no mercado (de quebra, a candidata dele ainda ganhou a edição), consolidando-o como um household name no México, inquestionavelmente o principal mercado hispano-americano (que tem influência direta no que faz sucesso no lucrativo mercado latino dos EUA). Por lá, ele ainda tem tem um contrato milionário com a Pepsi e aparece nas embalagens do refrigerante.

Ele também se solidifica como um fashion icon — algo nunca antes visto no cenário urbano latino — usando peças Gucci, Saint Laurent, Chanel e colaborando até com a Vogue.

Mais importante, ele segue como um hitmaker impressionante. Otra Vez, sua colaboração com o duo porto-riquenho Zion & Lennox, é atualmente o reggaeton mais badalado na América Latina, no top 5 do Spotify do México, Espanha e Argentina (e disparado em primeiro no Chile e na Colômbia). Seu atual single solo, Safari, acumulou 30 milhões de visualizações no YouTube em uma semana (depois de duas semanas de exclusividade na Apple Music). E o anterior, Bobo, quebrou recorde de views e streams nas principais plataformas.

Assim como Balvin, Nicky Jam também tem o toque de Midas:  depois de 20 semanas ininterruptas em primeiro lugar no Hot Latin Tracks, Ginza foi substituído no topo da Billboard pelo primeiro single pós-El Perdón do porto-riquenho, Hasta El Amanecer. A canção encabeçou a lista por 14 semanas  e quebrou recordes no YouTube  e no Spotify (sendo o single em espanhol de maior sucesso de 2016 em ambas as plataformas).

Sua colaboração com Cosculluela, Te Busco, também está impressionando: apesar de nem sequer ter um clipe ou um lyric video oficial, a canção já tem mais de 300 milhões de views no YouTube e está prestes a penetrar o seleto grupo de músicas em espanhol no Spotify que superaram 100 milhões de streams (apenas 12 canções no idioma atingiram a marca, das quais três são de Jam).

Nada mais natural que tanto o colombiano quanto o porto-riquenho estejam em altíssima demanda. O primeiro colaborou com Pharrell Williams (que cantou em espanhol para a canção Safari) e Justin Bieber (sendo responsável por adicionar alguns versos na versão para o mercado hispânico do giga hit Sorry). O segundo foi acionado por Maná, inquestionavelmente o maior grupo de rock latino , para fazer um remake reggaeton de De Pies a Cabeza, um sucesso de 1992, e também por Sia, que o incluiu na versão latina de Cheap Thrills.

Mas a disputa pelo topo não foi só entre Balvin, Jam e Enrique. O já mencionado Maluma está se provando um fenômeno igualmente potente e, possivelmente, o nome mais rentável de todos. Com seu rosto de proporções perfeitas e seu estilo fashion, o autodenominado Pretty Boy, Dirty Boy emplacou seu primeiro gigantesco hit, Borro Cassette, no começo desse ano. A música atingiu o topo em todos os principais mercados — México, Argentina, Chile, Espanha — e o terceiro lugar nos EUA.

O poder dele ficou claro quando os ingressos de sua turnê foram disponibilizadas. Ele esgotou 5 noites no Luna Park de Buenos Aires em tempo recorde e sua turnê mexicana, incluindo duas noites no lendário Auditorio Nacional da Cidade do México, também estava toda vendida com meses de antecedência. Enquanto Balvin assinou com a Pepsi, Maluma é garoto propaganda da Coca Cola. Nas redes sociais, seus números já superam os de quase todas os outros mega astros latinos. Seus singles são imediatamente adicionados na alta rotação das rádios latinas, além de penetrarem as paradas do Spotify com enorme rapidez. No Youtube, ele é rei absoluto de views. No Instagram, nenhuma estrela hispânica tem tantos seguidores e likes.

Seu calibre é tamanho que sua estreia no Brasil foi digna de estrela internacional de primeiro escalão, aparecendo com equal-billing em Sim Ou Não, primeiro single do novo álbum de Anitta, a maior estrela pop do país (Ginza de J. Balvin também fez sucesso aqui graças a uma versão com a participação dela).

Anitta está longe de ser a estrela mais high profile com a qual o colombiano colaborou. Ele aproveitou uma passagem relâmpago por Barcelona para gravar com uma conterrânea que é, inquestionavelmente, a maior estrela da América Latina, Shakira.  Ele também está no próximo single de outro dos principais astros da região, Ricky Martin. E Desde Esa Noche, sua colaboração com Thalia, está bombando.

A velha guarda

Apesar do enorme sucesso da nova geração, Daddy Yankee segue o rei. Já se passaram 12 anos desde seu primeiro giga hit, Gasolina, mas ele segue no topo das paradas. Shaky Shaky, seu atual single, é, junto com Otra Vez, o maior hit reggaeton do o momento. Atualmente, a canção está em primeiro no Spotify da Argentina e no top 10 de todos os demais mercados. O vídeo da canção é a música em espanhol mais popular do YouTube das últimas semanas (quarto vídeo mais visto no total, superando quase todos os lançamentos de artistas anglo-saxões).

Enquanto o som de Yankee é bem batidão, seu arquirrival, Don Omar, é conhecido por seguir uma linha bem mais romântica. Atualmente, se dedica a atuação, fazendo parte da mega franquia Velozes & Furiosos (que fez de Danza Kuduro música tema de seu quinto filme, um sucesso global).

Apesar de sempre terem posado para mídia como “inimigos”, Yankee e Omar tem, na realidade, uma relação profissional amigável. Esse ano, até fizeram uma turnê em conjunto, The Kingdom, que esgotou as principais arenas dos EUA, incluindo o Madison Square Garden de Nova Iorque, o Staples Center de Los Angeles e a American Airline Arena de Miami.

Além dos dois, outra dupla monopolizou o gênero nos idos dos anos 2000: Wisin & Yandel. Depois de gravar dezenas de sucessos em conjunto, ambos seguiram em carreira solo. Wisin obteve um hit inescapável em 2014, Adrenalina, com a ajuda de J.Lo e Ricky Martin enquanto Yendel fez bonito junto a Daddy Yankee com Moviendo Caderas. Depois, Wisin se juntou a estrela colombiana do pop vallenato, Carlos Vives, no sucesso Notas de Amor e Yandel, sozinho, obteve grande sucesso com Encantadora.

Hit instantâneo

O mercado latino é extremamente fiel. Shakira é capaz de produzir um hit instantâneo no continente hoje em dia quase tão facilmente quanto em 2003 ou em 1997. Ricky Martin, Marc Anthony, Chayanne, Maná e Alejandro Sanz seguem enchendo os maiores estádios. Uma vez que o público latino te aceita entre os grandes, ele não vai te abandonar tão facilmente. Mas fidelidade e consistência não significa que eles não são ofuscados pelas novas sensações jovens. Por isso, um remédio foi encontrado: se associar com as tais sensações.

Seguindo o exemplo de Iglesias, todos os principais  nomes da música em espanhol estão se rendendo ao reggaeton.

Lançado em 2015, La Mordidita, de Ricky Martin, foi o maior hit do porto-riquenho na década. O próximo single dele, que será lançado essa sexta, será uma colaboração com Maluma. O lendário cantor colombiano Carlos Vives também frequentemente colabora com o pretty boy colombiano (o fato de dividirem um empresário provavelmente ajuda) e obteve um grande sucesso com Notas de Amor, junto a Wisin e Daddy Yankee. Marc Anthony emprestou seus vocais para La Gozadera, o giga hit do Gente de Zorra que homenageia a América Latina (e, ironicamente, foi um dos maiores hits da história recente não no continente, mas sim na Espanha, atrás apenas de El Perdón). Com Desde Essa Noche, também colaboração com o fenômeno Maluma, Thalía obteve seu maior sucesso da década.

Outra técnica utilizada para maximizar o impacto das canções no mercado latino: regravá-las em estilo reggaeton.

Carlos Baute, popular cantor de origem venezuelana, tem obtido grande sucesso com Amor y Dolor refeito pelo duo porto-riquenho Alex & Fido. A banda romântica mexicana Reik fez sucesso com Ya Me Enteré mas o urban remix, refeito por Nicky Jam, é o que está penetrando o top 10 do Spotify em países onde a versão original não chegou sequer ao top 50 (como Argentina, Chile e Espanha). Como já mencionei antes, até o Maná, não exatamente conhecidos por serem inovadores, se rendeu, relançando uma versão do seu hit de 1992, De Pies à Cabeza com Jam. Vários dos maiores hits internacionais do ano (Cheap Thrill; Sorry; Cold Water) também adicionaram os principais nomes do gênero (Balvin, Jam, Don Omar) em remixes lançados especialmente para o mercado hispânico.

Dos países hispânicos para o mundo

O mais óbvio próximo passo é fazer com que o gênero conquiste de vez o resto do mundo.

Isso inclui, claro, os dois principais mercados de todos, notoriamente resistentes a músicas estrangeiras: os EUA e o Reino Unido (Gasolina e Danza Kuduro foram as únicas duas músicas a atingirem o mainstream nesses dois países).

No Brasil, Anitta, inquestionavelmente o maior nome pop do país, serve como uma embaixadora não oficial do gênero. Com a ajuda dela, Ginza, de J Balvin, obteve sucesso por aqui e Maluma está sendo introduzido em grande estilo pela diva pop . Fica a dúvida se o reggaeton, que já conquistou todo o resto do continente, conseguirá levantar voo em nosso mercado.

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Alguns acreditam que gravar em inglês pode agilizar a conquista do mundo anglo. Nicky Jam, que nasceu nos EUA e Enrique, um ato global, costumam gravar versões em inglês dos seus maiores hits. Apesar de o idioma ter mais alcance, nenhum desses remakes ganhou tração.

Já Balvin declarou que não pretende se render. A aposta dele é que o mundo English-speaking que se entregará ao espanhol (como Pharrell Williams faz no atual single do colombiano ou Drake fez em Odio, do astro da bachata Romeo Santos).

Seja como for, a verdade é que os ventos sopram a favor do reggaeton: os dois maiores sucessos de 2016 foram One Dance de Drake e Work da Rihanna, ambas músicas que, assim como o estilo sensação latino, têm enorme influência jamaicana e caribenha. Repetição e batidas familiares são a porta para o sucesso. Logo, essa onda tropical abre precedentes para músicas com estilo similar — como reggaeton – acontecerem nas rádios e nas paradas mundo afora.

Será que é só questão de tempo até as paradas globais refletirem as da Espanha e da América Latina?

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Causando nas Paradas: Dominação escandinava

O sueco Max Martin é, sem duvida nenhuma, o produtor mais influente e poderoso da música popular moderna, tendo sido responsável tanto pelos hits definidores de Britney Spears e dos Backstreet Boys no fim dos anos 90 quanto pelos sucessos inescapáveis contemporâneos de Taylor Swift, Katy Perry, The Weeknd, Maroon 5 e inúmeros outros. Por sua vez, grande parte do repertório estourado de Rihanna veio dos estúdios dos noruegueses do Stargate.

Baseado apenas nesses dois, já dá para comprovar que a mágica escandinava é elemento essencial no sucesso de 99% dos nomes mais estourados da música pop global. Recentemente, porém, a Escandinávia parece ter cansado de ficar apenas nos bastidores e está começando a invadir o palco principal.

Estrelas provenientes da região estão dominando as paradas dos mercados mais influentes do mundo e, cada vez mais, os charts da Noruega, Dinamarca e, principalmente, da Suécia são indicativas de futuros sucessos internacionais.

A banda dinamarquesa Lukas Graham (capitaneada, coincidentemente, por Lukas Graham) é um grande sucesso na seu país de origem desde o seu debut, em 2012. Mas, no fim de 2015, a música 7 Years virou o primeiro chart-topper deles no país vizinho, Suécia. E, se a Suécia aprovou, grandes chances do resto do mundo também abraçar.

Voila. Essa semana, a música completa 1 mês no topo da parada de singles do Reino Unido, o mercado mais influente da Europa. O single também acaba de alcançar o primeiro lugar no iTunes dos EUA, obviamente o maior mercado fonográfico do universo.

Em dezembro de 2015, antes de 7 Years acontecer mundo afora, a canção já tinha sido desbancada na Escandinávia pelo DJ norueguês Alan Walker. Faded foi o primeiro lançamento de Walker, que tem apenas 18 anos (!!!!), e foi imediatamente para o primeiro lugar das paradas na Suécia, na Dinamarca e em sua Noruega natal.

Com o seu sucesso explosivo instantâneo, Walker demonstra seu potencial para se transformar numa mega estrela da EDM (electronic dance music) junto com outros nomes locais como Kygo (da Noruega), Avicii (o sueco é a maior estrela do gênero) e os aposentados da Swedish House Mafia que foram diretamente responsáveis por dar o gás necessário para transformar a música eletrônica em um dos gêneros mais lucrativos e populares da atualidade.

Depois de estourar na Escandinávia, o DJ começou 2016 alcançando o topo de todos os demais países europeus. Recentemente, chegou ao primeiro lugar na Alemanha, o terceiro maior mercado fonográfico ocidental, onde quebrou o recorde histórico de streaming, com 3.7 milhões de plays em plataformas como Spotify e Deezer em uma semana. No Reino Unido, a música ainda não chegou ao top 20 mas, essa semana, ela foi oficialmente inclusa na playlist da Radio 1, a estação de rádio mais influente do país.

Finalmente temos Zara Larsson. A loira, que parece ter nascido pronta para a fama pop, também tem apenas 18 anos e, através das redes sociais, mostra ser muito mais do que apenas um rostinho bonito, com seu feminismo e defesa de imigrantes e refugiados.

Na sua Suécia natal, ela já é popular faz bastante tempo, tendo sido revelada num programa de talento local e tendo atingido o topo da parada pela primeira vez com a balada Uncover, um gigantesco hit em 2013

Em junho de 2015, ela voltou para o primeiro lugar em seu país: a upbeat Lush Life foi um dos grandes hits de verão no país. Meses mais tarde, mais um mega-hit com Never Forget You, uma colaboração com o britânico MNEK. Ambas as canções também arrasaram por todo o resto da Europa e Lush Life inclusive chegou ao topo na Alemanha.

Agora, Larsson parece estar pronta para conquistar o mundo. No Reino Unido, a menina tem duas canções no top 5: Girls Like, sua colaboração com o rapper Tinnie Tempah e, algumas posições acima, seu megasucesso solo Lush Life. No fim do ano passado, Never Forget You passou semanas no top 10 e já vendeu mais de 600 mil unidades.

Agora, Zara está de olho no maior mercado de todos. Lush Life está sendo inclusa nas playlists das principais estações top 40 dos EUA, como a Z100 nova-iorquina e KIIS de Los Angeles. Enquanto a canção está escalando os charts, Never Forget You, seu hit dance com o MNEK, acaba de penetrar o top 10 do iTunes estado-unidenses. Além disso, ela foi nomeada o rosto de uma nova campanha de marketing da gigantesca de beleza Clinique. Nada mal.

Qual será o próximo mega hit? A dica é ficar de olho no chart da Suécia no Spotify.

Worth noting: o Spotify, responsável por mudar a maneira que as pessoas escutam música em todo o mundo (streaming já é até contabilizado nas principais paradas mundo afora), é outra criação sueca. No país, mais de 90% do consumo de música é feito através do aplicativo.

A plataforma, cuja sede fica em Estocolmo, é uma grande entusiasta de atos escandinavos. O  DJ sueco Aviccii, a maior e mais bem paga estrela da região atualmente, aponta o serviço de streaming como peça chave na sua explosão global. Atualmente, o Spotify promove com entusiasmo Zara Larsson, Lukas Graham e Alan Walker, os colocando em playlists proeminentemente (como a Today’s Top Hits, com mais de 7 milhões de seguidores) e dando destaque a eles em sua página inicial.

De Max Martin ao Spotify aos popstars que dominam as paradas da atualidade, parece que o Scandinavian musical takeover não vai parar tão cedo.