Causando em 2017: Latino style

Em setembro do ano passado, falei que reggaeton estava a ponto de conquistar o mundo. Quase um ano depois, a previsão se provou certeira. “Despacito” é a maior música do planeta, quebrando um recorde atrás do outro e, depois de três meses, acaba de ser substituído no topo da parada global do Spotify por “Mi Gente” do colombiano J Balvin. Enquanto isso, Daddy Yankee é o artista mais ouvido na principal plataforma de streams do mundo.

Tá tudo dominado

A conquista mundial do reggaeton está em andamento mas, na América Latina e na Espanha, a dominação está mais do que consolidada. O sucesso é tanto que a pluralidade nos charts quase acabou e até alguns dos maiores fenômenos do mercado hispânico — como Romeo Santos, o ícone do bachata, o estilo da moda faz poucos anos — tem tido dificuldade para emplacar hits.

Depois de obter fama avassaladora com o seu grupo Aventura, Romeo se consolidou como o maior nome da música latina . Seu segundo álbum, “Formula, Vol. 2”, lançado em 2014, fez com que ele desbancasse até Shakira como o maior nome da América Hispânica.

Mas, desde que ele entrou em um break, o reggaeton ganhou tanta força que seu aguardado retorno esse ano foi ofuscado pelo sucesso fenomenal de canções do gênero, como a inescapável “Despacito”.

Lançado em fevereiro, seu comeback single “Heróe Favorito” teve resultados dignos mas muito aquém ao esperado de um cantor que encheu absolutamente todos os estádios da América Latina e obteve, com o lead single do álbum anterior, “Propuesta Indecente”, um dos maiores hits em espanhol da década.

O problema de “Heróe Favorito” foi que, na minha opinião, a música era tão tipicamente Romeo que poderia ser uma faixa de qualquer álbum dele. Espera-se que um primeiro single tenha o som marca registrada do artista combinado com algo striking que prenda a atenção do ouvinte para o seu retorno.

Isso, somado ao fato de que bachata perdeu espaço para reggaeton com a ausência de Romeo da cena, fez com que a música do maior astro de todos acabasse passando despercebida.

Para o segundo single, Romeo step up his plate e trouxe a muito mais pegajosa e marcante “Imitadora”. Agradou bem mais aos ouvintes e foi um sucesso maior, apesar de que não chegou ao patamar dos grandes hits do reggaeton — algo que ele era capaz de fazer com facilidade faz apenas dois anos.

Nesse cenário de ditadura do reggaeton, sempre existe a opção de seguir os passos de Shakira e Enrique Iglesias e se render ao gênero.

Mas, diferente das estrelas pop, Santos sempre foi de raiz. Ele é fiel ao estilo que o catapultou ao estrelato e raramente dá o braço a torcer. Mesmo quando colaborou com Drake — o maior rapper do universo — ele não se flexibilizou: foi o canadense que se rendeu e cantou em espanhol, no maior estilo cantor brega latino.

Mas o poder do reggaeton é tanto que Santos não se segurou. Seu novo álbum, “Gold”, inclui a canção “Bella y Sensual” com Daddy Yankee e Nicky Jam. O raro gesto do nova-iorquino parece estar rendendo frutos: o bachataton já penetrou o top 50 da Espanha e de todos os países latinos no Spotify e, em tempo recorde, alcançou o top 10 no Chile, superando o sucesso de todos os demais single que ele lançou ao longo de 2017.

Além de colaborações com os maiores nomes da música romântica em espanhol — Juan Luis Guerra, Julio Iglesias — ele ainda colabora em mais outra faixa com uma das maiores estrelas do reggaeton, Ozuna.

Apesar de estar em uma fase mais modesta, Romeo segue arrasando: a estréia do seu terceiro álbum solo foi a melhor semana de vendas de um álbum latino nos EUA, superando “El Dorado”, o CD de Shakira, lançado em junho.

O fenômeno Shakira

Falando em Shakira, ela é outra que resolveu apostar no seguro e entregou um álbum cheio de reggaeton. “Chantaje”, o maior hit do CD, foi uma colaboração com o fenômeno Maluma. Mais uma música com o jovem reggaetonero foi inclusa no álbum e deve ser lançada como single depois de uma colaboração bem pancadão com Nicky Jam, cujo vídeo acaba de ser gravado.

O interessante é que, apesar de ter se rendido ao reggaeton, Shakira é uma das poucas artistas latinas capaz de obter sucesso se desviando do gênero. Enquanto Santos teve problema para emplacar “Heroé Favorito”, “Deja Vu”, a colaboração da colombiana com Prince Royce — também uma típica bachata — entrou no top 50 do Spotify de todos os mercados hispânicos na mesma semana que o vídeo foi lançado. Seu pop vallenato com Carlos Vives, outro astro colombiano, “La Bicicleta”, foi um dos maiores sucessos em espanhol de 2016.

Não recomendado para os mais sensíveis

Os dois maiores propulsores de talento da América Latina na atualidade são Puerto Rico e Colômbia. Puerto Rico é o berço do reggaeton moderno e de onde saíram quase todos os principais nomes do gênero. Já a Colômbia soube levar o estilo para outro patamar e revelou ao mundo Maluma e J Balvin, as duas maiores sensações, além de ter sido parte do renascimento de Nicky Jam, outro dos grandes nomes.

Mas, além desses dois países, outro mercado que vale a pena prestar atenção é a Republica Dominicana. A nação caribenha também teve um papel importante na criação do gênero — foram os dominicanos radicados em NY que ajudaram a cria-lo — e também é de lá o outro ritmo que tomou conta da América Latina e da Espanha, a bachata. O país da América Central também tem um gosto muito particular e é um grande descobridor de talentos do trap, um gênero do reggaeton que tem muitas semelhanças com a música urbana americana nascida no East Coast.

A influência do rap e do hip-hop de Nova Iorque no gosto local é compreensível: milhões de habitantes do país tem laços fortes com a principal cidade dos EUA, que tem uma comunidade gigante de imigrantes provenientes da Republica Dominicana. Até a bachata moderna, de Romeo Santos e do Aventura, teve origem no Bronx.

Apesar disso, o trap que a Republica Dominicana tanto ama não nasceu no país e sim em Puerto Rico, a colônia dos EUA que também tem relação estretíssima com NY. Mas apesar de não ter sido criado por dominicanos, foi a partir do país da América Central  que o gênero começou a conquista do restante da comunidade latina.

Quando Maluma lançou, em meados do ano passado, a música “4 Babys”, ele chocou o mundo hispânica com a letra. Misoginia na música não é algo raro em nenhum gênero ou país, muito menos no reggaeton latino americano, mas o que deixou muitos de boca aberta foi o baixo calão das palavras. Na canção, sobre o affair  dele com quatro mulheres diferentes, o astro colombiana fala em “meter”, “trepar”, etc. — termos comuns no funk brasileiro ou no rap americano mas pouco visto na música latina mainstream.

O astro colombiano ficou chocado com a reação negativa. Ele só estava trazendo para seu repertório o reggaeton no estilo trap, que, na verdade, já gozava de grande popularidade. Mas, até então, o estilo não tinha sido legitimidade por um astro estabelecido de primeiro escalão. Apesar de bombar no YouTube faz muito tempo, o alcance que ele deu ao subgênero foi muito maior e chegou a um público que nunca tinha sido exposto a ele antes.

No final das contas, “4 Babys” — apesar de todo o choque que a letra causou — serviu apenas como aperitivo, porque o reggaeton proibidão está cada vez mais popular na América Latina. Ozuna, a maior revelação do ano passado, flerta com o estilo e Bad Bunny, a maior sensação desse ano, faz um trap de raiz.

Provenientes de Puerto Rico, ambos estouraram na Republica Dominicana bem antes de conquistarem os demais países do continente. Bunny, em específico, é um Midas no país e todas as suas colaborações com outros nomes do trap — como Anuel AA, Jory Boy, Brytiago e Bryant Myers — são sucessos instantâneos. Agora, ele está dominando o restante das Américas e Espanha, obtendo hit atrás de hit e colaborando com gigantes como J Balvin (no mega hit “Si Tu Novio Te Dejas Solo”).

No trap de Bad Bunny, palavrões, drogas e outros temas que aparecem de maneira filtrada no reggaeton dos outros astros são lugar comum.

Alguns excertos de “Soy Peor”, seu maior hit solo, no qual ele narra estar aliviado ao terminar um relacionamento péssimo: “Agora faço tudo o que eu quero/Só penso em eu mesmo/Jogando notas dentro do puteiro/Para merda o amor verdadeiro/Eu só quero ganhar dinheiro/Baby o que tinhamos descansa em paz/Não estou nem ai para com quem você tá/Diga pra sua mãe que ela não me faz falta/Já tenho sogras demais/Tenho a branquinha que me faz um lap dance/A roqueirinha que meto com tudo, de Vans/Tenho a pretinha, a loirinha, as modelos e todas as fãs”.

A menção obrigatória a substâncias ilícitas: “Eu não quero fumar o regular/Me traga o kush que me deixa espetacular/Que já não tenho mais você para especular/E para encher meu saco por todas as fotos de bunda que tenho no celular”.

E, claro, o refrão: “Siga seu caminho, sem ti eu estou melhor/Agora tenho outras que trepam bem melhor/Se antes eu era um filho da puta, agora sou bem pior”.

Com a forte influência do rap americano, o trap também é bem americanizado. Em “Tu No Metes Cabra”, seu atual hit, Bunny fala de prom, de bleachers, de bilionários americanos, de carrões e de jogadores de basquete. A temática U.S. não impede o single de ser um enorme sucesso em todos os países, da Argentina ao México e também na Espanha. Bunny está próximo a obter o nível espetacular de sucesso alcançado por Balvin e Maluma.

Antes tarde do que nunca

Assim como no rap americano, o universo do reggaeton é um clube do bolinha. Enquanto a música pop — particularmente a mexicana — sempre teve boa participação feminina, a dominação do reggaeton apagou quase todas as mulheres da parada, com exceção da colossal Shakira.

Se aliando com Maluma, Thalia conseguiu um mega hit com “Desde Esa Noche” no ano passado. Com a participação de Cali y el Dandi, a ex-RBD Maite Perroni, hoje mais conhecida como mocinha de telenovelas mexicanas, conseguiu recentemente seu primeiro sucesso desde os tempos de Rebelde com “Loca”. Mas esses casos estão mais para exceção do que para regra.

Apesar disso, é possível que, aos poucos, as coisas estejam mudando. Dentre as 20 faixas mais populares nos principais mercados latinos e na Espanha no Youtube, dois são reggaetons com mulheres como lead singers. Dois em 20 pode parecer um número patético mas é uma evolução de zero.

As duas artistas que conseguiram esse feito foram Karol G. e Becky G. O que ambas tem em comum além do “G” como sobrenome? O fenômeno Bad Bunny participando de suas músicas.

Mas enquanto o reggaetonero foi, sem duvida, um fator importante para o sucesso, a música é majoritariamente das mulheres, na qual ele contribui apenas com alguns poucos versos. Mesmo assim, a influência dele é enormemente perceptível, principalmente na música de Karol.

Em  “Ahora Me Llama” a colombiana se apresenta como uma espécie de versão feminina do trap star porto riquenho.

“Agora me chama/Diz que eu faço falta na sua cama/Mas para mim já não dá, já não dá/Agora eu só quero sair com meu próprio squad/Afinal a vida é minha/E quero curtir ela sem a sua companhia/Agora eu quero viver minha vida/Afinal a vida é minha/Saí com o coração partido e agora já não espero nada/A não ser os melhores drinks e a roupa trazida de Dubai”.

Mais para frente, no melhor estilo “soy peor”, ela afirma: “Se antes eu era má/Agora chegou a nova versão, ainda mais má/Continuo fazendo fama/Depois decido que gostinho quero levar pra minha cama/Porque viver de amor/Isso não me faz falta/Sou dona da minha vida e em mim ninguém manda”. Já Bunny faz uma aparição breve para dizer que “para ele melhor assim como solteiro/Eu curto, bebo, fumo, faço tudo o que eu quero”. No YouTube, o vídeo da canção já tem 150 milhões de views em 2 meses.

Já Becky G. é uma criação do polêmico produtor americano Dr. Luke. Apesar de ter sido lançado na época que ele emplacava hits fáceis, Becky — nascida e criada em Los Angeles — demorou muito até obter um mid sized hit com a música “Shower”. Apesar do gostinho do sucesso, a cantora não obteve grande fama mesmo com contratos publicitários gigantes (ela é garota propaganda da CoverGirl junto com Katy Perry, Ellen e Sofia Vergara) e filmes de Hollywood (ela é a Power Ranger amarela na adaptação cinematográfica da franquia).

Depois que sua carreira teen pop não decolou, Becky mudou para o pop em espanhol mas seguiu penando. Até que se juntou com Bunny numa canção cheia de duplo sentido e, voila, sucesso na América Latina e na Espanha e 60 milhões de visualizações em poucas  semanas no YouTube.

Enquanto Karol optou pelo viés “bad bitch”, Becky preferiu os trocadilhos sexuais. Em “Mayores”, ela canta: “Eu gosto mesmo dos maiores/Os que são chamados de senhores/Que seguram a porta e me dão flores/Eu gosto daqueles que são grandes/Que não cabem na boca/Os beijos que vão me dar/Que me deixam louca”. O porto-riquenho aparece para questiona-la: “Quer um mais velho, está segura?/Te dou mil aventuras/E duro o que ele não dura”.

Para os latino-americanos que ficaram chocados com “4 Babys”, talvez seja o momento de parar de ouvir a rádio.

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Causando en español: si necesita el reggaeton, ¡dale!

A dominação atual

Um estilo domina as paradas de sucesso do mundo hispânico: o reggaeton. Esteja em Miami ou Madrid; Barcelona ou Cidade do México; Buenos Aires ou Bogota, nada bomba tanto quanto um sucesso do gênero.

Esse monopólio pode ser confirmado com uma olhada no top 50 do Spotify nos principais mercados ibero-americanos. No México, por exemplo, apenas 13 músicas em espanhol aparecem dentre as mais ouvidas, mas 10 dessas são reggaeton. Na Argentina, a dominação é ainda mais evidente: 24 dentre as 28 músicas na língua pátria entre as 50 mais ouvidas pertencem ao gênero. Chile (21/25); Espanha (17/21) e Colômbia (17/19) não ficam atrás.

De certa maneira, esse takeover pode ser comparado com o sertanejo que, no Brasil, se solidificou como, de longe, o estilo mais popular. Até os números no Spotify são similares: 18 das 22 músicas brasileiras no nosso top 50 são de artistas sertanejos.

Além do sertanejo, o reggaeton também tem paralelos com o funk: um estilo assumidamente popular e que muita gente torce o nariz para mas que, na pista, é sempre sucesso garantido.

A origem

Comparações aparte,  a explosão do reggaeton é relativamente recente. O gênero surgiu no Panamá, na década de 1980, antes de chegar em Nova Iorque e, finalmente, em Puerto Rico. Foi na colônia estado-unidense onde o estilo começou a se massificar, com o gigantesco sucesso de Don Omar. A explosão internacional de Gasolina de Daddy Yankee, em 2004, confirmou o reggaeton como um dos principais pilares da música latina.

Enquanto o sucesso de Omar ficou mais restringido ao mercado latino (pelo menos até 2010, com Danza Kuduro),  Gasolina transcendeu barreiras linguísticas e atingiu o top 10 geral da Billboard assim como as paradas europeias e até japonesa. O álbum que continha a música, Barrio Fino, vendeu 1.7 milhão de unidades nos EUA, o maior vendedor latino da década. E Yankee se transformou numa lenda e no rei do reggaeton.

Nenhum dos singles subsequentes teve o alcance internacional de Gasolina, mas o porto-riquenho se transformou num staple na cena latina e suas músicas fazem sucesso até hoje. O triunfo dele também ajudou dezenas de outros grandes nomes do reggaeton — todos de origem porto-riquenha — a emergirem.

A música desses artistas fez a América toda dançar mas a falta de sangue novo no gênero acabou causando uma saturação e Pitbull, com suas produções mais urban top 40, grande partes dela em inglês, se apossou do nicho festeiro no final da década.

Mas Yankee, Wisin, Yandel e demais artistas nunca pararam de produzir hits e se mantiveram consistentes no cenário latino (que, aliás, é bem fiel). Na Espanha, o DJ catalão Juan Magan — o rei do electrolatino — junto a outras dezenas de artistas provenientes das Américas também ajudaram a fazer do ritmo algo completamente inescapável. Mesmo ofuscado, o estilo foi uma presença constante, ajudando a abrir caminho para o atual monopólio.

De San Juan a Medellin

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Enquanto Puerto Rico foi quem deu o ponta pé inicial no fenômeno, foi a Colômbia, especificamente a cidade de Medellín, que elevou o estilo ao seu atual patamar e deu uma nova roupagem ao gênero. O primeiro megastar proveniente dessa nova fase foi J. Balvin.

A hypada publicação americana Fader, que dedicou uma capa ao megastar latino, fez uma boa descrição da diferença entre o colombiano e os anteriores ícones do gênero:

“O reggaeton de Balvin é mais sutil, mais relaxado e mais em linha com o que está acontecendo na cena pop e hip-hop atual. Enquanto Daddy Yankee parecia estar gritando em suas músicas, Balvin canta com uma pronunciação mais suave”, descreve a revista.

“Ao invés de enormes óculos aviadores e bonés largos, Balvin opta por um chapéu de cowboy de abas largas e streetwear direto da passarela de designers badalados como Guillermo Andrade”.

Assim como Kanye e Drake ajudaram a reinventar a cena do rap, Balvin — com seu swagger e estilo — marcou um novo começo na cena do reggaeton. Em 2011, ele começou a emplacar sucessos na Colômbia. Em 2012, Yo Te La Dije e Tranquila estouraram nos EUA, nas Américas e na Espanha. E, em 2013, ele obteve seu primeiro mega blockbuster hit com 6 AM. Seu primeiro álbum, La Familia, foi um grande sucesso e, provando que tinha chegado de verdade,  emplacou logo em seguida outro inescapável hit, Ay, Vamos.

O estilo único de Balvin está diretamente ligado a sua história de vida: nascido numa família de classe alta em Medellín, ele cresceu apaixonado por grunge e Nirvana. Depois,  descobriu Daddy Yankee, sua maior inspiração. Sua família foi a falência e Balvin começou a transitar entre dois mundos, estudando numa escola de elite e vivendo num bairro próximo do gueto. Num intercâmbio para os EUA, ficou fascinado pelo universo do rap e hip-hop e todo o business bilionário em torno do gênero. Voltou para sua cidade natal disposto a fazer do reggaeton um negócio similarmente lucrativo. E, claro, o resto é história.

Balvin aponta Yankee como a figura responsável por fazê-lo se apaixonar pelo reggaeton. O porto-riquenho também tem influência direta em outro dos principais nomes ligados a cena de Medellín, Nicky Jam.

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Nicky Jam

Jam nasceu em Massachusetts mas foi criado em San Juan, Puerto Rico. Seu talento chamou atenção de Daddy Yankee, que o apoiou e o treinou em seus primeiros anos, além de ter colaborado com ele em várias músicas. Não demorou para começar a obter sucesso mas as drogas e uma briga com seu mentor (que estava prestes a estourar com Gasolina) deram fim prematuro a sua carreira, interrompida em 2005.

Com a autoconfiança abalada, Nicky Jam se mudou para Medellín. A cidade era louca por reggaeton mas, antes de Balvin explodir, poucos imaginavam que alguém de lá poderia se tornar um grande astro do gênero. A chegada do porto-riquenho na cidade — com seu sucesso prévio e sua antiga associação com Yankee — causou burburinho e não demorou para as portas começarem a se abrir uma atrás da outra.

A forte cultura musical colombiana (cujo gênero local principal é o vallenato) influenciou Jam a dar mais melodia e romantismo a suas produções. E, depois de anos se preparando, ele finalmente estava pronto para oficialmente retornar. Foi um sucesso de imediato. Em 2014, a repercussão arrebatadora do single Travesuras o colocou na primeira linha. Apesar de ter nascido nos EUA e ter sido criado em San Juan, o sucesso dele era made in Colombia.

Em paralelo a Jam e Balvin, outra cria de Medellín começava a deixar sua marca. Enquanto Travesuras estourava, Maluma, então com 20 anos, conquistava a Colômbia com seu rostinho bonito e se estabelecia como o maior teen idol do país. O sucesso da sua música La Temperatura abriu as portas dos EUA, assim como de outros mercados latinos e da Espanha e deixava claro que ele também não estava para brincadeira. Com a ajuda das redes sociais, o garoto se estabelecia como uma das estrelas mais rentáveis da América Latina.

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Maluma

2015: o ano em que reggaeton virou a norma

Se Travesuras tinha dado nova vida a carreira de Nicky Jam, o porto-riquenho — agora baseado em Medellín — não imaginava o que estava por vir em 2015: seu single subsequente se transformaria num dos maiores sucessos em espanhol da história recente.

El Perdón, que contava com a participação de Enrique Iglesias, inquestionavelmente um dos maiores astros da música latina, passou 1 ano inteiro no topo de absolutamente todos os países de língua hispana (e 30 semanas no topo do Hot 100 Latin dos EUA), acumulou mais de 1 bilhão de views no YouTube e se transformou na música em espanhol mais streamed do Spotify (335mi), transcendendo barreiras e atingindo o top 10 de mercados não latinos como Alemanha, França, Suécia e Holanda. A música cristalizou a posição de Jam dentre os maiores nomes da música latina. O single também significou um renascimento de Enrique Iglesias.

De certa maneira, Iglesias serve como um termômetro do que é popular no cenário latino: ele está sempre colaborando e produzindo músicas de maneira milimetricamente planejada para obter os maiores hits.

Sendo assim, a transição de Enrique para o reggaeton foi um momento divisor de águas: era um sinal de que o gênero deixava de ser apenas mais um estilo popular para se transformar no estilo principal.

Iglesias é, desde meados dos anos 90, um dos maiores nomes da música em espanhol. Assim como seu pai, Julio, seu repertório era formado por baladas românticas e, logo de cara, ele virou um dos maiores astros da América Latina, com hits como Experiencia Religiosa e Nunca Te Olvidaré antes de crossover para o mercado anglo-saxão com giga hits como Hero e Escape.

Em 2007, Iglesias voltou as paradas com uma série de sucessos em inglês como I Like It e Tonight (I’m Fucking You), quase todos com participação de Pitbull. Para suas canções em espanhol, contudo, ele seguiu apostando em um som mais romântico, obtendo grandes sucessos como Cuando Me Enamoro, uma colaboração com Juan Luis Guerra que ficou 14 semanas em primeiro lugar, assim como duetos com grandes ícones da música romântica como Romeo Santos (Loco) e Marco Antonio Solis (El Perdedor)

Mas, em 2014, o artista espanhol começou a flertar com estilos mais dançantes. O resultado foi Bailando, uma colaboração com o grupo Gente de Zona e o artista Descemar Santos, ambos cubanos, que mesclava pop, flamenco e um pouco de reggaeton. Foi um sucesso sem precedentes na carreira do artista, superando todos os seus sucessos anteriores (e isso não era tarefa fácil para alguém que, naquela altura, já tinha passado 104 semanas no topo da parada Latina da Billboard).

Foram 41 semanas ininterruptas no topo da Billboard Latin Tracks, um recorde histórico. Nos EUA, a canção vendeu 3 milhões de unidades, números inéditos para uma faixa em língua estrangeira. Na Espanha e na América Latina, a música tocou — sem parar — por 1 ano inteiro. O clipe acumulou mais de 1.6 bilhão de visualizações no YouTube, se tornando o vídeo em espanhol mais visto na plataforma (e o nono mais visto no total).

Repetir esse sucesso não seria fácil. Mas daí Iglesias viu um trecho de El Perdón, que Jam estava previewing no Instagram; pediu para participar e o resto é história. A canção fez o impossível e igualou o sucesso histórico da antecessora, dando para Enrique mais um ano ininterrupto no topo das paradas de todos os países hispano e além (a música foi um enorme sucesso em quase toda Europa continental).

O fenômeno da colaboração com Nicky Jam fez com que Enrique finalmente assumisse seu novo papel de reggaetonero. Duele El Corazón, seu follow-up, uma colaboração com Yandel, provavelmente encerrará o ano como um dos maiores hits de 2016.

O cenário atual

Basta ver a diferença de orçamento entre os clipes de reggaeton de 2014 para o presente para constatar que, graças a rentabilidade dos principais nomes do gênero, muita coisa mudou.

Enquanto Iglesias se acomodava e Nicky Jam ascendia, J. Balvin seguia imparável. Depois do sucesso de 6 AM e Ay, Vamos!, Balvin lançou, em julho, o que se tornaria seu maior hit internacional até então: Ginza. A música foi catapultada quase de imediato para o topo de todos os países que falam espanhol (e substituiu El Perdón na Hot 100 Latin, onde ocupou o primeiro lugar por 20 semanas)  e é a segunda canção em espanhol mais ouvida da história do Spotify. No YouTube, são mais de 700 milhões de visualizações (mas ainda não chega nem perto do sucesso de Ay Vamos! na plataforma).

Balvin atingiu um milestone importante quando foi selecionado para fazer parte do jurado do The Voice mexicano. O programa frequentemente atraí nomes gigantes para seu painel, como Alejandro Sanz e Laura Pausini. Sendo assim, a adição de Balvin foi um huge deal e um testamento de sua força no mercado (de quebra, a candidata dele ainda ganhou a edição), consolidando-o como um household name no México, inquestionavelmente o principal mercado hispano-americano (que tem influência direta no que faz sucesso no lucrativo mercado latino dos EUA). Por lá, ele ainda tem tem um contrato milionário com a Pepsi e aparece nas embalagens do refrigerante.

Ele também se solidifica como um fashion icon — algo nunca antes visto no cenário urbano latino — usando peças Gucci, Saint Laurent, Chanel e colaborando até com a Vogue.

Mais importante, ele segue como um hitmaker impressionante. Otra Vez, sua colaboração com o duo porto-riquenho Zion & Lennox, é atualmente o reggaeton mais badalado na América Latina, no top 5 do Spotify do México, Espanha e Argentina (e disparado em primeiro no Chile e na Colômbia). Seu atual single solo, Safari, acumulou 30 milhões de visualizações no YouTube em uma semana (depois de duas semanas de exclusividade na Apple Music). E o anterior, Bobo, quebrou recorde de views e streams nas principais plataformas.

Assim como Balvin, Nicky Jam também tem o toque de Midas:  depois de 20 semanas ininterruptas em primeiro lugar no Hot Latin Tracks, Ginza foi substituído no topo da Billboard pelo primeiro single pós-El Perdón do porto-riquenho, Hasta El Amanecer. A canção encabeçou a lista por 14 semanas  e quebrou recordes no YouTube  e no Spotify (sendo o single em espanhol de maior sucesso de 2016 em ambas as plataformas).

Sua colaboração com Cosculluela, Te Busco, também está impressionando: apesar de nem sequer ter um clipe ou um lyric video oficial, a canção já tem mais de 300 milhões de views no YouTube e está prestes a penetrar o seleto grupo de músicas em espanhol no Spotify que superaram 100 milhões de streams (apenas 12 canções no idioma atingiram a marca, das quais três são de Jam).

Nada mais natural que tanto o colombiano quanto o porto-riquenho estejam em altíssima demanda. O primeiro colaborou com Pharrell Williams (que cantou em espanhol para a canção Safari) e Justin Bieber (sendo responsável por adicionar alguns versos na versão para o mercado hispânico do giga hit Sorry). O segundo foi acionado por Maná, inquestionavelmente o maior grupo de rock latino , para fazer um remake reggaeton de De Pies a Cabeza, um sucesso de 1992, e também por Sia, que o incluiu na versão latina de Cheap Thrills.

Mas a disputa pelo topo não foi só entre Balvin, Jam e Enrique. O já mencionado Maluma está se provando um fenômeno igualmente potente e, possivelmente, o nome mais rentável de todos. Com seu rosto de proporções perfeitas e seu estilo fashion, o autodenominado Pretty Boy, Dirty Boy emplacou seu primeiro gigantesco hit, Borro Cassette, no começo desse ano. A música atingiu o topo em todos os principais mercados — México, Argentina, Chile, Espanha — e o terceiro lugar nos EUA.

O poder dele ficou claro quando os ingressos de sua turnê foram disponibilizadas. Ele esgotou 5 noites no Luna Park de Buenos Aires em tempo recorde e sua turnê mexicana, incluindo duas noites no lendário Auditorio Nacional da Cidade do México, também estava toda vendida com meses de antecedência. Enquanto Balvin assinou com a Pepsi, Maluma é garoto propaganda da Coca Cola. Nas redes sociais, seus números já superam os de quase todas os outros mega astros latinos. Seus singles são imediatamente adicionados na alta rotação das rádios latinas, além de penetrarem as paradas do Spotify com enorme rapidez. No Youtube, ele é rei absoluto de views. No Instagram, nenhuma estrela hispânica tem tantos seguidores e likes.

Seu calibre é tamanho que sua estreia no Brasil foi digna de estrela internacional de primeiro escalão, aparecendo com equal-billing em Sim Ou Não, primeiro single do novo álbum de Anitta, a maior estrela pop do país (Ginza de J. Balvin também fez sucesso aqui graças a uma versão com a participação dela).

Anitta está longe de ser a estrela mais high profile com a qual o colombiano colaborou. Ele aproveitou uma passagem relâmpago por Barcelona para gravar com uma conterrânea que é, inquestionavelmente, a maior estrela da América Latina, Shakira.  Ele também está no próximo single de outro dos principais astros da região, Ricky Martin. E Desde Esa Noche, sua colaboração com Thalia, está bombando.

A velha guarda

Apesar do enorme sucesso da nova geração, Daddy Yankee segue o rei. Já se passaram 12 anos desde seu primeiro giga hit, Gasolina, mas ele segue no topo das paradas. Shaky Shaky, seu atual single, é, junto com Otra Vez, o maior hit reggaeton do o momento. Atualmente, a canção está em primeiro no Spotify da Argentina e no top 10 de todos os demais mercados. O vídeo da canção é a música em espanhol mais popular do YouTube das últimas semanas (quarto vídeo mais visto no total, superando quase todos os lançamentos de artistas anglo-saxões).

Enquanto o som de Yankee é bem batidão, seu arquirrival, Don Omar, é conhecido por seguir uma linha bem mais romântica. Atualmente, se dedica a atuação, fazendo parte da mega franquia Velozes & Furiosos (que fez de Danza Kuduro música tema de seu quinto filme, um sucesso global).

Apesar de sempre terem posado para mídia como “inimigos”, Yankee e Omar tem, na realidade, uma relação profissional amigável. Esse ano, até fizeram uma turnê em conjunto, The Kingdom, que esgotou as principais arenas dos EUA, incluindo o Madison Square Garden de Nova Iorque, o Staples Center de Los Angeles e a American Airline Arena de Miami.

Além dos dois, outra dupla monopolizou o gênero nos idos dos anos 2000: Wisin & Yandel. Depois de gravar dezenas de sucessos em conjunto, ambos seguiram em carreira solo. Wisin obteve um hit inescapável em 2014, Adrenalina, com a ajuda de J.Lo e Ricky Martin enquanto Yendel fez bonito junto a Daddy Yankee com Moviendo Caderas. Depois, Wisin se juntou a estrela colombiana do pop vallenato, Carlos Vives, no sucesso Notas de Amor e Yandel, sozinho, obteve grande sucesso com Encantadora.

Hit instantâneo

O mercado latino é extremamente fiel. Shakira é capaz de produzir um hit instantâneo no continente hoje em dia quase tão facilmente quanto em 2003 ou em 1997. Ricky Martin, Marc Anthony, Chayanne, Maná e Alejandro Sanz seguem enchendo os maiores estádios. Uma vez que o público latino te aceita entre os grandes, ele não vai te abandonar tão facilmente. Mas fidelidade e consistência não significa que eles não são ofuscados pelas novas sensações jovens. Por isso, um remédio foi encontrado: se associar com as tais sensações.

Seguindo o exemplo de Iglesias, todos os principais  nomes da música em espanhol estão se rendendo ao reggaeton.

Lançado em 2015, La Mordidita, de Ricky Martin, foi o maior hit do porto-riquenho na década. O próximo single dele, que será lançado essa sexta, será uma colaboração com Maluma. O lendário cantor colombiano Carlos Vives também frequentemente colabora com o pretty boy colombiano (o fato de dividirem um empresário provavelmente ajuda) e obteve um grande sucesso com Notas de Amor, junto a Wisin e Daddy Yankee. Marc Anthony emprestou seus vocais para La Gozadera, o giga hit do Gente de Zorra que homenageia a América Latina (e, ironicamente, foi um dos maiores hits da história recente não no continente, mas sim na Espanha, atrás apenas de El Perdón). Com Desde Essa Noche, também colaboração com o fenômeno Maluma, Thalía obteve seu maior sucesso da década.

Outra técnica utilizada para maximizar o impacto das canções no mercado latino: regravá-las em estilo reggaeton.

Carlos Baute, popular cantor de origem venezuelana, tem obtido grande sucesso com Amor y Dolor refeito pelo duo porto-riquenho Alex & Fido. A banda romântica mexicana Reik fez sucesso com Ya Me Enteré mas o urban remix, refeito por Nicky Jam, é o que está penetrando o top 10 do Spotify em países onde a versão original não chegou sequer ao top 50 (como Argentina, Chile e Espanha). Como já mencionei antes, até o Maná, não exatamente conhecidos por serem inovadores, se rendeu, relançando uma versão do seu hit de 1992, De Pies à Cabeza com Jam. Vários dos maiores hits internacionais do ano (Cheap Thrill; Sorry; Cold Water) também adicionaram os principais nomes do gênero (Balvin, Jam, Don Omar) em remixes lançados especialmente para o mercado hispânico.

Dos países hispânicos para o mundo

O mais óbvio próximo passo é fazer com que o gênero conquiste de vez o resto do mundo.

Isso inclui, claro, os dois principais mercados de todos, notoriamente resistentes a músicas estrangeiras: os EUA e o Reino Unido (Gasolina e Danza Kuduro foram as únicas duas músicas a atingirem o mainstream nesses dois países).

No Brasil, Anitta, inquestionavelmente o maior nome pop do país, serve como uma embaixadora não oficial do gênero. Com a ajuda dela, Ginza, de J Balvin, obteve sucesso por aqui e Maluma está sendo introduzido em grande estilo pela diva pop . Fica a dúvida se o reggaeton, que já conquistou todo o resto do continente, conseguirá levantar voo em nosso mercado.

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Alguns acreditam que gravar em inglês pode agilizar a conquista do mundo anglo. Nicky Jam, que nasceu nos EUA e Enrique, um ato global, costumam gravar versões em inglês dos seus maiores hits. Apesar de o idioma ter mais alcance, nenhum desses remakes ganhou tração.

Já Balvin declarou que não pretende se render. A aposta dele é que o mundo English-speaking que se entregará ao espanhol (como Pharrell Williams faz no atual single do colombiano ou Drake fez em Odio, do astro da bachata Romeo Santos).

Seja como for, a verdade é que os ventos sopram a favor do reggaeton: os dois maiores sucessos de 2016 foram One Dance de Drake e Work da Rihanna, ambas músicas que, assim como o estilo sensação latino, têm enorme influência jamaicana e caribenha. Repetição e batidas familiares são a porta para o sucesso. Logo, essa onda tropical abre precedentes para músicas com estilo similar — como reggaeton – acontecerem nas rádios e nas paradas mundo afora.

Será que é só questão de tempo até as paradas globais refletirem as da Espanha e da América Latina?

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Causando en Español: The king of bachata

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Não se engane pela cara de pagodeiro, ele é o rei do bachata

Engana-se quem pensa que o espanhol é a língua predominante das Américas. Mais de metade dos países — a maior parte pequenas ilhas caribenhas — falam francês, creole, inglês ou holandês. Mas, quando falamos especificamente de países com populações grandes, daí as coisas mudam: dentre as 25 nações mais populosas da América do Sul; da America Central e da America do Norte, apenas cinco não tem o castelhano como o idioma principal. O maior de todos, claro, é os EUA mas, curiosamente, a terra do Tio Sam não tem idioma oficial e, apesar de o inglês ser a língua predominante, o espanhol é usado como língua primária por 10% da população e é dominado por mais de 50 milhões de americanos. Isso significa que os Estados Unidos são o segundo maior país hispano-hablantes do mundo, superando a Espanha, a Colombia e a Argentina e ficando atrás apenas do México (que tem uma pop. de mais de 120 milhões).

Levando em conta esse dado, fica claríssimo que o Brasil destoa bastante do resto das Américas. O segundo maior país da região, abrigando quase metade de toda a população da América do Sul, a nossa língua é o português (no way!! Não é espanhol brasileiro?!) e não temos sequer uma comunidade considerável de gente que fala espanhol por aqui. Sim, ambas línguas são, até certo ponto, parecidas mas, obviamente, estão longe de ser iguais (e ai do ignorante que sugerir para um brasileiro que espanhol e português são a mesma coisa).  Por incrível que pareça, eu acho que isso é apenas um detalhe: para cada diferença, também há semelhanças, tanto históricas quanto contemporâneas; tanto boas (calidez, otimismo, temperaturas boas, joie de vivre) quanto ruins (corrupção; desigualdade social; serviços públicos que deixam a desejar). O Brasil é gigantesco, praticamente um continente por si só, e tem, dentro dele, uma infinidade de culturas, mas isso não elimina nossas muitas semelhanças com nossos hermanos America afora.

Porém, contudo, todavia…. quando o assunto é cultura pop, daí sim o Brasil vira um caso a parte. Para cada Chaves/Shakira/Maria do Bairro/Usurpadora/RBD que estoura por aqui, temos milhares de outras coisas que enlouqueceram o continente e foram ignoradas por nós. Por exemplo, o hit completamente inescapável em toda a América Latina atualmente (e também na Espanha) é El Perdón, de Nicky Jam com Enrique Iglesias. É quase impossível ir numa festa — seja ela em Buenos Aires; Bogota; Punta del Este ou Cidade do México — e não ouvir Enrique entonando porque yo sin ti y tu sin mi; dime quien puede ser felíz; esto no me gusta, esto no me gusta.

No Brasil, essa música, assim como quase qualquer canção em espanhol, é completamente ignorada pelas rádios e é desconhecida por grande parte do público. Enquanto Enrique está tendo um novo ápice nas Américas (esse é o segundo hit gigantesco consecutivo dele nos últimos meses; Bailando foi outro sucesso completamente inescapável no ano passado. Apesar de uma versão brasileira com participação de Luan Santana, a música não aconteceu da mesma maneira por aqui), Iglesias filho é apenas uma figura vagamente familiar no Brasil, mais associado com o fim dos anos 90 — época que ele tinha grandes hits em inglês —  do que com o presente.

Sendo assim, não é surpresa que ninguém no Brasil tenha ouvido falar de Romeo Santos. Mas o cantor, de 34 anos, é o maior fenômeno da música em espanhol, imparavel em todo o continente. Atualmente, nem Shakira consegue chegar perto dos resultados obtidos por ele. Em fevereiro, na Cidade do México, 50 mil ingressos foram vendidos em tempo recorde para seu show no Foro Sol. Na semana seguinte, em Buenos Aires, 90 mil pessoas lotaram dois shows no estádio do River Plate, o maior do país. Depois disso, foram mais 45 mil no Estádio Nacional de Santiago, no Chile. São os mesmos palcos ocupados por Madonna, Paul McCartney, U2 e One Direction em suas respectivas turnês latino-americanas e Santos as lotou com facilidade, cobrando preços similares. Seja em Asunción no Paraguai ou em Montevideo no Uruguai, existem poucos artistas que conseguem uma convocatória tão considerável quanto Romeo.

Santos, cujo nome de batismo é Anthony, canta bachata, um gênero romântico originado na Republica Dominicana. Apesar de ter alcançando a fama cantando em espanhol, ele é americano, nascido e criado no Bronx, em Nova Iorque. Foi no bairro, ainda adolescente, que ele se juntou com seu primo e alguns amigos e formou um grupo de música romântica, Los Tinellers (no sotaque dominicano, pronuncia-se Los Teenagers, os adolescentes). Eles lançaram o primeiro álbum de maneira independente em 1995 mas foram completamente ignorados. Cinco anos mais tarde, eles se relançaram com o nome de Aventura.

Em 2002, o Aventura explodiu internacionalmente, A música Obsesión foi um dos maiores hits do ano não nos EUA ou na América Latina mas na Europa, onde a canção alcançou o topo na Alemanha, na França (sete semanas em primeiro lugar e quase 1 milhão de unidades vendidas), na Suíça e na Itália (16 semanas no topo!). Nos últimos três países, o segundo CD do grupo, We Broke the Rules, também atingiu o primeiro lugar. Impulsionado pelo sucesso internacional, a música começou a ganhar espaço nas Américas (hoje em dia, ela é um clássico) e, aos poucos, o Aventura começou a se consolidar.

Em 2005, o terceiro CD dos meninos, God’s Project, atingiu a terceira posição da parada latina estado-unidense e deu origem a diversos hits obtendo, eventualmente, certificado de 4x Platina. Em 2006, eles esgotaram o Madison Square Garden pela primeira vez. Em 2007, Mi Corazoncito foi o maior sucesso em espanhol do ano nos EUA. E, em 2009, com The Last, eles se consolidarem como o maior sucesso do segmento latino nos EUA: o álbum ocupou o primeiro lugar da parada hispano durante 16 semanas; eles se apresentaram para Barack Obama e fizeram a maior turnê deles até então, sendo um dos poucos atos, tanto anglo-saxões quanto hispânicos, que esgotaram o Madison Square Garden com quatros shows consecutivos. Eles atingiram também enorme popularidade na América Latina, rodando extensivamente a região e fazendo dezenas de shows esgotados. Em 2011, no ápice de popularidade, o Aventura anunciou que iria se separar.

O rompimento, claro, serviu como um trampolim para a carreira solo de Romeo, o vocalista e grande estrela do grupo  compositor de todas as canções. Alguns meses antes do anuncio, ele tinha assinado um contrato de 10 milhões de dólares com a Sony. Como parte do Aventura, Santos pertencia a uma micro subsidiária da companhia, a Premium Latin Music, especializada em bachata mas, com o novo contrato, ele seria parte da primeira linha de artistas da gravadora. O primeiro álbum dele, Formula vol. 1, foi lançado em novembro de 2011 e tinha como objetivo consolida-lo como o rei da bachata urban. O álbum contou com colaborações de grandes estrelas — tanto da musica hispano (Tomatito; Mario Domm, vocalista da banda Camila) quanto da americana (Usher; Lil Wayne) — e, além de receber disco de platina, o CD deu origem a quatro hits número 1 na parada latina da Billboard e uma excursão com 75 shows.

A turnê, apropriadamente intitulada The King Stays King,  abriu com três shows esgotados no Madison Square Garden. Foram 36 shows nos EUA, incluindo apresentações para mais de 19 mil pessoas em Miami, Houston, Los Angeles, Nova Jersey, Chicago, Phoenix, San Antonio, Anaheim e Orlando. Dentre os 37 shows na América Latina, houve paradas em estádios da Republica Dominicana, Peru, Colombia, Panama e El Salvador. Em Buenos Aires, 18 mil ingressos foram vendidos e, em Santiago, 15 mil. Santos ainda se apresentou em seis cidades do México e em Barcelona e Madri, na Espanha.

Romeo parecia ter atingido o ápice. Mas o que ninguém esperava é que o primeiro álbum dele seria apenas a introdução do fenômeno que ele viraria. Sim, naquele então, Romeo era indubitavelmente uma das grandes forças do nicho hispano nos EUA e também uma das estrelas mais rentáveis pan-latina. Mas, com seu álbum seguinte, Formula vol. 2, ele deixaria de ser uma das para se tornar grande estrela da musica em espanhol.

O primeiro single do segundo álbum solo do cantor foi o que deu o empurrãozinho para fazer dele o fenômeno imparável que ele é hoje. A sugestivamente entitulada Propuesta Indecente se transformou num dos maiores hits em espanhol da última década, uma daquelas raras canções que alcançou a façanha de se transformar num fenômeno em todos os países que falam em espanhol.

Nos EUA, a música quebrou todos os recordes: foram 86 semanas no topo das paradas. Lançada em julho de 2013, a música continua em segundo lugar nos charts dessa semana (de junho de 2015!) da Billboard (atrás apenas do já mencionado hit de Nicky Jam e Enrique Iglesias). A canção ainda conseguiu transcender a America Latina e chegou na Espanha. O país também se viciou no hit de Romeo, que alcançou o topo das paradas de  singles e foi streamed mais de 10 milhões de vezes pelos espanhóis no Spotify. No Youtube, o vídeo da música ultrapassou 700 milhões de views, sendo um dos clipes mais vistos da história da plataforma.

Impulsionado pelo fenômeno de Propuesta Indecente, a arena Madison Square Garden — a mais prestigiosa dos EUA e a maior de NYC — ficou pequena para ele. Em julho do ano passado, Romeo fez dois shows esgotados no Yankee Stadium, reunindo 90 mil pessoas no total. Ao se apresentar no estádio, localizado a pouquíssimas quadras de onde ele nasceu e foi criado, no Bronx, Santos se junta a um seletíssimo grupo de artistas que inclui, além dele,  apenas Roger Waters (que não conseguiu esgotar o estádio duas vezes); Eminem; Jay-Z; Justin Timberlake; Madonna e Paul McCartney. Se apelarmos para tecnicalidades, o grupinho é ainda mais seleto: Jay-Z; Eminem e Timberlake nunca se apresentaram solo no estádio (Eminem se apresentou ao lado de Jay em 2010e Timberlake também se juntou ao marido de Beyoncé em 2013).

Na sua Nova Iorque natal não existe nenhum artista que venda tanto ingressos quanto Romeo. Nessa turnê, além dos 90 mil no Yankee, ele ainda fará, em julho, três shows no Barclays Center, no Brooklyn, para um total de 60 mil pessoas.

E não foi só Nova Iorque onde a demanda ultrapassou, em muito, o esperado. Em Buenos Aires, os dois shows programados para o estádio G.E.B.A., para 18 mil pessoas cada um, se transformaram em cinco apresentações completamente esgotadas, com um total de 90 mil assistentes. Sete meses depois, ainda na mesma turnê, ele voltou para os já mencionados concertos no River Plate, atraindo novamente 90 mil fanáticas. Em Santiago, a mesmíssima coisa: sete meses antes de vender, em tempo recorde, os 45 mil ingressos para seu show no Estadio Nacional, Santos tinha atraído a mesma quantidade de gente para três shows na Movistar Arena (que, originalmente, estava programado para ser apenas um). E, no México, foram 42 mil ingressos para dois shows na Arena Cidade do México, que abriram a turnê do último CD dele em março do ano passado, antes do retorno triunfal em fevereiro, menos de um ano depois, com um show para 50 mil no Foro Sol.

A popularidade de Santos é digna de atenção porque, ao contrário do que muitos pensam, o gosto do público latino nos EUA pode diferenciar bastante do gosto da América Latina e artistas hispanos nascidos nos EUA em particular tem certa dificuldade para penetrar grande parte dos maiores mercados da América do Sul (Argentina; Chile) e mesmo do México (Selena, por exemplo, o maior fenômeno da música latina dos EUA, só se transformou num gigantesco sucesso no México depois de sua morte e ela não é mainstream na Argentina, por exemplo). O fato de Romeo estar esgotando os maiores estádios de Buenos Aires e de Santiago é surpreendente.

Mesmo nos EUA, sua popularidade transcendeu barreiras. Bachata, o gênero que ele canta, sempre foi um ritmo considerado bastante rural e pouco atraente pela nova geração. Santos reverteu tudo isso. Além disso, o ritmo sempre gozou de certa popularidade na costa leste americana — onde existe uma grande concentração de imigrantes da Republica Dominicana e países caribenhos vizinhos — mas o resto do público latino dos EUA, como as gigantescas comunidades latinas no Texas e na Califórnia (que tem populações com origens predominantemente mexicanas e centro-americanas), nunca tiveram nenhum interesse ou familiaridade com o gênero. Santos, primeiro com o Aventura e depois com sua carreira solo, conquistou esses mercados e ainda influenciou uma geração de artistas novos, como Prince Royce, provavelmente o segundo cantor mais popular entre o público hispano nos EUA atualmente e que também tem fortíssima influência de bachata (Royce, assim como Santos, também é do Bronx).

Nos EUA, Romeo foi ajudado pelo seu estilo moderno. O fato dele cantar num falseto bastante associado ao R&B e ter crescido no Bronx faz muitos chamarem o seu estilo de bachata urban. Essa associação ficou ainda mais forte nos últimos anos: depois de colaborar com Usher e Lil’ Wayne no seu primeiro CD, Santos teve a participação de dois dos rappers mais quentes da atualidade no seu segundo álbum: Drake, indiscutivelmente o maior vendedor do gênero hip-hop do presente, e Nicki Minaj.  Apesar disso, ele não parece muito afim de crossover e começar a apelar para o grande público americano. Em Odio, não foi Romeo que se rendeu ao rap. Foi Drake, um dos maiores rappers da atualidade e um superstar global, que se rendeu ao bachata, cantando um fragmento considerável da música em espanhol (com surpreendente habilidade). Em Animales, Nicki também se arrisca no spanglish em seu verso (Dame un beso, yo necesito/Dominicana, Puerto Rico).

Com o status de megastar latino alcançado, a expectativa geral é que ele dê o passo seguinte e comece a cantar em inglês para um público ainda mais global. Mas a música de Romeo é tão latina de raiz que seria bastante estranho ouvi-la em qualquer outro idioma se não o espanhol. E, de qualquer maneira, mesmo com seu repertório 100% bachata en español, ele tem uma respeitável carreira internacional. Na sua atual turnê, ainda impulsionado pelo sucesso fenomenal de Obsesión faz mais de uma década, ele cantou nas maiores arenas de Paris, Roma e Milão e também fez apresentações em Hannover, na Alemanha; em Londres e em Amsterdam. Ele também fez algumas aparições em veículos mainstream estado-unidenses: ele ensinou um pouco de espanhol para Elmo em Sesame Street; cantou no Tonight Show e fez uma participação em The Bachelor. Ele teve um cameo no blockbuster Velozes & Furiosos 7. E em abril, ele fez uma grandiosa apresentação no Today Show, um dos matinais mais importantes do país.

Na TV, ele teve que dar uma moderada em suas performances que, em sua versão original, nunca seriam permitidas no prime time americano. Em seus shows, ele é conhecido por apresentações com altíssima dose de erotismo. O ápice de seus concertos é quando ele chama uma fã — pode ser gorda, magra, jovem ou velha — para uma sessão de pegação no palco. Eles se abraçam, se bolinam, as vezes se beijam e acabam de baixo dos lençóis de uma cama cenográfica. O público, óbvio, vai a loucura.

No palco, Romeo se entrega totalmente, sem nenhum pudor. Fora dele, porém, guarda sua vida pessoal a sete chaves e, diferente da maior parte dos artistas pop, ele é zero midiático. Um dos únicos momentos que  mostrou um pouquinho de sua vida particular foi quando apareceu, junto a seu filho de 14 anos, na capa da People en Español. Nem mesmo perguntas sobre sua sexualidade ele responde com muito entusiasmo. As especulações atingiram o ápice quando, no seu último CD, ele lançou a música anti-homofobia No Tiene la Culpa, um ato particularmente corajoso no mundo ultra machista e conservador latino.  Em entrevista para Billboard, ele falou diretamente sobre os boatos: “A minha relutância de responder essa pergunta faz com que as pessoas tenham certeza que estou escondendo algo. Eu não quero vender nada, só minha música. Mas não, não sou gay. Só não quero apresentar minha namorada. A única coisa que posso revelar é que não sou casado” (quem investigou afirma que ele namora, faz anos, com uma mulher anônima que vive no seu Bronx natal).

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Na capa da Billboard, a principal publicação da indústria fonográfica americana, que o chamou de “Justin Timberlake em espanhol”

Esse enorme compromisso em manter sua privacidade é só um dos muitos aspectos que fazem Romeo tão fascinante. Nascido e criado nos EUA, com inglês como primeira língua, sua falta de interesse em crossover para o mercado global não deixa de ser outro aspecto bastante singular. De certa maneira, é quase como se ele tivesse feito um crossover ao contrário: depois de chamar enorme atenção na Europa e conquistar os EUA, ele colocou suas garras na América Latina. As cartas não estavam a seu favor — bachata, até a explosão do Aventura, era um ritmo antiquado que, to put it bluntly, era ouvido primariamente por gente pobre (motorista de ônibus; domésticas; porteiros) e rural — mas ele conseguiu reverter totalmente o jogo, mudando, no processo, a direção do pop latino. Ser Shakira — a artista latina mais conhecida e celebrada do planeta — tem suas vantagens mas, por outro lado, Romeo não precisa disso: de jatinhos particulares aos maiores estádios, tudo já está a seu alcance. Para Billboard, Romeo, que não é conhecido pela sua humildade, foi claro: “eu toco nos mesmos lugares que os maiores artistas do mundo, que a Beyoncé. Só que eu faço isso em espanhol”. Romeo, não tem porque ser modesto: Beyoncé ainda não esgotou o Yankee Stadium. Nem a Shakira.

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Causando na TV latino-americana: teledramaturgia turca

A primeira vista, a Argentina, o Chile, o Afeganistão e o Paquistão são países que não têm quase nada em comum entre si. O gosto televisivo deles, contudo, parece bastante similar: produções turcas dominam a lista de maiores audiências da TV em todos. Mas enquanto o Paquistão e a Turquia são relativamente próximos, tanto geograficamente quanto culturalmente, é difícil entender como a teledramaturgia de um país tão distante conseguiu conquistar de maneira avassaladora o Chile e a Argentina, dois mercados televisivos latino-americanos altamente importantes e bastante concorridos. Por incrível que pareça, Avenida Brasil é chave para entender a ascensão das novelas turcas na América do Sul.

Dentre todos os países latino-americanos, acho que nenhum país é tão orgulhoso de suas produções próprias quanto o Brasil. E é verdade, temos mesmo muito o que nos orgulhar: num país tão fragmentado como o nosso, a teledramaturgia une todas as classes sociais em frente a TV. Temos produção de ponta; exportamos nossas novelas para o mundo todo e ainda por cima ganhamos um montão de Emmy. Acontece que o nosso orgulho acaba contribuindo para que tenhamos um complexo de superioridade. E esse complexo faz com que nem prestemos atenção aos nossos concorrentes de continente.

Sim, as produções mexicanas são muito precárias e formulaicas mas desbancam a Globo como os maiores exportadores e maiores produtores de novela do mundo. Sim, a Argentina não tem 1/10 do tamanho do nosso mercado e nem 1/10 dos nossos orçamentos mas, com muito menos dinheiro que a gente, eles fazem teledramaturgia com produções impressionante, são considerados um polo de produção a nível global (não a toa, as sedes da Disney e da Endemol na AmLat ficam lá)  e são um dos maiores vendedores de formato do mundo (desbancando fácil o Brasil). Sim, a Colômbia tem ainda menos orçamento mas muitas novelas deles têm aclame e repercussão mundial (Café con Aroma de Mujer; Pasión de Gavilanes) e é deles a novela mais bem-sucedida da história, Betty a Feia, que foi adaptada com sucesso extraordinário em países tão diversos como Alemanha, Holanda, México, EUA e China.

Um país que não mencionei acima foi o Chile. A quarta maior economia da América Latina e a mais consolidada (é o único país da America Latina que não precisa de visto para entrar nos EUA), o Chile tem quatro canais grandes que costumam investir em produções próprias. Mas o país não tem a tradição do Brasil, do México e da Colômbia, nem o expertise da Argentina e, por isso, a sua dramaturgia não chama muita atenção no panorama global. Além disso, a boa economia deles faz com que se acomodem. Diferentemente da Argentina, que tem um mercado publicitário muito abalado por sucessivas crises e precisa vender e produzir seus programas para mercados externos, o Chile tem um mercado saudável, um bolo publicitário muito grande e nenhuma grande necessidade de vender formatos, nem novelas. Muito pelo contrário, a impressão é que eles consomem mais do que exportam pois são, afinal de contas, um dos maiores compradores de formatos da Argentina.

Isso não quer dizer que eles não vendem nada — várias sucessos recentes do país foram adaptados pela Telemundo, como Donde Esta Elisa, Alguién que te Mira e Las Vegas e eles também tem vendido vários formatos para a Colômbia e para o México — mas, dentre todos os grandes mercados latinos, os chilenos com certeza são os que têm a teledramaturgia menos estabelecida. Um dos lados positivos disso é que eles têm menos medo de arriscar. E esse lado destemido deles foi o responsável por trazer uma novela turca que começou uma mini revolução no mercado televisivo latino-americano.

2013: Pablo Escobar e Avenida Brasil dominam o Chile

Tudo começou em 2013. O Chile sempre comprou novelas do Brasil, do México, da Colômbia e da Argentina mas as estrelas da TV local sempre foram as produções próprias. Mas, em 2013, as coisas foram diferentes e a teledramaturgia chilena foi completamente ofuscada por duas produções internacionais: Pablo Escobar, El Patrón del Mal, da Colômbia, e Avenida Brasil, do Brasil (duh).

Avenida Brasil dispensa apresentações. Apesar de que, desde os anos 70, as produções brasileiras têm espaço e público fixo na TV chilena, há muito tempo uma novela tupiniquim não tinha tanta repercussão. Mas a novela de João Emanuel Carneiro, com sua impressionaste produção e trama extremamente clássica de amor e vingança, conquistou os chilenos a tal ponto que o 13, canal que exibia a novela, começou a fragmentar os capítulos em diversas partes na esperança de estender a duração da novela (e, consequentemente, os resultados de audiência espetaculares obtidos por ela). As horas de “cenas do capítulo anterior” e os poucos minutos de cenas inéditas não abalaram em nada os números de sintonia e, quando finalmente chegou a hora do capítulo final, ele foi exibido em horário nobre (a novela era exibida a tarde) com números recordes de audiência.

A colombiana Pablo Escobar: El Patrón del Mal, sobre um dos traficantes mais celebres da história, também não ficou muito longe em termos de sucesso, lançando bordões e conquistando o prime time da TV local.

2014: a invasão da Argentina

Ao mesmo tempo que Avenida Brasil chegava ao fim no Chile, a novela desembarcava na Argentina, na Telefe, um dos principais canais do país. Fazia anos desde a última vez que a emissora apostou numa produção brasileira mas o sucesso da ficção nos dois países vizinhos (nós e o Chile, no caso) os motivou a lançar a trama com uma enorme campanha de marketing e como ponto focal da programação de fim de tarde do canal. E a aposta deu resultado: rapidamente, Avenida Brasil era a maior audiência da TV argentina, superando todas as produções locais do horário nobre. Era a primeira vez em quase uma década que um programa internacional liderava as audiências locais (desde a colombiana Pasión de Gavilanes em 2005). Quando Showmatch, o programa de variedade e incontestável líder de audiência da TV local, estava prestes a começar sua nova temporada no canal rival, o Trece (não confundir com o 13 chileno), a Telefe não titubeou em mover a novela brasileira para o horário nobre para enfrentar a oposição. Pela primeira vez, a Telefe colocou uma produção internacional no seu horário noturno central.

A jogada se provou certeira, com a novela global brigando de igual para igual com o programa mais celebre da TV local e, na maior parte das vezes, ganhando da concorrência. O sucesso foi tão gigantesco que o canal levou o elenco para Buenos Aires para apresentar o capitulo final na frente de 8 mil fanáticos no estádio Luna Park e Avenida Brasil foi coroado como o maior fenômeno da TV argentina ao longo de 2014.

O sucesso de Avenida Brasil serviu para destacar o ano fraquíssimo das produções locais argentinas, que penavam em chamar a atenção do público local. Um dos poucos destaques de ficção na TV argentina em 2014 foi a colombiana Pablo Escobar: El Patrón del Mal. Diferente do Chile, onde foi exibida num canal grande, Escobar foi comprada na Argentina pelo Canal 9, um canal com audiências bem insignificantes.  Mesmo assim, a novela conseguiu a façanha de triplicar as audiências do horário nobre da emissora e incomodar o Trece, um dos dois grandes líderes.

As turcas desembarcam no Chile

Enquanto Avenida Brasil e Pablo Escobar repetiam, na Argentina, o sucesso que tinham obtidos no Chile, os canais chilenos estavam com dificuldade para repor os dois fenômenos. Inicialmente, ambas as emissoras apostaram no que parecia seguro: o Mega substituiu Escobar por outra narco-novela colombiana, El Cartel de los Sapos, e o 13 (não confundir com o Trece argentino) substituiu Avenida Brasil por outra novela brasileira, Salve Jorge. Ambas decepcionaram e ficaram distantes do enorme respaldo obtido pelas suas antecessoras. E foi ai que a Mega resolveu chutar o balde e apostar no incerto, comprando a novela turca Binbir Gece ou As Mil e Uma Noites. Assim como Avenida Brasil, As Mil e uma Noites tinha uma produção grandiosa e uma história de romance clássica cheia de sensualidade. Se a novela brasileira dublada virou um fenômeno para o 13, porque a turca não poderia repetir esse sucesso para o Mega?

O risco provou-se uma das decisões mais acertadas já feitas pela emissora e, em poucas semanas, Las Mil y una Noches estava obtendo números recordes de audiência, superando inclusive os números obtidos por Avenida Brasil e Pablo Escobar um ano antes. A novela estreou em fevereiro do ano passado e chegou ao fim na primeira semana de 2015. Ao longo dos seus 180 capítulos, teve uma média de 28 pontos, alcançando um pico de quase 39 pontos em um dos capítulos finais em dezembro. Como comparação, o fenômeno Avenida Brasil teve média de 13 pontos e Escobar teve 15, ambos com picos de 26 pontos em seus respectivos capítulos finais.

A internacionalização do horário nobre argentino

Quando Avenida Brasil chegou ao fim na Argentina, em julho de 2014, a Telefe devolveu seu horário nobre para as produções locais, com duas grandes apostas: o romance  Camino al Amor, que reunia os protagonistas e a equipe do mega hit de 2012 do canal, Dulce Amor e a comédia Viudas y Hijos del Rock&Roll, que reunia os protagonistas e a equipe de outro mega hit de 2012 do canal, Graduados. Mas, infelizmente, a tentativa da Telefe de voltar o relógio para 2012 não deu muito certo. Mesmo assim, eles não desistiram e, para 2015, resolveram continuar a tentativa de voltar a tempos de glória passados, dessa vez com a intenção de repetir os resultados de 2014. Para isso, eles voltaram a ceder o horário nobre para uma novela da Globo, Rastros de Mentira (título internacional de Amor à Vida).

A emissora concorrente, Trece (não confundir com o 13 chileno) teve mais visão e notou que o que dava certo no Chile, tinha grandes possibilidades de dar certo na Argentina. Por isso, o canal apostou em Las Mil y una Noche. Foi a primeira vez na história recente que os dois principais canais argentinos apostaram em títulos internacionais (ou latas, como eles chamam) para o horário central. Ambas as produções estrearam juntas, no dia 5 de janeiro. Rastros levou vantagem com 11.5 pontos, mas Noches teve resultado digno, com 10.6 pontos. Mas, enquanto a brasileira ficou estacionada nos 11 pontos, a novela turca decolou e, em sua terceira semana, já está na casa dos 19 pontos de audiência, sendo o programa mais visto da TV argentina.

¿”Las mil y una noches” es la nueva “Avenida Brasil”?, perguntou o jornal Clarin, o periódico mais importante do país. “Nos bares, nos elevadores e nos escritórios, todos falam de Onur e Sherezade como se estivessem falando de João e Maria. E quando a naturalidade dos nomes da ficção se impõem, o fenômeno fica claro”, resumiu a publicação.

As novelas turcas; as novelas brasileiras e a TV latino-americana

Ainda é muito cedo para dizer se as novelas turcas vieram para ficar. Mas, a julgar pelo Chile, parece que sim: com o fim de Las Mil y una Noches, a Mega apostou em duas outras produções turcas, Fatmagul e Ezel. Ambas atualmente lideram com folga a lista de programas mais vistos no país e consolidaram o Mega como o canal mais visto do Chile, elevando toda a programação noturna da emissora. Em breve, uma terceira produção turca, Sila, estreará na faixa diurna do canal. As emissoras rivais também se renderam:  a atual novela do horário central do 13 é a épica El Sultán (Muhteşem Yüzyıl) enquanto o Chilevision investiu em Tormenta de Pasiónes (Öyle Bir Geçer Zaman Ki). Enquanto isso, na Argentina, a Telefe já mostrou que também entrará no jogo e se antecipou ao Trece, comprando os direitos de Fatmagul.

Avenida Brasil (re)abriu muitas portas para a Rede Globo. Foi a primeira vez que uma produção brasileira liderou a audiência da TV argentina e foi um retorno triunfal para as novelas globais na Telefe, que, graças ao sucesso de AvB, continua apostando em títulos brasileiros nas faixas diurnas e noturnas. No Chile, que sempre teve faixas fixas para dramaturgia brasileira, o interesse nas produções nacionais foi revivido. Depois de anos sem emplacar uma novela na TV colombiana, Avenida Brasil se instalou no horário nobre de um dos principais canais locais com grande sucesso. No México, foi a primeira vez que uma novela da Rede Globo foi exibida na TV aberta e o sucesso da trama de JEC significou a abertura de um horário noturno para nossas produções. Isso sem contar os números altíssimos no Uruguai, na Venezuela, no Peru, no Paraguai….

A questão é que, assim como no Brasil, onde Avenida Brasil reviveu muito momentaneamente o interesse maciço do público em novela das 8, a Rede Globo não parece ter produções igualmente fortes para prender o interesse dos espectadores mundo afora. Avenida Brasil não é a regra e sim a exceção. Sim, Amor à Vida está tendo resultados dignos nos países que está sendo exibido e, ainda em 2015, João Emanuel Carneiro volta com uma nova trama mas a verdade é que a herdeira do apetite do grande público latino-americano por grandiosas produções internacionais não parece ter sido a Globo, que foi a pioneira da tendência, e sim a Turquia.

Em todo o caso, o mercado brasileiro é forte e gigantesco o suficiente para a Globo não ter praticamente nenhuma dependência do mercado externo. O sucesso internacional é apenas um bônus, a cereja no topo. O importante mesmo é o sucesso nacional. Mas nem aqui no Brasil a emissora conseguiu repetir o sucesso e isso fica clara quando constatamos que nada que o canal exibiu, nem mesmo a Copa do Mundo, conseguiu chegar perto dos 51 pontos registrados pelo capitulo final de Avenida Brasil em outubro de 2012.

Mas a Globo tem pouco com que se preocupar quando comparado com os executivos televisivos chilenos ou argentinos. Na Argentina, particularmente, a dramaturgia local sempre foi o ponto central da TV, liderando com facilidade os níveis de audiência e sendo exportada para todo o mundo. Contudo, desde 2012, nenhum canal — nem a Telefe, nem o Canal 13 — consegue emplacar um enorme sucesso e todas as histórias que conquistaram o público são títulos internacionais que, pela primeira vez na história, estão dominando o horário nobre das duas principais emissoras do país.

No Canal 13, Noche & Dia, a grande aposta nacional do canal, estrelando grandes nomes locais, tem penado para conseguir metade da audiência da novela turca. A emissora teve que deixar o orgulho de lado e aceitar que o programa importado, não a produção própria, era a grande estrela do canal. Por isso, os horários foram invertidos: Mil y Una Noches agora é exibido no horário nobre, as 22hs, enquanto Noche & Dia foi movido para as 23hs. A maior audiência da Telefe também é uma lata, Amor à Vida, que apesar de não ter chegado perto do sucesso da turca também tem feitos números respeitáveis.

Pelo menos na Argentina, os produtores locais ainda tem esperança de reviver o interesse do público nas ficções nacionais. A Telefe irá produzir três novelas para 2015, incluindo uma super produção dirigida por Juan José Campanella, ganhador do Oscar por El Secreto de tus Ojos. Já o Trece também prepara duas ficções noturnas, incluindo um thriller com o respeitado ator Julio Chavez. Mas, enquanto esses programas não chegam, as turcas continuam sua dominação, com Mil y una Noches liderando com folga as audiências nacionais no Trece e, em breve, também desembarcam na Telefe.

Além da Argentina e do Chile, Las Mil y Una Noches também está sendo exibida na Colômbia e no Peru e, em breve, estreia no México e no Brasil, na Bandeirantes.

As novelas turcas

Produções impressionantes; paisagens exóticas e enredos tradicionais e machistas . Uma formula ganhadora. Antes de julgar, lembre-se: isso também descreve grande parte dos grandes sucessos brasileiros e internacionais (Crepúsculo e 50 Tons de Cinza anyone?).

Sendo justo, os turcos conseguem pegar umas ideias pavorosas e fazer a coisa de maneira tão sedutora que faz com que você quase releve o nível de errado da coisa toda, o que não deixa de ser um talento. Além disso, quando eles querem, eles também são capazes de fazer programas com ótimos scripts e bastante thought-provoking. E, mesmo com os enredos tradicionalistas e machistas, uma das grandes inovações das novelas turcas foi mostrar mulheres independentes e bem-sucedidas no mundo islâmico, quebrando estereótipos e gerando admiração entre as mulheres do Oriente Médio (e também bastante polêmica).

Antes de chegar na América Latina, as novelas turcas causaram uma verdadeira revolução (e bastante controvérsia) no Oriente Médio e na Europa do Leste. Em alguns países árabes, alguns consideraram as temáticas muito polêmicas; em outros países, o sucesso das produções causou preocupação pelas implicações políticas, já que muitos países têm relações conturbadas com a Turquia. A controvérsia não atrapalhou em nada os números recordes de audiência, que ajudaram a consolidar a imagem da Turquia como um país que sabe equilibrar as tradições do mundo árabe com a modernidade ocidental. O país lucra centenas de milhões de dólares por ano com a venda de suas ficções.

Binbir Gece (As Mil e Uma Noites)
93 episódios exibidos entre 2006 e 2009 no Kanal D, na Turquia. Antes de conquistar o Chile e a Argentina, a novela tinha sido exibida com enorme sucesso no Oriente Médio e na Europa do Leste.

Com um filho doente, Sherazade precisa desesperadamente de dinheiro para operá-lo. Sem ninguém a quem recorrer, ela pede ajuda a Onur, o dono da empresa de construção na qual ele trabalha. Ele concorda em dar o dinheiro, com uma condição: ela terá que passar a noite com ele. Sherazade aceita e, depois dessa noite, Onur não consegue mais tirar a mulher de sua cabeça. Nasce assim um complicado e intenso romance, cheio de culpa e reviravoltas.

As Mil e Uma Noites é, até o momento, o maior fenômeno da Turquia a nível internacional e é responsável por desatar a febre das novelas turcas no Chile, onde conseguiu níveis históricos de audiência, e no resto da América Latina. Ela atualmente lidera com folga as audiências da Argentina, obtendo números que produções locais não conseguem em anos.

Fatmagül’ün Suçu Ne? (Que culpa tem Fatmagul?)
81 episódios, exibidos entre 2010 e 2012 no Kanal D. O seriado foi um sucesso no seu país natal mas também se consolidou como um dos maiores sucessos da história do Paquistão, onde já foi reprisado três vezes.

Baseado numa história real, Fatmagul é uma garota simples que cria ovelhas em um pequeno povoado na costa da Turquia, e está prestes a se casar com o pescador Mustafa. Uma noite, ela encontra três rapazes alterados por drogas e álcool que a estupram. Os rapazes — Salim, Erdogan e Kerim — estão reunidos para celebrar a despedida de solteiro de Salim, filho do empresário mais rico da região. Um quarto rapaz do grupo, Kerim, que desmaiou de bêbado antes do estupro, assume a culpa e, para proteger a imagem dos negócios do pai de Salim, é obrigado a casar com Fatmagul. Ambos se mudam para Istambul mas Mustafa, o ex-noivo da moça, promete se vingar de todos que destruíram seu amor. Apesar desse argumento pavoroso, li gente dizendo que a série é sobre Fatmagul tentando se recuperar do abuso que sofreu e seguir adiante e que a série tem seu valor e consegue fazer jus ao tema complicado. Hmm… não sei não.

Fatmagul foi a substituta de Las Mil y una Noches no Chile. Apesar de não ter conseguido os níveis históricos de audiência da antecessora, a turca é atualmente o programa mais visto do país. Na Argentina, a Telefe já comprou os direitos.

Ezel
71 episódios, exibidos entre 2009 e 2011 pela ShowTV e pela ATV. Uma das séries mais premiadas da Turquia, com mais de dez reconhecimentos nacionais e internacionais, incluindo Best Script Format no C21 Awards e Best Drama no Seoul International Drama Awards.

Omer é um jovem, vivendo uma vida normal de classe média em Istanbul. Um dia ele conhece a bela Eysan e ambos se apaixonam perdidamente. Os dois, junto com dois amigos de infância de Omer, são coagidos, pelo mafioso pai de Eysan, a roubar um cassino. O roubo dá errado e Omer é traído pelo amor de sua vida e seus dois melhores amigos e acaba sendo condenado a vida na prisão. Enquanto isso, Eysan descobre que está gravida do filho do seu namorado, agora preso. Passam-se 12 anos e, graças a um grande incêndio, Omer consegue finalmente escapar. Com a ajuda de um ex-companheiro de cela, ele consegue reconstruir sua vida e modificar, através de plásticas, sua aparência. Sob uma nova identidade, Omer, agora conhecido como Ezel, promete se vingar de todos aqueles que o traíram.

Ezel é exibido logo após Fatmagul no Chile e é a segunda maior audiência do país atualmente.

Muhteşem Yüzyıl (O Maravilhoso Século)
139 episódios, exibidos entre 2011 e 2014 pela ShowTV e pela Star TV. A super produção histórica conta a história do Sultão Suileman, o Magnifico e sua conquista do Império Otomano. A retratação dramática e um pouco escandalosa da idolatrada figura histórica causou enorme polêmica na Turquia mas também rendeu audiências altíssimas, desatando uma febre por novelas épicas.

A produção foi uma das séries turcas mais exportadas, tendo chegado aos EUA; França; Itália; Espanha; Israel e outras dezenas de países. A popularidade enorme da série na Grécia e na Macedônia causou controvérsias políticas e na Macedônia, especificamente, foram introduzidos regulamentações para limitar o número de séries turcas nos canais locais.

No Chile, onde está sendo exibida como nome de El Sultán, a novela foi a grande aposta do canal 13 para 2015 que se rendeu as produções turcas depois dos sucessos excepcionais no Mega. Apesar da produção não ter obtido tanto respaldo quanto as do concorrente, El Sultán é o programa mais visto da emissora.