Causando em 2017: Latino style

Em setembro do ano passado, falei que reggaeton estava a ponto de conquistar o mundo. Quase um ano depois, a previsão se provou certeira. “Despacito” é a maior música do planeta, quebrando um recorde atrás do outro e, depois de três meses, acaba de ser substituído no topo da parada global do Spotify por “Mi Gente” do colombiano J Balvin. Enquanto isso, Daddy Yankee é o artista mais ouvido na principal plataforma de streams do mundo.

Tá tudo dominado

A conquista mundial do reggaeton está em andamento mas, na América Latina e na Espanha, a dominação está mais do que consolidada. O sucesso é tanto que a pluralidade nos charts quase acabou e até alguns dos maiores fenômenos do mercado hispânico — como Romeo Santos, o ícone do bachata, o estilo da moda faz poucos anos — tem tido dificuldade para emplacar hits.

Depois de obter fama avassaladora com o seu grupo Aventura, Romeo se consolidou como o maior nome da música latina . Seu segundo álbum, “Formula, Vol. 2”, lançado em 2014, fez com que ele desbancasse até Shakira como o maior nome da América Hispânica.

Mas, desde que ele entrou em um break, o reggaeton ganhou tanta força que seu aguardado retorno esse ano foi ofuscado pelo sucesso fenomenal de canções do gênero, como a inescapável “Despacito”.

Lançado em fevereiro, seu comeback single “Heróe Favorito” teve resultados dignos mas muito aquém ao esperado de um cantor que encheu absolutamente todos os estádios da América Latina e obteve, com o lead single do álbum anterior, “Propuesta Indecente”, um dos maiores hits em espanhol da década.

O problema de “Heróe Favorito” foi que, na minha opinião, a música era tão tipicamente Romeo que poderia ser uma faixa de qualquer álbum dele. Espera-se que um primeiro single tenha o som marca registrada do artista combinado com algo striking que prenda a atenção do ouvinte para o seu retorno.

Isso, somado ao fato de que bachata perdeu espaço para reggaeton com a ausência de Romeo da cena, fez com que a música do maior astro de todos acabasse passando despercebida.

Para o segundo single, Romeo step up his plate e trouxe a muito mais pegajosa e marcante “Imitadora”. Agradou bem mais aos ouvintes e foi um sucesso maior, apesar de que não chegou ao patamar dos grandes hits do reggaeton — algo que ele era capaz de fazer com facilidade faz apenas dois anos.

Nesse cenário de ditadura do reggaeton, sempre existe a opção de seguir os passos de Shakira e Enrique Iglesias e se render ao gênero.

Mas, diferente das estrelas pop, Santos sempre foi de raiz. Ele é fiel ao estilo que o catapultou ao estrelato e raramente dá o braço a torcer. Mesmo quando colaborou com Drake — o maior rapper do universo — ele não se flexibilizou: foi o canadense que se rendeu e cantou em espanhol, no maior estilo cantor brega latino.

Mas o poder do reggaeton é tanto que Santos não se segurou. Seu novo álbum, “Gold”, inclui a canção “Bella y Sensual” com Daddy Yankee e Nicky Jam. O raro gesto do nova-iorquino parece estar rendendo frutos: o bachataton já penetrou o top 50 da Espanha e de todos os países latinos no Spotify e, em tempo recorde, alcançou o top 10 no Chile, superando o sucesso de todos os demais single que ele lançou ao longo de 2017.

Além de colaborações com os maiores nomes da música romântica em espanhol — Juan Luis Guerra, Julio Iglesias — ele ainda colabora em mais outra faixa com uma das maiores estrelas do reggaeton, Ozuna.

Apesar de estar em uma fase mais modesta, Romeo segue arrasando: a estréia do seu terceiro álbum solo foi a melhor semana de vendas de um álbum latino nos EUA, superando “El Dorado”, o CD de Shakira, lançado em junho.

O fenômeno Shakira

Falando em Shakira, ela é outra que resolveu apostar no seguro e entregou um álbum cheio de reggaeton. “Chantaje”, o maior hit do CD, foi uma colaboração com o fenômeno Maluma. Mais uma música com o jovem reggaetonero foi inclusa no álbum e deve ser lançada como single depois de uma colaboração bem pancadão com Nicky Jam, cujo vídeo acaba de ser gravado.

O interessante é que, apesar de ter se rendido ao reggaeton, Shakira é uma das poucas artistas latinas capaz de obter sucesso se desviando do gênero. Enquanto Santos teve problema para emplacar “Heroé Favorito”, “Deja Vu”, a colaboração da colombiana com Prince Royce — também uma típica bachata — entrou no top 50 do Spotify de todos os mercados hispânicos na mesma semana que o vídeo foi lançado. Seu pop vallenato com Carlos Vives, outro astro colombiano, “La Bicicleta”, foi um dos maiores sucessos em espanhol de 2016.

Não recomendado para os mais sensíveis

Os dois maiores propulsores de talento da América Latina na atualidade são Puerto Rico e Colômbia. Puerto Rico é o berço do reggaeton moderno e de onde saíram quase todos os principais nomes do gênero. Já a Colômbia soube levar o estilo para outro patamar e revelou ao mundo Maluma e J Balvin, as duas maiores sensações, além de ter sido parte do renascimento de Nicky Jam, outro dos grandes nomes.

Mas, além desses dois países, outro mercado que vale a pena prestar atenção é a Republica Dominicana. A nação caribenha também teve um papel importante na criação do gênero — foram os dominicanos radicados em NY que ajudaram a cria-lo — e também é de lá o outro ritmo que tomou conta da América Latina e da Espanha, a bachata. O país da América Central também tem um gosto muito particular e é um grande descobridor de talentos do trap, um gênero do reggaeton que tem muitas semelhanças com a música urbana americana nascida no East Coast.

A influência do rap e do hip-hop de Nova Iorque no gosto local é compreensível: milhões de habitantes do país tem laços fortes com a principal cidade dos EUA, que tem uma comunidade gigante de imigrantes provenientes da Republica Dominicana. Até a bachata moderna, de Romeo Santos e do Aventura, teve origem no Bronx.

Apesar disso, o trap que a Republica Dominicana tanto ama não nasceu no país e sim em Puerto Rico, a colônia dos EUA que também tem relação estretíssima com NY. Mas apesar de não ter sido criado por dominicanos, foi a partir do país da América Central  que o gênero começou a conquista do restante da comunidade latina.

Quando Maluma lançou, em meados do ano passado, a música “4 Babys”, ele chocou o mundo hispânica com a letra. Misoginia na música não é algo raro em nenhum gênero ou país, muito menos no reggaeton latino americano, mas o que deixou muitos de boca aberta foi o baixo calão das palavras. Na canção, sobre o affair  dele com quatro mulheres diferentes, o astro colombiana fala em “meter”, “trepar”, etc. — termos comuns no funk brasileiro ou no rap americano mas pouco visto na música latina mainstream.

O astro colombiano ficou chocado com a reação negativa. Ele só estava trazendo para seu repertório o reggaeton no estilo trap, que, na verdade, já gozava de grande popularidade. Mas, até então, o estilo não tinha sido legitimidade por um astro estabelecido de primeiro escalão. Apesar de bombar no YouTube faz muito tempo, o alcance que ele deu ao subgênero foi muito maior e chegou a um público que nunca tinha sido exposto a ele antes.

No final das contas, “4 Babys” — apesar de todo o choque que a letra causou — serviu apenas como aperitivo, porque o reggaeton proibidão está cada vez mais popular na América Latina. Ozuna, a maior revelação do ano passado, flerta com o estilo e Bad Bunny, a maior sensação desse ano, faz um trap de raiz.

Provenientes de Puerto Rico, ambos estouraram na Republica Dominicana bem antes de conquistarem os demais países do continente. Bunny, em específico, é um Midas no país e todas as suas colaborações com outros nomes do trap — como Anuel AA, Jory Boy, Brytiago e Bryant Myers — são sucessos instantâneos. Agora, ele está dominando o restante das Américas e Espanha, obtendo hit atrás de hit e colaborando com gigantes como J Balvin (no mega hit “Si Tu Novio Te Dejas Solo”).

No trap de Bad Bunny, palavrões, drogas e outros temas que aparecem de maneira filtrada no reggaeton dos outros astros são lugar comum.

Alguns excertos de “Soy Peor”, seu maior hit solo, no qual ele narra estar aliviado ao terminar um relacionamento péssimo: “Agora faço tudo o que eu quero/Só penso em eu mesmo/Jogando notas dentro do puteiro/Para merda o amor verdadeiro/Eu só quero ganhar dinheiro/Baby o que tinhamos descansa em paz/Não estou nem ai para com quem você tá/Diga pra sua mãe que ela não me faz falta/Já tenho sogras demais/Tenho a branquinha que me faz um lap dance/A roqueirinha que meto com tudo, de Vans/Tenho a pretinha, a loirinha, as modelos e todas as fãs”.

A menção obrigatória a substâncias ilícitas: “Eu não quero fumar o regular/Me traga o kush que me deixa espetacular/Que já não tenho mais você para especular/E para encher meu saco por todas as fotos de bunda que tenho no celular”.

E, claro, o refrão: “Siga seu caminho, sem ti eu estou melhor/Agora tenho outras que trepam bem melhor/Se antes eu era um filho da puta, agora sou bem pior”.

Com a forte influência do rap americano, o trap também é bem americanizado. Em “Tu No Metes Cabra”, seu atual hit, Bunny fala de prom, de bleachers, de bilionários americanos, de carrões e de jogadores de basquete. A temática U.S. não impede o single de ser um enorme sucesso em todos os países, da Argentina ao México e também na Espanha. Bunny está próximo a obter o nível espetacular de sucesso alcançado por Balvin e Maluma.

Antes tarde do que nunca

Assim como no rap americano, o universo do reggaeton é um clube do bolinha. Enquanto a música pop — particularmente a mexicana — sempre teve boa participação feminina, a dominação do reggaeton apagou quase todas as mulheres da parada, com exceção da colossal Shakira.

Se aliando com Maluma, Thalia conseguiu um mega hit com “Desde Esa Noche” no ano passado. Com a participação de Cali y el Dandi, a ex-RBD Maite Perroni, hoje mais conhecida como mocinha de telenovelas mexicanas, conseguiu recentemente seu primeiro sucesso desde os tempos de Rebelde com “Loca”. Mas esses casos estão mais para exceção do que para regra.

Apesar disso, é possível que, aos poucos, as coisas estejam mudando. Dentre as 20 faixas mais populares nos principais mercados latinos e na Espanha no Youtube, dois são reggaetons com mulheres como lead singers. Dois em 20 pode parecer um número patético mas é uma evolução de zero.

As duas artistas que conseguiram esse feito foram Karol G. e Becky G. O que ambas tem em comum além do “G” como sobrenome? O fenômeno Bad Bunny participando de suas músicas.

Mas enquanto o reggaetonero foi, sem duvida, um fator importante para o sucesso, a música é majoritariamente das mulheres, na qual ele contribui apenas com alguns poucos versos. Mesmo assim, a influência dele é enormemente perceptível, principalmente na música de Karol.

Em  “Ahora Me Llama” a colombiana se apresenta como uma espécie de versão feminina do trap star porto riquenho.

“Agora me chama/Diz que eu faço falta na sua cama/Mas para mim já não dá, já não dá/Agora eu só quero sair com meu próprio squad/Afinal a vida é minha/E quero curtir ela sem a sua companhia/Agora eu quero viver minha vida/Afinal a vida é minha/Saí com o coração partido e agora já não espero nada/A não ser os melhores drinks e a roupa trazida de Dubai”.

Mais para frente, no melhor estilo “soy peor”, ela afirma: “Se antes eu era má/Agora chegou a nova versão, ainda mais má/Continuo fazendo fama/Depois decido que gostinho quero levar pra minha cama/Porque viver de amor/Isso não me faz falta/Sou dona da minha vida e em mim ninguém manda”. Já Bunny faz uma aparição breve para dizer que “para ele melhor assim como solteiro/Eu curto, bebo, fumo, faço tudo o que eu quero”. No YouTube, o vídeo da canção já tem 150 milhões de views em 2 meses.

Já Becky G. é uma criação do polêmico produtor americano Dr. Luke. Apesar de ter sido lançado na época que ele emplacava hits fáceis, Becky — nascida e criada em Los Angeles — demorou muito até obter um mid sized hit com a música “Shower”. Apesar do gostinho do sucesso, a cantora não obteve grande fama mesmo com contratos publicitários gigantes (ela é garota propaganda da CoverGirl junto com Katy Perry, Ellen e Sofia Vergara) e filmes de Hollywood (ela é a Power Ranger amarela na adaptação cinematográfica da franquia).

Depois que sua carreira teen pop não decolou, Becky mudou para o pop em espanhol mas seguiu penando. Até que se juntou com Bunny numa canção cheia de duplo sentido e, voila, sucesso na América Latina e na Espanha e 60 milhões de visualizações em poucas  semanas no YouTube.

Enquanto Karol optou pelo viés “bad bitch”, Becky preferiu os trocadilhos sexuais. Em “Mayores”, ela canta: “Eu gosto mesmo dos maiores/Os que são chamados de senhores/Que seguram a porta e me dão flores/Eu gosto daqueles que são grandes/Que não cabem na boca/Os beijos que vão me dar/Que me deixam louca”. O porto-riquenho aparece para questiona-la: “Quer um mais velho, está segura?/Te dou mil aventuras/E duro o que ele não dura”.

Para os latino-americanos que ficaram chocados com “4 Babys”, talvez seja o momento de parar de ouvir a rádio.

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Causando en español: si necesita el reggaeton, ¡dale!

A dominação atual

Um estilo domina as paradas de sucesso do mundo hispânico: o reggaeton. Esteja em Miami ou Madrid; Barcelona ou Cidade do México; Buenos Aires ou Bogota, nada bomba tanto quanto um sucesso do gênero.

Esse monopólio pode ser confirmado com uma olhada no top 50 do Spotify nos principais mercados ibero-americanos. No México, por exemplo, apenas 13 músicas em espanhol aparecem dentre as mais ouvidas, mas 10 dessas são reggaeton. Na Argentina, a dominação é ainda mais evidente: 24 dentre as 28 músicas na língua pátria entre as 50 mais ouvidas pertencem ao gênero. Chile (21/25); Espanha (17/21) e Colômbia (17/19) não ficam atrás.

De certa maneira, esse takeover pode ser comparado com o sertanejo que, no Brasil, se solidificou como, de longe, o estilo mais popular. Até os números no Spotify são similares: 18 das 22 músicas brasileiras no nosso top 50 são de artistas sertanejos.

Além do sertanejo, o reggaeton também tem paralelos com o funk: um estilo assumidamente popular e que muita gente torce o nariz para mas que, na pista, é sempre sucesso garantido.

A origem

Comparações aparte,  a explosão do reggaeton é relativamente recente. O gênero surgiu no Panamá, na década de 1980, antes de chegar em Nova Iorque e, finalmente, em Puerto Rico. Foi na colônia estado-unidense onde o estilo começou a se massificar, com o gigantesco sucesso de Don Omar. A explosão internacional de Gasolina de Daddy Yankee, em 2004, confirmou o reggaeton como um dos principais pilares da música latina.

Enquanto o sucesso de Omar ficou mais restringido ao mercado latino (pelo menos até 2010, com Danza Kuduro),  Gasolina transcendeu barreiras linguísticas e atingiu o top 10 geral da Billboard assim como as paradas europeias e até japonesa. O álbum que continha a música, Barrio Fino, vendeu 1.7 milhão de unidades nos EUA, o maior vendedor latino da década. E Yankee se transformou numa lenda e no rei do reggaeton.

Nenhum dos singles subsequentes teve o alcance internacional de Gasolina, mas o porto-riquenho se transformou num staple na cena latina e suas músicas fazem sucesso até hoje. O triunfo dele também ajudou dezenas de outros grandes nomes do reggaeton — todos de origem porto-riquenha — a emergirem.

A música desses artistas fez a América toda dançar mas a falta de sangue novo no gênero acabou causando uma saturação e Pitbull, com suas produções mais urban top 40, grande partes dela em inglês, se apossou do nicho festeiro no final da década.

Mas Yankee, Wisin, Yandel e demais artistas nunca pararam de produzir hits e se mantiveram consistentes no cenário latino (que, aliás, é bem fiel). Na Espanha, o DJ catalão Juan Magan — o rei do electrolatino — junto a outras dezenas de artistas provenientes das Américas também ajudaram a fazer do ritmo algo completamente inescapável. Mesmo ofuscado, o estilo foi uma presença constante, ajudando a abrir caminho para o atual monopólio.

De San Juan a Medellin

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Enquanto Puerto Rico foi quem deu o ponta pé inicial no fenômeno, foi a Colômbia, especificamente a cidade de Medellín, que elevou o estilo ao seu atual patamar e deu uma nova roupagem ao gênero. O primeiro megastar proveniente dessa nova fase foi J. Balvin.

A hypada publicação americana Fader, que dedicou uma capa ao megastar latino, fez uma boa descrição da diferença entre o colombiano e os anteriores ícones do gênero:

“O reggaeton de Balvin é mais sutil, mais relaxado e mais em linha com o que está acontecendo na cena pop e hip-hop atual. Enquanto Daddy Yankee parecia estar gritando em suas músicas, Balvin canta com uma pronunciação mais suave”, descreve a revista.

“Ao invés de enormes óculos aviadores e bonés largos, Balvin opta por um chapéu de cowboy de abas largas e streetwear direto da passarela de designers badalados como Guillermo Andrade”.

Assim como Kanye e Drake ajudaram a reinventar a cena do rap, Balvin — com seu swagger e estilo — marcou um novo começo na cena do reggaeton. Em 2011, ele começou a emplacar sucessos na Colômbia. Em 2012, Yo Te La Dije e Tranquila estouraram nos EUA, nas Américas e na Espanha. E, em 2013, ele obteve seu primeiro mega blockbuster hit com 6 AM. Seu primeiro álbum, La Familia, foi um grande sucesso e, provando que tinha chegado de verdade,  emplacou logo em seguida outro inescapável hit, Ay, Vamos.

O estilo único de Balvin está diretamente ligado a sua história de vida: nascido numa família de classe alta em Medellín, ele cresceu apaixonado por grunge e Nirvana. Depois,  descobriu Daddy Yankee, sua maior inspiração. Sua família foi a falência e Balvin começou a transitar entre dois mundos, estudando numa escola de elite e vivendo num bairro próximo do gueto. Num intercâmbio para os EUA, ficou fascinado pelo universo do rap e hip-hop e todo o business bilionário em torno do gênero. Voltou para sua cidade natal disposto a fazer do reggaeton um negócio similarmente lucrativo. E, claro, o resto é história.

Balvin aponta Yankee como a figura responsável por fazê-lo se apaixonar pelo reggaeton. O porto-riquenho também tem influência direta em outro dos principais nomes ligados a cena de Medellín, Nicky Jam.

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Nicky Jam

Jam nasceu em Massachusetts mas foi criado em San Juan, Puerto Rico. Seu talento chamou atenção de Daddy Yankee, que o apoiou e o treinou em seus primeiros anos, além de ter colaborado com ele em várias músicas. Não demorou para começar a obter sucesso mas as drogas e uma briga com seu mentor (que estava prestes a estourar com Gasolina) deram fim prematuro a sua carreira, interrompida em 2005.

Com a autoconfiança abalada, Nicky Jam se mudou para Medellín. A cidade era louca por reggaeton mas, antes de Balvin explodir, poucos imaginavam que alguém de lá poderia se tornar um grande astro do gênero. A chegada do porto-riquenho na cidade — com seu sucesso prévio e sua antiga associação com Yankee — causou burburinho e não demorou para as portas começarem a se abrir uma atrás da outra.

A forte cultura musical colombiana (cujo gênero local principal é o vallenato) influenciou Jam a dar mais melodia e romantismo a suas produções. E, depois de anos se preparando, ele finalmente estava pronto para oficialmente retornar. Foi um sucesso de imediato. Em 2014, a repercussão arrebatadora do single Travesuras o colocou na primeira linha. Apesar de ter nascido nos EUA e ter sido criado em San Juan, o sucesso dele era made in Colombia.

Em paralelo a Jam e Balvin, outra cria de Medellín começava a deixar sua marca. Enquanto Travesuras estourava, Maluma, então com 20 anos, conquistava a Colômbia com seu rostinho bonito e se estabelecia como o maior teen idol do país. O sucesso da sua música La Temperatura abriu as portas dos EUA, assim como de outros mercados latinos e da Espanha e deixava claro que ele também não estava para brincadeira. Com a ajuda das redes sociais, o garoto se estabelecia como uma das estrelas mais rentáveis da América Latina.

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Maluma

2015: o ano em que reggaeton virou a norma

Se Travesuras tinha dado nova vida a carreira de Nicky Jam, o porto-riquenho — agora baseado em Medellín — não imaginava o que estava por vir em 2015: seu single subsequente se transformaria num dos maiores sucessos em espanhol da história recente.

El Perdón, que contava com a participação de Enrique Iglesias, inquestionavelmente um dos maiores astros da música latina, passou 1 ano inteiro no topo de absolutamente todos os países de língua hispana (e 30 semanas no topo do Hot 100 Latin dos EUA), acumulou mais de 1 bilhão de views no YouTube e se transformou na música em espanhol mais streamed do Spotify (335mi), transcendendo barreiras e atingindo o top 10 de mercados não latinos como Alemanha, França, Suécia e Holanda. A música cristalizou a posição de Jam dentre os maiores nomes da música latina. O single também significou um renascimento de Enrique Iglesias.

De certa maneira, Iglesias serve como um termômetro do que é popular no cenário latino: ele está sempre colaborando e produzindo músicas de maneira milimetricamente planejada para obter os maiores hits.

Sendo assim, a transição de Enrique para o reggaeton foi um momento divisor de águas: era um sinal de que o gênero deixava de ser apenas mais um estilo popular para se transformar no estilo principal.

Iglesias é, desde meados dos anos 90, um dos maiores nomes da música em espanhol. Assim como seu pai, Julio, seu repertório era formado por baladas românticas e, logo de cara, ele virou um dos maiores astros da América Latina, com hits como Experiencia Religiosa e Nunca Te Olvidaré antes de crossover para o mercado anglo-saxão com giga hits como Hero e Escape.

Em 2007, Iglesias voltou as paradas com uma série de sucessos em inglês como I Like It e Tonight (I’m Fucking You), quase todos com participação de Pitbull. Para suas canções em espanhol, contudo, ele seguiu apostando em um som mais romântico, obtendo grandes sucessos como Cuando Me Enamoro, uma colaboração com Juan Luis Guerra que ficou 14 semanas em primeiro lugar, assim como duetos com grandes ícones da música romântica como Romeo Santos (Loco) e Marco Antonio Solis (El Perdedor)

Mas, em 2014, o artista espanhol começou a flertar com estilos mais dançantes. O resultado foi Bailando, uma colaboração com o grupo Gente de Zona e o artista Descemar Santos, ambos cubanos, que mesclava pop, flamenco e um pouco de reggaeton. Foi um sucesso sem precedentes na carreira do artista, superando todos os seus sucessos anteriores (e isso não era tarefa fácil para alguém que, naquela altura, já tinha passado 104 semanas no topo da parada Latina da Billboard).

Foram 41 semanas ininterruptas no topo da Billboard Latin Tracks, um recorde histórico. Nos EUA, a canção vendeu 3 milhões de unidades, números inéditos para uma faixa em língua estrangeira. Na Espanha e na América Latina, a música tocou — sem parar — por 1 ano inteiro. O clipe acumulou mais de 1.6 bilhão de visualizações no YouTube, se tornando o vídeo em espanhol mais visto na plataforma (e o nono mais visto no total).

Repetir esse sucesso não seria fácil. Mas daí Iglesias viu um trecho de El Perdón, que Jam estava previewing no Instagram; pediu para participar e o resto é história. A canção fez o impossível e igualou o sucesso histórico da antecessora, dando para Enrique mais um ano ininterrupto no topo das paradas de todos os países hispano e além (a música foi um enorme sucesso em quase toda Europa continental).

O fenômeno da colaboração com Nicky Jam fez com que Enrique finalmente assumisse seu novo papel de reggaetonero. Duele El Corazón, seu follow-up, uma colaboração com Yandel, provavelmente encerrará o ano como um dos maiores hits de 2016.

O cenário atual

Basta ver a diferença de orçamento entre os clipes de reggaeton de 2014 para o presente para constatar que, graças a rentabilidade dos principais nomes do gênero, muita coisa mudou.

Enquanto Iglesias se acomodava e Nicky Jam ascendia, J. Balvin seguia imparável. Depois do sucesso de 6 AM e Ay, Vamos!, Balvin lançou, em julho, o que se tornaria seu maior hit internacional até então: Ginza. A música foi catapultada quase de imediato para o topo de todos os países que falam espanhol (e substituiu El Perdón na Hot 100 Latin, onde ocupou o primeiro lugar por 20 semanas)  e é a segunda canção em espanhol mais ouvida da história do Spotify. No YouTube, são mais de 700 milhões de visualizações (mas ainda não chega nem perto do sucesso de Ay Vamos! na plataforma).

Balvin atingiu um milestone importante quando foi selecionado para fazer parte do jurado do The Voice mexicano. O programa frequentemente atraí nomes gigantes para seu painel, como Alejandro Sanz e Laura Pausini. Sendo assim, a adição de Balvin foi um huge deal e um testamento de sua força no mercado (de quebra, a candidata dele ainda ganhou a edição), consolidando-o como um household name no México, inquestionavelmente o principal mercado hispano-americano (que tem influência direta no que faz sucesso no lucrativo mercado latino dos EUA). Por lá, ele ainda tem tem um contrato milionário com a Pepsi e aparece nas embalagens do refrigerante.

Ele também se solidifica como um fashion icon — algo nunca antes visto no cenário urbano latino — usando peças Gucci, Saint Laurent, Chanel e colaborando até com a Vogue.

Mais importante, ele segue como um hitmaker impressionante. Otra Vez, sua colaboração com o duo porto-riquenho Zion & Lennox, é atualmente o reggaeton mais badalado na América Latina, no top 5 do Spotify do México, Espanha e Argentina (e disparado em primeiro no Chile e na Colômbia). Seu atual single solo, Safari, acumulou 30 milhões de visualizações no YouTube em uma semana (depois de duas semanas de exclusividade na Apple Music). E o anterior, Bobo, quebrou recorde de views e streams nas principais plataformas.

Assim como Balvin, Nicky Jam também tem o toque de Midas:  depois de 20 semanas ininterruptas em primeiro lugar no Hot Latin Tracks, Ginza foi substituído no topo da Billboard pelo primeiro single pós-El Perdón do porto-riquenho, Hasta El Amanecer. A canção encabeçou a lista por 14 semanas  e quebrou recordes no YouTube  e no Spotify (sendo o single em espanhol de maior sucesso de 2016 em ambas as plataformas).

Sua colaboração com Cosculluela, Te Busco, também está impressionando: apesar de nem sequer ter um clipe ou um lyric video oficial, a canção já tem mais de 300 milhões de views no YouTube e está prestes a penetrar o seleto grupo de músicas em espanhol no Spotify que superaram 100 milhões de streams (apenas 12 canções no idioma atingiram a marca, das quais três são de Jam).

Nada mais natural que tanto o colombiano quanto o porto-riquenho estejam em altíssima demanda. O primeiro colaborou com Pharrell Williams (que cantou em espanhol para a canção Safari) e Justin Bieber (sendo responsável por adicionar alguns versos na versão para o mercado hispânico do giga hit Sorry). O segundo foi acionado por Maná, inquestionavelmente o maior grupo de rock latino , para fazer um remake reggaeton de De Pies a Cabeza, um sucesso de 1992, e também por Sia, que o incluiu na versão latina de Cheap Thrills.

Mas a disputa pelo topo não foi só entre Balvin, Jam e Enrique. O já mencionado Maluma está se provando um fenômeno igualmente potente e, possivelmente, o nome mais rentável de todos. Com seu rosto de proporções perfeitas e seu estilo fashion, o autodenominado Pretty Boy, Dirty Boy emplacou seu primeiro gigantesco hit, Borro Cassette, no começo desse ano. A música atingiu o topo em todos os principais mercados — México, Argentina, Chile, Espanha — e o terceiro lugar nos EUA.

O poder dele ficou claro quando os ingressos de sua turnê foram disponibilizadas. Ele esgotou 5 noites no Luna Park de Buenos Aires em tempo recorde e sua turnê mexicana, incluindo duas noites no lendário Auditorio Nacional da Cidade do México, também estava toda vendida com meses de antecedência. Enquanto Balvin assinou com a Pepsi, Maluma é garoto propaganda da Coca Cola. Nas redes sociais, seus números já superam os de quase todas os outros mega astros latinos. Seus singles são imediatamente adicionados na alta rotação das rádios latinas, além de penetrarem as paradas do Spotify com enorme rapidez. No Youtube, ele é rei absoluto de views. No Instagram, nenhuma estrela hispânica tem tantos seguidores e likes.

Seu calibre é tamanho que sua estreia no Brasil foi digna de estrela internacional de primeiro escalão, aparecendo com equal-billing em Sim Ou Não, primeiro single do novo álbum de Anitta, a maior estrela pop do país (Ginza de J. Balvin também fez sucesso aqui graças a uma versão com a participação dela).

Anitta está longe de ser a estrela mais high profile com a qual o colombiano colaborou. Ele aproveitou uma passagem relâmpago por Barcelona para gravar com uma conterrânea que é, inquestionavelmente, a maior estrela da América Latina, Shakira.  Ele também está no próximo single de outro dos principais astros da região, Ricky Martin. E Desde Esa Noche, sua colaboração com Thalia, está bombando.

A velha guarda

Apesar do enorme sucesso da nova geração, Daddy Yankee segue o rei. Já se passaram 12 anos desde seu primeiro giga hit, Gasolina, mas ele segue no topo das paradas. Shaky Shaky, seu atual single, é, junto com Otra Vez, o maior hit reggaeton do o momento. Atualmente, a canção está em primeiro no Spotify da Argentina e no top 10 de todos os demais mercados. O vídeo da canção é a música em espanhol mais popular do YouTube das últimas semanas (quarto vídeo mais visto no total, superando quase todos os lançamentos de artistas anglo-saxões).

Enquanto o som de Yankee é bem batidão, seu arquirrival, Don Omar, é conhecido por seguir uma linha bem mais romântica. Atualmente, se dedica a atuação, fazendo parte da mega franquia Velozes & Furiosos (que fez de Danza Kuduro música tema de seu quinto filme, um sucesso global).

Apesar de sempre terem posado para mídia como “inimigos”, Yankee e Omar tem, na realidade, uma relação profissional amigável. Esse ano, até fizeram uma turnê em conjunto, The Kingdom, que esgotou as principais arenas dos EUA, incluindo o Madison Square Garden de Nova Iorque, o Staples Center de Los Angeles e a American Airline Arena de Miami.

Além dos dois, outra dupla monopolizou o gênero nos idos dos anos 2000: Wisin & Yandel. Depois de gravar dezenas de sucessos em conjunto, ambos seguiram em carreira solo. Wisin obteve um hit inescapável em 2014, Adrenalina, com a ajuda de J.Lo e Ricky Martin enquanto Yendel fez bonito junto a Daddy Yankee com Moviendo Caderas. Depois, Wisin se juntou a estrela colombiana do pop vallenato, Carlos Vives, no sucesso Notas de Amor e Yandel, sozinho, obteve grande sucesso com Encantadora.

Hit instantâneo

O mercado latino é extremamente fiel. Shakira é capaz de produzir um hit instantâneo no continente hoje em dia quase tão facilmente quanto em 2003 ou em 1997. Ricky Martin, Marc Anthony, Chayanne, Maná e Alejandro Sanz seguem enchendo os maiores estádios. Uma vez que o público latino te aceita entre os grandes, ele não vai te abandonar tão facilmente. Mas fidelidade e consistência não significa que eles não são ofuscados pelas novas sensações jovens. Por isso, um remédio foi encontrado: se associar com as tais sensações.

Seguindo o exemplo de Iglesias, todos os principais  nomes da música em espanhol estão se rendendo ao reggaeton.

Lançado em 2015, La Mordidita, de Ricky Martin, foi o maior hit do porto-riquenho na década. O próximo single dele, que será lançado essa sexta, será uma colaboração com Maluma. O lendário cantor colombiano Carlos Vives também frequentemente colabora com o pretty boy colombiano (o fato de dividirem um empresário provavelmente ajuda) e obteve um grande sucesso com Notas de Amor, junto a Wisin e Daddy Yankee. Marc Anthony emprestou seus vocais para La Gozadera, o giga hit do Gente de Zorra que homenageia a América Latina (e, ironicamente, foi um dos maiores hits da história recente não no continente, mas sim na Espanha, atrás apenas de El Perdón). Com Desde Essa Noche, também colaboração com o fenômeno Maluma, Thalía obteve seu maior sucesso da década.

Outra técnica utilizada para maximizar o impacto das canções no mercado latino: regravá-las em estilo reggaeton.

Carlos Baute, popular cantor de origem venezuelana, tem obtido grande sucesso com Amor y Dolor refeito pelo duo porto-riquenho Alex & Fido. A banda romântica mexicana Reik fez sucesso com Ya Me Enteré mas o urban remix, refeito por Nicky Jam, é o que está penetrando o top 10 do Spotify em países onde a versão original não chegou sequer ao top 50 (como Argentina, Chile e Espanha). Como já mencionei antes, até o Maná, não exatamente conhecidos por serem inovadores, se rendeu, relançando uma versão do seu hit de 1992, De Pies à Cabeza com Jam. Vários dos maiores hits internacionais do ano (Cheap Thrill; Sorry; Cold Water) também adicionaram os principais nomes do gênero (Balvin, Jam, Don Omar) em remixes lançados especialmente para o mercado hispânico.

Dos países hispânicos para o mundo

O mais óbvio próximo passo é fazer com que o gênero conquiste de vez o resto do mundo.

Isso inclui, claro, os dois principais mercados de todos, notoriamente resistentes a músicas estrangeiras: os EUA e o Reino Unido (Gasolina e Danza Kuduro foram as únicas duas músicas a atingirem o mainstream nesses dois países).

No Brasil, Anitta, inquestionavelmente o maior nome pop do país, serve como uma embaixadora não oficial do gênero. Com a ajuda dela, Ginza, de J Balvin, obteve sucesso por aqui e Maluma está sendo introduzido em grande estilo pela diva pop . Fica a dúvida se o reggaeton, que já conquistou todo o resto do continente, conseguirá levantar voo em nosso mercado.

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Alguns acreditam que gravar em inglês pode agilizar a conquista do mundo anglo. Nicky Jam, que nasceu nos EUA e Enrique, um ato global, costumam gravar versões em inglês dos seus maiores hits. Apesar de o idioma ter mais alcance, nenhum desses remakes ganhou tração.

Já Balvin declarou que não pretende se render. A aposta dele é que o mundo English-speaking que se entregará ao espanhol (como Pharrell Williams faz no atual single do colombiano ou Drake fez em Odio, do astro da bachata Romeo Santos).

Seja como for, a verdade é que os ventos sopram a favor do reggaeton: os dois maiores sucessos de 2016 foram One Dance de Drake e Work da Rihanna, ambas músicas que, assim como o estilo sensação latino, têm enorme influência jamaicana e caribenha. Repetição e batidas familiares são a porta para o sucesso. Logo, essa onda tropical abre precedentes para músicas com estilo similar — como reggaeton – acontecerem nas rádios e nas paradas mundo afora.

Será que é só questão de tempo até as paradas globais refletirem as da Espanha e da América Latina?

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Cinema 2014: fádiga de Hollywood ajuda fenômenos locais

O verão estado-unidense é a época de ouro para os grandes estúdios. As férias escolares trazem faturamento recordes e explicam o porque de tantos grandes lançamentos serem concentrados entre os meses de junho e agosto. Esse ano, porém, o verão foi motivo de bastante lamentação: Hollywood teve seu pior resultado desde 1997 (ajustado pela inflação) e uma queda de 15% em relação a 2013, deixando claro que os americanos estão cada vez menos empolgados com a ideia de gastar seus suados trocados em filmes que, francamente, são quase sempre mais do mesmo.

Apesar disso, a hegemonia dos filmes de Hollywood segue inabalada. Com mais de 1 bilhão de dólares lucrados globalmente, o quarto filme da franquia Transformers, Age of Extinction — o primeiro com Mark Whalberg e Nicole Peltz nos papeis principais — ocupa com folga o posto de longa de maior sucesso do ano. O resultado espetacular, contudo, não ofusca o fato de que Transformers é um exemplo clássico do tipo de filme que explica a fadiga do públicp: formulaico, baseado numa franquia já existente e com uma forte dependência de efeitos especiais espetaculares para distrair do fato de que o roteiro basicamente não existe.

Transformers 4 foi o único filme da franquia a não ultrapassar dos 300 milhões de dólares no seu mercado natal e, com 245.5 milhões de dólares arrecadados, ele mostrou uma queda considerável em relação ao segundo filme da série, lançado em 2009, e que lucrou mais de  400 milhões. O resultado do longa em mercados europeus e no Japão também foi bastante aquém aos antecessores.

Contudo, como os resultados globais do longa de Michael Bay deixam claros, Hollywood está sabendo mascarar essa queda de interesse graças a conquista de novos territórios que, até pouco tempo atrás, eram insignificantes. Hoje, esses países — como a Rússia (onde Age of Extinctinon lucrou mais de 45 milhões de dólares) — são alguns dos mais lucrativos mercados internacionais e, depois de conquistar o ex país soviético, as garras de Hollywood estão fincadas na China.

Com mais de 1 bilhão de pessoas, a China é um mercado gigantesco. Lançar um filme no país, porém, é complicado e exige muitíssima negociação com os órgãos públicos. O esforço é justificado pelo tamanho do lucro em potencial. O país, sozinho, foi responsável por fazer de Transformers: Age of Extinction o sucesso monstro que ele acabou sendo. Coproduzido por uma companhia chinesa, o longa é o maior sucesso da história do país, com 301 milhões de dólares arrecadados, conseguindo o ato quase inédito de superar o faturamento norte-americano.  O amor dos chineses por blockbusters de ação também significou lucros gigantescos para X-Man: Days of the Future Past; Captain American: The Winter Soldier; Dawn of the Planet Apes; Guardians of the Galaxy e The Amazing Spider Man 2, todos com rendas superiores a 90 milhões de dólares no país.

A crescente demanda por assistir filmes via métodos legais na China é fonte de enorme otimismo para os executivos de Hollywood. Porém, no resto do mundo, a falta de ofertas empolgantes dos titãs do entretenimento está fazendo com que o público local opte por prestigiar produções locais, com roteiros mais criativos e que falam de maneira mais profunda e direta com a população. E, apesar da enorme dificuldade de qualquer país de enfrentar os gigantescos americanos, 2014 foi um ano onde, novamente, diversos países conseguiram produzir seus próprios fenômenos de bilheteria.

Espanha: diante de uma nação fragmentado e em caos econômico e político, uma comédia une o país

A Espanha, com sua milenar história de grandes descobertas, conflitos e riquezas, foi um dos maiores responsáveis por moldar o mundo ocidental. Mas, apesar do seu passado glorioso e rico, o país passou grande parte da segunda metade do século 20 ofuscado, sofrendo uma opressora ditadura que os manteve bastante atrasados em comparação com seus vizinhos europeus. As Olimpíadas de Barcelona em 1991 os colocaram no centro do holofote global, transformando-os num dos maiores polos de turismo mundial e a Espanha entrou no novo milênio cheio de otimismo, investimento e a sensação de que, novamente, eles estavam lado a lado das grandes potências. Tudo isso came crashing down com a crise global de 2008 e, desde então, o país tem enfrentado uma crise histórica, com enorme desemprego e poucas perspectivas de recuperação.

O tumulto econômico espanhol é só um dos muitos aspectos que refletem o caótico panorama na Espanha. Dividido em diversas regiões autônomas, o país tem enorme dificuldade para inspirar em sua população a sensação de um “país unido” e cada região tem sua própria cultura, forma de encarar a vida e muitas delas têm inclusive língua própria. As duas principais cidades do país, Madrid, a capital, e Barcelona, a principal cidade da rica região da Catalunha, tem uma rivalidade histórica que trace back para séculos e séculos atrás e, com a crise, o movimento separatista catalão ganha cada vez mais força.

No meio desse caos, uma comédia que ri das diferenças culturais do país, Ocho Apellidos Vascos (Oito Sobrenomes Bascos), lançado em março, conseguiu a difícil missão de unir a Espanha, levando mais de 9 milhões de pessoas aos cinemas (quase 1/4 da população do país) e se transformando na maior bilheteria da história.

Enquanto a cobertura das rivalidades e conflitos separatistas em geral focam em Madrid e Barcelona, ambas as cidades, grandes e cosmopolitas, não são tão diferentes entre si. Ocho Apellidos foca em duas regiões que, essas sim, são total opostos uma da outra: a quentíssima, cálida, romântica, espanholíssima Andalucia e o frio, nublado, desenvolvido País Basco.

Os protagonistas do filme são Rafa, um andaluz, super latin lover e representante de todos os estereótipos da região e Amaia, uma basca fria e moderna. Por coincidências do destino, os dois acabam se cruzando e, apesar de serem completamente diferentes, Rafa acaba se apaixonando perdidamente por Amaia, que pertence a uma família ultranacionalista que nunca aceitaria que ela estivesse num relacionamento com alguém fora da região. Abandonada por seu noivo poucos dias antes do seu casamento, Amaia vai receber a visita do seu pai ausente pela primeira vez em anos e não quer contar para ele que seu noivado foi por água baixo. Por isso, ela recruta o andaluz apaixonado, que faria qualquer coisa para vê-la novamente, até sua cidade natal com uma missão quase impossível: manter a farsa de que ele é o noivo basco dela.

Enquanto as tentativas do andaluz de raiz em fingir que é basco são hilariantes para o público espanhol, familiarizado com os estereótipos e tradições das respectivas regiões, as piadas se perdem para os não locais. Isso significou que o filme teve um alcance internacional curtíssimo, fracassando inclusive no país vizinho, Portugal, onde, por também fazer parte da Peninsula Ibérica e ter uma cultura bastante similar, recebeu um significante marketing push. Mas os resultados históricos na Espanha fizeram com que a recepção morna internacional passasse completamente despercebida: o filme superou The Impossible, o filme de 2012 de Juan Antonio Bayona, para se transformar na maior bilheteria da história da Espanha, com um rendimento de quase 60 milhões de euros (em dólares, o rendimento foi de U$77.5 milhões).

Na cena que dá origem ao título do filme, o pai de Amaia menciona que a garota teve um namorado “do sul”. “Do sul?”, pergunta em choque Rafa. “Sim, de Vitória”, responde o pai, citando uma cidade do País Baixo que, por sua posição geográfica, é menos de raiz que suas vizinhas ao norte. “Mais ele era bem vasco, hein! Ele tinha os oito sobrenomes vascos!!”. “Ah, ele também tem!”, diz Amaia apontando para Rafa, dando a deixa para que ele invente, de cabeça, oito sobrenomes longuíssimos e cheios de consoante, como os tradicionais sobrenomes locais.

Em outro momento do longa, Rafa joga um cigarro aceso numa lixeira, iniciando um pequeno incêndio que é confundido com um ato de protesto. Em pouco tempo, ele aglomera uma multidão e vira o líder de uma manifestação separatista. Pressionado pelas pessoas reunidas (e até pela TV local), Rafa puxa um grito de guerra: “Somos mejores! Que los españoles!”. “Discurse em basco!!“,  alguém grita. “Não! Para quem estamos pedindo a independência? Para os bascos? Ou para Madrid? Temos que falar em espanhol para que eles nos entendam!”, responde Rafa, que não sabe uma palavra do complicadíssimo idioma local. Já com a multidão ao seu lado ele entona uma versão super desafinada do famosíssimo hit “Sevilla tiene un color especial” do Los del Rio (conhecidos globalmente graças a obra de arte Macarena), substituindo a capital andaluz por “Euskadi” (“País Basco” no idioma local). “Euskadi tiene un color especial! Euskadi tiene un color diferente!” repetem os protestantes.

O filme que ri das diferenças espanholas acabou por unir o país. De norte a sul, não teve uma cidade onde 8 Apellidos não foi um fenômeno: Madrid, Catalunha, Andalucia, País Baixos e todas as demais regiões, a sensação foi que não teve ninguém que não foi no cinema prestigiar o longa metragem. Clara Lagos e Dani Rovira, ambos já bastante sucedidos, tiveram a popularidade potencializada, sendo escolhidos como protagonistas da mega campanha de liquidação de verão do El Corte Inglés, a maior loja de departamento da Espanha. O sucesso foi tamanho que, quando o DVD e o blu-ray foram lançados,  seis meses após a estreia, ainda haviam 54 salas de cinema exibindo o filme.

Em abril de 2015, a sequência começa a ser filmada. A continuação focará novamente nas diferenças entre Andaluzia e País Baixo e adicionará mais uma região autônoma a equação: Catalunha.

Em momentos de crise econômica e protestos separatistas, nada melhor do que o humor para lembrar que, por mais que o país tenha muitas diferenças, são todos, no final das contas, parte da mesma cultura.

Argentina: gargalhadas selvagens em um país transtornado

Damian Szifrón é um nome fortíssimo na Argentina. Entre 2002 e 2003, criou e roteirizou Los Simuladores, fenômeno de audiência na Telefe e considerado por muitos como a melhor série argentina de todos os tempos. Em 2003 e 2005, dirigiu dois elogiados e bem-sucedidos filmes, El Fondo del Mar e Tiempos Valientes antes de voltar a televisão, em 2006, com mais um sucesso: Hermanos y Detectives. Desde então, Szifrón se retraiu. Por tanto, quando, depois de quase oito anos, foi anunciado que ele iria voltar com um novo filme, Relatos Salvajes — que tinha o maior ator argentino, Ricardo Darin, no elenco e produção do celebradíssimo diretor espanhol Pedro Almodovar —  as expectativas eram altíssimas. Mesmo assim, o filme conseguiu a missão dificílima de superá-las: com 3.5 milhões de ingressos vendidos, o filme se se transformou no filme local de maior sucesso da história.

Todo mundo esperava uma estreia fantástica de um filme que envolvia Szifrón, Darin, Almodovar e tinha promoção da Telefe e recepção fantástica em festivais mundo afora, incluindo Cannes. Porém, logo no primeiro final de semana, já ficou claro que até as apostas altas iriam ser modestas quando comparados aos resultados: 500 mil pessoas correram para o cinema, coroando o filme como a melhor abertura de um filme local na história. Demorou oito semanas para Relatos Selvagens desocupar o topo dos filmes mais vistos do país e ele não mostra sinais de que vai sair dos top 5 por bastante tempo. O filme já é a terceira maior bilheteria da história da Argentina, só superado por A Era do Gelo 4 e Titanic. Relatos Selvagens e Titanic são, alias, os únicos dois filmes não-animados a ultrapassarem a casa de 3 milhões de ingressos vendidos no país.

Relatos Selvagens engloba seis histórias curtas de humor negro, todas elas fazendo jus ao título. O filme, claro, será a nominação argentina ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro.

Ainda teremos que esperar uns meses para constatar se Relatos vai conseguir agradar a Academia tanto quanto O Segredo de seus Olhos mas, em contrapartida, o público já foi totalmente conquistado. O ganhador do Oscar era, até a estreia do filme de Szifrón, a maior bilheteria de um filme local na Argentina. Relatos Salvajes, contudo, mais que dobrou o lucro do filme anterior, chegando a 19 milhões de dólares arrecadados na Argentina e no Uruguai.

O tom cínico e autodepreciativo do filme tem bastante do humor e do jeito argentino de ver o mundo. E, em tempos de caos político, impunidade e economia extremamente turbulenta, o sucesso de Relatos pode indicar um pouquinho sobre o estado emocional do povo local.

Mas, deixando a análise psicológica de lado, não tem como discordar que o filme é realmente impressionante e mais um ótimo exemplo da alta capacidade dos nossos vizinhos de fazer longas-metragens com produção, roteiro e direção do mais alto calibre. Além dos 18 milhões de dólares arrecadados na Argentina e no Uruguai, Relatos tem tido bom desempenho na Espanha, país que co-financiou o filme. Depois de uma estreia para lá de discreta — lucrando 653 mil dólares e estreando em sexto nas bilheterias — o filme se beneficiou do boca a boca e se mantém estável entre as quatro maiores bilheterias do país desde então, já tendo ultrapassado 3.5 milhões de dólares de rendimento em um mês desde que foi lançado.

Com 25 milhões de dólares arrecadados até o momento, o filme tem um longo caminho até alcançar os 33 milhões alcançados globalmente por El Secreto de sus Ojos (incluindo 8mi na Espanha; 6.4mi nos EUA; 1.6mi no Brasil; 1.55mi na Itália e 1.1mi no Reino Unido) mas, mesmo sem um Oscar, o filme tem superado o filme de Campanella nos poucos mercados onde já estreou (Peru, Chile, Venezuela, Colombia, Holanda) além de estar andando a longos passos na Espanha e no Brasil.

França: rindo do racismo ou apenas reforçando-o?
Fenômeno de bilheteria ressalta problemas que o país tem com o multiculturalismo

Em 2008, Bienvenue chez les Ch’tis, que ri dos estereótipos da infame região nordeste da França, quebrou o recorde de maior bilheteria da história do país, arrecadando 194 milhões de dólares e levando mais de 20 milhões de pessoas aos cinemas (e também originando uma super bem-sucedida adaptação italiana). Em 2009, Avatar, o primeiro filme de James Cameron desde Titanic (que, com 21.8 milhões de ingressos vendidos em 1997, é o único filme na história da França que vendeu mais ingressos que Ch’tis) também levou uma multidão para os cinemas que, curiosas pela nova  e groundbreaking tecnologia 3D, não se incomodou em pagar um preço mais alto pelo ingresso, deixando incríveis 175.6 milhões de dólares nas bilheterias do país. E, em 2011, depois de um 2010 tranquilo, a tocante comédia Intouchables, sobre a amizade entre um aristocrata deficiente físico branco com seu auxíliar negro do gueto, levou 19.5 milhões de pessoas aos cinemas, se transformando na terceira maior atração da história do cinema na França (atrás só de Titanic e Ch’tis) com mais de 166 milhões de dólares na França. O filme transcendeu a França e, graças a resultados altíssimos no mundo inteiro, o longa fechou seu run com 426.6 milhões de dólares, o lançamento francês mais bem sucedido da história.

Desde então, nenhum grande arrasa quarteirão abalou as estruturas das salas de cinema francês mas, esse ano, um filme chegou perto. Qu’est-ce qu’on a fait au Bon Dieu? (O que fizemos ao Bom Deus?) não alcançou os resultados dignos dos livros dos recordes de Intouchables e Ch’tis mas foi um dos quatro filmes a ultrapassar a barreira dos 100 milhões de dólares arrecadados nas últimas duas décadas e apenas o sétimo filme a vender mais de 12 milhões de ingressos nos últimos 40 anos. Nada mal, né?

Qu’est-ce qu’on a fait… é uma comédia que, assim como Intouchables, trata de uma França cada vez mais diversa e a dificuldade de muitos em se adaptar a isso. Em tempos de muita controvérsia em relação a racismo e direitos de minoria e do assustador crescimento do partido de extrema direita, Front National, o filme causou identificação no público local contando a história de um casal provinciano, burguês, branco e ultra conservador, Claude e Marie e a dificuldade deles em aceitar o casamento multi-racial de suas filhas. Isabelle se casou com o muçulmano Rachid; Odile com o judeu David e Ségolene com o chinês Chao. Quando a filha mais nova, Lauren, avisa que está noiva, o casal sente tanto alivio em descobrir que ele é católico e se chama Charles que estão dispostos até em perdoar o fato de que ele é ator. Qual a surpresa deles em descobrir que Charles é negro, veio da Costa de Marfim e tem um pai cheio de ressentimento com brancos e a colonização da África.

O filme, que celebra uma França cada vez mais multicultural e faz piada com a ideia de que todo mundo, independentemente da etnia, guarda preconceitos, também teve ótimos resultados em outros mercados europeus onde já foi lançado como Grécia e Bélgica. Na Alemanha e na Áustria, o filme ultrapassou os 39 milhões de dólares arrecadados e é um dos maiores sucessos do ano e, a julgar pelo ótimo recebimento em Portugal, o filme tem grande potencial na Espanha, onde estreia em dezembro, e na Itália.

Mas enquanto Qu’est-ce…, cujo título internacional é Serial (Bad) Weddings, tem obtido bons resultados em diversos mercados (seu lucro global até o momento, 149 milhões de dólares, é mais do que 10 vezes o custo de produção, que foi de apenas 13mi), ele tem encontrado enorme dificuldade para arranjar distribuidores no Reino Unido e nos EUA, mercados onde filmes franceses com respaldo tão gigantesco não costumam ter dificuldades em serem lançados. Em entrevista ao Le Point, a diretora de vendas internacionais da TF1, Sabine Chemaly, explica o porque da dificuldade: “eles têm um approach cultural bastante diferente do nosso. Eles consideram o filme muito politicamente incorreto e eles nunca se permitiram rir  de negros, judeus e asiáticos. É claro que o sucesso do filme os empolga mas eles sabem que ele seria instantaneamente fonte de enorme polêmica”.

“A fonte de comédia é diferente nesses países. Eles vivem com as diferenças, mas não sabem rir delas. Mesmo com a distância cômica, caricaturas não são consideradas aceitáveis”. E olha, posso dizer? Os EUA e o Reino Unido estão cobertos de razão. Ainda não vi o filme e posso morder minha língua mas existe uma linha tênue entre rir de estereótipos e reforça-los e, a julgar pelo trailer e pelo que ouvi, o filme se adequa mais a segunda categoria. A mídia britânica e americana estão longe de ser perfeitas mas a percepção do que é aceitável e não é por lá é bastante mais acentuada do que na França e outros países europeus.

A intenção do filme com certeza não é cruel e acho ótimo e importante a celebração do multiculturalismo francês mas acho que a ideia de que “todo mundo é um pouquinho racista” (sim, eu sei que isso é uma música do Avenue Q) e a celebração disso através do humor é algo bastante repugnante, com mais danos do que benefícios. Não, não vejo absolutamente nada de endearing numa senhora que chora, mesmo que comicamente, com a ideia de que seu neto será miscigenado.

Tudo bem que eu não vi o filme (apesar de que, admito, não fiquei com muita vontade depois de ver o trailer. Não me pareceu engraçado) e, depois que tiver a oportunidade de assisti-lo, posso mudar de ideia. Mas acho bem difícil. De qualquer maneira, uma sequência já está sendo planejada, com lançamento previsto para 2016. Estou na torcida que, até lá, as visões do que é aceitável na França mudem um pouco e o filme acabe sendo de mais bom gosto.

Coreia do Sul: um antídoto nacionalista para um país em luto

Assim como na França, a Coreia do Sul tem diversas leis para proteger o cinema nacional e garantir espaço para filmes locais nas salas de exibição. Graças a isso, o mercado é bastante saudável e o top 10 anual sempre está cheio de filmes locais. Contudo, um fenômeno do tamanho do filme épico Myengryang: Roaring Currents, lançado no final de julho, é algo inédito na história do país. O filme vendeu 18 milhões de ingressos (num país com uma população de 50 milhões) e foi o primeiro longa doméstico a ultrapassar a barreira de 100 milhões de dólares arrecadados (131.5 milhões).

Lançado pela gigantesca CJ Entertainment com uma enorme campanha de marketing, o filme estreou em mais da metade de todas as salas de cinema do país. O longa, uma super produção com impressionantes sequências de ação, conta a história de uma batalha naval no século 16 onde, contra todos os prognósticos, uma frota pequena da Coreia, sob o comando do almirante Yu Sun-sin, conseguiu derrotar a muito mais numerosa e poderosa frota dos históricos rivais do país, os japoneses.

A vitória é, até hoje, considerado um dos maiores triunfos da Coreia do Sul, uma nação que se orgulha de ter ascendido da pobreza pós-guerra para se transformar numa grande potência mundial e que, em abril de 2014, sofreu um enorme trauma nacional quando o ferry Sewol naufragou num acidente causado por enormes negligências, matando 304 pessoas, a maior parte deles alunos e professores de uma escola em Seoul. O diretor da escola, resgatado durante o acidente, cometeu suicido algumas semanas depois e grande parte dos coreanos, inclusive os pais das vítimas, acreditam que a justiça ainda não foi feita, com muitos dos responsáveis pelo acidente ainda livres e muitos corpos ainda não encontrados.

O filme, nacionalista e uplifting, que reproduz de maneira impressionante um dos maiores contos de vitória da história do país, serviu para reviver um pouco os ânimos de um país em luto.