Causando em 2017: agora é que são elas!

Depois de alguns anos de prosperidade, a era das divas pop parece ter chegado ao fim, pelo menos temporariamente. “Witness” de Katy Perry — o grande lançamento feminino do primeiro semestre — foi oficialmente um fracasso e, durante meses, somente homens foram capazes de emplacar hits com uma sucessão infinita de sucessos de Ed Sheeran e Justin Bieber; lançamentos solos de absolutamente todos os ex integrantes do One Direction e desempenhos bastante respeitáveis obtidos por nomes como Charlie Puth e Shawn Medes. Isso sem falar no sucesso espetacular de rappers como Drake e Kendrick Lamar.

Os CDs de nomes como Lorde, Halsey e Lana del Rey obtiveram resultados bons mas a falta de estrelas de primeiro escalão (Beyoncé, Taylor Swift, Rihanna) e a ausência de revelações ou grandes hits colocaram as mulheres num lamentável e injusto papel secundário.

Como esperado, Rihanna, uma das poucas popstars A-list da última década que não perdeu força na era do streaming, e Taylor Swift, que junto com Drake é indiscutivelmente o maior fenômeno comercial dos EUA, tiveram facilidade em alcançar o top 5 — com “Wild Thoughts”, colaboração com DJ Khaled, e “I Don’t Wanna Live Forever”, dueto com ZAYN . Fora essas músicas, ambas passaram a maior parte do ano on the downlow, e mais nenhuma mulher foi capaz de repetir o feito delas (ambas chegaram ao #2).

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Sza

Outro fator que colaborou com a erosão de nomes femininos foi a a urbanização do Hot 100. O streaming — hoje responsável por mais de 50% do consumo de música nos EUA — colocou o rap e o hip-hop no center stage. No Spotify, o maior serviço, metade das músicas dentre as 50 mais ouvidas da última semana — incluindo 80% do top 10 — pertencia ao gênero.  No Apple Music, que também tem enorme força no mercado americano, o número é ainda mais chocante — 80% das canções mais populares eram de rap, hip-hop e R&B. Os gêneros urbanos são majoritariamente dominados por artistas masculinos então isso ajudou a deixar a situação ainda mais desigual nos charts.

Dito isso, existem sinais de que as mulheres estão recuperando força. Os lançamentos solo recentes de Miley Cyrus, Demi Lovato e Selena Gomez não foram “Wrecking Ball”-sized hits mas todos tiveram desempenhos respeitáveis (mesmo assim, Cyrus foi a única que penetrou o top 10 até agora). Taylor Swift deve lançar novo material nos próximos meses que não deve ter problema em dominar os charts. E, apesar do apetite do público para cantoras de pop tradicional estar baixo — o que ajuda a explicar a decolagem relativamente lenta de Camila Cabello, a ex Fifth Harmony com investimento milionário e músicas produzidas por Stargate e Sia — revelações tem surgido dentro do gênero favorito da juventude americana, o hip-hop.

O primeiro nome é SZA (lê-se Sizá). Descoberta em 2011 pela Top Dawg Entertainment, a agência de Kendrick Lamar, a cantora de 26 anos foi apresentada ao grande público quando apareceu na faixa de abertura do último CD de Rihanna, “ANTI”, lançado no começo do ano passado. Ela também lançou três EPs antes de finalmente colocar no mercado seu grande debut, o álbum Ctrl.

Lançado na mesma semana de “Witness” de Katy Perry, o álbum e não tem tido nenhuma dificuldade em superar as vendas do quarto disco da estrela do pop nos EUA. Sucesso de crítica e público, o lead single do CD, “Love Galore”, está no top 10 do Apple Music e escalando a passos largos o Spotify, onde já está no top 25, sendo um contender forte para entrar dentre as 10 músicas mais populares dos EUA na parada da Billboard nas próximas semanas.

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Cardi B

O outro grande nome é a rapper Cardi B. Nascida e criada no Bronx, de origem dominicana, B. é uma ex-stripper que virou um enorme sucesso no Instagram com sua irreverência e ganhou ainda mais fama ao virar parte do elenco do popular reality show do VH1, “Love & Hip-Hop New York”. Apesar de ter muitos seguidores, poucos acreditavam que ela tinha chances de emplacar uma credbile music carreer.

Mas ela está se provando plenamente capaz. Sua música, “Bodak Yellow”, já excedeu todas as expectativas, alcançando o segundo lugar no Apple Music; sendo a segunda canção mais popular no YouTube dos EUA (atrás apenas de “Despacito”) e começando sua escalada no Spotify, onde penetrou o top 50 na segunda-feira. No Hot 100, a música subiu 21 posições em uma semana, alcançando a posição #29 e se tornando oficialmente um top 40 hit. Isso parece ser só o começo da jornada de sucesso da latina.

A estréia meteórica de Cardi B é impressionante porque dá para contar nas mãos a quantidade de rappers mulheres que obtiveram sucesso. Além disso, é o melhor debut desde Nicki Minaj, faz 7 anos. Diferente de Nicki, porém, Cardi não faz parte da Young Money — a trupe do gigantesco rapper Lil Wayne — nem foi apresentada ao público em um summer smash com a participação de todos os nomes do grupo, como Drake. Ao invés disso, a música de Cardi é totalmente solo — sem nenhum featured rapper — e a única participação de algum outro nome forte do gênero é através do instrumental — ela canta em cima de uma batida de uma música do hypado rapper da Florida, Kodak Black (daí o nome da canção, “Bodak Yellow”).

Cardi B e SZA estão leading the way para mulheres na música e provando que não é preciso ser loira e com hits pop para fazer barulho. Na verdade, em um momento em que o público está sedento por mudança, oferecer mais do mesmo — como Perry fez com “Witness” — pode inclusive ser um impeditivo.

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Causando nas Paradas: Dominação escandinava

O sueco Max Martin é, sem duvida nenhuma, o produtor mais influente e poderoso da música popular moderna, tendo sido responsável tanto pelos hits definidores de Britney Spears e dos Backstreet Boys no fim dos anos 90 quanto pelos sucessos inescapáveis contemporâneos de Taylor Swift, Katy Perry, The Weeknd, Maroon 5 e inúmeros outros. Por sua vez, grande parte do repertório estourado de Rihanna veio dos estúdios dos noruegueses do Stargate.

Baseado apenas nesses dois, já dá para comprovar que a mágica escandinava é elemento essencial no sucesso de 99% dos nomes mais estourados da música pop global. Recentemente, porém, a Escandinávia parece ter cansado de ficar apenas nos bastidores e está começando a invadir o palco principal.

Estrelas provenientes da região estão dominando as paradas dos mercados mais influentes do mundo e, cada vez mais, os charts da Noruega, Dinamarca e, principalmente, da Suécia são indicativas de futuros sucessos internacionais.

A banda dinamarquesa Lukas Graham (capitaneada, coincidentemente, por Lukas Graham) é um grande sucesso na seu país de origem desde o seu debut, em 2012. Mas, no fim de 2015, a música 7 Years virou o primeiro chart-topper deles no país vizinho, Suécia. E, se a Suécia aprovou, grandes chances do resto do mundo também abraçar.

Voila. Essa semana, a música completa 1 mês no topo da parada de singles do Reino Unido, o mercado mais influente da Europa. O single também acaba de alcançar o primeiro lugar no iTunes dos EUA, obviamente o maior mercado fonográfico do universo.

Em dezembro de 2015, antes de 7 Years acontecer mundo afora, a canção já tinha sido desbancada na Escandinávia pelo DJ norueguês Alan Walker. Faded foi o primeiro lançamento de Walker, que tem apenas 18 anos (!!!!), e foi imediatamente para o primeiro lugar das paradas na Suécia, na Dinamarca e em sua Noruega natal.

Com o seu sucesso explosivo instantâneo, Walker demonstra seu potencial para se transformar numa mega estrela da EDM (electronic dance music) junto com outros nomes locais como Kygo (da Noruega), Avicii (o sueco é a maior estrela do gênero) e os aposentados da Swedish House Mafia que foram diretamente responsáveis por dar o gás necessário para transformar a música eletrônica em um dos gêneros mais lucrativos e populares da atualidade.

Depois de estourar na Escandinávia, o DJ começou 2016 alcançando o topo de todos os demais países europeus. Recentemente, chegou ao primeiro lugar na Alemanha, o terceiro maior mercado fonográfico ocidental, onde quebrou o recorde histórico de streaming, com 3.7 milhões de plays em plataformas como Spotify e Deezer em uma semana. No Reino Unido, a música ainda não chegou ao top 20 mas, essa semana, ela foi oficialmente inclusa na playlist da Radio 1, a estação de rádio mais influente do país.

Finalmente temos Zara Larsson. A loira, que parece ter nascido pronta para a fama pop, também tem apenas 18 anos e, através das redes sociais, mostra ser muito mais do que apenas um rostinho bonito, com seu feminismo e defesa de imigrantes e refugiados.

Na sua Suécia natal, ela já é popular faz bastante tempo, tendo sido revelada num programa de talento local e tendo atingido o topo da parada pela primeira vez com a balada Uncover, um gigantesco hit em 2013

Em junho de 2015, ela voltou para o primeiro lugar em seu país: a upbeat Lush Life foi um dos grandes hits de verão no país. Meses mais tarde, mais um mega-hit com Never Forget You, uma colaboração com o britânico MNEK. Ambas as canções também arrasaram por todo o resto da Europa e Lush Life inclusive chegou ao topo na Alemanha.

Agora, Larsson parece estar pronta para conquistar o mundo. No Reino Unido, a menina tem duas canções no top 5: Girls Like, sua colaboração com o rapper Tinnie Tempah e, algumas posições acima, seu megasucesso solo Lush Life. No fim do ano passado, Never Forget You passou semanas no top 10 e já vendeu mais de 600 mil unidades.

Agora, Zara está de olho no maior mercado de todos. Lush Life está sendo inclusa nas playlists das principais estações top 40 dos EUA, como a Z100 nova-iorquina e KIIS de Los Angeles. Enquanto a canção está escalando os charts, Never Forget You, seu hit dance com o MNEK, acaba de penetrar o top 10 do iTunes estado-unidenses. Além disso, ela foi nomeada o rosto de uma nova campanha de marketing da gigantesca de beleza Clinique. Nada mal.

Qual será o próximo mega hit? A dica é ficar de olho no chart da Suécia no Spotify.

Worth noting: o Spotify, responsável por mudar a maneira que as pessoas escutam música em todo o mundo (streaming já é até contabilizado nas principais paradas mundo afora), é outra criação sueca. No país, mais de 90% do consumo de música é feito através do aplicativo.

A plataforma, cuja sede fica em Estocolmo, é uma grande entusiasta de atos escandinavos. O  DJ sueco Aviccii, a maior e mais bem paga estrela da região atualmente, aponta o serviço de streaming como peça chave na sua explosão global. Atualmente, o Spotify promove com entusiasmo Zara Larsson, Lukas Graham e Alan Walker, os colocando em playlists proeminentemente (como a Today’s Top Hits, com mais de 7 milhões de seguidores) e dando destaque a eles em sua página inicial.

De Max Martin ao Spotify aos popstars que dominam as paradas da atualidade, parece que o Scandinavian musical takeover não vai parar tão cedo.

Copa do Mundo de Futebol Feminino explode

A seleção estado-unidense comemora a vitória na Copa do Mundo de Futebol Feminino
A seleção estado-unidense comemora a vitória na Copa do Mundo de Futebol Feminino

Diferente de todo o resto do planeta, futebol não é exatamente o esporte favorito dos EUA. O fato de ser um esporte de nicho permitiu com que as mulheres, em geral discriminadas no mundo esportivo, tomassem posse da modalidade. O fruto disso foi uma seleção feminina fortíssima, tri-campeã da Fifa’s Women World Cup. E a terceira vitória, contra o Japão, na noite de domingo, dia 5, bateu recordes históricos de audiência no país: 26.7 milhões de espectadores, a partida de futebol mais assistida ever na terra do tio Sam. Para colocar isso em contexto, a final da NBA desse ano, a mais vista desde 1998, reuniu apenas 19.9 milhões de pessoas. Até agora, as únicas emissões televisivas que superaram a final da Copa do Mundo Feminina em audiência ao longo de 2015 foram o colossal Superbowl (114.4 milhões); as playoffs da liga universitária de futebol americano (33.3 milhões na final; 28 milhões para as duas semi-finais) e a final do basquete universitário (28..3 milhões).

O recorde anterior para um jogo de futebol nos EUA tinha sido a final da Copa de 2014. O jogo da Alemanha contra Argentina reuniu 26.5 milhões de espectadores, sendo 17.3 na ABC e 9.2 na emissão em espanhol, na Univision. Para um jogo dos EUA, o recorde tinha sido 24.7 milhões na partida da seleção nacional contra Portugal, também na Copa masculina do ano passado (17.1 na ESPN; 6.5 na Univision). O recorde anterior do futebol feminino foi a final da Copa Feminina de 1999, quando os EUA perderam para China nos pênaltis, reunindo 18 milhões de pessoas na frente da TV.

Esse ano, a FOX teve a exclusividade da exibição em inglês da Copa (a transmissão em espanhol nos EUA, que contribuiu com 1.27 milhão no número final, ficou para Telemundo). A emissora arrecadou 40 milhões de dólares com os jogos de acordo com a AdWeek, um aumento de 400% em relação ao campeonato de 2011. Ainda é um número modesto comparado com outros esportes e até mesmo com a Copa masculina mas, depois da audiência monstra desse ano, está mais que óbvio que esse valor crescerá exponencialmente em 2021.

As meninas do Team USA foram recebidas com grande fanfare em Nova Iorque nessa sexta-feira, dia 11. Elas desfilaram, sob chuva de confete, pelo centro da cidade, reunindo milhares de pessoas. O prefeito, Bill de Blasio, presenteou as 23 jogadoras com a chave da cidade.

E não é só nos EUA onde a WWC está crescendo consideravelmente em popularidade. No Japão, a outra seleção estrela do campeonato, as partidas também tiveram altíssimas audiências. Mesmo sendo exibida em um horário ingrato — segunda-feira, as 7:45 da manhã — a final teve audiência de 17.2%. No Japão, audiências acima de 15% já são consideradas excepcionais. As Nadeshiko, como a seleção nipônica é conhecida, perderam para as americanas de 2 a 5, uma revanche depois da vitória do time japonês em 2011. Naquele então, a final atingiu 16% de audiência (as 3 da manhã).

Chuva de confetes e multidão na chegada das garotas a Nova Iorque
Chuva de confetes e multidão na chegada das garotas a Nova Iorque

Além do Japão e dos EUA, o outro país que a Copa do Mundo feminina bombou foi a França. Apesar de ter uma seleção bastante forte, o grupo M6, que detinha os direitos de exibição, provavelmente não esperava grandes coisas , o que explica eles terem relegado as partidas para o canal secundário do grupo, o W9. Eles foram surpreendidos quando o jogo das bleu contra Alemanha reuniu 4.124 milhões de espectadores, quase que dobrando a oferta da emissora principal da companhia (que conseguiu 2.5 com um episódio do americano NCIS). Apesar de ser exibido por uma emissora que não faz parte do pacote básico (ela é um canal aberto, porém disponível apenas para quem tem TV digital), o jogo ficou em segundo lugar geral de audiência na noite, perdendo, por pouco, para a emissora líder do país, a TF1 (que exibia o reality show Kohlanta que, por causa da partida, registrou um número particularmente baixo). O índice registrados pelo jogo na W9 foi a maior audiência da história das emissoras de TV abertas digitais no país.

No Reino Unido, o resultado também foi animador. O time feminino acabou em quarto lugar — o melhor resultado da seleção inglesa desde 1966 — e os jogos triplicaram a audiência da BBC Three, incluindo 1.7 milhão de espectadores para a partida em que as inglesas derrotaram as alemãs.

Diferente dos EUA, é claro que a WWC não chegou perto da Copa masculina nem na França, nem no Reino Unido, nem no Japão. O jogo dos bleu contra a Alemanha na Copa de 2014 reuniu 17 milhões. No Japão, a partida dos Blue Samurai contra a Costa do Marfim atingiu 45% do audiência. No Reino Unido, o jogo da seleção inglesa contra o Uruguai teve 14 milhões de espectadores. Nos três países, as respectivas partidas foram as emissões televisivas mais vistas do ano.

Falando em Copa de 2014, a Alemanha — grandes vencedores do campeonato — também tinha um dos times femininos mais fortes na Copa Feminina. Não a toa, o jogo contra as francesas — que as germânicas ganharam — foi considerado um dos pontos altos da competição. Mas, apesar disso, o país pouco se importou com a Copa feminina, talvez ainda cega com a vitória do ano passado. No país, os jogos foram exibidos sem nenhum estardalhaço na emissora pública ZDF, conseguindo share de apenas 9%. Quem sabe até 2021 o país não acorde para o potencial das suas jogadoras, não é o mesmo? E o mesmo, claro, vale para o Brasil.

Causando en Español: The king of bachata

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Não se engane pela cara de pagodeiro, ele é o rei do bachata

Engana-se quem pensa que o espanhol é a língua predominante das Américas. Mais de metade dos países — a maior parte pequenas ilhas caribenhas — falam francês, creole, inglês ou holandês. Mas, quando falamos especificamente de países com populações grandes, daí as coisas mudam: dentre as 25 nações mais populosas da América do Sul; da America Central e da America do Norte, apenas cinco não tem o castelhano como o idioma principal. O maior de todos, claro, é os EUA mas, curiosamente, a terra do Tio Sam não tem idioma oficial e, apesar de o inglês ser a língua predominante, o espanhol é usado como língua primária por 10% da população e é dominado por mais de 50 milhões de americanos. Isso significa que os Estados Unidos são o segundo maior país hispano-hablantes do mundo, superando a Espanha, a Colombia e a Argentina e ficando atrás apenas do México (que tem uma pop. de mais de 120 milhões).

Levando em conta esse dado, fica claríssimo que o Brasil destoa bastante do resto das Américas. O segundo maior país da região, abrigando quase metade de toda a população da América do Sul, a nossa língua é o português (no way!! Não é espanhol brasileiro?!) e não temos sequer uma comunidade considerável de gente que fala espanhol por aqui. Sim, ambas línguas são, até certo ponto, parecidas mas, obviamente, estão longe de ser iguais (e ai do ignorante que sugerir para um brasileiro que espanhol e português são a mesma coisa).  Por incrível que pareça, eu acho que isso é apenas um detalhe: para cada diferença, também há semelhanças, tanto históricas quanto contemporâneas; tanto boas (calidez, otimismo, temperaturas boas, joie de vivre) quanto ruins (corrupção; desigualdade social; serviços públicos que deixam a desejar). O Brasil é gigantesco, praticamente um continente por si só, e tem, dentro dele, uma infinidade de culturas, mas isso não elimina nossas muitas semelhanças com nossos hermanos America afora.

Porém, contudo, todavia…. quando o assunto é cultura pop, daí sim o Brasil vira um caso a parte. Para cada Chaves/Shakira/Maria do Bairro/Usurpadora/RBD que estoura por aqui, temos milhares de outras coisas que enlouqueceram o continente e foram ignoradas por nós. Por exemplo, o hit completamente inescapável em toda a América Latina atualmente (e também na Espanha) é El Perdón, de Nicky Jam com Enrique Iglesias. É quase impossível ir numa festa — seja ela em Buenos Aires; Bogota; Punta del Este ou Cidade do México — e não ouvir Enrique entonando porque yo sin ti y tu sin mi; dime quien puede ser felíz; esto no me gusta, esto no me gusta.

No Brasil, essa música, assim como quase qualquer canção em espanhol, é completamente ignorada pelas rádios e é desconhecida por grande parte do público. Enquanto Enrique está tendo um novo ápice nas Américas (esse é o segundo hit gigantesco consecutivo dele nos últimos meses; Bailando foi outro sucesso completamente inescapável no ano passado. Apesar de uma versão brasileira com participação de Luan Santana, a música não aconteceu da mesma maneira por aqui), Iglesias filho é apenas uma figura vagamente familiar no Brasil, mais associado com o fim dos anos 90 — época que ele tinha grandes hits em inglês —  do que com o presente.

Sendo assim, não é surpresa que ninguém no Brasil tenha ouvido falar de Romeo Santos. Mas o cantor, de 34 anos, é o maior fenômeno da música em espanhol, imparavel em todo o continente. Atualmente, nem Shakira consegue chegar perto dos resultados obtidos por ele. Em fevereiro, na Cidade do México, 50 mil ingressos foram vendidos em tempo recorde para seu show no Foro Sol. Na semana seguinte, em Buenos Aires, 90 mil pessoas lotaram dois shows no estádio do River Plate, o maior do país. Depois disso, foram mais 45 mil no Estádio Nacional de Santiago, no Chile. São os mesmos palcos ocupados por Madonna, Paul McCartney, U2 e One Direction em suas respectivas turnês latino-americanas e Santos as lotou com facilidade, cobrando preços similares. Seja em Asunción no Paraguai ou em Montevideo no Uruguai, existem poucos artistas que conseguem uma convocatória tão considerável quanto Romeo.

Santos, cujo nome de batismo é Anthony, canta bachata, um gênero romântico originado na Republica Dominicana. Apesar de ter alcançando a fama cantando em espanhol, ele é americano, nascido e criado no Bronx, em Nova Iorque. Foi no bairro, ainda adolescente, que ele se juntou com seu primo e alguns amigos e formou um grupo de música romântica, Los Tinellers (no sotaque dominicano, pronuncia-se Los Teenagers, os adolescentes). Eles lançaram o primeiro álbum de maneira independente em 1995 mas foram completamente ignorados. Cinco anos mais tarde, eles se relançaram com o nome de Aventura.

Em 2002, o Aventura explodiu internacionalmente, A música Obsesión foi um dos maiores hits do ano não nos EUA ou na América Latina mas na Europa, onde a canção alcançou o topo na Alemanha, na França (sete semanas em primeiro lugar e quase 1 milhão de unidades vendidas), na Suíça e na Itália (16 semanas no topo!). Nos últimos três países, o segundo CD do grupo, We Broke the Rules, também atingiu o primeiro lugar. Impulsionado pelo sucesso internacional, a música começou a ganhar espaço nas Américas (hoje em dia, ela é um clássico) e, aos poucos, o Aventura começou a se consolidar.

Em 2005, o terceiro CD dos meninos, God’s Project, atingiu a terceira posição da parada latina estado-unidense e deu origem a diversos hits obtendo, eventualmente, certificado de 4x Platina. Em 2006, eles esgotaram o Madison Square Garden pela primeira vez. Em 2007, Mi Corazoncito foi o maior sucesso em espanhol do ano nos EUA. E, em 2009, com The Last, eles se consolidarem como o maior sucesso do segmento latino nos EUA: o álbum ocupou o primeiro lugar da parada hispano durante 16 semanas; eles se apresentaram para Barack Obama e fizeram a maior turnê deles até então, sendo um dos poucos atos, tanto anglo-saxões quanto hispânicos, que esgotaram o Madison Square Garden com quatros shows consecutivos. Eles atingiram também enorme popularidade na América Latina, rodando extensivamente a região e fazendo dezenas de shows esgotados. Em 2011, no ápice de popularidade, o Aventura anunciou que iria se separar.

O rompimento, claro, serviu como um trampolim para a carreira solo de Romeo, o vocalista e grande estrela do grupo  compositor de todas as canções. Alguns meses antes do anuncio, ele tinha assinado um contrato de 10 milhões de dólares com a Sony. Como parte do Aventura, Santos pertencia a uma micro subsidiária da companhia, a Premium Latin Music, especializada em bachata mas, com o novo contrato, ele seria parte da primeira linha de artistas da gravadora. O primeiro álbum dele, Formula vol. 1, foi lançado em novembro de 2011 e tinha como objetivo consolida-lo como o rei da bachata urban. O álbum contou com colaborações de grandes estrelas — tanto da musica hispano (Tomatito; Mario Domm, vocalista da banda Camila) quanto da americana (Usher; Lil Wayne) — e, além de receber disco de platina, o CD deu origem a quatro hits número 1 na parada latina da Billboard e uma excursão com 75 shows.

A turnê, apropriadamente intitulada The King Stays King,  abriu com três shows esgotados no Madison Square Garden. Foram 36 shows nos EUA, incluindo apresentações para mais de 19 mil pessoas em Miami, Houston, Los Angeles, Nova Jersey, Chicago, Phoenix, San Antonio, Anaheim e Orlando. Dentre os 37 shows na América Latina, houve paradas em estádios da Republica Dominicana, Peru, Colombia, Panama e El Salvador. Em Buenos Aires, 18 mil ingressos foram vendidos e, em Santiago, 15 mil. Santos ainda se apresentou em seis cidades do México e em Barcelona e Madri, na Espanha.

Romeo parecia ter atingido o ápice. Mas o que ninguém esperava é que o primeiro álbum dele seria apenas a introdução do fenômeno que ele viraria. Sim, naquele então, Romeo era indubitavelmente uma das grandes forças do nicho hispano nos EUA e também uma das estrelas mais rentáveis pan-latina. Mas, com seu álbum seguinte, Formula vol. 2, ele deixaria de ser uma das para se tornar grande estrela da musica em espanhol.

O primeiro single do segundo álbum solo do cantor foi o que deu o empurrãozinho para fazer dele o fenômeno imparável que ele é hoje. A sugestivamente entitulada Propuesta Indecente se transformou num dos maiores hits em espanhol da última década, uma daquelas raras canções que alcançou a façanha de se transformar num fenômeno em todos os países que falam em espanhol.

Nos EUA, a música quebrou todos os recordes: foram 86 semanas no topo das paradas. Lançada em julho de 2013, a música continua em segundo lugar nos charts dessa semana (de junho de 2015!) da Billboard (atrás apenas do já mencionado hit de Nicky Jam e Enrique Iglesias). A canção ainda conseguiu transcender a America Latina e chegou na Espanha. O país também se viciou no hit de Romeo, que alcançou o topo das paradas de  singles e foi streamed mais de 10 milhões de vezes pelos espanhóis no Spotify. No Youtube, o vídeo da música ultrapassou 700 milhões de views, sendo um dos clipes mais vistos da história da plataforma.

Impulsionado pelo fenômeno de Propuesta Indecente, a arena Madison Square Garden — a mais prestigiosa dos EUA e a maior de NYC — ficou pequena para ele. Em julho do ano passado, Romeo fez dois shows esgotados no Yankee Stadium, reunindo 90 mil pessoas no total. Ao se apresentar no estádio, localizado a pouquíssimas quadras de onde ele nasceu e foi criado, no Bronx, Santos se junta a um seletíssimo grupo de artistas que inclui, além dele,  apenas Roger Waters (que não conseguiu esgotar o estádio duas vezes); Eminem; Jay-Z; Justin Timberlake; Madonna e Paul McCartney. Se apelarmos para tecnicalidades, o grupinho é ainda mais seleto: Jay-Z; Eminem e Timberlake nunca se apresentaram solo no estádio (Eminem se apresentou ao lado de Jay em 2010e Timberlake também se juntou ao marido de Beyoncé em 2013).

Na sua Nova Iorque natal não existe nenhum artista que venda tanto ingressos quanto Romeo. Nessa turnê, além dos 90 mil no Yankee, ele ainda fará, em julho, três shows no Barclays Center, no Brooklyn, para um total de 60 mil pessoas.

E não foi só Nova Iorque onde a demanda ultrapassou, em muito, o esperado. Em Buenos Aires, os dois shows programados para o estádio G.E.B.A., para 18 mil pessoas cada um, se transformaram em cinco apresentações completamente esgotadas, com um total de 90 mil assistentes. Sete meses depois, ainda na mesma turnê, ele voltou para os já mencionados concertos no River Plate, atraindo novamente 90 mil fanáticas. Em Santiago, a mesmíssima coisa: sete meses antes de vender, em tempo recorde, os 45 mil ingressos para seu show no Estadio Nacional, Santos tinha atraído a mesma quantidade de gente para três shows na Movistar Arena (que, originalmente, estava programado para ser apenas um). E, no México, foram 42 mil ingressos para dois shows na Arena Cidade do México, que abriram a turnê do último CD dele em março do ano passado, antes do retorno triunfal em fevereiro, menos de um ano depois, com um show para 50 mil no Foro Sol.

A popularidade de Santos é digna de atenção porque, ao contrário do que muitos pensam, o gosto do público latino nos EUA pode diferenciar bastante do gosto da América Latina e artistas hispanos nascidos nos EUA em particular tem certa dificuldade para penetrar grande parte dos maiores mercados da América do Sul (Argentina; Chile) e mesmo do México (Selena, por exemplo, o maior fenômeno da música latina dos EUA, só se transformou num gigantesco sucesso no México depois de sua morte e ela não é mainstream na Argentina, por exemplo). O fato de Romeo estar esgotando os maiores estádios de Buenos Aires e de Santiago é surpreendente.

Mesmo nos EUA, sua popularidade transcendeu barreiras. Bachata, o gênero que ele canta, sempre foi um ritmo considerado bastante rural e pouco atraente pela nova geração. Santos reverteu tudo isso. Além disso, o ritmo sempre gozou de certa popularidade na costa leste americana — onde existe uma grande concentração de imigrantes da Republica Dominicana e países caribenhos vizinhos — mas o resto do público latino dos EUA, como as gigantescas comunidades latinas no Texas e na Califórnia (que tem populações com origens predominantemente mexicanas e centro-americanas), nunca tiveram nenhum interesse ou familiaridade com o gênero. Santos, primeiro com o Aventura e depois com sua carreira solo, conquistou esses mercados e ainda influenciou uma geração de artistas novos, como Prince Royce, provavelmente o segundo cantor mais popular entre o público hispano nos EUA atualmente e que também tem fortíssima influência de bachata (Royce, assim como Santos, também é do Bronx).

Nos EUA, Romeo foi ajudado pelo seu estilo moderno. O fato dele cantar num falseto bastante associado ao R&B e ter crescido no Bronx faz muitos chamarem o seu estilo de bachata urban. Essa associação ficou ainda mais forte nos últimos anos: depois de colaborar com Usher e Lil’ Wayne no seu primeiro CD, Santos teve a participação de dois dos rappers mais quentes da atualidade no seu segundo álbum: Drake, indiscutivelmente o maior vendedor do gênero hip-hop do presente, e Nicki Minaj.  Apesar disso, ele não parece muito afim de crossover e começar a apelar para o grande público americano. Em Odio, não foi Romeo que se rendeu ao rap. Foi Drake, um dos maiores rappers da atualidade e um superstar global, que se rendeu ao bachata, cantando um fragmento considerável da música em espanhol (com surpreendente habilidade). Em Animales, Nicki também se arrisca no spanglish em seu verso (Dame un beso, yo necesito/Dominicana, Puerto Rico).

Com o status de megastar latino alcançado, a expectativa geral é que ele dê o passo seguinte e comece a cantar em inglês para um público ainda mais global. Mas a música de Romeo é tão latina de raiz que seria bastante estranho ouvi-la em qualquer outro idioma se não o espanhol. E, de qualquer maneira, mesmo com seu repertório 100% bachata en español, ele tem uma respeitável carreira internacional. Na sua atual turnê, ainda impulsionado pelo sucesso fenomenal de Obsesión faz mais de uma década, ele cantou nas maiores arenas de Paris, Roma e Milão e também fez apresentações em Hannover, na Alemanha; em Londres e em Amsterdam. Ele também fez algumas aparições em veículos mainstream estado-unidenses: ele ensinou um pouco de espanhol para Elmo em Sesame Street; cantou no Tonight Show e fez uma participação em The Bachelor. Ele teve um cameo no blockbuster Velozes & Furiosos 7. E em abril, ele fez uma grandiosa apresentação no Today Show, um dos matinais mais importantes do país.

Na TV, ele teve que dar uma moderada em suas performances que, em sua versão original, nunca seriam permitidas no prime time americano. Em seus shows, ele é conhecido por apresentações com altíssima dose de erotismo. O ápice de seus concertos é quando ele chama uma fã — pode ser gorda, magra, jovem ou velha — para uma sessão de pegação no palco. Eles se abraçam, se bolinam, as vezes se beijam e acabam de baixo dos lençóis de uma cama cenográfica. O público, óbvio, vai a loucura.

No palco, Romeo se entrega totalmente, sem nenhum pudor. Fora dele, porém, guarda sua vida pessoal a sete chaves e, diferente da maior parte dos artistas pop, ele é zero midiático. Um dos únicos momentos que  mostrou um pouquinho de sua vida particular foi quando apareceu, junto a seu filho de 14 anos, na capa da People en Español. Nem mesmo perguntas sobre sua sexualidade ele responde com muito entusiasmo. As especulações atingiram o ápice quando, no seu último CD, ele lançou a música anti-homofobia No Tiene la Culpa, um ato particularmente corajoso no mundo ultra machista e conservador latino.  Em entrevista para Billboard, ele falou diretamente sobre os boatos: “A minha relutância de responder essa pergunta faz com que as pessoas tenham certeza que estou escondendo algo. Eu não quero vender nada, só minha música. Mas não, não sou gay. Só não quero apresentar minha namorada. A única coisa que posso revelar é que não sou casado” (quem investigou afirma que ele namora, faz anos, com uma mulher anônima que vive no seu Bronx natal).

romeo santos
Na capa da Billboard, a principal publicação da indústria fonográfica americana, que o chamou de “Justin Timberlake em espanhol”

Esse enorme compromisso em manter sua privacidade é só um dos muitos aspectos que fazem Romeo tão fascinante. Nascido e criado nos EUA, com inglês como primeira língua, sua falta de interesse em crossover para o mercado global não deixa de ser outro aspecto bastante singular. De certa maneira, é quase como se ele tivesse feito um crossover ao contrário: depois de chamar enorme atenção na Europa e conquistar os EUA, ele colocou suas garras na América Latina. As cartas não estavam a seu favor — bachata, até a explosão do Aventura, era um ritmo antiquado que, to put it bluntly, era ouvido primariamente por gente pobre (motorista de ônibus; domésticas; porteiros) e rural — mas ele conseguiu reverter totalmente o jogo, mudando, no processo, a direção do pop latino. Ser Shakira — a artista latina mais conhecida e celebrada do planeta — tem suas vantagens mas, por outro lado, Romeo não precisa disso: de jatinhos particulares aos maiores estádios, tudo já está a seu alcance. Para Billboard, Romeo, que não é conhecido pela sua humildade, foi claro: “eu toco nos mesmos lugares que os maiores artistas do mundo, que a Beyoncé. Só que eu faço isso em espanhol”. Romeo, não tem porque ser modesto: Beyoncé ainda não esgotou o Yankee Stadium. Nem a Shakira.

Não acabou! Continue reading para conhecer o “herdeiro” de Romeo Santos

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Causando por ai: testosterona edition

O evento do século?

leggero

  • Considerado os dois melhores boxeadores da atualidade, a luta de Floyd Mayweather e de Manny Pacquiao, no dia 3 de maio no MGM Grand em Las Vegas, foi considerada um evento histórico . Ambos os lutadores receberam centenas de milhões de dólares pela luta (isso mesmo, mais de 100 milhões de dólares cada).
  • O evento foi tão gigantesco que os dois maiores canais premium dos EUA — e enormes rivais — a HBO e o Showtime, se uniram para comprar os direitos e a luta foi o pacote pay per view mais caro da história: 100 dólares para assistir em HD. Mesmo assim, estima-se que o evento tenha quebrado o recorde anterior de pacotes vendidos (mais de 2 milhões na luta de Mayweather contra Oscar de la Hoya em 2007), o que significa que mais de 3 milhões de pessoas desembolsaram a modesta quantia. O começo da luta foi atrasado para quase meia-noite (no fuso-horário EST) porque, mesmo depois do horário previsto, milhares de pessoas ainda estavam comprando o acesso.
  • Na platéia do MGM Grand, desde Hilary Duff e Bow Wow até Beyoncé e Jay-Z. Justin Bieber estava lá como parte da entourage de Mayweather (eles são amigos íntimos) e Jimmy Kimmel estava com Pacquiao; Jack Gylenhaal estava lá para promover seu próximo filme (ambientado no mundo de boxing) assim como o elenco de metade dos seriados da Showtime, Nicki Minaj, Jamie Foxx (que cantou o hino), Robert DeNiro, Denzel Washington (absolutamente irreconhecível e bizarro), Joshua Jackson e Diane Kruger, Mark Wahlberg e P. Diddy. Diddy e Wahlberg, alias, apostaram 250 mil dólares nos seus favoritos (Wahlberg em Pacquiao; Diddy em Mayweather).
  • Las Vegas, claro, foi a loucura com o evento. Apenas 500 ingressos foram disponibilizados para o grande público e os preços no mercado de revenda atingiram cinco, seis e até sete dígitos. Apenas com a venda de ingressos foram arrecadados mais de 100 milhões de dólares. O valor de quartos de hotéis e aluguéis de curta-temporada chegaram a aumentar até 15x. Alguns estimaram que a luta iria acrescentar mais de 300 milhões de dólares a economia da cidade e o final de semana seria o mais lucrativo e movimentado da história.
  • Basicamente todas as centenas de boates da Las Vegas desembolsaram fortunas para ter festas com os hosts mais chamativos, em geral rappers e DJs de música eletrônica. Scott Disick (of Kardashians fame); 50 Cent; Nelly; Diddy; 2Chainz; Avicci; Ryan Lewis & Macklemore; David Guetta; Ludacris; Jamie Foxx; Lil Wayne; Snoop Dogg; Chris Brown; Justin Bieber; Busta Rhymes; Kaskade; Calvin Harris; Wale; Travis Barker; Afrojack e Alesso foram alguns dos nomes contratados pelas casas noturnas. A festa mais cara foi a de Jay Z no club Marquee: reservar uma mesa na soireé custou a bagatela de 50 mil dólares.
  • A luta em si, claro, foi uma ótima lembrança de que o mundo não é justo. Mayweather, acusado na justiça de dezenas de casos sérissimos de violência doméstica contra ex-esposas, namoradas e até seus filhos, recebeu 170 milhões de dólares e foi coroado o grande vencedor. Mas, pelo menos, ele foi vaiado por basicamente toda a arena no final da luta.
  • O filipino Pacquiao, com seu jeito sorridente, era o favorito de todo mundo mas as chances dele ganhar realmente eram mínimas já que, diferente de Mayweather, ele não está mais no ápice de sua carreira. Mesmo assim, ele embolsou 120 milhões de dólares. Ele nunca espancou ninguém mas, nas Filipinas, seu país natal, ele é um político super conservador, anti-casamento gay e direitos das mulheres então ele também não é exatamente a melhor pessoa.
  • Funfact: como Pacquiao era filipino e Mayweather americano, os hinos de ambos os países foram cantados. Floyd escolheu Jamie Foxx para entonar o Star Spangled Banner e Manny optou por uma adolescente anônima filipino-americana, de Nova Iorque. Porém, por algum motivo não muito claro, o hino do Mexico também foi cantado. Alguns disseram que foi em comemoração ao Cinco de Mayo, o dia da independência mexicano, que também é feriado nacional nos EUA (a luta foi dia 2), e outros afirmaram que foi pelo fato de uma cerveja mexicana, Tecate, ser patrocinadora do evento. Em todo o caso, como a luta foi basicamente em terras historicamente mexicanas eu achei apropriado….

Furiosos 7: quebrando todos os recordes

  • Alguns filmes são sucessos tão gigantescos que eles transcendem as telas do cinema e viram sucessos multimídas, emplacando, por exemplo, músicas de enorme sucesso. Titanic teve a inescapável My Heart Will Go On oficializando o fenômeno desatado pelo romance e Let It Go ajudou a colocar Frozen na história da cultura pop, só para citar dois sucessos emblemáticos. Atualmente, o maior sucesso no mundo é novamente ligada a um filme: See You Again, do rapper Wiz Khalifa, e que serve como música tema do filme Velozes e Furiosos 7. A canção está no topo em 20 países, incluindo EUA; Reino Unido; França; Austrália e Alemanha. Nos EUA, a canção foi responsável por destronar Uptown Funk, de Mark Ronson e Bruno Mars, do topo do Hot 100 da Billboard depois de 14 semanas.
  • A música é uma homenagem a Paul Walker, um dos astros da franquia e que morreu em um acidente em 2013. A curiosidade em torno do último filme dele pode ser apontado como um dos motivos para o sucesso descomunal de Furious Seven.
  • Mas todos os filmes da franquia são sucessos descomunais e não é a primeira vez que o filme desata uma música fenômeno (Danza Kuduro de Don Omar explodiu graças a Fast Five). Mas, é verdade, os resultados desse filme são particularmente espetaculares. Em apenas 12 dias, ele ultrapassou 1 bilhão de dólares arrecadados (um recorde histórico) e se transformou na quinta maior bilheteria da história.
  • Grande parte do sucesso histórico do filme pode ser atribuído a China. Em apenas 15 dias, Furious Seven desbancou Transformers 4 e se transformou no maior sucesso da história do país, com 322 milhões de dólares. Já falei sobre a importância crescente do mercado chinês aqui.
  • Mas, diferente de Transformers, que basicamente dependeu da China para ter um resultado satisfatório e teve um desempenho bem inferior aos antecessores em outros países do mundo, Furious 7 está tendo resultados espetaculares globalmente. Além da China, o filme quebrou recordes de bilheteria em seu primeiro final de semana em 29 países, incluindo o Brasil, México, Argentina, Chile, Colômbia, Venezuela, Taiwan, Tailândia e Oriente Médio. Foi a melhor estreia de um filme da Universal em 40 países, incluindo Alemanha e Itália. Os maiores mercados internacionais para o filme foram China; Reino Unido; México; Brasil e Alemanha. Nos EUA, arrecadou 147.1 milhões de dólares no primeiro final de semana, melhor resultado já obtido no mês de abril. Com mais de 300 milhões de dólares arrecadados em um mês, o filme já superou todos os outros da franquia (Fast 6 encerrou seu run com 239mi; Fast Five com 210).
  • Muita gente crítica os filmes da franquia Velozes & Furiosos por serem repetitivos e formulaicos. Contudo, eles também são bastante elogiados por serem um dos únicos blockbusters de ação com um elenco multirracial e com personagens femininos de destaque. O filme estrela Paul Walker; Vin Diesel; Michelle Rodriguez; Jordana Brewster; Ludacris; Tyrese Gibson e Jason Statham. Muitos apontam o casting diverso e o destaque dado a todo o ensemble como um dos motivos pela aceitação da franquia em todo o mundo.
  • O filme, claro, tem um rival a altura: o recém estreado Avengers 2. O filme da Marvel irá lutar pesadamente para desbancar Furious 7 do posto de maior bilheteria de 2015 (e provavelmente conseguirá).
  • Tirando Furious 7, que ultrapassou 300 milhões de dólares, nenhum outro filme lançado esse ano conseguiu sequer ultrapassar a barreira dos 200 milhões arrecadados nos EUA. O mais próximo foi a adaptação live-action de Cinderella da Disney, que já ultrapassou 190mi. Nos próximos meses, contudo, alguns lançamentos muito provavelmente irão ultrapassar esse patamar: Avengers 2; os novos filmes das franquias Jurassic Park Star Wars e o último filme da saga Jogos Vorazes.

Por que o Tidal é uma perda de tempo

Tidal Launch Event NYC #TIDALforALL

Se você por acaso esbarrou nas redes sociais dos famosos hoje você pode ter ficado com a impressão de que Nicki Minaj, Jay-Z, Rihanna, Madonna et all tinham descoberto a cura do câncer dado o entusiasmo de todos eles em “mudar a história para sempre”. Eles mudaram seus ícones no Twitter para azul piscina e anunciaram uma grandiosa conferência de imprensa em Manhattan para o fim da tarde. A conferência foi uma das maiores congregações de A-listers na história recente da música: Jay; Beyoncé; Kanye West; Madonna; Rihanna; Daft Punk; Nicki Minaj; Alicia Keys; J Cole; Usher; Jason Aldean; Arcade Fire; Deadmau5; Jack White e, via webcam, Chris Martin do Coldplay e Calvin Harris (direto do Brasil). Todos juntos por um motivo mais do que nobre: ganhar mais dinheiro através de um novo serviço de streaming, o Tidal.

Streaming é, hoje em dia, um big business. Não existe a menor duvida de que ouvir músicas através de serviços como Spotify é o futuro e todas as outras opções, seja iTunes ou Torrents, estão ficando obsoletas. Nos EUA e no Reino Unido, os dois principais mercados musicais do Ocidente, streaming já é contabilizado nas paradas oficiais de vendas tanto de CDs quanto de single e, na Suécia, onde o Spotify foi inventado em 2008, mais de 80% do consumo legal de música vem do serviço. A Apple está correndo contra o tempo para lançar sua própria plataforma e a busca por esse segmento foi apontado como um dos principais motivos pelo qual a gigante de Cupertino desembolsou 3 bilhões de dólares pela marca Beats que, além de seus celebres headphones, também tem um serviço de reprodução.

Apesar da concorrência do estado-unidense RDIO e do francês Deezer, o Spotify — disponível em 58 países — é o líder do segmento, mesmo estando presente em menos territórios que os rivais. O serviço, porém, esteve no centro de uma polêmica no final do ano passado quando Taylor Swift, indiscutivelmente a maior vendedora de álbuns e singles nos EUA atualmente, tirou todo o seu catalogo da plataforma; criticou o sistema de royalties da companhia e publicou um op-ed no Wall Street Journal defendendo a importância de se pagar por CDs.

O Spotify, por outro lado, defende que quase todo o dinheiro arrecadado por eles é repassado para as gravadoras. Eles dizem que o valor recebido em royalties é algo que não é decidido por eles e sim pelos selos dos respectivos artistas. E realmente, eles parecem estar falando a verdade, o que explica o porque de, apesar de rendimento superior a 1 bilhão de dólares em 2014 e mais de 10 milhões de usuários pagantes, eles nunca terem dado lucro.

Enfim, o fato é que muitos artistas demonstram descontentamento com o Spotify e afins. Eles afirmam ter pouco controle sobre o material deles na plataforma e reclamam do sistema de pagamento. E realmente, são reclamações justas. Por mais rica que a Taylor Swift seja, não é absurdo que ela espere ter controle e lucro sobre o material que à pertence. E é ai que o “revolucionário” Tidal entra na história: criado, assim como Spotify, na Escandinávia (na Noruega, especificamente), o serviço dá um controle muito maior para os artistas e também mais royalties (até porque todos os presentes hoje na coletiva de imprensa são, aparentemente, co-proprietarios). Mas claro, isso tem um preço bastante salgado para o consumidor: 20 dólares, o dobro do preço cobrado pela versão premium do Spotify.

E o que o público consumidor ganhar com isso? Muito pouco. O maior selling point do Tidal é o fato dele oferecer audio lossless, ou seja, de qualidade perfeita, muito superior ao oferecido pelo Spotify e afins. O detalhe é que quase ninguém tem o equipamento caríssimo necessário para ouvir a diferença no som e, além disso, qualidade perfeita significa arquivos pesadíssimos, uma baita de uma desvantagem para quem escuta esses serviços no celular, já que a maior parte das pessoas não tem internet ilimitado no aparelho e sim algum tipo de plano de dados. O Tidal até oferece um pacote mais barato, de 10 dólares, mas daí a qualidade de som é inferior. Inferior, inclusive, ao oferecido gratuitamente pelo Spotify. Coerência KD?

Obviamente, a maior parte das pessoas parecem ter achado a coisa toda uma palhaçada. A coletiva de imprensa foi uma ego trip absurda, com citações de Nietzche por parte de Alicia Keys e Jay-Z e demais artistas proclamando estarem “fazendo história” e “criando algo revolucionário”. Parece que eles esqueceram que esse treco revolucionário que eles acham que acabam de inventar já existe faz anos e oferece muito mais benefícios para o consumidor. A impressão não poderia ter sido mais negativa: aquele monte de artistas multi-milionários se provando completamente out of touch com a realidade e com o público consumidor de música. A hashtag #TidalForAll, que virou trending topic no Twitter, parecia uma piada com as pessoas, já que 20 dólares por mês definitivamente não é um preço democrático. Além disso, eles parecem não ter se dado conta que a maior parte das pessoas não tem headphones e caixas de som tão hi-tech (que, para eles, deve ser um bem básico e essencial) e, além disso, videoclipes em HD — outro serviço oferecido pelo Tidal — é algo facilmente encontrável no YouTube já faz bastante tempo. Nada da campanha ou do discurso deles foi coerente ou convincente e o serviço, pelo menos até agora, só é potencialmente revolucionário para o bolso deles.

Como se a coisa toda já não fosse ridícula, todo mundo está preocupado com a possibilidade de todos esses artistas que, em tese, têm muito a ganhar com o Tidal tirem seus catálogos do Spotify para tentar forçar o público a optar pela nova plataforma. Obviamente, isso será de uma burrice gigantesca: a maior parte das pessoas que abriu mão de ouvir musica ilegalmente graças ao Spotify iria simplesmente voltar ao Mediafire, ao Zipfile e aos Torrents. O Spotify pode dar menos do que eles acham que merecem mas dá muito mais do que downloads ilegais. Além disso, com a crescente importância de serviços de streaming nos charts britânicos e da Billboard, muitos artistas seriam prejudicados ao limitar seus lançamentos ao Tidal já que, mesmo que ele seja um sucesso, demorará MUITO para ele ter o alcance que o Spotify tem

Enfim, especula-se que os artistas irão oferecer material exclusivo ao Tidal ao invés de tirar as músicas do Spotify. O que é uma opção mais lógica mas mesmo assim meio tosca. Mas enfim, resta esperar para ver o que vai dar…. E nesse meio tempo, torcer para Jay-Z e sua trupe caírem na real. #TeamSpotify

Alias, conterrâneos brasileiros que querem testar a parada, más noticias: o serviço está disponível em 35 países, mas o Brasil não é um deles. Meu conselho é que vocês nem gastem seu tempo com uma campanha de PLEASE COME TO BRAZIL nas redes sociais e baixem logo o Spotify, esse sim revolucionário e que vale a pena o investimento (e não, isso não é um post patrocinado infelizmente. Mas tamos aí qualquer coisa, hein Spotify?).

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