Causando em 2017: o ano foi deles

Ainda falta para encerrar o ano mas os sete primeiros meses já nos dão um retrato bem completo de vários dos principais acontecimentos pop de 2017. É isso que vamos analisar através dos próximos três posts.

Na primeira parte, o tópico são os artistas e músicas que indiscutivelmente dominaram o mundo ao longo do ano.

Um fato sobre 2017:  nada nem ninguém no cenário musical chegou perto do sucesso obtido por dois artistas e duas músicas.

O maior nome de todos foi, sem duvida nenhuma, Ed Sheeran. O britânico com seu pop água com açúcar é um fenômeno sem igual em absolutamente todos os fronts, quebrando recorde de vendas em todo o mundo; vendendo milhões de ingressos para sua turnê e obtendo o maior sucesso do ano (Shape of You), que ficou no topo por meses e meses a fio.

Sheeran, porém, esta correndo um risco: a super-exposição. A sua compatriota Adele — literalmente a única artista capaz de superá-lo em vendas mundo afora — deu uma aula de como não se desgatar, fazendo pouquíssimas aparições na mídia ao longo da promoção dos seus últimos dois álbuns.

Sheeran, em contrapartida, passou os primeiros meses do ano dando as caras em absolutamente todos os eventos e programas de TV da Europa, dos EUA e da Austrália. Ele não precisa disso: a essa altura, já está claro que ele é capaz de vender muito mesmo fazendo nada. Faz poucas semanas, sua aparição na estréia de temporada de outro colosso da cultura pop, “Game of Thrones”, foi muitíssimo mal recebida e expôs os possíveis perigos de sua onipresença.

Isso, claro, é um potencial problema a longo prazo. Por enquanto, tudo está perfeito no universo do ruivo. Sua turnê caminha a longos passos para se transformar numa das mais bem sucedidas de todos os tempos, com as datas em estádios na Europa e na Oceânia em 2018 já completamente esgotadas. Em vários países, como na Irlanda e na Austrália, ele quebrou recordes históricos de vendas de ingresso.

“Shape of You” dominou os primeiros três meses do ano, antes de ser substituída no topo pela inescapável “Despacito”. A música de Luis Fonsi e Daddy Yankee era um fenômeno sem igual na América Latina desde janeiro e estava escalando as paradas européias antes de virar um instantâneo número 1 global com o lançamento do remix com Justin Bieber no fim de abril. A música se transformou recentemente na música mais streamed da história e deverá desbancar “See You Again” como o vídeo mais visto do YouTube. A música de Wiz Khalifa e Charlie Puth demorou mais de 2 anos para alcançar 3 bilhões de views, algo que o reggaeton deverá fazer em oito meses.

E falando em Bieber, é ele que é o outro grande nome do ano. O canadense — que atingiu outro patamar em sua carreira com a ótima aceitação do seu último álbum, “Purpose” — tem emplacado um sucesso atrás do outro desde 2015 e teve seu toque de Midas confirmado em 2017, quando todas as suas colaborações atingiram o topo quase de imediato, começando por “I’m the One” com DJ Khaled, Lil Wayne, Chance the Rapper e Quavo e seguido pela inescapável “Despacito”. Desde que ele lançou seu último CD — com três smash number 1 hits, “What Do You Mean?”, “Sorry” e “Love Yourself” — Bieber já lançou cinco colaborações com nomes como Major Lazer (“Cold Water”), DJ Snake (“Let Me Love You”) e David Guetta (“2U”), todas super bem recebidas.

Além disso, foram 150 shows completamente esgotados em seis continentes com lucros recordes ao longo 16 meses. Bieber não aguentou o tranco e cancelou os 14 shows finais. Considerei algo mais do que compreensível porque não só a turnê estava longuíssima como o cantor parecia estar de saco cheio dela desde o primeiríssimo show, em março do ano passado.

Tirando a falta de entusiasmo nos shows e um ou outro piti, Justin conseguiu se manter longe das polêmicas durante a maior parte da era, o que já é uma vitória. O estado mental do cantor — que tem sido fotografado sempre todo oleoso, ao lado do pastor da igreja bizarra que frequenta — não parece ser dos melhores mas, then again, obter esse nível de sucesso tão jovem é uma garantia de problemas psicológicos. Enquanto ele continuar lançando músicas boas, o público vai continuar sem se importar.

O rap e o hip-hop sempre foram os gêneros mais populares entre o público jovem dos EUA mas o avanço do streaming no país — hoje responsável por mais da metade do consumo legal de música por lá — colocou os gêneros urbanos em outro patamar.

No meio da dominação, um trio se destacou: Migos. A música deles, “Bad and Boujee”, foi um number one hit giga na Terra do Tio Sam e eles obtiveram sucesso com outras várias músicas como “T-Shirt” e “Slippery”.

Quavo, é o líder do grupo, estando para o Migos como Beyoncé estava para o Destiny’s Child. Kelly e Michelle são, respectivamente, Offset e Takeoff. Os três são amigos de infância, nascidos e criados no estado sulista da Georgia.

Quavo, sozinho ou junto com seus dois companheiros, foi o featured artist mais popular de 2017, recrutado por absolutamente todos os artistas que queriam surfar na onda urbana que tomou conta dos EUA.

Ao notar que seu som pop estava outdated, Katy Perry pediu ajuda para os Migos e os colocou em “Bon Appetit”. Eles também apareceram, ao lado de Frank Ocean, em “Slide” do DJ escocês Calvin Harris e em um single do jamaicano Sean Paul. A música de estréia do ex-One Direction Liam Payne, “Strip That Down”, conta com a participação de Quavo que também está no novo CD da cantora indie pop Halsey e da popstar aposta do momento Camila Cabello. Ele ainda teve sucessos consideráveis ao lado de Drake (“Portland); Bieber e Khaled (“I’m the One”) e Post Malone (“Congratulation”).

Enfim, se teve alguém que trabalhou duro ao longo dos primeiros 8 meses do ano esse alguém foi Quavalicious Marshall.

What’s next?

Para a indústria musical, o ano é dividido em quatro trimestres. O mais importante deles — com as vendas mais altas — começa em outubro e é conhecido como Q4. Álbuns previstos para esse período incluem retornos de Taylor Swift, Eminem, P!nk, Sam Smith, Miley Cyrus, Demi Lovato, Shania Twain, Celine Dion, U2, dentre outros.

Nos próximos meses também teremos a confirmação de quem será o ato que vai se apresentar no Super Bowl em fevereiro do ano que vem. Minha aposta é em P!nk, que faria uma espetacular apresentação cheia de malabarismo mas também não me surpreenderia se fosse Justin Timberlake, que tem álbum previsto para ser lançado entre o fim desse ano e o começo do próximo. Por mais que Swift fosse uma escolha lógica dado o seu calibre, ela é bastante improvável pelo seu contrato publicitário com a Coca Cola. O Halftime Show é patrocinado pela Pepsi.

Seja como for, vamos ficar ligados.

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O que diabos aconteceu com os Video Music Awards da MTV?

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Quando a MTV anunciou que Miley Cyrus iria apresentar os Video Music Awards desse ano, eu fiquei muito impressionado. Ame-a ou a odeie, é inegável que ela é uma das maiores estrelas da atual geração e, além disso, ela é ótima para causar. E causar é a raison d’etre dos VMAs. Era uma match made in heaven.

Daí, com a revelação dos indicados, rolou toda aquela treta no Twitter entre Nicki Minaj e Taylor Swift (em geral insuportavelmente adversa a polêmicas) e pensei “caramba, falta muito e esse VMA já está delievering! Tem tudo para ser o melhor ever!”. E daí, já logo comecei a pensar quem iam ser os performers. Porque, digam o que quiserem da premiação, em geral ela tem uma line-up sólida e bastante representativa do que realmente está fazendo sucesso no momento.

Pensei imediatamente em The Weeknd, rapper canadense que está em ascensão e que, depois de dois hits grandes (Earned It, de 50 Tons de Cinza e The Hills), está arrebentando a boca do balão com Can’t Feel My Face (produzido por ninguém menos que Midas pop sueco, Max Martin, velho conhecido dos leitores). One Direction também seria outro bom nome: eles são meio sem sal mas bombam muito e faz anos desde a última vez que eles cantaram nos VMAs. Também dei como certa presença de Justin Bieber, que lançaria seu comeback single no dia seguinte a premiação. Ed Sheeran, um dos maiores nomes da atualidade, que vende milhões e enche estádios, também era um must. Mas quem mais? Alguma cantora… Selena, talvez? “Rival” de Miley e ex de Bieber, sua performance causaria (mesmo ela não sendo uma boa performer) e seu novo single Good to Me — é bastante sólido e está fazendo sucesso.  Um rapper — como Kendrick Lamar  — também seria uma boa pedida.

Em geral, os primeiros performers são anunciados com no mínimo um mês de antecedência. Mas esse ano, nada. O que até fazia sentido, afinal, o anúncio de Miley como apresentadora já era o suficiente para causar uma repercussão grande. Mas o tempo passou e passou. Até que, finalmente, eles anunciaram The Weeknd (uhull, acertei). E depois, novamente, silêncio.

Ficou claro que algo estava muito errado quando faltava menos de uma semana para a premiação e mais ninguém tinha sido anunciado. A essa altura, pelo menos 90% do line-up deveria ser público, até para que a MTV pudesse tirar o máximo proveito desses grandes nomes no material promocional. Era bizarro que tudo girava em torno só de Miley — todos os anúncios televisivos e outdoors — e mais ninguém.

Até que, finalmente, hoje, faltando cinco dias para a premiação, grande parte dos performers foram anunciados. E gente, é óbvio que algo deu muito errado nos bastidores. O line-up não é só excepcionalmente fraco para os padrões dos VMAs, é fraco para qualquer award show televisionado. Estou de olho nos Billboard, Hits Daily Double e Hollywood Reporters da vida para ver se algum deles noticia o que se passou nos bastidores (e óbvio, conto para vocês!) mas pode ter certeza de que algo sério aconteceu. Talvez alguma cláusula financeira desagradou os grandes nomes (como quase aconteceu com o SuperBowl, que ameaçou pedir uma parcela das vendas de ingresso da turnê em troca da vaga de half-time act e causou ira entre os empresários e artistas. A NFL voltou atrás e, graças a isso, conseguiram Katy Perry para o show de intervalo) ou talvez o investimento em Miley tenha os deixado sem verba para atender os pedidos de outros A-listers. Mas, especulações a parte, algo claramente não foi como planejado..

Mas afinal, quem são os performers?

  • Tori Kelly, de 22 anos, tem um time impressionante por detrás dela. Apesar de nunca ter tido um top 50 single na vida (olha o nível. Não tô falando nem de top 10), essa será a segunda performance dela num award show (o primeiro foi o Billboard Music Awards) e ninguém menos do que Max Martin co-produziu o CD de estreia dela, Unbreakable Smile. O álbum em questão até teve uma estreia decente (segundo lugar, com 75 mil unidades) mas, numa ocasião normal, uma cantora sem nenhum hit e com um único CD, com vendas medíocres,  nunca conseguiria um espaço nos Video Music Awards.
  • Twenty One Pilots são tão irrelevantes que eu tive que recorrer ao Google e a Wikipedia para descobrir alguma coisa sobre eles. Aparentemente, eles são um duo indie cujo último CD estreou em primeiro lugar. As vendas deles são OK mas longe de serem espetacular: o álbum mais vendido deles nos EUA teve 300 mil unidades vendidas (um disco de ouro, a menor certificação, exige 500 mil). Eles vão contar com a participação especial do rapper A$AP Rocky (que, até agora, eu achava ser bem mais relevante que eles).

  • Demi Lovato tem um name recognition bem alto comparado com os dois acima. E ela está, em tese, num bom momento para estrear nos VMAs: com uma nova (e maior) gravadora, o seu atual single é uma música pop viciante e com cara de hit, produzido, claro, por Max Martin. A questão é que, na real, ela não está num bom momento: Hot for the Summer é, apesar da promoção intensa, o primeiro lead single dela a não alcançar o top 10 e, sinceramente, o poder comercial dela sempre foi bem mais ou menos e, hoje em dia, anda mais para menos. Selena Gomez — que está sempre na mídia e cujo single atual chegou ao sexto lugar (dez posições acima do pico de Demi) — seria uma escolha que faria mais sentido.
  • Pharrel seria um performer perfeito. Se estivéssemos em 2013. Apesar de credibilidade e vários mega hits (tipo Happy que foi tão overplayed que acho que ninguém aguenta ouvir nem sequer as notas iniciais), Pharrel não tem absolutamente nada para promover; não tem CD pronto para ser lançado nem single nas rádios. A única explicação para sua presença na lista de performers era que a MTV estava desesperada por alguém — qualquer pessoa — que tenha A-list credentials e ele foi o único que topou. Ou que ele vai fazer alguma performance especial com a apresentadora, Miley, de quem ele é bastante próximo.
  • Macklemore & Ryan Lewis são mais um nome para categoria “ótima escolha se estivéssemos em 2013“. Alias, eles de fato se apresentaram em 2013, quando estavam por cima da carne seca, tinham três mega-hits e estavam prestes a ganhar um Grammy. A questão é que desde então ninguém sentiu a falta deles e eles foram totalmente esquecidos. A presença deles não é como o comeback de um artista midiático como Justin Bieber ou, pasmem, Rihanna (cujo último CD também foi em 2013). Ninguém estava pedindo ou clamando por uma performance do duo. Mas foi tudo que  a MTV conseguiu infelizmente. A primeira música liberada do novo CD tem a participação de Ed Sheeran (esse sim bastante relevante) mas nada foi dito sobre uma potencial participação dele.

  • The Weeknd. O único artista dentre os já anunciados que realmente faz sentido.

A MTV ainda anunciará mais dois nomes. Eles serão revelados, individualmente, na quarta e na quinta-feira, o que indica que eles são nomes grandes. Todo mundo meio que já sabe que serão Justin Bieber, com seu aguardado retorno, e Nicki Minaj que, apesar de badalada, não tem nada para promover. Com duas exceções — Bieber e Weeknd — todos os anunciados deixam explicito o desespero da MTV: ou eles são irrelevantes ou estão em decadência ou parecem estar lá para quebrar um galho para a emissora. É realmente uma situação triste para uma cerimônia cujo ponto forte sempre foi a habilidade de capturar o zeitgeist pop.

Em todo o caso, nem tudo está perdido. Teremos Miley; o retorno de Bieber; a estreia de The Weeknd na cerimônia e Kanye West, que será homenageado com um Vanguard Award. Mesmo não se apresentando, Taylor Swift também deverá estar presente já que é meio que óbvio que ela ganhará o prêmio de Video of the Year.

De resto, esse line-up parece mais fitting para um pré-show. Alias, por pouco que o pré-show não acabou sendo mais estrelado do que a cerimônia em si. O tapete vermelho terá performance de Nick Jonas (que, bem ou mal, está em ascensão e teve hits na rádio ao longo do ano, diferente de 90% dos performers do show principal) e a estreia do novo vídeo de Swift, Wildest Dreams.