Causando no Brasil: a trajetória da dominação sertaneja

Na parte anterior, tivemos uma visão geral de como o sertanejo se estabeleceu como o maior gênero do Brasil. Nesse post, vamos fazer uma uma linha do tempo do sertanejo moderno onde entenderemos melhor os passos da dominação.

2007: a volta dos que não foram

Depois do protagonismo no começo dos 90, o boom sertanejo deu uma aquietada e, apesar da enorme popularidade, tinha se tornado um estilo secundário.

Mas, ao longo da primeira década dos 2000, ele estava ganhando nova roupagem — sendo rebatizado de “sertanejo universitário” — e conquistando terreno na capital de São Paulo e outras regiões importantes do país. O maior fenômeno do estilo no século 21 era, ate então, Bruno & Marrone mas outras duplas, como Edson & Hudson e Cesar Menotti & Fabiano, também estavam obtendo ótimos resultados.

Os olhos da indústria, porém, estavam em outros filões. Pagode (Exaltasamba e Sorriso Maroto), música nordestina (como Asa de Águia, Ivete Sangalo, Aviões do Forró e Babado Novo) e brega (Calypso) eram os estilos brasileiros mais em voga, além de fenômenos pré-adolescentes multimídia como RBD e High School Musical. O rock (de bandas que iam de Los Hermanos a Jota Quest, passando por Charlie Brown Jr.) seguia forte e passava por um revival graças ao sucesso de bandas teen como NX Zero, Strike e Fresno. A rádio e os canais de clipe, por sua vez, só tinham olhos para Beyoncé, Akon, Black Eyed Peas e pop internacional.

“Amigo Apaixonado”: um dos hits que ajudou a transformar Victor & Leo nos maiores nomes da indústria fonográfica brasileira

Mas isso estava prestes a mudar: a dupla Victor & Leo se firmava como um fenômeno impossível de ignorar graças ao sucesso de músicas como “Fada” e “Amigo Apaixonado”. Em junho, eles lançam o seu segundo CD com a Sony BMG, Ao Vivo em Uberlândia, que iria consolidá-los como os maiores nomes do Brasil.

O ano de 2007 também foi a grande estréia nacional da dupla que iria ser um divisor de águas na história do sertanejo, Jorge & Mateus. Pela Universal, eles lançaram seu grande debut, Ao Vivo em Goiânia.

Jorge & Mateus já chega fazendo barulho com “Ao Vivo em Goiânia”

Os desenvolvimentos de 2007, porém, nem de longe indicavam a proporção que o fenômeno sertanejo iria tomar.

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Causando no Brasil: como o sertanejo voltou a dominar o país

Ao longo dos últimos anos, o Tá Causando cobriu principalmente a cultura pop internacional. Nas próximas semanas, vamos virar a lente para o Brasil e fazer uma análise do que realmente bomba no país, musicalmente falando. Hoje começamos com o gênero que é, indiscutivelmente, o rei da indústria fonográfica atual: o sertanejo.

Mapa musical da parada brasileira: o sertanejo

O estilo sertanejo foi criado no começo do século 20, quando os bandeirantes paulistas colonizaram o interior do país e a “cultura caipira” começou a se estabelecer.

Amigos: Leandro & Leonardo; Chitãozinho & Xororó e Zezé DiCamargo & Luciano desataram o fenômeno sertanejo

Mas, apesar da música rural ter se espalhado por todo o Brasil nos anos seguintes, o gênero só ganhou força colossal — e começou a ser levado a sério pela indústria — no fim da década de 1980 e no começo da década de 1990. Naquele então, nomes como Chitãozinho & Xororó, Zezé Di Camargo & Luciano e Leandro & Leonardo alcançaram um nível de sucesso quase nunca antes visto na história da música brasileira.

O gênero romântico, com voz gemida e refrões chicletes, explodiu envolto em preconceito mas os números de venda e repercussão popular eram tão gigantescos que foi impossível de ignorar. Em meados dos ’90, as principais duplas se juntaram e criaram um projeto conjunto, o “Amigos”, que virou um especial de fim de ano na Rede Globo, a maior emissora do país, e, em 1999, um programa semanal, conhecido como “Amigos & Amigos”.

Apesar da exposição na Globo, o sertanejo deu uma estagnada a partir do fim dos 90. Tanto que, na virada dos anos 2000, o sertanejo perdeu o espaço fixo nas telas da emissora. Parte disso foi porque a elite cultural — principalmente a do Rio de Janeiro, berço da MPB — nunca abraçou de fato o gênero.

Além disso, a força dos “Amigos” era tanta que monopolizou o mercado e limitou investimentos em novos nomes, algo agravado pelo fato de que ritmos como axé e pagode eram, naquele então, as novidades que prendiam a atenção do público jovem.

Mas, longe do olhar dos formadores de opinião, o sertanejo seguiu se consolidando como o estilo favorito do brasileiro. Na Zona Sul e no Centro do Rio ele permanecia banido mas aquela região era a exceção. Apesar da importância simbólica, essa área era só um fragmento muito microscópico de um país gigantesco.

Dormi na Praça: o maior sucesso sertanejo da primeira década dos 2000

E, no resto do Brasil, a música caipira, que aos poucos ia se modernizando, se firmava cada vez mais como a trilha sonora tanto do trabalhador rural do interior quanto do jovem de elite em São Paulo, frequentador da popular e influente boate Villa Country. Ela foi se infiltrando tanto nas tradicionais festas juninas do Nordeste quanto na vida universitária do Sul.

Mesmo assim, as grandes gravadoras não davam muita bola para o sertanejo. Artistas da primeira leva — Zezé Di Camargo & Luciano, Leonardo, Daniel — seguiam sendo os principais nomes e Bruno & Marrone, que tinham explodido no país inteiro com “Dormi na Praça” na virada dos 2000, eram um dos poucos que conseguiram se firmar em todas as regiões do país desde então.

O novo sertanejo e a dominação iminente

Porém, em 2007, quando Cesar Menotti & Fabiano, uma dupla novata, teve o terceiro CD mais vendido do Brasil , estava claro que havia uma vontade grande por novos nomes. E, no ano seguinte, esse vontade deu origem a um fenômeno que escancarou as portas para o momento imperial do sertanejo.

A dupla em questão, Victor & Leo, teve o álbum Ao Vivo em Uberlândia como o maior do Brasil em 2008. Eles foram os primeiros grandes nomes do novo sertanejo, que tinha clara influência do sertanejo do começo da década anterior mas adotava uma sonoridade mais pop e mais voltada aos ouvidos do século 21. As músicas deles — como “Fada”, “Amigo Apaixonado”, “Tem Que Ser Você” e “Borboletas” — eram as mais pedidas nas rádios de todas as regiões do país e eles foram as atrações estrela em ambientes onde sertanejo era raramente visto, como o festival de rock Planeta Atlântida no Rio Grande do Sul e o Festival de Verão de Salvador.

Fada, um dos sucessos que consolidou Victor & Leo como os maiores nomes do país

O Rio de Janeiro, como de costume, ficou relativamente indiferente em relação aos novos monstros do mercado fonográfico mas, apesar de ter sede na cidade, a Rede Globo já começou a abrir os olhos. Em um momento de crise de audiência, a emissora recorreu ao sertanejo para tentar fortalecer os laços com o Brasil profundo e colocou diversas músicas do estilo na trilha sonora de sua novela das 9, “A Favorita”, ambientada em São Paulo.

Diferente das décadas passadas, onde as principais duplas reinavam por anos e anos a fio, o momento de ápice de Victor & Leo foi relativamente curto e não demorou muito para eles começarem a perder espaço para outros nomes. Mas foi a repercussão alcançada por eles que sacudiu o mercado e alertou para a invasão sertaneja que estava prestes a acontecer.

O nome seguinte a abalar todas as estruturas foi Luan Santana. Com um lançamento independente, o adolescente tinha obtido sucesso no Mato Grosso do Sul, seu estado natal, e no Paraná e tinha chamado atenção de Sorocaba, um artista e produtor influente do gênero. Sob a tutela dele, Luan gravou um CD que deu origem ao enorme hit “Meteoro” que, rapidamente, se alastrou pelo Brasil.

Luan Santana Ao Vivo: o álbum que desatou o fenômeno

Prontamente, a Som Livre, o braço musical da Globo, assinou contrato com o menino. Em novembro de 2009, um CD ao vivo, gravado na frente de 80 mil pessoas em Campo Grande, foi o primeiro lançamento dele com a gravadora. Impulsionado pela promoção intensa nas telas da emissora carioca, que o colocou até mesmo na novela teen “Malhação”, Luan se transformou no maior vendedor de 2010.

O fenômeno Luan Santana foi interessante porque foi o primeiro voltado especificamente para o público juvenil. Apesar do enorme sucesso do gênero no ambiente universitário e na noite jovem de cidades como São Paulo e Belo Horizonte, ainda havia uma percepção (falsa) entre as gravadoras de que o público mais novo tinha resistência ao estilo. O sucesso de Luan provou, de uma vez por todas, o quão intra-geracional o sertanejo era.

Mas enquanto Victor & Leo escancaravam a porta e Luan Santana virava uma sensação midiática, uma dupla até então bem mais low profile iria mudar para sempre o rumo do sertanejo: Jorge & Mateus.

A dupla de Goiás teve seu primeiro CD lançado em 2007 e, mostrando a versatilidade do sertanejo moderno, um dos seus primeiros sucessos foi “Pode Chorar”, um cover de uma música do Aviões do Forró, banda sensação do Nordeste. Mas, apesar de começar bebendo da fonte da música nordestina, Jorge & Mateus iriam rapidamente se firmar como os maiores nomes do sertanejo, revitalizando o gênero no país inteiro e se sustentando no topo da lista dos maiores artistas do país por 10 anos ininterruptos.

A invasão Jorge & Mateus aconteceu sem que a grande mídia percebesse. De fato, eles de vez em nunca apareciam na TV e eu, morador da Zona Sul do Rio de Janeiro, nunca sequer tinha ouvido uma música deles na rádio. Mesmo assim, eles prontamente se tornaram os maiores nomes da música brasileira, comandando o cachê mais alto para shows e sendo capazes de atrair públicos massivos em toda as regiões do país.

“Flor”: um dos sucessos do DVD de Jorge & Mateus gravado em Jurerê, exclusivo litoral de Florianópolis.

O sucesso foi tanto que eles viraram atração essencial em absolutamente todos os grandes eventos ao vivo do Brasil: nas viradas de ano; no Planeta Atlântida no Sul do país; com um bloco próprio e enorme no carnaval de Salvador e também como atração estrela nos camarotes exclusivos de elite que envelopam o percurso Barra-Ondina; em todas as grandiosas festas juninas populares do Nordeste; nos rodeios do interior de São Paulo (eles foram os primeiros artistas a sustentar duas noites consecutivas lotadas no mais tradicional de todos, o Festival de Barretos) e, claro, nos principais espaços de show do Centro-Oeste, Minas e São Paulo capital. Seja em Jurerê, o litoral de Florianópolis considerado o mais elitizado do país, ou no Royal Albert Hall de Londres, show de Jorge & Mateus era sinônimo de muitos ingressos vendidos.

O sucesso da dupla — que começou na Universal Music em 2007, antes de fazer o pulo obrigatório para a poderosa Som Livre em 2012 — e a infinidade de hits que eles produziam ano após ano foi basicamente o que deu o fôlego para o sertanejo se firmar como o gênero número 1 do país e também o que realinhou todo o mercado.

Jorge & Mateus foram um fenômeno tão grande que redefiniram toda a indústria sertaneja

O estilo virou a prioridade de todas as gravadoras. As rádios do país foram totalmente tomadas pelo ritmo (exceto o Rio, que até hoje ainda não tem uma estação sertanejo). E Goiás — o estado de origem de Zezé DiCamargo & Luciano, Leandro & Leonardo e Bruno & Marrone — voltou a ser o epicentro do mundo da música. Afinal de contas, era em Goiânia que ficava a sede da AudioMix, o escritório de Jorge & Mateus que, impulsionado pelo sucesso deles, virou a maior agência de empresariamento artístico do país.

O triunfo da AudioMix fez com que os investidores do Centro-Oeste ficassem ouriçados. E, em 2014, mais uma dupla, Henrique & Juliano, despontou de maneira espetacular, transformando o escritório deles, WorkShow, em um rival de igual porte. Assim, Goiânia — uma cidade fora do eixo Rio-SP — tinha dois dos maiores escritórios artísticos do Brasil.

A chegada de Henrique & Juliano foi meteórica. Os irmãos do Tocantins gravaram um CD independente em 2011 e rapidamente foram contratados pela WorkShow, numa clara intenção de reproduzir o sucesso de Jorge & Mateus. Eles se mudaram para Goiás; foram colocados no estúdio com Pinochio, responsável por grande parte dos sucessos dos ‘oponentes’ e, em 2012, já assinaram com a Som Livre. O primeiro DVD deles, Ao Vivo em Palmas, fez sucesso mas o segundo, uma produção milionária gravada em Brasília, foi o que os consolidou como artistas do momento.

Henrique & Juliano: fenômenos que elevaram o mercado sertanejo a um novo patamar

O plano do escritório funcionou perfeitamente. Em menos de três anos, Henrique & Juliano se tornaram os únicos nomes do sertanejo capazes de competir de igual para igual com Jorge & Mateus, lançando uma sequência absurda de hits monstros e atraindo multidões pelo país, apesar de, assim como seus antecessores, também seguirem uma cartilha pouco midiática e com pouca exposição televisiva. Absolutamente todas as músicas de trabalho deles — “Cuida Bem Dela”, “Recaídas”, “Até Você Voltar”, “Como É Que A Gente Fica”, “Na Hora da Raiva”, “Mudando de Assunto”, “Vidinha de Balada” — viraram clássicos instantâneos e eles elevaram a WorkShow ao mesmo patamar que a AudioMix.

Uma mulher no topo

Quando parecia que o sertanejo não tinha mais como crescer, uma evolução do gênero o levou a patamares ainda mais elevados: o feminejo.

A explosão do feminejo aconteceu em 2016 mas, na realidade, as sementes começaram a ser plantadas em 2011, quando Paula Fernandes virou o maior nome da indústria musical brasileira. Era a primeira vez, desde Roberta Miranda nos anos 80, que uma mulher alcançava o topo do mercado sertanejo, um gênero quase que totalmente masculino.

Paula Fernandes obteve números de venda que não eram visto desde os tempos pré-pirataria na década de 1990

O sucesso inicial da cantora tem muitos traços em comum com o percurso de Victor & Leo. A explosão dela veio pouco depois do momento de ápice da dupla; o seu maior hit (“Não Precisa”) tinha a participação deles; Victor era um amigo próximo e frequente colaborador e todos eles eram do interior de Minas Gerais. Mas, mais do que isso, tanto Victor & Leo quanto Paula Fernandes foram fenômenos que, naquele então, abalaram todas as estruturas mas que, em retrospecto, duraram pouco e serviram apenas como uma prévia de coisas muito maiores que estavam por vir.

Em 2011, porém, parecia que nada seria capaz de superar a cantora. Ela era, de longe, a artista que mais vendida no país e seus dois CDs — Paula Fernandes Ao Vivo e Pássaros de Fogo — estavam alcançados milhões de unidades comercializadas, números que não eram vistos desde o fim da década de 1990 quando a indústria fonográfica ainda não tinha sido devastada pela pirataria.

Com seu rosto de boneca e seu jeito encantador de garota do interior, Paula foi apresentada ao grande público no especial de Natal de Roberto Carlos de 2010 e, depois de ser apadrinhada pelo Rei, estava em todas as partes: nos principais programas de TV; na trilha sonora da novela das 9; nas rádios; tocando on repeat nas Lojas Americanas. Sua voz dócil, longe das afetações do sertanejo, atraía até mesmo aqueles que não eram fãs do gênero. Em 6 meses, seu CD ao vivo tinha superado 1 milhão de cópias comercializadas.

Mas, assim como o amor por Paula Fernandes foi súbito, a perda de interesse também parece ter acontecido do dia para noite. Quando ela lançou seu segundo DVD ao vivo, gravado na HSBC Arena do Rio, tinham se passado menos de três anos desde que ela tinha sido coroada como a artista mais vendida do país. Mas o Brasil já parecia ter a superado e, prontamente, ela parou de dominar as rádios. Assim, a única mulher do sertanejo perdeu seu lugar no topo.

Em seu álbum, Paula Fernandes colaborou com nomes consagrados da música sertaneja, indo de Leonardo a Almir Sater.

Um dos grandes pecados de Paula foi que ela não teve a destreza necessária para transitar pelo mercado sertanejo. Um meio concorrido e competitivo, é necessário suar muito para ficar no topo. Para começar, tem que ter uma relação boa com todo mundo: com os contratantes; com os patrocinadores; com os empresários poderosos; com os outros artistas do gênero, com os quais espera-se que você colabore com certa frequência e, claro, com os compositores e produtores que vão te fornecer seus hits.

É uma lista longa de pessoas e a cantora, conhecida por seu gênio forte e que enfrentava uma depressão pesada, conseguiu — supostamente — desagradar ela toda. Além disso, em meados de 2012, Paula rompeu com o escritório que, até então, cuidava de sua carreira, Talismã, do cantor Leonardo.

Mas, mais do que isso, ela não soube se reinventar. O seu estilo permaneceu estático e ela não acompanhou as tendências sertanejas, fazendo com que suas músicas ficassem repetitivas.

“Amo Noite & Dia”, um dos incontáveis sucessos de Jorge & Mateus.

É um contraste, por exemplo, com Jorge & Mateus. Para permanecer mais de 10 anos no topo, a dupla soube perfeitamente se adaptar aos tempos: depois de começar com um sertanejo mais forrozeiro e de interior (“Querendo Te Amar”, “De Tanto Te Querer”, “Vou Fazer Pirraça”), eles migraram para um estilo ainda mais romântico e pop, com letras um pouco mais rebuscadas (“Amo Noite e Dia”, “Duas Metades”, “Ai Já Era”) e, nos últimos tempos, deram uma “desofisticada”, apostando em refrões chicletes com conceitos mais lúdicos (“Sosseguei”, “Contrato”, “Propaganda”, “Medida Certa”).

O boom feminejo

Essa tendência recente de conceitos lúdicos, alias, foi o motor para a explosão do feminejo.

O momento de Paula no topo foi breve mas serviu para mostrar que, sim, o público não teria nenhum problema em consumir sertanejo feito por mulheres. Nada mais lógico, afinal de contas, a grande maioria desse público é formado por mulheres. Mas, uma vez comprovado o óbvio, os empresários sertanejos começaram a procurar nomes para explorar esse filão. E quando vozes femininas foram combinadas com letras irreverentes, o Brasil se rendeu.

A explosão de hits feminejos aconteceu em uma sucessão impressionante ao longo de 2016 e, com as mulheres no comando, o sertanejo chegou a espaços onde o gênero — considerado até então heteronormativo e conservador — nunca tinha chegado antes, como rádios pop e festas LGBTs.

10%: o primeiro sucesso viral do feminejo

Maiara & Maraísa foram as que escancaram a porta do sub-gênero com “10%”. Na canção, elas estão na fossa e imploram para que um garçom pare de colocar músicas de amor no bar para se aproveitar do sofrimento delas. “Garçom troca o DVD/Que essa moda me faz sofrer/E o coração não guenta/Desse jeito você me desmonta/Cada dose cai na conta e os 10% aumenta!”, elas cantam de maneira dramática no refrão pegajoso que fez com que a música virasse um clássico instantâneo.

As irmãs gêmeas emendaram um hit monstro em outro (“Medo Bobo”, sobre finalmente se render aos encantos de um amigo próximo: “E na hora que eu te beijei/Foi melhor do que eu imaginei/Se eu soubesse tinha feito antes/No fundo sempre fomos bons amantes”) e ainda apareceram como convidadas em mais uma canção essencial para a coroação das mulheres no sertanejo: “50 Reais”.

“Medo Bobo”: mais um fenômeno de Maiara & Maraísa

Com uma letra tão dramática quanto divertida, “50 Reais” de Naiara Azevedo conta a história de uma mulher que pega seu marido no flagra a traindo e, antes de ir embora, deixa um dinheiro para a amante, insinuando que ela é uma garota de programa. “Não sei se dou na cara dela ou bato em você/Mas eu não vim atrapalhar sua noite de prazer/E pra ajudar pagar a dama que lhe satisfaz/Toma aqui uns 50 reais”.

Além de Maiara & Maraísa, outro casal de irmãs foi revelado nesse momento lúdico e girl power: Simone & Simaria. Depois de começar como backing vocals do forrozeiro Frank Aguiar, com quem trabalharam por quase uma década, as baianas partiram para carreira solo em 2012. Depois de anos na estrada, elas começaram a colher frutos do sucesso, adaptaram seu som, chamaram a atenção de empresários de Goiânia, assinaram com a AudioMix e, em 2016, foram alçadas a fama nacional com a explosão do feminejo.

“50 Reais”: a divertida música de Naiara Azevedo que virou febre no país

Apesar de que, num primeiro momento, os sucessos solos delas (“Meu Violão e o Nosso Cachorro”, “Quando Mel é Bom”) não alcançaram um nível tão alto quanto as de M&M (algo que seria feito mais tarde com “Regime Fechado”), elas viraram estrelas de primeiro escalão graças as suas personalidades cativantes.

Simone & Simaria trazem a irreverência nordestina para o feminejo

Morenas de corpos voluptuosos (uma espécie de versão agro das Kardashians), elas tinham uma história de vida que incluiu uma infância triste na pobreza extrema, vozes potentes e personalidades abrasivas, com senso de humor apurado e grande predileção por uma cerveja. Esse combo fez com que as nordestinas virassem queridinhas da mídia.

Mas enquanto Simone & Simaria e Maiara & Maraísa dominavam a atenção, um fenômeno feminejo de proporções nunca antes vistas estava discretamente tomando conta do pedaço: Marília Mendonça.

A rainha da sofrência

Marília Mendonça: fenômeno de massa que trouxe a vida real para o topo das paradas

Um prodígio do sertanejo, Marília Mendonça começou a carreira ainda adolescente, trabalhando como compositora de vários sucessos. Os maiores deles, “Cuida Bem Dela” e “Até Você Voltar”, foram feitos para Henrique & Juliano.

Com o apoio da dupla, ela assinou um contrato com a poderosa WorkShow para se lançar como cantora solo. Em um primeiro momento, Henrique & Juliano serviram como seus padrinhos artísticos, incluindo uma canção com ela em seu terceiro DVD, Novas Histórias, gravado no Recife. A música em questão, “Flor e o Beija-Flor”, foi um sucesso considerável e ajudou a impulsionar seu primeiro single solo, “Infiel”.

“Flor & o Beija-Flor” apresentou Marília Mendonça ao público

Por ser um pouco mais séria, a impressão foi que a música “Infiel” não viralizou como “50 Reais” e “10%”. Mas não passou de impressão: na realidade, o vídeo da canção se tornou, na época, um dos mais vistos da história do YouTube brasileiro (assim como “Flor e o Beija-Flor”).

Desde então, o sucesso de Marília Mendonça tomou uma dimensão que excedeu qualquer expectativa: ela se tornou indiscutivelmente o maior nome da indústria fonográfica brasileira, capaz de transformar qualquer música em um hit. Ela também é o nome mais requisitado para shows no país todo, superando até mesmo seus colegas de agência, Henrique & Juliano, e também Jorge & Mateus, os Midas do sertanejo.

“Infiel”, primeiro hit de Marília Mendonça

O que a WorkShow fez com Marília foi o que o escritório, assim como a AudioMix, se especializou em fazer. Eles investem em artistas que, num primeiro momento, surfam na onda de sucessos meteóricos mas que, a longo prazo, tem carreiras infinitamente mais duradouras que estes.

Apesar de terem sido eles que abriram as portas para o novo sertanejo, o tempo de Victor & Leo como os maiores do Brasil, por exemplo, durou menos de 5 anos. Quem ficou conhecido como os reis do novo sertanejo no final das contas não foram eles mas sim Jorge & Mateus, que permanecem no topo faz 10 anos.

Marília, por sua vez, também bebeu um pouco da fonte da sua predecessora, Paula Fernandes. Além de cantoras e compositoras que dão uma perspectiva feminina ao sertanejo, ambas tem timbres que se assemelham mais ao de uma cantora de MPB tradicional e que, portanto, tem um alcance ainda maior do que o sertanejo tradicional.

Mas, apesar das semelhanças serem cruciais, as diferenças são o que fizeram de Marília Mendonça um sucesso duradouro. Enquanto Paula tinha uma imagem de garota do campo, uma beleza delicada e músicas sobre amores etéreos e natureza, as músicas de Marília falam sobre sofrimento, fossa, beber demais, fazer besteira. Ela não parecia uma estrela feita sob medida para o consumo: seu biotipo e styling eram totalmente fora dos padrões e muito mais próximos a típica mulher brasileira.

As músicas dela falam sobre o amor sem grandes idealizações. Muito pelo contrário: sua visão sem filtro sobre a paixão é uma das chaves do seu sucesso. Seu primeiro hit solo, “Infiel”, é sobre um homem que a trai mas em várias das suas maiores canções — “Amante Não Tem Lar”, “Traição Não Tem Perdão”, “Ciumeira”, “Bem Pior Que Eu” — é ela que é a outra.

“Eu Sei de Cor”: a música que consolidou Marília no primeiro escalão do sertanejo

Em seus sucessos, Marília cobre absolutamente todos os estágios possíveis da fossa: sofrer por se apaixonar pela pessoa errada; ser traída; trair; ser a outra; beber demais e fazer o que não deveria; amar e não ser correspondido; sofrer pelo término; beber para esquecer a dor; ser abandonada e, claro, conseguir juntar as forças para superar.

O apetite do público parece ser insaciável: ela tem músicas novas todos os meses e tudo o que lança é um hit. No YouTube, que ainda é a plataforma de consumo musical mais utilizada no país, absolutamente nenhum brasileiro consegue chegar perto dos números obtidos por Marília e ela é, de longe, a mais ouvida em todas as regiões do país, incluindo o Rio de Janeiro.

O estilo da sertaneja transcendeu o selo de “feminejo” e é hoje conhecido como sofrência. Estar no fundo do poço por causa de um coração partido sempre foi um tema popular na música brasileira, e no sertanejo em particular, mas ninguém tinha conseguido explorar esse filão com tanta maestria — e com resultados tão extraodinários — quanto Marília, a Rainha da Sofrência.

O topo

A ascensão de Marília Mendonça ao topo é a prova de que sertanejo segue sendo, de longe, o estilo mais popular do Brasil. De Victor & Leo e Paula Fernandes a Jorge & Mateus e Henrique & Juliano a Marília Mendonça, já faz mais de 10 anos que o gênero fornece o mercado brasileiro com suas estrelas mais rentáveis. E, a julgar pelo apetite do público, o reinado do estilo está bem longe de acabar.

Mas uma coisa é certa: a concorrência está cada vez mais acirrada. Depois de anos relegados a um papel secundário, o pagode, o funk e o pop estão todos lutando por um espaço no pódio. Para se manter no topo, o rimo terá que continuar se reinventando, mesmo tendo alcançado um patamar onde ele parece não ter mais para onde crescer. A lição que foi aprendida na última década, porém, é nunca subestimar o gênero.

Na parte 2Uma análise detalhada dos principais acontecimentos do mercado na última década, rastreando o trajeto que fez com que Goiânia deixasse de ser apenas a capital do sertanejo para se solidificar como a capital do entretenimento brasileiro.

Causando em 2017: Latino style

Em setembro do ano passado, falei que reggaeton estava a ponto de conquistar o mundo. Quase um ano depois, a previsão se provou certeira. “Despacito” é a maior música do planeta, quebrando um recorde atrás do outro e, depois de três meses, acaba de ser substituído no topo da parada global do Spotify por “Mi Gente” do colombiano J Balvin. Enquanto isso, Daddy Yankee é o artista mais ouvido na principal plataforma de streams do mundo.

Tá tudo dominado

A conquista mundial do reggaeton está em andamento mas, na América Latina e na Espanha, a dominação está mais do que consolidada. O sucesso é tanto que a pluralidade nos charts quase acabou e até alguns dos maiores fenômenos do mercado hispânico — como Romeo Santos, o ícone do bachata, o estilo da moda faz poucos anos — tem tido dificuldade para emplacar hits.

Depois de obter fama avassaladora com o seu grupo Aventura, Romeo se consolidou como o maior nome da música latina . Seu segundo álbum, “Formula, Vol. 2”, lançado em 2014, fez com que ele desbancasse até Shakira como o maior nome da América Hispânica.

Mas, desde que ele entrou em um break, o reggaeton ganhou tanta força que seu aguardado retorno esse ano foi ofuscado pelo sucesso fenomenal de canções do gênero, como a inescapável “Despacito”.

Lançado em fevereiro, seu comeback single “Heróe Favorito” teve resultados dignos mas muito aquém ao esperado de um cantor que encheu absolutamente todos os estádios da América Latina e obteve, com o lead single do álbum anterior, “Propuesta Indecente”, um dos maiores hits em espanhol da década.

O problema de “Heróe Favorito” foi que, na minha opinião, a música era tão tipicamente Romeo que poderia ser uma faixa de qualquer álbum dele. Espera-se que um primeiro single tenha o som marca registrada do artista combinado com algo striking que prenda a atenção do ouvinte para o seu retorno.

Isso, somado ao fato de que bachata perdeu espaço para reggaeton com a ausência de Romeo da cena, fez com que a música do maior astro de todos acabasse passando despercebida.

Para o segundo single, Romeo step up his plate e trouxe a muito mais pegajosa e marcante “Imitadora”. Agradou bem mais aos ouvintes e foi um sucesso maior, apesar de que não chegou ao patamar dos grandes hits do reggaeton — algo que ele era capaz de fazer com facilidade faz apenas dois anos.

Nesse cenário de ditadura do reggaeton, sempre existe a opção de seguir os passos de Shakira e Enrique Iglesias e se render ao gênero.

Mas, diferente das estrelas pop, Santos sempre foi de raiz. Ele é fiel ao estilo que o catapultou ao estrelato e raramente dá o braço a torcer. Mesmo quando colaborou com Drake — o maior rapper do universo — ele não se flexibilizou: foi o canadense que se rendeu e cantou em espanhol, no maior estilo cantor brega latino.

Mas o poder do reggaeton é tanto que Santos não se segurou. Seu novo álbum, “Gold”, inclui a canção “Bella y Sensual” com Daddy Yankee e Nicky Jam. O raro gesto do nova-iorquino parece estar rendendo frutos: o bachataton já penetrou o top 50 da Espanha e de todos os países latinos no Spotify e, em tempo recorde, alcançou o top 10 no Chile, superando o sucesso de todos os demais single que ele lançou ao longo de 2017.

Além de colaborações com os maiores nomes da música romântica em espanhol — Juan Luis Guerra, Julio Iglesias — ele ainda colabora em mais outra faixa com uma das maiores estrelas do reggaeton, Ozuna.

Apesar de estar em uma fase mais modesta, Romeo segue arrasando: a estréia do seu terceiro álbum solo foi a melhor semana de vendas de um álbum latino nos EUA, superando “El Dorado”, o CD de Shakira, lançado em junho.

O fenômeno Shakira

Falando em Shakira, ela é outra que resolveu apostar no seguro e entregou um álbum cheio de reggaeton. “Chantaje”, o maior hit do CD, foi uma colaboração com o fenômeno Maluma. Mais uma música com o jovem reggaetonero foi inclusa no álbum e deve ser lançada como single depois de uma colaboração bem pancadão com Nicky Jam, cujo vídeo acaba de ser gravado.

O interessante é que, apesar de ter se rendido ao reggaeton, Shakira é uma das poucas artistas latinas capaz de obter sucesso se desviando do gênero. Enquanto Santos teve problema para emplacar “Heroé Favorito”, “Deja Vu”, a colaboração da colombiana com Prince Royce — também uma típica bachata — entrou no top 50 do Spotify de todos os mercados hispânicos na mesma semana que o vídeo foi lançado. Seu pop vallenato com Carlos Vives, outro astro colombiano, “La Bicicleta”, foi um dos maiores sucessos em espanhol de 2016.

Não recomendado para os mais sensíveis

Os dois maiores propulsores de talento da América Latina na atualidade são Puerto Rico e Colômbia. Puerto Rico é o berço do reggaeton moderno e de onde saíram quase todos os principais nomes do gênero. Já a Colômbia soube levar o estilo para outro patamar e revelou ao mundo Maluma e J Balvin, as duas maiores sensações, além de ter sido parte do renascimento de Nicky Jam, outro dos grandes nomes.

Mas, além desses dois países, outro mercado que vale a pena prestar atenção é a Republica Dominicana. A nação caribenha também teve um papel importante na criação do gênero — foram os dominicanos radicados em NY que ajudaram a cria-lo — e também é de lá o outro ritmo que tomou conta da América Latina e da Espanha, a bachata. O país da América Central também tem um gosto muito particular e é um grande descobridor de talentos do trap, um gênero do reggaeton que tem muitas semelhanças com a música urbana americana nascida no East Coast.

A influência do rap e do hip-hop de Nova Iorque no gosto local é compreensível: milhões de habitantes do país tem laços fortes com a principal cidade dos EUA, que tem uma comunidade gigante de imigrantes provenientes da Republica Dominicana. Até a bachata moderna, de Romeo Santos e do Aventura, teve origem no Bronx.

Apesar disso, o trap que a Republica Dominicana tanto ama não nasceu no país e sim em Puerto Rico, a colônia dos EUA que também tem relação estretíssima com NY. Mas apesar de não ter sido criado por dominicanos, foi a partir do país da América Central  que o gênero começou a conquista do restante da comunidade latina.

Quando Maluma lançou, em meados do ano passado, a música “4 Babys”, ele chocou o mundo hispânica com a letra. Misoginia na música não é algo raro em nenhum gênero ou país, muito menos no reggaeton latino americano, mas o que deixou muitos de boca aberta foi o baixo calão das palavras. Na canção, sobre o affair  dele com quatro mulheres diferentes, o astro colombiana fala em “meter”, “trepar”, etc. — termos comuns no funk brasileiro ou no rap americano mas pouco visto na música latina mainstream.

O astro colombiano ficou chocado com a reação negativa. Ele só estava trazendo para seu repertório o reggaeton no estilo trap, que, na verdade, já gozava de grande popularidade. Mas, até então, o estilo não tinha sido legitimidade por um astro estabelecido de primeiro escalão. Apesar de bombar no YouTube faz muito tempo, o alcance que ele deu ao subgênero foi muito maior e chegou a um público que nunca tinha sido exposto a ele antes.

No final das contas, “4 Babys” — apesar de todo o choque que a letra causou — serviu apenas como aperitivo, porque o reggaeton proibidão está cada vez mais popular na América Latina. Ozuna, a maior revelação do ano passado, flerta com o estilo e Bad Bunny, a maior sensação desse ano, faz um trap de raiz.

Provenientes de Puerto Rico, ambos estouraram na Republica Dominicana bem antes de conquistarem os demais países do continente. Bunny, em específico, é um Midas no país e todas as suas colaborações com outros nomes do trap — como Anuel AA, Jory Boy, Brytiago e Bryant Myers — são sucessos instantâneos. Agora, ele está dominando o restante das Américas e Espanha, obtendo hit atrás de hit e colaborando com gigantes como J Balvin (no mega hit “Si Tu Novio Te Dejas Solo”).

No trap de Bad Bunny, palavrões, drogas e outros temas que aparecem de maneira filtrada no reggaeton dos outros astros são lugar comum.

Alguns excertos de “Soy Peor”, seu maior hit solo, no qual ele narra estar aliviado ao terminar um relacionamento péssimo: “Agora faço tudo o que eu quero/Só penso em eu mesmo/Jogando notas dentro do puteiro/Para merda o amor verdadeiro/Eu só quero ganhar dinheiro/Baby o que tinhamos descansa em paz/Não estou nem ai para com quem você tá/Diga pra sua mãe que ela não me faz falta/Já tenho sogras demais/Tenho a branquinha que me faz um lap dance/A roqueirinha que meto com tudo, de Vans/Tenho a pretinha, a loirinha, as modelos e todas as fãs”.

A menção obrigatória a substâncias ilícitas: “Eu não quero fumar o regular/Me traga o kush que me deixa espetacular/Que já não tenho mais você para especular/E para encher meu saco por todas as fotos de bunda que tenho no celular”.

E, claro, o refrão: “Siga seu caminho, sem ti eu estou melhor/Agora tenho outras que trepam bem melhor/Se antes eu era um filho da puta, agora sou bem pior”.

Com a forte influência do rap americano, o trap também é bem americanizado. Em “Tu No Metes Cabra”, seu atual hit, Bunny fala de prom, de bleachers, de bilionários americanos, de carrões e de jogadores de basquete. A temática U.S. não impede o single de ser um enorme sucesso em todos os países, da Argentina ao México e também na Espanha. Bunny está próximo a obter o nível espetacular de sucesso alcançado por Balvin e Maluma.

Antes tarde do que nunca

Assim como no rap americano, o universo do reggaeton é um clube do bolinha. Enquanto a música pop — particularmente a mexicana — sempre teve boa participação feminina, a dominação do reggaeton apagou quase todas as mulheres da parada, com exceção da colossal Shakira.

Se aliando com Maluma, Thalia conseguiu um mega hit com “Desde Esa Noche” no ano passado. Com a participação de Cali y el Dandi, a ex-RBD Maite Perroni, hoje mais conhecida como mocinha de telenovelas mexicanas, conseguiu recentemente seu primeiro sucesso desde os tempos de Rebelde com “Loca”. Mas esses casos estão mais para exceção do que para regra.

Apesar disso, é possível que, aos poucos, as coisas estejam mudando. Dentre as 20 faixas mais populares nos principais mercados latinos e na Espanha no Youtube, dois são reggaetons com mulheres como lead singers. Dois em 20 pode parecer um número patético mas é uma evolução de zero.

As duas artistas que conseguiram esse feito foram Karol G. e Becky G. O que ambas tem em comum além do “G” como sobrenome? O fenômeno Bad Bunny participando de suas músicas.

Mas enquanto o reggaetonero foi, sem duvida, um fator importante para o sucesso, a música é majoritariamente das mulheres, na qual ele contribui apenas com alguns poucos versos. Mesmo assim, a influência dele é enormemente perceptível, principalmente na música de Karol.

Em  “Ahora Me Llama” a colombiana se apresenta como uma espécie de versão feminina do trap star porto riquenho.

“Agora me chama/Diz que eu faço falta na sua cama/Mas para mim já não dá, já não dá/Agora eu só quero sair com meu próprio squad/Afinal a vida é minha/E quero curtir ela sem a sua companhia/Agora eu quero viver minha vida/Afinal a vida é minha/Saí com o coração partido e agora já não espero nada/A não ser os melhores drinks e a roupa trazida de Dubai”.

Mais para frente, no melhor estilo “soy peor”, ela afirma: “Se antes eu era má/Agora chegou a nova versão, ainda mais má/Continuo fazendo fama/Depois decido que gostinho quero levar pra minha cama/Porque viver de amor/Isso não me faz falta/Sou dona da minha vida e em mim ninguém manda”. Já Bunny faz uma aparição breve para dizer que “para ele melhor assim como solteiro/Eu curto, bebo, fumo, faço tudo o que eu quero”. No YouTube, o vídeo da canção já tem 150 milhões de views em 2 meses.

Já Becky G. é uma criação do polêmico produtor americano Dr. Luke. Apesar de ter sido lançado na época que ele emplacava hits fáceis, Becky — nascida e criada em Los Angeles — demorou muito até obter um mid sized hit com a música “Shower”. Apesar do gostinho do sucesso, a cantora não obteve grande fama mesmo com contratos publicitários gigantes (ela é garota propaganda da CoverGirl junto com Katy Perry, Ellen e Sofia Vergara) e filmes de Hollywood (ela é a Power Ranger amarela na adaptação cinematográfica da franquia).

Depois que sua carreira teen pop não decolou, Becky mudou para o pop em espanhol mas seguiu penando. Até que se juntou com Bunny numa canção cheia de duplo sentido e, voila, sucesso na América Latina e na Espanha e 60 milhões de visualizações em poucas  semanas no YouTube.

Enquanto Karol optou pelo viés “bad bitch”, Becky preferiu os trocadilhos sexuais. Em “Mayores”, ela canta: “Eu gosto mesmo dos maiores/Os que são chamados de senhores/Que seguram a porta e me dão flores/Eu gosto daqueles que são grandes/Que não cabem na boca/Os beijos que vão me dar/Que me deixam louca”. O porto-riquenho aparece para questiona-la: “Quer um mais velho, está segura?/Te dou mil aventuras/E duro o que ele não dura”.

Para os latino-americanos que ficaram chocados com “4 Babys”, talvez seja o momento de parar de ouvir a rádio.

How-to: Como ser a revelação musical fenômeno do ano no Reino Unido

Leia antes: A cena musical britânica e sua constante renovação

No post anterior, fiz um repasse detalhado das renovações da cena musical britânicas e das revelações que aparecem ano após ano. E agora, vim ensinar como você também pode seguir os passos de Adele e Ed Sheeran e se transformar no novo fenômeno de vendas do Reino Unido rssssss

Mas falando sério, ao longo de meus anos de observação, percebi que existe uma receita para que as grandes apostas das gravadoras atinjam o seu máximo potencial. Essa receita acaba sendo, na verdade, um ótimo insight da indústria britânica como um todo. Por isso, acho interessante dividir com vocês as várias etapas que ajudaram Sheeran, Sam Smith dentre vários outros a alcançar sucesso meteórico com seus primeiros álbuns.

  • Antes do público, conquiste a indústria: Isso foi essencial para absolutamente todos os ganhadores do Critics’ Choice, afinal de contas, nenhum deles teria ganho o prêmio se eles não tivessem executado esse passo à perfeição. Ser bem conectado dentro do biz é necessário para que tudo esteja alinhado a favor do artista no momento que este tiver a chance de lançar um álbum. Glynne, Jessie J e Emeli Sande conheceram os produtores por detrás de seus sucessos através de carreiras como compositoras. Florence, Bay e Smith também faziam parte do inner circle musical fazia tempo. Além disso, ter essas conexões é importante para conseguir reuniões, fazer shows privados para executivos tanto nos EUA quanto no Reino Unido, ter  early buzz nas principais rádios e na BBC e para, quem saber, ser convidado para ser vocalista convidado em algum hit em potencial, o que nos leva a outro ponto…
  • Hits pré-estreia aumentam seu valor no mercado: Ser vocalista convidado em canções de sucesso aumentam o interesse do público e garantem airplay do material solo do artista nas grandes rádios. Jess Glynne, Emeli Sandé e Sam Smith tiveram impulso enorme graças a participação deles em number one hits de outros artistas e produtores antes de suas estreias oficiais.
  • Tente cultivar uma fanbase antes da seu primeiro single oficial: Lance mixtapes, disponibilize seu trabalho na internet, consiga buzz através de shows pequenos, cante em festivais. Foi assim que Ed Sheeran conseguiu um top 5 hit de imediato quando finalmente teve chance de lançar “The A-Team” mas também funcionou muitíssimo bem para Lily Allen, James Bay, dentre vários outros. Outro bom meio para ganhar divulgação é o BBC Introducing, que destaca novos talentos e dá espaço para novatos tanto na Radio 1 quanto em palcos especiais em festivais de grande porte como Glastonbury, T in the Park, Leeds and Reading e o próprio evento da estação, Radio 1 Big Weekend. Foi através do Introducing que Bastille, George Ezra, Florence & the Machine e Jake Bugg foram apresentados ao público.
  • Tenha credibilidade (ou a ilusão de ter): Mesmo que você seja uma artista puramente pop comercial, como Jessie J, é sempre um bônus criar a ilusão de que você é um ~artista de verdade~ que acrescenta algo de novo a cena. Fazer a estréia no Jools Holland — um programa bastante popular entre music snobs e conhecido por destacar música boa e musicos autênticos — é um ótimo começo e foi a plataforma de lançamento de basicamente todas as revelações citadas nesse post. Ser incluso no line-up do Glastonbury e outros festivais mais “sérios” também é muito bom, assim como ter alguma cobertura na imprensa especializada. Outro ponto importante: ganhar destaque na Radio 1, a rádio da BBC que, apesar de ser comercial, também tem credibilidade. Seja hyped pelas personalidades da emissora e tente aparecer no Radio 1 Live Lounge — onde artistas cantam versões stripped down de seus hits e fazem covers de sucessos de terceiros — para mostrar sua versatilidade e dotes vocais.
  • Mas também seja comercial: A Radio 1 é um bom começo mas, para ter um hit, é essencial ter airplay nas rádios top 40 comerciais, sobretudo a Captial FM, a estação líder entre jovens. Para isso, claro, a música tem que estar de acordo com as tendências do momento. Televisão também é muito importante: é preciso ir em pelo menos um talk-show de destaque (Graham Norton na BBC1 é o mais cobiçado mas Jonathan Ross na ITV também é uma boa alternativa) e, para os que tem estomago, The X Factor segue sendo um prime spot de divulgação, mesmo em plena decadência. Cantar no evento anual de caridade da BBC — Children in Need ou Comic Relief — é ótimo mas ainda melhor é uma música sua escolhida como o “single oficial” do evento (como aconteceu com Sam Smith; James Bay; Ellie Goulding e Jess Glynne). Além de Glastonbury, não dá para dispensar festivais mais comerciais — como o V Festival — e eventos grandiosos organizados pela rádio. O Radio 1 Big Weekend é um must mas o Capital FM Summertime Ball ou o Capital FM Jingle Bell Ball também são um big deal, principalmente para os que tem uma sonoridade e imagem mais pop.
  • Para pais e filhos: Os jovens gostarem de você é muito importante mas, para vender muito, é bastante útil ter as mães e os pais e os tios e as tias do Reino Unido inclinados a comprar sua música, afinal são eles que mais compram CD. Aparecer na TV, claro, ajuda o artista a atingir esse público mas os singles têm que ser atuais o suficiente para estar na Capital FM mas também melódicos na medida certa para conseguir airplay nas rádios voltadas ao público acima dos 30, como Radio 2, Magic ou Heart. Ou seja, evite ter um guest rapper. E cuidado: exposição em rádios adultas é bom para vender CD mas, se você quiser manter a imagem de hip e cool, não se associe demais a esse público. Evite, por tanto, eventos “de velho”. Entrar na playlist da Radio 2 é bom mas deixe o Radio 2 Live in Hyde Park, o grandioso evento organizado pelo estação, para Elton John; Rod Stewart e Bryan Adams ou para artistas que os jovens já decidiram que não querem mais (tipo Leona Lewis). O lugar do artista cool é no Radio 1 Big Weekend.
  • Tenha ambições de conquistar a América: O artista precista ter ambição e a confiança de que conseguirá penetrar o mercado dos EUA. A verdade é que ele provavelmente não conseguirá, mesmo se tiver obtido grande sucesso no Reino Unido, mas todos os A&R de gravadoras e empresários só apostam em que eles acreditam que tem chance de conquistar a muitíssimo valiosa Terra do Tio Sam. Esteja disposto para ir no programa da Ellen, em programas matinais e late night talk shows e shows de rádio e e shows para executivos do outro lado do Atlântico. Conseguir um slot para cantar no Saturday Night Live já é meio caminho andado e você já pode se considerar vitorioso se conseguir um top 10 hit ou uma indicação a Best New Act no Grammy.
  • Timing é tudo: O álbum deve ser lançado bem próximo de um single bem pancada, que tenha probabilidade altíssima de virar hit e represente o som e a vibe do artista. Stay with Me de Sam Smith e Hold my Hand de Jess Glynne e Hold Back the River do James Bay e Next to Me de Emeli Sandé e Starry Eyed de Ellie Goulding foram todos lançados bem próximos aos respectivos álbuns. Por outro lado, o CD de Tom Odell chegou as lojas meses depois de Long Way Down, o maior hit dele, o que possivelmente colaborou para que as vendas não fossem tão altas quanto esperado.
  • Corra para o abraço: Caso você obtenha sucesso nos passos acima, você será convidado para uma grandiosa performance no BRIT Awards do ano seguinte ao lançamento do seu álbum e, quiçás, ganhara um prêmio. Possivelmente, será o ápice da sua carreira, então aproveite. Os mais sortudos conseguiram sustentar o sucesso por mais álguns álbuns ou algum tipo de sucesso nos EUA, mas não todos. Boa sorte!

A constante renovação da cena musical britânica

A indústria fonográfica do Reino Unido — a terceira maior a nível global (atrás dos EUA e do Japão) — é uma das mais dinâmicas do mundo e é origem de vários dos artistas mais influentes da história (Beatles; Rolling Stones; Queen; Spice Girls; Oasis) e da contemporaneidade (Adele; Ed Sheeran; Coldplay).

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Adele, maior estrela do mundo, made in UK

Mas, claro, é uma indústria que depende, acima de qualquer coisa, do mercado interno. E esse mercado não é moleza: o público britânico é bastante influenciado pelas tendências do momento e sedento por novidades. Para mantê-los satisfeitos, é necessário uma constante renovação e criação de novos talentos ano após ano.

A shelf life do artista do momento não precisar ser duradoura. Muito pelo contrário: muitos só duram 1 álbum. A longevidade não é importante, o hype a curto prazo que é. Se ele durar — alguns conseguem — ótimo. Se não, não tem problema: novos artistas — mais condizentes com o que é cool no momento — surgirão para substituí-lo.

Apesar disso ser relativamente comum em todo o mundo, o ritmo no Reino Unido é particularmente frenético e, para que essa renovação possa acontecer, a indústria britânica conta com a total colaboração da mídia local — estações de TV e de rádio sabem promover artistas a perfeição, criando hype e dando espaço para que as apostas do momento possam brilhar. Um elemento importante desse aparato todo são duas premiações específicas que tem como objetivo apresentar quem serão os hot new acts da temporada. São elas: BBC Sound of... e o BRIT Critics’ Choice.

A enquete da BBC é a mais hypada por ser mais eclética e ousada. Porém, o Critics’ Choice — que serve como uma categoria da principal premiação da música britânica, o BRIT Awards — é bem mais comercial e, por tanto, mais certeiro.

Ter o selo de escolhido do Sound of… dá uma aura de credibilidade e expectativa para o artista e garante uma cobertura decente nos veículos da emissora pública britânica, incluindo airplay na influente Radio 1.

Receber o Crticis’ Choice, porém, significa o apoio integral dos executivos das principais gravadoras e respaldo não só da BBC mas também das estações de rádio comercial e emissoras de TV privada (principalmente a Capital FM, a principal rádio top 40 do país, e a ITV, o canal que exibe os BRIT). Apesar do nome aludir a críticos, a escolha é feita, na verdade, pelos executivos das grandes gravadoras.

Através dos escolhidos nas premiações, vamos dar uma olhada em como a indústria britânica se renovou ao longo da última década.

2008:

BRIT Critics’ Choice: Adele
BBC Sound of 2008: Adele

Em 2008, o Sound Of… estava em seu sexto ano mas só então começava a exercer maior influência. Indo na mesma onda de promover novos artistas, o BRIT Crtics’ Choice foi criado. Ambos se alinharam perfeitamente, selecionando a mesma artista como vencedora: Adele. Bem óbvio o quão acertada foi essa decisão, não é mesmo? Mas é hilário voltar ao tempo e ver que, naquele então, a escolha foi quase injusta.

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Causando en español: si necesita el reggaeton, ¡dale!

A dominação atual

Um estilo domina as paradas de sucesso do mundo hispânico: o reggaeton. Esteja em Miami ou Madrid; Barcelona ou Cidade do México; Buenos Aires ou Bogota, nada bomba tanto quanto um sucesso do gênero.

Esse monopólio pode ser confirmado com uma olhada no top 50 do Spotify nos principais mercados ibero-americanos. No México, por exemplo, apenas 13 músicas em espanhol aparecem dentre as mais ouvidas, mas 10 dessas são reggaeton. Na Argentina, a dominação é ainda mais evidente: 24 dentre as 28 músicas na língua pátria entre as 50 mais ouvidas pertencem ao gênero. Chile (21/25); Espanha (17/21) e Colômbia (17/19) não ficam atrás.

De certa maneira, esse takeover pode ser comparado com o sertanejo que, no Brasil, se solidificou como, de longe, o estilo mais popular. Até os números no Spotify são similares: 18 das 22 músicas brasileiras no nosso top 50 são de artistas sertanejos.

Além do sertanejo, o reggaeton também tem paralelos com o funk: um estilo assumidamente popular e que muita gente torce o nariz para mas que, na pista, é sempre sucesso garantido.

A origem

Comparações aparte,  a explosão do reggaeton é relativamente recente. O gênero surgiu no Panamá, na década de 1980, antes de chegar em Nova Iorque e, finalmente, em Puerto Rico. Foi na colônia estado-unidense onde o estilo começou a se massificar, com o gigantesco sucesso de Don Omar. A explosão internacional de Gasolina de Daddy Yankee, em 2004, confirmou o reggaeton como um dos principais pilares da música latina.

Enquanto o sucesso de Omar ficou mais restringido ao mercado latino (pelo menos até 2010, com Danza Kuduro),  Gasolina transcendeu barreiras linguísticas e atingiu o top 10 geral da Billboard assim como as paradas europeias e até japonesa. O álbum que continha a música, Barrio Fino, vendeu 1.7 milhão de unidades nos EUA, o maior vendedor latino da década. E Yankee se transformou numa lenda e no rei do reggaeton.

Nenhum dos singles subsequentes teve o alcance internacional de Gasolina, mas o porto-riquenho se transformou num staple na cena latina e suas músicas fazem sucesso até hoje. O triunfo dele também ajudou dezenas de outros grandes nomes do reggaeton — todos de origem porto-riquenha — a emergirem.

A música desses artistas fez a América toda dançar mas a falta de sangue novo no gênero acabou causando uma saturação e Pitbull, com suas produções mais urban top 40, grande partes dela em inglês, se apossou do nicho festeiro no final da década.

Mas Yankee, Wisin, Yandel e demais artistas nunca pararam de produzir hits e se mantiveram consistentes no cenário latino (que, aliás, é bem fiel). Na Espanha, o DJ catalão Juan Magan — o rei do electrolatino — junto a outras dezenas de artistas provenientes das Américas também ajudaram a fazer do ritmo algo completamente inescapável. Mesmo ofuscado, o estilo foi uma presença constante, ajudando a abrir caminho para o atual monopólio.

De San Juan a Medellin

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Enquanto Puerto Rico foi quem deu o ponta pé inicial no fenômeno, foi a Colômbia, especificamente a cidade de Medellín, que elevou o estilo ao seu atual patamar e deu uma nova roupagem ao gênero. O primeiro megastar proveniente dessa nova fase foi J. Balvin.

A hypada publicação americana Fader, que dedicou uma capa ao megastar latino, fez uma boa descrição da diferença entre o colombiano e os anteriores ícones do gênero:

“O reggaeton de Balvin é mais sutil, mais relaxado e mais em linha com o que está acontecendo na cena pop e hip-hop atual. Enquanto Daddy Yankee parecia estar gritando em suas músicas, Balvin canta com uma pronunciação mais suave”, descreve a revista.

“Ao invés de enormes óculos aviadores e bonés largos, Balvin opta por um chapéu de cowboy de abas largas e streetwear direto da passarela de designers badalados como Guillermo Andrade”.

Assim como Kanye e Drake ajudaram a reinventar a cena do rap, Balvin — com seu swagger e estilo — marcou um novo começo na cena do reggaeton. Em 2011, ele começou a emplacar sucessos na Colômbia. Em 2012, Yo Te La Dije e Tranquila estouraram nos EUA, nas Américas e na Espanha. E, em 2013, ele obteve seu primeiro mega blockbuster hit com 6 AM. Seu primeiro álbum, La Familia, foi um grande sucesso e, provando que tinha chegado de verdade,  emplacou logo em seguida outro inescapável hit, Ay, Vamos.

O estilo único de Balvin está diretamente ligado a sua história de vida: nascido numa família de classe alta em Medellín, ele cresceu apaixonado por grunge e Nirvana. Depois,  descobriu Daddy Yankee, sua maior inspiração. Sua família foi a falência e Balvin começou a transitar entre dois mundos, estudando numa escola de elite e vivendo num bairro próximo do gueto. Num intercâmbio para os EUA, ficou fascinado pelo universo do rap e hip-hop e todo o business bilionário em torno do gênero. Voltou para sua cidade natal disposto a fazer do reggaeton um negócio similarmente lucrativo. E, claro, o resto é história.

Balvin aponta Yankee como a figura responsável por fazê-lo se apaixonar pelo reggaeton. O porto-riquenho também tem influência direta em outro dos principais nomes ligados a cena de Medellín, Nicky Jam.

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Nicky Jam

Jam nasceu em Massachusetts mas foi criado em San Juan, Puerto Rico. Seu talento chamou atenção de Daddy Yankee, que o apoiou e o treinou em seus primeiros anos, além de ter colaborado com ele em várias músicas. Não demorou para começar a obter sucesso mas as drogas e uma briga com seu mentor (que estava prestes a estourar com Gasolina) deram fim prematuro a sua carreira, interrompida em 2005.

Com a autoconfiança abalada, Nicky Jam se mudou para Medellín. A cidade era louca por reggaeton mas, antes de Balvin explodir, poucos imaginavam que alguém de lá poderia se tornar um grande astro do gênero. A chegada do porto-riquenho na cidade — com seu sucesso prévio e sua antiga associação com Yankee — causou burburinho e não demorou para as portas começarem a se abrir uma atrás da outra.

A forte cultura musical colombiana (cujo gênero local principal é o vallenato) influenciou Jam a dar mais melodia e romantismo a suas produções. E, depois de anos se preparando, ele finalmente estava pronto para oficialmente retornar. Foi um sucesso de imediato. Em 2014, a repercussão arrebatadora do single Travesuras o colocou na primeira linha. Apesar de ter nascido nos EUA e ter sido criado em San Juan, o sucesso dele era made in Colombia.

Em paralelo a Jam e Balvin, outra cria de Medellín começava a deixar sua marca. Enquanto Travesuras estourava, Maluma, então com 20 anos, conquistava a Colômbia com seu rostinho bonito e se estabelecia como o maior teen idol do país. O sucesso da sua música La Temperatura abriu as portas dos EUA, assim como de outros mercados latinos e da Espanha e deixava claro que ele também não estava para brincadeira. Com a ajuda das redes sociais, o garoto se estabelecia como uma das estrelas mais rentáveis da América Latina.

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Maluma

2015: o ano em que reggaeton virou a norma

Se Travesuras tinha dado nova vida a carreira de Nicky Jam, o porto-riquenho — agora baseado em Medellín — não imaginava o que estava por vir em 2015: seu single subsequente se transformaria num dos maiores sucessos em espanhol da história recente.

El Perdón, que contava com a participação de Enrique Iglesias, inquestionavelmente um dos maiores astros da música latina, passou 1 ano inteiro no topo de absolutamente todos os países de língua hispana (e 30 semanas no topo do Hot 100 Latin dos EUA), acumulou mais de 1 bilhão de views no YouTube e se transformou na música em espanhol mais streamed do Spotify (335mi), transcendendo barreiras e atingindo o top 10 de mercados não latinos como Alemanha, França, Suécia e Holanda. A música cristalizou a posição de Jam dentre os maiores nomes da música latina. O single também significou um renascimento de Enrique Iglesias.

De certa maneira, Iglesias serve como um termômetro do que é popular no cenário latino: ele está sempre colaborando e produzindo músicas de maneira milimetricamente planejada para obter os maiores hits.

Sendo assim, a transição de Enrique para o reggaeton foi um momento divisor de águas: era um sinal de que o gênero deixava de ser apenas mais um estilo popular para se transformar no estilo principal.

Iglesias é, desde meados dos anos 90, um dos maiores nomes da música em espanhol. Assim como seu pai, Julio, seu repertório era formado por baladas românticas e, logo de cara, ele virou um dos maiores astros da América Latina, com hits como Experiencia Religiosa e Nunca Te Olvidaré antes de crossover para o mercado anglo-saxão com giga hits como Hero e Escape.

Em 2007, Iglesias voltou as paradas com uma série de sucessos em inglês como I Like It e Tonight (I’m Fucking You), quase todos com participação de Pitbull. Para suas canções em espanhol, contudo, ele seguiu apostando em um som mais romântico, obtendo grandes sucessos como Cuando Me Enamoro, uma colaboração com Juan Luis Guerra que ficou 14 semanas em primeiro lugar, assim como duetos com grandes ícones da música romântica como Romeo Santos (Loco) e Marco Antonio Solis (El Perdedor)

Mas, em 2014, o artista espanhol começou a flertar com estilos mais dançantes. O resultado foi Bailando, uma colaboração com o grupo Gente de Zona e o artista Descemar Santos, ambos cubanos, que mesclava pop, flamenco e um pouco de reggaeton. Foi um sucesso sem precedentes na carreira do artista, superando todos os seus sucessos anteriores (e isso não era tarefa fácil para alguém que, naquela altura, já tinha passado 104 semanas no topo da parada Latina da Billboard).

Foram 41 semanas ininterruptas no topo da Billboard Latin Tracks, um recorde histórico. Nos EUA, a canção vendeu 3 milhões de unidades, números inéditos para uma faixa em língua estrangeira. Na Espanha e na América Latina, a música tocou — sem parar — por 1 ano inteiro. O clipe acumulou mais de 1.6 bilhão de visualizações no YouTube, se tornando o vídeo em espanhol mais visto na plataforma (e o nono mais visto no total).

Repetir esse sucesso não seria fácil. Mas daí Iglesias viu um trecho de El Perdón, que Jam estava previewing no Instagram; pediu para participar e o resto é história. A canção fez o impossível e igualou o sucesso histórico da antecessora, dando para Enrique mais um ano ininterrupto no topo das paradas de todos os países hispano e além (a música foi um enorme sucesso em quase toda Europa continental).

O fenômeno da colaboração com Nicky Jam fez com que Enrique finalmente assumisse seu novo papel de reggaetonero. Duele El Corazón, seu follow-up, uma colaboração com Yandel, provavelmente encerrará o ano como um dos maiores hits de 2016.

O cenário atual

Basta ver a diferença de orçamento entre os clipes de reggaeton de 2014 para o presente para constatar que, graças a rentabilidade dos principais nomes do gênero, muita coisa mudou.

Enquanto Iglesias se acomodava e Nicky Jam ascendia, J. Balvin seguia imparável. Depois do sucesso de 6 AM e Ay, Vamos!, Balvin lançou, em julho, o que se tornaria seu maior hit internacional até então: Ginza. A música foi catapultada quase de imediato para o topo de todos os países que falam espanhol (e substituiu El Perdón na Hot 100 Latin, onde ocupou o primeiro lugar por 20 semanas)  e é a segunda canção em espanhol mais ouvida da história do Spotify. No YouTube, são mais de 700 milhões de visualizações (mas ainda não chega nem perto do sucesso de Ay Vamos! na plataforma).

Balvin atingiu um milestone importante quando foi selecionado para fazer parte do jurado do The Voice mexicano. O programa frequentemente atraí nomes gigantes para seu painel, como Alejandro Sanz e Laura Pausini. Sendo assim, a adição de Balvin foi um huge deal e um testamento de sua força no mercado (de quebra, a candidata dele ainda ganhou a edição), consolidando-o como um household name no México, inquestionavelmente o principal mercado hispano-americano (que tem influência direta no que faz sucesso no lucrativo mercado latino dos EUA). Por lá, ele ainda tem tem um contrato milionário com a Pepsi e aparece nas embalagens do refrigerante.

Ele também se solidifica como um fashion icon — algo nunca antes visto no cenário urbano latino — usando peças Gucci, Saint Laurent, Chanel e colaborando até com a Vogue.

Mais importante, ele segue como um hitmaker impressionante. Otra Vez, sua colaboração com o duo porto-riquenho Zion & Lennox, é atualmente o reggaeton mais badalado na América Latina, no top 5 do Spotify do México, Espanha e Argentina (e disparado em primeiro no Chile e na Colômbia). Seu atual single solo, Safari, acumulou 30 milhões de visualizações no YouTube em uma semana (depois de duas semanas de exclusividade na Apple Music). E o anterior, Bobo, quebrou recorde de views e streams nas principais plataformas.

Assim como Balvin, Nicky Jam também tem o toque de Midas:  depois de 20 semanas ininterruptas em primeiro lugar no Hot Latin Tracks, Ginza foi substituído no topo da Billboard pelo primeiro single pós-El Perdón do porto-riquenho, Hasta El Amanecer. A canção encabeçou a lista por 14 semanas  e quebrou recordes no YouTube  e no Spotify (sendo o single em espanhol de maior sucesso de 2016 em ambas as plataformas).

Sua colaboração com Cosculluela, Te Busco, também está impressionando: apesar de nem sequer ter um clipe ou um lyric video oficial, a canção já tem mais de 300 milhões de views no YouTube e está prestes a penetrar o seleto grupo de músicas em espanhol no Spotify que superaram 100 milhões de streams (apenas 12 canções no idioma atingiram a marca, das quais três são de Jam).

Nada mais natural que tanto o colombiano quanto o porto-riquenho estejam em altíssima demanda. O primeiro colaborou com Pharrell Williams (que cantou em espanhol para a canção Safari) e Justin Bieber (sendo responsável por adicionar alguns versos na versão para o mercado hispânico do giga hit Sorry). O segundo foi acionado por Maná, inquestionavelmente o maior grupo de rock latino , para fazer um remake reggaeton de De Pies a Cabeza, um sucesso de 1992, e também por Sia, que o incluiu na versão latina de Cheap Thrills.

Mas a disputa pelo topo não foi só entre Balvin, Jam e Enrique. O já mencionado Maluma está se provando um fenômeno igualmente potente e, possivelmente, o nome mais rentável de todos. Com seu rosto de proporções perfeitas e seu estilo fashion, o autodenominado Pretty Boy, Dirty Boy emplacou seu primeiro gigantesco hit, Borro Cassette, no começo desse ano. A música atingiu o topo em todos os principais mercados — México, Argentina, Chile, Espanha — e o terceiro lugar nos EUA.

O poder dele ficou claro quando os ingressos de sua turnê foram disponibilizadas. Ele esgotou 5 noites no Luna Park de Buenos Aires em tempo recorde e sua turnê mexicana, incluindo duas noites no lendário Auditorio Nacional da Cidade do México, também estava toda vendida com meses de antecedência. Enquanto Balvin assinou com a Pepsi, Maluma é garoto propaganda da Coca Cola. Nas redes sociais, seus números já superam os de quase todas os outros mega astros latinos. Seus singles são imediatamente adicionados na alta rotação das rádios latinas, além de penetrarem as paradas do Spotify com enorme rapidez. No Youtube, ele é rei absoluto de views. No Instagram, nenhuma estrela hispânica tem tantos seguidores e likes.

Seu calibre é tamanho que sua estreia no Brasil foi digna de estrela internacional de primeiro escalão, aparecendo com equal-billing em Sim Ou Não, primeiro single do novo álbum de Anitta, a maior estrela pop do país (Ginza de J. Balvin também fez sucesso aqui graças a uma versão com a participação dela).

Anitta está longe de ser a estrela mais high profile com a qual o colombiano colaborou. Ele aproveitou uma passagem relâmpago por Barcelona para gravar com uma conterrânea que é, inquestionavelmente, a maior estrela da América Latina, Shakira.  Ele também está no próximo single de outro dos principais astros da região, Ricky Martin. E Desde Esa Noche, sua colaboração com Thalia, está bombando.

A velha guarda

Apesar do enorme sucesso da nova geração, Daddy Yankee segue o rei. Já se passaram 12 anos desde seu primeiro giga hit, Gasolina, mas ele segue no topo das paradas. Shaky Shaky, seu atual single, é, junto com Otra Vez, o maior hit reggaeton do o momento. Atualmente, a canção está em primeiro no Spotify da Argentina e no top 10 de todos os demais mercados. O vídeo da canção é a música em espanhol mais popular do YouTube das últimas semanas (quarto vídeo mais visto no total, superando quase todos os lançamentos de artistas anglo-saxões).

Enquanto o som de Yankee é bem batidão, seu arquirrival, Don Omar, é conhecido por seguir uma linha bem mais romântica. Atualmente, se dedica a atuação, fazendo parte da mega franquia Velozes & Furiosos (que fez de Danza Kuduro música tema de seu quinto filme, um sucesso global).

Apesar de sempre terem posado para mídia como “inimigos”, Yankee e Omar tem, na realidade, uma relação profissional amigável. Esse ano, até fizeram uma turnê em conjunto, The Kingdom, que esgotou as principais arenas dos EUA, incluindo o Madison Square Garden de Nova Iorque, o Staples Center de Los Angeles e a American Airline Arena de Miami.

Além dos dois, outra dupla monopolizou o gênero nos idos dos anos 2000: Wisin & Yandel. Depois de gravar dezenas de sucessos em conjunto, ambos seguiram em carreira solo. Wisin obteve um hit inescapável em 2014, Adrenalina, com a ajuda de J.Lo e Ricky Martin enquanto Yendel fez bonito junto a Daddy Yankee com Moviendo Caderas. Depois, Wisin se juntou a estrela colombiana do pop vallenato, Carlos Vives, no sucesso Notas de Amor e Yandel, sozinho, obteve grande sucesso com Encantadora.

Hit instantâneo

O mercado latino é extremamente fiel. Shakira é capaz de produzir um hit instantâneo no continente hoje em dia quase tão facilmente quanto em 2003 ou em 1997. Ricky Martin, Marc Anthony, Chayanne, Maná e Alejandro Sanz seguem enchendo os maiores estádios. Uma vez que o público latino te aceita entre os grandes, ele não vai te abandonar tão facilmente. Mas fidelidade e consistência não significa que eles não são ofuscados pelas novas sensações jovens. Por isso, um remédio foi encontrado: se associar com as tais sensações.

Seguindo o exemplo de Iglesias, todos os principais  nomes da música em espanhol estão se rendendo ao reggaeton.

Lançado em 2015, La Mordidita, de Ricky Martin, foi o maior hit do porto-riquenho na década. O próximo single dele, que será lançado essa sexta, será uma colaboração com Maluma. O lendário cantor colombiano Carlos Vives também frequentemente colabora com o pretty boy colombiano (o fato de dividirem um empresário provavelmente ajuda) e obteve um grande sucesso com Notas de Amor, junto a Wisin e Daddy Yankee. Marc Anthony emprestou seus vocais para La Gozadera, o giga hit do Gente de Zorra que homenageia a América Latina (e, ironicamente, foi um dos maiores hits da história recente não no continente, mas sim na Espanha, atrás apenas de El Perdón). Com Desde Essa Noche, também colaboração com o fenômeno Maluma, Thalía obteve seu maior sucesso da década.

Outra técnica utilizada para maximizar o impacto das canções no mercado latino: regravá-las em estilo reggaeton.

Carlos Baute, popular cantor de origem venezuelana, tem obtido grande sucesso com Amor y Dolor refeito pelo duo porto-riquenho Alex & Fido. A banda romântica mexicana Reik fez sucesso com Ya Me Enteré mas o urban remix, refeito por Nicky Jam, é o que está penetrando o top 10 do Spotify em países onde a versão original não chegou sequer ao top 50 (como Argentina, Chile e Espanha). Como já mencionei antes, até o Maná, não exatamente conhecidos por serem inovadores, se rendeu, relançando uma versão do seu hit de 1992, De Pies à Cabeza com Jam. Vários dos maiores hits internacionais do ano (Cheap Thrill; Sorry; Cold Water) também adicionaram os principais nomes do gênero (Balvin, Jam, Don Omar) em remixes lançados especialmente para o mercado hispânico.

Dos países hispânicos para o mundo

O mais óbvio próximo passo é fazer com que o gênero conquiste de vez o resto do mundo.

Isso inclui, claro, os dois principais mercados de todos, notoriamente resistentes a músicas estrangeiras: os EUA e o Reino Unido (Gasolina e Danza Kuduro foram as únicas duas músicas a atingirem o mainstream nesses dois países).

No Brasil, Anitta, inquestionavelmente o maior nome pop do país, serve como uma embaixadora não oficial do gênero. Com a ajuda dela, Ginza, de J Balvin, obteve sucesso por aqui e Maluma está sendo introduzido em grande estilo pela diva pop . Fica a dúvida se o reggaeton, que já conquistou todo o resto do continente, conseguirá levantar voo em nosso mercado.

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Alguns acreditam que gravar em inglês pode agilizar a conquista do mundo anglo. Nicky Jam, que nasceu nos EUA e Enrique, um ato global, costumam gravar versões em inglês dos seus maiores hits. Apesar de o idioma ter mais alcance, nenhum desses remakes ganhou tração.

Já Balvin declarou que não pretende se render. A aposta dele é que o mundo English-speaking que se entregará ao espanhol (como Pharrell Williams faz no atual single do colombiano ou Drake fez em Odio, do astro da bachata Romeo Santos).

Seja como for, a verdade é que os ventos sopram a favor do reggaeton: os dois maiores sucessos de 2016 foram One Dance de Drake e Work da Rihanna, ambas músicas que, assim como o estilo sensação latino, têm enorme influência jamaicana e caribenha. Repetição e batidas familiares são a porta para o sucesso. Logo, essa onda tropical abre precedentes para músicas com estilo similar — como reggaeton – acontecerem nas rádios e nas paradas mundo afora.

Será que é só questão de tempo até as paradas globais refletirem as da Espanha e da América Latina?

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Causando nas Paradas: Dominação escandinava

O sueco Max Martin é, sem duvida nenhuma, o produtor mais influente e poderoso da música popular moderna, tendo sido responsável tanto pelos hits definidores de Britney Spears e dos Backstreet Boys no fim dos anos 90 quanto pelos sucessos inescapáveis contemporâneos de Taylor Swift, Katy Perry, The Weeknd, Maroon 5 e inúmeros outros. Por sua vez, grande parte do repertório estourado de Rihanna veio dos estúdios dos noruegueses do Stargate.

Baseado apenas nesses dois, já dá para comprovar que a mágica escandinava é elemento essencial no sucesso de 99% dos nomes mais estourados da música pop global. Recentemente, porém, a Escandinávia parece ter cansado de ficar apenas nos bastidores e está começando a invadir o palco principal.

Estrelas provenientes da região estão dominando as paradas dos mercados mais influentes do mundo e, cada vez mais, os charts da Noruega, Dinamarca e, principalmente, da Suécia são indicativas de futuros sucessos internacionais.

A banda dinamarquesa Lukas Graham (capitaneada, coincidentemente, por Lukas Graham) é um grande sucesso na seu país de origem desde o seu debut, em 2012. Mas, no fim de 2015, a música 7 Years virou o primeiro chart-topper deles no país vizinho, Suécia. E, se a Suécia aprovou, grandes chances do resto do mundo também abraçar.

Voila. Essa semana, a música completa 1 mês no topo da parada de singles do Reino Unido, o mercado mais influente da Europa. O single também acaba de alcançar o primeiro lugar no iTunes dos EUA, obviamente o maior mercado fonográfico do universo.

Em dezembro de 2015, antes de 7 Years acontecer mundo afora, a canção já tinha sido desbancada na Escandinávia pelo DJ norueguês Alan Walker. Faded foi o primeiro lançamento de Walker, que tem apenas 18 anos (!!!!), e foi imediatamente para o primeiro lugar das paradas na Suécia, na Dinamarca e em sua Noruega natal.

Com o seu sucesso explosivo instantâneo, Walker demonstra seu potencial para se transformar numa mega estrela da EDM (electronic dance music) junto com outros nomes locais como Kygo (da Noruega), Avicii (o sueco é a maior estrela do gênero) e os aposentados da Swedish House Mafia que foram diretamente responsáveis por dar o gás necessário para transformar a música eletrônica em um dos gêneros mais lucrativos e populares da atualidade.

Depois de estourar na Escandinávia, o DJ começou 2016 alcançando o topo de todos os demais países europeus. Recentemente, chegou ao primeiro lugar na Alemanha, o terceiro maior mercado fonográfico ocidental, onde quebrou o recorde histórico de streaming, com 3.7 milhões de plays em plataformas como Spotify e Deezer em uma semana. No Reino Unido, a música ainda não chegou ao top 20 mas, essa semana, ela foi oficialmente inclusa na playlist da Radio 1, a estação de rádio mais influente do país.

Finalmente temos Zara Larsson. A loira, que parece ter nascido pronta para a fama pop, também tem apenas 18 anos e, através das redes sociais, mostra ser muito mais do que apenas um rostinho bonito, com seu feminismo e defesa de imigrantes e refugiados.

Na sua Suécia natal, ela já é popular faz bastante tempo, tendo sido revelada num programa de talento local e tendo atingido o topo da parada pela primeira vez com a balada Uncover, um gigantesco hit em 2013

Em junho de 2015, ela voltou para o primeiro lugar em seu país: a upbeat Lush Life foi um dos grandes hits de verão no país. Meses mais tarde, mais um mega-hit com Never Forget You, uma colaboração com o britânico MNEK. Ambas as canções também arrasaram por todo o resto da Europa e Lush Life inclusive chegou ao topo na Alemanha.

Agora, Larsson parece estar pronta para conquistar o mundo. No Reino Unido, a menina tem duas canções no top 5: Girls Like, sua colaboração com o rapper Tinnie Tempah e, algumas posições acima, seu megasucesso solo Lush Life. No fim do ano passado, Never Forget You passou semanas no top 10 e já vendeu mais de 600 mil unidades.

Agora, Zara está de olho no maior mercado de todos. Lush Life está sendo inclusa nas playlists das principais estações top 40 dos EUA, como a Z100 nova-iorquina e KIIS de Los Angeles. Enquanto a canção está escalando os charts, Never Forget You, seu hit dance com o MNEK, acaba de penetrar o top 10 do iTunes estado-unidenses. Além disso, ela foi nomeada o rosto de uma nova campanha de marketing da gigantesca de beleza Clinique. Nada mal.

Qual será o próximo mega hit? A dica é ficar de olho no chart da Suécia no Spotify.

Worth noting: o Spotify, responsável por mudar a maneira que as pessoas escutam música em todo o mundo (streaming já é até contabilizado nas principais paradas mundo afora), é outra criação sueca. No país, mais de 90% do consumo de música é feito através do aplicativo.

A plataforma, cuja sede fica em Estocolmo, é uma grande entusiasta de atos escandinavos. O  DJ sueco Aviccii, a maior e mais bem paga estrela da região atualmente, aponta o serviço de streaming como peça chave na sua explosão global. Atualmente, o Spotify promove com entusiasmo Zara Larsson, Lukas Graham e Alan Walker, os colocando em playlists proeminentemente (como a Today’s Top Hits, com mais de 7 milhões de seguidores) e dando destaque a eles em sua página inicial.

De Max Martin ao Spotify aos popstars que dominam as paradas da atualidade, parece que o Scandinavian musical takeover não vai parar tão cedo.