Causando em 2017: Latino style

Em setembro do ano passado, falei que reggaeton estava a ponto de conquistar o mundo. Quase um ano depois, a previsão se provou certeira. “Despacito” é a maior música do planeta, quebrando um recorde atrás do outro e, depois de três meses, acaba de ser substituído no topo da parada global do Spotify por “Mi Gente” do colombiano J Balvin. Enquanto isso, Daddy Yankee é o artista mais ouvido na principal plataforma de streams do mundo.

Tá tudo dominado

A conquista mundial do reggaeton está em andamento mas, na América Latina e na Espanha, a dominação está mais do que consolidada. O sucesso é tanto que a pluralidade nos charts quase acabou e até alguns dos maiores fenômenos do mercado hispânico — como Romeo Santos, o ícone do bachata, o estilo da moda faz poucos anos — tem tido dificuldade para emplacar hits.

Depois de obter fama avassaladora com o seu grupo Aventura, Romeo se consolidou como o maior nome da música latina . Seu segundo álbum, “Formula, Vol. 2”, lançado em 2014, fez com que ele desbancasse até Shakira como o maior nome da América Hispânica.

Mas, desde que ele entrou em um break, o reggaeton ganhou tanta força que seu aguardado retorno esse ano foi ofuscado pelo sucesso fenomenal de canções do gênero, como a inescapável “Despacito”.

Lançado em fevereiro, seu comeback single “Heróe Favorito” teve resultados dignos mas muito aquém ao esperado de um cantor que encheu absolutamente todos os estádios da América Latina e obteve, com o lead single do álbum anterior, “Propuesta Indecente”, um dos maiores hits em espanhol da década.

O problema de “Heróe Favorito” foi que, na minha opinião, a música era tão tipicamente Romeo que poderia ser uma faixa de qualquer álbum dele. Espera-se que um primeiro single tenha o som marca registrada do artista combinado com algo striking que prenda a atenção do ouvinte para o seu retorno.

Isso, somado ao fato de que bachata perdeu espaço para reggaeton com a ausência de Romeo da cena, fez com que a música do maior astro de todos acabasse passando despercebida.

Para o segundo single, Romeo step up his plate e trouxe a muito mais pegajosa e marcante “Imitadora”. Agradou bem mais aos ouvintes e foi um sucesso maior, apesar de que não chegou ao patamar dos grandes hits do reggaeton — algo que ele era capaz de fazer com facilidade faz apenas dois anos.

Nesse cenário de ditadura do reggaeton, sempre existe a opção de seguir os passos de Shakira e Enrique Iglesias e se render ao gênero.

Mas, diferente das estrelas pop, Santos sempre foi de raiz. Ele é fiel ao estilo que o catapultou ao estrelato e raramente dá o braço a torcer. Mesmo quando colaborou com Drake — o maior rapper do universo — ele não se flexibilizou: foi o canadense que se rendeu e cantou em espanhol, no maior estilo cantor brega latino.

Mas o poder do reggaeton é tanto que Santos não se segurou. Seu novo álbum, “Gold”, inclui a canção “Bella y Sensual” com Daddy Yankee e Nicky Jam. O raro gesto do nova-iorquino parece estar rendendo frutos: o bachataton já penetrou o top 50 da Espanha e de todos os países latinos no Spotify e, em tempo recorde, alcançou o top 10 no Chile, superando o sucesso de todos os demais single que ele lançou ao longo de 2017.

Além de colaborações com os maiores nomes da música romântica em espanhol — Juan Luis Guerra, Julio Iglesias — ele ainda colabora em mais outra faixa com uma das maiores estrelas do reggaeton, Ozuna.

Apesar de estar em uma fase mais modesta, Romeo segue arrasando: a estréia do seu terceiro álbum solo foi a melhor semana de vendas de um álbum latino nos EUA, superando “El Dorado”, o CD de Shakira, lançado em junho.

O fenômeno Shakira

Falando em Shakira, ela é outra que resolveu apostar no seguro e entregou um álbum cheio de reggaeton. “Chantaje”, o maior hit do CD, foi uma colaboração com o fenômeno Maluma. Mais uma música com o jovem reggaetonero foi inclusa no álbum e deve ser lançada como single depois de uma colaboração bem pancadão com Nicky Jam, cujo vídeo acaba de ser gravado.

O interessante é que, apesar de ter se rendido ao reggaeton, Shakira é uma das poucas artistas latinas capaz de obter sucesso se desviando do gênero. Enquanto Santos teve problema para emplacar “Heroé Favorito”, “Deja Vu”, a colaboração da colombiana com Prince Royce — também uma típica bachata — entrou no top 50 do Spotify de todos os mercados hispânicos na mesma semana que o vídeo foi lançado. Seu pop vallenato com Carlos Vives, outro astro colombiano, “La Bicicleta”, foi um dos maiores sucessos em espanhol de 2016.

Não recomendado para os mais sensíveis

Os dois maiores propulsores de talento da América Latina na atualidade são Puerto Rico e Colômbia. Puerto Rico é o berço do reggaeton moderno e de onde saíram quase todos os principais nomes do gênero. Já a Colômbia soube levar o estilo para outro patamar e revelou ao mundo Maluma e J Balvin, as duas maiores sensações, além de ter sido parte do renascimento de Nicky Jam, outro dos grandes nomes.

Mas, além desses dois países, outro mercado que vale a pena prestar atenção é a Republica Dominicana. A nação caribenha também teve um papel importante na criação do gênero — foram os dominicanos radicados em NY que ajudaram a cria-lo — e também é de lá o outro ritmo que tomou conta da América Latina e da Espanha, a bachata. O país da América Central também tem um gosto muito particular e é um grande descobridor de talentos do trap, um gênero do reggaeton que tem muitas semelhanças com a música urbana americana nascida no East Coast.

A influência do rap e do hip-hop de Nova Iorque no gosto local é compreensível: milhões de habitantes do país tem laços fortes com a principal cidade dos EUA, que tem uma comunidade gigante de imigrantes provenientes da Republica Dominicana. Até a bachata moderna, de Romeo Santos e do Aventura, teve origem no Bronx.

Apesar disso, o trap que a Republica Dominicana tanto ama não nasceu no país e sim em Puerto Rico, a colônia dos EUA que também tem relação estretíssima com NY. Mas apesar de não ter sido criado por dominicanos, foi a partir do país da América Central  que o gênero começou a conquista do restante da comunidade latina.

Quando Maluma lançou, em meados do ano passado, a música “4 Babys”, ele chocou o mundo hispânica com a letra. Misoginia na música não é algo raro em nenhum gênero ou país, muito menos no reggaeton latino americano, mas o que deixou muitos de boca aberta foi o baixo calão das palavras. Na canção, sobre o affair  dele com quatro mulheres diferentes, o astro colombiana fala em “meter”, “trepar”, etc. — termos comuns no funk brasileiro ou no rap americano mas pouco visto na música latina mainstream.

O astro colombiano ficou chocado com a reação negativa. Ele só estava trazendo para seu repertório o reggaeton no estilo trap, que, na verdade, já gozava de grande popularidade. Mas, até então, o estilo não tinha sido legitimidade por um astro estabelecido de primeiro escalão. Apesar de bombar no YouTube faz muito tempo, o alcance que ele deu ao subgênero foi muito maior e chegou a um público que nunca tinha sido exposto a ele antes.

No final das contas, “4 Babys” — apesar de todo o choque que a letra causou — serviu apenas como aperitivo, porque o reggaeton proibidão está cada vez mais popular na América Latina. Ozuna, a maior revelação do ano passado, flerta com o estilo e Bad Bunny, a maior sensação desse ano, faz um trap de raiz.

Provenientes de Puerto Rico, ambos estouraram na Republica Dominicana bem antes de conquistarem os demais países do continente. Bunny, em específico, é um Midas no país e todas as suas colaborações com outros nomes do trap — como Anuel AA, Jory Boy, Brytiago e Bryant Myers — são sucessos instantâneos. Agora, ele está dominando o restante das Américas e Espanha, obtendo hit atrás de hit e colaborando com gigantes como J Balvin (no mega hit “Si Tu Novio Te Dejas Solo”).

No trap de Bad Bunny, palavrões, drogas e outros temas que aparecem de maneira filtrada no reggaeton dos outros astros são lugar comum.

Alguns excertos de “Soy Peor”, seu maior hit solo, no qual ele narra estar aliviado ao terminar um relacionamento péssimo: “Agora faço tudo o que eu quero/Só penso em eu mesmo/Jogando notas dentro do puteiro/Para merda o amor verdadeiro/Eu só quero ganhar dinheiro/Baby o que tinhamos descansa em paz/Não estou nem ai para com quem você tá/Diga pra sua mãe que ela não me faz falta/Já tenho sogras demais/Tenho a branquinha que me faz um lap dance/A roqueirinha que meto com tudo, de Vans/Tenho a pretinha, a loirinha, as modelos e todas as fãs”.

A menção obrigatória a substâncias ilícitas: “Eu não quero fumar o regular/Me traga o kush que me deixa espetacular/Que já não tenho mais você para especular/E para encher meu saco por todas as fotos de bunda que tenho no celular”.

E, claro, o refrão: “Siga seu caminho, sem ti eu estou melhor/Agora tenho outras que trepam bem melhor/Se antes eu era um filho da puta, agora sou bem pior”.

Com a forte influência do rap americano, o trap também é bem americanizado. Em “Tu No Metes Cabra”, seu atual hit, Bunny fala de prom, de bleachers, de bilionários americanos, de carrões e de jogadores de basquete. A temática U.S. não impede o single de ser um enorme sucesso em todos os países, da Argentina ao México e também na Espanha. Bunny está próximo a obter o nível espetacular de sucesso alcançado por Balvin e Maluma.

Antes tarde do que nunca

Assim como no rap americano, o universo do reggaeton é um clube do bolinha. Enquanto a música pop — particularmente a mexicana — sempre teve boa participação feminina, a dominação do reggaeton apagou quase todas as mulheres da parada, com exceção da colossal Shakira.

Se aliando com Maluma, Thalia conseguiu um mega hit com “Desde Esa Noche” no ano passado. Com a participação de Cali y el Dandi, a ex-RBD Maite Perroni, hoje mais conhecida como mocinha de telenovelas mexicanas, conseguiu recentemente seu primeiro sucesso desde os tempos de Rebelde com “Loca”. Mas esses casos estão mais para exceção do que para regra.

Apesar disso, é possível que, aos poucos, as coisas estejam mudando. Dentre as 20 faixas mais populares nos principais mercados latinos e na Espanha no Youtube, dois são reggaetons com mulheres como lead singers. Dois em 20 pode parecer um número patético mas é uma evolução de zero.

As duas artistas que conseguiram esse feito foram Karol G. e Becky G. O que ambas tem em comum além do “G” como sobrenome? O fenômeno Bad Bunny participando de suas músicas.

Mas enquanto o reggaetonero foi, sem duvida, um fator importante para o sucesso, a música é majoritariamente das mulheres, na qual ele contribui apenas com alguns poucos versos. Mesmo assim, a influência dele é enormemente perceptível, principalmente na música de Karol.

Em  “Ahora Me Llama” a colombiana se apresenta como uma espécie de versão feminina do trap star porto riquenho.

“Agora me chama/Diz que eu faço falta na sua cama/Mas para mim já não dá, já não dá/Agora eu só quero sair com meu próprio squad/Afinal a vida é minha/E quero curtir ela sem a sua companhia/Agora eu quero viver minha vida/Afinal a vida é minha/Saí com o coração partido e agora já não espero nada/A não ser os melhores drinks e a roupa trazida de Dubai”.

Mais para frente, no melhor estilo “soy peor”, ela afirma: “Se antes eu era má/Agora chegou a nova versão, ainda mais má/Continuo fazendo fama/Depois decido que gostinho quero levar pra minha cama/Porque viver de amor/Isso não me faz falta/Sou dona da minha vida e em mim ninguém manda”. Já Bunny faz uma aparição breve para dizer que “para ele melhor assim como solteiro/Eu curto, bebo, fumo, faço tudo o que eu quero”. No YouTube, o vídeo da canção já tem 150 milhões de views em 2 meses.

Já Becky G. é uma criação do polêmico produtor americano Dr. Luke. Apesar de ter sido lançado na época que ele emplacava hits fáceis, Becky — nascida e criada em Los Angeles — demorou muito até obter um mid sized hit com a música “Shower”. Apesar do gostinho do sucesso, a cantora não obteve grande fama mesmo com contratos publicitários gigantes (ela é garota propaganda da CoverGirl junto com Katy Perry, Ellen e Sofia Vergara) e filmes de Hollywood (ela é a Power Ranger amarela na adaptação cinematográfica da franquia).

Depois que sua carreira teen pop não decolou, Becky mudou para o pop em espanhol mas seguiu penando. Até que se juntou com Bunny numa canção cheia de duplo sentido e, voila, sucesso na América Latina e na Espanha e 60 milhões de visualizações em poucas  semanas no YouTube.

Enquanto Karol optou pelo viés “bad bitch”, Becky preferiu os trocadilhos sexuais. Em “Mayores”, ela canta: “Eu gosto mesmo dos maiores/Os que são chamados de senhores/Que seguram a porta e me dão flores/Eu gosto daqueles que são grandes/Que não cabem na boca/Os beijos que vão me dar/Que me deixam louca”. O porto-riquenho aparece para questiona-la: “Quer um mais velho, está segura?/Te dou mil aventuras/E duro o que ele não dura”.

Para os latino-americanos que ficaram chocados com “4 Babys”, talvez seja o momento de parar de ouvir a rádio.

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How-to: Como ser a revelação musical fenômeno do ano no Reino Unido

Leia antes: A cena musical britânica e sua constante renovação

No post anterior, fiz um repasse detalhado das renovações da cena musical britânicas e das revelações que aparecem ano após ano. E agora, vim ensinar como você também pode seguir os passos de Adele e Ed Sheeran e se transformar no novo fenômeno de vendas do Reino Unido rssssss

Mas falando sério, ao longo de meus anos de observação, percebi que existe uma receita para que as grandes apostas das gravadoras atinjam o seu máximo potencial. Essa receita acaba sendo, na verdade, um ótimo insight da indústria britânica como um todo. Por isso, acho interessante dividir com vocês as várias etapas que ajudaram Sheeran, Sam Smith dentre vários outros a alcançar sucesso meteórico com seus primeiros álbuns.

  • Antes do público, conquiste a indústria: Isso foi essencial para absolutamente todos os ganhadores do Critics’ Choice, afinal de contas, nenhum deles teria ganho o prêmio se eles não tivessem executado esse passo à perfeição. Ser bem conectado dentro do biz é necessário para que tudo esteja alinhado a favor do artista no momento que este tiver a chance de lançar um álbum. Glynne, Jessie J e Emeli Sande conheceram os produtores por detrás de seus sucessos através de carreiras como compositoras. Florence, Bay e Smith também faziam parte do inner circle musical fazia tempo. Além disso, ter essas conexões é importante para conseguir reuniões, fazer shows privados para executivos tanto nos EUA quanto no Reino Unido, ter  early buzz nas principais rádios e na BBC e para, quem saber, ser convidado para ser vocalista convidado em algum hit em potencial, o que nos leva a outro ponto…
  • Hits pré-estreia aumentam seu valor no mercado: Ser vocalista convidado em canções de sucesso aumentam o interesse do público e garantem airplay do material solo do artista nas grandes rádios. Jess Glynne, Emeli Sandé e Sam Smith tiveram impulso enorme graças a participação deles em number one hits de outros artistas e produtores antes de suas estreias oficiais.
  • Tente cultivar uma fanbase antes da seu primeiro single oficial: Lance mixtapes, disponibilize seu trabalho na internet, consiga buzz através de shows pequenos, cante em festivais. Foi assim que Ed Sheeran conseguiu um top 5 hit de imediato quando finalmente teve chance de lançar “The A-Team” mas também funcionou muitíssimo bem para Lily Allen, James Bay, dentre vários outros. Outro bom meio para ganhar divulgação é o BBC Introducing, que destaca novos talentos e dá espaço para novatos tanto na Radio 1 quanto em palcos especiais em festivais de grande porte como Glastonbury, T in the Park, Leeds and Reading e o próprio evento da estação, Radio 1 Big Weekend. Foi através do Introducing que Bastille, George Ezra, Florence & the Machine e Jake Bugg foram apresentados ao público.
  • Tenha credibilidade (ou a ilusão de ter): Mesmo que você seja uma artista puramente pop comercial, como Jessie J, é sempre um bônus criar a ilusão de que você é um ~artista de verdade~ que acrescenta algo de novo a cena. Fazer a estréia no Jools Holland — um programa bastante popular entre music snobs e conhecido por destacar música boa e musicos autênticos — é um ótimo começo e foi a plataforma de lançamento de basicamente todas as revelações citadas nesse post. Ser incluso no line-up do Glastonbury e outros festivais mais “sérios” também é muito bom, assim como ter alguma cobertura na imprensa especializada. Outro ponto importante: ganhar destaque na Radio 1, a rádio da BBC que, apesar de ser comercial, também tem credibilidade. Seja hyped pelas personalidades da emissora e tente aparecer no Radio 1 Live Lounge — onde artistas cantam versões stripped down de seus hits e fazem covers de sucessos de terceiros — para mostrar sua versatilidade e dotes vocais.
  • Mas também seja comercial: A Radio 1 é um bom começo mas, para ter um hit, é essencial ter airplay nas rádios top 40 comerciais, sobretudo a Captial FM, a estação líder entre jovens. Para isso, claro, a música tem que estar de acordo com as tendências do momento. Televisão também é muito importante: é preciso ir em pelo menos um talk-show de destaque (Graham Norton na BBC1 é o mais cobiçado mas Jonathan Ross na ITV também é uma boa alternativa) e, para os que tem estomago, The X Factor segue sendo um prime spot de divulgação, mesmo em plena decadência. Cantar no evento anual de caridade da BBC — Children in Need ou Comic Relief — é ótimo mas ainda melhor é uma música sua escolhida como o “single oficial” do evento (como aconteceu com Sam Smith; James Bay; Ellie Goulding e Jess Glynne). Além de Glastonbury, não dá para dispensar festivais mais comerciais — como o V Festival — e eventos grandiosos organizados pela rádio. O Radio 1 Big Weekend é um must mas o Capital FM Summertime Ball ou o Capital FM Jingle Bell Ball também são um big deal, principalmente para os que tem uma sonoridade e imagem mais pop.
  • Para pais e filhos: Os jovens gostarem de você é muito importante mas, para vender muito, é bastante útil ter as mães e os pais e os tios e as tias do Reino Unido inclinados a comprar sua música, afinal são eles que mais compram CD. Aparecer na TV, claro, ajuda o artista a atingir esse público mas os singles têm que ser atuais o suficiente para estar na Capital FM mas também melódicos na medida certa para conseguir airplay nas rádios voltadas ao público acima dos 30, como Radio 2, Magic ou Heart. Ou seja, evite ter um guest rapper. E cuidado: exposição em rádios adultas é bom para vender CD mas, se você quiser manter a imagem de hip e cool, não se associe demais a esse público. Evite, por tanto, eventos “de velho”. Entrar na playlist da Radio 2 é bom mas deixe o Radio 2 Live in Hyde Park, o grandioso evento organizado pelo estação, para Elton John; Rod Stewart e Bryan Adams ou para artistas que os jovens já decidiram que não querem mais (tipo Leona Lewis). O lugar do artista cool é no Radio 1 Big Weekend.
  • Tenha ambições de conquistar a América: O artista precista ter ambição e a confiança de que conseguirá penetrar o mercado dos EUA. A verdade é que ele provavelmente não conseguirá, mesmo se tiver obtido grande sucesso no Reino Unido, mas todos os A&R de gravadoras e empresários só apostam em que eles acreditam que tem chance de conquistar a muitíssimo valiosa Terra do Tio Sam. Esteja disposto para ir no programa da Ellen, em programas matinais e late night talk shows e shows de rádio e e shows para executivos do outro lado do Atlântico. Conseguir um slot para cantar no Saturday Night Live já é meio caminho andado e você já pode se considerar vitorioso se conseguir um top 10 hit ou uma indicação a Best New Act no Grammy.
  • Timing é tudo: O álbum deve ser lançado bem próximo de um single bem pancada, que tenha probabilidade altíssima de virar hit e represente o som e a vibe do artista. Stay with Me de Sam Smith e Hold my Hand de Jess Glynne e Hold Back the River do James Bay e Next to Me de Emeli Sandé e Starry Eyed de Ellie Goulding foram todos lançados bem próximos aos respectivos álbuns. Por outro lado, o CD de Tom Odell chegou as lojas meses depois de Long Way Down, o maior hit dele, o que possivelmente colaborou para que as vendas não fossem tão altas quanto esperado.
  • Corra para o abraço: Caso você obtenha sucesso nos passos acima, você será convidado para uma grandiosa performance no BRIT Awards do ano seguinte ao lançamento do seu álbum e, quiçás, ganhara um prêmio. Possivelmente, será o ápice da sua carreira, então aproveite. Os mais sortudos conseguiram sustentar o sucesso por mais álguns álbuns ou algum tipo de sucesso nos EUA, mas não todos. Boa sorte!

A constante renovação da cena musical britânica

A indústria fonográfica do Reino Unido — a terceira maior a nível global (atrás dos EUA e do Japão) — é uma das mais dinâmicas do mundo e é origem de vários dos artistas mais influentes da história (Beatles; Rolling Stones; Queen; Spice Girls; Oasis) e da contemporaneidade (Adele; Ed Sheeran; Coldplay).

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Adele, maior estrela do mundo, made in UK

Mas, claro, é uma indústria que depende, acima de qualquer coisa, do mercado interno. E esse mercado não é moleza: o público britânico é bastante influenciado pelas tendências do momento e sedento por novidades. Para mantê-los satisfeitos, é necessário uma constante renovação e criação de novos talentos ano após ano.

A shelf life do artista do momento não precisar ser duradoura. Muito pelo contrário: muitos só duram 1 álbum. A longevidade não é importante, o hype a curto prazo que é. Se ele durar — alguns conseguem — ótimo. Se não, não tem problema: novos artistas — mais condizentes com o que é cool no momento — surgirão para substituí-lo.

Apesar disso ser relativamente comum em todo o mundo, o ritmo no Reino Unido é particularmente frenético e, para que essa renovação possa acontecer, a indústria britânica conta com a total colaboração da mídia local — estações de TV e de rádio sabem promover artistas a perfeição, criando hype e dando espaço para que as apostas do momento possam brilhar. Um elemento importante desse aparato todo são duas premiações específicas que tem como objetivo apresentar quem serão os hot new acts da temporada. São elas: BBC Sound of... e o BRIT Critics’ Choice.

A enquete da BBC é a mais hypada por ser mais eclética e ousada. Porém, o Critics’ Choice — que serve como uma categoria da principal premiação da música britânica, o BRIT Awards — é bem mais comercial e, por tanto, mais certeiro.

Ter o selo de escolhido do Sound of… dá uma aura de credibilidade e expectativa para o artista e garante uma cobertura decente nos veículos da emissora pública britânica, incluindo airplay na influente Radio 1.

Receber o Crticis’ Choice, porém, significa o apoio integral dos executivos das principais gravadoras e respaldo não só da BBC mas também das estações de rádio comercial e emissoras de TV privada (principalmente a Capital FM, a principal rádio top 40 do país, e a ITV, o canal que exibe os BRIT). Apesar do nome aludir a críticos, a escolha é feita, na verdade, pelos executivos das grandes gravadoras.

Através dos escolhidos nas premiações, vamos dar uma olhada em como a indústria britânica se renovou ao longo da última década.

2008:

BRIT Critics’ Choice: Adele
BBC Sound of 2008: Adele

Em 2008, o Sound Of… estava em seu sexto ano mas só então começava a exercer maior influência. Indo na mesma onda de promover novos artistas, o BRIT Crtics’ Choice foi criado. Ambos se alinharam perfeitamente, selecionando a mesma artista como vencedora: Adele. Bem óbvio o quão acertada foi essa decisão, não é mesmo? Mas é hilário voltar ao tempo e ver que, naquele então, a escolha foi quase injusta.

A aposta unânime em Adele foi obviamente motivada pelo fenômeno chamado Amy Winehouse. A cantora tinha se tornado um dos maiores nomes da música global e seu álbum, Back to Black, tinha sido o mais vendido do ano anterior no Reino Unido. A demanda por música naquele mesmo estilo — tanto no mercado interno quanto internacionalmente — era enorme e, claro, todas as gravadoras queriam emular o fenômeno.

Sendo assim, não é difícil entender porque as fichas foram depositadas em Adele: mais do que o indiscutível talento, a cantora e compositora também tinha voz soulful, influências da música black americana e letras cheias de angustia. Como Winehouse, ela tinha um jeitão working class da capital britânica e uma personalidade contagiante. Ela tinha muito menos vícios que a sensação do momento (obviamente um ponto positivo) mas não dizia não para um cigarrinho e uma birita. Até a formação musical de ambas era a mesma: a prestigiosa escola de artes BRIT School.

Acontece que, em 2008, quem acabou abocanhando o filão foi, na verdade, Duffy. 19, o CD de Adele, foi o 16º mais vendido do ano. O mais vendido? Rockferry, da cantora galesa, que vendeu 1.7 milhão de unidades e ainda deu origem ao maior hit de 2008, a inescapável Mercy.

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Adele com seus primeiros Grammy em 2009

Para observadores de charts, a escolha de Adele foi, no mínimo, short-sighted uma vez que o verdadeiro fenômeno tinha sido a outra cantora com voz soulful. Que, aliás, tinha ficado em segundo lugar na enquete da BBC. Que irônico, né? Duffy ficou atrás de Adele numa enquete; acabou vendendo o triplo e sendo o maior fenômeno do ano e hoje em dia….. bem, nós sabemos como essa história acabou, né?

Mas apesar de ter sido ofuscada naquele então, a verdade é que Adele não decepcionou: o seu primeiro álbum foi um sucesso bastante digno. Impulsionado pelas críticas e prêmios, ele estreou diretamente no topo das paradas britânicas e vendeu 500 mil unidades. O single Chasing Pavement alcançou o segundo lugar no single charts.

A indústria, aliás, tinha convicção de que, independentemente de vendas, Adele era a escolhida: num shocking twist, foi ela, não sua rival mais bem sucedida (risosss), que ganhou o Grammy de Melhor Artista em 2009 mas foi só em 2011, com o lançamento de 21, que a londrina emergiu como um dos maiores fenômenos comerciais da história da indústria. Duffy, por sua vez, caiu no anonimato. O mundo dá voltas.

No longínquo ano de 2008…

+ The X Obsession: o show de talento The X Factor, exibido na ITV, continuava sua ascendência absurda de audiência e, em sua quinta temporada, se estabelecia como maior fenômeno social do país. A vencedora da temporada 2006 do programa, Leona Lewis, alcançava 3 milhões de unidades vendidas com Spirit. Lançado no ano anterior, o álbum se tornava o disco de estreia mais vendido da história do país. A inclusão de Cheryl Cole no painel de jurados do programa a transformou prontamente na maior it girl da Grã-Bretanha e também ajudou o girl group do qual ela formava parte, Girls Aloud, a atingir ápice de popularidade. Out of Control, o quinto álbum do grupo, superou a venda de todos os CDs anteriores dela em apenas 1 mês, obtendo disco de platina dupla.

+ Rock, o rei: Rock seguia sendo o estilo mais rentável do país e quase todos os CDs mais vendidos pertenciam ao gênero. O maior fenômeno eram os americanos do Kings of Leon que, impulsionados pelo enorme sucesso da música Sex On Fire, tinham vendido 1.2 milhão de cópias de Only by the Night. No ano seguinte, Use Somebody também seria um gigantesco hit, ajudando o álbum a ultrapassar 2 milhões de unidades. Eles substituiriam The Killers — que continuavam com altíssimas vendas no país — como a banda yankee de maior sucesso no mercado.

Coldplay também ultrapassou 1 milhão de unidades com o seu quarto álbum, Viva La Vida or Death and All His Friends. O grupo continuava sendo o maior e mais duradouro fenômeno do rock contemporâneo mundo afora mas o CD seria o primeiro deles a não ultrapassar a barreira de 2 milhões no UK.

Além de Duffy, os outros 2 CDs de estreia mais vendidos do ano também eram de bandas de rock: os irlandeses do The Script, com seu som meloso, e a sensação jovem Scouting for Girls. Outros sucessos notáveis incluíram o Greatest Hits dos Stereophonics e o quinto álbum do Nickelback (todos em coro: eca). Impulsionado pelo sucesso da música Rockstar, All The Right Reasons, o quinto álbum dos canadenses, alcançou platina dupla.

+ Pop time: além de Leona e Girls Aloud, poucos atos pop britânicos obtiveram sucesso expressivo mas ninguém conseguiu chegar perto dos números atingidos pelo Take That. Reunidos em 2006, uma década depois do primeiro término, a boyband substituiria Coldplay como o grupo mais rentável do país. O segundo álbum da nova fase deles, The Circus, vendeu 1.5 milhão de unidades em apenas 30 dias. Depois, ultrapassaria 2 milhões de unidades, sendo o terceiro álbum  consecutivo deles — contando com o Greatest Hits — a ultrapassar essa barreira. Era um prenuncio do takeover do pop…

Do pop internacional, o maior fenômeno era Rihanna. Depois de vender 1 milhão de unidades no ano anterior e ficar 14 semanas no topo com Umbrella, o relançamento de Good Girl Gone Bad foi responsável por mais 800 mil unidades em 2008. P!nk também era um sucesso notável: em poucos meses,  Funhouse se aproximava a 600 mil cópias e, no ano seguinte, se transformaria no terceiro álbum dela a ultrapassar a barreira do milhão no país.

+ O retorno do single: a morte do single físico fez com que a venda de músicas individuais alcançassem números historicamente baixos em meados dos anos 2000. Mas, em 2008, o iTunes — e as vendas digitais — crescia no Reino Unido e o mercado de singles voltava a andar a passos bastante largos. Os maiores sucessos do ano incluíram Mercy de Duffy e o single de estreia de Katy Perry, I Kissed A Girl.

[Top 10 álbuns] 1. Rockferry – Duffy / 2. The Circus – Take That / 3. Only by the Night – Kings of Leon / 4. Spirit – Leona Lewis / 5. Viva La Vida or Death and All His Friends – Coldplay / 6. Good Girl Gone Bad – Rihanna / 7. Day & Age – The Killers / 8. Out of Control – Girls Aloud / 9. Funhouse – Pink / 10. Scouting for Girls – Scouting for Girls.
[Top 10 singles] 1. Hallellujah (The X Factor winning single) – Alexandra Burke / 2. Hero – The X Factors Finalists 2008 / 3. Mercy – Duffy / 4. I Kissed A Girl – Katy Perry / 5. Rockstar – Nickelback / 6. American Boy – Estelle ft. Kanye West / 7. Sex On Fire – Kings of Leon / 8. Now You’re Gone – Basshunter / 9. 4 Minutes – Madonna ft. Justin Timberlake & Timbaland/ 10. Black & Gold – Sam Sparro.
[Best-selling debut albums] 1. Rockferry – Duffy / 2. Spirit – Leona Lewis [2007] / 3. Scouting for Girls – Scouting for Girls / 4. The Script – The Script/ 5. 19 – Adele
[Million-selling albums] Cinco
[Álbuns 500k+] 14
[Million-selling singles] Zero
[Singles 500k+] 3

2009:

Brit Critics’ Choice: Florence & the Machine
BBC Sound of 2008: Little Boots

2009 foi o ano que o Crtics’ Choice se provou muito mais certeiro do que a enquete da BBC. A premiação do BRIT apostou na roqueira Florence & the Machine que de fato se transformou num dos maiores fenômenos do ano e em um dos maiores expoentes do rock britânico mundo afora (além de uma das únicas mulheres com posição de destaque no gênero). Já a emissora pública apostou na cantora de electropop e DJ Little Boots que, apesar de obter um Disco de Ouro com seu CD de estreia, não causou muito impacto.

Lungs, o CD de Florence, vendeu 516 mil unidades no Reino Unido em 2009. Dentre atos locais não relacionados ao X Factor, foi o álbum de estreia mais vendido. No total, o álbum alcançaria 1.6 milhão de unidades comercializadas no país graças a vendas altíssimas também ao longo do ano seguinte.

A aposta em Florence fazia pleno sentido dado o momento: as paradas do ano anterior comprovavam que rock era altamente popular e que o mercado estava pronto para novos nomes do gênero. A britânica era uma aposta diferente do habitual mas o star quality dela era indiscutível.

Depois de ganhar o Crtitics’ Choice, a cantora levou, no ano seguinte, o prêmio principal do BRIT, Album of the Year, elevando ainda mais as vendas do CD. Lungs também vendeu mais de 1 milhão nos EUA, onde a música “Dog Days Are Over” foi um grande hit e Florence foi indicada ao Grammy de Best New Act.

Apesar de não ter obtido tanto sucesso, a escolha de Little Boots não foi aleatória. O british electropop também estava passando por um momento auspicioso, gerando hits marcantes como That’s Not My Name Shut Up And Let Me Go dos Ting Tings e In For The Kill e Bulletproof de La Roux. Além disso, 2009 também foi o ano de ascensão de Lady Gaga que colocaria o pop eletrônico nas paradas do mundo.

Mesmo assim, Boots não teve grande impacto. Hands, o seu CD de estreia, obteve números dignos, atingindo 100 mil cópias e gerando um top 10 hit, Remedy. Mas isso não foi o suficiente para ela nem sequer aparecer entre os 50 discos mais vendidos do ano.

No longínquo ano de 2009…

+ O império do pop: The X Factor se confirmava como a maior obsessão nacional e, em simultâneo, pop virava o estilo reinante no país com a ascensão de Lady Gaga, que teve o maior hit do ano (Poker Face) e o segundo CD mais vendido (The Fame somado ao relançamento The Fame Monster).

Gaga se juntava a outros fenômenos monstros do pop norte-americano: Black Eyed Peas com The E.N.D. e Beyoncé com I Am… Sasha Fierce. Todos ultrapassaram a barreira de 1 milhão de unidades vendidas assim como Michael Bublé com Crazy Love. Evidentemente, esses artistas todos participaram do The X Factor para promover seus respectivos lançamentos.

+ Simon Cowell takeover: artistas relacionados a The X Factor — como a boyband JLS e Cheryl Cole, em sua estreia solo — dominavam as paradas e obtinham vendas altíssimas, ofuscando outros grandes nomes do pop local daquele então (Paolo Nutini, Lily Allen, Robbie Williams).

Susan Boyle, a estrela viral revelada em outro programa de Simon Cowell, Britain’s Got Talent, se provava o maior fenômeno de 2009: seu primeiro álbum, I Dreamed A Dream, vendeu 1.63 milhão de unidades em 1 mês e foi o mais vendido do ano, excedendo até as expectativas otimistas da Sony.

Em contrapartida, Leona Lewis provou que a data de validade para estrelas de show de talento costumam chegar rápido: depois de quebrar todos os recordes com seu álbum de estreia e obter um hit global com Bleeding Love, o segundo álbum dela, Echo, vendeu apenas 1/6 do antecessor e marcou o começo do fim para a londrina.

+ Singles: impulsionado pela popularização do iTunes, o mercado de singles continuava em pleno crescimento e só deu Black Eyed Peas, Lady Gaga e atos relacionados ao The X Factor nas paradas. Poker Face, o maior sucesso do ano, vendeu 862 mil unidades. Uma campanha do Facebook para bloquear o ganhador do talent show de Simon Cowell do topo das paradas no natal também alçou Rage Against the Machine para a lista dos mais vendidos de 2009.

Enquanto no ano anterior apenas 4 singles ultrapassaram a barreira dos 500k, em 2009 esse número quadruplicou, prova de que o mercado digital no UK estava dando saltos gigantescos.

[Top 10 álbuns] 1. I Dreamed A Dream – Susan Boyle / 2. The Fame+The Fame Monster – Lady Gaga / 3. Crazy Love – Michael Bublé / 4. The E.N.D. – Black Eyed Peas / 5. Only by the Night – Kings of Leon / 6. JLS – JLS / 7. I Am… Sascha Fierce – Beyoncé / 8. Sunny Side Up – Paolo Nutini / 9. It’s Not Me, It’s You – Lily Allen / 10. Reality Killed The Video Star – Robbie Williams.
[Top 10 singles] 1. Poker Face – Lady Gaga / 2. I Gotta Feeling – The Black Eyed Peas / 3. Just Dance – Lady Gaga / 4. Fight for this Love – Cheryl Cole / 5. The Climb (X Factor winning single) – Joe McElderry / 6. In For The Kill – LaRoux / 7. Boom Boom Pow – The Black Eyed Peas / 8. Killing In The Name Of – Rage Against the Machine / 9. Bad Boys – Alexandra Burke (ganhadora do X Factor 2008) ft. Flo-Rida / 10. Meet Me Halfway – The Black Eyed Peas
[Best-selling debut albums] 1. I Dreamed A Dream – Susan Boyle / 2. The Fame+The Fame Monster – Lady Gaga / 3. JLS – JLS / 4. 3 Words – Cheryl Cole / 5. Lungs – Florence & the Machine
[Million-selling albums] Cinco
[Álbuns 500k+] 18
[Million-selling singles] Zero
[Singles 500k+] 12

2010:

BRIT Crtics’ Choice: Ellie Goulding
BBC Sound of 2010:
Ellie Goulding

Depois de errar em 2010, a BBC voltou a apostar no mesmo nome que o Crtics’ Choice: Ellie Goulding.

Goulding tinha algumas características similares a Florence, o fenômeno do ano anterior: uma apresentação — em termos de look, voz e repertório — marcante e peculiar. Com seu som synthopop e sua voz folk, ela atendia a demanda do momento, em que Lady Gaga e o dance pop reinavam, mas também trazia algo de novo. Além disso, ela já tinha bastante buzz, mesmo antes da estreia do seu primeiro álbum. Representada pela poderosa empresária Sarah Stenett, ela fez um bem-recebido debut no prestigioso programa de Jools Holland e já tinha algum hype na imprensa.

Como de costume, a aposta em Ellie deu resultados: Lights, seu primeiro CD, estreou no topo  e deu origem a um top 10 hit (Starry Eyed), atingindo Disco de Platina antes do fim do ano. Mais tarde, ela foi chamada para cantar a música do anuncio natalino da rede de varejo John Lewis, um cover de Your Song. A canção foi enormemente bem-recebida (Kate Middleton, fã da versão, inclusive a chamou para cantá-la no Casamento Real), capitaneando o relançamento do álbum que acabou sua trajetória com 850 mil unidades vendidas. Ela ainda obteve sucesso nos EUA com a música Lights.

O álbum de lançamento serviu como trampolim para uma bem-sucedida carreira internacional.

Highlights de 2010

+ O céu não é o limite: Entre 2006 e 2009, o Take That tinha passado a barreira de 2 milhões de cópias vendidas com uma compilação e dois álbuns de estúdio e feito a turnê mais bem sucedida de todos os tempos, The Circus Tour. Parecia impossível crescer ainda mais. Mas daí, Robbie Williams anunciou seu retorno para o grupo depois de quase duas décadas — algo antes considerado semi impossível dado a quantidade de ressentimento entre as duas partes e a proporção que a carreira solo de Williams tomou — e o álbum resultante, Progress, vendeu 1.8 milhão de cópias em apenas 1 mês. No ano seguinte, se transformou no quarto CD do grupo a ultrapassar a barreira dos 2 milhões. A turnê Progress Live vendeu mais de 1 milhão de ingressos, superando a excursão anterior e sendo, até hoje, a mais bem sucedida da história do país.

+ Made in America, bought in the UK: O Reino Unido se estabelecia como o principal mercado de Rihanna (maior, inclusive, do que os EUA em termos de CDs vendidos); o álbum de Alicia Keys — que teve vendas medianas nos EUA — se mostrava um enorme sucesso no país (impulsionado pela boa aceitação de Empire State of Mind Part II nas rádios adulto contemporâneas locais e uma elogiada performance no The X Factor); Gaga continua seu reinado e a volta do Eminem foi muito bem recebida (surpresa para ninguém, dado o tamanho da sua popularidade no país).

+ Homemade success: Vitorioso no BRIT Awards e impulsionado por um relançamento, o álbum de estreia de Florence vendeu ainda mais em seu segundo ano. O sucesso surpresa do ano foi o CD conceitual do rapper Plan B, The Defamation of Strickland Banks, que misturava soul rap e cujas faixas contavam a história de um rapaz que foi posto na prisão por um crime que ele não cometeu. O blue-eyed jazz de Paolo Nutini também se provou um sucesso duradouro.

+ Revelações: Além de Ellie, a outra revelação do ano foi o rapper Tinie Tempah e Olly Murs, popularizado — aonde mais? — no The X Factor. Pixie Lott, com seu teen pop, e a banda de folk rock Mumford & Sons também obtiveram bons resultados com seus CDs lançados no ano anterior.

[Top 10 álbuns] 1. Progress – Take That / 2. Crazy Love – Michael Bublé / 3. The Fame + The Fame Monster – Lady Gaga / 4. Loud – Rihanna / 5. The Defamation of Strickland Banks – Plan B / 6. Sunny Side Up – Paolo Nutini / 7. The Element of Freedom – Alicia Keys / 8. Lungs – Florence & the Machine / 9. Recovery – Eminem / 10. Sigh No More – Mumford & Sons
[Top 10 singles] 1. Love The Way You Lie – Eminem; Rihanna / 2. When We Colide (The X Factor Winner Single) – Matt Cardle / 3. Just The Way You Are – Bruno Mars / 4. Only Girl (In This World) – Rihanna / 5. OMG – Usher ft. will.i.am / 7. Airplanes – B.o.B. ft. Hayley Williams / 8. California Gurls – Katy Perry / 9. We No Speak America – Yolanda Be Cool vs. DCUP / 10. Pass Out – Tinie Tempah
[Best-selling debut albums] 1. Lungs – Florence & the Machine [2009] / 2. Sigh No More – Mumford & Sons [2009] / 3. Olly Murs – Olly Murs / 4. Turn It Up – Pixie Lott [2009] / 5. Lights – Ellie Goulding
[Million-selling albums] Três
[Álbuns 500k+] 16
[Million-selling singles] Zero
[Álbuns 500k+] 18

2011

BRIT Critcs’ Choice: Jessie J
BBC Sound of 2011: Jessie J

Katy Perry, Lady Gaga, Rihanna… as princesas pop dominavam as paradas e o Reino Unido queria ter uma diva para chamar de sua. E assim, Jessie J entra na história.

Jessie tinha uma pedigree impressionante: um diploma da BRIT School, aquela mesma escola de arte que formou Winehouse e Adele, e selo de aprovação de Dr. Luke, na época o produtor mais cobiçado do mundo, algo bem auspicioso para uma wannabe pop startlet da Inglaterra. A cantora ajudou na composição de Party in the USA, que virou um dos maiores hits de Luke na voz de Miley Cyrus.

A conexão com o produtor do momento, uma voz potente, uma ambição sem tamanho, um look impactante…. Jessie era o pacote perfeito e a indústria britânica a impulsionou e a hypou de uma maneira quase inédita. Ao mesmo tempo que seu bubblegum pop foi instantaneamente abraçado por todas as rádios teen do país, como a Capital FM e a Kiss FM, ela tinha uma aura de credibilidade perfeitamente calculada: sua estreia foi no Jools Holland, um programa conhecido por destacar ~artistas de verdade~ e ela também foi inclusa no line-up do Glastonbury, o festival mais prestigioso do país (e do mundo).

Todas as estrelas estavam alinhadas para que Jessie J fosse o novo fenômeno e ela não decepcionou: seu primeiro single, Do It Like A Dude, foi um gigantesco sucesso no UK e a música seguinte, Price Tag (produzida por Dr. Luke), foi um hit ainda maior, alcançando o topo das paradas de singles. Seu CD já chegou com vendas altas. Ela excursionou o mundo, apareceu em todos os programas e premiações imagináveis. E, claro, como era obrigatório naqueles anos, o álbum teve um relançamento, ultrapassando 1 milhão de unidade vendidas e obtendo mais um single chart-topper, Domino.

criticschoice
Jessie J canta com a perna quebrada no festival de Glastonbury

Mas a verdade é que hype não se sustenta sozinho. E, por mais que Jessie J fosse talentosa e tivesse música catchy, ela não acrescentava absolutamente nada de novo a cena musical, como o Pitchfork apontou em sua impiedosa crítica do álbum de estreia, Who You Are. “Jessie parece ser um excedente da demanda por divas pop”, notou o site. “Na melhor das hipóteses, ela parece uma versão simplificada e mais idiota da Lily Allen. Na pior, alguém que você torceria para ser eliminado logo de um reality show de canto”.

Apesar disso, Jessica cumpriu o seu papel e ascendeu como a diva pop made in UK que ela foi programada para ser. O sucesso nos EUA e no resto do mundo — algo que era dado como certo — nunca chegou de maneira significativa, apesar do buzz e de alguns hits. E, depois de 2 anos, o público britânico também cansou dela e, por lá, ela também caiu no esquecimento. Um sucesso passageiro e que deu, bem rapidamente, o que tinha que dar.

Enquanto as atenções estavam focados em Jessie, a verdadeira revelação do ano foi um ruivo chamado Ed Sheeran. Ao longo dos últimos anos, o jovem cantor/compositor — na época com apenas 20 anos — estava causando barulho com seus mixtapes e shows ao vivo, arrastando multidões cada vez maiores. Já com uma fanbase de respeito, ele assinou com a Warner Music e seu primeiro single, The A Team, foi um sucesso de imediato e seu álbum estreou direto no topo, vendendo bem ao longo de todo o ano. Era só o começo de uma carreira meteórica.

Highlights de 2011

+ Um fenômeno chamado Adele: 2011 foi o ano que Adele deixou de ser apenas uma cantora bem-sucedida para se transformar em um dos maiores fenômenos da indústria fonográfica da história. No Reino Unido, o buzz em torno dela estava crescendo exponencialmente no fim de 2010, quando seu cover de Make You Feel My Love de Bob Dylan, incluso em seu primeiro CD, virou um gigantesco hit, impulsionado por uma performance de um finalista no The X Factor local.

Rollin’ in the Deep, o primeiro single de 21, foi um sucesso e ajudou o CD a estrear em primeiro lugar com ótimas vendas. E do topo o álbum não saiu ao longo de todo o ano. A performance dela de Something Like You no BRIT Awards foi outro momento que ajudou a transforma-la numa lenda.

No fim de 2011, 21 de Adele tinha vendido 3.772 milhões de unidades. Um fenômeno desses era, ate então, completamente inimaginável: nunca na história do Reino Unido um álbum tinha vendido essa quantidade de cópias em apenas 1 ano.

+ Florence is back: Depois de ganhar o Critics’ Choice em 2009 e obter sucesso extraordinário com Lungs, Florence & the Machine volta com Ceremonials, seu segundo álbum. No UK, os números deram uma diminuida mas seguiram bastante bons: 300k nos primeiros 2 meses e 715k no total (além de um number 1 single, com Spectre). Internacionalmente, as vendas foram tão espetaculares quanto o anterior: nos EUA, por exemplo, Ceremonials também vendeu 1 milhão.

+ American pop: Apesar da força de Jessie J, o pop americano seguia rei. Bruno Mars, o cantor estado-unidense com hits inescapáveis como Just The Way You Are e Grenade, se provou um sucesso enorme no Reino Unido, com seu álbum ultrapassando 1 milhão de unidades vendidas. Depois da recepção impressionante de The Fame e The Fame Monster, Born this Way, o segundo álbum de Gaga, começou com vendas altíssimas mas rapidamente perdeu o fôlego. Rihanna, por sua vez, se confirmava como a cantora pop mais bem-sucedida do país e Loud, seu quarto álbum, alcançava 2 milhões de unidades comercializadas. Diferente de Good Girl Gone Bad — o CD anterior da caribenha, que também alcançou a marca — Loud chegou a esse número sem um relançamento.

+ Rock is dead: Antes o maior gênero do país, rock tinha virado um after thought nas paradas britânicas. Só o Coldplay ainda conseguia blockbuster numbers. Provando que a fanbase de Oasis — a maior banda dos anos 90 no país — continuava numerosa, o novo projeto de Noel Gallagher, High Flying Band, também foi um sucesso de vendas assim como o já mencionado segundo álbum de Florence & the Machine. As outras únicas bandas de rock que obtiveram vendas expressivas ao longo do ano foram  Elbow, Kasabian e Foo Fighters.

[Top 10 álbuns] 1. Adele – 21 / 2. Christmas – Michael Bublé / 3. Doo-Woop & Hooligans – Bruno Mars / 4. 19 – Adele / 5. Mylo Xyloto – Coldplay / 6. Loud – Rihanna / 7. Born this Way – Lady Gaga / 8. Who You Are – Jessie J / 9. + – Ed Sheeran / 10. Talk That Talk – Rihanna
[Top 10 singles] 1. Someone Like You – Adele / 2. Moves Like Jagger – Maroon 5; Christina Aguilera / 3. Party Rock Anthem – LMFAO / 4. Price Tag – Jessie J / 5. We Found Love – Rihanna / 6. Give Me Everything – Pitbull ft. Ne-Yo, Afrojack & Nayer / 7. Grenade – Bruno Mars / 8. The A-Team – Ed Sheeran / 9. Rollin’ in the Deep – Adele / 10. On the Floor – Jennifer Lopez ft. Pitbull
[Best-selling debut albums] 1. Doo-Woops & Hooligans – Bruno Mars [2010] / 2. 19 – Adele [2008] / 3. Who You Are – Jessie J / 4. + – Ed Sheeran / 5. Noel Gallagher’s High Flying Band – Noel Gallagher’s High Flying Band
[Million-selling albums] Quatro
[500k+ álbuns] 13
[Million-selling singles] Dois
[500k+ singles] 23

2012

BRIT Critics’ Choice: Emeli Sandé
BBC Sound of 2012: Michael Kiwanuka

Em 2012, a demanda por Adele era tão gigantesca que sobrou até para uma xará: Adele Emily Sandé, mais conhecida como Emeli Sandé. Brincadeiras a parte, aquele foi realmente o ano da escocesa, que — com seu indiscutível talento — surfou na onda da musica soulful e reflexiva que, mesmo pré-Adele, sempre foi uma categoria que bomba muito. Como de costume, o BRIT Critics’ Choice acertou em cheio em escolher a cantora e compositora como sua aposta para o ano.

Assim como Jessie J, a ganhadora do ano anterior, Sandé tinha uma carreira prolífica como compositora mas tinha ambição de se transformar em uma estrela. Em 2010, ela teve a chance de demonstrar seus dotes ao ser chamada por seu amigo e frequente colaborador, o produtor Naughty Boy, para cantar o refrão de Never Be Your Woman, do rapper Wiley. A música foi um sucesso, atingindo o top 10 britânico, e fez dela um nome cobiçado pelas gravadoras.

No verão de 2011, Eméli lançou seu primeiro single, a música dance urbana Heaven. Abraçada pelas rádios, a canção alcançou a segunda posição. Em outubro, ela colabarou com o rapper Professor Green em Read All About It. A canção teve um grande marketing push, com uma performance ao vivo no The X Factor na data de lançamento e foi um gigantesco sucesso, estreando diretamente no topo.

Antes de lançar o seu álbum, em fevereiro de 2012, Eméli já tinha se provado como uma hitmaker impressionante ao longo de 2011. Sendo assim, a aposta nela era mais do que segura. E foi exatamente por esse motivo que o Sound of…, que tinha uma regra que proibia artistas que já tinham atingido o top 20 de serem indicados, a ignorou apesar do grande apoio que a BBC deu a cantora.

Drew Ehrlich Bar Mitzvah
Emeli Sandé, uma das principais estrelas da Cerimônia de Encerramento das Olimpíadas de 2012

Ao invés de Sandé, a enquete da emissora pública apostou em outro cantor soul, que inclusive já tinha excursionado com Eméli e aberto para Adele: Michael Kiwanuka.

Também foi uma boa escolha: o primeiro álbum de Michael, Home Again, estreou em quarto e alcançou Disco de Ouro por mais de 100 mil unidades vendidas. Ele foi abraçado pela crítica, fez turnês bem sucedida e seu segundo álbum, lançado ano passado, estreou no topo. Uma das músicas do novo CD, Cold Little Heart, serviu de abertura para uma das séries mais buzzed de 2017, Big Little Lies.

Mas enquanto Kiwanuka foi um sucesso indie, Eméli — bem mais comercial — foi um sucesso de massa. Seu primeiro álbum, Our Version of Events, estreou direto no topo com altíssimas vendas (113 mil unidades na primeira semana) e foi impulsionado pelo gigantesco sucesso de Next to Me, a balada que se transformou no maior hit da cantora e que melhor representava a vibe melódica do CD.

Na ausência de Adele, que tinha resolvido se afastar totalmente do holofote, Sandé foi a artista que mais apareceu na mídia britânica ao longo de 2012 e, com um CD que vendia como água, foi chamada para todos os eventos mais prestigiosos do ano, indo desde a final do The X Factor até — no big deal — as cerimônias de abertura  e de encerramento das Olimpíadas em Londres (ela teve papel de destaque em ambas).

Todos os 6 singles do álbum atingiram o top 40 britânico, com quatro deles alcançando o top 10. Heaven e Next to Me chegaram ao segundo lugar, enquanto a versão solo dela de Read All About It atingiu a terceira posição. O CD ainda contou com o maroto relançamento em outubro, o que ajudou ainda mais as vendas no período mais palpudo do ano: o Natal. Ao todo, foram 1.4 milhão de unidades vendidas ao longo de 2012. Com as vendas do ano seguinte, Our Versions of Event encerrou sua trajetória com 2.3 milhões de cópias no Reino Unido.

Highlights de 2012

+ O fenômeno continua: Depois de quebrar absolutamente todos os recordes de venda possiveis e imagináveis (e também inimagináveis) em 2011, 21 de Adele vendeu mais 800 mil cópias em 2012 apesar da cantora ter passado quase o ano todo reclusa. Em apenas 2 anos, o álbum tinha desbancado The Dark Side of the Moon de Pink Floyd e Thriller de Michael Jackson e se transformado no sexto álbum mais vendido da história do Reino Unido. Desde então, o álbum já ascendeu para a quarta posição, atrás apenas de Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band (apenas 100k na frente) e das coletâneas do ABBA e do Queen.

+ Sheeran rises: Depois de vender 791 mil unidades em 2011, o álbum de estréia de Ed Sheeran, +, vendeu quase a mesa quantidade, 784 mil cópias, em 2012. E sem a ajuda de nenhum relançamento. As mais de 1.5 milhão de unidades vendidas por Ed eram uma palhinha do que estava por vir para o jovem cantor e compositor inglês. Outros CDs do ano anterior que continuaram com vendas altíssimas naquele ano: o álbum natalino de Michael Bublé, que ultrapassou 2 milhões de cópias vendidas, e também Mylo Xyloto, de Coldplay.

+ Hype del Rey: A grande revelação do ano foi Emeli Sandé mas ninguém — nem mesmo a escocesa — teve tanto hype pré-lançamento quanto a americana Lana del Rey. Impulsionada apenas pela recepção de seus primeiros dois singles, Video Game e Born to Die, ela apareceu na capa da publicação de música mais prestigiosa do país — a Q — e também da Vogue britânica, um ato inédito para um artista que nem sequer tinha lançado um álbum. O CD, também entitulado Born to Die, vendeu 116k na primeira semana, um número altíssimo, e encerrou o ano com 719 mil cópias. Desde então, ele já atingiu 1 milhão de unidades.

+ Rock is alive: Depois de quase sumir da lista dos mais vendidos no ano passado, o rock mostrou que ainda estava vivo em 2012 com o sucesso gigantesco do segundo álbum da banda de folk rock Mumford & Sons. Depois de uma primeira semana monstra tanto nos EUA (600k) quanto no UK (155k), Sight No More vendeu 573 mil unidades em menos de quatro meses na terra da rainha. Mylo Xyloto, o quinto álbum do Coldplay, também continuou com vendas fortíssimas em 2012, ultrapassando 1 milhão de unidades. Human Born, o quarto álbum dos americanos do The Killers; o greatest hits de Neil Diamond e #3, o terceiro dos irlandeses do The Script, também alcançaram Disco de Platina (300k), assim como os lançamentos de Robbie William e da banda fun., ambos com um pop com uma pegada mais rock.

+ Pop is doing fine: Sheeran, Adele, Emeli, Lana, Mumford… o público consumidor de CDs do Reino Unido estava clamando menos por pop dançante e mais por “músicos de verdade”. Mas vários artistas unashamedly pop continuaram com ótimas vendas como o fenômeno One Direction e Olly Murs, ambos cria do The X Factor, e a sempre bombada Rihanna. Outros atos que alcançaram platina incluiram P!nk, que chegou a 400k com seu quinto álbum, The Truth About Love e os badalados DJs David Guetta e Calvin Harris. E, na lista de singles, claro, só deu pop.

+ James Arthur does the impossible: Em 2012, o The X Factor britânico foi todo remodelado e ganhou um painél de jurados totalmente novo com a saída de Simon Cowell que migrou para a versão americana do programa. Depois de anos de aumento de audiência, o programa começou a dar sinais de cansaço e, pela primeira vez, o número de telespectadores caiu. Apesar disso, o winning single daquele ano — a versão de James Arthur de Impossible, da cantora america Shontelle — foi um verdadeiro fenômeno. Vocês podem ler mais sobre a trajetória do ganhador daquela temporada aqui.

+ Million-selling singles: A morte do mercado de single físico fez com que million-selling singles fossem extinguidos. Mas com a ascenção do iTunes e das vendas digitais, singles voltaram com toda força e, pelo segundo ano consecutivo, duas músicas — Somebody That I Used to Know do belga-australiano Gotye e Call Me Maybe da canadense Carly Rae-Jepsen — atingiram o milhão ao longo do ano.

[Top 10 álbuns] 1. Our Version of Events – Emeli Sandé / 2. 21 – Adele / 3. + – Ed Sheeran / 4. Born to Die – Lana del Rey / 5. Take Me Home – One Direction / 6. Babel – Mumford & Sons / 7. Right Place Right Time – Olly Murs / 8. Christmas – Michael Bublé / 9. Mylo Xyloto – Coldplay / 10. Unapologetic – Rihanna
[Top 10 singles] 1. Somebody That I Used to Know – Gotye ft. Kimbra / 2. Call Me Maybe – Carly-Rae Jepsen / 3. We Are Young – Fun ft. Janelle Monae / 4. Titanium – David Guetta ft. Sia / 5. Impossible (The X Factor Winning Single) – James Arthur / 6. Gangnam Style – PSY / 7. Starships – Nicki Minaj / 8. Domino – Jessie J / 10. Wild Ones – Flo-Rida ft. Sia
[Best-selling debut albums] 1. Our Version of Events – Emeli Sandé / 2. + – Ed Sheeran [2011] / 3. Born to Die – Lana del Rey / 3. Who You Are – Jessie J [2011] / 4. Some Nights – Fun. / 5. Every Kingdom – Ben Howard
[Million-selling albums] Um
[500k+ álbuns] 8
[Million-selling singles] Dois
[500k+ singles] 23

2013

BRIT Critics’ Choice: Tom Odell
BBC Sound of 2013: HAIM

O sucesso de Ed Sheeran e James Arthur no ano anterior serviram para reafirmar o duradouro sucesso de um gênero conhecido como white guy with an acoustic guitar, um combo por vezes piegas e clichê mas que é capaz de vender milhões de discos. Indo nessa onda, o Critics’ Choice — que gosta de apostar no seguro — selecionou Tom Odell, um representante perfeito dessa classe, como a sua grande escolha para 2013.

O Sound of…, se reafirmando como a premiação mais ousada, escolheu as garotas do HAIM, um trio formada por irmãs americanas bem cool com um inovador som pop rock igualmente cool. E meu uso de cool pode estar parecendo irônico mas nem é, elas de fato eram bem cool. Para quem não entendeu, cool é a palavra chave aqui (mas sério, elas são bem legal).

Ao apostar no HAIM, os votantes da enquete da BBC sabiam que elas não iam ser o maior fenômeno do ano. Elas tinham total capacidade para fazer sucesso — e de fato fizeram, pois o álbum delas, Days Are Gone, alcançou Disco de Ouro — mas a escolha era mais pelo fato delas serem interessantes e intrigantes do que pela comerciabilidade em si.

Por isso foi uma surpresa quando Odell — perfeitamente packaged para ser um giga 9sucesso — não vendeu tão mais assim do que elas. Seu álbum de estreia, Long Way Down, vendeu 300 mil unidades, um número ótimo — suficiente para Disco de Platina — mas um pouco aquém se comparado aos ganhadores anteriores do Critics’ Choice.

Sendo justo, esse número só foi underwhelming porque as vendas das ganhadoras anteriores tinham sido espetaculares: tirando Ellie Goulding, que vendeu 800 mil unidades de Lights, o CD de estréia de todas as demais tinha ultrapassado 1 milhão de unidades vendidas (Ellie atingiu a marca com seu segundo álbum).

O CD de Odell também foi o primeiro álbum de um ganhador do Critics’ Choice a não ser relançado com faixas bônus desde 19 de Adele. Naquele período, repackaging eram sinais máximo de sucesso (e uma ótima oportunidade de lucrar mais e inflar as vendas).

Dito isso, Odell era realmente um artista bastante talentoso, descoberto por Lily Allen, e seu lançamento, Long Way Down foi sim um sucesso. Só não foi o sucesso esperado, dado a promoção intensa que ele recebeu: o cantor teve a estreia obrigatória e prestigiosa no programa de Jools Holland; foi aos talk shows mais vistos; cantou na final do X Factor e teve seu single, Another Love, seu único top 10 hit, usado numa campanha grande da BBC.

Por outro lado, houve alguns erros estratégicos: o álbum, por exemplo, deveria ter sido lançado durante o ápice de Another Love mas foi postergado para coincidir com o lançamento do CD nos EUA. Essa perda de timing pode ter afetado um pouco o desempenho do lançamento de Odell mas, no final das contas, Disco de Platina não é um resultado para se lamentar.

No fim, Tom foi ofuscado, irônicamente, por outro white guy with a guitar, o que prova que o Critics’ Choice acertou em cheio na categoria mas errou o alvo. Jake Bugg, com um som bem mais rock e um estilo um pouco mais rebelde, foi a revelação solo do ano (apesar de que seu álbum na verdade foi lançado em 2012, o que não o qualificaria para um Critics’ Choice de 2013).

Bugg e Odell aside, a verdade é que foi um ano sem nenhum lançamento gigantesco — seja de novatos ou de veteranos — o que fez de 2013 um ano meio dull em termos de vendas.

Highlights de 2013

+ Uns com tanto… Foi um ano bem fraco para a venda de álbuns, sem um grande sucesso: nenhum CD alcançou a marca do milhão. O mais vendido, Midnight Memories, da boyband One Direction, moveu 685 mil unidades. Em compensação, o mercado digital continuou em plena expansão e, com isso, singles tiveram ano recorde, com 4 músicas alcançando 1 milhão em vendas.

+ Safe choices: O top 10 de álbuns foi totalmente composto por nomes muitíssimo familiares para o público britânico, quase sempre com vendas altas asseguradas: One Direction, Michael Bublé, Artic Monkeys, Rod Steward, Robbie Williams e Gary Barlow, o vocalista do Take That, o grupo que mais vendia discos no país. Um dado curioso: depois de anos de invasão de divas pop, o único álbum de pop americano no top 10 foi Unorthodox Jukebox de Bruno Mars, que, somado com as vendas do ano anterior, se transformaria no segundo álbum dele a ultrapassar 1 milhão de cópias.

+ Segunda chance: Como já repeti diversas vezes, relançamentos eram lugar comum naquele então mas normalmente reservados para álbuns de enorme sucesso. Ellie Goulding inovou e mudou a receita: seu segundo álbum, Halycon, estava com vendas dignas mas mais lentas do que seu álbum de estréia. Ela voltou para o estúdio e o relançou em 2013 com 8 novas faixas. Emplacou dois mega hits, Burn e How Long Will I Love You, o que transformaria o CD, que estava underperforming, no seu primeiro million-seller. Poucos artistas teriam essa chance de refazer um álbum mas isso mostra o grau de confiança da gravadora em Goudling. A julgar pelos resultados, a confiança foi mais do que justifcada.

+ Not so alive: Enquanto Ellie Goulding — ganhadora do Critics’ Choice de 2010 — continuava com êxito, a vencedora do ano seguinte, Jessie J, estava em pleno declínio. Seu segundo álbum, Alive, venderia apenas 100k, uma queda bem marcante considerando que, apenas 2 anos antes, seu CD de estréia tinha vendido 1.1 milhão. Era o começo do fim. A cantora teve, porém, um breve momento de glória no ano seguinte quando Bang Bang, sua colaboração com Nicki Minaj e Ariana Grande, se tornou um sucesso global e atingiu o topo no Reino Unido.

+ Revelações: A grande revelação do ano foi a banda de rock Bastille, impulsionada pelo enorme sucesso da música Pompeii entre o público jovem. O álbum deles vendeu mais de 450 mil unidades. O grupo de drum ‘n’ bass Rudimental também obteve grande sucesso com seu álbum de estréia depois de emplacar dois número 1 — Feel the Love Waiting All Night — no ano anterior. Outras revelações de 2013 incluiram as bandas de rock americanas Imagine Dragon e The Lumineers; o trio London Grammar e o duo eletrônico Disclosure. Todos esses atos obtiveram Disco de Ouro com seus respectivos lançamentos.

[Top 10 álbuns] 1. Midnight Memories – One Direction / 2. Our Version of Events – Emeli Sandé / 3. To Be Loved – Michael Bublé / 4. Swing Both Ways – Robbie Williams / 5. Right Place Right Time – Olly Murs / 6. Unorthodox Jukebox – Bruno Mars / 7. Time – Rod Stewart / 8. AM – Artic Monkeys / 9. Since I Saw You Last – Gary Barlow / 10. Halycon – Ellie Goulding
[Top 10 singles] 1. Blurred Lines – Robin Thicke ft. T.I. & Pharrell Williams / 2. Get Lucky – Daft Punk ft. Pharrell Williams & Nile Rodgers / 3. Wake Me Up – Avicii ft. Aloe Blacc / 4. Let Her Go – Passenger / 5. La La La – Naughy Boy ft. Sam Smith / 6. Roar – Katy Perry / 7. Thrift Shop – Macklemore & Ryan Lewis / 8. Just Give Me A Reason – P!nk ft. Nate Ruess / 9. Counting Stars – OneRepublic / 10. Mirrors – Justin Timberlake
[Best-selling debut albums] 1. Bad Blood – Bastille / 2. Jake Bugg – Jake Bugg (2012) / 3. Home – Rudimental / 4. James Arhtur – James Arthur / 5. The Lumineers – The Lumineers
[Million-selling albums] Zero
[500k+ álbuns] 7
[Million-selling singles] Quatro
[500k+ singles] 20

2014

BRIT Critics’ Choice: Sam Smith
BBC Sound of 2014: Sam Smith

Em 2014, a BBC se juntou novamente ao BRIT para apostar no seguro. Para isso, a emissora publica até mudou as regras da sua enquete, permitindo que o ganhador tivesse top 20 hits desde que a canção em questão não o listasse como o artista principal. O motivo de tanto rebuliço? Sam Smith.

O vocalista de apenas 22 anos era basicamente a Adele versão masculina: soulful vocals perfeitos; dom de composição impressionante para sua curta idade; música melancólica sobre amores perdidos. Uma receita de sucesso infálivel.

Assim como Emeli Sandé — outra artista ao qual ele pode ser comparado em termos de letra e estilo — Smith foi apresentado ao público britânico como vocalista convidado. Sua estreia foi na música Latch, do duo eletrônico Disclosure. Lançada em outubro de 2012, a música alcançou a posição #11 nas paradas britânicas mas foi um sucesso duradouro, vendendo muito e obtendo sucesso internacional (inclusive penetrando o top 10 dos EUA). Alguns meses mais tarde, em maio de 2013, ele foi o cantor do mega hit do produtor Naughty Boy, La La La. O single alcançou o topo e foi um dos maiores sucessos daquele ano.

criticschoice
Noite de sucesso para Sam Smith no Grammy

Smith já tinha, portanto, dois enormes êxitos quando, em dezembro, lançou seu primerio single solo, Money On My Mind. A música foi direto para o primeiro lugar no Reino Unido. Alguns meses mais tarde, em abril de 2014, ele lançaria a música que sintetizaria seu estilo e sua carreira: a balada Stay with Me. A música foi um sucesso no mundo inteiro e preparou a cena para o lançamento do seu álbum, In The Lonely Hour, um sucesso espetacular.

Dentre os escolhidos pelo Critics’ Choice, Sam foi o maior sucesso global desde Adele, em 2008. Seu álbum vendeu bastante a nível global, inclusive nos EUA, dando origem a cinco top 10 hits no Reino Unido e três no país norte-americano. Ele recebeu quatro Grammys, incluindo Melhor Artista e foi escolhido para cantar a música tema de Spectre, o filme de 2015 do James Bond. Writin’ on the Wall, música em questão, atingiu o topo no Reino Unido e recebeu um Oscar. Foi uma ascensão rápida e meteórica.

In the Lonely Hour alcançaria 2.2 milhões de unidades vendidas no Reino Unido em dois anos. Ele se tornaria o terceiro ganhador do Critics’ Choice — junto com Adele e Emeli Sandé — a ter seu álbum de estréia alcançando a marca de 2 mi.

Além de Smith mais um vocalista/compositor revelação arrasou em 2014: George Ezra. Assim como Jake Bugg, sucesso do ano anterior, Ezra — hoje com 23 anos — foi impulsionado pelo BBC Introducing, projeto da emissora pública que divulga novos talentos através de um palco em Glastonbury e airplay na Radio 1. Ele obteve um enorme sucesso com a música Budapest, o que criou grande interesse no primeiro álbum dele, Wanted on Voyage. O CD de estreia eventualmente ultrapassou a marca de 1 milhão.

Highlights de 2014

+Sheeranmania: Nem o sucesso meteórico de Sam Smith conseguiu ofuscar Ed Sheeran. Impulsionado por dois number one hits, Sing e Thinkin’ Out Loud (que se tornaria o maior hit dele no mundo), x (lê-se Multiply) venderia 1.7 milhão de unidades em 1 ano. Levou dois anos para o álbum de estréia do cantor, +, alcançar esse número. Sheeran se estabelecia como o maior fenômeno pós-Adele da música britânica — mesmo com Smith também conquistando o mundo com suas baladas de amor.

O sucesso de Sheeran e Smith, aliás, foi responsável por aquecer a indústria fonográfica britânica ao longo de 2014. Os dois blockbuster albums venderam mais de 1 milhão de cópias depois de um ano em que nenhum CD alcançou essa marca. Até o momento, x já vendeu mais de 3 milhões de unidades no UK e quase 9 milhões a nível mundia. Já In the Lonely Hour vendeu 7 milhões de unidades mundo afora, das quais 2.1 foram na Grã-Bretanha.

+ In with the new: Apesar de vários nomes habituais — como One Direction; Olly Murs; Coldplay, Paolo Nutini e Take That (e, pasmén, Pink Floyd) — a lista dos álbuns mais vendidos do ano incluiu novidades como Paloma Faith, um nome que apesar de vender bem não costuma figurar entre os 10 mais, e o novato George Ezra.

+ Take that, Take That!: Ghost Stories, o sexto álbum da banda Coldplay, se transformaria no primeiro álbum do grupo a não ultrapassar a barreira de 1 milhão, empacando na casa dos 900 mil. Por outro lado, faria com que eles retomassem o posto de maior grupo do país: depois de quase 9 anos, eles finalmente ultrapassaram as vendas do Take That. III, o quarto CD da boyband desde 2006 e o primeiro como um trio, foi o primeiro álbum pós-retorno a não ultrapassar 2 milhões de cópias vendidas. Ficou bem longe disso: com as vendas de 2015, o CD moveu 570 mil cópias, um número ótimo mas bem aquém ao que eles eram capazes em anos anteriored.

+ The streaming age: Depois de 5 anos de presença no Reino Unido, o Spotify se consolidava como uma força cada vez mais díficil de ignorar. Milhões de britânicos estavam migrando do iTunes para o streaming e, finalmente, a partir de julho de 2014, streams começaram a ser contabilizados na parada de singles. O ratio escolhido foi 100 streams equivaleriam a uma venda.

[Top 10 álbuns] 1. x – Ed Sheeran / 2. In the Lonely Hour – Sam Smith / 3. Wanted on Voyage – George Ezra / 4. Caustic Love – Paolo Nutini / 5. Ghost Stories – Coldplay / 6. A Perfect Contradiction – Paloma Faith / 7. Four – One Direction / 8. Never Been Better – Olly Murs / 9. The Endless River – Pink Floyd / 10. III – Take That
[Top 10 singles] 1. Happy – Pharrell Williams / 2. Rather Be – Clean Bandits ft. Jess Glynne / 3. All of Me – John Legend / 4. Waves – Mr. Probz / 5. Thinking Out Loud – Ed Sheeran / 6. Ghost – Ella Handerson / 7. Stay with Me – Sam Smith / 8. All About That Bass – Meghan Trainor / 9. Timber – Pitbull, Ke$ha / 10. Budapest – George Ezra
[Best-selling debut albums] 1. In the Lonely Hour – Sam Smith / 2. Wanted on Voyage – George Ezra / 3. If You Wait – London Grammar [2013] / 4. Chapter One – Ella Handerson / 5. Bad Blood – Bastille [2013]
[Million-selling albums] Dois
[500k+ álbuns] 7
[Million-selling singles] Cinco
[500k+ singles] 29

2015

BRIT Critics’ Choice: James Bay
BBC Sound of 2015: Years & Years

Com seu rosto delicado, longas madeixas e chapéu-panamá perpetuamente na cabeça, James Bay — o vencedor do Critics’ Choice Awards em 2014 — parece uma paródia de um white guy with an acoustic guitar. Mas o público britânico o levou bem a sério: seu primeiro single, Let It Go, estreou no top 10 e o seguinte, Hold Back the River, atingiu o segundo lugar e foi um dos maiores sucessos do ano.

Impulsionado pelo sucesso das duas músicas, seu álbum, Chaos and the Calm, estreou no topo, com altíssimas vendas e Bay se manteve no top 40 ao longo de 2 anos, alcançando 600 mil cópias comercializadas no Reino Unido. Acompanhado de seu violão e de seu chapéu, o rapaz de 24 anos foi presença constante na mídia local, aparecendo em todos os principais programas de TV e festivais, incluindo Glastonbury. Ele até acabou sendo indicado a três Grammy, incluindo Best New Act, se provando mais uma aposta com grande retorno para os executivos britânicos e o Critics’ Choice.

A BBC, como de costume, fez uma escolha um pouco mais ousada: o trio eletrônico Years & Years. Os rapazes — com suas músicas irresistivelmente pegajosas — conseguiram emplacar certificação de platina para quatro de seus singles (King, o maior sucesso; Shine; Desire; Eyes Shut) e, claro, estrearam no topo com o álbum de estreia, Comunion, que também acabou certificado Platina por 300 mil cópias em circulação.

Como é possível notar, o ano de 2015 foi um ano rico para novos talentos e, interessantemente, foi uma artista ignorada pelas duas principais premiações que acabou sendo a maior revelação do ano: Jess Glynne.

Assim como vários outros artistas com ascenção meteórica, como Emeli Sandé e Sam Smith, Glynne começou sua carreira nos bastidores, colaborando com diferentes artistas e compondo, antes de estrear como vocalista convidada em uma série de grandes hits. O maior deles foi Rather Be do grupo Clean Bandit, o segundo maior sucesso de 2014, mas ela também emprestou a voz para mais outros dois number 1: My Love, do produtor Route 94 e Not Letting Go, junto ao rapper Tinie Tempah.

Antes de lançar o álbum, ela também se apresentou no circuito de festivais no Reino Unido, incluindo Glastonbury, e lançou dois single solos, Right Here, que alcançou o sexto lugar, e o mega hit Hold My Hand, que atingiu o topo. Na semana de lançamento do seu CD, I Cry When I Laugh, ela obteve seu quinto número 1 com Don’t Be So Hard on Yourself, empatando com Cheryl (ex-Cole) como a cantora britânica solo com mais chart-toppers na história.

Basicamente, a carreira de Glynne foi uma sucessão de sucessos mesmo antes do lançamento do álbum e o seu CD de estreia não só alcançou o topo como finalizou sua trajetória nas paradas com mais de 1 milhão de unidades comercializadas. Assim como Bay, ela obteve total apoio da mídia: as rádios colocaram suas músicas em alta rotação; a BBC escolheu sua balada Take Me Home como tema do seu show de caridade Children in Need; ela fez uma grande performance no BRIT Awards de 2016 e até foi convidada para ser jurada convidada no The X Factor.

Diferente de outras divas pop, o sucesso de Glynne não foi movido por looks marcantes; clipes grandiosos; contas de social media com milhões de seguidores e personalidade larger than life. Pelo contrário, Jess — apesar de um marketing poderoso — tem uma estética bem discreta e seu Instagram tem pouco mais de 500 mil seguidores. Seu sucesso foi movido, acima de tudo, pela grande aceitação de sua música: seu dance pop foi feito sob medida para o gosto do público britânico de 2015.

Highlights de 2015

+ The Fab One: Se tem alguém que é capaz de carregar toda a indústria fonográfica britânica nas costas sozinha, esse alguém é Adele. Não é exagero dizer que a londrina é o maior fenômeno de vendas local desde os Beatles. Em 2015, ela fez seu grande retorno: enquanto nenhum outro artista ultrapassou 1 milhão de cópias, Adele vendeu 2.5 milhões de unidades de 25 em apenas 1 mês.

+ Bieber fever: Justin Bieber também fez um retorno triunfal no Reino Unido depois de três anos de hiato. Impulsionado pelo enorme sucesso de What Do You Mean? e Sorry, o seu novo álbum, Purpose, acabou como o quinto CD mais vendido do ano com menos de 2 meses de venda. O lançamento eventualmente se tornaria o primeiro de Bieber a ultrapassar a marca de 1 milhão no Reino Unido. Taylor Swift foi outro ato norte-americano que alcançou a marca pela primeira vez com 1989. Depois de anos como a cantora pop mais rentável dos EUA, Swift finalmente obteve o trono de maior diva pop do ano no Reino Unido com seu quinto CD, o primeiro dela integralmente pop, sem nenhuma canção com elementos country.

The lasting Factor: Depois de 5 anos de sucesso global estrondoso, a boyband One Direction, revelada na edição de 2009 do The X Factor, anunciou que iria se separar. O álbum final, Made in the AM, foi lançado na mesma semana que Purpose de Bieber, bloqueando o canadense do primeiro lugar. O disco, porém, rapidamente perdeu fôlego e acabou na posição #14. Enquanto 1D se despedia com vendas murchas (mais por falta de promoção do que por queda de popularidade), o girlgroup Little Mix, que ganhou a edição de 2012 do show de talento, gozou de um impressionante aumento de vendas com o terceiro CD delas, Get Weird.

Apesar de uma queda drástica em audiência, a importância de The X Factor para a indústria fonográfica britânica continuava vísivel em 2015. Além de 1D e Little Mix, Olly Murs — segundo lugar da temporada de 2008 — também vendeu mais de 300k cópias ao longo do ano com o relançamento de seu quarto CD.

+ Rockin’ up the charts: Um álbum de canções de Elvis Presley regravados com a Orquestra Filarmônica Real excedeu as expectátivas, vendendo 880 mil cópias em 2 meses e dando o tom para um ano que foi bem positivo para o rock, principalmente o mais voltado para um público mais velho.

Bandas revelações jovens Royal Blood e Catfish & the Bottlemen receberam Disco de Ouro; Coldplay retornou triunfalmente e veteranos como David Lock, Paul Simon e Jeff Lyne’s ELO obtiveram vendas dignas. Também foi um ano particularmente positivo para white guys with acoustic guitars: além de Bay e Sheeran, George Ezra continuou com vendas altas e o irlandês Hozier chegou fazendo barulho com o enorme sucesso da balada Take Me to Church.

+ Streamed up: Entre 2013 e 2014, o número de streams no Reino Unido duplicou: de 7.5 bilhões para quase 15 bi. Sendo assim, era impossível ignorar os efeitos do método nas paradas britânicas e, depois de adicionar streams à parada de singles, a Offical Chart Company também acrescentou reproduções em ferramentas como Spotify e Apple Music ao números de vendas de álbum. O método usado era a soma das 12 músicas mais reproduzidas do CD dividido por 1000 adicionado ao total de vendas digitais e físicas.

[Top 10 álbuns] 1. 25 – Adele / 2. x – Ed Sheeran / 3. In the Lonely Hour – Sam Smith / 4. If I Can Dream – Elvis Presley / 5. Purpose – Justin Bieber / 6. 1989 – Taylor Swift / 7. I Cry When I Laugh – Jess Glynne / 8. Chaos and the Calm – James Bay / 9. A Head Full of Dreams – Coldplay / 10. Wanted on a Voyage – George Ezra
[Top 10 singles] 1. Uptown Funk – Mark Ronson, Bruno Mars / 2. Cheerleader – OMI / 3. Take Me To Church – Hozier / 4. Love Me Like You Do – Ellie Goulding / 5. See You Again – Wiz Khalifa, Charlie Puth / 6. Hello – Adele / 7. Lean On – Major Lazer & DJ Snake ft. MØ / 8. Hold Back the River – James Bay / 9. What Do You Mean? – Justin Bieber / 10. Sorry – Justin Bieber
[Best-selling debut albums] 1. In the Lonely Hour – Sam Smith [2014] / 2. I Cry When I Laugh – Jess Glynne / 3. Chaos and the Calm – James Bay / 4. Wanted on a Voyage – George Ezra [2014] / 5. Hozier – Hozier
[Million-selling albums] Um
[500k+ álbuns] 9
[Million-selling singles] Sete
[500k+ singles] 42

2016

BRIT Critics’ Choice: Jack Garratt
BBC Sound of 2016: Jack Garratt

Em geral, quando o Critics’ Choice e o Sound of… apostam no mesmo nomes, as chances do sucesso ser explosivo são altas. Não foi o caso em 2016: pela primeira vez, o escolhido, Jack Garratt, teve um álbum que não chegou a Disco de Platina. Nem Ouro. O álbum vendeu 65 mil cópias, um número que não é trágico para o panorama atual mas que deixa a desejar quando comparado ao hype e a absolutamente todos os ganhadores anteriores do Critics’ Choice e do BBC Sound of…

Sendo justo, 2016 foi um período bem sem vida para a indústria musical britânica, com grande parte dos álbuns mais vendidos sendo lançamentos do ano anterior. Prova maior do quão boring estava o cenário: o lançamento de 2016 mais comercializado foi um CD que reunia o tenor Alfie Boe com o ator/cantor de musicais Michael Ball interpretando clássicos da Broadway e sucessos antigos, algo que ninguém com menos de 60 anos ousaria ouvir. Além de “Together”, outro sucesso foi mais um álbum de músicas de Elvis Presley com arranjo da Orquestra Real, uma prova adicional do buying power do público geriátrico.

Mas voltando ao ganhador em questão, Jack Garratt: o rapaz de 25 anos é cantor, compositor e multi-instrumentalista e já faz anos que ele é apontado como um prodígio da musica. Em 2015, ele foi spotlighted pelo BBC Introducing, uma iniciativa da emissora pública para apresentar novos talentos ainda sem gravadoras, e recebeu airplay na influente Radio 1 e convite para cantar em vários festivais importantes. A empresária Sarah Stanett — responsável por fazer Jessie J e Ellie Goulding acontecer — assumiu o controle de sua carreira e ele abriu para Mumford & Sons e foi elogiado por Katy Perry e Sia no Twitter.

Apesar de tudo isso, Garratt não empolgou muito o público britânico. O seu single com melhor pico na parada, Worry, empacou na posição #67. Seu álbum chegou ao terceiro lugar mas as vendas totais ficaram atrás até do novo álbum de Tom Odell, o ganhador do Critics’ Choice de 2013 que, até então, tinha sido a aposta com o resultado mais mediocre (seu segundo álbum, Wrong Crowd, vendeu 76 mil cópias, um resultado até bom). No fim das contas, o álbum dele não figurou entre os 100 mais vendidos.

Sendo justo, nenhum ato revelação empolgou muito o públio. Dentro os 5 CDs de estréia mais vendido, apenas um — da francesa Christine and the Queens — foi lançado em 2016.

Além de Christine, só um artista novato atingiu 100k cópias vendidas: Bradley Walsh. Um ator e apresentador vagamente popular, ele lançou um álbum, Chasing Dreams, cheio de regravações de sucessos do passado e foi o único britânico que conseguiu Disco de Ouro com um CD de estréia. Mais uma vitória para os vovôs e vovós e mais uma prova de que a seca estava intensa.

Um contraste e tanto com o ano anterior que teve estreias impressionantes de bandas de rock (Royal Blood); cantores acústicos (Hozier; James Bay); popstars (Jess Glynne) e atos eletrônicos (Years & Years).

Highlights de 2016

Biggest in Britain: 25 de Adele é o álbum mais vendido pelo segundo ano consecutivo e ultrapassa a barreira de 3 milhões de cópias. Já o sétimo álbum do Coldplay, A Head Full of Dreams, alcança 1 milhão de unidades e reafirma a banda de Chris Martin como a maior vendedora do Reino Unido. Dentre atos norte-americanos, os canadense Justin Bieber e Drake são as grandes sensações e Beyoncé também obtém Disco de Platina com Lemonade.

+ R.I.P. Bowie: A morte de David Bowie impulsiona as vendas da coletânea de sucessos do legendário artista e também assegura vendas altas para seu lançamento póstumo, Blackstar.

+ They have the factor:  Com o fim do One Direction, o girlgroup Little Mix continua sua impressionante ascensão em popularidade e se consolida como o principal ato da SYCO, o selo de Simon Cowell na Sony. Olly Murs, como sempre, também obtém disco de platina com seu quinto álbum, 24 HRS, mostrando impressionante staying power. São os únicos dois artistas oriundos do The X Factor que seguem com popularidade em alta.

+ From France, with love: Depois de abalar a indústria francesa em 2015 com seu inovativo pop, Heloise Letissier, mais conhecida como Christine & the Queens, relançou seu álbum, Chaleur Humaine, todo em inglês para o mercado britânico e o resultado foi o mais puro sucesso. Christine acabou sendo a maior revelação do ano.

Além de Christine, o americano Charlie Puth também obteve Disco de Ouro com seu álbum de estreia. Dentre atos revelações britânicos, além de Bradlet Walsh, o maior vendedor foi a elogiada banda de synthopop Blossom que vendeu 75 mil unidades do seu álbum de estreia.

+ Streaming nation: Com a popularização do streaming, a quantidade de singles que atingiram a barreira de 1 milhão bateu recorde: foram 17 canções chegando na marca. Em dezembro de 2016, a Official Charts Company anunciou que, por causa do enorme crescimento do segmento, iria reajustar a proporção: agora, 150 streams equivaleriam a 1 venda (antes, era 100:1).

[Top 10 álbuns] 1. 25 – Adele / 2. A Head Full of Dreams – Coldplay / 3. Together – Michael Ball & Alfie Boe / 4. Purpose – Justin Bieber / 5. Wonder of You – Elvis Presley / 6. Blackstar – David Bowie / 7.  Glory Days – Little Mix / 8. Views – Drake / 9. I Cry When I Laugh – Jess Glynne / 10. Best of Bowie – David Bowie
[Top 10 singles] 1. One Dance – Drake / 2. 7 Years – Lukas Graham / 3. Cheap Thrills – Sia / 4. I Took a Pill in Ibiza – Mike Poisner / 5. This Is What You Came For – Calvin Harris, Rihanna / 6. Lush Life – Zara Larsson / 7. Closer – The Chainsmokers ft. Halsey / 8. Love Yourself – Justin Bieber / 9. Work – Rihanna, Drake / 10. Can’t Stop This Feeling – Justin Timberlake
[Best-selling debut albums] 1. I Cry When I Laugh – Jesss Glynne [2015] / 2. Chaos and the Calm – James Bay [2015] / 3. Chaleur Humaine – Christine and the Queens / 4. Communion – Years & Years [2015] / 5. In the Lonely Hour – Sam Smith [2014]
[Million-selling albums] Zero
[500k+ álbuns] 3
[Million-selling singles]  16
[500k+ singles] 57

E quanto a 2017? Isso falarei num próximo post mas já posso adiantar que a situação está melhor do que no ano passado.

Mais: As grandes revelações discutidas nessa postagem tiveram vários etapas em comum na sua jornada para o sucesso. Entenda o passo a passo para break um artista no mercado britânico.

Continue reading: Os 60 álbuns mais vendidos no Reino Unido desde 2008

Continue reading A constante renovação da cena musical britânica

Causando en español: si necesita el reggaeton, ¡dale!

A dominação atual

Um estilo domina as paradas de sucesso do mundo hispânico: o reggaeton. Esteja em Miami ou Madrid; Barcelona ou Cidade do México; Buenos Aires ou Bogota, nada bomba tanto quanto um sucesso do gênero.

Esse monopólio pode ser confirmado com uma olhada no top 50 do Spotify nos principais mercados ibero-americanos. No México, por exemplo, apenas 13 músicas em espanhol aparecem dentre as mais ouvidas, mas 10 dessas são reggaeton. Na Argentina, a dominação é ainda mais evidente: 24 dentre as 28 músicas na língua pátria entre as 50 mais ouvidas pertencem ao gênero. Chile (21/25); Espanha (17/21) e Colômbia (17/19) não ficam atrás.

De certa maneira, esse takeover pode ser comparado com o sertanejo que, no Brasil, se solidificou como, de longe, o estilo mais popular. Até os números no Spotify são similares: 18 das 22 músicas brasileiras no nosso top 50 são de artistas sertanejos.

Além do sertanejo, o reggaeton também tem paralelos com o funk: um estilo assumidamente popular e que muita gente torce o nariz para mas que, na pista, é sempre sucesso garantido.

A origem

Comparações aparte,  a explosão do reggaeton é relativamente recente. O gênero surgiu no Panamá, na década de 1980, antes de chegar em Nova Iorque e, finalmente, em Puerto Rico. Foi na colônia estado-unidense onde o estilo começou a se massificar, com o gigantesco sucesso de Don Omar. A explosão internacional de Gasolina de Daddy Yankee, em 2004, confirmou o reggaeton como um dos principais pilares da música latina.

Enquanto o sucesso de Omar ficou mais restringido ao mercado latino (pelo menos até 2010, com Danza Kuduro),  Gasolina transcendeu barreiras linguísticas e atingiu o top 10 geral da Billboard assim como as paradas europeias e até japonesa. O álbum que continha a música, Barrio Fino, vendeu 1.7 milhão de unidades nos EUA, o maior vendedor latino da década. E Yankee se transformou numa lenda e no rei do reggaeton.

Nenhum dos singles subsequentes teve o alcance internacional de Gasolina, mas o porto-riquenho se transformou num staple na cena latina e suas músicas fazem sucesso até hoje. O triunfo dele também ajudou dezenas de outros grandes nomes do reggaeton — todos de origem porto-riquenha — a emergirem.

A música desses artistas fez a América toda dançar mas a falta de sangue novo no gênero acabou causando uma saturação e Pitbull, com suas produções mais urban top 40, grande partes dela em inglês, se apossou do nicho festeiro no final da década.

Mas Yankee, Wisin, Yandel e demais artistas nunca pararam de produzir hits e se mantiveram consistentes no cenário latino (que, aliás, é bem fiel). Na Espanha, o DJ catalão Juan Magan — o rei do electrolatino — junto a outras dezenas de artistas provenientes das Américas também ajudaram a fazer do ritmo algo completamente inescapável. Mesmo ofuscado, o estilo foi uma presença constante, ajudando a abrir caminho para o atual monopólio.

De San Juan a Medellin

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Enquanto Puerto Rico foi quem deu o ponta pé inicial no fenômeno, foi a Colômbia, especificamente a cidade de Medellín, que elevou o estilo ao seu atual patamar e deu uma nova roupagem ao gênero. O primeiro megastar proveniente dessa nova fase foi J. Balvin.

A hypada publicação americana Fader, que dedicou uma capa ao megastar latino, fez uma boa descrição da diferença entre o colombiano e os anteriores ícones do gênero:

“O reggaeton de Balvin é mais sutil, mais relaxado e mais em linha com o que está acontecendo na cena pop e hip-hop atual. Enquanto Daddy Yankee parecia estar gritando em suas músicas, Balvin canta com uma pronunciação mais suave”, descreve a revista.

“Ao invés de enormes óculos aviadores e bonés largos, Balvin opta por um chapéu de cowboy de abas largas e streetwear direto da passarela de designers badalados como Guillermo Andrade”.

Assim como Kanye e Drake ajudaram a reinventar a cena do rap, Balvin — com seu swagger e estilo — marcou um novo começo na cena do reggaeton. Em 2011, ele começou a emplacar sucessos na Colômbia. Em 2012, Yo Te La Dije e Tranquila estouraram nos EUA, nas Américas e na Espanha. E, em 2013, ele obteve seu primeiro mega blockbuster hit com 6 AM. Seu primeiro álbum, La Familia, foi um grande sucesso e, provando que tinha chegado de verdade,  emplacou logo em seguida outro inescapável hit, Ay, Vamos.

O estilo único de Balvin está diretamente ligado a sua história de vida: nascido numa família de classe alta em Medellín, ele cresceu apaixonado por grunge e Nirvana. Depois,  descobriu Daddy Yankee, sua maior inspiração. Sua família foi a falência e Balvin começou a transitar entre dois mundos, estudando numa escola de elite e vivendo num bairro próximo do gueto. Num intercâmbio para os EUA, ficou fascinado pelo universo do rap e hip-hop e todo o business bilionário em torno do gênero. Voltou para sua cidade natal disposto a fazer do reggaeton um negócio similarmente lucrativo. E, claro, o resto é história.

Balvin aponta Yankee como a figura responsável por fazê-lo se apaixonar pelo reggaeton. O porto-riquenho também tem influência direta em outro dos principais nomes ligados a cena de Medellín, Nicky Jam.

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Nicky Jam

Jam nasceu em Massachusetts mas foi criado em San Juan, Puerto Rico. Seu talento chamou atenção de Daddy Yankee, que o apoiou e o treinou em seus primeiros anos, além de ter colaborado com ele em várias músicas. Não demorou para começar a obter sucesso mas as drogas e uma briga com seu mentor (que estava prestes a estourar com Gasolina) deram fim prematuro a sua carreira, interrompida em 2005.

Com a autoconfiança abalada, Nicky Jam se mudou para Medellín. A cidade era louca por reggaeton mas, antes de Balvin explodir, poucos imaginavam que alguém de lá poderia se tornar um grande astro do gênero. A chegada do porto-riquenho na cidade — com seu sucesso prévio e sua antiga associação com Yankee — causou burburinho e não demorou para as portas começarem a se abrir uma atrás da outra.

A forte cultura musical colombiana (cujo gênero local principal é o vallenato) influenciou Jam a dar mais melodia e romantismo a suas produções. E, depois de anos se preparando, ele finalmente estava pronto para oficialmente retornar. Foi um sucesso de imediato. Em 2014, a repercussão arrebatadora do single Travesuras o colocou na primeira linha. Apesar de ter nascido nos EUA e ter sido criado em San Juan, o sucesso dele era made in Colombia.

Em paralelo a Jam e Balvin, outra cria de Medellín começava a deixar sua marca. Enquanto Travesuras estourava, Maluma, então com 20 anos, conquistava a Colômbia com seu rostinho bonito e se estabelecia como o maior teen idol do país. O sucesso da sua música La Temperatura abriu as portas dos EUA, assim como de outros mercados latinos e da Espanha e deixava claro que ele também não estava para brincadeira. Com a ajuda das redes sociais, o garoto se estabelecia como uma das estrelas mais rentáveis da América Latina.

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Maluma

2015: o ano em que reggaeton virou a norma

Se Travesuras tinha dado nova vida a carreira de Nicky Jam, o porto-riquenho — agora baseado em Medellín — não imaginava o que estava por vir em 2015: seu single subsequente se transformaria num dos maiores sucessos em espanhol da história recente.

El Perdón, que contava com a participação de Enrique Iglesias, inquestionavelmente um dos maiores astros da música latina, passou 1 ano inteiro no topo de absolutamente todos os países de língua hispana (e 30 semanas no topo do Hot 100 Latin dos EUA), acumulou mais de 1 bilhão de views no YouTube e se transformou na música em espanhol mais streamed do Spotify (335mi), transcendendo barreiras e atingindo o top 10 de mercados não latinos como Alemanha, França, Suécia e Holanda. A música cristalizou a posição de Jam dentre os maiores nomes da música latina. O single também significou um renascimento de Enrique Iglesias.

De certa maneira, Iglesias serve como um termômetro do que é popular no cenário latino: ele está sempre colaborando e produzindo músicas de maneira milimetricamente planejada para obter os maiores hits.

Sendo assim, a transição de Enrique para o reggaeton foi um momento divisor de águas: era um sinal de que o gênero deixava de ser apenas mais um estilo popular para se transformar no estilo principal.

Iglesias é, desde meados dos anos 90, um dos maiores nomes da música em espanhol. Assim como seu pai, Julio, seu repertório era formado por baladas românticas e, logo de cara, ele virou um dos maiores astros da América Latina, com hits como Experiencia Religiosa e Nunca Te Olvidaré antes de crossover para o mercado anglo-saxão com giga hits como Hero e Escape.

Em 2007, Iglesias voltou as paradas com uma série de sucessos em inglês como I Like It e Tonight (I’m Fucking You), quase todos com participação de Pitbull. Para suas canções em espanhol, contudo, ele seguiu apostando em um som mais romântico, obtendo grandes sucessos como Cuando Me Enamoro, uma colaboração com Juan Luis Guerra que ficou 14 semanas em primeiro lugar, assim como duetos com grandes ícones da música romântica como Romeo Santos (Loco) e Marco Antonio Solis (El Perdedor)

Mas, em 2014, o artista espanhol começou a flertar com estilos mais dançantes. O resultado foi Bailando, uma colaboração com o grupo Gente de Zona e o artista Descemar Santos, ambos cubanos, que mesclava pop, flamenco e um pouco de reggaeton. Foi um sucesso sem precedentes na carreira do artista, superando todos os seus sucessos anteriores (e isso não era tarefa fácil para alguém que, naquela altura, já tinha passado 104 semanas no topo da parada Latina da Billboard).

Foram 41 semanas ininterruptas no topo da Billboard Latin Tracks, um recorde histórico. Nos EUA, a canção vendeu 3 milhões de unidades, números inéditos para uma faixa em língua estrangeira. Na Espanha e na América Latina, a música tocou — sem parar — por 1 ano inteiro. O clipe acumulou mais de 1.6 bilhão de visualizações no YouTube, se tornando o vídeo em espanhol mais visto na plataforma (e o nono mais visto no total).

Repetir esse sucesso não seria fácil. Mas daí Iglesias viu um trecho de El Perdón, que Jam estava previewing no Instagram; pediu para participar e o resto é história. A canção fez o impossível e igualou o sucesso histórico da antecessora, dando para Enrique mais um ano ininterrupto no topo das paradas de todos os países hispano e além (a música foi um enorme sucesso em quase toda Europa continental).

O fenômeno da colaboração com Nicky Jam fez com que Enrique finalmente assumisse seu novo papel de reggaetonero. Duele El Corazón, seu follow-up, uma colaboração com Yandel, provavelmente encerrará o ano como um dos maiores hits de 2016.

O cenário atual

Basta ver a diferença de orçamento entre os clipes de reggaeton de 2014 para o presente para constatar que, graças a rentabilidade dos principais nomes do gênero, muita coisa mudou.

Enquanto Iglesias se acomodava e Nicky Jam ascendia, J. Balvin seguia imparável. Depois do sucesso de 6 AM e Ay, Vamos!, Balvin lançou, em julho, o que se tornaria seu maior hit internacional até então: Ginza. A música foi catapultada quase de imediato para o topo de todos os países que falam espanhol (e substituiu El Perdón na Hot 100 Latin, onde ocupou o primeiro lugar por 20 semanas)  e é a segunda canção em espanhol mais ouvida da história do Spotify. No YouTube, são mais de 700 milhões de visualizações (mas ainda não chega nem perto do sucesso de Ay Vamos! na plataforma).

Balvin atingiu um milestone importante quando foi selecionado para fazer parte do jurado do The Voice mexicano. O programa frequentemente atraí nomes gigantes para seu painel, como Alejandro Sanz e Laura Pausini. Sendo assim, a adição de Balvin foi um huge deal e um testamento de sua força no mercado (de quebra, a candidata dele ainda ganhou a edição), consolidando-o como um household name no México, inquestionavelmente o principal mercado hispano-americano (que tem influência direta no que faz sucesso no lucrativo mercado latino dos EUA). Por lá, ele ainda tem tem um contrato milionário com a Pepsi e aparece nas embalagens do refrigerante.

Ele também se solidifica como um fashion icon — algo nunca antes visto no cenário urbano latino — usando peças Gucci, Saint Laurent, Chanel e colaborando até com a Vogue.

Mais importante, ele segue como um hitmaker impressionante. Otra Vez, sua colaboração com o duo porto-riquenho Zion & Lennox, é atualmente o reggaeton mais badalado na América Latina, no top 5 do Spotify do México, Espanha e Argentina (e disparado em primeiro no Chile e na Colômbia). Seu atual single solo, Safari, acumulou 30 milhões de visualizações no YouTube em uma semana (depois de duas semanas de exclusividade na Apple Music). E o anterior, Bobo, quebrou recorde de views e streams nas principais plataformas.

Assim como Balvin, Nicky Jam também tem o toque de Midas:  depois de 20 semanas ininterruptas em primeiro lugar no Hot Latin Tracks, Ginza foi substituído no topo da Billboard pelo primeiro single pós-El Perdón do porto-riquenho, Hasta El Amanecer. A canção encabeçou a lista por 14 semanas  e quebrou recordes no YouTube  e no Spotify (sendo o single em espanhol de maior sucesso de 2016 em ambas as plataformas).

Sua colaboração com Cosculluela, Te Busco, também está impressionando: apesar de nem sequer ter um clipe ou um lyric video oficial, a canção já tem mais de 300 milhões de views no YouTube e está prestes a penetrar o seleto grupo de músicas em espanhol no Spotify que superaram 100 milhões de streams (apenas 12 canções no idioma atingiram a marca, das quais três são de Jam).

Nada mais natural que tanto o colombiano quanto o porto-riquenho estejam em altíssima demanda. O primeiro colaborou com Pharrell Williams (que cantou em espanhol para a canção Safari) e Justin Bieber (sendo responsável por adicionar alguns versos na versão para o mercado hispânico do giga hit Sorry). O segundo foi acionado por Maná, inquestionavelmente o maior grupo de rock latino , para fazer um remake reggaeton de De Pies a Cabeza, um sucesso de 1992, e também por Sia, que o incluiu na versão latina de Cheap Thrills.

Mas a disputa pelo topo não foi só entre Balvin, Jam e Enrique. O já mencionado Maluma está se provando um fenômeno igualmente potente e, possivelmente, o nome mais rentável de todos. Com seu rosto de proporções perfeitas e seu estilo fashion, o autodenominado Pretty Boy, Dirty Boy emplacou seu primeiro gigantesco hit, Borro Cassette, no começo desse ano. A música atingiu o topo em todos os principais mercados — México, Argentina, Chile, Espanha — e o terceiro lugar nos EUA.

O poder dele ficou claro quando os ingressos de sua turnê foram disponibilizadas. Ele esgotou 5 noites no Luna Park de Buenos Aires em tempo recorde e sua turnê mexicana, incluindo duas noites no lendário Auditorio Nacional da Cidade do México, também estava toda vendida com meses de antecedência. Enquanto Balvin assinou com a Pepsi, Maluma é garoto propaganda da Coca Cola. Nas redes sociais, seus números já superam os de quase todas os outros mega astros latinos. Seus singles são imediatamente adicionados na alta rotação das rádios latinas, além de penetrarem as paradas do Spotify com enorme rapidez. No Youtube, ele é rei absoluto de views. No Instagram, nenhuma estrela hispânica tem tantos seguidores e likes.

Seu calibre é tamanho que sua estreia no Brasil foi digna de estrela internacional de primeiro escalão, aparecendo com equal-billing em Sim Ou Não, primeiro single do novo álbum de Anitta, a maior estrela pop do país (Ginza de J. Balvin também fez sucesso aqui graças a uma versão com a participação dela).

Anitta está longe de ser a estrela mais high profile com a qual o colombiano colaborou. Ele aproveitou uma passagem relâmpago por Barcelona para gravar com uma conterrânea que é, inquestionavelmente, a maior estrela da América Latina, Shakira.  Ele também está no próximo single de outro dos principais astros da região, Ricky Martin. E Desde Esa Noche, sua colaboração com Thalia, está bombando.

A velha guarda

Apesar do enorme sucesso da nova geração, Daddy Yankee segue o rei. Já se passaram 12 anos desde seu primeiro giga hit, Gasolina, mas ele segue no topo das paradas. Shaky Shaky, seu atual single, é, junto com Otra Vez, o maior hit reggaeton do o momento. Atualmente, a canção está em primeiro no Spotify da Argentina e no top 10 de todos os demais mercados. O vídeo da canção é a música em espanhol mais popular do YouTube das últimas semanas (quarto vídeo mais visto no total, superando quase todos os lançamentos de artistas anglo-saxões).

Enquanto o som de Yankee é bem batidão, seu arquirrival, Don Omar, é conhecido por seguir uma linha bem mais romântica. Atualmente, se dedica a atuação, fazendo parte da mega franquia Velozes & Furiosos (que fez de Danza Kuduro música tema de seu quinto filme, um sucesso global).

Apesar de sempre terem posado para mídia como “inimigos”, Yankee e Omar tem, na realidade, uma relação profissional amigável. Esse ano, até fizeram uma turnê em conjunto, The Kingdom, que esgotou as principais arenas dos EUA, incluindo o Madison Square Garden de Nova Iorque, o Staples Center de Los Angeles e a American Airline Arena de Miami.

Além dos dois, outra dupla monopolizou o gênero nos idos dos anos 2000: Wisin & Yandel. Depois de gravar dezenas de sucessos em conjunto, ambos seguiram em carreira solo. Wisin obteve um hit inescapável em 2014, Adrenalina, com a ajuda de J.Lo e Ricky Martin enquanto Yendel fez bonito junto a Daddy Yankee com Moviendo Caderas. Depois, Wisin se juntou a estrela colombiana do pop vallenato, Carlos Vives, no sucesso Notas de Amor e Yandel, sozinho, obteve grande sucesso com Encantadora.

Hit instantâneo

O mercado latino é extremamente fiel. Shakira é capaz de produzir um hit instantâneo no continente hoje em dia quase tão facilmente quanto em 2003 ou em 1997. Ricky Martin, Marc Anthony, Chayanne, Maná e Alejandro Sanz seguem enchendo os maiores estádios. Uma vez que o público latino te aceita entre os grandes, ele não vai te abandonar tão facilmente. Mas fidelidade e consistência não significa que eles não são ofuscados pelas novas sensações jovens. Por isso, um remédio foi encontrado: se associar com as tais sensações.

Seguindo o exemplo de Iglesias, todos os principais  nomes da música em espanhol estão se rendendo ao reggaeton.

Lançado em 2015, La Mordidita, de Ricky Martin, foi o maior hit do porto-riquenho na década. O próximo single dele, que será lançado essa sexta, será uma colaboração com Maluma. O lendário cantor colombiano Carlos Vives também frequentemente colabora com o pretty boy colombiano (o fato de dividirem um empresário provavelmente ajuda) e obteve um grande sucesso com Notas de Amor, junto a Wisin e Daddy Yankee. Marc Anthony emprestou seus vocais para La Gozadera, o giga hit do Gente de Zorra que homenageia a América Latina (e, ironicamente, foi um dos maiores hits da história recente não no continente, mas sim na Espanha, atrás apenas de El Perdón). Com Desde Essa Noche, também colaboração com o fenômeno Maluma, Thalía obteve seu maior sucesso da década.

Outra técnica utilizada para maximizar o impacto das canções no mercado latino: regravá-las em estilo reggaeton.

Carlos Baute, popular cantor de origem venezuelana, tem obtido grande sucesso com Amor y Dolor refeito pelo duo porto-riquenho Alex & Fido. A banda romântica mexicana Reik fez sucesso com Ya Me Enteré mas o urban remix, refeito por Nicky Jam, é o que está penetrando o top 10 do Spotify em países onde a versão original não chegou sequer ao top 50 (como Argentina, Chile e Espanha). Como já mencionei antes, até o Maná, não exatamente conhecidos por serem inovadores, se rendeu, relançando uma versão do seu hit de 1992, De Pies à Cabeza com Jam. Vários dos maiores hits internacionais do ano (Cheap Thrill; Sorry; Cold Water) também adicionaram os principais nomes do gênero (Balvin, Jam, Don Omar) em remixes lançados especialmente para o mercado hispânico.

Dos países hispânicos para o mundo

O mais óbvio próximo passo é fazer com que o gênero conquiste de vez o resto do mundo.

Isso inclui, claro, os dois principais mercados de todos, notoriamente resistentes a músicas estrangeiras: os EUA e o Reino Unido (Gasolina e Danza Kuduro foram as únicas duas músicas a atingirem o mainstream nesses dois países).

No Brasil, Anitta, inquestionavelmente o maior nome pop do país, serve como uma embaixadora não oficial do gênero. Com a ajuda dela, Ginza, de J Balvin, obteve sucesso por aqui e Maluma está sendo introduzido em grande estilo pela diva pop . Fica a dúvida se o reggaeton, que já conquistou todo o resto do continente, conseguirá levantar voo em nosso mercado.

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Alguns acreditam que gravar em inglês pode agilizar a conquista do mundo anglo. Nicky Jam, que nasceu nos EUA e Enrique, um ato global, costumam gravar versões em inglês dos seus maiores hits. Apesar de o idioma ter mais alcance, nenhum desses remakes ganhou tração.

Já Balvin declarou que não pretende se render. A aposta dele é que o mundo English-speaking que se entregará ao espanhol (como Pharrell Williams faz no atual single do colombiano ou Drake fez em Odio, do astro da bachata Romeo Santos).

Seja como for, a verdade é que os ventos sopram a favor do reggaeton: os dois maiores sucessos de 2016 foram One Dance de Drake e Work da Rihanna, ambas músicas que, assim como o estilo sensação latino, têm enorme influência jamaicana e caribenha. Repetição e batidas familiares são a porta para o sucesso. Logo, essa onda tropical abre precedentes para músicas com estilo similar — como reggaeton – acontecerem nas rádios e nas paradas mundo afora.

Será que é só questão de tempo até as paradas globais refletirem as da Espanha e da América Latina?

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Causando nas Paradas: Dominação escandinava

O sueco Max Martin é, sem duvida nenhuma, o produtor mais influente e poderoso da música popular moderna, tendo sido responsável tanto pelos hits definidores de Britney Spears e dos Backstreet Boys no fim dos anos 90 quanto pelos sucessos inescapáveis contemporâneos de Taylor Swift, Katy Perry, The Weeknd, Maroon 5 e inúmeros outros. Por sua vez, grande parte do repertório estourado de Rihanna veio dos estúdios dos noruegueses do Stargate.

Baseado apenas nesses dois, já dá para comprovar que a mágica escandinava é elemento essencial no sucesso de 99% dos nomes mais estourados da música pop global. Recentemente, porém, a Escandinávia parece ter cansado de ficar apenas nos bastidores e está começando a invadir o palco principal.

Estrelas provenientes da região estão dominando as paradas dos mercados mais influentes do mundo e, cada vez mais, os charts da Noruega, Dinamarca e, principalmente, da Suécia são indicativas de futuros sucessos internacionais.

A banda dinamarquesa Lukas Graham (capitaneada, coincidentemente, por Lukas Graham) é um grande sucesso na seu país de origem desde o seu debut, em 2012. Mas, no fim de 2015, a música 7 Years virou o primeiro chart-topper deles no país vizinho, Suécia. E, se a Suécia aprovou, grandes chances do resto do mundo também abraçar.

Voila. Essa semana, a música completa 1 mês no topo da parada de singles do Reino Unido, o mercado mais influente da Europa. O single também acaba de alcançar o primeiro lugar no iTunes dos EUA, obviamente o maior mercado fonográfico do universo.

Em dezembro de 2015, antes de 7 Years acontecer mundo afora, a canção já tinha sido desbancada na Escandinávia pelo DJ norueguês Alan Walker. Faded foi o primeiro lançamento de Walker, que tem apenas 18 anos (!!!!), e foi imediatamente para o primeiro lugar das paradas na Suécia, na Dinamarca e em sua Noruega natal.

Com o seu sucesso explosivo instantâneo, Walker demonstra seu potencial para se transformar numa mega estrela da EDM (electronic dance music) junto com outros nomes locais como Kygo (da Noruega), Avicii (o sueco é a maior estrela do gênero) e os aposentados da Swedish House Mafia que foram diretamente responsáveis por dar o gás necessário para transformar a música eletrônica em um dos gêneros mais lucrativos e populares da atualidade.

Depois de estourar na Escandinávia, o DJ começou 2016 alcançando o topo de todos os demais países europeus. Recentemente, chegou ao primeiro lugar na Alemanha, o terceiro maior mercado fonográfico ocidental, onde quebrou o recorde histórico de streaming, com 3.7 milhões de plays em plataformas como Spotify e Deezer em uma semana. No Reino Unido, a música ainda não chegou ao top 20 mas, essa semana, ela foi oficialmente inclusa na playlist da Radio 1, a estação de rádio mais influente do país.

Finalmente temos Zara Larsson. A loira, que parece ter nascido pronta para a fama pop, também tem apenas 18 anos e, através das redes sociais, mostra ser muito mais do que apenas um rostinho bonito, com seu feminismo e defesa de imigrantes e refugiados.

Na sua Suécia natal, ela já é popular faz bastante tempo, tendo sido revelada num programa de talento local e tendo atingido o topo da parada pela primeira vez com a balada Uncover, um gigantesco hit em 2013

Em junho de 2015, ela voltou para o primeiro lugar em seu país: a upbeat Lush Life foi um dos grandes hits de verão no país. Meses mais tarde, mais um mega-hit com Never Forget You, uma colaboração com o britânico MNEK. Ambas as canções também arrasaram por todo o resto da Europa e Lush Life inclusive chegou ao topo na Alemanha.

Agora, Larsson parece estar pronta para conquistar o mundo. No Reino Unido, a menina tem duas canções no top 5: Girls Like, sua colaboração com o rapper Tinnie Tempah e, algumas posições acima, seu megasucesso solo Lush Life. No fim do ano passado, Never Forget You passou semanas no top 10 e já vendeu mais de 600 mil unidades.

Agora, Zara está de olho no maior mercado de todos. Lush Life está sendo inclusa nas playlists das principais estações top 40 dos EUA, como a Z100 nova-iorquina e KIIS de Los Angeles. Enquanto a canção está escalando os charts, Never Forget You, seu hit dance com o MNEK, acaba de penetrar o top 10 do iTunes estado-unidenses. Além disso, ela foi nomeada o rosto de uma nova campanha de marketing da gigantesca de beleza Clinique. Nada mal.

Qual será o próximo mega hit? A dica é ficar de olho no chart da Suécia no Spotify.

Worth noting: o Spotify, responsável por mudar a maneira que as pessoas escutam música em todo o mundo (streaming já é até contabilizado nas principais paradas mundo afora), é outra criação sueca. No país, mais de 90% do consumo de música é feito através do aplicativo.

A plataforma, cuja sede fica em Estocolmo, é uma grande entusiasta de atos escandinavos. O  DJ sueco Aviccii, a maior e mais bem paga estrela da região atualmente, aponta o serviço de streaming como peça chave na sua explosão global. Atualmente, o Spotify promove com entusiasmo Zara Larsson, Lukas Graham e Alan Walker, os colocando em playlists proeminentemente (como a Today’s Top Hits, com mais de 7 milhões de seguidores) e dando destaque a eles em sua página inicial.

De Max Martin ao Spotify aos popstars que dominam as paradas da atualidade, parece que o Scandinavian musical takeover não vai parar tão cedo.

Causando en Español: The king of bachata

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Não se engane pela cara de pagodeiro, ele é o rei do bachata

Engana-se quem pensa que o espanhol é a língua predominante das Américas. Mais de metade dos países — a maior parte pequenas ilhas caribenhas — falam francês, creole, inglês ou holandês. Mas, quando falamos especificamente de países com populações grandes, daí as coisas mudam: dentre as 25 nações mais populosas da América do Sul; da America Central e da America do Norte, apenas cinco não tem o castelhano como o idioma principal. O maior de todos, claro, é os EUA mas, curiosamente, a terra do Tio Sam não tem idioma oficial e, apesar de o inglês ser a língua predominante, o espanhol é usado como língua primária por 10% da população e é dominado por mais de 50 milhões de americanos. Isso significa que os Estados Unidos são o segundo maior país hispano-hablantes do mundo, superando a Espanha, a Colombia e a Argentina e ficando atrás apenas do México (que tem uma pop. de mais de 120 milhões).

Levando em conta esse dado, fica claríssimo que o Brasil destoa bastante do resto das Américas. O segundo maior país da região, abrigando quase metade de toda a população da América do Sul, a nossa língua é o português (no way!! Não é espanhol brasileiro?!) e não temos sequer uma comunidade considerável de gente que fala espanhol por aqui. Sim, ambas línguas são, até certo ponto, parecidas mas, obviamente, estão longe de ser iguais (e ai do ignorante que sugerir para um brasileiro que espanhol e português são a mesma coisa).  Por incrível que pareça, eu acho que isso é apenas um detalhe: para cada diferença, também há semelhanças, tanto históricas quanto contemporâneas; tanto boas (calidez, otimismo, temperaturas boas, joie de vivre) quanto ruins (corrupção; desigualdade social; serviços públicos que deixam a desejar). O Brasil é gigantesco, praticamente um continente por si só, e tem, dentro dele, uma infinidade de culturas, mas isso não elimina nossas muitas semelhanças com nossos hermanos America afora.

Porém, contudo, todavia…. quando o assunto é cultura pop, daí sim o Brasil vira um caso a parte. Para cada Chaves/Shakira/Maria do Bairro/Usurpadora/RBD que estoura por aqui, temos milhares de outras coisas que enlouqueceram o continente e foram ignoradas por nós. Por exemplo, o hit completamente inescapável em toda a América Latina atualmente (e também na Espanha) é El Perdón, de Nicky Jam com Enrique Iglesias. É quase impossível ir numa festa — seja ela em Buenos Aires; Bogota; Punta del Este ou Cidade do México — e não ouvir Enrique entonando porque yo sin ti y tu sin mi; dime quien puede ser felíz; esto no me gusta, esto no me gusta.

No Brasil, essa música, assim como quase qualquer canção em espanhol, é completamente ignorada pelas rádios e é desconhecida por grande parte do público. Enquanto Enrique está tendo um novo ápice nas Américas (esse é o segundo hit gigantesco consecutivo dele nos últimos meses; Bailando foi outro sucesso completamente inescapável no ano passado. Apesar de uma versão brasileira com participação de Luan Santana, a música não aconteceu da mesma maneira por aqui), Iglesias filho é apenas uma figura vagamente familiar no Brasil, mais associado com o fim dos anos 90 — época que ele tinha grandes hits em inglês —  do que com o presente.

Sendo assim, não é surpresa que ninguém no Brasil tenha ouvido falar de Romeo Santos. Mas o cantor, de 34 anos, é o maior fenômeno da música em espanhol, imparavel em todo o continente. Atualmente, nem Shakira consegue chegar perto dos resultados obtidos por ele. Em fevereiro, na Cidade do México, 50 mil ingressos foram vendidos em tempo recorde para seu show no Foro Sol. Na semana seguinte, em Buenos Aires, 90 mil pessoas lotaram dois shows no estádio do River Plate, o maior do país. Depois disso, foram mais 45 mil no Estádio Nacional de Santiago, no Chile. São os mesmos palcos ocupados por Madonna, Paul McCartney, U2 e One Direction em suas respectivas turnês latino-americanas e Santos as lotou com facilidade, cobrando preços similares. Seja em Asunción no Paraguai ou em Montevideo no Uruguai, existem poucos artistas que conseguem uma convocatória tão considerável quanto Romeo.

Santos, cujo nome de batismo é Anthony, canta bachata, um gênero romântico originado na Republica Dominicana. Apesar de ter alcançando a fama cantando em espanhol, ele é americano, nascido e criado no Bronx, em Nova Iorque. Foi no bairro, ainda adolescente, que ele se juntou com seu primo e alguns amigos e formou um grupo de música romântica, Los Tinellers (no sotaque dominicano, pronuncia-se Los Teenagers, os adolescentes). Eles lançaram o primeiro álbum de maneira independente em 1995 mas foram completamente ignorados. Cinco anos mais tarde, eles se relançaram com o nome de Aventura.

Em 2002, o Aventura explodiu internacionalmente, A música Obsesión foi um dos maiores hits do ano não nos EUA ou na América Latina mas na Europa, onde a canção alcançou o topo na Alemanha, na França (sete semanas em primeiro lugar e quase 1 milhão de unidades vendidas), na Suíça e na Itália (16 semanas no topo!). Nos últimos três países, o segundo CD do grupo, We Broke the Rules, também atingiu o primeiro lugar. Impulsionado pelo sucesso internacional, a música começou a ganhar espaço nas Américas (hoje em dia, ela é um clássico) e, aos poucos, o Aventura começou a se consolidar.

Em 2005, o terceiro CD dos meninos, God’s Project, atingiu a terceira posição da parada latina estado-unidense e deu origem a diversos hits obtendo, eventualmente, certificado de 4x Platina. Em 2006, eles esgotaram o Madison Square Garden pela primeira vez. Em 2007, Mi Corazoncito foi o maior sucesso em espanhol do ano nos EUA. E, em 2009, com The Last, eles se consolidarem como o maior sucesso do segmento latino nos EUA: o álbum ocupou o primeiro lugar da parada hispano durante 16 semanas; eles se apresentaram para Barack Obama e fizeram a maior turnê deles até então, sendo um dos poucos atos, tanto anglo-saxões quanto hispânicos, que esgotaram o Madison Square Garden com quatros shows consecutivos. Eles atingiram também enorme popularidade na América Latina, rodando extensivamente a região e fazendo dezenas de shows esgotados. Em 2011, no ápice de popularidade, o Aventura anunciou que iria se separar.

O rompimento, claro, serviu como um trampolim para a carreira solo de Romeo, o vocalista e grande estrela do grupo  compositor de todas as canções. Alguns meses antes do anuncio, ele tinha assinado um contrato de 10 milhões de dólares com a Sony. Como parte do Aventura, Santos pertencia a uma micro subsidiária da companhia, a Premium Latin Music, especializada em bachata mas, com o novo contrato, ele seria parte da primeira linha de artistas da gravadora. O primeiro álbum dele, Formula vol. 1, foi lançado em novembro de 2011 e tinha como objetivo consolida-lo como o rei da bachata urban. O álbum contou com colaborações de grandes estrelas — tanto da musica hispano (Tomatito; Mario Domm, vocalista da banda Camila) quanto da americana (Usher; Lil Wayne) — e, além de receber disco de platina, o CD deu origem a quatro hits número 1 na parada latina da Billboard e uma excursão com 75 shows.

A turnê, apropriadamente intitulada The King Stays King,  abriu com três shows esgotados no Madison Square Garden. Foram 36 shows nos EUA, incluindo apresentações para mais de 19 mil pessoas em Miami, Houston, Los Angeles, Nova Jersey, Chicago, Phoenix, San Antonio, Anaheim e Orlando. Dentre os 37 shows na América Latina, houve paradas em estádios da Republica Dominicana, Peru, Colombia, Panama e El Salvador. Em Buenos Aires, 18 mil ingressos foram vendidos e, em Santiago, 15 mil. Santos ainda se apresentou em seis cidades do México e em Barcelona e Madri, na Espanha.

Romeo parecia ter atingido o ápice. Mas o que ninguém esperava é que o primeiro álbum dele seria apenas a introdução do fenômeno que ele viraria. Sim, naquele então, Romeo era indubitavelmente uma das grandes forças do nicho hispano nos EUA e também uma das estrelas mais rentáveis pan-latina. Mas, com seu álbum seguinte, Formula vol. 2, ele deixaria de ser uma das para se tornar grande estrela da musica em espanhol.

O primeiro single do segundo álbum solo do cantor foi o que deu o empurrãozinho para fazer dele o fenômeno imparável que ele é hoje. A sugestivamente entitulada Propuesta Indecente se transformou num dos maiores hits em espanhol da última década, uma daquelas raras canções que alcançou a façanha de se transformar num fenômeno em todos os países que falam em espanhol.

Nos EUA, a música quebrou todos os recordes: foram 86 semanas no topo das paradas. Lançada em julho de 2013, a música continua em segundo lugar nos charts dessa semana (de junho de 2015!) da Billboard (atrás apenas do já mencionado hit de Nicky Jam e Enrique Iglesias). A canção ainda conseguiu transcender a America Latina e chegou na Espanha. O país também se viciou no hit de Romeo, que alcançou o topo das paradas de  singles e foi streamed mais de 10 milhões de vezes pelos espanhóis no Spotify. No Youtube, o vídeo da música ultrapassou 700 milhões de views, sendo um dos clipes mais vistos da história da plataforma.

Impulsionado pelo fenômeno de Propuesta Indecente, a arena Madison Square Garden — a mais prestigiosa dos EUA e a maior de NYC — ficou pequena para ele. Em julho do ano passado, Romeo fez dois shows esgotados no Yankee Stadium, reunindo 90 mil pessoas no total. Ao se apresentar no estádio, localizado a pouquíssimas quadras de onde ele nasceu e foi criado, no Bronx, Santos se junta a um seletíssimo grupo de artistas que inclui, além dele,  apenas Roger Waters (que não conseguiu esgotar o estádio duas vezes); Eminem; Jay-Z; Justin Timberlake; Madonna e Paul McCartney. Se apelarmos para tecnicalidades, o grupinho é ainda mais seleto: Jay-Z; Eminem e Timberlake nunca se apresentaram solo no estádio (Eminem se apresentou ao lado de Jay em 2010e Timberlake também se juntou ao marido de Beyoncé em 2013).

Na sua Nova Iorque natal não existe nenhum artista que venda tanto ingressos quanto Romeo. Nessa turnê, além dos 90 mil no Yankee, ele ainda fará, em julho, três shows no Barclays Center, no Brooklyn, para um total de 60 mil pessoas.

E não foi só Nova Iorque onde a demanda ultrapassou, em muito, o esperado. Em Buenos Aires, os dois shows programados para o estádio G.E.B.A., para 18 mil pessoas cada um, se transformaram em cinco apresentações completamente esgotadas, com um total de 90 mil assistentes. Sete meses depois, ainda na mesma turnê, ele voltou para os já mencionados concertos no River Plate, atraindo novamente 90 mil fanáticas. Em Santiago, a mesmíssima coisa: sete meses antes de vender, em tempo recorde, os 45 mil ingressos para seu show no Estadio Nacional, Santos tinha atraído a mesma quantidade de gente para três shows na Movistar Arena (que, originalmente, estava programado para ser apenas um). E, no México, foram 42 mil ingressos para dois shows na Arena Cidade do México, que abriram a turnê do último CD dele em março do ano passado, antes do retorno triunfal em fevereiro, menos de um ano depois, com um show para 50 mil no Foro Sol.

A popularidade de Santos é digna de atenção porque, ao contrário do que muitos pensam, o gosto do público latino nos EUA pode diferenciar bastante do gosto da América Latina e artistas hispanos nascidos nos EUA em particular tem certa dificuldade para penetrar grande parte dos maiores mercados da América do Sul (Argentina; Chile) e mesmo do México (Selena, por exemplo, o maior fenômeno da música latina dos EUA, só se transformou num gigantesco sucesso no México depois de sua morte e ela não é mainstream na Argentina, por exemplo). O fato de Romeo estar esgotando os maiores estádios de Buenos Aires e de Santiago é surpreendente.

Mesmo nos EUA, sua popularidade transcendeu barreiras. Bachata, o gênero que ele canta, sempre foi um ritmo considerado bastante rural e pouco atraente pela nova geração. Santos reverteu tudo isso. Além disso, o ritmo sempre gozou de certa popularidade na costa leste americana — onde existe uma grande concentração de imigrantes da Republica Dominicana e países caribenhos vizinhos — mas o resto do público latino dos EUA, como as gigantescas comunidades latinas no Texas e na Califórnia (que tem populações com origens predominantemente mexicanas e centro-americanas), nunca tiveram nenhum interesse ou familiaridade com o gênero. Santos, primeiro com o Aventura e depois com sua carreira solo, conquistou esses mercados e ainda influenciou uma geração de artistas novos, como Prince Royce, provavelmente o segundo cantor mais popular entre o público hispano nos EUA atualmente e que também tem fortíssima influência de bachata (Royce, assim como Santos, também é do Bronx).

Nos EUA, Romeo foi ajudado pelo seu estilo moderno. O fato dele cantar num falseto bastante associado ao R&B e ter crescido no Bronx faz muitos chamarem o seu estilo de bachata urban. Essa associação ficou ainda mais forte nos últimos anos: depois de colaborar com Usher e Lil’ Wayne no seu primeiro CD, Santos teve a participação de dois dos rappers mais quentes da atualidade no seu segundo álbum: Drake, indiscutivelmente o maior vendedor do gênero hip-hop do presente, e Nicki Minaj.  Apesar disso, ele não parece muito afim de crossover e começar a apelar para o grande público americano. Em Odio, não foi Romeo que se rendeu ao rap. Foi Drake, um dos maiores rappers da atualidade e um superstar global, que se rendeu ao bachata, cantando um fragmento considerável da música em espanhol (com surpreendente habilidade). Em Animales, Nicki também se arrisca no spanglish em seu verso (Dame un beso, yo necesito/Dominicana, Puerto Rico).

Com o status de megastar latino alcançado, a expectativa geral é que ele dê o passo seguinte e comece a cantar em inglês para um público ainda mais global. Mas a música de Romeo é tão latina de raiz que seria bastante estranho ouvi-la em qualquer outro idioma se não o espanhol. E, de qualquer maneira, mesmo com seu repertório 100% bachata en español, ele tem uma respeitável carreira internacional. Na sua atual turnê, ainda impulsionado pelo sucesso fenomenal de Obsesión faz mais de uma década, ele cantou nas maiores arenas de Paris, Roma e Milão e também fez apresentações em Hannover, na Alemanha; em Londres e em Amsterdam. Ele também fez algumas aparições em veículos mainstream estado-unidenses: ele ensinou um pouco de espanhol para Elmo em Sesame Street; cantou no Tonight Show e fez uma participação em The Bachelor. Ele teve um cameo no blockbuster Velozes & Furiosos 7. E em abril, ele fez uma grandiosa apresentação no Today Show, um dos matinais mais importantes do país.

Na TV, ele teve que dar uma moderada em suas performances que, em sua versão original, nunca seriam permitidas no prime time americano. Em seus shows, ele é conhecido por apresentações com altíssima dose de erotismo. O ápice de seus concertos é quando ele chama uma fã — pode ser gorda, magra, jovem ou velha — para uma sessão de pegação no palco. Eles se abraçam, se bolinam, as vezes se beijam e acabam de baixo dos lençóis de uma cama cenográfica. O público, óbvio, vai a loucura.

No palco, Romeo se entrega totalmente, sem nenhum pudor. Fora dele, porém, guarda sua vida pessoal a sete chaves e, diferente da maior parte dos artistas pop, ele é zero midiático. Um dos únicos momentos que  mostrou um pouquinho de sua vida particular foi quando apareceu, junto a seu filho de 14 anos, na capa da People en Español. Nem mesmo perguntas sobre sua sexualidade ele responde com muito entusiasmo. As especulações atingiram o ápice quando, no seu último CD, ele lançou a música anti-homofobia No Tiene la Culpa, um ato particularmente corajoso no mundo ultra machista e conservador latino.  Em entrevista para Billboard, ele falou diretamente sobre os boatos: “A minha relutância de responder essa pergunta faz com que as pessoas tenham certeza que estou escondendo algo. Eu não quero vender nada, só minha música. Mas não, não sou gay. Só não quero apresentar minha namorada. A única coisa que posso revelar é que não sou casado” (quem investigou afirma que ele namora, faz anos, com uma mulher anônima que vive no seu Bronx natal).

romeo santos
Na capa da Billboard, a principal publicação da indústria fonográfica americana, que o chamou de “Justin Timberlake em espanhol”

Esse enorme compromisso em manter sua privacidade é só um dos muitos aspectos que fazem Romeo tão fascinante. Nascido e criado nos EUA, com inglês como primeira língua, sua falta de interesse em crossover para o mercado global não deixa de ser outro aspecto bastante singular. De certa maneira, é quase como se ele tivesse feito um crossover ao contrário: depois de chamar enorme atenção na Europa e conquistar os EUA, ele colocou suas garras na América Latina. As cartas não estavam a seu favor — bachata, até a explosão do Aventura, era um ritmo antiquado que, to put it bluntly, era ouvido primariamente por gente pobre (motorista de ônibus; domésticas; porteiros) e rural — mas ele conseguiu reverter totalmente o jogo, mudando, no processo, a direção do pop latino. Ser Shakira — a artista latina mais conhecida e celebrada do planeta — tem suas vantagens mas, por outro lado, Romeo não precisa disso: de jatinhos particulares aos maiores estádios, tudo já está a seu alcance. Para Billboard, Romeo, que não é conhecido pela sua humildade, foi claro: “eu toco nos mesmos lugares que os maiores artistas do mundo, que a Beyoncé. Só que eu faço isso em espanhol”. Romeo, não tem porque ser modesto: Beyoncé ainda não esgotou o Yankee Stadium. Nem a Shakira.

Não acabou! Continue reading para conhecer o “herdeiro” de Romeo Santos

Continue reading Causando en Español: The king of bachata

On my pop radar: maio/2015

Esse blog tem um objetivo claro: falar de cultura pop, de um lugar (relativamente) imparcial. Quase sempre dou uns pitacos mas esses raramente são o foco dos posts. Pois então, isso é o total oposto do que vocês podem esperar dessa nova coluna do site, On my pop culture radar, que será totalmente pessoal. Como o título indica, aqui eu falarei sobre o que está no MEU radar, ou seja, o que está me empolgando e me envolvendo na cultura pop no momento: seriados; musicas; livros; filmes e demais assuntos. A idéia é que ela seja mensal mas, né? Não prometo nada. Até porque sou mega exigente e nem todo mês tem coisas que me empolgam na cultura pop.

Essa primeira coluna vai ser supersized porque, além de abril, vai incluir algumas coisinhas que me empolgaram bastante em março, a começar por….

Broad City

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Full disclaimer: não tenho hábito de acompanhar seriados (*gritos de choque do público*). A minha déficit de atenção não me permite acompanhar nada por muito tempo e, sério, a maior parte das séries são ruins. Tenho amigos que acompanham cinco, seis seriados e penso “como eles agüentam?!“.

A lista de seriados que tentei assistir nos últimos tempos (últimos tempos = últimos 6 anos) é relativamente grande. Alguns, bem poucos, eu consegui assistir duas temporadas completas (Girls, não sei como nem porque e Gossip Girl… eu era jovem, não me julguem) e, outros, eu checked out no fim da primeira temporada e never looked back (Modern Family. Que eu amei com loucura no primeiro semestre de 2010 e hoje acho tosquíssimo; True Blood porque, na época, eu estava sem internet e não tinha o que fazer; Parks & Recreations, que eu gostei mas nunca tive motivação de ver mais, mesmo amando Amy Poehler e Aziz Ansari e querendo muito chegar no episódio do treat yo’ self ).

De resto, acho que nunca consegui passar de poucos episódios, seja porque achei novelesco e formulaico demais (Empire; Scandal) seja porque eu gostei do que vi mas simplesmente esqueci da existência do programa (How to Get Away with Murder. Que, alias, preciso binge watch um dia desses). Alguns seriados eu assisti o primeiro episódio e pensei “hmm, meio boring mas, a julgar pelo que as pessoas dizem, deve ficar fantástico depois. Tenho que continuar assistindo!” daí procedi a nunca mais assisti-los (Dexter, que eu sei que tem uma temporada final merda; Breaking Bad, que eu sei que tem uma temporada final mara); outros eu dozed off nos primeiros 20 minutos e desisti (Games of Throne; Orange is the New Black) e ainda teve aqueles que tentei mas simplesmente não entendi o hype (Homeland). Tem seriado que eu já vi um monte de episódio fora de ordem e penso “tão divertido! Um dia tenho que assisti-lo na integra” e daí nunca o faço (30 Rock; The Office) e outros vejo a repercussão e os números e concluo que  “nossa, todo mundo fala que é tão bom! Tenho muito que acompanhar!” mas no fundo penso “eh… not really” (True Detectives; Walking Dead). Alguns até comprei o DVD (em tempos pré-Netflix/Popcorn Time) e assisti — e gostei — do primeiro episódio antes de nunca mais tocar nele (Downton Abbey. Alias, pena que comprei em Londres, pq bem que eu poderia devolver…. apesar de que duvido que eles aceitassem devolução de algo comprado em 2010, né).

Como você pode ver, eu sei os seriados que bombam e todo mundo curte. E eu tento (a não ser que sejam Two and a Half Man ou Big Bang Theory. Esses podem arder no mármore do inferno). Mas não costuma dar muito certo. Toda vez que vejo a lista de seriados do Netflix ou do Popcorn Time vejo dezenas de coisas que eu penso “quando eu tiver tempo…”. Mas daí, quando tenho tempo, prefiro fazer outras coisas. E quando, por algum acaso, decido ver um seriado, em geral fico inquieto e numa vibe tipo “poderia estar fazendo coisa melhor” e “preciso de uma Ritalina para assistir isso”.

Enfim, não sou de ver seriado. Mas, quando vejo, daí prefiro comédia hands down. Elas me atraem porque são fáceis de assistir e são leves. Com drama, eu sou exigente e espero muito do roteiro. É muito fácil cair em formulas fáceis; inverossímeis e clichês. Comédias, por outro lado, só têm um pré-requisito: me fazer rir. Me fez rir, cumpriu sua função.

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Mesmo assim, isso não significa que eu assista muita comédia. Mesmo as que me fazem rir, eu nunca assisti integralmente ou então, assisto numa velocidade penosa, super lenta (ainda to tipo no sexto ep de The Unbreakable Kimmy Schmidt que eu sei que vocês todos assistiram em tipo um dia). Mas um seriado recente foi paixão a primeira assistida: Broad City. Foi o primeiro seriados em ANOS onde eu esperava de madrugada, ansiosamente, pelo novo episódio. Vi tudo assim que foi lançado, amei muitíssimo e ainda não o superei (a segunda temporada já acabou faz mais de um mês. E a terceira, só em janeiro do ano que vem).

Broad City é criado por Ilana Glazer e Abbi Jacobson, que interpretam versões um pouco humoristicamente exagerada delas mesmo. No seriado, Ilana e Abbi são duas garotas que vivem em Nova Iorque cujas vidas são uma bagunça infinita (eu me identifquei plenamente e sei que não fui o único), mas, mesmo assim, estão dispostas a se divertir ao máximo e tirar proveito de qualquer situação. Abbi é mais certinha e conta com o estimulo de Ilana, que é bem porra louca, para sair de sua zona de conforto. Juntas, elas são hilariantes, passando por todo tipo de aventura na selva urbana que é NYC.

O seriado é tudo que eu amo: urbano; identificável; inteligente; inovador; sem papas na língua; hilário. Ouvi falar dele pela primeira vez no começo do ano passado, logo depois que a primeira temporada tinha sido concluída nos EUA. No Twitter, tava todo mundo buzzing about it, até Lady Gaga (que proclamou que Broad City era seu programa favorito. Natalie Portman foi outra que disse a mesma coisa) e resolvi ir checar o que todo esse hype was about. Assisti a primeira temporada em tempo recorde.

Um ano se passou e a segunda temporada chegou. Eu gostei da primeira temporada mas nem me empolguei tanto assim com a chegada de novos episódios. Primeiro, porque já tinha se passado tanto tempo e, segundo, porque eu achei que a qualidade foi caindo ao longo da primeira temporada.

Mas bom, fui lá assistir os novos episódios e, pqp, meu amor pela serie foi consolidado, cristalizado e oficializado com uma série de tatuagens pelo meu corpo, incluindo Broad City, amor verdadeiro amor eterno no meu pé. A primeira temporada foi boa mas a segunda, na minha opinião, à excedeu. Certos episódios (tipo o do consolo) eu ainda rio só de pensar sobre.

broad city

Mais do que a qualidade do seriado em si, ele me empolga pela quantidade de talento carne fresca que ele introduziu, começando pelas próprias Abbi e Ilana, altamente talentosas e que estão dando um fresh take e uma nova roupagem à comédia americana. Ambas estão escrevendo filmes no momento e acho que a indústria de entretenimento só tem a ganhar. Elas oferecem uma nova perspectiva e acho isso positivo e super importante para combater a estagnação que a indústria sofre de maneira geral.

Alias, sendo sincero, o talento de Abbi e Ilana me “irritou” um pouco. No seriado, elas são super identificáveis com a vida messy delas mas, na real, elas são gênias e roteiristas e showrunners super eficientes e accomplished. Absurdo elas nos enganarem e fazer a gente acreditar que elas são just like us quando, na real, elas são bem mais talentosas.

Mas bom, inveja aside, Ilana e Abbi, e todo o talento delas, são mais do que bem vindas. E a nós, resta tentar colocar nossas vidas em ordem e esperar a terceira temporada. Espero que ela seja igualmente boa, porque senão vou começar a me arrepender de todas as tatuagens que fiz….

(e não gente, não fiz nenhuma tatuagem relacionada a Broad City (ainda). Foi só uma piadinha).

Como faço para assistir Broad City?: olha, eu sempre costumo incentivar a opção legal, seja no Netflix ou no site oficial da emissora. Mas, como essa opção não existe no Brasil, todos os episódios estão disponíveis aqui ou, se você prefere vê-los legendados (tanto em português quanto em inglês), no app Popcorn Time.

Amy Schumer

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A primeira vez que vi Schumer foi em algum episódio de Girls, no comecinho de 2013. Alguém comentou que ela era uma comediante muito divertida e, por algum motivo, resolvi ir atrás do trabalho dela. Achei o stand-up Mostly Sex Stuff e, logo nos primeiros cinco minutos, já estava rendido e apaixonado. Claramente não fui o único porque, desde que o especial cômico dela foi ao ar, a carreira dela despontou de maneira absurda.

Esse mês, Amy foi nomeada uma das 100 pessoas mais influentes do mundo pela revista TIME e está prestes a lançar um filme, estrelado e roteirizado pela própria, com direção do celebradíssimo Judd Aptow e participações de Jon Heder; Vanessa Bayer; LeBron James; Ezra Miller; Tilda Swinton; Marisa Tomei e Daniel Radcliffe. Ela também tem um bem-sucedido programa de sketchesInside Amy Schummer, que acaba de estrear sua terceira temporada e tem tido momentos de enorme repercussão, como a paródia de Friday Night Lights; o vídeo que satiriza a obsessão atual da cultura pop americana com bundas e, claro, o segmento que teve participação de Tina Fey, Julia Louis-Dreyfus e Patricia Arquette.

Apesar de me divertir com alguns sketches, nunca acompanhei ou me entusiasmei muito com o programa de Schumer. Mas, mesmo assim, fui lembrado o quanto a adoro com as várias aparições que ela fez nas últimas semanas para promover tanto o filme quanto o seu programa. Ela está completamente apaixonante na capa da Entertainment Weekly e foi o único ponto positivo de um chatíssimo MTV Movie Awards (“metade de vocês não tem idéia de quem eu sou; a outra metade acha que eu sou a Meghan Trainor”). Além disso, seu mini-stand up no A Night of Million Stars foi maravilhoso. O filme dela, Trainwreck, foi muitíssimo bem-recebido no SXSW e chega aos cinemas dos EUA em julho.

Assim como Abbi e Ilana, Schumer é uma muito bem-vinda voz da nova geração de cômicos americanos. E, por favor, que ela continue ganhando especiais televisivos porque os stand-up dela me matam de tanto rir.

Natasha Leggero

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Como vocês podem ver, sou um gigantesco fã de comediantes mulheres. Eu nunca compartilhei da ideologia de que “mulheres não são engraçadas˜, primeiro porque eu não sou babaca e segundo porque todas as minhas humoristas favoritas — Tina Fey; Amy Poehler; Mindy Kailing — são mulheres. Então, é com muita felicidade que eu vejo essa nova era da indústria cômica americana onde mulheres, que foram discriminadas por tanto tempo, estão cada vez ganhando maior protagonismo. A revelação do momento parece ser Chelsea Peretti, que está em Brooklyn Nine-Nine e acaba de ganhar um especial no Netflix (além disso, ela é irmã do fundador do Buzzfeed!) mas, apesar de que a acho muito talentosa, o humor brando dela não é exatamente o meu tipo, que pefiro algo um pouco mais…. ácido? Como, por exemplo, o da fantástica Natasha Leggero.

Minha introdução a Leggero foi através do roast do Justin Bieber, exibido no finalzinho do ano passado. Roasts, para quem não sabe, são especiais televisivos onde alguma personalidade é “homenageada” por comediantes através das piadas mais ofensivas e absurdas possíveis. Nunca tinha assistido nenhum roast mas, pelo que vi no documentário da Joan River ou li sobre no livro de Mindy Kailing, nunca fui grande fã da idéia.

Mas, por algum motivo, fiquei curioso para ver o roast do Bieber. As piadas que tinham sido filtradas na imprensa realmente me fizeram rir (eu ainda estou puto que a melhor piada do ato do Hannibal Burress foi cortada, alias) e, né? Justin é exatamente o tipo de pessoa que a gente quer ver levar umas patadas.

O especial, como um todo, foi bastante divertido. Sim, teve as piadas sexistas desnecessárias e algumas coisas de mal gosto mas, no geral, foi bem engraçado e quase todos os participantes me fizeram rir. Martha Stewart arrasou e Pete Davidson e Hanniball também foram divertidos mas minha favorita foi, sem duvida nenhum, Natasha Leggero. O set dela foi tão bom que eu revi ele umas três vezes e fui atrás do especial do Comedy Central dela (muito divertido). Mesmo se o resto do roast fosse uma porcaria, ele já teria valido a pena por me apresentar a ela. Espero que, assim como Schumer, ela seja abraçada pela indústria e tenha a chance de mostrar ao mundo todo seu potencial.

Podcast Serial

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Até recentemente, mal sabia o que era um podcast e nunca tinha me interessado pelo conceito. Sei lá, a idéia de ouvir alguém falando coisas no seu ouvido através do seu reprodutor de MP3 ou celular — tipo um programa de rádio — me parecia meio dispensável.

Mas, no fim do ano passado, um podcast em especifico, Serial, parecia estar dominando todas as conversas. Todo mundo estava dizendo que era fantástico e ele estava sendo parodiado no Saturday Night Live e, pasmén, até pela Sesame Street. Curioso como sou, claro que fui atrás para ver do que ele se tratava e o que li sobre o conceito — uma investigação sobre um assassinato envolvendo adolescentes de Baltimore em 1999 — me deixou intrigado. Parecia interessante e diferente. Mas ai fiz o que em geral faço: me prometi que ia ouvir quando tivesse tempo e daí esqueci sobre a existência dele.

Mas not really. Por algum motivo, Serial ficou na minha cabeça e, semana passada, tinha que levar meu cachorro para passear e queria algo para ouvir e me distrair. Ao invés de escutar alguma playlist do Spotify, me lembrei de Serial e pensei “porque não?”. Baixei o app de Podcast da Apple no meu celular, peguei meu fone e saí.

Cinqüenta minutos depois e estava completamente viciado. Tinha entendido porque esse podcast em específico tinha causado tanta comoção e porque gente como Beau Willimon, criador de House of Cards, e Danny Zucker, produtor de Modern Family, tinham proclamado Serial o “melhor programa de 2014”, mesmo sem ele nunca ter sido exibido na TV (e alias, apesar de várias ofertas de Hollywood, os produtores negaram todas). Ouvi os 12 episódios seguintes em três dias e, graças a eles, todos aqueles momentos de ficar preso no trânsito ou ter que ir passear com o cachorro ficaram enormemente prazerosos. Fazia anos desde que eu não ficava tão envolvido com algo.

Serial investiga o assassinato de Hae Min Lee, uma popular e querida estudante de 18 anos na cidade americana de Baltimore. Seu ex-namorado, Adnan Syed, foi acusado de tê-la matado e condenado a prisão perpetua. Quinze anos depois, uma advogada, amiga de infância de Adnan, entrou em contato com a jornalista Sarah Koening, produtora do prestigiado This American Life, e chamou a atenção dela para a história. Junto com sua equipe, Koening começou a reinvestigar o caso e achou vários buracos que fazem dele muito mais complicado do que ele parecia a primeira vista.

O podcast é contado através de 12 episódios e cada um deles foca num aspecto do caso. Koening é quem guia o ouvinte e ela faz isso com maestria. Cada capitulo é muitíssimo bem contado e, além da narração da jornalista, eles contam com entrevistas com várias pessoas próximas aos jovens envolvidos, inclusive com o próprio Adnan, que cedeu horas e horas de entrevista direto da penitenciária onde cumpre sua pena. Claro que a expectativa é que, ouvindo o podcast, cheguemos a uma conclusão sobre a culpa de Adnan mas, óbvio, isso é muito mais complexo do que parece. De qualquer maneira, todos os episódios vão te manter on the edge of your seat e, apesar da história dark, ela é contada de uma maneira muito leve e envolvente, com momentos engraçados e tocantes (é difícil não chorar no episódio 9).

Claro que o lado negativo do podcast é que ele é integralmente em inglês e, por ser apenas audio, ele não tem legendas. Contudo, se você tem o nível de fluência necessário, faça a si próprio esse favor e comece a escutar Serial. Te prometo que você não vai se arrepender e ainda vai transformar todos aqueles momentos penosos — ficar preso no trânsito; estar no transporte público; fazer jogging — em momentos de muito prazer. Você pode baixá-los gratuitamente através do seu app de podcasts favorito ou, se preferir, pode ouvir todos no site oficial do programa.

Drama japonês Date

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Adoro ver seriados bem-sucedidos de países além dos EUA. Já assisti seriados espanhóis, dinamarqueses, suecos, ingleses, australianos e franceses e novelas argentinas, colombianas e sul-coreanas. São uma ótima oportunidade para expandir a perspectiva e se familiarizar com métodos alternativos de produção e de storytelling e sair desse vício que tudo deve ser made in USA.

Dentre todos esses mercados estrangeiros, um dos que eu sou mais familiarizado é com o japonês. Sempre tive enorme interesse pela cultura nipônica e, entre 2005 e 2007, assisti um monte de doramas (do inglês, drama). Daí, como aconteceu com as produções americanas, fiquei cansado dos clichês e formulas do gênero e perdi um pouco do entusiasmo. Mesmo assim, até hoje, ainda acompanho as audiências, o que está causando burburinho e as novas ofertas e volta e meia assisto algum episódio.

Alias, parênteses para explicação. No Japão, as ficções televisivas são todas conhecidas como dramas, independentemente do gênero. Os dramas japoneses costumam ser semanais, ter entre 10 e 12 episódios e são sazonais. Ou seja, as ofertas se renovam completamente a cada nova estação e, mesmo os mais bem-sucedidos raramente tem novas temporadas (apesar de que continuações cinematográficas estão cada vez mais populares). Os dramas, junto com programas de variedade, são um staple da TV japonesa e todas as emissoras têm suas apostas, sempre contando com os atores e celebridades mais badalados do momento. Gêneros populares incluem comédias românticas, dramas investigativos e policias e dramas médicos.

No começo desse ano, e estava dando uma olhada no que tinha de novo e, por algum motivo, Date, uma comédia romântica que seria exibido na Fuji TV num dos horários de maior destaque, chamou minha atenção. O porque eu não sei ao certo mas talvez tenha tido a ver com o fato de estrelar Anne, uma atriz super badalada e que eu estava curioso para ver em ação..

Date, como já disse, é uma comédia romântica. Ou seja, as chances de eu gostar eram bem baixas. Primeiro porque doramas românticos, com algumas exceções, são lentos e eu não tenho muita paciência. E segundo porque, de modo geral, a comédia japonesa — espalhafatosa e exagerada — não é minha praia. Mas, mesmo assim, fiquei curioso e, quando o primeiro episódio legendado foi disponibilizado em algum site especializado, fui assistir e gostei. Daí resolvi ver o segundo episódio e, nossa, gostei muito. A cada episódio novo eu ia gostando mais e mais e mais e, quando me dei conta, eu tinha concluído o dorama inteiro.

Acho que a essa altura já ficou bem estabelecido que eu tenho o pior attention span do mundo. Apesar de já ter assistido os primeiros episódios de dezenas de dramas, dá para contar nos dedos das mãos a quantidade dos que eu concluí. Dentre esses, uma parcela foi por obrigação, como um desafio para eu mesmo. Então terminar Date e não perder a empolgação ao longo dos dez episódios foi um huge deal para mim.

Date é a história de duas pessoas sem nenhum tipo de habilidade social com um objetivo em comum: se casar. Hasegawa Hiroki interpreta Takumi Taniguchi que, aos 30 anos, é um NEET e um hikkimori. NEET é uma sigla muitíssimo usada no Japão que significa Not in employment or education, ou seja, são desempregados que não tem a intenção de arranjar trabalho e são sustentados, quase sempre, pelos pais. Já hikkimori é um problema social bem grande no país e descreve pessoas, em geral homens, que se isolam em seus quartos e simplesmente abdicam completamente, para o resto da vida, de qualquer tipo de integração ou contato com o resto da sociedade. Estima-se que existam mais de 1 milhão de hikkimoris no Japão atualmente e, claro, são todos NEETs.

Em contrapartida, Anne é Yoriko Yabushita que, diferente de Takumi, é altamente bem-sucedida e ambiciosa. Ela é uma gênia da matemática e tem um ótimo cargo público, além de se ser extremamente disciplinada; obstinada e exigente consigo mesmo. Porém, ela não tem nenhum tipo de habilidade social e tem um jeito bastante particular, as vezes quase robótico, de lidar com o mundo e com as pessoas.

Ele quer se casar simplesmente para ter alguém, que não seja a sua mãe, para o sustentar. Já ela quer se casar porque, obstinada do jeito que é, se prometeu que iria ter um marido antes dos 30 para assim realizar o desejo de sua falecida mãe, que era tão (ou ainda mais) genial quanto ela e ainda tinha o bônus de ser normal (Yoriko vê a mãe como uma rival, mesmo já tendo se passado mais de uma década desde seu falecimento). Nenhum deles acredita que amor é um elemento essencial para um casamento e ambos encaram o matrimônio como um contrato social. Por tanto, depois de se conhecer num site de relacionamento, eles concordam em se casar, mesmo não nutrindo nenhum tipo de amor entre os dois.

Apesar de ter alguns elementos que pareçam dark, Date é HILÁRIO. Eu ri muito e, como já disse, não costumo gostar de comédia japonesa. Além disso, os roteiros são fantásticos; os personagens, além de divertidos, são MUITO bem desenvolvidos e é muito difícil não se encarinhar e torcer por Yoriko e Takumi. É muito legal ver o relacionamento deles ir crescendo e ambos indo influenciando um ao outro e aprendendo a serem pessoas mais flexíveis e sociáveis.

Assistir Date na integra foi muito fácil (e, em geral, não é nada fácil para mim assistir nada na integra) e tenho que parabenizar o autor, os produtores e o elenco por um trabalho fantástico. Fiquei com vontade de assistir outros trabalhos de Ryota Kosawa, o roteirista, particularmente Suzuki Sensei. Mas bom,  vou deixar isso para quando eu tiver tempo….

O vídeo de American Oxygen da Rihanna

Eu sou uma das milhões de pessoas esperando ansiosamente pelo novo álbum de Rihanna. Depois de ser mimado por anos e anos com lançamentos anuais (que nunca decepcionavam), estava foda agüentar essa seca de música nova, que já durava dois anos.

Mas, quando ela lançou, de surpresa, o primeiro single do novo álbum, FourFiveSeconds, que tinha participação de Kanye West e Paul McCartney, fiquei bastante decepcionado. Depois de dois anos, eu queria algo enlouquecedor, que colocasse fogo na pista de dança e snatched our weaves. Ao invés disso, tivemos uma música mais propícia para cantar com o violão em volta de uma lareira. Boring.

A segunda música lançada, Bitches Better Have My Money, era mais empolgante mas ainda não acertava o ponto. Sem falar que o lançamento deixou claro a bagunça que ia ser a estratégia de promoção desse novo álbum. Tá, OK que ela quer ser inovadora mas sério, tá muito ruim isso ai, Rih, essas estratégias tão todas erradas e acabando com todo seu momentum, que estava num peak moment depois de todo esse tempo de espera.

A terceira música lançada foi American Oxygen. Muita gente não gostou, achou repetitiva e super-produzida demais. Eu adorei. Mas, dentre todas as músicas lançadas, ela teve o pior lançamento, resumindo bem a bagunça da estratégia da equipe da cantora que, depois de todos esses anos, parecem ter perdido a habilidade de promover uma das maiores estrelas pop da atualidade. Para começar, a música foi lançada com uma performance ao vivo que deu muito errado. Daí, ela foi lançada oficialmente, junto com o vídeo, exclusivamente no Tidal que, como nós já estabelecemos, é um fracasso.  Isso só serviu para garantir que a música fosse lançada sem nenhum buzz. Alguns dias depois, a canção e o vídeo foram disponibilizados no YouTube e no iTunes mas ninguém notou porque eles já tinham arruinado o hype inicial e o iTunes se recusou a promover a música na sua página de entrada porque um concorrente (o fracassado Tidal, no caso) tinha tido o lançamento exclusivo.

Mas falando de coisas boas… eu gostei da música. Mas eu só amei ela DE VERDADE depois de ver o vídeo, que eu achei poderosíssimo e super bem feito. A justaposição entre a letra e os visuais é fantástica e, apesar de ter ouvido críticas, dizendo que o vídeo era muito apelativo, eu adorei e achei um ótimo repasso pela história dos EUA, sem whitewash as suas mazelas e exaltando aquilo que é um dos principais pontos fortes dessa superpotência: a sua diversidade e seus imigrantes (como a própria Rihanna), que ajudaram a construir o país e fizeram dele o melting pot que ele é hoje em dia. Achei maravilhoso. Uma pena que foi prejudicada pela estratégia de lançamento desastrosa.

Pull your shit together Rih! E libera logo o R8 que nós estamos afoitos!!

Electra Heart da Marina & the Diamonds

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Os últimos meses foram repletos de lançamentos musicais empolgantes. Teve o EP surpresa de Drake, If You’re Reading This Is Too Late, que quebrou recordes de venda e manteve a qualidade top-notch que eu espero do rapper canadense. Teve How to Pimp a Butterfly, o novo CD de Kendrick Lamar, considerado (justamente) o melhor rapper da atualidade. Teve Title, o primeiro CD de Meghan Trainor (de All About That Bass fame) que eu estava afim de detestar (Meghan me irritava, sorry) mas acabei amando. Apesar de tudo isso, o meu álbum favorito do momento foi lançado em, pasmén, 2012(!!).

Sim, eu sei que a própria Marina acaba de lançar um novo CD, Froot, mas nem ouvi porque minha obsessão com Electra Heart é tanta que eu nunca conseguiria dar uma fair chance para o novo material. Que coisa, né?

Em minha defesa, eu só fui realmente apreciar o álbum no ano passado, enquanto viajava sozinho pela Europa. Até então, apesar de já tê-lo ouvido algumas vezes e ter gostado de alguns singles, eu nunca tinha dado muita bola a ele. Mas ano passado aprendi a apreciar o CD como ele realmente deve ser apreciado: como uma obra de arte do pop. Sério, todas as músicas são catchy e perfeitas. É tipo um CD da Katy Perry, só que com substância.

Obrigado Marina por esse diamante! (e sim, esse trocadilho foi propositalmente rídiculo. #MeDeixa!).

E em maio…

schumer

O que eu estou mais looking forward to em maio é a novela argentina Entre Canibales. Acho que vai ser muito interessante ver uma telenovela dirigida e produzida por um ganhador do Oscar, no caso, Juan Jose Campanella, responsável pelo ótimo O Segredo de seus Olhos (premiado na categoria Melhor Filme Estrangeiro em 2010). A novela conta a história de Ariana, interpretada por Natalia Oreiro, que pretende se vingar do homem que a estuprou durante a adolescência e que, agora, é um político poderoso, candidato a presidência da Argentina.

Será uma super produção, gravada em 4K e com distribuição internacional pela Sony. Três grandes nomes da TV argentina — Oreiro; Joaquín Furríel e o chileno Benjamin Vicuña — interpretaram os papéis principais e a Telefe, emissora responsável pela trama, não está poupando nenhum centavo. Até o título da novela deixa isso claro: Entre Canibales é uma música do Soda Stereo, a banda mais bem-sucedida da história da Argentina (e, indiscutivelmente, da América Latina inteira) e, claro, a canção servirá como música tema da novela. Só os royalties pelos direitos das canções da banda de Gustavo Ceratti já devem ter custado uma fortuna e outras músicas do grupo serão utilizados como trilha-sonora.

Serão 140 capítulos, todos já escritos, e claro o objetivo é enfrentar o furacão turco no canal rivalMil y una Noches, que atualmente é líder de audiência da TV local.