O que diabos aconteceu com os Video Music Awards da MTV?

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Quando a MTV anunciou que Miley Cyrus iria apresentar os Video Music Awards desse ano, eu fiquei muito impressionado. Ame-a ou a odeie, é inegável que ela é uma das maiores estrelas da atual geração e, além disso, ela é ótima para causar. E causar é a raison d’etre dos VMAs. Era uma match made in heaven.

Daí, com a revelação dos indicados, rolou toda aquela treta no Twitter entre Nicki Minaj e Taylor Swift (em geral insuportavelmente adversa a polêmicas) e pensei “caramba, falta muito e esse VMA já está delievering! Tem tudo para ser o melhor ever!”. E daí, já logo comecei a pensar quem iam ser os performers. Porque, digam o que quiserem da premiação, em geral ela tem uma line-up sólida e bastante representativa do que realmente está fazendo sucesso no momento.

Pensei imediatamente em The Weeknd, rapper canadense que está em ascensão e que, depois de dois hits grandes (Earned It, de 50 Tons de Cinza e The Hills), está arrebentando a boca do balão com Can’t Feel My Face (produzido por ninguém menos que Midas pop sueco, Max Martin, velho conhecido dos leitores). One Direction também seria outro bom nome: eles são meio sem sal mas bombam muito e faz anos desde a última vez que eles cantaram nos VMAs. Também dei como certa presença de Justin Bieber, que lançaria seu comeback single no dia seguinte a premiação. Ed Sheeran, um dos maiores nomes da atualidade, que vende milhões e enche estádios, também era um must. Mas quem mais? Alguma cantora… Selena, talvez? “Rival” de Miley e ex de Bieber, sua performance causaria (mesmo ela não sendo uma boa performer) e seu novo single Good to Me — é bastante sólido e está fazendo sucesso.  Um rapper — como Kendrick Lamar  — também seria uma boa pedida.

Em geral, os primeiros performers são anunciados com no mínimo um mês de antecedência. Mas esse ano, nada. O que até fazia sentido, afinal, o anúncio de Miley como apresentadora já era o suficiente para causar uma repercussão grande. Mas o tempo passou e passou. Até que, finalmente, eles anunciaram The Weeknd (uhull, acertei). E depois, novamente, silêncio.

Ficou claro que algo estava muito errado quando faltava menos de uma semana para a premiação e mais ninguém tinha sido anunciado. A essa altura, pelo menos 90% do line-up deveria ser público, até para que a MTV pudesse tirar o máximo proveito desses grandes nomes no material promocional. Era bizarro que tudo girava em torno só de Miley — todos os anúncios televisivos e outdoors — e mais ninguém.

Até que, finalmente, hoje, faltando cinco dias para a premiação, grande parte dos performers foram anunciados. E gente, é óbvio que algo deu muito errado nos bastidores. O line-up não é só excepcionalmente fraco para os padrões dos VMAs, é fraco para qualquer award show televisionado. Estou de olho nos Billboard, Hits Daily Double e Hollywood Reporters da vida para ver se algum deles noticia o que se passou nos bastidores (e óbvio, conto para vocês!) mas pode ter certeza de que algo sério aconteceu. Talvez alguma cláusula financeira desagradou os grandes nomes (como quase aconteceu com o SuperBowl, que ameaçou pedir uma parcela das vendas de ingresso da turnê em troca da vaga de half-time act e causou ira entre os empresários e artistas. A NFL voltou atrás e, graças a isso, conseguiram Katy Perry para o show de intervalo) ou talvez o investimento em Miley tenha os deixado sem verba para atender os pedidos de outros A-listers. Mas, especulações a parte, algo claramente não foi como planejado..

Mas afinal, quem são os performers?

  • Tori Kelly, de 22 anos, tem um time impressionante por detrás dela. Apesar de nunca ter tido um top 50 single na vida (olha o nível. Não tô falando nem de top 10), essa será a segunda performance dela num award show (o primeiro foi o Billboard Music Awards) e ninguém menos do que Max Martin co-produziu o CD de estreia dela, Unbreakable Smile. O álbum em questão até teve uma estreia decente (segundo lugar, com 75 mil unidades) mas, numa ocasião normal, uma cantora sem nenhum hit e com um único CD, com vendas medíocres,  nunca conseguiria um espaço nos Video Music Awards.
  • Twenty One Pilots são tão irrelevantes que eu tive que recorrer ao Google e a Wikipedia para descobrir alguma coisa sobre eles. Aparentemente, eles são um duo indie cujo último CD estreou em primeiro lugar. As vendas deles são OK mas longe de serem espetacular: o álbum mais vendido deles nos EUA teve 300 mil unidades vendidas (um disco de ouro, a menor certificação, exige 500 mil). Eles vão contar com a participação especial do rapper A$AP Rocky (que, até agora, eu achava ser bem mais relevante que eles).

  • Demi Lovato tem um name recognition bem alto comparado com os dois acima. E ela está, em tese, num bom momento para estrear nos VMAs: com uma nova (e maior) gravadora, o seu atual single é uma música pop viciante e com cara de hit, produzido, claro, por Max Martin. A questão é que, na real, ela não está num bom momento: Hot for the Summer é, apesar da promoção intensa, o primeiro lead single dela a não alcançar o top 10 e, sinceramente, o poder comercial dela sempre foi bem mais ou menos e, hoje em dia, anda mais para menos. Selena Gomez — que está sempre na mídia e cujo single atual chegou ao sexto lugar (dez posições acima do pico de Demi) — seria uma escolha que faria mais sentido.
  • Pharrel seria um performer perfeito. Se estivéssemos em 2013. Apesar de credibilidade e vários mega hits (tipo Happy que foi tão overplayed que acho que ninguém aguenta ouvir nem sequer as notas iniciais), Pharrel não tem absolutamente nada para promover; não tem CD pronto para ser lançado nem single nas rádios. A única explicação para sua presença na lista de performers era que a MTV estava desesperada por alguém — qualquer pessoa — que tenha A-list credentials e ele foi o único que topou. Ou que ele vai fazer alguma performance especial com a apresentadora, Miley, de quem ele é bastante próximo.
  • Macklemore & Ryan Lewis são mais um nome para categoria “ótima escolha se estivéssemos em 2013“. Alias, eles de fato se apresentaram em 2013, quando estavam por cima da carne seca, tinham três mega-hits e estavam prestes a ganhar um Grammy. A questão é que desde então ninguém sentiu a falta deles e eles foram totalmente esquecidos. A presença deles não é como o comeback de um artista midiático como Justin Bieber ou, pasmem, Rihanna (cujo último CD também foi em 2013). Ninguém estava pedindo ou clamando por uma performance do duo. Mas foi tudo que  a MTV conseguiu infelizmente. A primeira música liberada do novo CD tem a participação de Ed Sheeran (esse sim bastante relevante) mas nada foi dito sobre uma potencial participação dele.

  • The Weeknd. O único artista dentre os já anunciados que realmente faz sentido.

A MTV ainda anunciará mais dois nomes. Eles serão revelados, individualmente, na quarta e na quinta-feira, o que indica que eles são nomes grandes. Todo mundo meio que já sabe que serão Justin Bieber, com seu aguardado retorno, e Nicki Minaj que, apesar de badalada, não tem nada para promover. Com duas exceções — Bieber e Weeknd — todos os anunciados deixam explicito o desespero da MTV: ou eles são irrelevantes ou estão em decadência ou parecem estar lá para quebrar um galho para a emissora. É realmente uma situação triste para uma cerimônia cujo ponto forte sempre foi a habilidade de capturar o zeitgeist pop.

Em todo o caso, nem tudo está perdido. Teremos Miley; o retorno de Bieber; a estreia de The Weeknd na cerimônia e Kanye West, que será homenageado com um Vanguard Award. Mesmo não se apresentando, Taylor Swift também deverá estar presente já que é meio que óbvio que ela ganhará o prêmio de Video of the Year.

De resto, esse line-up parece mais fitting para um pré-show. Alias, por pouco que o pré-show não acabou sendo mais estrelado do que a cerimônia em si. O tapete vermelho terá performance de Nick Jonas (que, bem ou mal, está em ascensão e teve hits na rádio ao longo do ano, diferente de 90% dos performers do show principal) e a estreia do novo vídeo de Swift, Wildest Dreams.

Por que o Tidal é uma perda de tempo

Tidal Launch Event NYC #TIDALforALL

Se você por acaso esbarrou nas redes sociais dos famosos hoje você pode ter ficado com a impressão de que Nicki Minaj, Jay-Z, Rihanna, Madonna et all tinham descoberto a cura do câncer dado o entusiasmo de todos eles em “mudar a história para sempre”. Eles mudaram seus ícones no Twitter para azul piscina e anunciaram uma grandiosa conferência de imprensa em Manhattan para o fim da tarde. A conferência foi uma das maiores congregações de A-listers na história recente da música: Jay; Beyoncé; Kanye West; Madonna; Rihanna; Daft Punk; Nicki Minaj; Alicia Keys; J Cole; Usher; Jason Aldean; Arcade Fire; Deadmau5; Jack White e, via webcam, Chris Martin do Coldplay e Calvin Harris (direto do Brasil). Todos juntos por um motivo mais do que nobre: ganhar mais dinheiro através de um novo serviço de streaming, o Tidal.

Streaming é, hoje em dia, um big business. Não existe a menor duvida de que ouvir músicas através de serviços como Spotify é o futuro e todas as outras opções, seja iTunes ou Torrents, estão ficando obsoletas. Nos EUA e no Reino Unido, os dois principais mercados musicais do Ocidente, streaming já é contabilizado nas paradas oficiais de vendas tanto de CDs quanto de single e, na Suécia, onde o Spotify foi inventado em 2008, mais de 80% do consumo legal de música vem do serviço. A Apple está correndo contra o tempo para lançar sua própria plataforma e a busca por esse segmento foi apontado como um dos principais motivos pelo qual a gigante de Cupertino desembolsou 3 bilhões de dólares pela marca Beats que, além de seus celebres headphones, também tem um serviço de reprodução.

Apesar da concorrência do estado-unidense RDIO e do francês Deezer, o Spotify — disponível em 58 países — é o líder do segmento, mesmo estando presente em menos territórios que os rivais. O serviço, porém, esteve no centro de uma polêmica no final do ano passado quando Taylor Swift, indiscutivelmente a maior vendedora de álbuns e singles nos EUA atualmente, tirou todo o seu catalogo da plataforma; criticou o sistema de royalties da companhia e publicou um op-ed no Wall Street Journal defendendo a importância de se pagar por CDs.

O Spotify, por outro lado, defende que quase todo o dinheiro arrecadado por eles é repassado para as gravadoras. Eles dizem que o valor recebido em royalties é algo que não é decidido por eles e sim pelos selos dos respectivos artistas. E realmente, eles parecem estar falando a verdade, o que explica o porque de, apesar de rendimento superior a 1 bilhão de dólares em 2014 e mais de 10 milhões de usuários pagantes, eles nunca terem dado lucro.

Enfim, o fato é que muitos artistas demonstram descontentamento com o Spotify e afins. Eles afirmam ter pouco controle sobre o material deles na plataforma e reclamam do sistema de pagamento. E realmente, são reclamações justas. Por mais rica que a Taylor Swift seja, não é absurdo que ela espere ter controle e lucro sobre o material que à pertence. E é ai que o “revolucionário” Tidal entra na história: criado, assim como Spotify, na Escandinávia (na Noruega, especificamente), o serviço dá um controle muito maior para os artistas e também mais royalties (até porque todos os presentes hoje na coletiva de imprensa são, aparentemente, co-proprietarios). Mas claro, isso tem um preço bastante salgado para o consumidor: 20 dólares, o dobro do preço cobrado pela versão premium do Spotify.

E o que o público consumidor ganhar com isso? Muito pouco. O maior selling point do Tidal é o fato dele oferecer audio lossless, ou seja, de qualidade perfeita, muito superior ao oferecido pelo Spotify e afins. O detalhe é que quase ninguém tem o equipamento caríssimo necessário para ouvir a diferença no som e, além disso, qualidade perfeita significa arquivos pesadíssimos, uma baita de uma desvantagem para quem escuta esses serviços no celular, já que a maior parte das pessoas não tem internet ilimitado no aparelho e sim algum tipo de plano de dados. O Tidal até oferece um pacote mais barato, de 10 dólares, mas daí a qualidade de som é inferior. Inferior, inclusive, ao oferecido gratuitamente pelo Spotify. Coerência KD?

Obviamente, a maior parte das pessoas parecem ter achado a coisa toda uma palhaçada. A coletiva de imprensa foi uma ego trip absurda, com citações de Nietzche por parte de Alicia Keys e Jay-Z e demais artistas proclamando estarem “fazendo história” e “criando algo revolucionário”. Parece que eles esqueceram que esse treco revolucionário que eles acham que acabam de inventar já existe faz anos e oferece muito mais benefícios para o consumidor. A impressão não poderia ter sido mais negativa: aquele monte de artistas multi-milionários se provando completamente out of touch com a realidade e com o público consumidor de música. A hashtag #TidalForAll, que virou trending topic no Twitter, parecia uma piada com as pessoas, já que 20 dólares por mês definitivamente não é um preço democrático. Além disso, eles parecem não ter se dado conta que a maior parte das pessoas não tem headphones e caixas de som tão hi-tech (que, para eles, deve ser um bem básico e essencial) e, além disso, videoclipes em HD — outro serviço oferecido pelo Tidal — é algo facilmente encontrável no YouTube já faz bastante tempo. Nada da campanha ou do discurso deles foi coerente ou convincente e o serviço, pelo menos até agora, só é potencialmente revolucionário para o bolso deles.

Como se a coisa toda já não fosse ridícula, todo mundo está preocupado com a possibilidade de todos esses artistas que, em tese, têm muito a ganhar com o Tidal tirem seus catálogos do Spotify para tentar forçar o público a optar pela nova plataforma. Obviamente, isso será de uma burrice gigantesca: a maior parte das pessoas que abriu mão de ouvir musica ilegalmente graças ao Spotify iria simplesmente voltar ao Mediafire, ao Zipfile e aos Torrents. O Spotify pode dar menos do que eles acham que merecem mas dá muito mais do que downloads ilegais. Além disso, com a crescente importância de serviços de streaming nos charts britânicos e da Billboard, muitos artistas seriam prejudicados ao limitar seus lançamentos ao Tidal já que, mesmo que ele seja um sucesso, demorará MUITO para ele ter o alcance que o Spotify tem

Enfim, especula-se que os artistas irão oferecer material exclusivo ao Tidal ao invés de tirar as músicas do Spotify. O que é uma opção mais lógica mas mesmo assim meio tosca. Mas enfim, resta esperar para ver o que vai dar…. E nesse meio tempo, torcer para Jay-Z e sua trupe caírem na real. #TeamSpotify

Alias, conterrâneos brasileiros que querem testar a parada, más noticias: o serviço está disponível em 35 países, mas o Brasil não é um deles. Meu conselho é que vocês nem gastem seu tempo com uma campanha de PLEASE COME TO BRAZIL nas redes sociais e baixem logo o Spotify, esse sim revolucionário e que vale a pena o investimento (e não, isso não é um post patrocinado infelizmente. Mas tamos aí qualquer coisa, hein Spotify?).

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